"MY ASIAN MOVIES"マイアジアンムービース - UM BLOGUE MADEIRENSE DEDICADO AO CINEMA ASIÁTICO E AFINS!!!

Mostrar mensagens com a etiqueta Kulbhushan Kharbanda. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Kulbhushan Kharbanda. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, julho 17, 2009

Origem: Índia
Duração: 213 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Hrithik Roshan, Aishwarya Rai, Punan Sinha, Sonu Sood, Kulbhushan Kharbanda, Suhasini Mulay, Ila Arun, Shaji Chowdhari, Nikitin Dheer, Visswa Badola, Raza Murad, Yuri, Rajesh Vivek, Pramod Moutho, Sayed Badrul Hasan, Indrajeet Sarkar, Pramathesh Mehta, Disha Vakani
"O imperador Akbar"

Sinopse

No século XVI da nossa era, “Jalaluddin Mohammad Akbar” (Hrithik Roshan) é o grande imperador dos Mughal e o governante mais poderoso do Industão. Depois de ter consolidado o seu império no Hindu Kush, Akbar estende as suas fronteiras do Afeganistão até à baía de Bengala, e doa Himalaias até ao rio Narmada, dominando desta forma um vasto território. Tendo em vista consolidar ainda mais o seu poder político e militar, e de forma a forjar uma aliança entre duas culturas e religiões distintas, “Akbar” aceita a proposta do rei Rajput “Raja Bharmal” (Kulbhushan Kharbanda) que passa por casar com a filha deste chamada “Jodhaa Bai” (Aishwarya Rai).


"A princesa Jodhaa Bai"

Mal imagina “Akbar”, que um casamento feito por estrita conveniência, cedo se tornará numa jornada para um grande amor. “Jodhaa” é uma mulher destemida e de convicções fortes, que se recusa a ser um mero peão numa jogada política. Resiste aos avanços iniciais de “Akbar”, fazendo com que o monarca tenha de travar a maior batalha da sua história. Mas Akbar é um vencedor, e através de uma reflexão sobre vários aspectos da sua vida pessoal e política, descobre o caminho para o coração da bela “Jodhaa”.

"Orando"

"Review"

Ashutosh Gowariker, o realizador que nos trouxe o premiadíssimo “Lagaan”, parece ter alguma queda para o épico, apesar da sua algo que curta carreira como realizador, pelo menos a julgar pelo número de filmes que constam no seu currículo. “Jodhaa Akbar” foi o grande vencedor dos últimos “Filmfare Awards”, realizados este ano num conhecido hotel luxuoso de Macau, tendo arrebatado quase todos os principais prémios, mormente para melhor filme, melhor realizador e melhor actor principal. O brilho só poderia ter sido maior se a estonteante Aishwarya Rai tivesse levado para casa o galardão para melhor actriz principal, e o inevitável A.R. Rahman o de melhor director musical. Não foi isso que aconteceu, mas o saldo afigura-se como francamente positivo. Fica bem ainda referir que no Festival Internacional de cinema de São Paulo, essa grande cidade do país irmão Brasil, “Jodhaa Akbar” acabaria por ser considerado o filme estrangeiro preferido da audiência, tendo obtido o respectivo reconhecimento por tal facto. Acima de tudo, há que reconhecer que a película que presentemente é objecto de análise do presente texto tem causado muito “frisson”. Será merecido? Já vos darei conta da minha opinião, até porque confesso que a minha expectativa em visionar esta longa-metragem era imensa.


“Jodhaa Akbar” é acima de tudo duas coisas: um épico e uma história de amor. Doutra perspectiva, igualmente correcta, poderá ser passível considerar-se como uma história de amor épica. Como qualquer longa-metragem que pretenda, de forma directa ou indirecta, narrar eventos históricos, alguma celeuma acaba sempre por surgir. Quando estamos a falar da Índia, uma nação assente numa pluralidade étnica e religiosa bastante acentuada, que degenerou (a) em vários conflitos, o risco de tal suceder aumenta exponencialmente. Mesmo com Gowariker a admitir que cerca de 70% do argumento é ficcionado e da sua autoria pessoal, académicos atacaram este filme afirmando que Jodhaa Bai nunca foi esposa do imperador Akbar, mas sim do seu filho Jahangir. O erro teria nascido do livro subscrito pelo tenente-coronel inglês James Tod, intitulado “Annals and Antiquities of Rajasthan”. Os Rajput, por sua vez, também não gostaram da forma como foram retratados em “Jodhaa Akbar”, tendo a exibição do filme sido proibida nos estado de Uttar Pradesh, Rajasthan, Haryana e Uttarakhand. Tais actos levaram a uma batalha judicial entre os produtores do filme e os grupos de Rajput indignados, tendo o Supremo Tribunal da Índia ordenado aos governos provinciais que levantassem o embargo a esta obra.

"Duelo dos amantes"

História e política à parte, a primeira ideia que terá de ser retida acerca de “Jodhaa Akbar”, é que se trata de um filme sumptuoso. Desde as paradisíacas paisagens ao belo guarda-roupa, passando pelos palácios de sonho, tudo nesta película parece brilhar com uma luz incandescente. Só para termos uma ideia da dimensão megalómana como as coisas são aqui levadas a cabo, Gowariker usou 80 elefantes, 100 cavalos e 55 camelos nas cenas de batalha, para além de milhares de figurantes. Na música “Azeem O Sham, Shahenshah” (que já postei o videoclip AQUI) intervieram 1000 dançarinos, todos devidamente vestidos com indumentária da época, acompanhados de adereços como espadas e escudos. Como expoente máximo de luxo, direi igualmente que a soma de todo o ouro usado pelas personagens de “Jodhaa Akbar” ascende a 400 quilos!!! Julgo que com estes dados, ninguém se atreverá a pôr em causa que estamos perante uma produção com uma magnitude imensa, não se aplicando esta premissa apenas às películas de “Bollywood”.

Apesar da intriga política/religiosa/social e o manancial bélico terem uma parte importantíssima na trama, “Jodhaa Akbar” é antes de tudo uma história de amor. E quase todos nós sabemos que no campo do deflagrar de sentimentos, o cinema de “Bollywood” não pede meças praticamente a nada ou ninguém. Estamos perante a saga de uma linda princesa que ensina um jovem monarca que para governar bem tem de conquistar não apenas reinos ou povos, mas acima de tudo o coração dos seus súbditos. E a parada é posta num nível bastante elevado, pois “Akbar, o Grande” terá forçosamente de cumprir os objectivos propostos pela sua amada, de forma a que possa almejar ao prémio máximo, ou seja, ela própria. Imagino que naquela época, se isto acontecesse na realidade, “Akbar” não iria na conversa de “Jodhaa” e resolveria as coisas como habitualmente o fazia, ou seja, à força. É óbvio que aqui tal não poderia suceder, e “Akbar” orgulhosa, mas pacientemente, acede aos desejos de “Jodhaa” e através da sua descoberta pessoal, ganha o respeito dos seus subordinados, não apenas como um temível guerreiro, mas também como um governante justo, bondoso e compreensivo.

É extremamente apelativo num romance que se preze, o surgir de dificuldades a atravessarem-se no caminho dos apaixonados e as tentativas destes em superá-las. Aqui os problemas derivam sobretudo da diferença de costumes e religião entre ambos, que muitas vezes irá criar tentativas de descredibilização de “Jodhaa” na corte de “Akbar”. A princesa, sob a promessa de anuência do imperador, tenta manter alguns dos seus hábitos que considera fazer parte da sua própria essência como pessoa. Mas tal não granjeará simpatias numa sociedade muçulmana conservadora, que não vê com bons olhos o casamento da sua figura mais emblemática com uma hindu. Existem “complots” urdidos contra “Jodhaa”, que no início até acabam por chegar a bom porto, mas como aqui o amor vence sempre, “Akbar” acaba por se aperceber das maquinações contra a sua paixão, e toma atitudes que, contra tudo e todos, acabam por salvar os seus sentimentos e como decorrência secundária, mas importante, provocam uma nova visão política do seu império. É pois, fácil de perceber, que estamos perante uma longa-metragem que vive sob o signo do “love conquers all”, e neste ponto do texto já devem ter notado que a designação deste filme é a junção dos nomes do casal de enamorados “Jodhaa” (a princesa) mais “Akbar” (o imperador), que visa personificar esta simbiose de corpos e almas.

As batalhas e as restantes cenas de acção são do melhor que já vi na sétima arte, com momentos verdadeiramente arrepiantes e realistas. Fiquei particularmente impressionado com o treino dos elefantes presentes no filme, e o seu protagonismo durante as batalhas. Como já abordei em anteriores textos neste espaço, uma batalha que conte com elefantes, é algo de inexcedível. Os tanques de guerra da antiguidade conferem uma dimensão suplementar, que uma cavalaria não consegue almejar, por mais perfeita que seja em formação e número. Neste caso em particular, podemos observar elefantes verdadeiramente enraivecidos a esmagar com as patas os corpos de soldados desamparados, ou a varrer tudo o que podem apanhar com as suas trombas. É de igualmente admirar o diálogo físico que o imperador “Akbar”, mantém com um elefante e que faz parte do treino, julgo que de ambos. A cena tem muito de belo, numa clássica confrontação entre homem e besta (esta expressão não é usada com sentido depreciativo). No restante, as cenas bélicas possuem momentos de luta verdadeiramente excitantes, onde podemos observar setas a passar a milímetros dos alvos, ou uma verdadeira orgia de sangue que ilustra os costumeiros terrores da guerra. Merece igualmente um destaque especial o interessante duelo travado entre “Akbar” e o seu rival “Sharifuddin”, que pela envolvência e própria técnica de manejo das lanças, traz à memória a luta entre Aquiles e Heitor, no filme “Tróia”, de Wolfgang Petersen.

A banda-sonora, da autoria do mestre A.R. Rahman, exibe-se ao nível do que já nos habituamos, ou seja, bom. Destaco a música fenomenal “Azeem O Sham, Shahenshah”, que inclusive faz também parte da banda-sonora da novela brasileira “O Caminho das Índias”. Possui um pendor épico que se ajusta na perfeição ao ambiente da película, e que eleva imenso a réstia de heroísmo que, em maior ou menor medida, reside em cada um de nós. Ao contrário de algumas críticas que podem ser consultadas na internet, corroboradas por prémios que os principais actores venceram em certames de cinema, entendo que os intérpretes não denotam nada de transcendente na sua actuação. É certo que a beleza do outro mundo de Aishwarya Rai é sempre uma mais-valia imprescindível, para além do facto de a conceituada actriz conseguir arrancar alguns bons momentos durante esta longa-metragem. Igualmente Hrithik Roshan demonstra ter estampa para desempenhar o papel do imperador “Akbar”, e consegue cativar a audiência, assumindo uma figura de um homem duro, mas bom e justo. Uma muralha de pedra que se desmorona perante os inegáveis encantos de Rai. No entanto, é preciso reafirmar que estamos perante prestações ditas normais dos citados actores, sem demasiada elevação. Se existe algo que ressalta à vista, e aspecto que reconheço imprescindível nesta obra, é a inegável química que existe entre Rai e Roshan.


“Jodhaa Akbar” tem como predicados positivos a exposição de uma história de amor que encanta, a fricção política que ocorre sempre que se tenta quebrar com o instituído e as cenas das batalhas verdadeiramente fenomenais. Mas acima de tudo, e saúda-se o trabalho que vários filmes de “Bollywood” têm demonstrado neste particular, “Jodhaa Akbar” passa uma mensagem assaz positiva de tolerância religiosa e étnica. Tenta-se demonstrar que é possível e desejável uma reconciliação e aceitação mútua entre hindus e muçulmanos, numa desejada união entre todo o povo indiano, independente de credos ou costumes. Contudo, “Jodhaa Akbar” desilude um pouco, pois por vezes não consegue fugir dos trilhos do previsível ou da superficialidade. Embora se entenda que o mundo de sonho, normalmente domina a cultura do espectro de “Bollywood” (embora existam exemplos em que tal não sucede), falta credibilidade em alguns momentos da obra de Gowariker. E muitas vezes são estes parâmetros que distinguem uma obra grandiosa de um bom filme. “Jodhaa Akbar” fica-se pelo último espectro.

Aconselhável!


"A corte Mughal celebra a grandeza do seu imperador"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8,13




sábado, fevereiro 21, 2009

Cheating/Hera Pheri - हेरा फेरी (2000)

Origem: Índia

Duração: 144 minutos

Realizador: Priyadarshan

Com: Akshay Kumar, Sunil Shetty, Paresh Rawal, Tabu, Gulshan Grover, Kulbhushan Kharbanda, Om Puri, Mukesh Khanna, Sulabha Arya, G. Asrani, Dinesh Hingoo, Mushtaq Khan, Kashmira Shah, Namrata Shirodkar, Snehal Dabi

"Baburao"

Sinopse

“Shyam” (Sunil Shetty) é um jovem que parte da sua vila para Calcutá, de maneira a tentar arranjar um emprego no banco onde o falecido pai trabalhou. O rapaz assenta a sua pretensão no facto do progenitor ter morrido num incêndio de uma sucursal do banco, fazendo com que esta instituição tenha uma dívida para com a família. Cedo, “Shyam” descobre que não está sozinho na luta pelo lugar, pois “Anuradha” (Tabu), cujo pai faleceu no mesmo incêndio, também pretende o emprego. No meio de discussões sobre qual dos pais morreu primeiro, “Shyam” tenta descobrir um sítio onde morar, e acaba por ir ter com “Baburao” (Paresh Rawal), um excêntrico e alcoólico dono de uma oficina chamada “Star Garage”, conseguindo aí um quarto.

"Shyam"

Os problemas não acabam, pois “Shyam” tem de partilhar a casa e também um pouco da sua vida com “Raju” (Akshay Kumar), um aldrabão nato cujo sonho é ganhar dinheiro fácil para subir na vida. Partilhando todos de imensas dificuldades financeiras, a sorte parece mudar quando numa noite de bebedeira, recebem um telefonema por engano, devido a uma troca de linhas. “Kabira” (Gulshan Gover), um terrível criminoso, raptou a neta do milionário “Deviprasad” (Kulbhushan Kharbanda), e exige uma fortuna como resgate. Muito por incentivo de “Raju”, os três decidem fazer-se passar pelos raptores, pedindo o dobro do dinheiro do resgate a “Deviprasad”, tencionando entregar o pedido pelos criminosos e a neta ao milionário. No meio do pouco ortodoxo esquema, escusado será dizer que muita confusão irá degenerar!

"Shyam, Baburao e Raju"

"Review"

“Hera Pheri” é um “remake” do filme de 1989, denominado “Ramji Rao Speaking”, cujo história o realizador Priyadarshan apreciou imenso. Estava dado o mote para que uma das comédias mais bem sucedidas do universo de “Bollywood” visse a luz do dia. O “frisson” viria a dar origem a sequelas, supostamente com uma qualidade inferior em todos os aspectos ao filme que agora se analisa. Neste aspecto, não me pronunciarei, pois assim como descobri “Hera Pheri” recentemente, desconheço por completo as restantes películas que compõem a saga e em que moldes saíram.

Por natureza, eu sou daquele tipo de espectador que não é atreito a comédias e este filme destina-se essencialmente àquelas pessoas que gostam de rir. Não é uma obra propriamente dita de humor inteligente ou mais cerebral. Constitui, isso sim, uma mais versada em pessoas reais, que vivem situações perfeitamente “surreais”. Quando visionei esta película, e ressalvadas as devidas distâncias, ocorreu-me à ideia por vezes as longas-metragens de Emir Kusturica, onde o grande realizador frequentemente parodia os costumes dos ciganos de leste. Em “Hera Pheri”, apesar de termos como fio condutor da trama as desastradas aventuras do trio de amigos, verdadeiramente as situações que nos fazem rir a bandeiras despregadas é a ridicularização dos problemas sociais e alguns aspectos culturais da Índia. Pelo exposto, por vezes senti-me algo frustrado por ainda não ter conhecimentos suficientes acerca da vivência naquele país, de forma a apreciar melhor o “nonsense” presente. E acreditem que é bastante!


"O telefonema da confusão"

Quanto à representação, sempre se dirá que o “quebra-corações” Akshay Kumar e Sunil Shetty exibem-se num nível aceitável. Mas sem dúvida absolutamente alguma que o mérito terá de ir quase todo para Paresh Rawal, no papel do alcoólico inveterado e míope “Baburao”. É ele quem verdadeiramente faz as despesas cómicas de “Hera Pheri”, e conseguiu arrancar-me saudáveis gargalhadas. Imperdíveis as situações em que tenta apartar as constantes brigas entre os seus dois companheiros interpretados por Khumar e Shetty , ou que devido à perda dos seus óculos causa situações mirabolantes. Rawal é bem secundado pelo histórico actor Om Puri, que interpreta “Karakh Singh”, um homem de bom coração, que se encontra desesperado por não poder casar a sua irmã, devido a “Shyam” não ter meios para pagar o dinheiro que lhe deve.

No que respeita às inevitáveis músicas, as mesmas não se encontram, nem de perto, nem de longe, ao nível de outras produções de “Bollywood” que tive a felicidade de ver. No entanto, sempre se encontram impregnadas de uma alegria contagiante que auxilia bastante o ritmo do filme. Um “quid” sem dúvida nenhuma é a presença da belíssima Namratha Shirodkar, a Miss Índia de 1993, na melhor música da película “Tun Tunak Tun”! Um regalo para a vista!

“Hera Pheri”, embora longe de merecer a aclamação obtida (exteriorizada, entre outros aspectos, na super inflacionada nota do IMDb), constitui uma película que conseguirá descontrair o espectador, e por vezes arrancar umas valentes gargalhadas, devido a um humor ingénuo mas cativante!

Não perdem nada em verificar!


"Os três amigos"

Cena do filme

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50




segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13