"MY ASIAN MOVIES"マイアジアンムービース - UM BLOGUE MADEIRENSE DEDICADO AO CINEMA ASIÁTICO E AFINS!!!

domingo, dezembro 30, 2007

Feliz Ano Novo!!!

Caros amigos e visitantes deste espaço, à semelhança do que foi efectuado a propósito da época natalícia, chega agora o momento de vos enviar os meus votos de um ano de 2008 cheio de realizações e sucessos pessoais, polvilhado de tudo o que de bom esta vida tem, incluindo o cinema (já agora asiático)!

Um grande abraço a todos!

Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima Aka Red Sun, Black Sand/Io Jima Kara no Tegamî - 硫黄島からの手紙 (2006)

Origem: E.U.A. (U.S.A.)

Duração: 134 minutos

Realizador: Clint Eastwood

Com: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura, Hiroshi Watanabe, Takumi Bando, Yuki Matsuzaki, Takashi Yamaguchi, Eijiro Ozaki, Nae, Nobumasa Sakagami, Akiko Shima, Toshi Toda, Ken Kensei, Luke Eberl

"O general Kuribayashi"

Introdução

O presente texto é efectuado ao abrigo da rubrica deste espaço denominada “Cunho da Ásia”. Apesar de “Cartas de Iwo Jima” ser uma produção norte-americana, a esmagadora maioria dos actores são japoneses, que na película se expressam todos na sua língua materna.

"O barão Nishi, comandante do esquadrão de tanques japoneses"

Estória

1945, ilha de Iwo Jima, terra que pertence ao sagrado império do Japão. O reino do sol nascente está a perder a guerra, e a derrota na batalha do Mar das Filipinas, onde o Japão perdeu uma grande parte da sua frota naval, constituiu um rude golpe. Iwo Jima constitui um ponto estratégico para os contendores, pois a sua localização faz com que possa servir de base de apoio para um ataque em larga escala ao âmago do território japonês.

O general “Tadamichi Kuribayashi” (Ken Watanabe) é encarregue de liderar o exército nipónico e engendrar uma estratégia que trave o avanço norte-americano em Iwo Jima. Cedo “Kuribayashi” enfrenta a oposição do general “Hayashi” (Ken Kensei) e do almirante “Ohsugi” (Nobumasa Sakagami), pois estes defendem que deverão ser escavadas trincheiras nas praias, de forma a impedir o avanço do exército americano. “Kuribayashi”, no entanto, é da opinião que a melhor maneira de proteger a ilha é deixar as praias à mercê do inimigo, e colocar a força japonesa nas montanhas bem defendidas, tentando causar o maior número de baixas possíveis ao opositor.

Entretanto, “Saigo” (Kazunari Ninomiya), um jovem soldado japonês que deixou a mulher grávida na terra-natal, começa a questionar-se acerca das verdadeiras motivações do conflito. O seu pessimismo encontra um adversário titânico na mentalidade do exército a que pertence, que prefere morrer até ao último homem, do que cair em desonra.

Com um exército japonês em clara inferioridade numérica e de recursos, a gigantesca batalha começa, e num manancial de dúvidas, emoções e morte, o desfecho da II Guerra Mundial começará a ser decidido em Iwo Jima.

"O soldado Saigo despede-se da sua esposa"

"Review"

A batalha de Iwo Jima foi um combate determinante para o início do epílogo na guerra do Pacífico, muito se devendo ao facto de ter sido o primeiro ataque de ocupação norte-americano ao solo japonês propriamente dito. A luta foi acérrima, mas bastante desigual pois os efectivos de ambos os exércitos pendiam na razão de 5 para 1, com claro prejuízo para os japoneses. E isto sem contar com a disparidade de meios bélicos, em que os americanos levavam claramente a melhor. Mesmo assim, e para termos ideia da tenacidade do exército imperial do Japão, dos 21.000 soldados nipónicos que combateram em Iwo Jima, 20.700 homens foram mortos e apenas cerca de 300 foram capturados. Tais números revelaram para muitos que o espírito dos antigos samurais ainda residia no coração dos combatentes japoneses, e que a ideia de “antes a morte do que a desonra”, ou “antes quebrar do que torcer” norteava de alguma forma o seu pensamento.

Foi com base nesta importantíssima batalha da II Guerra Mundial, que o actor e realizador Clint Eastwood deu vida a dois filmes no mesmo ano, que expunham os pontos de vista de cada uma das partes em conflito, a saber, o competente “Flags of Our Fathers” no que toca aos americanos, e este maravilhoso “Letters From Iwo Jima” em relação aos japoneses.

Uma pergunta que eu teria muitas dificuldades em responder, seria se preferia o trabalho de Clint Eastwood enquanto realizador ou actor. Não opinarei quanto a este aspecto em particular. Apenas afirmarei que admiro bastante o trabalho da personalidade em questão no respeitante a ambos os aspectos. A riqueza cultural que Eastwood conseguiu erigir, nas facetas que assumiu na sétima arte, faz com que estejamos perante uma das estrelas mais cintilantes do cinema. Em “Cartas de Iwo Jima”, mais uma vez isto é demonstrado, e de forma bem corajosa. Porquê que digo isto? Por uma razão muito simples. Todos nós estamos habituados a visionar películas de guerra de “Hollywood”, em que apenas é abordado o ponto de vista norte-americano dos conflitos em que este país participou. Mesmo assim, nasceram grandes obras da sétima arte com pontos de vista mais ou menos sinceros, e que não são propriamente bastante elogiosas para a grande nação. No entanto, a máquina propagandística americana assume-se, como é do conhecimento de todos, como verdadeiramente infernal, tendo servido não escassas vezes para disfarçar alguns insucessos bélicos. Pense-se nos casos das longas-metragens que tiveram por pano de fundo a guerra do Vietname, ou mais raramente, da Coreia. Eastwood aqui abana o instituído e, como americano, arrisca-se a contar o embate do ponto de vista do “inimigo”. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, já dizia o poeta Fernando Pessoa, e este filme possui um grande espírito!

"O fanático tenente Ito"

A trama baseia-se em eventos reais (naturalmente romanceados), tendo por suporte os livros “Picture Letters from a Commander in Chief”, da autoria do general Tadamichi Kuribayashi (isso mesmo, o comandante das forças japonesas em Iwo Jima), e “So Sad to Fall in Battle: An Acount of War”, de Kumiko Kakehashi, tendo ambas as obras sido adaptadas para o grande ecrã através do argumento escrito por Iris Yamashita. Acima de tudo, e mais do que relatar um conflito bélico, “Cartas de Iwo Jima” humaniza o soldado japonês e desmistifica a ideia do combatente frio, cruel e mal-humorado. É certo que temos exemplares com estas características, sendo porventura o expoente máximo o tenente “Ito” (interpretado pelo excelente Shido Nakamura). Contudo, é deveras interessante observar o confronto de perspectivas que ocorre no seio do próprio exército japonês, e que se materializa desde logo no comando do general Kuribayashi. A sua liderança é considerada covarde pela maioria dos outros oficiais, mas na realidade trata-se de um comando inteligente e realista face às circunstâncias. Numa hierarquia muito mais baixa, vemos um frustrado soldado “Saigo” a ser discriminado por apenas querer voltar para a sua esposa e filha recém-nascida, e achar que não vale a pena lutar por um lugar ermo e desolado, que pouco mais tem que areia e montes. “Kubayashi” e “Saigo”, cada um à sua maneira, representam o anti-herói japonês, mas nem por isso deixam de fazer a sua parte e lutar pelo que verdadeiramente acreditam com a mesma valentia dos restantes.

As interpretações dos actores são do mais elevado quilate, destacando-se naturalmente Ken Watanabe, um actor que emergiu das profundezas do Japão e atingiu que nem um soco a cena cinematográfica mundial. Actualmente, afigura-se como candidato a desempenhar um papel asiático em tudo o que seja uma grande produção norte-americana (pense-se nas participações do actor em "Memórias de uma Gueixa" ou "O Último Samurai").

Este texto estaria incompleto, se não houvesse ainda uma palavra especial para mais dois aspectos. O primeiro passará pelo uso dos tons cinzentos e castanhos na imagem, que confere uma beleza singela a um filme que tem uma grande tragédia por fundo. O outro reconduzir-se-á ao trabalho de casa e profissionalismo com que Eastwood encarou a feitura da película, mormente no respeitante aos costumes e modo de agir do exército japonês.

Com cenas que irão figurar por muitos anos no panteão do que de melhor se fez no mundo maravilhoso do cinema (pense-se no suicídio dos soldados japoneses com granadas), e um vencedor de um Óscar e de um globo de ouro, para além de outros prémios importantes, “Cartas de Iwo Jima” constitui um marco indelével!


"As tropas japonesas no calor do combate"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinema Cafri, Fanaticine, Público, Cine Repórter, Cine Críticas, A Cinematic Vision, Cine Pt, Docas nas Asas do Desejo, Axasteoquê ?, Mulholland Drive, gonn1000

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






sexta-feira, dezembro 28, 2007

Em relação ao post anterior...


Pois é, meus amigos! Aqui o Jorge Soares Aka Shinobi dá-lhe uns laivos de loucura à medida que o fim do ano se aproxima! Um dos reflexos é assumir-lhe uma frenética vontade de "abanar o capacete", principalmente quando existe uma garrafa de "Jameson" por perto! O cinema indiano é, indubitavelmente, um dos ilustres representantes das cinematografias asiáticas. Sendo assim deixo-vos com uma melodia de um dos filmes mais representativos do género intitulado "Dil Se". Nem acredito que há dias estava bem sentadinho na minha rica poltrona a ouvir esta música, e quando dei por mim estava a tamborilar os dedos e a bater com os pés a um ritmo constante...ao tempo que uma pessoa chega!!!Façam o favor de"xingar" à vontade e "bater no ceguinho"! A música também está disponível na caixa de som, mesmo aqui ao lado! O "poster" ilustra este pequeno texto e, nunca se sabe, talvez um dia ainda caia por aqui uma crítica, eh, eh, eh!

Dil se -Chaiyya Chaiyya

a fun video from "dil se", enjoy

quarta-feira, dezembro 26, 2007

A Chinese Ghost Story II/Sien nui yau wan II yan gaan do - 倩女幽魂 II:人間道 (1990)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Tony Ching Siu Tung

Com: Leslie Cheung, Joey Wong, Michelle Reis, Jacky Cheung, Wu Ma, Waise Lee, Lau Shun, Lau Siu Ming, Tin Kai Man, Ku Feng, To Siu Chun

"Ning outra vez em apuros com demónios"

Atenção!!!

Parte do enredo de “A Chinese Ghost Story” poderá ser revelado mais abaixo, pelo que só deverão prosseguir na leitura do presente texto, caso tenham visionado aquele filme.

"Ning entre as duas irmãs, Ching Fung (com o punhal) e Yut Chi"

Estória

Em “A Chinese Ghost Story”, “Ning Tsai Chen” (Leslie Cheung), ajudado pelo estranho monge taoista “Yen” (Wu Ma), salvou o seu amor “Nieh Hsiao Tsing” (Joey Wong), do espírito aterrador chamado “Old Dame”. Desta forma foram criadas as condições para que “Nieh” pudesse reencarnar, tendo em vista reunir-se a “Ning”, bastantes anos mais tarde.

Após estes eventos, “Ning” e o seu amigo “Yen” seguem por caminhos separados, prosseguindo “Ning” no seu ofício de cobrador de impostos, enquanto que o monge volta para o templo de “Lan Yeuk”. Devido a um infeliz caso de identidades trocadas, “Ning” é preso e passa meses numa cela com um ancião chamado “Chu” (Ku Feng). O velho apercebe-se que “Ning”, embora ingénuo, é uma boa pessoa com um coração e uma ética acima de qualquer reparo. Por esse motivo, resolve ajudá-lo a fugir na véspera da sua execução.

Foragido, “Ning” conhece “Jichan” (Jacky Cheung), um espadachim taoista que igualmente possui poderes mágicos. Os companheiros são atacados por um bando de guerreiros, comandados por “Ching Fung” (Joey Wong), que possui uma semelhança notável com “Nieh”, o fantasma que é o amor de “Ning”. O nosso herói é confundido com o ancião com quem partilhou a cela, um filósofo bastante respeitado. Devido a este facto, os guerreiros solicitam a “Ning” que os comande na tentativa de resgate do pai de “Fung”. Uma aventura fabulosa inicia-se, fazendo com que “Ning” mais uma vez enfrente alguns dos piores demónios existentes neste mundo e no outro!

"Ching Fung possuída perante o olhar de Ning e do guerreiro taoísta Jichan"

"Review"

A saga “A Chinese Ghost Story” constitui um dos ícones emblemáticos da cinematografia de Hong Kong, e é encarada como um dos grandes feitos de Tsui Hark, aqui envergando as vestes de produtor. Mas como quase sempre acontece aquando do surgimento de uma boa ideia, o seu uso excessivo sem grandes inovações, eventualmente faz com que a fórmula acabe por se gastar. Existem 3 filmes, todos com a realização de Tony Ching Siu Tung e produção de Tsui Hark, e o que desde logo se deve ter em conta é que a qualidade vai decrescendo de película para película. Em 1997, ainda viria a ser feito um filme de animação.

Partindo da ideia acima veiculada, a segunda longa-metragem que ora se analisa constitui uma obra inferior à sua predecessora, mas melhor do que aquela que viria a seguir. A razão para tal? Essencialmente duas. A primeira deve-se ao facto do impacto já não ser o mesmo do primeiro filme. A segunda reconduzir-se-á ao pouco uso do “comic relief” “Yen”, que só aparece basicamente na última meia-hora de filme.

"O oficial Tso em combate"

Os efeitos especiais são, à semelhança do que já acontecia na primeira película, um pouco atabalhoados. Mas também no texto referente àquela obra, já tinha sido explicado que estamos perante filmes que já foram feitos há cerca de 18-20 anos, para além do facto de sermos obrigados a reconhecer que a indústria cinematográfica de Hong Kong à altura, embora profícua, estava muito longe de poder competir a nível de recursos com o que então se fazia em Hollywood. Hoje em dia, as diferenças já se encontram muito mais esbatidas. Contudo, a menor destreza dos efeitos é compensada com a aura negra e fantasmagórica que carrega toda a película aos ombros e que constitui sem dúvida uma imagem de marca desta saga, que a meu ver, só viria a ser igualada em “The Bride With White Hair”. Cumpre ainda chamar a atenção para o facto de nas lutas, por vezes, ser visível os guindastes que suportam os actores. Este aspecto é claramente perceptível na primeira vez em que “Ning” se depara com o grupo de guerreiros comandado por “Ching Fung”. Ora tal aspecto não abona nada a favor do filme, e faz cair no ridículo cenas que até têm algo de belo. Um certo cuidado é necessário, meus senhores!

Quanto ao “cast”, as grandes novidades em relação ao primeiro filme passam pelo recrutamento de Jacky Cheung como o monge “sidekick” de “Ning”, de Michelle Reis como mais uma cara bonita para deliciar os olhos do público masculino, e de Waise Lee como o valente oficial do exército. Embora o elenco tenha ficado teoricamente mais forte em relação ao primeiro filme, na prática isso não se nota. Jacky Cheung bem tenta, mas não consegue proporcionar os bons momentos que o monge interpretado por Wu Ma nos oferece na longa-metragem anterior. Aliás, como já acima foi dito, o mesmo só decide aparecer mais para o epílogo da película e, aí sim, ficamos um tanto ou quanto satisfeitos. Michelle Reis nada faz de relevo, pelo que tirando os óbvios atributos físicos, nada de marcante há a relevar. Waise Lee será porventura a excepção, porquanto o seu desempenho como o oficial “Tso”, representa uma boa adição no que toca às cenas mais movimentadas. Quanto a Leslie Cheung e a Joey Wong, as super-estrelas do filme, não brilham tanto como anteriormente, embora desempenhem os seus papéis com o nível habitual, ou seja, bom. Esta asserção mesmo assim valerá mais para Leslie Cheung.

“A Chinese Ghost Story II” viria essencialmente a manter o que de bom já tinha sido feito anteriormente, embora como já se disse, esteja uns furos abaixo da película que inaugurou a saga. Um filme razoável, que valerá mais pelo interesse histórico, do que propriamente pelos aspectos mais cinematográficos. Terá ainda o “quid”, em especial para o público português, de ter vencido o prémio para melhores efeitos especiais no Fantasporto – edição de 1992, para além de ter sido nomeado para melhor filme no mesmo certame (o vencedor foi “Totó, o Herói”, do belga Jaco Van Dormael).


"O monge Yen faz mais uma vez uso dos seus vastos poderes mágicos"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38





quinta-feira, dezembro 20, 2007

Feliz Natal!

A época natalícia está aí à porta, e eu já estou a entrar em estágio para os "abusos" do costume (quem é que eu quero enganar, isto é todo o ano, yupi!!!) ! Espero que cada um de vós, da maneira que vos satisfizer mais, tenha UM GRANDIOSO NATAL! São os votos sinceros de Jorge Soares Aka Shinobi, para todos os indefectíveis malucos do cinema asiático que andam por esse mundo fora! E já agora, um abraço especial para os visitantes frequentes deste humilde espaço! Vocês sabem quem são!

Musa, the Warrior/Musa - 무사 (2001)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 127 minutos

Realizador: Kim Seong-su

Com: Jung Woo-sung, Zhang Ziyi, Joo Jin-mo, Ahn Sung-kee, Yu Rong Guang, Park Yong-woo, Song Jae-ho, Lee Do-il, Park Jung-hak, Yoo Hae-jin, Jung Seok-yong

"Yeo-sol"

Estória

China, 1375. Uma delegação coreana, liderada pelo general “Choi Jung” (Joo Jin-mo) vai ao encontro do imperador Ming, tendo em vista reatar conversações acerca de paz e sanar um mal-entendido que levou à morte de um enviado chinês ao reino da Coreia. Os chineses prendem a embaixada coreana e enviam-nos para o exílio num deserto hostil. Os coreanos acabam por se libertar, devido a um ataque de soldados mongóis da dinastia Yuan que mata todos os soldados Ming que serviam de escolta. Decidem então encetar um penoso retorno a casa, atravessando para o efeito as infindáveis areias escaldantes.

Na jornada para casa, os coreanos deparam-se novamente com os mongóis, liderados desta vez por “Rambulhua” (Yu Rong Guang), e apercebem-se que o mesmo leva como prisioneira, uma princesa Ming, de seu nome “Buyong” (Zhang Ziyi). Os guerreiros entendem que a situação constitui uma oportunidade para ficarem bem vistos perante a dinastia chinesa e obviar o seu falhanço diplomático. Atendendo ao exposto, salvam a nobre dos seus captores.

"O general Choi Jung e a princesa Buyong"

Uma nova viagem é encetada pelo deserto, mas numa diferente direcção, pois os coreanos pretendem entregar a princesa sã e salva ao seu povo. Ao mesmo tempo, começa-se a desenvolver um triângulo amoroso entre o general “Choi Jung”, a princesa “Buyong” e “Yeo-sol” (Jung Woo-sung), um escravo que é um guerreiro formidável no manejo da lança.

Contudo, os mongóis não se deixam ficar, e perante um juramento de sangue, “Rambulhua” inicia uma perseguição pelo deserto, tendo por objectivo recuperar a princesa e matar os homens que o desonraram.

"Jin-lib (a olhar para o lado) e os restantes guerreiros coreanos"

"Review"

Quando “Musa, the Warrior” estreou na Coreia do Sul em 2001, vinha com o rótulo de filme mais dispendioso de sempre da história do cinema coreano, prometendo a todos ser uma epopeia quase sem par. Supostamente baseado em factos históricos verídicos (embora aqui romanceados), “Musa” é uma interpretação da viagem do embaixador Chung Yong-son, que se dirigiu com o seu séquito à China, em ordem a oferecer cavalos ao imperador Ming Hongwu. O embaixador foi exilado e nunca mais retornou à terra-natal. É uma obra que merece um grande respeito, pelo facto de no que respeita aos aspectos mais cinematográficos, transpirar qualidade e pujança por todos os poros!

Ao ver “Musa” pela primeira vez e focando-me agora no factor argumentativo, vêm-me ao pensamento filmes como “Os Sete Samurais” ou “Guerreiros do Céu e da Terra”. Esta ideia explica-se pelo facto de termos um grupo de heróicos guerreiros, que defendem os mais oprimidos, em nome de algo maior do que eles próprios. Claro está, com uma diferença de efectivos abismal em relação aos seus opositores. No caso do filme de He Ping, a verosimilhança será um tanto ou quanto mais evidente, pois assim como em “Musa”, existe uma grande perseguição pelo deserto que acaba num cerco a uma fortaleza. No entanto, será uma perfeita heresia colocar “Guerreiros do Céu e da Terra” ao nível de “Musa”, atendendo a que a longa-metragem que ora se analisa é por demais superior em praticamente todos os aspectos.

Um dos componentes mais fascinantes em “Musa”, passará pela relação entre as várias personagens que compõem o grupo de fugitivos, e inclusive entre os inimigos. É deveras interessante seguir o confronto de personalidades e estatuto entre o general “Choi” e o escravo “Yeo-sol”. O militar olha com sobranceria para um ser humano que é visto como um animal em razão da estratificação social da época, e o conflito adensa-se mais quando o general se apercebe que está atrás de “Yeo-sol” no que concerne à atenção e admiração da princesa. No entanto, e sem os predicados do costume, “Choi” aprende a respeitar a coragem de “Yeo-sol” e a maneira como o mesmo transmite esse ardor nas horas difíceis aos restantes coreanos.

"Yeo-sol cavalga para a batalha"

Igualmente é de destacar o envolvimento romântico entre a princesa “Buyong” e “Yeo-sol”. Quem está mais atento ao cinema asiático, terá forçosamente de concordar que o mesmo é relativamente pudico em expor num filme os aspectos mais físicos desse sentimento que nos dá a volta a cabeça e chamamos amor (as mentes perniciosas que já estão a pensar nos “sexploitations”, por favor “aguentem os cavalos”). Como em tudo na vida, a tendência está a mudar, mas o traço característico mantém-se. Contudo, e isto é uma opinião meramente pessoal, entendo que o chamado “platonismo” cinematográfico (vou subtrair agora os aspectos vivenciais) tem a sua beleza e o condão de nos fazer sonhar. Coligindo estes pressupostos, tenho a dizer que o belo sentimento que brota entre “Yeo-sol” e a princesa “Buyong” é simplesmente enternecedor. O ar altivo da nobre, que funciona sobretudo como defesa pessoal, aliado ao circunspectivismo natural e à capacidade de sacrifício do verdadeiro herói da estória, resulta numa soma óbvia (este termo não é depreciativo) de qualidade apaixonante que estamos longe de encontrar no dia-a-dia da sétima arte.

Outro dos factores que é de relevar são os combates. Caros visitantes deste espaço, ao contrário da exposição de sentimentos entre “Buyong” e “Yeo-sol” (e porque não dize-lo, do general “Choi”), aqui já não estamos no campo da delicadeza e do “vai, não vai”. A violência crua prima à semelhança de um sanguinolento “chambara”, em que as peles são rasgadas, o sangue jorrado, e as lutas não se prolongam atendendo a factores de estética (que diga-se de passagem, também têm o seu lugar). Não me quero alongar em demasia no que concerne a este aspecto em particular. Só vos digo que “Musa” tem, sem margem para qualquer dúvida, uma das decapitações mais chocantes da história do cinema. E o que entusiasma (mórbido, brrr…) é que nem pressentimos a sua chegada. Ficamos siderados e a pensar “mas que raio é que aconteceu?”

O trabalho dos actores é bastante competente. Existe um unanimismo à volta das capacidades de Zhang Ziyi, que é partilhado pela minha pessoa. A actriz cumpre e bem. Jung Woo-sung e Jo Jin-mo, são dois valores seguros do cinema coreano, que expõem mais uma vez as suas inegáveis capacidades na representação. O destaque que aqui faço não irá para as três personagens principais da película, representadas pelos actores atrás mencionados, mas para Ahn Sung-kee. Um portento a sua actuação como o sábio arqueiro coreano “Jin-lib”. Doce nos momentos de aconselhamento, frio e tenaz nas cenas mais movimentadas. Sempre calmo em qualquer uma das situações. Mas alguém duvida que Ahn Sung-kee é um dos maiores valores do cinema sul-coreano, quiçá do asiático e até do global? Só um louco duvidaria!

Julgo que a haver defeito em “Musa”, passará pelo facto de a banda-sonora não estar ao nível dos restantes aspectos do filme. Nos “trailers” que visionei, antes de adquirir o filme, a música épica grassava e trazia ainda mais “água na boca”. Contudo, na película, as coisas não se passam bem assim. Apesar de o aspecto sonoro ser aceitável, falta em certa medida, aquelas melodias épicas de encher o coração e fazer-nos apetecer agarrar numa espada e saltar para dentro do ecrã, mesmo correndo o risco de levar um enxerto de pancada (como seria o mais provável), sem nos importarmos minimamente com isso.

“Musa, the Warrior” é uma película imperdível para qualquer fã que goste de um bom épico asiático, pela simples razão de, sem margem para grandes teorias, ser um dos grandes expoentes do género. Aliás, “Musa” foi apelidado por diversas vezes como o “Braveheart” da Coreia do Sul, embora eu discorde desta analogia. Um aliciante extra passará por podermos ver Zhang Ziyi num dos seus filmes menos conhecidos no ocidente.

Constituindo uma longa-metragem a deter na colecção de qualquer cinéfilo, “Musa” daria uma excelente prenda para o Natal! Felizmente que consta do meu acervo pessoal há algum tempo :) !

"Luta num riacho que atravessa o penoso deserto"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M" - 8

Classificação final: 8,38





segunda-feira, dezembro 17, 2007

The Moon Warriors/Zhan shen chuan shuo - 戰神傳說 (1992)

Origem: Hong Kong

Duração: 85 minutos

Realizador: Sammo Hung

Com: Andy Lau, Anita Mui, Maggie Cheung, Kenny Bee, Kelvin Wong, Yi Chang, Chin Kar Lok

"Fei"

Estória

O governante “13º príncipe Yen” (Kenny Bee), é destronado pelo seu irmão maléfico, o “14º príncipe” (Kelvin Wong), sendo obrigado a fugir com os seus apoiantes, de onde se destacam “Hsien” (Maggie Cheung). Tendo caído numa emboscada a meio da floresta, “Yen” vê-se em apuros, mas é salvo devido à intervenção de “Fei” (Andy Lau), um pobre e gentil pescador, com grandes habilidades nas artes marciais e que possui como melhor amigo uma orca chamada “Wei”.


"O 13º príncipe Yen"

Necessitando desesperadamente de ajuda, “Yen” pede a “Fei” que vá ao encontro do imperador aliado “Lam Ning” (Yi Chang) e da sua filha “Yuet” (Anita Mui), tendo em vista a união de esforços contra o “14º príncipe”. “Fei” não evita apaixonar-se por “Yuet”, mas o seu amor é impossível, pois a princesa está noiva de “Yen” desde tenra idade.

Quando o “14º príncipe” descobre onde o seu irmão está refugiado, congrega as suas forças para dar a estocada final. A derradeira batalha pelo domínio do reino irá começar, e cabe a “Fei” ajudar “Yen” a sair vitorioso.

"Yuet e Hsien"

"Review"

Dotando-se de uma equipa técnica e de um “cast” bastante apelativo, o lendário Sammo Hung despe a capa de mestre e actor emblemático das artes marciais, e mais uma vez decide tentar a sua sorte na realização, aventurando-se desta vez no mundo do “Wuxia”. A premissa da estória está longe de ser uma novidade no género, ou seja, um monarca bondoso é destronado por um ente familiar do pior que existe; é ajudado por um homem simples mas uma verdadeira máquina com um sabre na mão; existe um triângulo (ou melhor um quadrado) amoroso pelo meio, mas que a honra impede que vá muito além; entretanto o vilão aparece para o confronto final, e pois…já estamos conversados! O desenrolar da trama é bastante típico dos “wuxias” dos anos ’90, com as falhas argumentativas do costume, umas mais evidentes do que outras. Mesmo assim, sempre lá aparece umas frases mais significativas pelo meio, e que nos ficam na memória. Neste caso em concreto, ficar-me-á mais gravado a explicação dada por “Fei” à princesa “Yuet”, acerca da razão pela qual os campos por onde passam serem bastante floridos. As flores têm tendência a nascer profusamente nos sítios onde descansam os restos mortais de muitos seres.

Um dos elementos distintivos desta película em relação às congéneres, passará pelo carácter marcadamente romântico pela qual a mesma envereda, e que apenas detém um rival à altura nas cenas de luta. É certo que os “wuxias”, em regra, têm um pendor que se reconduz bastante a este aspecto mais sentimental, e que se pensarmos bem, constituirá uma marca distintiva do género, em conjunto com o habitual “glamour” heróico e o extremo uso dos guindastes nas cenas de luta. No entanto, sou obrigado a admitir que “Moon Warriors” acentua mais do que o normal esta veia trágica, e que porventura não me admiraria que os seus comparsas do século XXI fossem buscar inspiração em parte a esta longa-metragem. Há que dar o mérito a algo, e “Moon Warriors” indubitavelmente merecerá algum.


"O perigo vem das alturas"

Quanto às lutas, garanto que os fãs do género, nos quais me incluo, não sairão defraudados. E tendo por responsáveis pelas cenas de acção os aclamados Ching Siu Tung e Corey Yuen, para além da inevitável contribuição de Sammo Hung, nada menos que bom seria de esperar. Os combates são de tirar a respiração, tal o envolvimento e a fúria que é posta no ecrã pelos intervenientes. Claro que poderá ser afirmado que os verdadeiros intervenientes nos combates não serão os actores principais, até pelo facto de Andy Lau, Anita Mui ou Kenny Bee, por exemplo, não serem reconhecidos praticantes de artes marciais. Contudo, posso declarar que as lutas em nada ficam a dever a outras películas do género, superando bastante a maior parte das mesmas. Uma “nuance” fora do comum passará pela intervenção de “Wei”, a orca que é a mascote de “Fei”.É que ela também intervém num combate, ao sair da água e acertar com a cauda na cara do infame “14º príncipe” (ninguém percebeu que era feita de borracha, eh, eh, eh!), fazendo com que estejamos perante uma espécie de “Free Willy” das artes marciais!?. Embora seja de saudar a intenção da cena, pois a amizade da personagem de Andy Lau com o animal é uma vaga de ar fresco nesta categoria de filmes, sempre se poderá dizer que soou um tanto ou quanto ridículo! Os cenários e as paisagens ajudam imenso ao meu gosto pela película. “Moon Warriors” é, sem margem para dúvida, um dos “wuxia” mais agradáveis à vista. A vila piscatória está muito bem concebida, o túmulo da família “Yen” fenomenal, e tudo muito bem complementado pelas costumeiras florestas de bambu e pelos campos povoados de belas flores.

Como epílogo deste texto, deixo apenas mais duas curiosidades que de certa forma me espantaram, mas depois de reflectir até fizeram algum sentido. A primeira passará pelo facto de George Lucas ter supostamente afirmado que de entre os vários filmes que se inspirou para fazer a mais recente trilogia de “A Guerra das Estrelas”, uma delas foi “Moon Warriors”. A segunda passará por alegadamente existir um epílogo em que a personagem interpretada por Andy Lau falece. Pelos vistos, o filme com este fim foi passado para uma plateia que se desmanchou em lágrimas, e protestou de tal forma, que o mesmo foi retirado.

“Moon Warriors” merece um lugar destacado na vaga de “Wuxia” de Hong Kong, que muito foi acentuado nos anos ’90, embora normalmente se tenha a tendência a elevar filmes como “Swordsman II” ou “New Dragon Gate Inn”. Constitui um esforço digno de Sammo Hung como realizador, e já agora, é uma oportunidade para vermos uma senhora chamada Anita Mui, um ícone de Hong Kong, e que infelizmente já não nos faz companhia neste mundo, tendo vindo a falecer no dia 30 de Dezembro de 2003, devido a um cancro.

"Fei com a sua mascote e amigo, a orca Wei"

Trailer, The Internet Movie Database(IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38





sábado, dezembro 15, 2007

O Imperador e o Assassino/L'Empereur et L'Assassin/The Emperor and the Assassin/Jing Ke ci qin wang - 荊柯刺秦王(1998)

Origem: China

Duração: 155 minutos

Realizador: Kaige Chen

Com: Gong Li, Li Xuejian, Zhang Fengyi, Gu Yongfei, Zhou Xun, Chen Kaige, Zhou Sun, Lu Xiaohe, Wang Zhiwen, Zhao Benshan, Ding Haifeng, Pan Chiangjiang

"A dama Zhao"

Estória

No ano 221 A.C., “Ying Zheng” (Li Xuejian), o ambicioso rei de Qin, anseia conquistar os remanescentes reinos da China, tendo em vista unificá-los e formar um grande estado sob o seu comando. De modo a arranjar uma justificação para invadir o reino vizinho de Yan, “Zhang” envia para aquela terra o amor da sua vida, a concubina “Zhao” (Gong Li). A função de Zhao é servir de espia, e convencer o monarca daquele reino, o príncipe “Dan” (Zhou Sun) a enviar um assassino para matar o rei de Qin, e desta forma por fim aos seus propósitos imperialistas. Claro que o rei de Qin está ciente da situação, pois está tudo combinado com “Zhao”, em ordem a arranjar o motivo para a tão desejada guerra.

"Jing Ke"

“Zhao” encontra o assassino ideal na pessoa de “Jing Ke” (Zhang Fengyi), um homem com uma grande perícia na arte de matar, mas bastante introspectivo e desanimado. Tal facto explica-se devido a um incidente do passado, que passou pelo suicídio de uma jovem rapariga após “Jing Ke” ter assassinado a sua família inteira. “Zhao” começa a apaixonar-se pelo assassino, à medida que por sua vez os sentimentos pelo rei de Qin se vão retraindo, degenerando os mesmos num ódio pessoal.

Tal situação leva a que a tentativa fingida de assassinato torne-se real, obviamente sem o implacável rei de Qin saber, dando origem a um manancial de intrigas tanto políticas como amorosas, que decidirão o futuro dos denominados “sete estados guerreiros”.

"Ying Zheng, o rei de Qin e o futuro primeiro imperador de uma China unificada"

"Review"

Belas memórias afluem-me à mente quando recordo este “O Imperador e o Assassino”. Foi numa tarde no King, quando era um jovem estudante madeirense em Lisboa, que respirava idealismo. Na altura fiquei fascinado com a força tremenda deste filme, e falei do mesmo a toda a gente que conhecia. Lembras-te que tu nem eras uma fã por aí além de cinema asiático, e não conseguiste conter a tua emoção? - esta mensagem é privada, não liguem, adiante!. Anos depois, mais concretamente há um par de dias atrás, tive a oportunidade de rever esta obra de Kaige Chen, vencedora do “Technical Grand Prize” em Cannes na categoria de produção. Foi interessante confrontar a minha perspectiva da altura com a actual. Lá chegaremos.

“Ying Zheng, esqueceste o comando dos teus antepassados, que te ordenaram unir tudo debaixo dos céus?”. É esta premissa, bradada por um funcionário do reino de Qin, que inicia “O Imperador e o Assassino”, e duas horas e trinta e cinco minutos depois, é o mesmo repto que finda a película. Neste espaço de tempo, somos confrontados com um misto de melodrama, intrigas palacianas ao melhor estilo de Shakespeare, guerra, traição e afins. À semelhança da obra-prima de Zhang Yimou, “Herói”, o argumento de “O Imperador e o Assassino” gira em volta da ascensão do reino de Qin, e da tentativa de assassinato do seu monarca, que mais tarde se viria a tornar no primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, uma figura essencial na história chinesa. No entanto, ao contrário do filme de Yimou que enveredou por alguns aspectos mais fantasiosos, Kaige Chen pretendeu ser mais realista no seu trabalho. Não diria que estamos propriamente perante uma exaustiva lição de história, até porque embora este aspecto seja bastante premente na película, ela acaba por focar-se mais nas relações entre o rei “Ying Zheng”, a dama “Zhao” e o assassino “Jing Ke”. No entanto, sou obrigado a concordar que este filme nos ensina bastante sobre um dos períodos mais importantes da grande nação asiática. Portanto aqueles que se interessam mais por um bom conto histórico, onde podemos observar os costumes e as motivações dos governantes e das populações, já sabem! Este é sem dúvida um bom filme para vós!

"O marquês Changxin lidera um bando de conspiradores"

As interpretações dos actores são verdadeiramente acima de qualquer repreensão, e muita ajuda o facto de as despesas não ficarem apenas por conta da magnífica actriz Gong Li. Tanto Li Xuejian, no papel do rei de Qin, como Zhang Fengyi que dá vida a “Jing Ke”, estão soberbos.
Li Xuejian tem momentos de puro génio, encorpando muito bem as dúvidas, os anseios e até a paranóia de um homem sedento por poder, que diariamente tem de fazer escolhas de uma dificuldade titânica. Quanto a Zhang Fengyi, o seu desempenho não é propriamente uma surpresa, pois estamos sem dúvida perante um intérprete de elevado quilate artístico. Veja-se “Adeus, Minha Concubina”. No que concerne a Gong Li, “what else is new?” Linda, fabulosa, um portento de representação. Todos os adjectivos parecem ser insuficientes para classificar esta actriz de nível mundial, esta lenda viva! Todos os intérpretes fazem um excelente trabalho, eivado de muita dedicação, embora ainda mereçam uma palavra de especial apreço Wang Zhiven, o “Marquês” e amante da rainha-mãe, uma personagem cínica, mas sentimentalista ao mesmo tempo. O próprio Kaige Chen, “arregaça as mangas”, e além de chamar a si a responsabilidade pela realização, interpreta um papel secundário, mas bastante importante, na pessoa do primeiro-ministro de Qin “Lu Buwei”.

As batalhas épicas, os cercos às cidades sitiadas, o excelente guarda-roupa e os cenários magnificentes e de deslumbrar, fazem com que nos apercebamos que estamos perante um filme que teve um orçamento de respeito. No entanto, no meio das centenas de figurantes e nos quilos de adereços, temos a sensação que nada foi deixado ao acaso e que o filme no seu global foi objecto de um tratamento bastante cuidado.

O melodrama está bastante presente, e aqui enfatizo com algum ardor o sacrifício das crianças do reino de Zhao. A cena está brutal, o envolvimento extasiante, e uma lição de vida e honradez, embora radical, é-nos transmitida com todo o fulgor que o cinema asiático nos habituou. Quando revejo momentos como este, em que Kaige Chen denota uma quase incomparável mestria, e depois penso que foi o mesmo realizador que timonou “The Promise”, sou forçado a concluir que podemos passar de besta a bestiais e vice-versa num instante!

Este filme, devidamente separado em cinco actos, todos com títulos sugestivos, é para apreciar como um bom vinho (no meu caso, será neste momento “Cortes de Cima - Reserva” - haja dinheiro - pensem lá no vosso!), ou seja saborear os detalhes com calma! Se existe algo de menos abonatório, passará apenas pela monotonia que envereda em certos espaços, que poderá transformar-se em algo “secante” para alguns.

Um épico na verdadeira acepção da palavra!

"O imperador e o assassino"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: As Imagens Primeiro

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





segunda-feira, dezembro 10, 2007

Ring - A Maldição/Ring/Ringu - リング (1998)

Origem: Japão

Duração: 97 minutos

Realizador: Hideo Nakata

Com: Nakako Matsushima, Hiroyuki Sanada, Orie Izuno, Rie Inou, Miki Nakatani, Yuko Takeuchi, Hitomi Sato, Yoichi Numata, Yutaka Matsushige, Katsumi Muramatsu, Rikiya Otaka, Masako, Daisuke Ban, Kiyoshi Risho, Masahiko Ono

"A repórter Reiko Asakawa"

Estória

“Reiko Asakawa” (Nakako Matsushima) é uma repórter que investiga a estranha morte da sua sobrinha “Tomoko” (Yuko Takeuchi) e dos seus colegas de liceu. A chave para a resolução do caso parece estar relacionada com uma cassete vídeo, que pelos vistos faz com que todos aqueles que a vejam, morram exactamente sete dias depois.

“Reiko” acaba por encontrar a cassete e visiona-a, deparando-se com um curto filme bastante estranho. Seguidamente recebe uma chamada a informá-la que irá falecer. Inadvertidamente, “Reiko” deixa o vídeo maldito ao alcance do seu jovem filho “Yoichi” (Rikiya Otaka), e este também fica amaldiçoado. Desesperada, “Reiko”, conjuntamente com o ex-marido “Ryuji Takayama” (Hiroyuki Sanada), que também viu a cassete e encontra-se sob o signo da morte, tentam a todo o custo fazer face à iminência da tragédia.

"O professor Ryuji Takayama"

As investigações de ambos conduzem-nos à ilha de Izu Oshima, onde descobrem que a mulher que vêm na cassete é “Shizuko Yamamura” (Masako), falecida há bastantes anos e que possuía poderes premonitórios. Igualmente chegam à conclusão que o responsável pelas mortes é o espírito vingativo de “Sadeko” (Rie Inou), a filha de “Shizuko”, uma rapariga que igualmente possuía poderes psíquicos, consistindo os mesmos em conseguir matar apenas com o olhar.

As horas passam e a morte aproxima-se cada vez mais à medida que “Reiko” tenta desesperadamente salvar a vida daqueles que ama.

"Reiko prepara-se para visionar a cassete amaldiçoada"

"Review"

Apesar de um dos géneros de cinema asiático mais bem sucedidos no mundo inteiro ser o horror, nunca fui um particular apreciador deste género de filmes, ao contrário de muitos. O terror provindo do oriente ganhou um culto próprio, com bastantes fãs, e inclusive serviu de inspiração para “remakes” de um cinema de Hollywood que ainda sofre uma crise latente de ideias.

Poder-se-á afirmar com alguma propriedade que o grande responsável, ou pelo menos detendo uma parte essencial no fenómeno, foi “Ringu”. Baseado na novela com o mesmo nome, do escritor Kôji Suzuki (que bebeu influência no conto popular japonês “Banchô Sarayashiki”), “Ringu” constitui um filme premiado, de onde se destaca o galardão atribuído para melhor filme no festival de Sitges – edição de 1999, o que constitui sem dúvida nenhuma um bom cartão de visita. A aura que rodeou o filme aquando da sua estreia no Japão, foi tremendamente avassaladora, tendo sido a película de horror que mais triunfou no “box Office” do país (15,9 mil milhões de ienes, à volta de 97,55 milhões de euros), sendo considerado para alguns, o filme mais assustador que já viram (quanto a este ponto em particular, eu irei pronunciar-me mais baixo). Inclusive surgiu o rumor que o apartamento de “Reiko”, a personagem interpretada por Nakako Matsushima, estava “realmente” assombrado pelo fantasma de uma rapariga que ali se teria suicidado. Brrr…

Segunda-feira, 13 de Setembro…a contagem fatídica para “Reiko” inicia-se, e o tempo não volta para trás…“Ringu” não aposta em litros de sangue, violência extrema ou “gore” para atingir o seu objectivo. O que está aqui em causa é algo bastante mais refinado, a saber, o uso de uma atmosfera psicologicamente sombria, que joga tudo na antecipação e na tensão mental, tendo em vista pôr-nos na fronteira com o susto, sem sabermos quando o mesmo se irá desencadear. Embora seja de elogiar a forma como tudo nos é apresentado, tenho de confessar que fiquei imune a bastante dos efeitos que “Ringu” supostamente haveria de provocar nos espectadores, mas daí não sou muito impressionável nesse aspecto, confesso. A única cena que ainda provocou algum “frisson” na minha pessoa, foi sem dúvida aquela em que o professor “Ryuji” se depara frente a frente com o espírito vingativo de “Sadeko”. Mesmo aí, e considerando que o encadeamento está extremamente bem conseguido (disso, não resta nenhuma dúvida), consegui-me aguentar com alguma tranquilidade. Bem…er…confesso que quando aquele espírito do inferno começou a levantar a cabeça lentamente, uma certa apreensãozita começou a girar aqui dentro…

"Uma das imagens do filme que se encontra na cassete, onde se pode ver Sadeko a fitar o poço"

O que apreciei verdadeiramente em “Ringu” foi a construção da trama, das personagens, e das interpretações do grande actor japonês Hiroyuki Sanada, e da bela ex-modelo Nakako Matsushima. Suspense à parte, apreciei de sobremaneira a componente de mistério presente na película, e os esforços desenvolvidos por aquela família destruída, mas unida num desígnio comum, para se salvar da maldição que impendia sobre as suas vidas. Apesar de estarmos a falar de uma longa-metragem que gira em torno de aspectos fantásticos, as personagens são bastante reais e reconduzíveis ao nosso quotidiano. Existe um “terra-a-terra” saudável.

Merece uma particular chamada de atenção a gravação presente na cassete vídeo e que constitui o mote para tudo o que se passa nesta longa-metragem. Aí reconheço que a atmosfera conseguiu afectar-me um pouco (as imagens distorcidas e o preto e branco ajudaram) e fazer com que durante umas horas eu olhasse para a minha televisão com outros olhos, e imaginasse se de repente o programa que eu estivesse a ver desaparecesse por completo, e fosse substituído por um espírito vingativo de longa cabeleira preta, com propósitos homicidas. É certo que a mencionada figura maléfica hoje em dia é um “cliché” monumental, no que toca às películas do género. Mas é bom não esquecer, que foi com “Ringu” que praticamente tudo começou.

“Brincadeiras no mar, demónios no ar” é uma expressão repetida na película e que se encontra associada ao passado tenebroso que constitui o cerne da trama. ”Ringu” é no entanto um filme bastante sério, que nenhum fã do cinema asiático deve perder. Para os amantes do horror, embora continue a dizer que não assuste assim tanto, é imperdível! O sucesso é incontornável, tendo dado origem a uma prequela e a uma sequela, a “remake”, imitações e sátiras da personagem de “Sadeko”. Simplesmente não faz muito o meu género, e essa é que é a verdade.

"Olhar mortal"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia (Hugo Gomes) , Cinedie Asia (Luis Canau), Cine Players, Boca do Inferno, O Crítico, Fanaticine, Cine-Asia, ClubOtaku

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75





sábado, dezembro 08, 2007

Votações do "My Asian Movies"

E pronto! Aqui segue a última apresentação dos actores que se encontram a votação aqui no blogue. Tendo em vista o acerto de contas, em vez de seguirem os habituais quatro intérpretes, desta vez serão seis. A partir de agora, as sugestões dos votantes já não serão consideradas, e estarão tão-só a votos as actrizes e actores que se encontram nos respectivos quadros. Relembro ainda que as "urnas" encerram às 23h. 59m., de dia 31 de Dezembro.


Koyuki

Informação


Não existem filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies"


Yuma Ishigaki


Informação


Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Azumi, a Assassina, Azumi 2: Amor ou Morte


Takashi Shimura


Informação


Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Os Sete Samurais, O Trono de Sangue


Rene Liu


Informação


Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Dupla Visão, Happy Birthday


Cha Tae-hyun


Informação


Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": My Sassy Girl, Windstruck



Jacky Cheung


Informação


Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Ashes of Time, Anna Magdalena, Era Uma Vez na China, Swordsman




terça-feira, dezembro 04, 2007

Millennium Mambo/Qianxi manbo (2001)

Origem: Taiwan

Duração: 100 minutos

Realizador: Hou Hsiao Hsien

Com: Shu Qi, Jack Gao (Kao), Tuan Chun Hao, Jun Takeuchi, Chen Yi Hsuan, Doze Niu

"Vicky"

Estória

Vicky (Shu Qi) é uma jovem e bonita rapariga de Taiwan, que sai da sua terra-natal Keelung, indo viver para a capital Taipei, tendo em vista experenciar novos ambientes. Conhece “Hao” (Tuan Chun Hao), um rapaz toxicodependente obcecado por música de dança, e ambos encetam um relacionamento que tem tudo menos de harmonioso.

“Hao” revela ser bastante possessivo e ciumento, controlando todos os movimentos de “Vicky”, afectando de sobremaneira a estabilidade emocional da jovem. Ela passa os seus dias desempregada, discutindo com o namorado, embebedando-se e tomando drogas. As noites invariavelmente desembocam nas discotecas até altas horas da madrugada.

"Hao Hao"

“Vicky” acaba por separar-se de “Hao” e arranja emprego num clube de “strip”. Aí conhece um homem de meia-idade chamado “Jack” (Jack Gao), membro de uma tríade. Um novo relacionamento nasce para “Vicky”, mas bastante distinto do que mantinha com “Hao”. “Jack” revela ser uma figura paternalista, que ajuda “Vicky” a superar as suas frustações e medos, enveredando a relação por um certo platonismo.

Certo dia, “Jack” é obrigado a dirigir-se para o Japão, devido a um problema bastante sério relacionado com o submundo. “Vicky” resolve dirigir-se para aquele país, em busca do homem que lhe deu uma nova esperança na vida.

"Jack"

"Review"

Quando li a sinopse de “Millennium Mambo”, um grande desejo em visionar o filme nasceu em mim, pois das coisas que eu adoro são estórias que versem sobre a vida de adolescentes e jovens adultos, que se deparam com problemas que os arrastam para os lados mais obscuros da vida, roçando por vezes a degradação humana. Não é à toa que, por exemplo, uma das minhas películas de eleição é “Trainspotting”, a obra-prima de Danny Boyle. Este meu gosto, aliado a um trailer chamativo e ao facto de Hou Hsiao Hsien ser um dos mais emblemáticos e inteligentes realizadores asiáticos da actualidade, fizeram o resto. Pelo exposto, não descansei enquanto não pus as minhas mãos em cima de “Millennium Mambo”. Valeu a pena tanto porfiar? Já veremos.

Se atendêssemos apenas ao currículo do filme, poderíamos afirmar que esta película já era uma aposta ganha, não fosse a mesma um nomeado para a “Palma de Ouro” de Cannes – edição de 2001, tendo mesmo vencido um prémio no certame (“Technical Grand Prize”). Outras vitórias e nomeações poder-se-ão associar a “Millennium Mambo”, o que apenas darão força à ideia da elevada qualidade do filme. Confesso que depois de ter saboreado o prato, fiquei satisfeito, mas longe de considerar que estava perante uma obra-prima que me fizesse sonhar.

O início promete e entusiasma de sobremaneira. Observar Shu Qi a desfilar em câmara lenta, num túnel embrenhado de tons azuis e ao som de uma batida a puxar para o “techno” é um dos mais belos inícios de filme que tive a oportunidade de visionar (como não há nada melhor do que ver com os próprios olhos, é favor ir AQUI). O discreto e maroto olhar da bela actriz asiática para uma câmara que acompanha fielmente os seus movimentos, o fumar descontraído, a sensação de caminhar sem destino, a narrativa de fundo encorpada numa voz nostálgica, a fotografia de sonho…estavam já prometidos mundos e fundos para este fã.

"Tentativa de sedução"

Posteriormente deparo-me com o tal típico filme de jovens que cedo começam a arruinar a vida. Através dos olhos de “Vicky”, vemos a rapariga meter-se numa cruzada urbana por Taipei, onde usa e abusa do tabaco, droga e bebidas, voando de discoteca para discoteca, ou definhando num minúsculo apartamento, acompanhada do namorado delinquente “Hao Hao”. Como já acima foi referido, uma leve redenção começa a operar-se na jovem rapariga, através da sua vivência com o homem mais maduro “Jack”. Tudo bem, agradável, a estória até convence. Simplesmente não entusiasma.

Hou Hsiao Hsien, na minha humilde opinião, preocupou-se em demasia com os aspectos mais visuais do filme, em detrimento dos ditos mais substanciais. Tanto que por vezes sentimos que estamos perante um “videoclip” musical muito bem produzido e de regalar a vista, mas algo oco por dentro. Nunca sabemos muito da estória da rapariga, e inclusive acabamos por descobrir muito mais acerca das outras personagens, principalmente acerca de “Hao”, sem dúvida a personagem mais explorada e bem retratada nesta longa-metragem. Este aspecto revelou ser um pouco frustrante para mim. Eu queria conhece-la muito melhor!

A propósito de “Millennium Mambo”, o realizador viria a proferir uma dissertação num tom poético, a meu ver, simplesmente fantástica e porventura esclarecedora das reais motivações deste filme. Sinto-me na obrigação de a transcrever:

“Looking at the youthful friends around me, i find that their cycle and rhythm of birth, age, illness and death are moving several times faster than those of my generation. This is particularly true of young girls: like flowers, they are fading almost immediately upon blooming. The process occurs in an instant. I do not remember who say this: “of so many leaves drifting everywhere in the sky above us, there is about one leaf which comes to and eternal halt at the very moment of being watches persistently by us with understanding and sympathy.” With this image in mind I hope shot a movie of the story of this youthful girl”.

Talvez isto explique de alguma forma que Hsou Hsien pretendia demonstrar mais através de imagens, do que propriamente através de palavras, deixando-nos a liberdade de preencher as lacunas dentro das nossas cabeças. O realizador lança com a afirmação supra referenciada, e aliado ao nosso visionamento da película, um diapasão e porventura o aviso para as crises da adolescência que indubitavelmente irão marcar para o resto da vida. Em casos extremos, fica o alerta para o poço sem fundo que poderemos mergulhar e eventualmente nunca sair. Porventura, seria o seu máximo intento, expor as percepções visuais acerca da juventude “young and dangerous” que pontifica na sua terra-natal, em especial das raparigas que despontam muito precocemente. E ninguém nega que neste particular, o realizador acabou, de certa forma, por ser bem sucedido. Simplesmente, entendo que existiu a grande oportunidade (e porque não dizê-lo a intenção) de explorar melhor um tema que me é bastante caro, a redenção, e tal se afigurou um tanto ou quanto letárgico. Não estou a referir-me obviamente a um qualquer anseio por um final feliz, ou coisa do género. O que pretendo acima de tudo afirmar é quem vê “Millennium Mambo”, fica com a sensação que todos caminham para algum lado, e ao mesmo tempo para lado algum, e que algo mais devia de ser explicado. “Hao Hao” luta pela namorada que sempre quis, e de repente desaparece de uma forma abrupta da estória. “Jack” revela prenúncios do seu ocaso, mas tudo acontece depressa demais. Ao mesmo tempo, ouvimos a voz de uma “Vicky” narradora, de 2010 ou 2011, a destilar nostalgia e mais nostalgia, de uma forma por vezes exasperante. Por vezes, neste manancial, não se consegue evitar um certo desnorte.

“Millennium Mambo” constitui uma agradável experiência para nós, e no global, passível de ser considerado um bom filme. Simplesmente, e aqui assumo todas as culpas devido às expectativas desmesuradas que criei, fica aquém do esperado. No entanto, sou obrigado a reconhecer um aspecto determinante. Shu Qi dá corpo a um dos melhores papéis da sua carreira, e eu era capaz de me apaixonar por aquela bela e rebelde “Vicky” todos os dias e mais alguns! Sei do que falo…

Aconselhável!

"Vicky (ao centro) e o seu séquito de jovens amigas boémias"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Rascunho, Um Cine, Marcelo Ikeda

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75