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sexta-feira, abril 10, 2009

Anjo ou Demónio/Audition/Ôdishon - オーディション (1999)

Origem: Japão

Duração: 115 minutos

Realizador: Takashi Miike

Com: Ryo Ishibashi, Eihi Shiina, Tetsu Sawaki, Jun Kunimura, Renji Ishibashi, Miyuki Matsuda, Toshie Negishi, Ren Osugi, Shigeru Saiki, Ken Mitsuishi, Yuriko Hirooka, Fumiyo Kohinata, Misato Nakamura, Yuuto Arima, Ayaka Izumi

"A doce e singela Asami"

Sinopse

Após 7 anos da morte da sua esposa “Ryoko” (Miyuki Matsuda), “Shigeharu Aoyama” (Ryo Ishibashi) nunca mais se juntou com nenhuma mulher, vivendo só com o seu filho “Shigehiko” (Tetsu Sawaki). Este anseia que o pai seja feliz outra vez e incentiva-o a procurar uma nova companheira. Convencido pelo filho, “Aoyama” pede ajuda ao seu amigo “Yoshikawa” (Jun Kunimura), um conhecido produtor de cinema que tem uma ideia muito própria acerca do assunto em concreto.

“Yoshikawa” sugere a “Aoyama” que o acompanhe nas audições que irá fazer a um grupo de raparigas, tendo em vista escolher a próxima actriz para o seu novo filme. “Aoyama” não fica muito entusiasmado com a ideia, mas relutantemente concorda. Perante um manancial de jovens e bonitas mulheres, “Aoyama” fica instantaneamente atraído por “Asami Yamazaki” (Eihi Shiina), que se descreve a si própria como um ser humano tímido e boa pessoa. O viúvo aproxima-se de “Asami” e encetam um relacionamento que muito agrada a “Aoyama”, chegando o mesmo a pensar em casamento. Acontece que nem tudo é o que parece, e por detrás de aparentemente singela e atraente rapariga, esconde-se um ser perturbado e uma assassina implacável!

"Aoyama, ladeado pelo seu amigo Yoshikawa, na audição"

"Review"

Quando nos referimos ao profícuo e polémico realizador japonês Takashi Miike, “Audition” será das obras obrigatórias e uma das primeiras que surgem no nosso pensamento. Trata-se de uma película que teve alguma difusão pelo nosso país, atendendo ao “frisson” que causou no Fantasporto – edição de 2001, o que lhe valeu uma rápida edição em dvd. Não tenho dúvidas em afirmar que será dos filmes asiáticos mais fáceis de obter numa boa loja do género. Conta-se que no final da exibição de “Audition” no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Miike teria sido abordado por algumas pessoas que o acusaram de ser um homem doente, um louco com tendências malignas. Por sua vez, no Festival de Dublim, um membro da audiência desmaiou e teve de ser reencaminhado para o hospital, onde felizmente mais tarde recuperou. Insano ou não, o que se tornou uma realidade é que “Audition” gerou um certo culto um pouco por todo o mundo, sendo com toda a certeza, um filme incontornável para aqueles que pretendem entrar na cinematografia asiática. Pelo menos os mais corajosos e menos impressionáveis.

"Shigehiko e a namorada"

A ideia de que a película tem um conteúdo extremamente forte, poderá afigurar-se disparatada quando somos confrontados com a primeira hora de “Audition”. Nada é exteriorizado que indique que estamos perante um “thriller” psicológico, dotado de suspense e horror. Muito pelo contrário. É-nos dado a assistir a algo que mais parece um típico drama familiar, onde um viúvo de meia-idade vive com o filho e juntos tentam ultrapassar a tragédia que foi a perda da matriarca da família. Observamos a crescente cumplicidade entre os dois, e o dia-a-dia de dois homens no Japão actual, com todas as vivências comuns derivadas do trabalho, da escola e do anseio em arranjar uma esposa ou namorada que lhes preencha a vida e os corações. O único lampejo de algo sinistro tem a ver com uma saca que se mexe de uma forma inesperada, quando o telefone do apartamento de “Asami” toca. Passada esta fase, o filme dá uma verdadeira volta de 180 graus, e num extremo lancinante, somos completamente atirados para uma verdadeira epopeia de tortura física e psicológica, que simplesmente não reconhece quase nenhuma fronteira. E é aqui que urge tomar uma decisão rápida no ponto de viragem desta longa-metragem. Caros visitantes mais sensíveis, simplesmente carreguem no botão “stop” do vosso leitor de dvd e parem de ver o filme. Deixem o epílogo por conta da vossa imaginação. Se prosseguirem, façam-no por vossa conta e risco! O efeito em crescendo, no qual somos embalados com uma trama aparentemente normal e corriqueira, até chegarmos a um clímax arrebatador e grotesco resulta extremamente bem.

"Aoyama sente na pele a outra face de Asami"

Os actores mostram-se em bom nível, com natural destaque para Ryo Ishibashi e a modelo e actriz Eihi Shiina. Ishibashi é um excelente actor, e que denota uma performance credível no papel do homem decente e sério, que apenas quer uma esposa para curar a sua longa solidão de sete anos. Quanto a Shiina, a mesma reflecte de uma forma bastante objectiva o brocado “lobo na pele de cordeiro”, ou fazendo trocadilhos com o título português, "um demónio disfarçado de anjo”. Tendo em conta que a actriz começou a sua carreira precisamente com esta obra, os elogios à sua actuação terão de ser forçosamente maiores, devido à alegada falta de experiência. A sua transformação da dócil e desejável rapariga, para a assassina maníaca e sem pruridos de qualquer espécie é algo que nos atinge com veemência e que tão cedo não esqueceremos.

“Audition”, apesar de ser parte drama familiar e parte horror e tortura psicológica do mais elevado quilate, tem uma interessante mensagem por detrás, acabando por ser uma espécie de sátira social. O Japão apesar de ser um dos países mais desenvolvidos do mundo, tanto a nível tecnológico como económico, encontra-se fortemente arreigado a certas tradições. Uma delas é uma forte primazia dos homens no domínio da sociedade e um certo pensamento que os mesmos no que concerne ao ideal de mulher. A visão estereotipada do sexo feminino e o que se pretende no que toca a uma esposa é um ser dócil, gentil e subserviente. Quando observamos “Asami”, conseguimos identificar todas estas características. É uma jovem rapariga muito boazinha, respeitável e indubitavelmente bela. Ela parece agradecer e estar extremamente feliz pelo facto de um homem culto e maturo ter demonstrado interesse nela. A parte anti-sistema dar-se-á quando “Asami” revela a sua verdadeira faceta, o que para alguns poderá significar a quebra com o Japão tradicional e a emancipação de uma mulher forte e poderosa, embora de uma forma nada ortodoxa.

Claramente desaconselhado a pessoas impressionáveis, “Audition” é um filme que revela todo o engenho de Takashi Miike. Começa de uma forma lenta e branda, onde ternuramente somos embalados pela solidão de “Aoyama” e dos seus esforços para encontrar uma mulher que o preencha. Sem nada que o faça prever directamente, mas sim de forma induzida, viajamos até a um extremo psicológico e visualmente forte, corporizado num manancial de tortura agonizante e doentia. O efeito é devastador, mas sobretudo espectacular! Numa orientação “ocidental”, julgo que os fãs de David Lynch e de “Silence of the Lambs”, de Jonathan Demme, não ficarão defraudados. Uma obra obrigatória para os cultores do cinema mais extremista! Os outros podem bem fugir e pensar duas vezes antes de afrontar uma mulher aparentemente frágil e desprotegida!


"O sadismo de Asami faz mais uma vítima"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13




quarta-feira, abril 02, 2008

Sky High (2003)

Origem: Japão

Duração: 123 minutos

Realizador: Ryhuei Kitamura

Com: Yumiko Shaku, Takao Osawa, Shosuke Tanihara, Yumi Kikuchi, Eihi Shiina, Hiromasa Taguchi, Naho Toda, Kanae Uotani

"Mina"

Estória

“Mina Saeki” (Yumiko Shaku) é uma jovem que se encontra radiante por ir casar com o amor da sua vida, o detective “Kanzaki Kohei” (Shosuke Tanihara). Este anda na peugada de um assassino em série, que tem por hábito arrancar o coração das suas vítimas, sendo as mesmas raparigas bonitas na flor da idade.

No dia do enlace, a tragédia acontece, pois “Mina” torna-se na quarta vítima do misterioso homicida, e acaba por falecer em plena cerimónia, nos braços de um desamparado “Kanzaki”. “Mina” enceta uma viagem pós-morte, onde acaba por se deparar perante o “portal da fúria” e encontra a actual guardiã “Izuko” (Eihi Shiina), que lhe propõe três escolhas: a 1ª passa por aceitar a sua morte e entrar no paraíso; a 2ª reconduz-se a vaguear pelo mundo como um fantasma; finalmente a 3ª consiste em assombrar o assassino, com a particularidade de posteriormente ir bater ao inferno.

"Rei, a guarda-costas de Kudo, empunha a sua katana"

Apesar de lhe ser facultado doze dias para decidir, a escolha parece ser óbvia. Contudo, “Mina” descobre através de “Izuko” que aqueles que matam, mesmo que justificadamente, têm o inferno como destino, sem qualquer capacidade de escolha por outra opção. A preocupação aumenta, quando “Mina”, como fantasma, descobre que o noivo “Kanzaki”, está decidido a encontrar o assassino e fazer justiça pelas próprias mãos.

“Mina” acaba por descobrir que os seus assassinos foram “Tatsuya Kudo” (Takao Osawa), um “playboy” milionário, e a sua secretária, a temível espadachim “Rei Miwa” (Kanae Uotani). A razão porque “Kudo” assassina jovens raparigas, deve-se à realização de um ritual satânico, que visa convocar demónios, de forma a que estes reavivem a sua esposa que está entre a vida e a morte. A particularidade é que as mulheres mortas por “Kudo” são reencarnações de antigas guardiãs do “portal da fúria”. Caberá a “Mina” impedir que “Kudo” leve a cabo os seus propósitos, e ao mesmo tempo impedir que o noivo “Kanzaki” condene-se ao tormento eterno.

"Kudo em luta com Rei"

"Review"

Quando se fala do realizador Ryuhei Kitamura, temos rapidamente que chegar a algumas conclusões. O homem é um eterno adolescente!!! Calma, não estou a depreciar o pobre do Kitamura, pois não o conheço de lado nenhum (embora não me importasse de trocar duas ideias com ele acerca de cinema), a não ser dos filmes claro! O facto de eu atribuir um carácter marcadamente juvenil ao realizador japonês funcionará aqui mais como um elogio sincero. Passo a explicar.

Pessoalmente e à primeira vista, não me lembro de um realizador tão “cool” como Kitamura. As películas dele detêm aquele cunho, muitas vezes superficial, mas que nos regala a vista e eleva a emoção, fazendo-nos passar um bocado bem interessante.

Em 1º lugar, o gosto pelas elaboradas “katanas”. Kitamura adora espadachins emblemáticos, portadores das distintivas lâminas, nos seus filmes. Não interessa que a época da película em questão seja a do Japão feudal, à semelhança de “Azumi”, ou num futuro indeterminado, com laivos de horror, como “Versus”. No primeiro caso que mencionei tínhamos a ingénua, mas mortal “Azumi”, interpretada pelo ídolo japonês Aya Ueto. No segundo, o prisioneiro “KSC2-303”, a quem o quase irrepreensível Tak Sakaguchi deu corpo. Um filme de Kitamura, sem uma “katana” de beleza deslumbrante, gravada com caracteres bem gravados, e um(a) portador à altura, simplesmente não faz o género do realizador. Ele gosta é de impressionar!

Em 2º lugar, a pose e a caracterização das personagens. Quem vê os filmes de Kitamura, tem que estar preparado para encontrar figuras inesquecíveis, caracterizadas de uma forma normalmente espectacular. Tudo mais uma vez para o regalo da vista. Não se esteja à espera de representações de antologia. A aposta parece ser feita em função do que vai parecer, em detrimento do que vai ser interiorizado.

"Mina falece nos braços de Kanzaki"

Kitamura é um miúdo (mais uma vez, repito a ideia), apesar de contar com 39 anos (faz 40 em Maio). Os seus filmes fazem os espectadores retornarem à adolescência em que os ídolos “pop”, as saídas à noite, os primeiros amores e os copos desnecessários parecem marcar a nossa vida (Socorro, querem ver que eu ainda não cresci!!!). No fundo, tudo se parece reconduzir ao viver exclusiva e unicamente pelas emoções fortes e pela odisseia da primeira impressão. Não há aqui espaço para grandes teoremas filosóficos, ou devaneios intermináveis. A “katana” e a aparência “fixe” podem representar aquela roupa nova que nos faz sentir as pessoas mais sexys do mundo inteiro. A pose ou frase mais emblemática, torna-se naquele cigarro ou cerveja que nem nos apetece consumir, mas que o fazemos para termos a figura do durão e do esclarecido da vida. O portento visual é o que interessa!

“Sky High” é um filme de Kitamura, possuindo desta forma todos os predicados acima referidos, e talvez mais alguns. Um desfile de “katanas” lindíssimo e personagens simplistas, mas com um “appeal” acima de qualquer censura. Já agora, há uma coisa de extrema importância que carece, acima de tudo, de ser mencionada. “Sky High” reúne no seu elenco um conjunto de mulheres de pasmar a vista!!! É impressionante! Kitamura deve ter efectuado um “casting” de modelos, em vez de actrizes. Estamos ainda a apreciar a beleza de um belo exemplar de rapariga japonesa, e já estamos a levar com outra em cima (e revoltados com o mundo, pela não literalidade física da expressão)! Isto não é justo para o subscritor deste escrito, e serve para distrair dos aspectos mais cinematográficos...e é por isso que peço desde já desculpa pela falta de objectividade deste singelo texto...

“Sky High” visa constituir a prequela de uma bem sucedida série da TV Asahi com o mesmo nome, e que igualmente viria a dar origem a uma “manga”. Trata-se acima de tudo de uma longa-metragem que visa expôr uma estória de amor trágica, mas que acaba por ser uma mescla de elementos que fazem lembrar filmes (vamos nos ficar pelos ocidentais) que vão desde “O Sexto Sentido”, passando pelo “O Corvo” e “Sempre”, dando um salto até “O Silêncio dos Inocentes” e “Duelo Imortal”, e um tempero com pitadas de “Kill Bill” e umas batidas techno. Confusos?! Não se preocupem, pois a película não é nada de transcendental, embora lide com temas que se reconduzem àquele aspecto, tais como os espíritos. Há ainda que contar com as cenas de luta, algumas extremamente bem conseguidas. Kitamura parece conseguir com que a cena mais idílica e calma se transforme de um momento para o outro numa orgia de violência, acção e espectacularidade. É como estar a ver um concerto de música clássica e de repente os assistentes todos, sem explicação aparente, começarem no “mosh” e no “stage diving”.

Os efeitos visuais revelam em geral uma boa qualidade, a que o desafogado orçamento não será alheio. Também temos as cenas marcantes, das quais pessoalmente, elejo como a supra sumo a entrada da noiva “Mina” na igreja, a esvair-se em sangue, tendo por pano de fundo o branco do seu imaculado vestido e a santidade do ambiente em redor. A aura é bastante negra, e por vezes podemos encontrar alguns elementos de “thrillers” na película, que são em pouco tempo ofuscados pelos aspectos mais fantasiosos.

“Sky High” é uma proposta interessante, que merecerá uma espreitadela descomprometida. É um “Kitamura”, e quem conhece as obras do realizador, saberá muito bem com o que contar. O conteúdo é fugaz, mas as costuras não aguentam e explodem de tanto estilo! Um campeão da superficialidade, mas mesmo assim, um orgulhoso representante do género onde se insere!


"Rei enfrenta uma oponente à altura, Shuo Kamiina"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Este artigo encontra-se igualmente disponível "on line" em ClubOtaku

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75