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segunda-feira, novembro 29, 2010

Mulan/Hua Mulan – 花木蘭 (2009)

Capa

Origem: Hong Kong/China

Duração aproximada: 114 minutos

Realizadores: Jingle Ma e Wei Dong

Com: Vicki Zhao, Aloys Chen (Chen Kun), Jaycee Chan, Hu Jun, Nicky Li, Yu Rong Guang, Lu Xujin, Vitas, Xu Jiao

Mulan

“Hua Mulan”

Sinopse

“Hua Mulan” (Vicki Zhao) é uma mulher que se disfarça de homem, de forma a tomar o lugar do seu pai “Hua Mu” (Yu Rong Guang), no exército do reino Wei, na guerra que se aproxima com os bárbaros Rouran. À medida que “Mulan” começa a ser extremamente bem sucedida no campo de batalha, uma paixão floresce no seu coração por “Weitan” (Aloys Chen), um general do exército Wei.

Wentai

“Weitan”

“Weitan” apercebe-se que para que “Mulan” atinja todo o seu potencial no campo de batalha, é necessário que a jovem se aperceba dos horrores da guerra, e em consequência disso, desaparece. Entretanto, o novo líder dos Rouran, o impiedoso “Modu” (Hu Jun) planeia uma invasão em larga escala, e “Mulan” terá de assumir o comando das forças de Wei para fazer face ao poderoso inimigo.

Wude

“Wude, o criado do líder dos Rouran”

Review”

“Hua Mulan” é uma heroína do folclore chinês que originalmente foi mencionada num poema do século VI, intitulado “A Balada de Mulan”. A lenda inspirou vários filmes, remontando o mais antigo a 1927, de seu nome “Hua Mulan Joins the Army”, do realizador Li Pingqian. Mas com certeza que quando o nome de “Mulan” é referido, virá à mente de quase todas as pessoas, a película de animação da Disney de 1998, que mereceu o epíteto da guerreira.

O realizador Jingle Ma, aqui auxiliado por Wei Dong, não reúne consensos na critica e público de Hong Kong, assim como no mundo dos apreciadores de cinema asiático em geral. Alvo de verdadeiras diatribes, Jingle Ma é visto por alguns como um puro “comercialista”, que dá corpo a películas de substância duvidosa. Quanto a nós, iremos por uma posição um pouco mais intermédia, reconhecendo que somos apreciadores por exemplo de “Fly Me to Polaris”, e duvidamos com propriedade de algumas outras obras de gosto bastante duvidoso.

Mulan e Wentai

“Mulan e Weitan”

Desta vez, e em jeito antecipação, iremos situar “Mulan”, no plano das boas obras de Jingle Ma, ideal para um público que não seja demasiado exigente com os pormenores e que se deixe seduzir pelos elementos mais apreensíveis do cinema, o que não é necessariamente mau. A história de “Mulan” é tremendamente popular entre os chineses e inevitavelmente teria de ser adaptada várias vezes para o grande ecrã. Nesta versão, existe uma grande incidência sobre os sentimentos da guerreira, sendo nos dado a observar os seus anseios, medos, inultrapassável coragem e, não fosse este um filme de Jingle Ma, a sua descoberta do amor. Para a envolvência presente em “Mulan”, muito contribui o desempenho da belíssima Vicki Zhao, que consegue praticamente transportar o filme aos seus ombros, conseguindo um saudável equilíbrio entre a faceta dura e a vulnerável da personagem. A película capta a atenção em muitos momentos, e muito certamente não defrauda os sentidos. Embora o detalhe histórico seja algo secundarizado, em detrimento da faceta mais pessoal de “Mulan”, não faltarão alguns momentos belicistas do agrado dos amantes do épico, possuindo os mesmos uma qualidade apreciável. Desde as batalhas em grande escala, apoiadas pelo guarda-roupa bem urdido e as paisagens como um bonito pano de fundo, até ao velho diapasão de questionar se existem guerras justas, existirão motivos de sobra para manter os espectadores minimamente interessados em seguir esta longa-metragem até ao seu epílogo.

Dotado de um inegável pendor comercial, “Mulan” acaba por constituir uma agradável surpresa, que dá alguns pontos à seriedade de Jingle Ma, enquanto realizador, embora apoiado neste desiderato em particular por Wei Dong. Com uma banda-sonora quase de antologia e uma grande emotividade, não se espere contudo uma obra do firmamento maior da aliança China/Hong Kong, que permaneça nos anais da história. Aguarde-se, isso sim, por um bom filme, ao nível de muitos que por aí deambulam, e cuja existência tem algum razão e significado. Pelo menos, até ao próximo “remake” ou versão.

Aconselhável!

Mulan 3

“Mulan comanda o exército de Wei”

imdb6.3 em 10 (986 votos) em 29 de Novembro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 7

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

quinta-feira, setembro 03, 2009

Os Amantes do Rio/Suzhou River/Suzhou he - 苏州河 (2000)


Origem: China

Duração: 82 minutos

Realizador: Lou Ye

Com: Zhou Xun, Jia Hongshen, Hua Zhongkai, Yao Anlian, Nai An


"Meimei"

Em Xangai, um anónimo e frustrado realizador (Hua Zhongkai) é contratado pelo dono da “Taberna Feliz”, para fazer um vídeo acerca do seu espectáculo de sereias, protagonizado por “Meimei” (Zhou Xun). Rapidamente, o casal enceta uma relação amorosa forte, mas baseada em algum desprendimento. Através da rapariga, o realizador cedo toma contacto com a triste história de “Mardar” (Jia Hongshen).

“Mardar” era um homem de 26 anos que fazia de “correio” e a quem eram incumbidas várias missões, algumas delas ilícitas. No decurso do seu trabalho, conhece uma jovem chamada “Moudan” (igualmente interpretada por Zhou Xun) e ambos apaixonam-se. No entanto, a vida de crime de “Mardar” vem ao de cima e os seus patrões “Lao B.” (também Hua Zhongkai) e “Xiao Ho” (Nai An) ordenam o rapto de “Moudan”, de forma a que possam pedir um resgate avultado ao pai daquela. “Mardar” entra no esquema, traumatizando “Moudan” com a sua atitude. A rapariga consegue, a certa altura, fugir de “Mardar” e supostamente afoga-se no rio Suzhou.

"Mardar e Moudan"

De volta ao tempo presente, “Mardar”, após cumprir uma pena de prisão, retorna a Xangai, tendo em vista procurar o seu amor de sempre. Na sua busca, depara-se com “Meimei” e convence-se que esta é “Moudan” devido à grande semelhança física entre as duas.



"Uma sereia dos tempos modernos"

"Review"

“Suzhou River” (esqueçamos agora o título que mereceu em Portugal) foi um filme chinês que marcou alguns pontos nos certames de cinema internacional, tendo inclusive merecido uma distinção no nosso bem conhecido “Fantasporto”, edição de 2002. A crítica especializada, quando se refere a “Suzhou River”, costuma apontar esta película como tributária e influenciada pelo romantismo típico das obras de Wong Kar Wai, apontando-se igualmente algumas características dos filmes de Hitchcock. O amor obsessivo por uma mulher que não poderá ser bem quem se pensa, é relacionado com “Vertigo”, assim como a personagem do realizador tende a ser reconduzida a “Rear Window”. Não sendo eu um particular fã do mestre do suspense, tenderei por defeito a situar “Suzhou River” numa onda que detém algumas semelhanças com o denominado “amor urbano”, muito presente nas longas-metragens de Kar Wai e que, à semelhança de muitos, aprecio imenso. Certo é que Lou Ye enfrentou alguns dissabores com a difusão da obra que constitui objecto do presente texto, tendo a mesma sido banida das salas de cinema chinesas, sanção que perdura até aos presentes dias, segundo o que me foi dado a conhecer. O próprio realizador, à altura, seria proibido de realizar filmes durante dois anos. Mais recentemente, a feitura de “Summer Palace”, em 2006, valeu-lhe nova proibição em dirigir películas por mais 5 anos. Contudo, numa atitude corajosa que se saúda face a regimes “musculados”, Lou Ye desafiou a proibição ao dar vida a “Spring Fever”, uma longa-metragem já deste ano.

Não é segredo para ninguém que no início do nosso século, os épicos de artes marciais, ou meramente históricos, é que foram os pontas-de-lança da cinematografia asiática, no que ao ocidente diz respeito. Após a explosão de “Crouching Tiger, Hidden Dragon”, começaram a surgir outros trabalhos emblemáticos do género, a maior parte a cargo de realizadores da denominada quinta geração do cinema chinês, dos quais Zhang Yimou e Kaige Chen talvez sejam os nomes que dirão mais ao comum dos espectadores. Enquanto Yimou brindava-nos com a sua inesquecível trilogia de “wuxia” (sendo “Hero”, o expoente maior), Chen enveredava pela orientação mais terra-a-terra de “The Emperor and the Assassin”, antes de naufragar em “The Promisse”. Em total dissonância com esta orientação, a denominada “sexta geração” de realizadores chineses, numa perspectiva anti-sistema, apostou em filmes de baixo orçamento, com um grande pendor urbano, neo-realista e mesmo existencialista. Os temas que tratam são bastante actuais, e focam-se sobretudo na entrada lenta da China no mercado capitalista, e nos aspectos, tanto nocivos como positivos que grassam pela população, não amiúde entre os jovens. O realizador Lou Ye é um filho dessa geração, ao lado de outros nomes como Jia Zhangke ou Wang Xiaoshuai, por exemplo. Confesso que não se trata de uma perspectiva que colha muito a minha predilecção, do ponto de vista cinematográfico. Mas é indubitável que granjeou seguidores, e que denota méritos inquestionáveis. “Suzhou River” é um honrado produto desta corrente.



"Vista do balcão"

“- Se algum dia eu te deixar, irás à minha procura?”, pergunta “Meimei”, ao narrador da história. Está dado o mote para uma estranha e inebriante história de amor e de diversas vidas interligadas, onde pano de fundo é uma contemporânea Xangai, a maior cidade da China e uma das mais vastas metrópoles do mundo. No entanto, não nos é demonstrado a urbe pejada de arranha-céus e luzes de néon. Somos, isso sim, confrontados com uma povoação monstruosa e decadente, onde a paixão obsessiva e um sentimento inexorável de perda ditam a lei. A estrutura narrativa passa essencialmente pelos sentidos do realizador anónimo, dos quais ouvimos apenas a sua voz, quer a contar a sua história e a de terceiros, assim como a dialogar com os restantes intervenientes da história, principalmente “Meimei” e “Mardar”. Num estilo que por vezes se aproxima do registo documentário, o referido protagonista marca igualmente a sua intervenção com gestos, e através da sua própria vivência dos acontecimentos. Esta maneira de apresentar a trama, tem uma grande vantagem no sentido de criar uma intimidade próxima com o espectador, fazendo com que o mesmo se imbua mais nas experiência do narrador. Atrever-me-ia a dizer que é quase um estilo de “role playing game”, em que a única diferença passará por não estar na nossa disponibilidade manietar as opções das figuras do filme. Talvez, o termo “voyeurismo” assuma aqui alguma acuidade, e não seja tão despiciendo quanto isso. A partir do momento que começamos a visionar “Suzhou River”, somos remetidos a maior parte das vezes à condição de “voyeur”.

A actriz Zhou Xun dá corpo a uma interpretação de excelente nível, tanto no papel de “Meimei”, como no de “Moudan”. Ela consegue apanhar brilhantemente as características de cada uma das mulheres, extravasando as características de ambas, que se afiguram bastante diversas. Pelo menos, numa primeira aproximação. Zhou Xun efectivamente aqui demonstra ser uma “sereia” (expressão com um sentido muito próprio no filme) dos tempos modernos, demonstrando que possui valor para ambicionar um dia a ser uma verdadeira diva do cinema oriental. Alguns trabalhos posteriores da actriz viriam a confirmar esta premissa. Outros, nem por isso. Jia Hongshen igualmente marca pontos na película, representando o papel de um homem amargurado e de certa forma fadado a um destino trágico. O seu recorte melancólico ajusta-se às mil maravilhas no desafio que aqui lhe foi proposto. O próprio tom do realizador na narrativa é muito bem encaixado, quase poético e que adensa imenso a profundidade emocional que é requerida.

“Suzhou River” não é um filme de fácil apreensão, não estando esta premissa relacionada com um enredo de difícil degustar para o espectador. A sua maior dificuldade advirá do facto de, embora ser uma película que apela aos sentimentos de quem a visiona, necessitar de ser interiorizada de uma forma bastante particular. À semelhança de vários pontos do nosso planeta, em redor do poluído rio “Suzhou” subsistem edifícios degradados, miséria e várias histórias anónimas de crime, amor, traição ou simples sobrevivência. Esta é, pelos vistos, apenas mais uma. Mas indubitavelmente de grande significado e narrada com uma agonizante pendor documental.

Uma boa proposta de um malfadado elemento da sexta geração dos realizadores chineses.



"O realizador afaga Meimei"


Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:





Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88






quinta-feira, junho 18, 2009

The Warlords - Irmãos de Sangue/The Warlords/Tau ming chong - 投名状 (2007)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 127 minutos

Realizador: Peter Chan e Raymond Yip (co-realizador)

Com: Jet Li, Andy Lau, Takeshi Kaneshiro, Xu Jinglei, Guo Xiao Dong, Shi Zhao Qi, Wang Kuirong, Wang Yachao, Gu Bao Ming, Guo Xiaodong, Zhou Bo

"Pang"

Sinopse

Na China do século XIX, a rebelião dos cristãos Taiping imergiu o reino Qing no caos. O general “Pang” (Jet Li) é o único sobrevivente de uma batalha com os opositores ao imperador, fingindo-se de morto entre os corpos dos homens que comandava. A sua vergonha e covardia perseguem-no, mas “Pang” encontra coragem e redenção numa noite que passa com “Lian” (Xu Jinglei). Esta parte pela manhã, sem deixar pistas acerca do seu destino.

“Pang” parte outra vez sem direcção, até travar conhecimento com “Wu Yang” (Takeshi Kaneshiro), um jovem salteador que é liderado por “Er Hu” (Andy Lau). Os bandidos ganham a vida roubando comida aos soldados e, por vezes, assassinando-os. Demonstrando que tem capacidades de luta muito acima da média, “Pang” junta-se ao grupo de “Er Hu”, ficando chocado quando descobre que “Lian” é a mulher daquele. Quando a aldeia chefiada por “Er Hu” é saqueada pelo exército “Qing”, a ameaça de fome torna-se bastante elevada. Contudo, “Pang” sugere que os salteadores se alistem como soldados, de forma a que possam ter comida, dinheiro e porventura fama e heroísmo.


"Er-Hu"

“Er Hu” e “Wu Yang” concordam, mas atendendo a que “Pang” é novo no grupo, insistem em fazer um juramento conjunto, de forma a assegurar a sua lealdade. Em virtude deste facto, tornam-se irmãos de sangue, unidos por um pacto inquebrável, cuja violação dará direito à morte. Cedo, o grupo começa a ganhar notoriedade, devido a importantes batalhas que conseguem vencer contra os Taiping. No entanto, a amoralidade da guerra, a traição advinda da política e a paixão que tanto “Er Hu” como “Pang” nutrem por “Lian”, irão pôr em causa a amizade assumida pelos três heróis.


"Wu Yang"

"Review"

De há dois anos para cá, confesso que “The Warlords” foi dos filmes que geraram mais expectativas na minha pessoa, fundamentalmente por dois aspectos: é um épico de guerra e possui um “cast” fortíssimo, onde pontificam três dos meus actores asiáticos favoritos. Profusamente premiado em variadíssimos festivais de cinema asiático, Peter Chan para levar a cabo esta empresa baseou-se no clássico “Blood Brothers”, filme que remonta a 1973, assinado por Chang Cheh. O filme impressiona pela sua grandiosidade, e detém mesmo alguns momentos de tirar a respiração. Contudo, não se encontra isento de aspectos menos bons e que a certa altura defraudam um pouco. Diga-se de passagem, e repito, que a obra estava tabelada por cima e o anseio era elevado.

Em Hong Kong, Peter Chan é mais conhecido pelo seu especial jeito para as longas-metragens que lidam mais com o romance, embora já tenha tido incursões por outros géneros. À primeira vista, julgo que o exemplo mais emblemático passará por “Comrades: Almost a Love Story”. Apesar de “The Warlords” ser um épico, não deixa de ter bem presente uma faceta desenvolvida no tocante à história de amor. Os caminhos escolhidos enveredam muito mais pelo platonismo, do que propriamente pela parte mais física da relação, fazendo com que nos apercebamos crescentemente que “Lian” a mulher de “Er Hu”, será uma das causas principais para que a irmandade sofra um abalo. Desde já se iliba “Lian” de alguma actuação maléfica ou propositada para que tal suceda. As coisas simplesmente tomam o rumo que lhes está destinado. No que toca à amizade supostamente existida entre os três vectores do triângulo do pacto, a mesma não convence muito. “Pang” e “Er Hu” estão demasiado agarrados aos seus códigos de honra e objectivos pessoais. Quanto a “Wu Yang”, o mesmo parece um ser ingénuo, que precisa de orientação. Não se sabe muito bem é onde ele a irá buscar. Os únicos reflexos sintomáticos, embora algo desajustados face ao referido anteriormente, passa pela união dos três guerreiros numa batalha que parece estar irremediavelmente perdida, assim como a tentativa de “Er Hu” de salvar um “Pang” supostamente em perigo de vida. O que é um facto é que parece existir alguma falta de densidade, segurança e equilíbrio narrativo. Prova disto é que na parte final do filme, este dá um volte-face repentino e abrupto, saindo do campo do épico com cenas de acção memoráveis, e entrando na zona da intriga palaciana e da consumação da traição. Existe uma omissão no que concerne a uma ponte de ligação entre estas duas fases.

"Pang caminha sobre a morte"

Outro aspecto que carecia de algum melhoramento, passa pela explicação mais científica e histórica acerca da época em que ocorre a trama. Isto com certeza irá reflectir-se mais perante a audiência ocidental, da qual eu e a maior parte dos que visitam este espaço fazem parte. A rebelião Taiping, que se iniciou em 1850 e prolongou-se por 14 anos, teve muito de cultural e ideológico. Resumidamente, estamos a falar de uma revolta liderada por Hong Xiuqian, um chinês convertido ao cristianismo, e que visou criar um suposto reino que professasse aquela ideologia. Xiuqian desencadeou uma luta contra o império Qing, tendo-se auto-proclamado rei divino e irmão de Jesus Cristo. Tudo viria a ter um fim com a vitória dos exércitos do imperador em 1864. Ora na película, nada disto é explicado e apenas é induzido através de alguma simbologia como as cruzes de cristo. Existe uma claro focar nos temas da guerra, irmandade e romance, algumas vezes com bons resultados, outras assim-assim. A aposta pareceu, à primeira vista, numa maior internacionalização desta longa-metragem, visando agradar o público estrangeiro. Julgo, pelas razões que expliquei, que o desafio não foi completamente ganho pela perda de profundidade em que resultou.

Visualmente, o filme é muito excitante. Existem cenas de batalha excepcionais, muito sangue e algum realismo brutal, embora por outra via se tenha de admitir um certo exagero em nome do aumento da espectacularidade. Pense-se em Jet Li de uma assentada a cortar os pés a cinco ou seis oponentes. No tocante às paisagens, não nos é oferecido as verdejantes florestas de bambu de “O Tigre e o Dragão”, O Segredo dos Punhais Voadores” e tantos outros. Igualmente, não existe a sumptuosidade de “A Maldição da Flor Dourada”, ou o mundo de cores de “Herói”. O que nos é oferecido são desertos e cenas desoladas pela guerra implacável, num registo que de certa forma se aproxima um pouco de “Ashes of Time”. No entanto, a beleza árida ou crua de “The Warlords” não é nada inferior aos mencionados exemplos. Simplesmente, manifesta-se de uma forma diversa, mas muito pungente. No que concerne à actuação dos actores, julgo que os maiores créditos terão de ser atribuídos a Jet Li, e não devido à parte mais física da interpretação, pois “The Warlords” não é uma típica obra de artes marciais ou “Wuxia”. Jet Li desempenha muito bem o seu papel de homem amargurado pela derrota até à ascensão na hierarquia da dinastia Qing, podendo actualmente considerar-se um actor completo. Domina bem a expressividade, que está bastante talhada para papéis mais circunspectos, e sabe expôr verbalmente as suas emoções. Li foi, sem dúvida alguma, um actor que evoluiu imenso durante os últimos anos e cuja melhoria neste aspecto começou-se a notar mais a partir de “Herói”. Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, à partida, sentem-se mais à vontade no tocante à representação mais tradicional. Contudo, aqui pedem meças a Li. Lau não tem oportunidade para evidenciar os seus inquestionáveis méritos como actor, e não parece se sentir muito à vontade num papel importante, mas um tanto ou quanto relativizado em relação a Li. Kaneshiro, por outra via, só desponta quando passeia a sua faceta de menino bonito do cinema asiático, que faz suspirar as moças todas. Não quero com isto dizer que Kaneshiro não é um actor de nomeada. Muito pelo contrário. Simplesmente aqui não mostra o que já evidenciou em muitos outros filmes.

Apesar de ser um épico de pendor belicista, “The Warlords” tem uma clara mensagem contra a guerra, dando a entender que um conflito em grande escala, não apenas espalha miséria a título global, mas também marca o mundo pessoal de cada um. Sendo uma obra de Peter Chan, é inevitável que não se consiga desligar dos aspectos mais sentimentais. Trata-se de uma película que será bastante consensual, mesmo para aqueles que não estão familiarizados com o cinema asiático. Apesar de ter méritos inegáveis e ser passível de considerarmos um bom filme, confesso mesmo assim, que estava à espera de algo mais.

A ver!

"Wu Yang ergue a cabeça de um inimigo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





quinta-feira, outubro 30, 2008

Red Cliff/Chi bi - 赤壁 (2008)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 140 minutos
Realizador: John Woo
Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin
"O genial estratega Zhuge Liang"
Sinopse

No ano de 208, “Cao Cao” (Zhang Fengyi) o primeiro-ministro do imperador Han, convence este a declarar guerra aos senhores feudais do Sul da China “Liu Bei” (You Yong) e o duque de Wu “Sun Quan” (Chang Chen), afirmando falsamente que estes são traidores. Temendo “Cao Cao”, o monarca acede aos desejos deste e nomeia-o comandante de todos os exércitos, permitindo assim que este desencadeie o conflito.

“Liu Bei” e o seu povo conseguem escapar à justa após a batalha de Chang Ban, e refugiam-se numa fortaleza remota do reino. A sede de poder de “Cao Cao” está longe de ser saciada e este continua a progredir com o seu vasto exército. “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro), o genial estratega de “Liu Bei”, dirige-se aos domínios de “Sun Quan”, em ordem a solicitar a ajuda daquele no sentido de fazerem uma aliança militar contra os desígnios de “Cao Cao”. Com o auxílio do valente militar e principal conselheiro de “Sun Quan”, o vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai), “Zhuge Liang” consegue a tão pretendida união de esforços.

"O vice-rei Zhou Yu"

Após uma grande vitória contra os exércitos terrestres de “Cao Cao”, as forças combinadas de “Liu Bei” e “Sun Quan”, concentram-se na fortaleza de “Zhou Yu” conhecida como “Precipício Vermelho” (“Red Cliff”) e aguardam o confronto decisivo com as imensas forças de “Cao Cao”, compostas por 800.000 homens e 3.000 embarcações de guerra.

"Review"

Após uma longa passagem por Hollywood, o mítico realizador John Woo decide voltar à terra-natal não para realizar mais um dos seus sensacionais “heroic bloodshed”, mas para se aventurar no género épico. Para o efeito, foi-se inspirar na batalha dos precipícios vermelhos, um conflito armado que ocorreu no fim da dinastia Han, mais precisamente no ano de 208, e que antecedeu o período conhecido como o dos “Três Reinos”. A sua localização exacta é alvo de intensa discussão académica, sendo certo apenas que a mesma se desencadeou algures no rio Yangtzé. John Woo, no sentido de conferir uma verdade histórica mais palpável à sua obra basear-se-ia na “Crónica dos Três Reinos”, um documento oficial escrito por um militar da época de seu nome Chen Shou. No entanto, é certo que Woo não seguiu escrupulosamente a sua fonte primária, e enveredou por uma compreensível romantização no sentido de tornar esta longa-metragem mais apelativa ao grande público. Mas isso é o que praticamente toda a gente faz, e não é nada a que não estejamos já habituados. Cumpre ainda referir que “Red Cliff” é o filme asiático mais dispendioso da história, com um orçamento que ronda os 80 milhões de dólares. Enquanto na Ásia o filme terá duas partes que em conjunto totalizarão mais de 4 horas, para o Ocidente será feito um único filme com duas horas e meia de duração. Como sou avesso a cortes na sala de edição, seguirei a linha escolhida para a Ásia, e dissertarei um pouco acerca da primeira parte, ansiando para que em 2009 tenha a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista convosco acerca do epílogo desta película, consubstanciada na segunda parte.

"O primeiro-ministro do imperador Han, o ambicioso Cao Cao"

Os épicos asiáticos tendem a ser verdadeiramente grandiosos, não apenas em meios, mas igualmente em emoção, mensagem, sentimento e tudo aquilo que nós fãs do género prezamos com tanto coração. São estas características que normalmente os distinguem dos seus congéneres ocidentais, que muitas vezes são capazes de os superar na questão logística, mas que normalmente perdem aos pontos no que toca à envolvência transmitida ao espectador. Quem costuma visitar este espaço sabe que gosto de todos os géneros de cinema sem distinção, mas quando toca a puxar pelo pendor heróico “da coisa”, têm aqui um homem para o que der e vier. É por este mesmo motivo que os anos de 2007 e 2008, consubstanciaram-se numa possível época de ouro para mim, com a realização de um elevado número de longas-metragens que em potência poderiam preencher-me as medidas. Falo de “Warlords”, “The Forbidden Kingdom”, “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon”, este “Red Cliff” e “An Empress and the Warriors”. É certo que muitas vezes a expectativa dá lugar à desilusão, e o último filme mencionado ficou bastante longe de ser algo memorável. Felizmente, o mesmo não se pode afirmar em relação a este que agora se analisa.

Os meios usados são, à falta de expressão melhor, verdadeiramente impressionantes e preenchem as medidas aos espectadores. Estamos a falar de centenas de figurantes, referindo só a título de curiosidade que o exército vermelho chinês cedeu 1000 soldados para intervirem no filme. A apresentação dos exércitos, assim como da frota de navios de guerra deslumbra ao máximo, mesmo que nos apercebamos que houve algum inevitável recurso a imagens geradas por computador. Junte-se a estas características um guarda-roupa, decoração, arquitectura e manancial bélico marcado pelo detalhe, acompanhado de paisagens e fotografia esplendorosa e...já está! Temos uma receita de sucesso, e meio caminho andado para que o filme seja um êxito garantido, com o necessário sucesso de bilheteira. Não esquecer ainda a competente banda-sonora do excelente compositor japonês Taro Iwashiro, cujo trabalho em “Shinobi: Heart Unde Blade” simplesmente adorei! Embora aqui não atinja um nível semelhante, consegue nos hipnotizar o suficiente para nos embrenharmos ainda mais na película.

"O exército de Liu Bei prepara-se para a batalha, com o poderoso general Guan Yu na dianteira"

Por sua vez, os combates estão bem conseguidos, tanto de um ponto de vista colectivo como individual. “Red Cliff” aqui não deixa mesmo os seus créditos por mãos alheias e consegue elevar mais ainda os seus índices de pujança visual, ou não estivéssemos a falar de John Woo, auxiliado pela coreografia engendrada por Corey Yuen. É muito agradável à vista observar os planos da batalha em que as forças aliadas adoptam uma estranha mas bastante efectiva formação de anéis de tartaruga, que enreda as forças de Cao Cao numa bem urdida armadilha. Mas o que ainda mais me agradou foram as performances individuais que se destacam no meio da contenda geral. Para a alegria de muitos e também a desilusão de outros tantos, Woo decidiu fugir ao combate clássico, e colocar alguns elementos mais próprios do wuxia, com auxílio de guindastes se tal fosse necessário, fazendo com que uma aura mística e lendária rodeie os guerreiros. Contudo, não se ouse pensar que a crueza encontra-se ausente! Quando é necessário atacar forte e duro, com bastante sangue à mistura, temos igualmente uma mão cheia de cenas para satisfação pessoal. Sob o signo da espectacularidade, em que Woo sempre quase viveu, consegue-se concretizar uma saudável mescla de ambos os estilos de combate que só vem elevar o filme, na minha humilde opinião.

Não foi isenta de atribulações a reunião do elenco para “Red Cliff”, e atendendo à expectativa que tinha acerca da película, foi uma situação que acompanhei um pouco, recolhendo informação pelos sítios da especialidade, à medida que a coscuvilhice se ia desenrolando. Originariamente, o conhecedíssimo actor Chow Yun Fat (um velho conhecido de John Woo) tinha sido recrutado para o papel do vice-rei Zhou Yu, uma das personagens mais emblemáticas da trama. Posteriormente, Yun Fat viria a recusar a participação, alegando para o efeito que tinha recebido o guião uma semana antes da rodagem começar e por esse motivo não ter possibilidades de se preparar convenientemente. Terence Chang, o produtor da película desmentiu veementemente este facto afirmando que a seguradora do actor tinha se oposto a 73 (?!) cláusulas do contrato do actor. Por sua vez, outro monstro do cinema asiático Ken Watanabe teria sido seleccionado para o papel do vilão do filme Cao Cao. Supostamente, e aqui entram os costumeiros nacionalismos, não foi bem visto o facto de uma personagem importante da história chinesa ser interpretado por um estrangeiro. O consagrado Zhang Fengyi viria a ganhar o papel. Por fim, o meu actor favorito Tony Leung Chiu Wai. No início estava-lhe destinada a representação de Zhuge Liang, do meu ponto de vista a figura mais importante desta obra. O actor viria a declinar, invocando a razão de estar esgotado devido às filmagens de “Lust, Caution”. Numa reviravolta que poucos perceberam, Tony Leung viria a retornar ao “cast”, desta vez para assumir o papel que estava destinado a Chow Yun Fat, ou seja o do vice-rei Zhou Yu. Zhuge Liang viria a ser entregue a Takeshi Kaneshiro, um actor que dispensa qualquer tipo de apresentação. O certo é que o “casting” final redundou numa verdadeira constelação de estrelas de grandes cinematografias asiáticas, a saber, da China, Hong Kong e Japão. E embora o resultado da representação pudesse ter sido melhor, atendendo à qualidade intrínseca dos intervenientes, nota-se que o binómio entretenimento/espectacularidade levou a melhor sobre qualquer tipo de possível interpretação transcendental. A realidade é que todos, sem excepção, cumprem o que lhes é pedido, e o resultado é muito bom.

É curioso, e ao mesmo tempo de relevar, que as personagens são apresentadas num estilo que em muito homenageia os grandes clássicos de wuxia e até do denominado “kung fu old school”, cuja trama principal versava sobre a luta de um grupo heróico de guerreiros contra uma qualquer força opressora dominante. Temos o estratega nato e a personificação da inteligência erudita em “Zhuge Liang”, a valentia honrada em “Zhou Yu”, a coragem escondida em “Sun Quan”, a irreverência na princesa “Sun Shangxiang” (interpretada pela sempre bela Vicki Zhao), todos apoiados por um manancial de guerreiros, cada um com as suas qualidades pessoais e de combate muito próprias e distintas. A sim à primeira vista, lembrei-me de “The Water Margin” (a série, pois nunca tive o prazer de ver o filme de Chang Cheh), protagonizada pelo actor japonês Atsuo Nakamura, e que há uns anos passou na “SIC Radical” (para os leitores que não vivem em Portugal, ou que não têm acesso aos canais portugueses, informo que é um canal de televisão).

Resta ainda referir que o costumeiro e inevitável fetiche das pombas de John Woo, encontra-se bem presente em “Red Cliff”. Os simpáticos bichos marcam a sua presença em algumas fases do filme, tais como na homenagem ao mensageiro de Wu que é morto por “Cao Cao”, numa clara manobra de intimidação contra os aliados ou na parte em que propõem o casamento da princesa “Sun Shangxiang” a “Liu Bei” de forma a cimentar mais a aliança. As pombas acabam por assumir uma papel mais interventivo na longa-metragem, não se assumindo apenas como um adorno decorativo ou simbólico, mas igualmente servindo como um meio de comunicação à distância entre os guerreiros.

Confesso que a primeira parte de “Red Cliff” deixou-me com água na boca, e correspondeu bastante às minhas expectativas. Estamos perante um filme que se se enquadra na melhor tradição dos épicos asiáticos, e que ainda consegue introduzir alguns elementos do wuxia que acentuaram mais a sua espectacularidade. Aguardemos então por 2009, na esperança que o melhor ainda foi deixado para a segunda parte, ou seja, a própria batalha decisiva do precipício vermelho, que promete ser um dos maiores confrontos épicos da história do cinema!

Muito bom!


"As forças aliadas atraem o exército Han para uma armadilha, usando a táctica dos anéis de tartaruga"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Viscera Blog
  2. Batto presenta...
  3. Noite Americana

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






quinta-feira, agosto 28, 2008

Plataforma/Platform/Zhantai - 站台 (2000)

Origem: China

Duração: 149 minutos

Realizador: Jia Zhang Ke

Com: Wang Hongwei, Zhao Tao, Liang Jing Dong, Yang Tian Yi, Wang Bo

"Elementos do grupo de variedades de Fenyang"

Sinopse

Em 1979, na cidade de Fenyang, província de Shanxi, China, um grupo de variedades estatizado vê-se na iminência de passar para uma gestão privada, fruto das reformas do presidente chinês Deng Xiaoping, que implicam uma maior abertura ao ocidente. “Cui Mingliang” (Wang Hongwei), a namorada “Ruijuan” (Zhao Tao) e os restantes membros da companhia vêm-se forçados a alterar o seu repertório habitual por força da privatização.

"Em luta por um bilhete de cinema"

De empregados pagos pelo estado, que encenam peças musicais apologistas da obra de Mao Tse Tung, a verdadeiros "entertainers" ocidentalizados vai um passo. Os jovens tornam-se numa banda denominada “All Star Rock n' Breakdance Electronic Band” que obrigatoriamente tem de ganhar dinheiro de forma a que a agremiação possa sobreviver. A mudança é extremamente radical, mas necessária, o que implica que o grupo acompanhe a mudança dos tempos e lute por agradar a audiência, o que nem sempre é fácil.

Saindo da terra-natal, os jovens viajam pela China e Mongólia, dando espectáculos e conhecendo um mundo que lhes é de certa forma estranho, mas ao mesmo tempo aliciante.

"Cui Mingliang, um jovem ansioso por mudança"

"Review"

Com a trama em grande parte centrada em Fenyang, de onde Jia Zhang Ke é natural, “Plataforma” fez algum furor em certames de cinema internacionais, tendo inclusive sido nomeado para o Leão de Ouro em Veneza. Trata-se, à semelhança supostamente de grande parte da cinematografia do realizador, de uma película com um cunho bastante intimista e revelador de aspectos significativos do “modus vivendi” chinês e das várias transformações a que o mesmo foi sujeito. A prestigiada publicação cinematográfica francesa “Cahiers du Cinéma” elegeria este filme como a sexta melhor longa-metragem do ano de 2001.

Jia Zhang Ke é indubitavelmente um artista de eleição e que tem uma incrível capacidade para expôr minuciosamente pormenores. Quem afirmar o contrário e com todo o respeito, anda com as prioridades trocadas ou tem uma noção muito estranha do que é arte. Simplesmente, julgo que o seu talento poderia ser eventualmente melhor aproveitado para a fotografia ou mesmo a realização de documentários, do que propriamente para a feitura de películas de cinema. A lentidão com que as situações nos são apresentadas, possibilita sem dúvida que interiorizemos os interessantes aspectos vivenciais das personagens que nos são apresentadas nesta longa-metragem. No entanto, a monotonia chega a ser desesperante e o interesse esvaí-se rapidamente. Jia Zhang Ke quer ir para todo o lado, mas frequentemente não chega a nenhum destino. É-nos dado a conhecer o dia-a-dia de um grupo de jovens que anseia por mudança, atendendo aos acontecimentos políticos e sociais que deflagram numa China em mutação. Este princípio constituía uma base sólida para uma longa-metragem apelativa aos nossos sentimentos e que obtivesse a minha simpatia. Não é isso que acontece. As deambulações existenciais e dezenas de devaneios sucedem-se em catadupa, repelindo em grande parte uma possível empatia veiculada pelo espectador. É certo que a filmografia do realizador é praticamente desconhecida para mim, mas sendo este “Plataforma” para muitos a sua obra mais meritória (segundo pessoas que têm provas dadas no mundo do cinema em geral e do asiático em particular) terei de pugnar por esta orientação muito pessoal e provavelmente minoritária.

"Cui Mingliang e Ruijuan reflectem acerca da natureza da sua relação"

O trabalho dos actores é expressado de uma forma bastante competente, mesmo atendendo ao grande “handicap” da película, que expressei anteriormente. Considerando a vertente “documentário” que marca fortemente “Plataforma”, a naturalidade marca as prestações dos intervenientes fazendo com que as identifiquemos com qualquer pessoa que partilhe o nosso quotidiano. Quando é assim, muito não existe a acrescentar a não ser que o desempenho é meritório e bastante positivo para o que se pretendia . Como também referi acima, a ideia que sustenta o argumento é deveras interessante e potenciava o nascimento de uma obra de grande apelo para os cinéfilos. Apesar da exasperação, é sempre de admitir que a ideia permanece e que deve ser valorizada, sobretudo pelo seu carácter deveras didáctico.

É precisamente pegando nesta última ideia que afirmarei descomplexadamente que o principal mérito de “Plataforma” residirá sem dúvida na realista demonstração do espectro sócio-político chinês na transição para os anos '80, competentemente demonstrada através dos olhos de jovens ansiosos por mudança, com uma mentalidade nova que se quer para um país em reformulação e mais aberto ao mundo. Aliás, o próprio título do filme evoca uma emblemática música chinesa do “pop” dos anos '80 na China, género que serviria igualmente para ilustrar o sentimento evolucionista que à altura se pretendia implementar. Torna-se por vezes fascinante observar os protagonistas migrar pela China rural, observando os seus comportamentos e os da restante população, que agarradas ao passado, colidem com um futuro já anunciado e que aos poucos tenta marcar o seu território. Tudo apoiado numa beleza visual sumptuosa e palpável.

A fragilidade principal de “Plataforma”, e decisiva nesta minha apreciação pessoal, é a já propalada monotonia desapaixonada que transmite ao espectador. Tal se deve muito à aura documentarista que cerceia esta longa-metragem e que abafa imenso, na minha humilde opinião, aquilo a que orgulhosamente denominámos de magia do cinema e que verdadeiramente nos faz sonhar. Obviamente que não pretendo aqui afirmar que a única função da sétima arte e fazer com que nos abstraiamos da realidade, pugnando apenas por uma simples perspectiva de entretenimento. Embora esta seja uma faceta extremamente importante e individualizadora do cinema, este tem igualmente a missão e responsabilidade de educar e formar, dando a conhecer realidades diversas que por vezes nos são longínquas tanto no espaço como no tempo. No entanto, confesso que a forma de abordagem de Jia Zhang Ke, embora meritória, pouco me seduz e consegue mesmo entediar-me, o que não é positivo da minha perspectiva. A sua extensão, contabilizada em cerca de duas horas meia, igualmente não ajuda a que o interesse do comum do espectador se mantenha avivado. Mesmo assim, aqui estamos a dissertar sobre a versão mais curta do filme, e nas palavras de Jia Zhang Ke, a sua preferida. A obra original espraiava-se por cerca de três horas e um quarto...

Embora constitua um exercício um tanto ou quanto penoso, para melhor percepção do que está em causa em “Plataforma”, aconselha-se o seu visionamento mais do que uma vez. Contudo, definitivamente, não é um filme para todos os dias nem para a generalidade dos espectadores, incluindo o subscritor deste texto!


"All Star Rock n' Breakdance Electronic Band"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

  1. Contracampo

Avaliação:

Entretenimento - 5

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,25






sábado, junho 28, 2008

An Empress and the Warriors/Kwong saan mei yan -
江山美人 (2008)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 96 minutos

Realizador: Ching Siu Tung

Com: Kelly Chen, Leon Lai, Donnie Yen, Guo Xiao Dong, Kau Jan Hoi, Liu Wei Hua, Zhang Shan, Zhou Bo, Yan Jie, Daichi Harashima, Yang Yi Yi

"A princesa Yan Feier equipada com a sua armadura"

Sinopse

Na era conhecida como a dos “Estados Guerreiros”, o reino de Yan anda há longos anos em constantes guerras com o vizinho Zhao, degenerando o conflito em batalhas com graves perdas para ambos os lados. Num destes encontros, o rei de Yan (Liu Wei Hua) é gravemente ferido, e pressentindo a morte, decide surpreendentemente passar o trono para um órfão bastardo, o fiel general “Muyong Xuehu” (Donnie Yen).

"O médico com o passado trágico Duan Lanquan"

Quem não fica nada satisfeito com a decisão do rei de Yan, é o seu sobrinho “Wu Ba” (Guo Xiao Dong), um homem consumido pela ambição, que anseia o poder a todo o custo. Tendo em vista assegurar a posição de “Xuehu”, o rei de Yan incumbe a sua filha “Feier” (Kelly Chen) de passar ao general a sua lendária espada de forma a que a escolha não mereça qualquer tipo de oposição. Acontece que na hora da verdade, “Xuehu” intimidado com a sua baixa posição social, apregoa que o rei de Yan elegeu como seu sucessor, a filha “Feier” e logo ali jura-lhe fidelidade, conjuntamente com os seus apoiantes.

“Wu Ba” não se sente ainda derrotado, e cedo começa a conspirar contra a prima de forma a afastá-la do comando do reino. Para o efeito, contrata um bando de assassinos, que por pouco não conseguem os seus intentos. “Feier” é salva por “Duan Lanquan” (Leon Lai), um eremita que vive isolado na floresta. Durante o restabelecimento da princesa, um grande amor nasce entre os dois. Contudo, o sentido de dever é forte demais, e “Feier” retorna a Yan, de forma a restaurar o legado do seu pai e a derrotar o usurpador.


"O intrépido general Muyong Xuehu"

"Review"

Sou obrigado a concordar com quem afirma que na sequência do filme “Warlords”, de 2007, onde milita um super trio de actores composto por Jet Li, Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, o ano de 2008 é sem dúvida dominado pelos épicos de artes marciais. Para mim e com certeza para muitos, isto constitui uma boa notícia, pois estamos a falar de um dos meus géneros favoritos, e pessoalmente uma das principais razões para que este espaço tivesse surgido na blogosfera. O alarido criado à volta de películas como “The Forbidden Kingdom” (a tão ansiada colaboração de Jackie Chan com Jet Li), “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon (onde pontificam Andy Lau e a estonteante Maggie Q), ou “Red Cliff” (do eterno John Woo) põem qualquer fã de “olhos em bico”, “água na boca”, ou o que quer que lhe queiram chamar. A todas estas obras há que acrescer o recente “An Empress and the Warriors”, o filme que ora se analisa, dirigido pelo realizador e coreógrafo Ching Siu Tung, uma figura sobejamente conhecida e intimamente ligada ao cinema de artes marciais, autor de películas como “Swordsman II”, Swordsman III: The East Is Red”, “New Dragon Gate Inn” (aqui não mencionado nos créditos finais) ou “A Chinese Ghost Story”. Com um grupo de actores donde ressaltam as estrelas do Cantopop Leon Lai e Kelly Chen, e o senhor das artes marciais Donnie Yen, sempre se poderia declarar, com alguma propriedade, que as expectativas eram elevadas.

Sem muitas delongas, mais vale afirmar desde já que o filme é marcado pelo signo da previsibilidade, afigurando-se algo redutor. Essa é que é a verdade. Nota-se à distância que mais do que produzir um épico, acima de tudo tentou-se criar uma história de amor em que são protagonistas duas das caras mais emblemáticas de Hong Kong. Junta-se o útil ao agradável, e sempre se arranja mais um “hit” musical denominado “Flying With Dreams”, que poderão ver o vídeo no “post” de 22 de Junho, ou em alternativa AQUI. Donnie Yen está lá somente, e recorrendo ao seu grande carisma, para dar um ar de seriedade “marcial” à película, passe a expressão. O enredo é um amontoado de “clichés”, onde nada é inovador e apenas é repetido o que já proficuamente foi experimentado antes. O próprio romance, onde supostamente reside a trave-mestra desta longa-metragem, deixa muito a desejar. Comparando com filmes já deste século e que não distam assim tantos anos, nem de longe, nem de perto, sentimos aquela tensão maravilhosa e incompreendida entre “Espada Partida” e “Neve Esvoaçante” em “Herói”, brilhantemente interpretados por Tony Leung Chiu Wai e Maggie Cheung. Tão-pouco somos contagiados pela força de sentimentos desencadeada por Takeshi Kaneshiro e Zhang Ziyi, nos papéis de “Jin” e “Mei”, em “O Segredo dos Punhais Voadores". O relacionamento aqui é demasiado “cor-de-rosa”, que de credibilidade e pujança tem muito pouco. Outro aspecto que não abona muito a favor de “An Empress and the Warriors” é o pouco desenvolvimento de alguns aspectos que poderiam eventualmente salvar a trama, mesmo que para tanto se tivesse de fazer um filme com pelo menos 120 minutos. Passa simplesmente por algum desenvolvimento sustentado do perfil das personagens, assim como das suas motivações. O vilão “Hu Ba” é praticamente um desconhecido para nós ao longo de toda a película e os restantes protagonistas não têm direito a uma explicação pormenorizada acerca do que os impele a agir da forma que o fazem no filme. Salva-se o focar de um período extremamente importante para a história da China (e pessoalmente bastante do meu agrado), o dos “Estados Guerreiros”. Mas mesmo aqui, o aspecto histórico é um tanto ou quanto descurado, nem sendo nos facultado um “background” minimamente satisfatório e explicativo acerca do espectro geopolítico-militar que elucide acerca dos conflitos entre os reinos de Yan e Zhao.

"Duan combate com Muyong"

O que será passível de ser assacado como verdadeiramente bom a “An Empress and the Warriors”, será a espantosa fotografia e cenários que nos são dados a contemplar. Desde a floresta, com a morada de “Duan” a ser um misto de casa de árvore com longas passadeiras (género Robin Hood), até à planície onde os exércitos de Yan e Zhao se digladiam são um alimento bastante bom para os nossos olhos. No palácio, o salão real e o “hall” das espadas, para aém de toda a simbologia associada, estão extremamente bem conseguidas. Outro aspecto a merecer algum relevo são as batalhas travadas entre Yan e Zhao, com momentos verdadeiramente espectaculares, dos quais destaco sem dúvida a queda dos carros puxados a cavalos, provocada pelos escudos da infantaria de Yan. Os combates individuais não primam muito pelo expôr de uma boa técnica, mas mais pelos cenários que lhes servem de pano de fundo. Exemplo disso é a luta travada entre Leon Lai e Donnie Yen numa cascata. Aliás, este último actor parece estar muito preso na sua armadura, saindo algo prejudicado por este aspecto. Prefiro ver um Donnie Yen mais solto, pois a emotividade das refregas só ganha com isso. No que concerne ao conceito de guerreira dos épicos/wuxia, sempre direi que Kelly Chen está longe de possuir o carisma de uma Zhang Ziyi, uma Michelle Yeoh ou uma Maggie Cheung. E a milhas de distância de uma Brigitte Lin!

“An Empress and the Warriors” infelizmente não é um épico de antologia, à semelhança de “Herói” e afins. Valerá por algumas cenas de uma beleza elevadíssima, assim como um ou outro momento de combate com um nível acima da média. Rezemos para que os restantes exemplos que aventei no início da crítica tenham uma orientação que qualquer película que almeje a se intitular de épico possua. Falo de alma e grandiosidade a grande escala!

Obra longe de constituir uma referência, que mais parece um videoclip todo “bonitinho”! Daqui a um, dois anos, julgo que poucos se lembrarão de “An Empress and the Warriors”.

"O exército de Yan, liderado por Feier, prepara-se para a batalha"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38





domingo, maio 04, 2008

Cinema Mágico/Electric Shadows/Meng ying tong nian -
梦影童年 (2004)

Origem: China

Duração: 93 minutos

Realizadora: Xiao Jiang

Com: Xia Yu, Li Haibin, Zhang Yijing, Qi Zhongyang, Wang Zhengjia, Zhang Haoqi, Xia Yuquing, Jiang Shan, Zhenhua, Jiang Yihong

"As crianças Ling Ling e Mao Dabing"

Sinopse

O jovem “Mao Dabing” (Xia Yu) é um moço de entregas que distribui água engarrafada e possui uma paixão pelo cinema, em especial o de acção. Certo dia quando se dirigia apressado para a sala de espectáculos do burgo, choca com a sua bicicleta contra uma pilha de tijolos. Ao tentar-se erguer, é agredido por uma rapariga surda chamada “Ling Ling” (Qi Zhongyang). A mulher usa um dos tijolos e acerta com o mesmo na cabeça de “Dabing”, fazendo-o desmaiar.

“Ling Ling” é detida pela polícia, mas mesmo assim pede a “Dabing” que alimente os peixes que se encontram no seu apartamento. “Dabing”, sem perceber porquê que vai fazer um favor a uma pessoa que o agrediu, acaba por anuir no pedido da jovem.

"Xuehua e Pan"

Na morada de “Ling Ling”, “Dabing” descobre o diário da rapariga e começa a folheá-lo com bastante interesse. Aqui somos levados a recuar vinte e poucos anos até à China rural. A mãe de “Ling Ling”, “Xuehua” (Jiang Yihong) é abandonada com uma filha bebé (a jovem “Ling Ling”) nas mãos. “Xuehua” conhece “Pan” (Li Haibin), um projeccionista de cinema. Uma grande ternura nasce entre os dois, e ambos acabam por se casar. “Ling Ling” e o seu amigo irreverente “Dabing”, entram num mundo de sonho, que é o cinema ao ar livre, retrospectivando uma série de películas aconselhadas pela ditadura chinesa, muitas protagonizadas pela actriz Zhou Xuan (uma intérprete chinesa que fez furor na segunda metade da década de 30 até aos anos 50). O mundo idílico da jovem sofre um grande abalo, quando nasce o seu irmão, fazendo com que “Ling Ling” comece a sentir-se relegada para segundo plano. O sentimento de angústia cresce, até desembocar num evento trágico.

Retornados ao presente, “Dabing” apercebe-se que “Ling Ling” era a sua jovem companheira das brincadeiras de meninice e das noites de cinema, e luta para reunir a filha aos seus pais.

"Numa sessão de cinema privada"

"Review"

Em relação a “Cinema Mágico”, Andrew Sun” do “The Hollywwod Reporter” afirmou textualmente “que é o equivalente chinês de Cinema Paraíso”. Uma afirmação bastante temerária por sinal, e que faz questão de ilustrar a edição portuguesa em dvd (e não só)! Estabelecer comparações com uma das melhores obras cinematográficas da história do cinema e pessoalmente a minha preferida, é bastante arriscado e poderá pôr em causa a credibilidade de quem as profere. É um elogio enorme e um tanto ou quanto sensacionalista, que impõe uma pressão devastadora nos ombros de uma película honesta e enternecedora, mas que nem de longe nem de perto, poderá almejar a atingir o estatuto e o significado da obra-prima do cinema italiano.

“Electric Shadows” é a tradução literal da expressão “dian ying”, que é o termo usado pelos chineses cujo idioma é o mandarim, para se referirem a “cinema” (esta palavra que significa tanto para todos nós; portanto se forem algum dia a uma parte mandarim do país, já sabem o que têm a dizer). Esta longa-metragem teve uma aceitação positiva por parte da cena internacional, tendo desfilado nos ecrãs dos festivais de Toronto, Marraquexe, Vancouver e Pusan, sendo elogiada pela crítica, relevando-se sobretudo a simplicidade e o amor ao cinema demonstrado pela realizadora Xiao Jiang.

À semelhança de muitos, um dos meus “calcanhares de Aquiles” são os filmes acerca de cinema, ou que a sétima arte em si tenha um papel preponderante no enredo. Quando existe um cunho bastante pessoal na feitura deste género de películas, as obras ainda marcam mais uns pontos na minha consideração. “Electric Shadows” preenche quase na sua plenitude estes requisitos, sendo uma semi-biografia da realizadora Xiao Jiang. Ao mesmo tempo, estamos perante uma carta de amor aos seus tempos de criança em que não existia televisão ou vídeos na casa dos chineses, e a projecção de cinema ao ar livre era determinante para a ocupação dos tempos livres das pessoas residentes nas províncias mais isoladas.


O enquadramento histórico dos eventos não é esquecido, fazendo-se algumas referências ao regime ditatorial chinês. Tais factos reconduzem-se essencialmente à censura imposta aos filmes e música que eram permitidos chegar aos olhos e ouvidos da população. Igualmente, é curioso observar a influência que as películas do regime causam nas crianças e nas suas brincadeiras quotidianas. “Mao Dabing” (cujo nome significa literalmente “soldado de Mao” - entenda-se o deificado líder chinês Mao Tse Tung ou Mao Zedong), veste-se como um filho do poder instituído e as brincadeiras com os seus amigos enveredam sempre por batalhas fictícias contra os inimigos subversivos do país. Aqui não se pretende fazer uma crítica velada ao regime, mas apenas expor os condicionalismos sociais existentes à altura. Acima de tudo, e como já foi aflorado, é sintomático e perceptível que Xiao Jiang almeja homenagear o cinema, em concreto todos os realizadores e filmes chineses que enriqueceram a sua vida quando era uma petiz. Isto acaba por ter um efeito positivo na nossa cultura cinematográfica, pois é-nos dado a conhecer um pouco da história da cinematografia chinesa, passando à frente dos nossos olhos filmes como “Street Angel” (1937), “Railway Guerrillas” (1956), “The Red Lantern” (1970), “Red Detachment of Women” (1971), “Shining Red Star” (1974) e “The Back Alley” (1981) . Como por vezes é perceptível pelo título, quase todas estas longas-metragens são propagandísticas das virtudes do regime comunista chinês e, já agora, completamente desconhecidas para a minha pessoa. Inclusive existe uma importante referência a uma obra albanesa intitulada "Victory Over Death", protagonizada pela actriz Mila Galani. A tal facto, não passará despercebido a simpatia que o poder político chinês nutria pelo país satélite da antiga União Soviética, comandado durante anos por Enver Hoxha.

"Pan numa projecção de cinema ao ar livre"

O argumento acaba por ser enternecedor e desafiador para os nossos sentimentos. Contudo, é necessário que seja dito que é altamente previsível, e não consegue evitar cair em situações forçadas e incredíveis. A actuação dos actores é genuína, fazendo com que todos nós a aceitemos sob o signo da credibilidade. O destaque irá para a bela actriz Jiang Yihong, cujo amor e luta por algo melhor para os filhos, transcende o ecrã. Quanto à banda-sonora, a mesma é exposta de uma forma competente, acentuando alguns picos mais dramáticos desta longa-metragem.

“Cinema Mágico” constitui, enquanto obra de estreia de Xiao Jiang, um bom esforço impregnado de idealismo e, como é normal, de alguma inexperiência. Contudo é suficiente para que o meu interesse por futuros trabalhos da realizadora esteja despertado. Uma coisa é certa! Tirando o facto de ambos os filmes exporem o amor de alguém pelo cinema e a importância que este tem para a vida de todas as pessoas, é altamente ofensivo comparar este filme a “Cinema Paraíso”. A obra italiana está a anos-luz de distância da película que é objecto deste texto. Curiosamente “Cinema Mágico” constitui até agora a única obra conhecida da realizadora. No espaço de 4 anos nada mais aconteceu, o que nos fará questionar se não houve uma falsa partida na carreira de alguém...

Com interesse!


"Os jovens Mao Dabing e Ling Ling"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Asia

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50