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segunda-feira, novembro 29, 2010

Mulan/Hua Mulan – 花木蘭 (2009)

Capa

Origem: Hong Kong/China

Duração aproximada: 114 minutos

Realizadores: Jingle Ma e Wei Dong

Com: Vicki Zhao, Aloys Chen (Chen Kun), Jaycee Chan, Hu Jun, Nicky Li, Yu Rong Guang, Lu Xujin, Vitas, Xu Jiao

Mulan

“Hua Mulan”

Sinopse

“Hua Mulan” (Vicki Zhao) é uma mulher que se disfarça de homem, de forma a tomar o lugar do seu pai “Hua Mu” (Yu Rong Guang), no exército do reino Wei, na guerra que se aproxima com os bárbaros Rouran. À medida que “Mulan” começa a ser extremamente bem sucedida no campo de batalha, uma paixão floresce no seu coração por “Weitan” (Aloys Chen), um general do exército Wei.

Wentai

“Weitan”

“Weitan” apercebe-se que para que “Mulan” atinja todo o seu potencial no campo de batalha, é necessário que a jovem se aperceba dos horrores da guerra, e em consequência disso, desaparece. Entretanto, o novo líder dos Rouran, o impiedoso “Modu” (Hu Jun) planeia uma invasão em larga escala, e “Mulan” terá de assumir o comando das forças de Wei para fazer face ao poderoso inimigo.

Wude

“Wude, o criado do líder dos Rouran”

Review”

“Hua Mulan” é uma heroína do folclore chinês que originalmente foi mencionada num poema do século VI, intitulado “A Balada de Mulan”. A lenda inspirou vários filmes, remontando o mais antigo a 1927, de seu nome “Hua Mulan Joins the Army”, do realizador Li Pingqian. Mas com certeza que quando o nome de “Mulan” é referido, virá à mente de quase todas as pessoas, a película de animação da Disney de 1998, que mereceu o epíteto da guerreira.

O realizador Jingle Ma, aqui auxiliado por Wei Dong, não reúne consensos na critica e público de Hong Kong, assim como no mundo dos apreciadores de cinema asiático em geral. Alvo de verdadeiras diatribes, Jingle Ma é visto por alguns como um puro “comercialista”, que dá corpo a películas de substância duvidosa. Quanto a nós, iremos por uma posição um pouco mais intermédia, reconhecendo que somos apreciadores por exemplo de “Fly Me to Polaris”, e duvidamos com propriedade de algumas outras obras de gosto bastante duvidoso.

Mulan e Wentai

“Mulan e Weitan”

Desta vez, e em jeito antecipação, iremos situar “Mulan”, no plano das boas obras de Jingle Ma, ideal para um público que não seja demasiado exigente com os pormenores e que se deixe seduzir pelos elementos mais apreensíveis do cinema, o que não é necessariamente mau. A história de “Mulan” é tremendamente popular entre os chineses e inevitavelmente teria de ser adaptada várias vezes para o grande ecrã. Nesta versão, existe uma grande incidência sobre os sentimentos da guerreira, sendo nos dado a observar os seus anseios, medos, inultrapassável coragem e, não fosse este um filme de Jingle Ma, a sua descoberta do amor. Para a envolvência presente em “Mulan”, muito contribui o desempenho da belíssima Vicki Zhao, que consegue praticamente transportar o filme aos seus ombros, conseguindo um saudável equilíbrio entre a faceta dura e a vulnerável da personagem. A película capta a atenção em muitos momentos, e muito certamente não defrauda os sentidos. Embora o detalhe histórico seja algo secundarizado, em detrimento da faceta mais pessoal de “Mulan”, não faltarão alguns momentos belicistas do agrado dos amantes do épico, possuindo os mesmos uma qualidade apreciável. Desde as batalhas em grande escala, apoiadas pelo guarda-roupa bem urdido e as paisagens como um bonito pano de fundo, até ao velho diapasão de questionar se existem guerras justas, existirão motivos de sobra para manter os espectadores minimamente interessados em seguir esta longa-metragem até ao seu epílogo.

Dotado de um inegável pendor comercial, “Mulan” acaba por constituir uma agradável surpresa, que dá alguns pontos à seriedade de Jingle Ma, enquanto realizador, embora apoiado neste desiderato em particular por Wei Dong. Com uma banda-sonora quase de antologia e uma grande emotividade, não se espere contudo uma obra do firmamento maior da aliança China/Hong Kong, que permaneça nos anais da história. Aguarde-se, isso sim, por um bom filme, ao nível de muitos que por aí deambulam, e cuja existência tem algum razão e significado. Pelo menos, até ao próximo “remake” ou versão.

Aconselhável!

Mulan 3

“Mulan comanda o exército de Wei”

imdb6.3 em 10 (986 votos) em 29 de Novembro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 7

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

segunda-feira, maio 11, 2009

Red Cliff II/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (2009)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 142 minutos

Realizador: John Woo

Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin

"Zhou Yu indica o caminho para a batalha"

Alerta!

“Red Cliff II” é a segunda parte da saga de John Woo, iniciada com “Red Cliff”. Pelo exposto, só deverá ler o presente texto, caso tenha visto o primeiro filme, sob pena de “spoilers”. Contudo, para quem já visionou a película predecessora, o texto anteriormente escrito acerca da mesma poderá ser um importante complemento ao presente neste "post".

Sinopse

O primeiro-ministro do império Han “Cao Cao” (Zhang Fengyi) prepara-se para atacar as forças combinadas do sul, lideradas pelo vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai) e “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro). A refrega acontecerá na fortaleza do “Precipício Vermelho”, no rio Yangtzé. “Cao Cao” tem razões para se sentir confiante, pois as suas forças são infinitamente superiores a nível de homens e logística. Para piorar a situação, e tendo em vista minar a moral do exército aliado, “Cao Cao” envia aos seus inimigos embarcações cheias de soldados mortos infectados com febre tifóide. Este movimento provoca uma epidemia na fortaleza sitiada, e “Liu Bei” (You Yong) decide partir com o seu exército, temendo a morte dos seu povo. A aliança finda, e o vice-rei “Zhou Yu” fica apenas com as forças de Wu estimadas em cerca de 30.000 homens, que terão de lutar contra os mais de 800.000 que “Cao Cao” tem sobre o seu comando.

"Xiao Qiao entrega-se ao inimigo"

Contudo, “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro) recusa partir, e decide lutar ao lado do exército de Wu, numa batalha à partida supostamente perdida. As movimentações de ambas as partes começam, e chega o dia do desequilibrado mas inevitável confronto, onde o futuro dos reinos do sul será decidido.

"O intrépido Gan Xing"

"Review"

Após uma primeira parte que muito prometeu, e onde John Woo parece ter voltado aos bons velhos tempos, agora no registo do épico, chega a altura de “Red Cliff II”, onde ficaremos a saber o destino dos heróis da fortaleza do “Precipício Vermelho” e o desfecho da monumental batalha que se avizinha. Supostamente, e em virtude desta premissa, será de pensar que o mais espectacular teria sido deixado para o fim. Na minha opinião, não foi isso que aconteceu, mas tal constatação não é necessariamente má. Digamos, em abono da verdade, que tudo foi bem repartido, tornando “Red Cliff II” um excelente complemento do primeiro filme, e as duas partes da saga, um épico que com certeza perdurará na memória. “Red Cliff II” começa com uma ligeira súmula dos principais acontecimentos ocorridos em “Red Cliff”, de forma a que nos situemos no enredo, e já agora é-nos oferecido um interessante jogo de “Cuju”, uma forma primitiva de futebol, que muito me fez lembrar os jogos que costumava praticar na escola quando me aventurava no ensino primário e básico.

Embora como já foi aludido, Woo se aventure por um género distinto daquele que o celebrizou, o épico proporciona ao realizador exteriorizar características bastante marcantes do seu estilo próprio. Temas como honra, a amizade e objectivos/desafios aparentemente impossíveis de cumprir são profusamente tratados nesta película, fazendo com que a emoção e o heroísmo marquem bastantes pontos. Como seria de esperar, e apesar de possuir quase duas horas e meia de duração, a acção de “Red Cliff II” é regra geral, mais intensa que no seu predecessor. É natural que assim seja, pois em “Red Cliff” era necessário dar um enquadramento geral da trama, de forma a que o espectador percebesse efectivamente o que estava em causa. Quando refiro que a acção é mais intensa em “Red Cliff II”, não me refiro tanto aos momentos individualmente considerados, mas numa perspectiva de maior continuidade.

"Liu Bei e Zhuge Liang"

Do meu ponto de vista, a primeira parte possui um tratamento superior no que toca ao combate individual dos intervenientes. Mesmo com um ou outro auxílio de cabos e guindastes, assistimos a momentos verdadeiramente espectaculares, que fazem lembrar do melhor que já se fez a nível do “wuxia”. Em “Red Cliff II”, embora possamos vislumbrar algum atributo técnico dos litigantes, a lógica belicista funciona mais em conjunto. É-nos apresentado momentos grandiosos, no que toca a batalhas em grande escala. Assistimos a um confronto naval onde o sangue, e os elementos fogo, terra e água misturam-se num “cocktail” explosivo e imponente. Na razão de ser principal desta película, ou seja, a batalha do “Precipício Vermelho”, Woo introduz a estratégia militar perceptível mas efectiva, o sempre bem-vindo tema do sacrifício por algo maior do que nós, e a costumeira irmandade que unem os protagonistas perante situações críticas. E sim, é verdade! Woo não prescinde do seu habitual “standoff” final. Em jeito de conclusão deste ponto, sempre direi que a acção está mais presente do que no primeiro filme, que por força da sua conjuntura a difundia de uma forma mais esparsa.

Os actores repetem o bom registo da primeira parte, e parecem quase todos terem amadurecido nos seus papéis. Tony Leung Chiu Wai e Takeshi Kaneshiro cumprem o que lhes é pedido numa saudável concorrência interna, sem desligar dos aspectos mais conducentes à irmandade na guerra. Vicki Zhao, encantadora como sempre, brilha no ecrã. Shido Nakamura, um actor que pessoalmente aprecio imenso, é o verdadeiro reflexo do combatente feroz que não vacila nas horas difíceis e que se prontifica a tudo para que a empresa seja bem sucedida. Saúda-se o maior protagonismo da actriz Ling Chi Ling em “Red Cliff II”, que adiciona mais "glamour" à película. “Xiao Qiao” afigura-se uma aparente Helena de Tróia orientalizada, quando é espalhado o rumor que afinal a razão para “Cao Cao” provocar o conflito, passa por desejar ardentemente a mulher do vice-rei “Zhou Yu”. De uma forma heróica e aparentemente votada à tragédia, “Xiao” contribui para o esforço de guerra ao se entregar voluntariamente ao primeiro-ministro, de forma a fazer com que o mesmo cometa erros que muito poderão ditar o resultado final da batalha.

Com a saga “Red Cliff”, Woo afirmou ter cumprido o sonho de uma vida, que era fazer um épico de grande dimensão acerca de um evento importante da história chinesa. O resultado final redundou numa fita de eleição, que deverá figurar nas obras importantes do cinema asiático do século XXI. Imune às críticas de alguns puristas, que afirmaram que a segunda parte da película desviou-se um tanto ou quanto de um maior rigor histórico, é-nos oferecida acção, intriga, sacrifício, amor, heroísmo, honra, tudo ingredientes que o realizador ama e que apaixonam os fãs dos seus filmes. Acima de tudo, o grande mérito de “Red Cliff” e principalmente “Red Cliff II” é serem o reflexo do que o seu criador tem de melhor. Aguardamos ansiosamente a próxima obra!

Seja pois muito bem vindo de novo ao oriente, Mr. Woo!

"Sun Shangxiang"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto Pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50





quinta-feira, outubro 30, 2008

Red Cliff/Chi bi - 赤壁 (2008)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 140 minutos
Realizador: John Woo
Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin
"O genial estratega Zhuge Liang"
Sinopse

No ano de 208, “Cao Cao” (Zhang Fengyi) o primeiro-ministro do imperador Han, convence este a declarar guerra aos senhores feudais do Sul da China “Liu Bei” (You Yong) e o duque de Wu “Sun Quan” (Chang Chen), afirmando falsamente que estes são traidores. Temendo “Cao Cao”, o monarca acede aos desejos deste e nomeia-o comandante de todos os exércitos, permitindo assim que este desencadeie o conflito.

“Liu Bei” e o seu povo conseguem escapar à justa após a batalha de Chang Ban, e refugiam-se numa fortaleza remota do reino. A sede de poder de “Cao Cao” está longe de ser saciada e este continua a progredir com o seu vasto exército. “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro), o genial estratega de “Liu Bei”, dirige-se aos domínios de “Sun Quan”, em ordem a solicitar a ajuda daquele no sentido de fazerem uma aliança militar contra os desígnios de “Cao Cao”. Com o auxílio do valente militar e principal conselheiro de “Sun Quan”, o vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai), “Zhuge Liang” consegue a tão pretendida união de esforços.

"O vice-rei Zhou Yu"

Após uma grande vitória contra os exércitos terrestres de “Cao Cao”, as forças combinadas de “Liu Bei” e “Sun Quan”, concentram-se na fortaleza de “Zhou Yu” conhecida como “Precipício Vermelho” (“Red Cliff”) e aguardam o confronto decisivo com as imensas forças de “Cao Cao”, compostas por 800.000 homens e 3.000 embarcações de guerra.

"Review"

Após uma longa passagem por Hollywood, o mítico realizador John Woo decide voltar à terra-natal não para realizar mais um dos seus sensacionais “heroic bloodshed”, mas para se aventurar no género épico. Para o efeito, foi-se inspirar na batalha dos precipícios vermelhos, um conflito armado que ocorreu no fim da dinastia Han, mais precisamente no ano de 208, e que antecedeu o período conhecido como o dos “Três Reinos”. A sua localização exacta é alvo de intensa discussão académica, sendo certo apenas que a mesma se desencadeou algures no rio Yangtzé. John Woo, no sentido de conferir uma verdade histórica mais palpável à sua obra basear-se-ia na “Crónica dos Três Reinos”, um documento oficial escrito por um militar da época de seu nome Chen Shou. No entanto, é certo que Woo não seguiu escrupulosamente a sua fonte primária, e enveredou por uma compreensível romantização no sentido de tornar esta longa-metragem mais apelativa ao grande público. Mas isso é o que praticamente toda a gente faz, e não é nada a que não estejamos já habituados. Cumpre ainda referir que “Red Cliff” é o filme asiático mais dispendioso da história, com um orçamento que ronda os 80 milhões de dólares. Enquanto na Ásia o filme terá duas partes que em conjunto totalizarão mais de 4 horas, para o Ocidente será feito um único filme com duas horas e meia de duração. Como sou avesso a cortes na sala de edição, seguirei a linha escolhida para a Ásia, e dissertarei um pouco acerca da primeira parte, ansiando para que em 2009 tenha a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista convosco acerca do epílogo desta película, consubstanciada na segunda parte.

"O primeiro-ministro do imperador Han, o ambicioso Cao Cao"

Os épicos asiáticos tendem a ser verdadeiramente grandiosos, não apenas em meios, mas igualmente em emoção, mensagem, sentimento e tudo aquilo que nós fãs do género prezamos com tanto coração. São estas características que normalmente os distinguem dos seus congéneres ocidentais, que muitas vezes são capazes de os superar na questão logística, mas que normalmente perdem aos pontos no que toca à envolvência transmitida ao espectador. Quem costuma visitar este espaço sabe que gosto de todos os géneros de cinema sem distinção, mas quando toca a puxar pelo pendor heróico “da coisa”, têm aqui um homem para o que der e vier. É por este mesmo motivo que os anos de 2007 e 2008, consubstanciaram-se numa possível época de ouro para mim, com a realização de um elevado número de longas-metragens que em potência poderiam preencher-me as medidas. Falo de “Warlords”, “The Forbidden Kingdom”, “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon”, este “Red Cliff” e “An Empress and the Warriors”. É certo que muitas vezes a expectativa dá lugar à desilusão, e o último filme mencionado ficou bastante longe de ser algo memorável. Felizmente, o mesmo não se pode afirmar em relação a este que agora se analisa.

Os meios usados são, à falta de expressão melhor, verdadeiramente impressionantes e preenchem as medidas aos espectadores. Estamos a falar de centenas de figurantes, referindo só a título de curiosidade que o exército vermelho chinês cedeu 1000 soldados para intervirem no filme. A apresentação dos exércitos, assim como da frota de navios de guerra deslumbra ao máximo, mesmo que nos apercebamos que houve algum inevitável recurso a imagens geradas por computador. Junte-se a estas características um guarda-roupa, decoração, arquitectura e manancial bélico marcado pelo detalhe, acompanhado de paisagens e fotografia esplendorosa e...já está! Temos uma receita de sucesso, e meio caminho andado para que o filme seja um êxito garantido, com o necessário sucesso de bilheteira. Não esquecer ainda a competente banda-sonora do excelente compositor japonês Taro Iwashiro, cujo trabalho em “Shinobi: Heart Unde Blade” simplesmente adorei! Embora aqui não atinja um nível semelhante, consegue nos hipnotizar o suficiente para nos embrenharmos ainda mais na película.

"O exército de Liu Bei prepara-se para a batalha, com o poderoso general Guan Yu na dianteira"

Por sua vez, os combates estão bem conseguidos, tanto de um ponto de vista colectivo como individual. “Red Cliff” aqui não deixa mesmo os seus créditos por mãos alheias e consegue elevar mais ainda os seus índices de pujança visual, ou não estivéssemos a falar de John Woo, auxiliado pela coreografia engendrada por Corey Yuen. É muito agradável à vista observar os planos da batalha em que as forças aliadas adoptam uma estranha mas bastante efectiva formação de anéis de tartaruga, que enreda as forças de Cao Cao numa bem urdida armadilha. Mas o que ainda mais me agradou foram as performances individuais que se destacam no meio da contenda geral. Para a alegria de muitos e também a desilusão de outros tantos, Woo decidiu fugir ao combate clássico, e colocar alguns elementos mais próprios do wuxia, com auxílio de guindastes se tal fosse necessário, fazendo com que uma aura mística e lendária rodeie os guerreiros. Contudo, não se ouse pensar que a crueza encontra-se ausente! Quando é necessário atacar forte e duro, com bastante sangue à mistura, temos igualmente uma mão cheia de cenas para satisfação pessoal. Sob o signo da espectacularidade, em que Woo sempre quase viveu, consegue-se concretizar uma saudável mescla de ambos os estilos de combate que só vem elevar o filme, na minha humilde opinião.

Não foi isenta de atribulações a reunião do elenco para “Red Cliff”, e atendendo à expectativa que tinha acerca da película, foi uma situação que acompanhei um pouco, recolhendo informação pelos sítios da especialidade, à medida que a coscuvilhice se ia desenrolando. Originariamente, o conhecedíssimo actor Chow Yun Fat (um velho conhecido de John Woo) tinha sido recrutado para o papel do vice-rei Zhou Yu, uma das personagens mais emblemáticas da trama. Posteriormente, Yun Fat viria a recusar a participação, alegando para o efeito que tinha recebido o guião uma semana antes da rodagem começar e por esse motivo não ter possibilidades de se preparar convenientemente. Terence Chang, o produtor da película desmentiu veementemente este facto afirmando que a seguradora do actor tinha se oposto a 73 (?!) cláusulas do contrato do actor. Por sua vez, outro monstro do cinema asiático Ken Watanabe teria sido seleccionado para o papel do vilão do filme Cao Cao. Supostamente, e aqui entram os costumeiros nacionalismos, não foi bem visto o facto de uma personagem importante da história chinesa ser interpretado por um estrangeiro. O consagrado Zhang Fengyi viria a ganhar o papel. Por fim, o meu actor favorito Tony Leung Chiu Wai. No início estava-lhe destinada a representação de Zhuge Liang, do meu ponto de vista a figura mais importante desta obra. O actor viria a declinar, invocando a razão de estar esgotado devido às filmagens de “Lust, Caution”. Numa reviravolta que poucos perceberam, Tony Leung viria a retornar ao “cast”, desta vez para assumir o papel que estava destinado a Chow Yun Fat, ou seja o do vice-rei Zhou Yu. Zhuge Liang viria a ser entregue a Takeshi Kaneshiro, um actor que dispensa qualquer tipo de apresentação. O certo é que o “casting” final redundou numa verdadeira constelação de estrelas de grandes cinematografias asiáticas, a saber, da China, Hong Kong e Japão. E embora o resultado da representação pudesse ter sido melhor, atendendo à qualidade intrínseca dos intervenientes, nota-se que o binómio entretenimento/espectacularidade levou a melhor sobre qualquer tipo de possível interpretação transcendental. A realidade é que todos, sem excepção, cumprem o que lhes é pedido, e o resultado é muito bom.

É curioso, e ao mesmo tempo de relevar, que as personagens são apresentadas num estilo que em muito homenageia os grandes clássicos de wuxia e até do denominado “kung fu old school”, cuja trama principal versava sobre a luta de um grupo heróico de guerreiros contra uma qualquer força opressora dominante. Temos o estratega nato e a personificação da inteligência erudita em “Zhuge Liang”, a valentia honrada em “Zhou Yu”, a coragem escondida em “Sun Quan”, a irreverência na princesa “Sun Shangxiang” (interpretada pela sempre bela Vicki Zhao), todos apoiados por um manancial de guerreiros, cada um com as suas qualidades pessoais e de combate muito próprias e distintas. A sim à primeira vista, lembrei-me de “The Water Margin” (a série, pois nunca tive o prazer de ver o filme de Chang Cheh), protagonizada pelo actor japonês Atsuo Nakamura, e que há uns anos passou na “SIC Radical” (para os leitores que não vivem em Portugal, ou que não têm acesso aos canais portugueses, informo que é um canal de televisão).

Resta ainda referir que o costumeiro e inevitável fetiche das pombas de John Woo, encontra-se bem presente em “Red Cliff”. Os simpáticos bichos marcam a sua presença em algumas fases do filme, tais como na homenagem ao mensageiro de Wu que é morto por “Cao Cao”, numa clara manobra de intimidação contra os aliados ou na parte em que propõem o casamento da princesa “Sun Shangxiang” a “Liu Bei” de forma a cimentar mais a aliança. As pombas acabam por assumir uma papel mais interventivo na longa-metragem, não se assumindo apenas como um adorno decorativo ou simbólico, mas igualmente servindo como um meio de comunicação à distância entre os guerreiros.

Confesso que a primeira parte de “Red Cliff” deixou-me com água na boca, e correspondeu bastante às minhas expectativas. Estamos perante um filme que se se enquadra na melhor tradição dos épicos asiáticos, e que ainda consegue introduzir alguns elementos do wuxia que acentuaram mais a sua espectacularidade. Aguardemos então por 2009, na esperança que o melhor ainda foi deixado para a segunda parte, ou seja, a própria batalha decisiva do precipício vermelho, que promete ser um dos maiores confrontos épicos da história do cinema!

Muito bom!


"As forças aliadas atraem o exército Han para uma armadilha, usando a táctica dos anéis de tartaruga"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Viscera Blog
  2. Batto presenta...
  3. Noite Americana

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






terça-feira, maio 20, 2008

Infiltrados II/Infernal Affairs II/Mou gaan dou II -
無間道II

Origem: Hong Kong

Duração: 119 minutos

Realizadores: Andrew Lau e Alan Mak

Com: Anthony Wong, Eric Tsang, Carina Lau, Shawn Yue, Edison Chen, Francis Ng, Hu Jun, Chapman To, Roy Cheung, Liu Kai Chi, Yu Chiu, Kara Hui, Andrew Lin, Henry Fong, Arthur Wong, Peter Ngor, Teddy Chan, Joe Cheung, Wan Chi Keung, Wu Kwan, Kelly Fu, Alexander Chan, Hera Lam, Eva Wong, Brian Ireland, Bey Logan

"O jovem Lau, o infiltrado da tríade na polícia"

Sinopse

No ano de 1991, o inspector “Wong” (Anthony Wong) leva a cabo uma luta sem tréguas contra as mais poderosas tríades de Hong Kong, tendo por aliado um membro daquelas organizações chamado “Sam” (Eric Tsang). Um dos objectivos de “Wong” é colocar “Sam” numa posição hierárquica elevada, de forma a poder controlar com mais segurança as actividades mafiosas que povoam a actual região administrativa chinesa. Contudo, “Sam” vive sob o jugo da poderosa família Ngai, que tem em “Kwun” (Joe Cheung), o seu líder incontestável.

O equilíbrio é seriamente afectado quando “Kwun” é assassinado por “Lau” (Edison Chen), a toupeira que “Sam” tem infiltrada na polícia de Hong Kong. A chefia da família Ngai é assumida por “Hau” (Francis Ng), e este trata logo de instituir uma nova ordem, que passa por assassinar os “4 grandes”, expressão que se refere aos quatro mais poderosos chefes de tríades, a seguir ao próprio “Hau”.

"O inspector Wong"

Entretanto o jovem “Yan” (Shawn Yue) é expulso da academia de polícia, por ser meio-irmão do poderoso “Hau”. “Wong”, que pressente a honestidade do rapaz, propõe-lhe que ele seja um espião das forças da autoridade no clã Ngai. Dividido entre a lealdade à família e o sentido de dever, “Yan” acaba por aceitar, e torna-se na toupeira da polícia.

A guerra entre as tríades começa a subir de tom, assim como o conflito entre os criminosos e a polícia. Em 1997, ano em que Hong Kong transitou para a administração chinesa, um ciclo velho igualmente vai morrer no crime organizado, e um novo se iniciará.

Mary Hon, a esposa do gangster Sam"

"Review"

Após o estrondoso e merecido sucesso de “Infiltrados”, Andrew Lau e Alan Mak não perderam tempo e no ano seguinte lançaram para as telas de cinema “Infiltrados II”, de forma a dar continuidade à saga, e se possível fazer rentabilizá-la ao máximo. Eu disse continuidade? Talvez não seja bem assim. A expressão em causa referir-se-á propriamente à feitura de um segundo filme e não à narrativa propriamente dita. A razão para esta minha afirmação passa pelo facto de “Infiltrados II” ser uma prequela a “Infiltrados”, não se baseando em eventos que tenham ocorrido posteriormente aos relatados neste filme. Pelo contrário, são apresentados os acontecimentos que decorrem num espaço temporal que se inicia em 1991 (dez anos antes da trama de “Infiltrados”) e que termina em 1997, ou seja, o ano em que Hong Kong transita para a esfera da República Democrática da China, embora mantendo um estatuto autónomo.

Tendo por base esta premissa, conseguimos perceber com mais detalhe os percursos dos infiltrados “Yan” (na tríade) e “Lau” (na polícia) na sua juventude, assim como as motivações pessoais de cada um que os levam a enveredar pela espionagem no campo do inimigo. Mas apesar de as personagens representadas aqui por Shawn Yue e Edison Chen, serem supostamente o motor da história (e já agora do resto da saga), isto não quer dizer necessariamente que o enredo tenha que girar completamente em volta deles. Poder-se-ia pensar que seria assim, mas não é o que sucede. Verdadeiramente quem detém em “Infiltrados II” a primazia, e ofusca a história dos restantes intervenientes são o inspector “Wong”, o líder mafioso “Sam” e a sua esposa “Mary”, interpretados por Anthony Wong, Eric Tsang e Carina Lau respectivamente. É certo que os realizadores tentam não se afastar do rumo da trilogia (em 2003, veria igualmente a luz do dia “Infiltrados III”), e em consequência tudo fazer para que nos apercebamos da iniciação de “Yan” e “Lau” nos primórdios dos seus perigosos ofícios . Contudo, é dado mais relevo aos aspectos pessoais dos “mestres das marionetas”, ou seja, o inspector “Wong” que introduz “Yan” como espião no mundo das tríades e “Sam”, como o mentor de “Lau”, na sua ascensão. E ainda bem que assim o é, pois sem dúvida nenhuma que ficamos com uma visão mais abrangente de tudo o que se sucede, e em consequência entendemos vários aspectos que ficam um pouco por explicar em “Infiltrados”, essencialmente devido à sua curta duração.

O acima descrito terá de ter obviamente incidências nas actuações dos actores, do ponto de vista de “quem brilha mais”. Não é segredo para ninguém que Anthony Wong, Eric Tsang e Carina Lau constituem três monstros sagrados de Hong Kong. As suas inegáveis capacidades representativas fazem com que eles formem uma santíssima trindade, com actuações quase irrepreensíveis e ao nível do seu inegável estatuto. Merece relevar igualmente a boa interpretação do profissional Francis Ng, com uma carreira no cinema asiático susceptível de pouquíssimos reparos. Todos excelentes professores para a dupla dos então jovens promissores Shawn Yue e Edison Chen, hoje em dia certezas do “show business” (Edison Chen, infelizmente anunciou uma paragem por tempo indeterminado da sua carreira devido ao escândalo sexual que abanou Hong Kong, em que estiveram envolvidas igualmente Cecilia Cheung, Gillian Chung e outras cinco jovens estrelas em ascensão – ver mais AQUI).

"Hau aponta uma arma à cabeça de Sam"

Como sequela, ou melhor prequela...no fundo o segundo filme da saga, “Infiltrados II” corria o sério risco de uma abordagem repetitiva e sensaborona, que faria com que estivesse aqui a reclamar o quanto as sequelas e prequelas desgastam um conceito bom, que mais valia terem ficado por um filme, que estragaram uma ideia e execução com mérito, etc...etc...Quantas vezes qualquer um de nós já deve ter efectuado este exercício mental, dando a resposta inevitável que numa saga, normalmente o primeiro filme é o melhor. No caso da trilogia de “Infiltrados”, não restam muitas dúvidas que o primeiro episódio é superior. Mas só apenas esta ideia determinante corresponde à realidade. A feitura do segundo filme não estragou o conceito, simplesmente complementou-o de uma forma francamente boa. À ideia muito presente na primeira obra do “ jogo do gato e do rato”, é aditada aqui por uma abordagem mais violenta, no sentido da luta pelo poder dentro das tríades, o seu funcionamento interno e “modus operandi” É gratificante ver que os realizadores Andrew Lau e Alan Mak não enveredaram por qualquer tipo de facilitismo, conseguindo dotar esta película de uma identidade própria. Se eu nunca tivesse visto “Infiltrados”, estaria habilitado a olhar para “Infiltrados II”, como uma realidade una e considerá-lo um filme praticamente completo.

Resta dizer que a banda-sonora e a fotografia evidenciadas na primeira película, repetem-se aqui ao mais alto nível, dando continuidade ao que tudo de bom se fez anteriormente. Estando imbuído de um verdadeiro espírito “tríadesco” (inventei esta expressão agora, portanto não vale a pena ir a dicionários da Porto Editora e afins), e revestido de uma aura negra de vingança e crime (o chefe da tríade “Hau” afirma algumas vezes que “o meu pai costumava dizer que na rua cá se fazem cá se pagam”), “Infiltrados II” constitui um meritório segundo episódio de uma saga inesquecível. Ao mesmo tempo, e apesar de ser um filme posterior, dá o mote para o fim de um ciclo e o início de outro exposto em “Infiltrados”. A simbologia assente no facto do epílogo do filme suceder precisamente no dia 1 de Julho de 1997, data em que o Reino Unido transferiu a soberania do território, demonstra isso. No meio das comemorações, as personagens principais da película (as que sobreviveram ao digladiar) tentam cicatrizar feridas recentes e olhar expectantes para o futuro.

Sendo uma longa-metragem com grande valia e dotada de um esforço sincero, não consegue o milagre de ultrapassar ou igualar o primeiro “Infiltrados”. As razões são muito simples. Em 1º lugar, foi o “primeiro” (passe a repetição), e por esse motivo soprou uma estonteante lufada de ar fresco no panorama de Hong Kong (como já dizia o outro, “não há amor como o primeiro” - passe a repetição mais uma vez). A 2ª e 3ª razões são bastante objectivas e passíveis de unificação. Por mais que se tente, é quase impossível substituir um Tony Leung Chiu Wai e Andy Lau em grande forma!

A não perder!

PS: Ei Scorcese, vai um "The Departed II"?!?! Sempre se poupa um bocadinho nas ideias...

"Execução impiedosa"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25