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sexta-feira, julho 17, 2009

Origem: Índia
Duração: 213 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Hrithik Roshan, Aishwarya Rai, Punan Sinha, Sonu Sood, Kulbhushan Kharbanda, Suhasini Mulay, Ila Arun, Shaji Chowdhari, Nikitin Dheer, Visswa Badola, Raza Murad, Yuri, Rajesh Vivek, Pramod Moutho, Sayed Badrul Hasan, Indrajeet Sarkar, Pramathesh Mehta, Disha Vakani
"O imperador Akbar"

Sinopse

No século XVI da nossa era, “Jalaluddin Mohammad Akbar” (Hrithik Roshan) é o grande imperador dos Mughal e o governante mais poderoso do Industão. Depois de ter consolidado o seu império no Hindu Kush, Akbar estende as suas fronteiras do Afeganistão até à baía de Bengala, e doa Himalaias até ao rio Narmada, dominando desta forma um vasto território. Tendo em vista consolidar ainda mais o seu poder político e militar, e de forma a forjar uma aliança entre duas culturas e religiões distintas, “Akbar” aceita a proposta do rei Rajput “Raja Bharmal” (Kulbhushan Kharbanda) que passa por casar com a filha deste chamada “Jodhaa Bai” (Aishwarya Rai).


"A princesa Jodhaa Bai"

Mal imagina “Akbar”, que um casamento feito por estrita conveniência, cedo se tornará numa jornada para um grande amor. “Jodhaa” é uma mulher destemida e de convicções fortes, que se recusa a ser um mero peão numa jogada política. Resiste aos avanços iniciais de “Akbar”, fazendo com que o monarca tenha de travar a maior batalha da sua história. Mas Akbar é um vencedor, e através de uma reflexão sobre vários aspectos da sua vida pessoal e política, descobre o caminho para o coração da bela “Jodhaa”.

"Orando"

"Review"

Ashutosh Gowariker, o realizador que nos trouxe o premiadíssimo “Lagaan”, parece ter alguma queda para o épico, apesar da sua algo que curta carreira como realizador, pelo menos a julgar pelo número de filmes que constam no seu currículo. “Jodhaa Akbar” foi o grande vencedor dos últimos “Filmfare Awards”, realizados este ano num conhecido hotel luxuoso de Macau, tendo arrebatado quase todos os principais prémios, mormente para melhor filme, melhor realizador e melhor actor principal. O brilho só poderia ter sido maior se a estonteante Aishwarya Rai tivesse levado para casa o galardão para melhor actriz principal, e o inevitável A.R. Rahman o de melhor director musical. Não foi isso que aconteceu, mas o saldo afigura-se como francamente positivo. Fica bem ainda referir que no Festival Internacional de cinema de São Paulo, essa grande cidade do país irmão Brasil, “Jodhaa Akbar” acabaria por ser considerado o filme estrangeiro preferido da audiência, tendo obtido o respectivo reconhecimento por tal facto. Acima de tudo, há que reconhecer que a película que presentemente é objecto de análise do presente texto tem causado muito “frisson”. Será merecido? Já vos darei conta da minha opinião, até porque confesso que a minha expectativa em visionar esta longa-metragem era imensa.


“Jodhaa Akbar” é acima de tudo duas coisas: um épico e uma história de amor. Doutra perspectiva, igualmente correcta, poderá ser passível considerar-se como uma história de amor épica. Como qualquer longa-metragem que pretenda, de forma directa ou indirecta, narrar eventos históricos, alguma celeuma acaba sempre por surgir. Quando estamos a falar da Índia, uma nação assente numa pluralidade étnica e religiosa bastante acentuada, que degenerou (a) em vários conflitos, o risco de tal suceder aumenta exponencialmente. Mesmo com Gowariker a admitir que cerca de 70% do argumento é ficcionado e da sua autoria pessoal, académicos atacaram este filme afirmando que Jodhaa Bai nunca foi esposa do imperador Akbar, mas sim do seu filho Jahangir. O erro teria nascido do livro subscrito pelo tenente-coronel inglês James Tod, intitulado “Annals and Antiquities of Rajasthan”. Os Rajput, por sua vez, também não gostaram da forma como foram retratados em “Jodhaa Akbar”, tendo a exibição do filme sido proibida nos estado de Uttar Pradesh, Rajasthan, Haryana e Uttarakhand. Tais actos levaram a uma batalha judicial entre os produtores do filme e os grupos de Rajput indignados, tendo o Supremo Tribunal da Índia ordenado aos governos provinciais que levantassem o embargo a esta obra.

"Duelo dos amantes"

História e política à parte, a primeira ideia que terá de ser retida acerca de “Jodhaa Akbar”, é que se trata de um filme sumptuoso. Desde as paradisíacas paisagens ao belo guarda-roupa, passando pelos palácios de sonho, tudo nesta película parece brilhar com uma luz incandescente. Só para termos uma ideia da dimensão megalómana como as coisas são aqui levadas a cabo, Gowariker usou 80 elefantes, 100 cavalos e 55 camelos nas cenas de batalha, para além de milhares de figurantes. Na música “Azeem O Sham, Shahenshah” (que já postei o videoclip AQUI) intervieram 1000 dançarinos, todos devidamente vestidos com indumentária da época, acompanhados de adereços como espadas e escudos. Como expoente máximo de luxo, direi igualmente que a soma de todo o ouro usado pelas personagens de “Jodhaa Akbar” ascende a 400 quilos!!! Julgo que com estes dados, ninguém se atreverá a pôr em causa que estamos perante uma produção com uma magnitude imensa, não se aplicando esta premissa apenas às películas de “Bollywood”.

Apesar da intriga política/religiosa/social e o manancial bélico terem uma parte importantíssima na trama, “Jodhaa Akbar” é antes de tudo uma história de amor. E quase todos nós sabemos que no campo do deflagrar de sentimentos, o cinema de “Bollywood” não pede meças praticamente a nada ou ninguém. Estamos perante a saga de uma linda princesa que ensina um jovem monarca que para governar bem tem de conquistar não apenas reinos ou povos, mas acima de tudo o coração dos seus súbditos. E a parada é posta num nível bastante elevado, pois “Akbar, o Grande” terá forçosamente de cumprir os objectivos propostos pela sua amada, de forma a que possa almejar ao prémio máximo, ou seja, ela própria. Imagino que naquela época, se isto acontecesse na realidade, “Akbar” não iria na conversa de “Jodhaa” e resolveria as coisas como habitualmente o fazia, ou seja, à força. É óbvio que aqui tal não poderia suceder, e “Akbar” orgulhosa, mas pacientemente, acede aos desejos de “Jodhaa” e através da sua descoberta pessoal, ganha o respeito dos seus subordinados, não apenas como um temível guerreiro, mas também como um governante justo, bondoso e compreensivo.

É extremamente apelativo num romance que se preze, o surgir de dificuldades a atravessarem-se no caminho dos apaixonados e as tentativas destes em superá-las. Aqui os problemas derivam sobretudo da diferença de costumes e religião entre ambos, que muitas vezes irá criar tentativas de descredibilização de “Jodhaa” na corte de “Akbar”. A princesa, sob a promessa de anuência do imperador, tenta manter alguns dos seus hábitos que considera fazer parte da sua própria essência como pessoa. Mas tal não granjeará simpatias numa sociedade muçulmana conservadora, que não vê com bons olhos o casamento da sua figura mais emblemática com uma hindu. Existem “complots” urdidos contra “Jodhaa”, que no início até acabam por chegar a bom porto, mas como aqui o amor vence sempre, “Akbar” acaba por se aperceber das maquinações contra a sua paixão, e toma atitudes que, contra tudo e todos, acabam por salvar os seus sentimentos e como decorrência secundária, mas importante, provocam uma nova visão política do seu império. É pois, fácil de perceber, que estamos perante uma longa-metragem que vive sob o signo do “love conquers all”, e neste ponto do texto já devem ter notado que a designação deste filme é a junção dos nomes do casal de enamorados “Jodhaa” (a princesa) mais “Akbar” (o imperador), que visa personificar esta simbiose de corpos e almas.

As batalhas e as restantes cenas de acção são do melhor que já vi na sétima arte, com momentos verdadeiramente arrepiantes e realistas. Fiquei particularmente impressionado com o treino dos elefantes presentes no filme, e o seu protagonismo durante as batalhas. Como já abordei em anteriores textos neste espaço, uma batalha que conte com elefantes, é algo de inexcedível. Os tanques de guerra da antiguidade conferem uma dimensão suplementar, que uma cavalaria não consegue almejar, por mais perfeita que seja em formação e número. Neste caso em particular, podemos observar elefantes verdadeiramente enraivecidos a esmagar com as patas os corpos de soldados desamparados, ou a varrer tudo o que podem apanhar com as suas trombas. É de igualmente admirar o diálogo físico que o imperador “Akbar”, mantém com um elefante e que faz parte do treino, julgo que de ambos. A cena tem muito de belo, numa clássica confrontação entre homem e besta (esta expressão não é usada com sentido depreciativo). No restante, as cenas bélicas possuem momentos de luta verdadeiramente excitantes, onde podemos observar setas a passar a milímetros dos alvos, ou uma verdadeira orgia de sangue que ilustra os costumeiros terrores da guerra. Merece igualmente um destaque especial o interessante duelo travado entre “Akbar” e o seu rival “Sharifuddin”, que pela envolvência e própria técnica de manejo das lanças, traz à memória a luta entre Aquiles e Heitor, no filme “Tróia”, de Wolfgang Petersen.

A banda-sonora, da autoria do mestre A.R. Rahman, exibe-se ao nível do que já nos habituamos, ou seja, bom. Destaco a música fenomenal “Azeem O Sham, Shahenshah”, que inclusive faz também parte da banda-sonora da novela brasileira “O Caminho das Índias”. Possui um pendor épico que se ajusta na perfeição ao ambiente da película, e que eleva imenso a réstia de heroísmo que, em maior ou menor medida, reside em cada um de nós. Ao contrário de algumas críticas que podem ser consultadas na internet, corroboradas por prémios que os principais actores venceram em certames de cinema, entendo que os intérpretes não denotam nada de transcendente na sua actuação. É certo que a beleza do outro mundo de Aishwarya Rai é sempre uma mais-valia imprescindível, para além do facto de a conceituada actriz conseguir arrancar alguns bons momentos durante esta longa-metragem. Igualmente Hrithik Roshan demonstra ter estampa para desempenhar o papel do imperador “Akbar”, e consegue cativar a audiência, assumindo uma figura de um homem duro, mas bom e justo. Uma muralha de pedra que se desmorona perante os inegáveis encantos de Rai. No entanto, é preciso reafirmar que estamos perante prestações ditas normais dos citados actores, sem demasiada elevação. Se existe algo que ressalta à vista, e aspecto que reconheço imprescindível nesta obra, é a inegável química que existe entre Rai e Roshan.


“Jodhaa Akbar” tem como predicados positivos a exposição de uma história de amor que encanta, a fricção política que ocorre sempre que se tenta quebrar com o instituído e as cenas das batalhas verdadeiramente fenomenais. Mas acima de tudo, e saúda-se o trabalho que vários filmes de “Bollywood” têm demonstrado neste particular, “Jodhaa Akbar” passa uma mensagem assaz positiva de tolerância religiosa e étnica. Tenta-se demonstrar que é possível e desejável uma reconciliação e aceitação mútua entre hindus e muçulmanos, numa desejada união entre todo o povo indiano, independente de credos ou costumes. Contudo, “Jodhaa Akbar” desilude um pouco, pois por vezes não consegue fugir dos trilhos do previsível ou da superficialidade. Embora se entenda que o mundo de sonho, normalmente domina a cultura do espectro de “Bollywood” (embora existam exemplos em que tal não sucede), falta credibilidade em alguns momentos da obra de Gowariker. E muitas vezes são estes parâmetros que distinguem uma obra grandiosa de um bom filme. “Jodhaa Akbar” fica-se pelo último espectro.

Aconselhável!


"A corte Mughal celebra a grandeza do seu imperador"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8,13




segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quarta-feira, outubro 01, 2008

The Heart Wants Aka Do Your Thing/Dil Chahta Hai - दिल चाहता है

(2001)


Origem: Índia


Duração: 185 minutos


Realizador: Farhan Akhtar


Com: Aamir Khan, Saif Ali Khan, Akshaye Khanna, Preity Zinta, Dimple Kapadia, Sonali Kulkarni, Ayub Khan, Rajat Kapoor, Suhasini Mulay, Samantha Tremayne


"Da esquerda para a direita, Akash, Sameer e Siddhart"

Sinopse

“Akash” (Aamir Khan), “Sameer” (Saif Ali Khan) e “Siddhart” (Akshaye Khanna) são amigos inseparáveis há mais de dez anos, e fazem a sua vida praticamente toda em conjunto. Um sentimento de irmandade une os três rapazes, num elo que parece impossível de quebrar. Com vinte e poucos anos, licenciaram-se há pouco tempo e está a chegar a altura de tomar grandes decisões que regerão a sua vida futura. Contudo os amigos não parecem muito preocupados com este aspecto, pois todos eles são oriundos de famílias de classe média alta e o dinheiro não é problema.

Verdadeiramente o que lhes mexe com a cabeça é a sua vida romântica e a dificuldade que todos têm em encontrar uma relação estável. “Akash” é um homem que gosta de gozar tudo o que de bom a vida tem para dar e não leva nada a sério. Observando a forma como os relacionamentos dos seus amigos correm mal, ele acaba por acreditar que o verdadeiro amor não existe. “Sameer” é o ingénuo do grupo e aquele que se apaixona todas as semanas por uma rapariga diferente. Não possui muita maturidade e a sua instabilidade emocional é o resultado lógico deste factor. “Siddhart”, mais conhecido por “Sid”, é o ponderado do grupo e de longe o mais calmo.


"Akash e Shalini"


No entanto, “Sid” conhece “Tara” (Dimple Kapadia), uma mulher quinze anos mais velha, e através do gosto de ambos pela pintura, acabam por se apaixonar. Sendo um relacionamento pouco convencional, e mal visto perante a sociedade indiana, o mesmo parece estar fadado ao malogro. “Akash” tenta chamar o amigo à razão, mas ambos discutem seriamente e afastam-se um do outro, deixando “Sameer” numa posição difícil e desprotegida.


“Akash” vai para Sidney na Austrália tomar conta do negócio do pai e ao contrário dos seus planos, apaixona-se por “Shalini” (Preity Zinta) e acaba por se convencer que o amor efectivamente existe. A “Sameer” tentam impingir “Pooja” (Sonali Kulkarni) num casamento tradicional arranjado. Contudo, o rapaz acaba efectivamente por se sentir atraído por “Pooja”. “Sid” tenta proteger o seu amor por “Tara”, mas os condicionalismos pessoais e sociais não lhe dão tréguas. No meio disto tudo, sobreviverá a grande amizade que une os três jovens ?


"Pooja e Sameer"


"Review"


“Dil Chahta Hai” foi a feliz estreia do realizador Farhan Akhtar e baseou-se nas viagens de juventude que o realizador fez a Goa, assim como numa estadia de mês e meio que o mesmo gozou em Nova Iorque. Por sua vez, a personagem maluca de “Akash” foi baseada nas interessantes histórias de um amigo do realizador. A película revelou ser um estrondoso exito na Índia, principalmente nas áreas mais urbanas, tendo passado em festivais de cinema internacionais tais como Palm Springs ou Austin. É com muita propriedade e mérito considerada uma das melhores obras do cinema de “Bollywwod” de sempre, estando por este motivo extremamente bem cotado no IMDb. Antes de adquirir o dvd, fiquei muito impressionado com as maravilhas que se diziam desta longa-metragem. Admiravelmente, não encontrei uma única opinião menos abonatória. Sendo assim, estava lançado o mote para mais uma aquisição extremamente cuidadosa, factor que levo sempre em grande linha de conta quando me aventuro pelo cinema de Mumbai.


“Dil Chahta Hai” reflecte muito bem a orientação actual do cinema de “Bollywood”, em contraposição com as obras mais clássicas. Aqui estamos perante mais uma película que aborda as desventuras amorosas de jovens indianos modernos e urbanos, pertencentes a famílias abastadas e amantes da boa vida e do divertimento. Já disse isso aqui antes, e volto a insistir nesta ideia. O cinema indiano, em especial a sua facção mais representativa, o de Mumbai, está a mudar a olhos vistos e para melhor. Uma das explicações mais convincentes para esta mudança, passará pela séria aposta que está a ser feita no mercado internacional, em especial o norte-americano e o britânico, o que obrigará a realizar películas que sejam mais atractivas aos olhos dos ocidentais. A própria sociedade indiana está a mudar pelas mãos dos jovens, que já não estão tão dispostos a aceitar tradições que consideram ultrapassadas e um obstáculo ao desenvolvimento do seu país. Lutam pela mudança sócio-económica e este factor terá de obrigatoriamente reflectir-se na cultura.


Com uma história simples, mas extremamente bem construída, “Dil Chahta Hai” transformou-se num sério caso e poderá almejar a ser um dos melhores filmes asiáticos realizados em 2001. No seu coração, reside esta novo modo de vida dos jovens indianos, onde nos é apresentada de uma forma particular os seus sucessos, ambições, falhanços e tudo o mais que reflicta o seu dia-a-dia. Como é normal e previsível, a irreverência marca bastante a sua presença. A mesma reflecte-se em vários aspectos do filme, desde as brincadeiras e situações “malucas” que os amigos vivem, passando por assuntos mais sérios como a resistência aos “casamentos arranjados” que ainda fazem parte do quotidiano da Índia. Temos aqui um exemplo feliz do digladiar dos jovens com as tradições, de que falei mais acima. Já anteriormente, quando analisei o excelente “Rang De Basanti” neste espaço, tive a oportunidade de aflorar estas questões, conquanto aquele filme envereda um pouco pela linha de “Dil Chahta Hai”, embora seja bastante mais politizado.


Apesar do importante cariz sócio-cultural desta película e que acima tentei expôr, o mesmo constitui apenas um veículo para algo mais significativo. Antes de tudo e em primeira linha, “Dil Chahta Hai” é acerca da descoberta da maturidade, da defesa incondicional da amizade e da eterna busca do amor. Dito desta forma, parece que estou a falar de mais um filme pindérico, que usa e reveza a lágrima fácil e que provavelmente ainda será um “American Pie” indiano, se adicionássemos umas doses de comédia, alguma de mau gosto. Não, não é nada disso! “Dil Chahta Hai” é um clássico com qualidade, e todos aqueles que tivere(a)m a felicidade de visioná-lo, com certeza que se lembrarão do filme daqui a uns anos. Porquê que isso acontecerá? Esta resposta é fácil. Devido ao facto de todos nós nos identificarmos de uma forma ou de outra, com alguma situação ou personagem da película, e de forma bastante marcante, diga-se de passagem! Visionar “Dil Chahta Hai” foi retornar aos tempos em que acabei a licenciatura, e deparou-se um mundo novo para mim, que sempre lá esteve mas que eu não entendia. Foi o valorizar exacerbado das amizades quando as mesmas se afastaram geograficamente, e a saudosa nostalgia dos amores de juventude, onde não haviam impossíveis e a frieza de raciocínio parecia um monstro que era imperioso abater quando contendesse com qualquer tipo de sentimento.


"A espalhar a boa disposição e o ritmo na festa de final do curso"


O elenco faz um trabalho bastante meritório e que em certas alturas chega mesmo a deslumbrar, embora não com muita continuidade. Percebo agora definitivamente o porquê de Aamir Khan ser considerado dos actores mais emblemáticos da Índia, ultrapassando em muitos aspectos a fama do próprio Shahrukh Khan, talvez o actor mais conhecido de “Bollywood”. A sua “performance” dá alegria e boa disposição à película, e quando é necessário consegue cumprir com os momentos mais sérios. Já tinha ficado bem impressionado com Saif Ali Khan em “Omkara”, onde o actor tem uma actuação simplesmente brilhante. Estranhei vê-lo aqui num papel completamente distinto e menos circunspecto, mas a versatilidade de Ali Khan é algo de louvar. Nunca tive a oportunidade de apreciar anteriormente o trabalho do actor Akshaye Khanna, embora tenha consciência que se trata duma personagem muito considerada no espectro de “Bollywood”. É por ele que passa bastante a classe de “Dil Chahta Hai”, no papel de um maturo e idealista “Sid”. As interpretações femininas estão ligeiramente abaixo do desempenho dos actores atrás mencionados. Contudo, é um prazer desfrutar das sólidas actuações da super-estrela Preity Zinta e da experiente Dimple Kapadia, uma actriz que teve grande popularidade no fim dos anos '70 e anos '80. Por sua vez, Sonali Kulkarni é uma cara bonita, que está lá para dar “charme” e “glamour” ao filme, mas pouco mais.


Como é curial, mesmo tratando-se de uma longa-metragem que quebra com o corrente em “Bollywood”, temos de nos referir à banda-sonora de “Dil Chahta Hai”. A propalada marca da irreverência reflecte-se na música e na dança, em especial “Woh Ladki Hai Kahan”, que satiriza um pouco o cinema de “Bollywood” mais tradicional. Mas a música que verdadeiramente marca e transmite o essencial, associada à sequência de cenas, é “Dil Chahta Hai” do mesmo título da película. Das primeiras vezes que observei o “clip” parecia uma coisa corriqueira, sem nada de de especial que se apontasse. Quando visionei o filme, digo que a melodia e a sequência das imagens não poderiam estar melhor inseridas. Comecei a apreciar a melodia com atenção, e posso-vos hoje dizer sinceramente que colhe imenso o meu agrado. Como normalmente os filmes indianos não possuem “trailers” elaborados a não ser que se internacionalizem de forma séria, no sítio onde costuma estar o “link” para a apresentação, figurará a ligação para o sentido “clip” de “Dil Chahta Hai”.


Os que nunca viram um filme de “Bollywood”, principalmente por uma natural desconfiança na qualidade deste cinema, podem arriscar à vontade em “Dil Chahta Hai”. Para além de ser uma das melhores obras provenientes da meca do cinema indiano, é uma película enternecedora, de elevadíssima qualidade, que vos fará chorar, rir e acima de tudo sonhar com a vida real, e não recorrendo a uma qualquer fantasia. Trata-se talvez da melhor longa-metragem que já vi no que toca à exploração da amizade entre jovens, e uma das mais emblemáticas no que toca à abordagem do amor. Terá o condão de vos fazer pensar em perder o orgulho e ligar àquele amigo com quem tiveram uma desavença estúpida, ou a ir correr para os braços daquela rapariga que afinal perceberam o quão facilmente vos mexia com os sentimentos.


Poucos filmes de três horas e pouco costumam passar tão rápido, por isso o mesmo será dizer que não se deve perder esta obra fenomenal!!!


"Três sombras unidas nas praias de Goa"


"Dil Chahta Hai" videoclip


The Internet Movie Database (IMDb) link


Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50