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quinta-feira, agosto 27, 2009

Ghajini - घजनी (2008)
Origem: Índia
Duração: 186 minutos
Realizador: A.R. Murugadoss
Com: Aamir Khan, Asin Thottumkal, Jiah Khan, Pradeep Singh Rawat, Tinnu Anand, Riyaz Khan, Vibha Chhibber, Sunil Grover, Anjum Rajabali, Sonal Sehgal, Khalid Siddiqui, Kunal Vijaykar
"Sanjay Singhania"

Sinopse

“Sanjay Singhania” (Aamir Khan) é um milionário, presidente da companhia “Air Voice”, a maior empresa de comercialização de telemóveis em toda a Índia. O executivo de 31 anos sofre de uma doença rara, pois perde a memória de eventos e pessoas, após um período de 15 minutos. A razão para a sua maleita, deve-se a uma pancada forte que levou na cabeça, com uma barra de ferro, quando tentou salvar a sua namorada “Kalpana Shetty” (Asin Thottumkal) de ser assassinada. “Sanjay” não foi bem sucedido, e a rapariga é morta de uma forma impiedosa.

"Kalpana Shetty"

Em virtude deste facto, “Sanjay” embarca numa cruzada vingativa contra o gangster “Ghajini Dharmatma” (Pradeep Singh Rawat), o responsável pela morte de “Kalpala”. No entanto, devido aos seus problemas de memória, tem de se socorrer de um bloco de notas onde aponta factos cruciais e de uma máquina “polaroid” onde tira fotografias de pessoas e locais que lhe são importantes. Menos convencional, é o facto de “Sanjay” tatuar notas importantes no seu corpo, de forma a que a vingança e as razões para tal nunca sejam esquecidas.


"Sunita, a jovem estudante de medicina"

"Review"

Em 2005, A.R. Murugadoss realizaria um filme de seu nome “Ghajini”, que viria a ter algum sucesso no meio cinematográfico indiano, embora fosse uma obra do cinema Tamil, também conhecido por "Kollywood". Não custa relembrar que existe um erro recorrente, passando o mesmo por associar o cinema indiano exclusivamente a “Bollywood”. Como já referi anteriormente em outros textos, “Bollywood” é um termo para designar a indústria de cinema sedeada em Mumbai (antiga Bombaim), e é apenas uma das várias cinematografias existentes na Índia. Mesmo assim, continua a ser a maior indústria de cinema do mundo, a nível de número de películas produzidas anualmente. Se contabilizássemos todos as obras das diferentes indústrias regionais de cinema na Índia, o número ainda seria naturalmente maior. Retornando à longa-metragem que me proponho a analisar neste texto, o “Ghajini” de 2005 viria a criar algum “frisson”, e por esse motivo, em 2008 A.R. Murugadoss viria a dirigir um “remake”, desta vez sob os auspícios de “Bollywood”, e com um dos maiores nomes de sempre daquela cinematografia como actor principal. Refiro-me ao “grande” Aamir Khan.

Uma das grandes questões que giram em torno dos dois “Ghajini”, é que ambos são olhados como uma versão indiana do filme “Memento”, de Christopher Nolan, tendo existido inclusive algumas insinuações de plágio. Aamir Khan viria a sair em defesa de A.R. Murugadoss, afirmando que o realizador tinha ouvido falar de um filme chamado “Memento”, e a ideia do mesmo tinha-o fascinado. Sem ver a película, Murugadoss decidiu escrever a sua própria versão do argumento. Após concluir o texto, visionou o filme americano, achou-o bastante diferente do que tinha escrito e decidiu avançar na realização de “Ghajini”. Como pessoa que viu ambos os filmes, e sem querer tirar partidos, tenho a dizer que existe uma inspiração grande e por vezes óbvia de “Ghajini” na película americana. Contudo, existem elementos suficientes para autonomizar ambos os filmes, de forma a torná-los distintos.

Outro dos aspectos pelo qual “Ghajini” é bastante conhecido, passa pelo facto de ser o campeão de bilheteira de toda a história de “Bollywood”, como alguns cartazes alusivos a esta obra fazem questão de apregoar. Se tomarmos em conta unicamente o montante total de receitas auferido nas bilheteiras, esta premissa afigurar-se-á como verdadeira. No entanto, urge densificar um pouco mais este aspecto. A fazer fé no “BoxOffice India”, e ajustando os valores pela inflação, concluiremos que o filme “Sholay”, de 1975, onde despontava a super-estrela de então Amitabh Bachchan, será o filme mais rentável de sempre de “Bollywood”. Tudo não passam de indicadores, que por vezes podem ser de alguma forma torneados. Pretendo aqui apenas chamar a atenção para não tomarem certas verdades como absolutas. Incontornável é o facto de “Ghajini” ser das películas mais bem sucedidas de sempre do espectro “bollywoodesco” ou “bollywidiano”, se preferirem, e a sua enorme aceitação já deu inclusive origem ao primeiro videojogo tridimensional indiano para PC.



"Sanjay defronta os homens do gangster Ghajini"

“Ghajini” é um clássico filme que aposta essencialmente no conceito de vingança, à semelhança de muitos outros que já foram aqui criticados no “My Asian Movies”, destacando-se pela sua importância inquestionável a trilogia da vingança de Park Chan-wook e os “gun fu” de John Woo. No entanto, “Ghajini”, em nome da necessária empatia e compreensão do espectador com os motivos que norteiam as atitudes violentas que grassam pela película, demonstra algo mais do que actos considerados primários. Sendo assim, esta obra poderá facilmente se dividir em duas partes, a saber, a cruel vingança de “Sanjay” e as peripécias do seu relacionamento com “Kalpala”, através de “flashbacks” que acontecem ao longo desta longa-metragem. No início do filme, somos confrontados com o “Sanjay” actual, que vive num apartamento lúgubre, e cujo único propósito na vida é exterminar o responsável por todas as suas desgraças. Mas “qual a razão para isto tudo ?”, questiona-se o espectador. Através da leitura dos diários de “Sanjay”, por parte de “Sunita” (uma estudante de medicina que se interessa pelo caso do homem) assim como por “Arjun Yadav”, um inspector que investiga as mortes provocadas pelo herói da trama, entramos nas costumeiras analepses. E é aqui que se encontra a parte dita normal numa película de “Bollywood”, que é o romance, o sonho e tudo o mais. Deparámo-nos com um “Sanjay” completamente diferente. Um jovem executivo, bem sucedido, que rocambolescamente conhece uma actriz de comerciais frustrada, mas terrivelmente encantadora. Embrenhamo-nos no amor que começa a despontar e, a certa altura, esquecemo-nos daquele “Sanjay” rancoroso e violento, que parece viver um pesadelo permanente. Contudo, a desgraça inevitavelmente acontece, e já hipnotizados, torcemos para que Aamir Khan comece a espalhar o inferno na terra, com o nosso total apoio. Trata-se de uma técnica narrativa sobejamente usada, mas que, não sei porquê, continua a resultar muito bem. Penso que a razão passará pela nossa própria essência humana, que em algum sítio recôndito acolhe uma “Lei de Talião”, onde a norma principal é “o olho por olho e dente por dente”. O que interessa é que “Sanjay” não defrauda as expectativas neste particular, e parte para a ignorância, transformando “Ghajini” no filme mais violento de “Bollywood” que até hoje tive a oportunidade de visionar.

Aamir Khan dá vida a mais uma interpretação de bom nível e muito forte, de um ponto de vista emocional. Quem conhece minimamente o cinema de “Bollywood”, sabe que estamos perante um dos expoentes máximos do género e um grande actor. Em “Ghajini”, Khan tem de ser mais multifacetado que o normal, ora desempenhando facetas que lhe são mais familiares, como o galã romântico, mas também dando corpo a um homem consumido pela raiva e frustração, que exterioriza através de uma violência sem tréguas. O intérprete preparou-se intensamente para este papel, com muitas horas de ginásio e uma alimentação regrada, de forma a poder ostentar um físico mais poderoso. Mas existe sempre algo que a natureza nos deu e à qual não podemos fugir. Aamir Khan é um actor que não possui uma grande estatura, rondando cerca de 1, 68m de altura. Para o estereótipo do herói violento de acção, designado grosseiramente como “alto e bruto”, Khan fica a perder um pouco neste aspecto. Ainda para mais, quando os combates são desfilados com brutalidade, mas também com exageros, desde empurrões, pontapés ou socos que projectam os seus adversários, francamente maiores, a metros de distância. A credibilidade fica um tanto ou quanto afectada, embora estejamos a falar de um aspecto menor da película. Quanto a Asin Thottumkhal, confesso que nunca tinha ouvido falar anteriormente desta actriz, mas pelos vistos ela também parecia debutar mais por outras cinematografias regionais indianas, que confesso serem totalmente desconhecidas para mim. Tenho a dizer que Asin é belíssima e encantadora, e a mesma não tem pejo ou dificuldade alguma em transmitir isso na película. A sua energia representativa é contagiante, e coloca-nos todos de bom humor. À actriz está reservado o papel de descompressão em “Ghajini”, nas partes em que não nos deparamos com aquela tensão negra da vingança. Uma boa surpresa, e sem dúvida alguma, um jovem valor a acompanhar. O resto do “cast” não consegue acompanhar o duo principal, e em várias partes desta longa-metragem é por demais evidente este aspecto. Apenas o actor Pradeep Singh Rawat, que interpreta o vilão “Ghajini”, consegue fugir um pouco a este diapasão geral.

Com uma banda-sonora claramente mediana, o que constitui uma surpresa quando o compositor é A.R. Rahman, confesso que não consigo entender muito bem o sucesso que rodeou “Ghajini”. É certo que se trata de um bom filme, mas sinceramente está a milhas de outras obras que “Bollywood” já teve o privilégio de oferecer ao mundo do cinema. Julgo que a explicação passará muito pela curiosidade em ver um Amir Khan completamente transfigurado fisicamente, uma excelente campanha de "marketing" e o facto de a película oferecer um tipo de violência e impacto psicológico distinto do que costuma ocorrer por aquelas paragens. Pelo exposto, aconselha-se o seu visionamento sem expectativas desmesuradas!


"O impiedoso Ghajini (de camisa branca) ordena aos seus apaniguados que façam mais uma vítima"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63



segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quarta-feira, outubro 01, 2008

The Heart Wants Aka Do Your Thing/Dil Chahta Hai - दिल चाहता है

(2001)


Origem: Índia


Duração: 185 minutos


Realizador: Farhan Akhtar


Com: Aamir Khan, Saif Ali Khan, Akshaye Khanna, Preity Zinta, Dimple Kapadia, Sonali Kulkarni, Ayub Khan, Rajat Kapoor, Suhasini Mulay, Samantha Tremayne


"Da esquerda para a direita, Akash, Sameer e Siddhart"

Sinopse

“Akash” (Aamir Khan), “Sameer” (Saif Ali Khan) e “Siddhart” (Akshaye Khanna) são amigos inseparáveis há mais de dez anos, e fazem a sua vida praticamente toda em conjunto. Um sentimento de irmandade une os três rapazes, num elo que parece impossível de quebrar. Com vinte e poucos anos, licenciaram-se há pouco tempo e está a chegar a altura de tomar grandes decisões que regerão a sua vida futura. Contudo os amigos não parecem muito preocupados com este aspecto, pois todos eles são oriundos de famílias de classe média alta e o dinheiro não é problema.

Verdadeiramente o que lhes mexe com a cabeça é a sua vida romântica e a dificuldade que todos têm em encontrar uma relação estável. “Akash” é um homem que gosta de gozar tudo o que de bom a vida tem para dar e não leva nada a sério. Observando a forma como os relacionamentos dos seus amigos correm mal, ele acaba por acreditar que o verdadeiro amor não existe. “Sameer” é o ingénuo do grupo e aquele que se apaixona todas as semanas por uma rapariga diferente. Não possui muita maturidade e a sua instabilidade emocional é o resultado lógico deste factor. “Siddhart”, mais conhecido por “Sid”, é o ponderado do grupo e de longe o mais calmo.


"Akash e Shalini"


No entanto, “Sid” conhece “Tara” (Dimple Kapadia), uma mulher quinze anos mais velha, e através do gosto de ambos pela pintura, acabam por se apaixonar. Sendo um relacionamento pouco convencional, e mal visto perante a sociedade indiana, o mesmo parece estar fadado ao malogro. “Akash” tenta chamar o amigo à razão, mas ambos discutem seriamente e afastam-se um do outro, deixando “Sameer” numa posição difícil e desprotegida.


“Akash” vai para Sidney na Austrália tomar conta do negócio do pai e ao contrário dos seus planos, apaixona-se por “Shalini” (Preity Zinta) e acaba por se convencer que o amor efectivamente existe. A “Sameer” tentam impingir “Pooja” (Sonali Kulkarni) num casamento tradicional arranjado. Contudo, o rapaz acaba efectivamente por se sentir atraído por “Pooja”. “Sid” tenta proteger o seu amor por “Tara”, mas os condicionalismos pessoais e sociais não lhe dão tréguas. No meio disto tudo, sobreviverá a grande amizade que une os três jovens ?


"Pooja e Sameer"


"Review"


“Dil Chahta Hai” foi a feliz estreia do realizador Farhan Akhtar e baseou-se nas viagens de juventude que o realizador fez a Goa, assim como numa estadia de mês e meio que o mesmo gozou em Nova Iorque. Por sua vez, a personagem maluca de “Akash” foi baseada nas interessantes histórias de um amigo do realizador. A película revelou ser um estrondoso exito na Índia, principalmente nas áreas mais urbanas, tendo passado em festivais de cinema internacionais tais como Palm Springs ou Austin. É com muita propriedade e mérito considerada uma das melhores obras do cinema de “Bollywwod” de sempre, estando por este motivo extremamente bem cotado no IMDb. Antes de adquirir o dvd, fiquei muito impressionado com as maravilhas que se diziam desta longa-metragem. Admiravelmente, não encontrei uma única opinião menos abonatória. Sendo assim, estava lançado o mote para mais uma aquisição extremamente cuidadosa, factor que levo sempre em grande linha de conta quando me aventuro pelo cinema de Mumbai.


“Dil Chahta Hai” reflecte muito bem a orientação actual do cinema de “Bollywood”, em contraposição com as obras mais clássicas. Aqui estamos perante mais uma película que aborda as desventuras amorosas de jovens indianos modernos e urbanos, pertencentes a famílias abastadas e amantes da boa vida e do divertimento. Já disse isso aqui antes, e volto a insistir nesta ideia. O cinema indiano, em especial a sua facção mais representativa, o de Mumbai, está a mudar a olhos vistos e para melhor. Uma das explicações mais convincentes para esta mudança, passará pela séria aposta que está a ser feita no mercado internacional, em especial o norte-americano e o britânico, o que obrigará a realizar películas que sejam mais atractivas aos olhos dos ocidentais. A própria sociedade indiana está a mudar pelas mãos dos jovens, que já não estão tão dispostos a aceitar tradições que consideram ultrapassadas e um obstáculo ao desenvolvimento do seu país. Lutam pela mudança sócio-económica e este factor terá de obrigatoriamente reflectir-se na cultura.


Com uma história simples, mas extremamente bem construída, “Dil Chahta Hai” transformou-se num sério caso e poderá almejar a ser um dos melhores filmes asiáticos realizados em 2001. No seu coração, reside esta novo modo de vida dos jovens indianos, onde nos é apresentada de uma forma particular os seus sucessos, ambições, falhanços e tudo o mais que reflicta o seu dia-a-dia. Como é normal e previsível, a irreverência marca bastante a sua presença. A mesma reflecte-se em vários aspectos do filme, desde as brincadeiras e situações “malucas” que os amigos vivem, passando por assuntos mais sérios como a resistência aos “casamentos arranjados” que ainda fazem parte do quotidiano da Índia. Temos aqui um exemplo feliz do digladiar dos jovens com as tradições, de que falei mais acima. Já anteriormente, quando analisei o excelente “Rang De Basanti” neste espaço, tive a oportunidade de aflorar estas questões, conquanto aquele filme envereda um pouco pela linha de “Dil Chahta Hai”, embora seja bastante mais politizado.


Apesar do importante cariz sócio-cultural desta película e que acima tentei expôr, o mesmo constitui apenas um veículo para algo mais significativo. Antes de tudo e em primeira linha, “Dil Chahta Hai” é acerca da descoberta da maturidade, da defesa incondicional da amizade e da eterna busca do amor. Dito desta forma, parece que estou a falar de mais um filme pindérico, que usa e reveza a lágrima fácil e que provavelmente ainda será um “American Pie” indiano, se adicionássemos umas doses de comédia, alguma de mau gosto. Não, não é nada disso! “Dil Chahta Hai” é um clássico com qualidade, e todos aqueles que tivere(a)m a felicidade de visioná-lo, com certeza que se lembrarão do filme daqui a uns anos. Porquê que isso acontecerá? Esta resposta é fácil. Devido ao facto de todos nós nos identificarmos de uma forma ou de outra, com alguma situação ou personagem da película, e de forma bastante marcante, diga-se de passagem! Visionar “Dil Chahta Hai” foi retornar aos tempos em que acabei a licenciatura, e deparou-se um mundo novo para mim, que sempre lá esteve mas que eu não entendia. Foi o valorizar exacerbado das amizades quando as mesmas se afastaram geograficamente, e a saudosa nostalgia dos amores de juventude, onde não haviam impossíveis e a frieza de raciocínio parecia um monstro que era imperioso abater quando contendesse com qualquer tipo de sentimento.


"A espalhar a boa disposição e o ritmo na festa de final do curso"


O elenco faz um trabalho bastante meritório e que em certas alturas chega mesmo a deslumbrar, embora não com muita continuidade. Percebo agora definitivamente o porquê de Aamir Khan ser considerado dos actores mais emblemáticos da Índia, ultrapassando em muitos aspectos a fama do próprio Shahrukh Khan, talvez o actor mais conhecido de “Bollywood”. A sua “performance” dá alegria e boa disposição à película, e quando é necessário consegue cumprir com os momentos mais sérios. Já tinha ficado bem impressionado com Saif Ali Khan em “Omkara”, onde o actor tem uma actuação simplesmente brilhante. Estranhei vê-lo aqui num papel completamente distinto e menos circunspecto, mas a versatilidade de Ali Khan é algo de louvar. Nunca tive a oportunidade de apreciar anteriormente o trabalho do actor Akshaye Khanna, embora tenha consciência que se trata duma personagem muito considerada no espectro de “Bollywood”. É por ele que passa bastante a classe de “Dil Chahta Hai”, no papel de um maturo e idealista “Sid”. As interpretações femininas estão ligeiramente abaixo do desempenho dos actores atrás mencionados. Contudo, é um prazer desfrutar das sólidas actuações da super-estrela Preity Zinta e da experiente Dimple Kapadia, uma actriz que teve grande popularidade no fim dos anos '70 e anos '80. Por sua vez, Sonali Kulkarni é uma cara bonita, que está lá para dar “charme” e “glamour” ao filme, mas pouco mais.


Como é curial, mesmo tratando-se de uma longa-metragem que quebra com o corrente em “Bollywood”, temos de nos referir à banda-sonora de “Dil Chahta Hai”. A propalada marca da irreverência reflecte-se na música e na dança, em especial “Woh Ladki Hai Kahan”, que satiriza um pouco o cinema de “Bollywood” mais tradicional. Mas a música que verdadeiramente marca e transmite o essencial, associada à sequência de cenas, é “Dil Chahta Hai” do mesmo título da película. Das primeiras vezes que observei o “clip” parecia uma coisa corriqueira, sem nada de de especial que se apontasse. Quando visionei o filme, digo que a melodia e a sequência das imagens não poderiam estar melhor inseridas. Comecei a apreciar a melodia com atenção, e posso-vos hoje dizer sinceramente que colhe imenso o meu agrado. Como normalmente os filmes indianos não possuem “trailers” elaborados a não ser que se internacionalizem de forma séria, no sítio onde costuma estar o “link” para a apresentação, figurará a ligação para o sentido “clip” de “Dil Chahta Hai”.


Os que nunca viram um filme de “Bollywood”, principalmente por uma natural desconfiança na qualidade deste cinema, podem arriscar à vontade em “Dil Chahta Hai”. Para além de ser uma das melhores obras provenientes da meca do cinema indiano, é uma película enternecedora, de elevadíssima qualidade, que vos fará chorar, rir e acima de tudo sonhar com a vida real, e não recorrendo a uma qualquer fantasia. Trata-se talvez da melhor longa-metragem que já vi no que toca à exploração da amizade entre jovens, e uma das mais emblemáticas no que toca à abordagem do amor. Terá o condão de vos fazer pensar em perder o orgulho e ligar àquele amigo com quem tiveram uma desavença estúpida, ou a ir correr para os braços daquela rapariga que afinal perceberam o quão facilmente vos mexia com os sentimentos.


Poucos filmes de três horas e pouco costumam passar tão rápido, por isso o mesmo será dizer que não se deve perder esta obra fenomenal!!!


"Três sombras unidas nas praias de Goa"


"Dil Chahta Hai" videoclip


The Internet Movie Database (IMDb) link


Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50







quinta-feira, abril 10, 2008

Paint It Yellow/Rang De Basanti - रंग दे बसंती (2006)

Origem: Índia

Duração: 171 minutos

Realizador: Rakeysh Omprakash Mehra

Com: Aamir Khan, Alice Patten, Soha Ali Khan, Kunal Kapoor, Siddhart, Sharman Joshi, Atul Kulkarni, Sharman Joshi, Steven Mackintosh, Madhavan, Waheeda Rheman, Anupan Kher, Kiron Kher, Om Puri, Lekh Tandon, Cyrus Sahukar, Mohan Agashe, Pravishi Das
"O grupo de jovens amigos (da esquerda para a direita): Karan, DJ, Ajay, Sonia, Aslam e Sukhi"

Estória

A jovem, mas persistente realizadora de cinema “Sue McKinley” (Alice Patten), resolve viajar até à Índia, tendo em vista dar vida a um filme baseado no diário do seu avô “McKinley” (Steven MacKintosh), que foi um oficial do império britânico nos anos tumultuosos dos movimentos independentistas do país. A sua amiga “Sonia” (Soha Ali Khan) ajuda-a a encontrar os actores de que necessita para levar a cabo a curta-metragem, a saber, os estudantes da Universidade de Deli “DJ” (Aamir Khan), “Karan” (Siddhart), “Aslam” (Kunal Kapoor) e “Sukhi” (Sharman Joshi). Em breve junta-se ao grupo o nacionalista hindu “Laxman” (Atul Kulkarni), que no início não é muito bem vindo devido à sua ideologia política e à animosidade que sente para com “Aslam”, um muçulmano com uma veia poética.

Ao fim de algum tempo de rodagem, em que os jovens boémios começam a despertar a sua consciência de cidadania, um trágico evento ocorre. “Ajay” (Madhavan), o noivo de “Sonia” e piloto da força aérea indiana, falece num trágico acidente, quando despenha-se a bordo do caça modelo “Mig-21”. O governo atribui as culpas do sinistro a “Ajay”, e encerra a investigação, tentando ocultar os sinistros negócios que envolvem corrupção na compra de aviões defeituosos aos russos.

"Sue e DJ"

Descontentes com a situação, o grupo de amigos organiza um protesto contra o corrupto governo indiano, que é reprimido de forma extremamente violenta. Revoltados, os jovens decidem reavivar o espírito dos antigos combatentes pela liberdade do país e enveredam pela violência, ao assassinar o ministro da defesa indiano (Mohan Agashe). Para grande frustração de “DJ” e dos amigos, a imprensa manipulada considera o ministro um mártir e apelida-os de terroristas. Numa última tentativa de passarem a mensagem ao país, os estudantes tomam a estação de rádio “All India”. No entanto, o poder instalado tudo fará no sentido de a culpa morrer solteira...

"Ajay e Sonia"

"Review"

“Rang De Basanti” significa “pinta de amarelo”. Para nós, isto pode parecer à primeira vista uma frase sem significado nenhum, ou um devaneio de algum desequilibrado. No entanto, tudo se resume a uma primeira impressão e a uma questão cultural. Na Índia, quando alguém profere a frase em hindu “Main rang de basanti”, significa “pinta-me de amarelo (ou cor de açafrão)”. A expressão idiomática significa que a pessoa está disposta a sacrificar-se por uma grande causa, que considera maior do que o seu próprio ser.

Baseado num poema escrito por Dushyant Kumar, “Rang De Basanti” constituiu a proposta da Índia tanto para os “Globos de Ouro”, assim como para os “Óscares” de 2007, não vindo infelizmente a ser um dos cinco filmes seleccionados para o “round” final. Digo “infelizmente”, pois esta película possui uma grande qualidade, sendo para muitos um dos mais brilhantes filmes indianos jamais realizados. Sou obrigado a concordar, apesar de não conhecer tantas longas-metragens da cinematografia daquele país quanto isso. As razões, passo-as já a explicar.

Quando um país elege uma película do seu espólio cinematográfico, para representá-lo numa cerimónia da magnitude mundial como os “Óscares”, temos de partir do pressuposto que o filme em questão terá forçosamente de possuir alguma qualidade intrínseca. Mesmo admitindo que a cerimónia já não é o que era (principalmente por estar sujeita aos lóbis publicamente conhecidos), e que a nação em questão não costuma emanar obras que sejam muito do meu agrado. O positivo cartão de visita começa a ser mais sustentado, quando reparei que “Rang De Basanti” ostentava uma orgulhosa pontuação de 8.3 no IMDb, tendo por base um universo de 6.776 votos, o que já é um número aceitável para chegarmos a conclusões (embora tenhamos de ter em conta que muitos desses votos deverão ser indianos, assim como este povo é cioso e louvavelmente defensor da sua indústria cinematográfica). Quando reparei que o autor da banda-sonora é A.R. Rahman, e temos o conhecimento que o ilustre compositor indiano esteve 3 anos a configurar os normalmente maravilhosos sons com que nos brinda nas obras que intervém, a água começa a crescer na boca e decidi arriscar na aquisição do filme. Em boa hora o fiz, não só pelo facto da análise global que faço à película ser assaz positiva, mas também pelo facto de ter tido a sorte de adquirir uma edição com muito boa qualidade.

Para um leigo dito interessado como eu, que lamentavelmente nunca esteve na Índia, mas que recorre bastante à sua faceta de autodidacta, “Rang De Basanti” é, por diversos motivos, um interessantíssimo objecto de estudo. É um filme que lida com um manancial de aspectos, todos normalmente bem conjugados, e que se reconduzem essencialmente a factores sociológicos, culturais, históricos e políticos.

Na 1ª fase do filme, é-nos dada a conhecer a vivência de um grupo de jovens, que nos surpreendem pelo seu amor à cultura ocidental e pelo gosto descomplexado pela vida. A chave e diapasão consiste em viver o dia-a-dia como se fosse o último, não revelando esperança numa nação em que um futuro radioso parece ser uma quimera. Isto percebe-se quando “lhes foge a boca para a verdade”, a maior parte das vezes quando estão alcoolizados. É especialmente sintomático um debate de ideias significativo, que ocorre num bar, entre “Ajay” e o restante grupo. Os jovens pugnam pelo “No Better Tomorrow” (passe o trocadilho com a fenomenal saga de John Woo “A Better Tomorrow”), enfatizando verdades quase inquestionáveis tais como a Índia ser um país dominado pela pobreza e pela corrupção, em que apesar de um dia possuírem uma licenciatura, o mais certo é não terem uma oportunidade de singrarem. “Ajay”, estoicamente (como convém a um militar) e reconhecendo que de facto nem tudo está bem, afronta a crítica fácil e desafia cada um dos seus amigos a tentar pôr a sua marca no mundo. “Entrem para a administração...”, “Alistem-se no exército...”, “se não puderem fazer a mudança de dentro – nota: entenda-se a administração ou o exército - tentem fazê-la na rua, por amor ao vosso país...” . As discordâncias continuam, mas existem valores porventura mais altos tais como a saudável amizade que une os intervenientes, e que parece ser o suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. É uma fase de alegria, de amizade e amor, com um canto fácil e contagiante!

"DJ vence uma corrida tradicional de cavalos"

Quando as coisas começam a complicar-se com a morte de “Ajay”, a vertente mais descontraída e bem disposta do filme sofre um eclipse completo. Finda um cenário que até poderíamos considerar idílico atendendo às circunstâncias, e passamos a “coisas mais sérias”, passe a expressão. Como “quem não sente, não é filho de boa gente”, os jovens dão o grito de revolta e empregam uma luta social contra a política corrupta e injusta. A bandeira é “Ajay”, o mártir da causa, e o motor a rebeldia própria da juventude, agora canalizada para outras batalhas. O problema é que mesmo tendo a razão do seu lado, os inseparáveis amigos excedem-se nas suas acções. Já se está mesmo a ver que o final não vai ser feliz, fazendo “Rang De Basanti” jus ao estigma dos seus parentes de “Bollywood”.

A fotografia do filme é, para não variar, belíssima. Os cenários, também para não destoar, são uma coisa perfeitamente de outro mundo. O património arquitectónico e cultural da Índia e do oriente em geral, é extremamente difícil de bater, e “Rang De Basanti” faz questão de mostrar isso mesmo. Os constantes interlúdios com o passado, onde pontifica o avô de “Sue McKinley” estão expostos em tons “sépia”, característica que adoro. Porquê? Simplesmente porque o espectador interioriza muito melhor as analepses, embrenhando-se com mais densidade na estória que se pretende transmitir. A conjugação do passado e presente funcionam na perfeição, possibilitando ao mesmo tempo que o espectador faça as distinções necessárias de uma forma mais ágil e eficaz. No entanto, a interpenetração e a univocidade não deixam de estar presentes, mantendo a narrativa como um todo coeso. “Rang De Basanti” interpreta estes aspectos de uma forma bastante competente.

Os actores dão alma às suas interpretações, sendo de destacar o ídolo de “Bollywood” Aamir Khan, que representa uma personagem 15 anos mais nova (“DJ” tem 25 anos, e Aamir Khan 40). No entanto, a sua jovialidade natural, aliada a uns truques de cosmética, faz-nos concluir que dificilmente a escolha teria sido melhor. Confesso que fiquei um tanto ou quanto intrigado, pela razão que AR Rahman demorou 3 anos a elaborar a banda-sonora. Embora agradável, não possui a complexidade musical e de coreografias que outras obras apresentam, como por exemplo “Dil Se”, criticado há pouco tempo neste espaço. Aqui “Rang De Basanti” já não é o típico filme de “Bollywood”. As músicas existem, mas de uma forma convencional, como num filme dito mais corrente. E quando existe algo parecido com uma coreografia, as coisas acontecem de forma bastante natural. É como se nós estivéssemos todos num grupo de amigos, e decidíssemos relembrar músicas antigas e começar a cantar. Nada demais.

“Rang De Basanti” constitui uma proposta extremamente recomendável, mesmo para aqueles que desconfiam bastante das produções de “Bollywood” (muitas vezes com razão). Apesar de, como já foi anteriormente aludido, o filme não conseguir fugir a um inevitável fatalismo (um pouco forçado, admita-se), uma mensagem positiva é extraída. Não basta apenas criticar e baixar os braços. É absolutamente necessário lutar pelos nossos ideais, e a partir daqui digladiar pela mudança da sociedade para algo melhor. Nunca ninguém disse que iria ser fácil, mas igualmente não podemos deixar o pessimismo nos levar a pensar que tal é impossível... Acima de tudo, julgo, salvo melhor opinião, que “Rang De Basanti” é um apelo atractivo e sedutor à consciência dos jovens indianos, no sentido de fazerem algo pelo futuro do seu país. Não elogia as virtudes da Índia, até pelo contrário. Mas provocantemente, incute-lhes um orgulho nacionalista nada bacoco, suficiente para um verdadeiro “grito do Ipiranga”. Este espírito é ilustrado pela frase forte do filme: "Só existe duas maneiras de viver a vida: Aceitar as coisas tais como elas são, ou ter a coragem de as mudar."

Constitui até ao presente momento, a minha verdadeira “Passagem para a Índia”, embora não guiada por David Lean ;) !


"Grita liberdade!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25