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sexta-feira, julho 17, 2009

Origem: Índia
Duração: 213 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Hrithik Roshan, Aishwarya Rai, Punan Sinha, Sonu Sood, Kulbhushan Kharbanda, Suhasini Mulay, Ila Arun, Shaji Chowdhari, Nikitin Dheer, Visswa Badola, Raza Murad, Yuri, Rajesh Vivek, Pramod Moutho, Sayed Badrul Hasan, Indrajeet Sarkar, Pramathesh Mehta, Disha Vakani
"O imperador Akbar"

Sinopse

No século XVI da nossa era, “Jalaluddin Mohammad Akbar” (Hrithik Roshan) é o grande imperador dos Mughal e o governante mais poderoso do Industão. Depois de ter consolidado o seu império no Hindu Kush, Akbar estende as suas fronteiras do Afeganistão até à baía de Bengala, e doa Himalaias até ao rio Narmada, dominando desta forma um vasto território. Tendo em vista consolidar ainda mais o seu poder político e militar, e de forma a forjar uma aliança entre duas culturas e religiões distintas, “Akbar” aceita a proposta do rei Rajput “Raja Bharmal” (Kulbhushan Kharbanda) que passa por casar com a filha deste chamada “Jodhaa Bai” (Aishwarya Rai).


"A princesa Jodhaa Bai"

Mal imagina “Akbar”, que um casamento feito por estrita conveniência, cedo se tornará numa jornada para um grande amor. “Jodhaa” é uma mulher destemida e de convicções fortes, que se recusa a ser um mero peão numa jogada política. Resiste aos avanços iniciais de “Akbar”, fazendo com que o monarca tenha de travar a maior batalha da sua história. Mas Akbar é um vencedor, e através de uma reflexão sobre vários aspectos da sua vida pessoal e política, descobre o caminho para o coração da bela “Jodhaa”.

"Orando"

"Review"

Ashutosh Gowariker, o realizador que nos trouxe o premiadíssimo “Lagaan”, parece ter alguma queda para o épico, apesar da sua algo que curta carreira como realizador, pelo menos a julgar pelo número de filmes que constam no seu currículo. “Jodhaa Akbar” foi o grande vencedor dos últimos “Filmfare Awards”, realizados este ano num conhecido hotel luxuoso de Macau, tendo arrebatado quase todos os principais prémios, mormente para melhor filme, melhor realizador e melhor actor principal. O brilho só poderia ter sido maior se a estonteante Aishwarya Rai tivesse levado para casa o galardão para melhor actriz principal, e o inevitável A.R. Rahman o de melhor director musical. Não foi isso que aconteceu, mas o saldo afigura-se como francamente positivo. Fica bem ainda referir que no Festival Internacional de cinema de São Paulo, essa grande cidade do país irmão Brasil, “Jodhaa Akbar” acabaria por ser considerado o filme estrangeiro preferido da audiência, tendo obtido o respectivo reconhecimento por tal facto. Acima de tudo, há que reconhecer que a película que presentemente é objecto de análise do presente texto tem causado muito “frisson”. Será merecido? Já vos darei conta da minha opinião, até porque confesso que a minha expectativa em visionar esta longa-metragem era imensa.


“Jodhaa Akbar” é acima de tudo duas coisas: um épico e uma história de amor. Doutra perspectiva, igualmente correcta, poderá ser passível considerar-se como uma história de amor épica. Como qualquer longa-metragem que pretenda, de forma directa ou indirecta, narrar eventos históricos, alguma celeuma acaba sempre por surgir. Quando estamos a falar da Índia, uma nação assente numa pluralidade étnica e religiosa bastante acentuada, que degenerou (a) em vários conflitos, o risco de tal suceder aumenta exponencialmente. Mesmo com Gowariker a admitir que cerca de 70% do argumento é ficcionado e da sua autoria pessoal, académicos atacaram este filme afirmando que Jodhaa Bai nunca foi esposa do imperador Akbar, mas sim do seu filho Jahangir. O erro teria nascido do livro subscrito pelo tenente-coronel inglês James Tod, intitulado “Annals and Antiquities of Rajasthan”. Os Rajput, por sua vez, também não gostaram da forma como foram retratados em “Jodhaa Akbar”, tendo a exibição do filme sido proibida nos estado de Uttar Pradesh, Rajasthan, Haryana e Uttarakhand. Tais actos levaram a uma batalha judicial entre os produtores do filme e os grupos de Rajput indignados, tendo o Supremo Tribunal da Índia ordenado aos governos provinciais que levantassem o embargo a esta obra.

"Duelo dos amantes"

História e política à parte, a primeira ideia que terá de ser retida acerca de “Jodhaa Akbar”, é que se trata de um filme sumptuoso. Desde as paradisíacas paisagens ao belo guarda-roupa, passando pelos palácios de sonho, tudo nesta película parece brilhar com uma luz incandescente. Só para termos uma ideia da dimensão megalómana como as coisas são aqui levadas a cabo, Gowariker usou 80 elefantes, 100 cavalos e 55 camelos nas cenas de batalha, para além de milhares de figurantes. Na música “Azeem O Sham, Shahenshah” (que já postei o videoclip AQUI) intervieram 1000 dançarinos, todos devidamente vestidos com indumentária da época, acompanhados de adereços como espadas e escudos. Como expoente máximo de luxo, direi igualmente que a soma de todo o ouro usado pelas personagens de “Jodhaa Akbar” ascende a 400 quilos!!! Julgo que com estes dados, ninguém se atreverá a pôr em causa que estamos perante uma produção com uma magnitude imensa, não se aplicando esta premissa apenas às películas de “Bollywood”.

Apesar da intriga política/religiosa/social e o manancial bélico terem uma parte importantíssima na trama, “Jodhaa Akbar” é antes de tudo uma história de amor. E quase todos nós sabemos que no campo do deflagrar de sentimentos, o cinema de “Bollywood” não pede meças praticamente a nada ou ninguém. Estamos perante a saga de uma linda princesa que ensina um jovem monarca que para governar bem tem de conquistar não apenas reinos ou povos, mas acima de tudo o coração dos seus súbditos. E a parada é posta num nível bastante elevado, pois “Akbar, o Grande” terá forçosamente de cumprir os objectivos propostos pela sua amada, de forma a que possa almejar ao prémio máximo, ou seja, ela própria. Imagino que naquela época, se isto acontecesse na realidade, “Akbar” não iria na conversa de “Jodhaa” e resolveria as coisas como habitualmente o fazia, ou seja, à força. É óbvio que aqui tal não poderia suceder, e “Akbar” orgulhosa, mas pacientemente, acede aos desejos de “Jodhaa” e através da sua descoberta pessoal, ganha o respeito dos seus subordinados, não apenas como um temível guerreiro, mas também como um governante justo, bondoso e compreensivo.

É extremamente apelativo num romance que se preze, o surgir de dificuldades a atravessarem-se no caminho dos apaixonados e as tentativas destes em superá-las. Aqui os problemas derivam sobretudo da diferença de costumes e religião entre ambos, que muitas vezes irá criar tentativas de descredibilização de “Jodhaa” na corte de “Akbar”. A princesa, sob a promessa de anuência do imperador, tenta manter alguns dos seus hábitos que considera fazer parte da sua própria essência como pessoa. Mas tal não granjeará simpatias numa sociedade muçulmana conservadora, que não vê com bons olhos o casamento da sua figura mais emblemática com uma hindu. Existem “complots” urdidos contra “Jodhaa”, que no início até acabam por chegar a bom porto, mas como aqui o amor vence sempre, “Akbar” acaba por se aperceber das maquinações contra a sua paixão, e toma atitudes que, contra tudo e todos, acabam por salvar os seus sentimentos e como decorrência secundária, mas importante, provocam uma nova visão política do seu império. É pois, fácil de perceber, que estamos perante uma longa-metragem que vive sob o signo do “love conquers all”, e neste ponto do texto já devem ter notado que a designação deste filme é a junção dos nomes do casal de enamorados “Jodhaa” (a princesa) mais “Akbar” (o imperador), que visa personificar esta simbiose de corpos e almas.

As batalhas e as restantes cenas de acção são do melhor que já vi na sétima arte, com momentos verdadeiramente arrepiantes e realistas. Fiquei particularmente impressionado com o treino dos elefantes presentes no filme, e o seu protagonismo durante as batalhas. Como já abordei em anteriores textos neste espaço, uma batalha que conte com elefantes, é algo de inexcedível. Os tanques de guerra da antiguidade conferem uma dimensão suplementar, que uma cavalaria não consegue almejar, por mais perfeita que seja em formação e número. Neste caso em particular, podemos observar elefantes verdadeiramente enraivecidos a esmagar com as patas os corpos de soldados desamparados, ou a varrer tudo o que podem apanhar com as suas trombas. É de igualmente admirar o diálogo físico que o imperador “Akbar”, mantém com um elefante e que faz parte do treino, julgo que de ambos. A cena tem muito de belo, numa clássica confrontação entre homem e besta (esta expressão não é usada com sentido depreciativo). No restante, as cenas bélicas possuem momentos de luta verdadeiramente excitantes, onde podemos observar setas a passar a milímetros dos alvos, ou uma verdadeira orgia de sangue que ilustra os costumeiros terrores da guerra. Merece igualmente um destaque especial o interessante duelo travado entre “Akbar” e o seu rival “Sharifuddin”, que pela envolvência e própria técnica de manejo das lanças, traz à memória a luta entre Aquiles e Heitor, no filme “Tróia”, de Wolfgang Petersen.

A banda-sonora, da autoria do mestre A.R. Rahman, exibe-se ao nível do que já nos habituamos, ou seja, bom. Destaco a música fenomenal “Azeem O Sham, Shahenshah”, que inclusive faz também parte da banda-sonora da novela brasileira “O Caminho das Índias”. Possui um pendor épico que se ajusta na perfeição ao ambiente da película, e que eleva imenso a réstia de heroísmo que, em maior ou menor medida, reside em cada um de nós. Ao contrário de algumas críticas que podem ser consultadas na internet, corroboradas por prémios que os principais actores venceram em certames de cinema, entendo que os intérpretes não denotam nada de transcendente na sua actuação. É certo que a beleza do outro mundo de Aishwarya Rai é sempre uma mais-valia imprescindível, para além do facto de a conceituada actriz conseguir arrancar alguns bons momentos durante esta longa-metragem. Igualmente Hrithik Roshan demonstra ter estampa para desempenhar o papel do imperador “Akbar”, e consegue cativar a audiência, assumindo uma figura de um homem duro, mas bom e justo. Uma muralha de pedra que se desmorona perante os inegáveis encantos de Rai. No entanto, é preciso reafirmar que estamos perante prestações ditas normais dos citados actores, sem demasiada elevação. Se existe algo que ressalta à vista, e aspecto que reconheço imprescindível nesta obra, é a inegável química que existe entre Rai e Roshan.


“Jodhaa Akbar” tem como predicados positivos a exposição de uma história de amor que encanta, a fricção política que ocorre sempre que se tenta quebrar com o instituído e as cenas das batalhas verdadeiramente fenomenais. Mas acima de tudo, e saúda-se o trabalho que vários filmes de “Bollywood” têm demonstrado neste particular, “Jodhaa Akbar” passa uma mensagem assaz positiva de tolerância religiosa e étnica. Tenta-se demonstrar que é possível e desejável uma reconciliação e aceitação mútua entre hindus e muçulmanos, numa desejada união entre todo o povo indiano, independente de credos ou costumes. Contudo, “Jodhaa Akbar” desilude um pouco, pois por vezes não consegue fugir dos trilhos do previsível ou da superficialidade. Embora se entenda que o mundo de sonho, normalmente domina a cultura do espectro de “Bollywood” (embora existam exemplos em que tal não sucede), falta credibilidade em alguns momentos da obra de Gowariker. E muitas vezes são estes parâmetros que distinguem uma obra grandiosa de um bom filme. “Jodhaa Akbar” fica-se pelo último espectro.

Aconselhável!


"A corte Mughal celebra a grandeza do seu imperador"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8,13




sexta-feira, junho 12, 2009

Origem: Índia
Duração: 113 minutos
Realizadora: Mira Nair
Com: Shafiq Syed, Hansa Vital, Chanda Sharma, Raghuvir Yadav, Anita Kanwar, Nana Patekar, Irrfan Khan, Raju Barnad, Chandrashekhar Naidu, Sarfuddin Quarrassi, Mohanraj Babu, Sanjana Kapoor
"Krishna"
Sinopse
Depois de “Krishna” (Shafiq Syed) pegar fogo à mota de um cliente do irmão, a sua mãe envia-o para trabalhar num circo, deixando claro que este não poderá voltar para casa enquanto não arranjar 500 rupias como forma de compensação pelo sucedido. Após algum tempo a trabalhar no circo, “Krishna” é abandonado pelo seu patrão. Desesperado, resolve comprar um bilhete de comboio para a cidade mais próxima, que é Bombaim (actual Mumbai).
"Sola Saal Aka Sweet Sixteen"

Chegado à grande cidade, “Krishna” ajudado por “Chillum” (Raghuvir Yadav) um pequeno traficante de droga, começa a trabalhar para um vendedor de chá, numa das zonas com mais prostituição em Mumbai. Após a chegada de “Sola Saal Aka Sweet Sixteen” (Chanda Sharma), uma jovem nepalesa virgem, que foi comprada para se prostituir, “Krishna” descobre um novo sentimento, o amor. Após uma gorada tentativa de resgate, “Krishna” perde o seu emprego. A vida piora quando “Krishna” para além de ter de trabalhar em vários biscates, tem de tomar conta de “Chillum”, que também foi despedido e tem graves problemas de toxicodependência. O dia-a-dia na pobreza miserável de Mumbai, rodeado de prostitutas, chulos e traficantes, torna-se cada vez mais insuportável.

"Krishna observa Sola Saal"

"Review"

Premiado em vários certames de cinema mundiais, incluindo Cannes, assim como granjeou uma nomeação para os óscares de Hollywood (a 2ª de um filme indiano, 30 anos após “Mother India”), “Salaam Bombay!” é justamente considerada uma das obras mais emblemáticas do cinema indiano. Vinte anos antes do aclamado “Slumdog Millionaire”, Mira Nair corporizaria um filme que analisava com grande detalhe, o dia-a-dia carregado de infortúnios das crianças que sobrevivem nas ruas de Mumbai. É por demais nítido que o filme de Danny Boyle bebeu alguma inspiração em “Salaam Bombay!”, e não existe razão nenhuma para que se envergonhe acerca deste facto. “Salaam Bombay!” constituiu a película de estreia de Mira Nair, e atenta a qualidade desta longa-metragem, augurava-se um bom futuro para a realizadora indiana. Poder-se-á afirmar que, regra geral, Nair não defraudou as expectativas em obras posteriores.

O filme é justamente dedicado a todas as crianças pobres que deambulam pelas eclécticas e perigosas ruas de Mumbai, como Nair faz questão de salientar no epílogo da película. E nada melhor do que recrutar alguns dos actores principais, directamente nas ruas da grande cidade, de forma a impregnar o maior realismo possível à película. Foi precisamente isto o que aconteceu, aspecto que viria igualmente a ser imitado por Danny Boyle. Nair juntou um grupo de crianças de Mumbai e partilhou com elas as suas experiências quotidianas, visitando os inúmeros bazares existentes na cidade, as suas estações de comboio e ruas quase inteiramente dedicadas à prostituição e tráfico de droga. Desta vivência pessoal da realizadora, nasceu o argumento de “Salaam Bombay!”. Os miúdos, por sua vez, foram ensinados não a representar, pois Nair queria que eles agissem o mais naturalmente possível, mas sim a sentirem à vontade perante uma câmara de filmar. Por sua vez, nenhuma cena foi rodada dentro de um estúdio. Tudo se passa nos cenários que a realizadora pretende expôr, ou seja, as próprias ruas de Mumbai. Inclusive, algumas das cenas foram filmadas com câmaras escondidas, de forma a captar as reacções normais dos habitantes. A cena da procissão funerária é um dos exemplos. O resultado foi uma obra que tanto tem algum espírito de documentário, como elementos de um drama extremamente poderoso.

"Baba e Rehka"

“Salaam Bombay!” não é um típico filme de “Bollywood”. Muito pelo contrário. Rompe totalmente com as convenções do género, e de certa forma chega a parodia-las. É certo que nos é mostrado a grande importância que o cinema tem para os indianos, principalmente no entretenimento que proporciona à população, fazendo-a esquecer dos problemas do dia-a-dia. Contudo, “Salaam Bombay!” foca-se na realidade, sem grandes presunções ou subterfúgios, aniquilando por completo o mundo de sonho e o escape à realidade, típico das obras de “Bollywood”. Isto provoca algum celeuma quando hoje em dia, os realizadores mais rebeldes da meca do cinema indiano, decidem enveredar por este caminho. Imagine-se há mais de 20 anos atrás! Um reflexo típico desta premissa presente em “Salaam Bombay!”, passa por não termos as costumeiras músicas e danças, tão típicas de “Bollywood”. O que nos é apresentado são as crianças a delirar com os filmes, e traulitando alegremente as músicas que ouviram, à semelhança de alguns de nós quando estão no duche.

As crianças actuam a um nível bastante elevado, talvez pelo facto de estarem a ser elas mesmas nas ruas que tão bem conhecem. A sua inexperiência não se nota minimamente, e é bem temperada com os actores mais experientes, salientando-se um fenomenal Raghuvir Yadav, que brilha imenso como “Chillum”, em especial nas crises provocadas pela falta de droga. É com grande pena minha que não vejo estas crianças prosseguirem uma bem sucedida carreira como actores, e subsequentemente terem condições de fartura para terem uma vida bem melhor. Pelo mesmo caminho, parecem ir os petizes de “Slumdog Millionaire”. Imagine-se que Shafiq Syed, o actor principal de “Salaam Bombay!”, supostamente vive como condutor de um riquexó em Bangalore (ver mais AQUI)!

“Sallam Bombay!” é uma obra incontornável para todos aqueles que queiram conhecer a Índia profunda e o seu cinema. Aliás, é uma película imperdível para qualquer um que viva para o que de melhor que a sétima arte tem. Revela ser uma lição de vida enternecedora, dada à tela por uma das maiores realizadoras provenientes da Ásia. Para além dos aspectos mais cinematográficos, onde se incluem um argumento acima da média e uma envolvência brutal, temos sempre a possibilidade de aprimorarmos a nossa cultura acerca de uma das sociedades mais fascinantes e intrigantes do mundo.

Obrigatório!


"Krishna ampara um desesperado Chillum"

The Internet Movie Database (IMDb) link

3 clips do filme

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






sábado, fevereiro 21, 2009

Cheating/Hera Pheri - हेरा फेरी (2000)

Origem: Índia

Duração: 144 minutos

Realizador: Priyadarshan

Com: Akshay Kumar, Sunil Shetty, Paresh Rawal, Tabu, Gulshan Grover, Kulbhushan Kharbanda, Om Puri, Mukesh Khanna, Sulabha Arya, G. Asrani, Dinesh Hingoo, Mushtaq Khan, Kashmira Shah, Namrata Shirodkar, Snehal Dabi

"Baburao"

Sinopse

“Shyam” (Sunil Shetty) é um jovem que parte da sua vila para Calcutá, de maneira a tentar arranjar um emprego no banco onde o falecido pai trabalhou. O rapaz assenta a sua pretensão no facto do progenitor ter morrido num incêndio de uma sucursal do banco, fazendo com que esta instituição tenha uma dívida para com a família. Cedo, “Shyam” descobre que não está sozinho na luta pelo lugar, pois “Anuradha” (Tabu), cujo pai faleceu no mesmo incêndio, também pretende o emprego. No meio de discussões sobre qual dos pais morreu primeiro, “Shyam” tenta descobrir um sítio onde morar, e acaba por ir ter com “Baburao” (Paresh Rawal), um excêntrico e alcoólico dono de uma oficina chamada “Star Garage”, conseguindo aí um quarto.

"Shyam"

Os problemas não acabam, pois “Shyam” tem de partilhar a casa e também um pouco da sua vida com “Raju” (Akshay Kumar), um aldrabão nato cujo sonho é ganhar dinheiro fácil para subir na vida. Partilhando todos de imensas dificuldades financeiras, a sorte parece mudar quando numa noite de bebedeira, recebem um telefonema por engano, devido a uma troca de linhas. “Kabira” (Gulshan Gover), um terrível criminoso, raptou a neta do milionário “Deviprasad” (Kulbhushan Kharbanda), e exige uma fortuna como resgate. Muito por incentivo de “Raju”, os três decidem fazer-se passar pelos raptores, pedindo o dobro do dinheiro do resgate a “Deviprasad”, tencionando entregar o pedido pelos criminosos e a neta ao milionário. No meio do pouco ortodoxo esquema, escusado será dizer que muita confusão irá degenerar!

"Shyam, Baburao e Raju"

"Review"

“Hera Pheri” é um “remake” do filme de 1989, denominado “Ramji Rao Speaking”, cujo história o realizador Priyadarshan apreciou imenso. Estava dado o mote para que uma das comédias mais bem sucedidas do universo de “Bollywood” visse a luz do dia. O “frisson” viria a dar origem a sequelas, supostamente com uma qualidade inferior em todos os aspectos ao filme que agora se analisa. Neste aspecto, não me pronunciarei, pois assim como descobri “Hera Pheri” recentemente, desconheço por completo as restantes películas que compõem a saga e em que moldes saíram.

Por natureza, eu sou daquele tipo de espectador que não é atreito a comédias e este filme destina-se essencialmente àquelas pessoas que gostam de rir. Não é uma obra propriamente dita de humor inteligente ou mais cerebral. Constitui, isso sim, uma mais versada em pessoas reais, que vivem situações perfeitamente “surreais”. Quando visionei esta película, e ressalvadas as devidas distâncias, ocorreu-me à ideia por vezes as longas-metragens de Emir Kusturica, onde o grande realizador frequentemente parodia os costumes dos ciganos de leste. Em “Hera Pheri”, apesar de termos como fio condutor da trama as desastradas aventuras do trio de amigos, verdadeiramente as situações que nos fazem rir a bandeiras despregadas é a ridicularização dos problemas sociais e alguns aspectos culturais da Índia. Pelo exposto, por vezes senti-me algo frustrado por ainda não ter conhecimentos suficientes acerca da vivência naquele país, de forma a apreciar melhor o “nonsense” presente. E acreditem que é bastante!


"O telefonema da confusão"

Quanto à representação, sempre se dirá que o “quebra-corações” Akshay Kumar e Sunil Shetty exibem-se num nível aceitável. Mas sem dúvida absolutamente alguma que o mérito terá de ir quase todo para Paresh Rawal, no papel do alcoólico inveterado e míope “Baburao”. É ele quem verdadeiramente faz as despesas cómicas de “Hera Pheri”, e conseguiu arrancar-me saudáveis gargalhadas. Imperdíveis as situações em que tenta apartar as constantes brigas entre os seus dois companheiros interpretados por Khumar e Shetty , ou que devido à perda dos seus óculos causa situações mirabolantes. Rawal é bem secundado pelo histórico actor Om Puri, que interpreta “Karakh Singh”, um homem de bom coração, que se encontra desesperado por não poder casar a sua irmã, devido a “Shyam” não ter meios para pagar o dinheiro que lhe deve.

No que respeita às inevitáveis músicas, as mesmas não se encontram, nem de perto, nem de longe, ao nível de outras produções de “Bollywood” que tive a felicidade de ver. No entanto, sempre se encontram impregnadas de uma alegria contagiante que auxilia bastante o ritmo do filme. Um “quid” sem dúvida nenhuma é a presença da belíssima Namratha Shirodkar, a Miss Índia de 1993, na melhor música da película “Tun Tunak Tun”! Um regalo para a vista!

“Hera Pheri”, embora longe de merecer a aclamação obtida (exteriorizada, entre outros aspectos, na super inflacionada nota do IMDb), constitui uma película que conseguirá descontrair o espectador, e por vezes arrancar umas valentes gargalhadas, devido a um humor ingénuo mas cativante!

Não perdem nada em verificar!


"Os três amigos"

Cena do filme

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50




segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quarta-feira, outubro 01, 2008

The Heart Wants Aka Do Your Thing/Dil Chahta Hai - दिल चाहता है

(2001)


Origem: Índia


Duração: 185 minutos


Realizador: Farhan Akhtar


Com: Aamir Khan, Saif Ali Khan, Akshaye Khanna, Preity Zinta, Dimple Kapadia, Sonali Kulkarni, Ayub Khan, Rajat Kapoor, Suhasini Mulay, Samantha Tremayne


"Da esquerda para a direita, Akash, Sameer e Siddhart"

Sinopse

“Akash” (Aamir Khan), “Sameer” (Saif Ali Khan) e “Siddhart” (Akshaye Khanna) são amigos inseparáveis há mais de dez anos, e fazem a sua vida praticamente toda em conjunto. Um sentimento de irmandade une os três rapazes, num elo que parece impossível de quebrar. Com vinte e poucos anos, licenciaram-se há pouco tempo e está a chegar a altura de tomar grandes decisões que regerão a sua vida futura. Contudo os amigos não parecem muito preocupados com este aspecto, pois todos eles são oriundos de famílias de classe média alta e o dinheiro não é problema.

Verdadeiramente o que lhes mexe com a cabeça é a sua vida romântica e a dificuldade que todos têm em encontrar uma relação estável. “Akash” é um homem que gosta de gozar tudo o que de bom a vida tem para dar e não leva nada a sério. Observando a forma como os relacionamentos dos seus amigos correm mal, ele acaba por acreditar que o verdadeiro amor não existe. “Sameer” é o ingénuo do grupo e aquele que se apaixona todas as semanas por uma rapariga diferente. Não possui muita maturidade e a sua instabilidade emocional é o resultado lógico deste factor. “Siddhart”, mais conhecido por “Sid”, é o ponderado do grupo e de longe o mais calmo.


"Akash e Shalini"


No entanto, “Sid” conhece “Tara” (Dimple Kapadia), uma mulher quinze anos mais velha, e através do gosto de ambos pela pintura, acabam por se apaixonar. Sendo um relacionamento pouco convencional, e mal visto perante a sociedade indiana, o mesmo parece estar fadado ao malogro. “Akash” tenta chamar o amigo à razão, mas ambos discutem seriamente e afastam-se um do outro, deixando “Sameer” numa posição difícil e desprotegida.


“Akash” vai para Sidney na Austrália tomar conta do negócio do pai e ao contrário dos seus planos, apaixona-se por “Shalini” (Preity Zinta) e acaba por se convencer que o amor efectivamente existe. A “Sameer” tentam impingir “Pooja” (Sonali Kulkarni) num casamento tradicional arranjado. Contudo, o rapaz acaba efectivamente por se sentir atraído por “Pooja”. “Sid” tenta proteger o seu amor por “Tara”, mas os condicionalismos pessoais e sociais não lhe dão tréguas. No meio disto tudo, sobreviverá a grande amizade que une os três jovens ?


"Pooja e Sameer"


"Review"


“Dil Chahta Hai” foi a feliz estreia do realizador Farhan Akhtar e baseou-se nas viagens de juventude que o realizador fez a Goa, assim como numa estadia de mês e meio que o mesmo gozou em Nova Iorque. Por sua vez, a personagem maluca de “Akash” foi baseada nas interessantes histórias de um amigo do realizador. A película revelou ser um estrondoso exito na Índia, principalmente nas áreas mais urbanas, tendo passado em festivais de cinema internacionais tais como Palm Springs ou Austin. É com muita propriedade e mérito considerada uma das melhores obras do cinema de “Bollywwod” de sempre, estando por este motivo extremamente bem cotado no IMDb. Antes de adquirir o dvd, fiquei muito impressionado com as maravilhas que se diziam desta longa-metragem. Admiravelmente, não encontrei uma única opinião menos abonatória. Sendo assim, estava lançado o mote para mais uma aquisição extremamente cuidadosa, factor que levo sempre em grande linha de conta quando me aventuro pelo cinema de Mumbai.


“Dil Chahta Hai” reflecte muito bem a orientação actual do cinema de “Bollywood”, em contraposição com as obras mais clássicas. Aqui estamos perante mais uma película que aborda as desventuras amorosas de jovens indianos modernos e urbanos, pertencentes a famílias abastadas e amantes da boa vida e do divertimento. Já disse isso aqui antes, e volto a insistir nesta ideia. O cinema indiano, em especial a sua facção mais representativa, o de Mumbai, está a mudar a olhos vistos e para melhor. Uma das explicações mais convincentes para esta mudança, passará pela séria aposta que está a ser feita no mercado internacional, em especial o norte-americano e o britânico, o que obrigará a realizar películas que sejam mais atractivas aos olhos dos ocidentais. A própria sociedade indiana está a mudar pelas mãos dos jovens, que já não estão tão dispostos a aceitar tradições que consideram ultrapassadas e um obstáculo ao desenvolvimento do seu país. Lutam pela mudança sócio-económica e este factor terá de obrigatoriamente reflectir-se na cultura.


Com uma história simples, mas extremamente bem construída, “Dil Chahta Hai” transformou-se num sério caso e poderá almejar a ser um dos melhores filmes asiáticos realizados em 2001. No seu coração, reside esta novo modo de vida dos jovens indianos, onde nos é apresentada de uma forma particular os seus sucessos, ambições, falhanços e tudo o mais que reflicta o seu dia-a-dia. Como é normal e previsível, a irreverência marca bastante a sua presença. A mesma reflecte-se em vários aspectos do filme, desde as brincadeiras e situações “malucas” que os amigos vivem, passando por assuntos mais sérios como a resistência aos “casamentos arranjados” que ainda fazem parte do quotidiano da Índia. Temos aqui um exemplo feliz do digladiar dos jovens com as tradições, de que falei mais acima. Já anteriormente, quando analisei o excelente “Rang De Basanti” neste espaço, tive a oportunidade de aflorar estas questões, conquanto aquele filme envereda um pouco pela linha de “Dil Chahta Hai”, embora seja bastante mais politizado.


Apesar do importante cariz sócio-cultural desta película e que acima tentei expôr, o mesmo constitui apenas um veículo para algo mais significativo. Antes de tudo e em primeira linha, “Dil Chahta Hai” é acerca da descoberta da maturidade, da defesa incondicional da amizade e da eterna busca do amor. Dito desta forma, parece que estou a falar de mais um filme pindérico, que usa e reveza a lágrima fácil e que provavelmente ainda será um “American Pie” indiano, se adicionássemos umas doses de comédia, alguma de mau gosto. Não, não é nada disso! “Dil Chahta Hai” é um clássico com qualidade, e todos aqueles que tivere(a)m a felicidade de visioná-lo, com certeza que se lembrarão do filme daqui a uns anos. Porquê que isso acontecerá? Esta resposta é fácil. Devido ao facto de todos nós nos identificarmos de uma forma ou de outra, com alguma situação ou personagem da película, e de forma bastante marcante, diga-se de passagem! Visionar “Dil Chahta Hai” foi retornar aos tempos em que acabei a licenciatura, e deparou-se um mundo novo para mim, que sempre lá esteve mas que eu não entendia. Foi o valorizar exacerbado das amizades quando as mesmas se afastaram geograficamente, e a saudosa nostalgia dos amores de juventude, onde não haviam impossíveis e a frieza de raciocínio parecia um monstro que era imperioso abater quando contendesse com qualquer tipo de sentimento.


"A espalhar a boa disposição e o ritmo na festa de final do curso"


O elenco faz um trabalho bastante meritório e que em certas alturas chega mesmo a deslumbrar, embora não com muita continuidade. Percebo agora definitivamente o porquê de Aamir Khan ser considerado dos actores mais emblemáticos da Índia, ultrapassando em muitos aspectos a fama do próprio Shahrukh Khan, talvez o actor mais conhecido de “Bollywood”. A sua “performance” dá alegria e boa disposição à película, e quando é necessário consegue cumprir com os momentos mais sérios. Já tinha ficado bem impressionado com Saif Ali Khan em “Omkara”, onde o actor tem uma actuação simplesmente brilhante. Estranhei vê-lo aqui num papel completamente distinto e menos circunspecto, mas a versatilidade de Ali Khan é algo de louvar. Nunca tive a oportunidade de apreciar anteriormente o trabalho do actor Akshaye Khanna, embora tenha consciência que se trata duma personagem muito considerada no espectro de “Bollywood”. É por ele que passa bastante a classe de “Dil Chahta Hai”, no papel de um maturo e idealista “Sid”. As interpretações femininas estão ligeiramente abaixo do desempenho dos actores atrás mencionados. Contudo, é um prazer desfrutar das sólidas actuações da super-estrela Preity Zinta e da experiente Dimple Kapadia, uma actriz que teve grande popularidade no fim dos anos '70 e anos '80. Por sua vez, Sonali Kulkarni é uma cara bonita, que está lá para dar “charme” e “glamour” ao filme, mas pouco mais.


Como é curial, mesmo tratando-se de uma longa-metragem que quebra com o corrente em “Bollywood”, temos de nos referir à banda-sonora de “Dil Chahta Hai”. A propalada marca da irreverência reflecte-se na música e na dança, em especial “Woh Ladki Hai Kahan”, que satiriza um pouco o cinema de “Bollywood” mais tradicional. Mas a música que verdadeiramente marca e transmite o essencial, associada à sequência de cenas, é “Dil Chahta Hai” do mesmo título da película. Das primeiras vezes que observei o “clip” parecia uma coisa corriqueira, sem nada de de especial que se apontasse. Quando visionei o filme, digo que a melodia e a sequência das imagens não poderiam estar melhor inseridas. Comecei a apreciar a melodia com atenção, e posso-vos hoje dizer sinceramente que colhe imenso o meu agrado. Como normalmente os filmes indianos não possuem “trailers” elaborados a não ser que se internacionalizem de forma séria, no sítio onde costuma estar o “link” para a apresentação, figurará a ligação para o sentido “clip” de “Dil Chahta Hai”.


Os que nunca viram um filme de “Bollywood”, principalmente por uma natural desconfiança na qualidade deste cinema, podem arriscar à vontade em “Dil Chahta Hai”. Para além de ser uma das melhores obras provenientes da meca do cinema indiano, é uma película enternecedora, de elevadíssima qualidade, que vos fará chorar, rir e acima de tudo sonhar com a vida real, e não recorrendo a uma qualquer fantasia. Trata-se talvez da melhor longa-metragem que já vi no que toca à exploração da amizade entre jovens, e uma das mais emblemáticas no que toca à abordagem do amor. Terá o condão de vos fazer pensar em perder o orgulho e ligar àquele amigo com quem tiveram uma desavença estúpida, ou a ir correr para os braços daquela rapariga que afinal perceberam o quão facilmente vos mexia com os sentimentos.


Poucos filmes de três horas e pouco costumam passar tão rápido, por isso o mesmo será dizer que não se deve perder esta obra fenomenal!!!


"Três sombras unidas nas praias de Goa"


"Dil Chahta Hai" videoclip


The Internet Movie Database (IMDb) link


Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50







sábado, junho 21, 2008

Omkara - ओमकारा (2006)
Origem: Índia
Duração: 152 minutos
Realizador: Vishal Bharadwaj
Com: Ajay Devgan, Saif Ali Khan, Kareena Kapoor, Konkona Sen Sharma, Naseeruddin Shah, Vivek Oberoi, Bipasha Basu, Deepak Dobriyal, Manav Kaushik, Kamal Tiwari, Pankaj Tripathy
"Omkara e Dolly"

Sinopse

“Dooly” (Karena Kapoor) é raptada a caminho do seu casamento, e o seu pai, o conhecido advogado “Mishra” (Kamal Tiwari), decide apresentar queixa à mais poderosa personalidade da zona, o político “Bhaisaab” (Naaseruddin Shah). Este convoca o raptor e ao mesmo tempo o seu braço armado, o destemido “Omkara” (Ajay Devgan). A reunião serve apenas para descobrir que afinal “Dooly” foi ter com “Omkara” de livre vontade, pois existe um grande amor entre os dois. Repudiada pelo pai, a rapariga vai viver para a casa da sua paixão, e ambos encetam os preparativos para o aguardado enlace.

Com a eleição de “Bhaisaab” para o parlamento nacional, “Omkara” é escolhido para ser o comandante regional do político, e torna-se assim a personagem mais influente do burgo. Contudo, “Omkara” vê-se face a uma difícil situação, que passa por escolher para seu sucessor, um dos seus dois lugares-tenentes. De um lado, temos “Langda” (Saif Ali Khan), um ser tortuoso que acompanha “Omkara” há 15 anos; do outro, está o educado e mulherengo “Keshu”, que acaba por ser o nomeado.

"Keshu e Billo"

“Langda” sente-se profundamente despeitado, pois estava convencidíssimo que o eleito seria ele. Cedo começa a conspirar contra “Keshu”, de forma a retirar-lhe o lugar que tanto ambicionava. O plano passa por envenenar progressivamente o espírito de “Omkara”, no sentido de o convencer que “Keshu” mantém um romance proibido com “Dolly”. “Omkara” começa a ser persuadido pelas maquinações de “Langda” e a tragédia cada vez mais é anunciada...

"Langda"

"Review"

Ao longo da história do cinema, foram feitas inúmeras adaptações das peças de William Shakespeare, algumas extremamente interessantes como “Henrique V”, realizado e protagonizado pelo norte-irlandês Kenneth Branagh. Existe sempre um grande risco em passar para o grande ecrã as narrativas do dramaturgo de Stratford-upon-Avon , pois quanto a mim subsistirão sempre textos que resultarão melhor nos palcos do teatro. Quando me deparei com “Omkara”, a minha curiosidade foi extremamente sobrelevada, essencialmente devido à frase que ilustrava a capa do filme, a saber, “A Vishal Bhardvaj Adaptation of Shakespeare's Othello”. Comecei a pensar cá para os meus botões que aqui poderia estar eventualmente uma experiência deveras interessante, sobretudo pelo aliar das características do cinema de Mumbai (antiga Bombaim) no que concerne ao drama, com a sensibilidade erudita e inteligente de Shakespeare.

É igualmente justo que vos diga, e isto agora representa um desabafo, que a certa altura tomei como ponto de honra diversificar ao máximo o conteúdo temático do “My Asian Movies”, tendo sempre por norte o cinema asiático (como nunca poderia deixar de ser!). O objectivo, acima de tudo, é tornar este espaço o mais completo possível, tendo consciência que o caminho ainda é longo, e que tal implica um constante descobrir e redescobrir. Consequências práticas desta premissa: não me cingir apenas ao cinema proveniente de Hong Kong, China, Coreia do Sul, Japão e Tailândia e diversificar ao máximo os géneros aqui expostos, o que implica ir desde o “swordplay” até ao terror. O cinema da indústria de “Bollywood” tem aparecido amiúde neste espaço, um pouco no surgimento das ideias anteriormente expostas. Eu, à semelhança de provavelmente a maior parte de vós, sempre tive uma desconfiança natural deste segmento da sétima arte. Mas tentando vencer preconceitos instalados, e à semelhança de uma criança que vai dando os primeiros passos, comecei a expandir os horizontes de forma a que pudesse acolher este ilustre representante do cinema oriental. Como confesso que não tenho muitas referências de “Bollywood”, antes de adquirir alguma película, procedo a uma investigação mais apurada do que o normal e em função da mesma, tomo uma opção que pretendo consciente. Tenho tido alguma sorte, e ao escolher as obras mais conhecidas dos últimos dez anos para cá, têm-me parado às mãos filmes que nunca são inferiores ao “Bom”. E isto tem contribuído para que a minha ideia acerca do cinema de Mumbai esteja a ser alterada num sentido positivo. Acrescentando ao facto de “Omkara” ser, como já foi aludido, uma adaptação de “Othello”, com todas as suas implicações, sempre se dirá que o trailer era apelativo e as críticas em geral elogiosas. A exibição do filme em Cannes fez o resto. Este era o próximo cavalo de “Bollywood” em que eu apostaria!

Valeu a pena? Desde já adianto que sim. No entanto, não constitui uma película que possa almejar o panteão dos deuses, que apenas está reservado a alguns. O realizador Vishal Bharadwaj a nível da trama manteve-se fiel ao argumento original, sem apresentar grandes inovações. O que de meritório se lhe poderá atribuir, foi ter efectuado um trabalho extremamente interessante na adaptação da peça à realidade indiana, criando uma harmonia que não será assim tão fácil de conseguir. A bem sucedida experiência anterior com “Maqbool”, uma adaptação de “Macbeth” (outra grande obra de Shakespeare) terá de alguma forma contribuído para que este aspecto em particular tenha sido bem sucedido. Assim como “Othello” era um general mouro do exército veneziano, “Omkara” é um meia casta, que lidera o braço armado do partido de “Bhaisaab”. Ambos são seres pouco convencionais, que detêm posições poderosas num mundo que lhes é de certa forma estranho. A felicidade parece finalmente chegar, envolta num grande amor. No entanto seres como “Othello” e “Omkara” nunca poderão ter descanso, estando fadados à tragédia. Podemos com facilidade descobrir paralelos.

"Dolly sente a frieza de Omkara"

Outro factor a elogiar será a audácia. Passo a explicar. No campo da cinematografia de Mumbai, existem certas regras (consuetudinárias, ou seja que derivam do costume, embora não escritas) que forçosamente a esmagadora maioria dos filmes cumprem, sob pena de serem mal aceites pelo público autóctone. É acima de tudo uma questão cultural e sociológica. “Omkara” rompe barreiras ao expôr um tema negro, traduzido por diversas vezes numa linguagem agressiva que afastou bastantes pessoas no seu país natal, mais habituado a um tratamento leve que apenas carrega nos habituais epílogos trágicos do costume. Frases como “Se eu sou um mentiroso, então sou um filho de um cão. Se estou a falar a verdade, então sou o amante da tua mãe.”, constituem um arrojo que ultrapassa as fronteiras do admissível em Mumbai. Neste particular, aconselho-vos a ler este artigo do “Times” da Índia, sugestivamente intitulado “Families stay away from Omkara”. Pelo contrário, esta longa-metragem conseguiu um sucesso apreciável no exterior, onde além de ter tido o já aludido privilégio da exibição em Cannes, figurou no top 10 das bilheteiras do Reino Unido. Igualmente conseguiu ser notada na Austrália, África do Sul e E.U.A.

A banda-sonora é simplesmente espectacular. Está sem dúvida num nível superior. Eu de facto ando a sofrer algumas transformações nos meus gostos artísticos, e isto reflecte-se em vários aspectos. Há uns anos atrás, eu era perfeitamente incapaz de ouvir uma música de “Bollywwod”que fosse. Conclui que andava era a ver os filmes errados, ou seja, a vertente “xunga” de Mumbai. Como dizia o outro “não negue à partida uma ciência que desconhece". As películas de qualidade de “Bollywood”, costumam igualmente ter bandas-sonoras de gabarito. É forçosamente que assim seja, devido à sobejamente conhecida interpenetração existente entre os filmes e as melodias. No caso particular de “Omkara”, é de salientar a música “Beedi” cujo vídeo podem ver aqui (ou em alternativa ir ao recente “post” de 15 de Junho) e a que mereceu o nome do protagonista principal do filme “Omkara”. Relevo ainda o facto de a banda-sonora não ser exclusivamente composta por músicas “à la Bollywood”. Existem arranjos orquestrais muito poderosos, que com certeza tinham como propósito homenagear a fonte de onde o filme bebe.

As interpretações são meritórias. Mas ao contrário do que se poderia pensar, quem brilha verdadeiramente não é Ajay Devgan ou Karena Kapoor. Sem dúvida a estrela é Saif Ali Khan, que interpreta o infame “Langda” (o equivalente a “Iago” de “Othello”). O seu ar rancoroso, mas ao mesmo tempo bruto, crú e viperino inundam o ecrã, e apenas é ofuscado pela estonteante beleza de Bipasha Basu, que é sem margem para qualquer dúvida, uma das mulheres mais lindas que já vi em toda a minha vida!

O que verdadeiramente não está à altura dos restantes aspectos, é o epílogo do filme. Esperava-se algo mais grandioso e significativo. Ficamos apenas por algo extremamente dramático, mas de certa forma sensaborão e rotineiro. Se haverá aspectos que o cinema de Mumbai tem de melhorar, sem fugir obviamente a sua matriz natural, é reinventar os aspectos do “puxar a lágrima ao olho. É necessário um pouco mais de arte e menos de “piroseira”.

Imbuída de um tom emblemático muito próprio e dotada de uma fotografia sem dúvida acima da média, “Omkara” é mais uma obra proveniente de “Bollywood” bastante recomendável. Longe de roçar a perfeição, valerá pela feliz reunião das características dramáticas de eleição “shakesperianas”, com a tragédia muito própria do cinema de Mumbai. E dos diálogos, sempre se aproveitará alguma coisa de útil para a vida. Neste particular, o que eu retive foi que “as apostas devem ser feitas em cavalos. Nunca em leões!”

A ver!

"O poderoso Bhaisaab e Omkara, na passagem do testemunho"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





quinta-feira, abril 10, 2008

Paint It Yellow/Rang De Basanti - रंग दे बसंती (2006)

Origem: Índia

Duração: 171 minutos

Realizador: Rakeysh Omprakash Mehra

Com: Aamir Khan, Alice Patten, Soha Ali Khan, Kunal Kapoor, Siddhart, Sharman Joshi, Atul Kulkarni, Sharman Joshi, Steven Mackintosh, Madhavan, Waheeda Rheman, Anupan Kher, Kiron Kher, Om Puri, Lekh Tandon, Cyrus Sahukar, Mohan Agashe, Pravishi Das
"O grupo de jovens amigos (da esquerda para a direita): Karan, DJ, Ajay, Sonia, Aslam e Sukhi"

Estória

A jovem, mas persistente realizadora de cinema “Sue McKinley” (Alice Patten), resolve viajar até à Índia, tendo em vista dar vida a um filme baseado no diário do seu avô “McKinley” (Steven MacKintosh), que foi um oficial do império britânico nos anos tumultuosos dos movimentos independentistas do país. A sua amiga “Sonia” (Soha Ali Khan) ajuda-a a encontrar os actores de que necessita para levar a cabo a curta-metragem, a saber, os estudantes da Universidade de Deli “DJ” (Aamir Khan), “Karan” (Siddhart), “Aslam” (Kunal Kapoor) e “Sukhi” (Sharman Joshi). Em breve junta-se ao grupo o nacionalista hindu “Laxman” (Atul Kulkarni), que no início não é muito bem vindo devido à sua ideologia política e à animosidade que sente para com “Aslam”, um muçulmano com uma veia poética.

Ao fim de algum tempo de rodagem, em que os jovens boémios começam a despertar a sua consciência de cidadania, um trágico evento ocorre. “Ajay” (Madhavan), o noivo de “Sonia” e piloto da força aérea indiana, falece num trágico acidente, quando despenha-se a bordo do caça modelo “Mig-21”. O governo atribui as culpas do sinistro a “Ajay”, e encerra a investigação, tentando ocultar os sinistros negócios que envolvem corrupção na compra de aviões defeituosos aos russos.

"Sue e DJ"

Descontentes com a situação, o grupo de amigos organiza um protesto contra o corrupto governo indiano, que é reprimido de forma extremamente violenta. Revoltados, os jovens decidem reavivar o espírito dos antigos combatentes pela liberdade do país e enveredam pela violência, ao assassinar o ministro da defesa indiano (Mohan Agashe). Para grande frustração de “DJ” e dos amigos, a imprensa manipulada considera o ministro um mártir e apelida-os de terroristas. Numa última tentativa de passarem a mensagem ao país, os estudantes tomam a estação de rádio “All India”. No entanto, o poder instalado tudo fará no sentido de a culpa morrer solteira...

"Ajay e Sonia"

"Review"

“Rang De Basanti” significa “pinta de amarelo”. Para nós, isto pode parecer à primeira vista uma frase sem significado nenhum, ou um devaneio de algum desequilibrado. No entanto, tudo se resume a uma primeira impressão e a uma questão cultural. Na Índia, quando alguém profere a frase em hindu “Main rang de basanti”, significa “pinta-me de amarelo (ou cor de açafrão)”. A expressão idiomática significa que a pessoa está disposta a sacrificar-se por uma grande causa, que considera maior do que o seu próprio ser.

Baseado num poema escrito por Dushyant Kumar, “Rang De Basanti” constituiu a proposta da Índia tanto para os “Globos de Ouro”, assim como para os “Óscares” de 2007, não vindo infelizmente a ser um dos cinco filmes seleccionados para o “round” final. Digo “infelizmente”, pois esta película possui uma grande qualidade, sendo para muitos um dos mais brilhantes filmes indianos jamais realizados. Sou obrigado a concordar, apesar de não conhecer tantas longas-metragens da cinematografia daquele país quanto isso. As razões, passo-as já a explicar.

Quando um país elege uma película do seu espólio cinematográfico, para representá-lo numa cerimónia da magnitude mundial como os “Óscares”, temos de partir do pressuposto que o filme em questão terá forçosamente de possuir alguma qualidade intrínseca. Mesmo admitindo que a cerimónia já não é o que era (principalmente por estar sujeita aos lóbis publicamente conhecidos), e que a nação em questão não costuma emanar obras que sejam muito do meu agrado. O positivo cartão de visita começa a ser mais sustentado, quando reparei que “Rang De Basanti” ostentava uma orgulhosa pontuação de 8.3 no IMDb, tendo por base um universo de 6.776 votos, o que já é um número aceitável para chegarmos a conclusões (embora tenhamos de ter em conta que muitos desses votos deverão ser indianos, assim como este povo é cioso e louvavelmente defensor da sua indústria cinematográfica). Quando reparei que o autor da banda-sonora é A.R. Rahman, e temos o conhecimento que o ilustre compositor indiano esteve 3 anos a configurar os normalmente maravilhosos sons com que nos brinda nas obras que intervém, a água começa a crescer na boca e decidi arriscar na aquisição do filme. Em boa hora o fiz, não só pelo facto da análise global que faço à película ser assaz positiva, mas também pelo facto de ter tido a sorte de adquirir uma edição com muito boa qualidade.

Para um leigo dito interessado como eu, que lamentavelmente nunca esteve na Índia, mas que recorre bastante à sua faceta de autodidacta, “Rang De Basanti” é, por diversos motivos, um interessantíssimo objecto de estudo. É um filme que lida com um manancial de aspectos, todos normalmente bem conjugados, e que se reconduzem essencialmente a factores sociológicos, culturais, históricos e políticos.

Na 1ª fase do filme, é-nos dada a conhecer a vivência de um grupo de jovens, que nos surpreendem pelo seu amor à cultura ocidental e pelo gosto descomplexado pela vida. A chave e diapasão consiste em viver o dia-a-dia como se fosse o último, não revelando esperança numa nação em que um futuro radioso parece ser uma quimera. Isto percebe-se quando “lhes foge a boca para a verdade”, a maior parte das vezes quando estão alcoolizados. É especialmente sintomático um debate de ideias significativo, que ocorre num bar, entre “Ajay” e o restante grupo. Os jovens pugnam pelo “No Better Tomorrow” (passe o trocadilho com a fenomenal saga de John Woo “A Better Tomorrow”), enfatizando verdades quase inquestionáveis tais como a Índia ser um país dominado pela pobreza e pela corrupção, em que apesar de um dia possuírem uma licenciatura, o mais certo é não terem uma oportunidade de singrarem. “Ajay”, estoicamente (como convém a um militar) e reconhecendo que de facto nem tudo está bem, afronta a crítica fácil e desafia cada um dos seus amigos a tentar pôr a sua marca no mundo. “Entrem para a administração...”, “Alistem-se no exército...”, “se não puderem fazer a mudança de dentro – nota: entenda-se a administração ou o exército - tentem fazê-la na rua, por amor ao vosso país...” . As discordâncias continuam, mas existem valores porventura mais altos tais como a saudável amizade que une os intervenientes, e que parece ser o suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. É uma fase de alegria, de amizade e amor, com um canto fácil e contagiante!

"DJ vence uma corrida tradicional de cavalos"

Quando as coisas começam a complicar-se com a morte de “Ajay”, a vertente mais descontraída e bem disposta do filme sofre um eclipse completo. Finda um cenário que até poderíamos considerar idílico atendendo às circunstâncias, e passamos a “coisas mais sérias”, passe a expressão. Como “quem não sente, não é filho de boa gente”, os jovens dão o grito de revolta e empregam uma luta social contra a política corrupta e injusta. A bandeira é “Ajay”, o mártir da causa, e o motor a rebeldia própria da juventude, agora canalizada para outras batalhas. O problema é que mesmo tendo a razão do seu lado, os inseparáveis amigos excedem-se nas suas acções. Já se está mesmo a ver que o final não vai ser feliz, fazendo “Rang De Basanti” jus ao estigma dos seus parentes de “Bollywood”.

A fotografia do filme é, para não variar, belíssima. Os cenários, também para não destoar, são uma coisa perfeitamente de outro mundo. O património arquitectónico e cultural da Índia e do oriente em geral, é extremamente difícil de bater, e “Rang De Basanti” faz questão de mostrar isso mesmo. Os constantes interlúdios com o passado, onde pontifica o avô de “Sue McKinley” estão expostos em tons “sépia”, característica que adoro. Porquê? Simplesmente porque o espectador interioriza muito melhor as analepses, embrenhando-se com mais densidade na estória que se pretende transmitir. A conjugação do passado e presente funcionam na perfeição, possibilitando ao mesmo tempo que o espectador faça as distinções necessárias de uma forma mais ágil e eficaz. No entanto, a interpenetração e a univocidade não deixam de estar presentes, mantendo a narrativa como um todo coeso. “Rang De Basanti” interpreta estes aspectos de uma forma bastante competente.

Os actores dão alma às suas interpretações, sendo de destacar o ídolo de “Bollywood” Aamir Khan, que representa uma personagem 15 anos mais nova (“DJ” tem 25 anos, e Aamir Khan 40). No entanto, a sua jovialidade natural, aliada a uns truques de cosmética, faz-nos concluir que dificilmente a escolha teria sido melhor. Confesso que fiquei um tanto ou quanto intrigado, pela razão que AR Rahman demorou 3 anos a elaborar a banda-sonora. Embora agradável, não possui a complexidade musical e de coreografias que outras obras apresentam, como por exemplo “Dil Se”, criticado há pouco tempo neste espaço. Aqui “Rang De Basanti” já não é o típico filme de “Bollywood”. As músicas existem, mas de uma forma convencional, como num filme dito mais corrente. E quando existe algo parecido com uma coreografia, as coisas acontecem de forma bastante natural. É como se nós estivéssemos todos num grupo de amigos, e decidíssemos relembrar músicas antigas e começar a cantar. Nada demais.

“Rang De Basanti” constitui uma proposta extremamente recomendável, mesmo para aqueles que desconfiam bastante das produções de “Bollywood” (muitas vezes com razão). Apesar de, como já foi anteriormente aludido, o filme não conseguir fugir a um inevitável fatalismo (um pouco forçado, admita-se), uma mensagem positiva é extraída. Não basta apenas criticar e baixar os braços. É absolutamente necessário lutar pelos nossos ideais, e a partir daqui digladiar pela mudança da sociedade para algo melhor. Nunca ninguém disse que iria ser fácil, mas igualmente não podemos deixar o pessimismo nos levar a pensar que tal é impossível... Acima de tudo, julgo, salvo melhor opinião, que “Rang De Basanti” é um apelo atractivo e sedutor à consciência dos jovens indianos, no sentido de fazerem algo pelo futuro do seu país. Não elogia as virtudes da Índia, até pelo contrário. Mas provocantemente, incute-lhes um orgulho nacionalista nada bacoco, suficiente para um verdadeiro “grito do Ipiranga”. Este espírito é ilustrado pela frase forte do filme: "Só existe duas maneiras de viver a vida: Aceitar as coisas tais como elas são, ou ter a coragem de as mudar."

Constitui até ao presente momento, a minha verdadeira “Passagem para a Índia”, embora não guiada por David Lean ;) !


"Grita liberdade!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25