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domingo, março 21, 2010

Last Life in the Universe/Ruang rak noi nid mahasan - เรื่องรัก น้อยนิด มหาศาล (2003)

Capa

Origem: Tailândia

Duração aproximada: 112 minutos

Realizador: Pen-Ek Ratanaruang

Com: Tadanobu Asano, Sinitta Boonyasak, Laila Boonyasak, Yutaka Matsushige, Riki Takeuchi, Takashi Miike, Yoji Tanaka, Sakichi Sato, Thiti Rhumorn, Junko Nakazawa

Kenji

Kenji”

Sinopse

“Kenji” (Tadanobu Asano) é um bibliotecário japonês, com tendências suicidas e uma mania obsessiva por limpezas, que vive em Banguecoque. O seu quotidiano sofre um abalo quando o seu irmão “Yukio” (Yutaka Matsushige), um “yakuza”, foge para a capital da Tailândia, de forma a escapar à ira do seu patrão, por ter dormido com a filha deste. “Yukio” esconde-se no apartamento de “Kenji”, e cai no erro de confiar em “Takashi” (Riki Takeuchi), uma decisão que lhe sai caro.

Noi 2

Noi”

“Kenji”, devido à insensatez do irmão, vê-se obrigado a fugir. O homem conhece “Noi” (Sinitta Boonyasak), uma típica rapariga vivida de Banguecoque, e pede-lhe para ficar na casa dela. Uma relação fora do normal começa a desenvolver-se entre o casal, algo que não podemos definir como amor ou amizade, mas quase como uma terceira via.

Casal

Apaixonados?”

Review”

Quando se junta um realizador com uma extrema sensibilidade como o tailandês Pen-Ek Ratanaruang, um enorme mestre da imagem como Christopher Doyle e um actor de notáveis predicados como Tadanobu Asano, estão reunidas as condições para obtermos um produto cinematográfico de elevada qualidade. Certo é que, infelizmente nem sempre é assim, como tive a oportunidade de partilhar no texto que elaborei a propósito de “Invisible Waves”. Contudo, no que concerne a “Last Life in the Universe”, o filme que me proponho agora a analisar um pouco, o resultado é francamente melhor. Esta obra fez furor em alguns certames de cinema ocorridos na Ásia e até na Europa, onde Tadanobu Asano viria a vencer um prémio na qualidade de actor, atribuído no Festival Internacional de Veneza – edição de 2003.

“Um dia o lagarto acordou, e apercebeu-se que estava sozinho nesta terra”. Assim começa o livro infantil japonês denominado “The Last Lizard”, e esta frase praticamente que dá o mote a “Last Life in the Universe”. Somos confrontados, através dos caminhos tortuosos da vida, com um casal, “Kenji” e “Noi”, que possuem personalidades bastante distintas. Ele é obsessivo com a correcta ordem das coisas, ela é espontânea e desliga-se de comportamentos que induzam a qualquer tipo de planeamento; ele é um maníaco da limpeza, ela vive num ambiente onde tudo se encontra por arranjar ou arrumar; ele é introvertido, ela adora falar, não tendo pejo em partilhar as suas experiências. No entanto, e desculpe-se o costumeiro “cliché”, os opostos atraem-se e isso que aqui acontece. Não se pense que estamos perante um argumento redutor e simplista, como o acima parece indicar e onde já tivemos oportunidade de observar em tantas obras de duvidosa qualidade. “Last Life in the Universe” é uma malha de pormenores e detém uma abordagem muito significativa e marcante da natureza humana.

Nid atropelada

Nid, a irmã de Noi, é atropelada”

Tadanobu Asano demonstra mais uma vez que é, sem margem para qualquer dúvida, que joga na divisão maior dos intérpretes asiáticos. Em “Last Life in the Universe”, o actor japonês irradia, como lhe é habitual, um carisma puro e dá azo a mais uma excelente actuação, entre as várias que constam no seu currículo. No papel do obsessivo “Kenji”, Asano consegue dar corpo a uma personagem fascinante que nos capta a atenção e desperta a curiosidade desde o início. E mais. Muito nos faz reflectir acerca de nós próprios, da pureza dos nossos sentimentos e das várias sensações que inundam a nossa mente, perante as mais diversas situações da vida. E de uma forma que, arriscaria a afirmar camaleónica, confunde-nos nas conclusões e faz-nos questionar acerca das motivações, tanto de “Kenji”, como até de nós próprios. O grande mérito da tailandesa Sinitta Boonyasak é conseguir uma química apreciável com Asano. Contudo, existe espaço para a actriz destilar uma saudável energia, em contraponto a um Asano mais filosófico e propositadamente tímido. E concluímos que nada de artificial é transmitido pela dupla, mas tudo do mais natural possível, como respirar, comer, dormir, olhar e, talvez, amar.

O realizador Pen-Ek Ratanaruang tem um instinto muito elevado para o detalhe, e isso é transposto completamente para a tela. O resultado do grande sentido de estética e sensibilidade de Ratanaruang, é a criação de um mundo à parte, semelhante a um sonhar acordado e de uma beleza brutal. Muito ajuda ser auxiliado por Christopher Doyle, um dos grandes responsáveis pelo opinião globalmente positiva que tenho acerca desta obra. A fotografia explanada, a cargo desta verdadeira lenda viva, é de uma beleza admirável e por vezes de tirar verdadeiramente a respiração, o que contribui para adensar ainda mais o ambiente que norteia “Las Life in the Universe”.

Não estamos perante uma clássica história de amor, ou melhor, nem sabemos se estamos perante uma história de amor, tal é o manancial de sensações incomuns que nos é dado a observar. É preciso reconhecer, de certa forma, que não estamos perante uma película de fácil apreensão, sendo dada a interpretações diversas. No entanto, não restam dúvidas que estamos perante um filme eivado de uma beleza muito singular. E embora entremos no domínio do contemplativo e da reflexão, “Last Life in the Universe” não é uma obra que reputemos de chata, ou que nos provoque uma súbita vontade em adormecer. Pelo exposto, só me resta aconselhar vivamente que vós, sem qualquer tipo de pruridos ou rodeios, embrenhem-se no mundo dos sentimentos e da beleza exteriorizada por esta longa-metragem competente de um dos melhores realizadores tailandeses da actualidade. Significativo e poético!

Lagarto

The last lizard on earth”

imdb 7,7/10 (5.322 votos) em 21 de Março de 2010

Outras críticas em português:

  1. Art is Fucking Dead
  2. bitlogger!

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 9

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 7

Emotividade – 8

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8

 

terça-feira, setembro 15, 2009

Ong Bak 2: The Beginning/Ong Bak 2 - องค์บาก 2

Origem: Tailândia

Duração: 94 minutos

Realizadores: Tony Jaa e Panna Rittikrai

Com: Tony Jaa, Sorapong Chatree, Sarunyu Wongkrachang, Nirut Sirichanaya, Santisuk Promsiri, Primorata Dejudom, Natdanai Kongthong, Patthama Panthong, Petchtai Wongkamlao, Dan Chupong, Supakorn Kitsuwon


"Tien"

Sinopse

O ano é 1471 (1974 no calendário budista). “Tien” (Nadtanai Konthong) é o jovem filho de “Lord Sihadecho” (Santisuk Promsiri), um dos quatro líderes militares mais importantes do reino de Ayutthaya, na antiga Tailândia. Devido a confrontos políticos, “Sihadecho” e a esposa são assassinados por “Lord Rajasena” (Sarunyu Wongkrachang), e “Tien” é obrigado a fugir. Tendo caído nas mãos de bandidos, o jovem “Tien” impressiona “Chernang” (Sorapong Chatree), o líder dos piratas “Pha Beek Krut”, que o salva, acolhendo-o como um filho e seu sucessor no bando.

"O jovem Tien enfrenta a fúria de um crocodilo"

Apercebendo-se do potencial intrínseco de “Tien” para o combate, “Chernang” e os seus homens treinam-o em vários estilos de artes marciais, conseguindo com que o rapaz se torne numa máquina de matar perfeita, que consegue combinar diversas formas de luta. Quando chega a adulto, “Tien” (Tony Jaa) continua a guardar as memórias do assassinato dos seus pais. Em virtude deste facto, parte numa cruzada de vingança contra os foras-da-lei que o aprisionaram, mas acima de tudo contra “Lord Rajasena”, que actualmente é o monarca de Ayutthaya.

"A manada de elefantes ajoelha-se perante Tien"

"Review"

Depois do grande sucesso de “Ong Bak”, onde nos foi revelado a mais fabulosa máquina de pancadaria jamais vista, e a continuação do massacre em “Warrior King/The Protector”, Tony Jaa está de volta em mais uma odisseia onde nos é demonstrado o inexcedível potencial do actor em tomar satisfações dos seus oponentes. À semelhança de outras obras cinematográficas, a feitura de “Ong Bak 2” não foi isenta de precalços, essencialmente do ponto de vista financeiro e até do ponto de vista pessoal, no que concerne ao próprio Tony Jaa. A película começou a ser rodada em 2006, mas algures por volta de Julho de 2008, o actor, e aqui também realizador, desapareceu do local de filmagem, deixando toda a gente pendurada. Vários rumores circularam à altura, que chegaram ao ponto de afirmações que colocavam Tony Jaa num estado desolado e em isolamento total, algures numa caverna a praticar magia negra. A fronteira entre a realidade e a ficção é bastante ténue, e nestas coisas nunca sabemos o que é verdade ou mentira. O que é certo foi que o atraso fez com que a produção do filme começasse a causar prejuízos financeiros, havendo uma troca de acusações entre a companhia “Weinstein”, a “Sahamongkol Film” e o próprio Tony Jaa. Após o ultrapassar do dilema, as filmagens continuaram, com uma importante adição. O mentor de Tony Jaa e coreógrafo de artes marciais Panna Rittikrai foi chamado ao projecto, pois entendeu-se que seria uma pessoa com capacidades para completar esta longa-metragem. Daí que se pode afirmar que “Ong Bak 2” possuiu dois realizadores, um na fase inicial e outro na parte final.

Toda a gente conhece, em maior ou menor medida, o grande impacto do primeiro “Ong Bak”, que na altura foi um enorme soco no estômago no que aos filmes de artes marciais diz respeito. Um desconhecido chamado Panom Yeerum, que adoptou o nome artístico de Tony Jaa, explodiu nas telas, demonstrando todo o potencial e força que o Muay Thai pode revelar nas telas. E verdade se diga, o manancial de golpes, acrobacias e atrever-me-ia a dizer brutalidade, foi algo até então nunca visto! Falo por mim, é claro! Em nome do claro desprezo pelo argumento, o que interessava verdadeiramente era observar os entusiasmantes pontapés e socos, mas ainda mais as joelhadas e cotoveladas que um aparentemente inocente/inofensivo Jaa desferia nos seus infelizes opositores. Posteriormente, Jaa viria a protagonizar “Warrior King/The Protector”, uma película que no global era inferior a “Ong Bak”, superiorizando-se eventualmente na parte mais sentimental, devido à relação entre Jaa e o elefante “Por Yai”, para além da cria “Korn”. Chegamos então a este “Ong Bak 2”, e desde já se adianta que é um filme superior aos anteriormente mencionados, embora convenhamos que esteja bastante longe de ser isento de falhas.

"Tien é auxiliado por um elefante em combate"

O facto de “Ong Bak 2” constituir a longa-metragem de maior craveira protagonizada por Jaa, passa essencialmente por demonstrar ser um filme mais elaborado no seu todo. Existe, por exemplo, um cuidado ligeiramente acrescido na trama, embora a mesma continue muito básica. E a maior crítica que advém neste particular, já profusamente repetida por muitos, é que não se consegue discernir uma relação directa entre este “Ong Bak” e o anterior. Ou seja, não existem elementos de ligação entre os dois filmes, no sentido de nos apercebermos qual é a verdadeira relação entre ambos. Através de repetidos reparos neste particular, Jaa responderia meio irritado que a relação seria estabelecida em “Ong Bak 3”. Ficam pois a saber desde já que a saga “Ong Bak” não ficará por aqui, o que já seria bastante previsível face ao epílogo de “Ong Bak 2”. Quanto a mim, julgo que será mais ou menos óbvio atendendo ao título do filme, que a personagem principal de “Ong Bak 2”, será um antepassado de “Ting”, o jovem inocente de “Ong Bak”. Mas como já referi, e sou obrigado a reiterar este aspecto, os “Ong Bak's” não primam muito pelo argumento, pelo que nos resta aguardar de alguma forma o que irão “inventar” para estabelecer um paralelo que até parece óbvio.

Outro aspecto que eleva “Ong Bak 2” a um patamar superior, quando comparado com o seu predecessor, passa por uma produção em muito maior escala, a que não será alheio, como é óbvio, a existência de fundos monetários mais desafogados. Isto reflecte-se essencialmente nos aspectos visuais, por vezes fenomenais, que o filme denota. “Ong Bak 2” vive diversas vezes sob o signo da sumptuosidade, que em muito contribuirá o facto de a película ocorrer na Tailândia do século XV. A beleza das paisagens, mormente das montanhas, dos rios e dos templos entusiasmam e conferem um pano de fundo aprazível a esta longa-metragem e que em nada defraudará aqueles que se consideram cultores de uma boa fotografia e de cenários paradisíacos. Trata-se de um dos pontos fortes de inúmeras películas asiáticas, e aqui “Ong Bak 2” faz jus à sua orientalidade, ficando a dever a poucas longas-metragens.

Chegamos agora à verdadeira razão de existência de “Ong Bak 2”, ou seja, a acção. Como já aflorei, aqui temos um Tony Jaa diferente dos seus anteriores registos, pelo facto de o Muay Thai não ser a lei. O actor demonstra que o seu registo de golpes não se limita à arte marcial rainha da sua terra natal e navega por outras formas de combate que irão desde o wushu até ao kendo, passando por muitas outras. O manancial de golpes desferido é de tirar a respiração, acontecendo momentos que por vezes podemos catalogar “de outro mundo”. E a vantagem é que as cenas são filmadas de uma forma que nos apercebemos de praticamente todos o impacto e a técnica envolvida. E esta premissa aplica-se, imagine-se, aos casos em que estão envolvidos animais. A cena do jovem “Tien” no poço do crocodilo é bastante feliz, e quase acreditamos que efectivamente encontra-se um jovem a lutar pela sua vida, contra o réptil perigosíssimo. Mas o que verdadeiramente nos conquista, e tal deriva da própria paixão de Jaa por estes animais, são as cenas em que intervêm os elefantes. Deparamo-nos com “Tien”, durante uma debandada destes animais, a saltar progressivamente de elefante em elefante, até chegar ao líder e dominá-lo. Posteriormente, todos os elefantes vergam-se à coragem do guerreiro, e reconhecem-no como seu superior. Embora seja evidente a inverosimilidade da situação, não poderá ser negado que o efeito é espectacular, inspirador e com algo de majestoso. Obviamente que não poderia deixar de aludir aos combates físicos que se passam no dorso de um dos elefantes. É simplesmente de ficar embevecido, tanto pela agilidade dos intervenientes (existem partes que se nota que o uso do guindaste foi afastado!), como pela calma e até intervenção do animal quando confrontado com todos os actores à sua volta num grande rebuliço.

Sendo um filme manifestamente incompleto, e claramente a solicitar uma sequela, “Ong Bak 2” acaba por se revelar como uma agradável surpresa. É uma clássica história de vingança, sem nada que se possa apontar como inovador neste segmento. No entanto, é imperioso que continue a haver espaço para aquele tipo de películas que vivam quase exclusivamente da acção, do empirismo e do entretenimento à moda antiga. “Ong Bak 2” marca definitivamente a sua presença nesta classe, e dentro do seu género, é uma obra que marca uma presença indelével. Aguardemos, pois, pelo que Tony Jaa e Panna Rittikrai nos reservaram para “Ong Bak 3”, de forma a que percebamos o que efectivamente significa a expressão “Ong Bak”, no meio desta fúria imensa de sangue, misticismo e artes marciais do melhor que pode ser oferecido hoje em dia!

Vale a pena conferir!


"Tien vinga-se sobre um dos seus captores"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75




sábado, janeiro 10, 2009

As Lágrimas do Tigre Negro/Tears of the Black Tiger/Fah talai jone - ฟ้าทะลายโจร (2000)

Origem: Tailândia

Duração: 97 minutos

Realizador: Wisit Sasanatieng

Com: Chartchai Ngamsan, Suwinit Panjamawat, Stella Malucchi, Supakorn Kitsuwon, Arawat Ruangvuth, Sombat Metanee, Pairoj Jaisingha, Naiyana Sheewanun, Kanchit Kwanpracha, Chamloen Sridang

"Dum, o Tigre Negro"

Sinopse

“Rumpoey” (Stella Malucchi) e “Dum” (Charchai Ngamsan) são dois jovens de origens totalmente opostas. A primeira provém de uma família abastada, tendo um pai bastante influente e poderoso. O segundo, é de origens humildes, sendo filho de um agricultor. A evacuação de Banguecoque, durante a II Guerra Mundial, faz com que os mesmos se encontrem no meio rural e tornem-se muito próximos. A paixão inevitavelmente acontece, mas desde o início parece votada ao malogro, atendendo às grandes diferenças sociais e económicas que separam o casal. Terminado o conflito, “Rumpoey” regressa à capital tailandesa, ficando “Dum” a viver no campo.

"Rumpoey"

Dez anos depois, e devido a um acaso, “Rumpoey” e “Dum” encontram-se novamente, desta vez em Banguecoque. A história de amor reata-se, e ambos fazem promessas mútuas de viverem juntos para sempre. Contudo, o destino reserva surpresas desagradáveis. O pai de”Dum” é assassinado por aldeões rivais, e “Rumpoey” é obrigada a tornar-se noiva do capitão “Kumjorn” (Arawath Ruangvuth), num casamento a realizar-se por mera conveniência. Consumido pelo desgosto, “Dum” transforma-se no “Tigre Negro”, o fora-da-lei mais temido do burgo. Apesar das terríveis incidências, a paixão entre “Rumpoey” e o agora “Tigre Negro” permanece intocada. Resta saber se a mesma irá triunfar.

"Duelo, sob um cenário pintado de cores vívidas"

"Review"

Sete anos antes de Takashi Miike realizar “Sukiyaki Western Django”, a cinematografia tailandesa corporizaria uma ideia no mínimo estranha, que era realizar um “western” com contornos asiáticos. O projecto viu a luz do dia, e alcançaria à altura um sucesso sem precedentes para um filme da Tailândia (antes do fenómeno "Ong Bak" em 2003), tendo sido o primeiro filme daquele país a merecer uma presença em Cannes. Salienta-se igualmente a participação em outros certames internacionais, onde fez sensação em Vancouver, no Canadá e Gijón, na vizinha Espanha. Esta película é frequentemente comparada aos filmes de Sergio Leone, essencialmente devido a não se furtar a algumas características mais emblemáticas atribuídas genericamente aos “westerns” daquele realizador. Falamos da violência crua, a banda-sonora bastante distintiva (embora aqui mesclada com alguns ritmos orientais), um pendor romântico mais exacerbado e um manancial de personagens dotadas de características um tanto ou quanto peculiares. Contudo, é necessário ter presente que os “westerns” norte-americanos e os “spaghetti” incidiam quase todos sobre histórias ocorridas no período que mediou entre o fim da guerra civil norte-americana (Guerra da Secessão) e o fim do século XIX. Pelo contrário, os eventos narrados em “As Lágrimas do Tigre Negro” sucedem-se nas décadas de '40 e '50, e por vezes assumem mais contornos de narrativas de boiadeiros (género sertão brasileiro). Mesmo assim, e na sua esmagadora maioria, não subsistem dúvidas que é de um “western” atípico que estamos a falar.

Sendo a estreia na realização de Wisit Sasanatieng, “As Lágrimas do Tigre Negro” vive sob um signo surrealista, com características que o distinguem do comum das longas-metragens. Existem cenas rodadas sob um cenário pintado com cores pastel, que supostamente será uma homenagem ao likay, uma espécie de ópera tradicional tailandesa. O colorido das paisagens rurais é extremamente saturado, e as paredes dos prédios frequentemente estão pintadas de um verde berrante ou cor-de-rosa luzidio. Chegados aqui, já todos perceberam que a película é rodada sob cenários artificiais (que se notam claramente) ou naturais, sob um espectro colorido extremamente acentuado e verdadeiramente espectacular. Outra característica identificativa da película passa pela violência marcante. Temos um apreciável número de mortes, com muitos intervenientes a serem despachados sequencialmente e numa questão de segundos, ao melhor estilo do “gun fu” de John Woo. Tudo acompanhado dos impossíveis litros de sangue que jorram das feridas, e as cabeças a explodir com miolos a voar por todo os lado.

"O capitão Kumjorn"

As hipérboles são claramente requisitadas em vários aspectos, e isso transpira por todos os poros. Os actores assumem uma postura virada para a paródia, com poses e expressões propositadamente exageradas. Foi intenção de Wisit Sasatanieng não escolher intérpretes consagrados do cinema tailandês, pois entendeu que os mesmos não possuiriam o espírito descontraído necessário para um filme desta estirpe. O pretendido seriam intérpretes que não se importassem de se sujeitarem ao ridículo de certas cenas. Sendo assim, o “cast”, com uma ou outra excepção, passa por nomes de segunda linha, que cumprem ao fornecerem o ar amador necessário para que esta obra cumpra os seus objectivos. A caracterização acompanha, de uma forma intencional, o tom geral desta longa-metragem. Atente-se aos notórios bigodes pintados em algumas personagens ou as roupas garridas, que acentuam o tom bizarro da película.

Com um estilo bastante “kitsch” e algo “cartoonesco”, confessado e exteriorizado pelo realizador Wisit Sasatanieng, “As Lágrimas do Tigre Negro” é um filme que valerá sobretudo por alguns aspectos bastante criativos, algo inovadores e inconvencionais. O exagero e o “non sense” é explanado de uma forma intencional, obtendo-se momentos interessantes. Contudo, é minha perspectiva que esta longa-metragem não será passível de ser levada muito a sério, pois apesar de ser considerada um marco artístico por muita da crítica de cinema, não possui predicados suficientes para que possa almejar um estatuto que se possa reconduzir a uma obra de eleição. A sua exuberância valeu-lhe um reconhecimento apreciável, mas passado o efeito de “lufada de ar fresco”, julga-se que apenas os amantes do cinema mais burlesco, continuarão a relembrar esta obra com um sorriso nos lábios. No fundo, como em quase tudo na vida, tudo se resumirá a uma questão de preferências e de gostos pessoais.

"Tiroteio entre a polícia e o bando de foras-da-lei"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 6

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





segunda-feira, maio 12, 2008

Bang Rajan - The Village Warriors/Bang Rachan -
บางระจัน (2000)

Origem: Tailândia

Duração: 113 minutos

Realizador: Tanit Jitnukul

Com: Jaran Ngamdee, Winai Kraibutr, Theerayut Pratyabamrung, Bin Bunluerit, Bongkoj Khongmalai, Chumphorn Thepphithak, Suntharee Maila-or, Phisate Sangsuwan, Theeranit Damronggwinijchai

"Nuat Kheo, o líder dos combatentes de Bang Rajan"

Estória

No ano de 1765 o reino da Birmânia (actual Myanmar) decide anexar o vizinho do Sião (agora Tailândia). O exército birmanês é composto por uma força de 200.000 homens, fortemente treinados e armados. Os atacantes são divididos em dois corpos, compostos por 100.000 combatentes cada um, que visam cercar Ayutthaya, a capital do Sião.

O exército que segue pelo Norte, espalha o caos e a destruição, mas inesperadamente é atacado e travada a sua progressão em Bang Rajan, uma aldeia composta por agricultores e caçadores. Durante uma das escaramuças, o chefe de Bang Rajan, o valente “Taen” (Chumporn Thepphitak) é ferido gravemente. O guerreiro idoso e sábio, apercebe-se que não está em condições de dirigir a resistência contra os birmaneses, e aconselha a procura de um líder forte e destemido.

"O casal Sa e Inn"

A solução é encontrada na aldeia vizinha Nang Bat, na pessoa de “Nuat Kheo” (Jaran Ngdandee), um guerreiro destemido. “Nuat”, imbuído de um espírito patriótico, aceita a tarefa que lhe é incumbida e consegue fazer com que um pequeno grupo de homens e mulheres consigam se opôr com ferocidade a um inimigo muito mais poderoso.

Os birmaneses, estarrecidos com a resistência fazem sete investidas contra a aldeia de Bang Rajan, mas são sempre inevitavelmente rechaçados. No entanto, o desequilíbrio das forças em confronto torna-se cada vez mais evidente, em ordem ao resultado final.

"O valente Tong Menn"

"Review"

“Bang Rajan” é mais um épico tailandês, impregnado de nacionalismo, que visa expôr a história de uma vila a cuja designação o filme foi buscar o seu título. Baseada em factos verídicos, a narrativa encontra-se alicerçada num evento ocorrido em 1765, que viria a inspirar o patriotismo de todo um povo. Como decorre da sinopse, o exército birmanês, no seu costumeiro conflito com o Sião, resolve invadir um reino que na altura se encontra fragilizado. Inesperadamente, a maior resistência que encontra, provém de uma vila que encontra na sua marcha para Ayutthaya, a capital, e que o obriga a travar oito onerosos combates. Eventualmente, a destruição dos valentes aldeões acabaria por chegar, atendendo à desproporção de efectivos e armamento. No entanto, os custos traduziriam-se numa “vitória de Pirro ou pírrica”, ou seja, uma vitória obtida à custa de um alto preço que eventualmente comportará prejuízos irreparáveis. Estamos pois perante uma espécie de “Fort Alamo” tailandês, onde à semelhança da célebre batalha travada na localidade texana, muito poucos acabariam por fazer tanto. É este o espírito presente em “Bang Rajan”.

A película teve uma boa expressão internacional, tendo sido exibida nos festivais de Toronto, Seattle, Vancouver, Havai e Montreal. Neste último, viria a ser considerado o segundo melhor filme asiático em exibição, sendo apenas suplantado por um rival de peso, “Sympathy For Mr. Vengeance”, de Park Chan-wook, e superando “Musa, the Warrior”, que se ficaria pelo 3º lugar (uma clara injustiça!). Mesmo assim, não há nada como um realizador norte-americano de nomeada reparar num filme asiático, e num gesto de altruísmo, atribuir-lhe a chancela “qualquer coisa presents”, e expondo-o na montra do cinema dos Estados Unidos da América. Quentin Tarantino fê-lo com “Herói” e Francis Ford Coppola com “A Lenda de Suriyothai”. O senhor amável, seria nada mais nada menos que o conhecidíssimo Oliver Stone, que viria a patrocinar uma exibição de “Bang Rajan”, por algumas salas de cinema norte-americanas.

“Bang Rajan” é mais um épico tailandês, à semelhança de “King Naresuan” ou “A Lenda de Suriyothai”, que evoca o espírito lutador do povo tailandês contra o vizinho do lado, o reino da Birmânia. A abordagem à questão conflitual que nos é facultada por “A Lenda de Suriyothai”, é mais polida e política, sendo por este motivo uma película mais refinada. “Bang Rajan”, pelo contrário, aposta muito mais na acção em detrimento do factor argumentativo. E esta premissa é revelada logo no início do filme, em que apenas nos é facultado um pequeno enquadramento histórico, em jeito de narração, para passarmos logo a assistir um ataque dos aldeões da localidade tailandesa a um esquadrão birmanês. Nada de introduções para que nos possamos ambientar e compreender verdadeiramente o que está em jogo. É logo pancada de meia-noite! Pessoalmente, não sou afã deste estilo de realização, tanto nos épicos como nos filmes de acção. Tenho uma clara preferência por aquelas longas-metragens que nos expõem as situações que estão em causa, de forma a que estejamos habilitados a percepcionar o remanescente do filme, num sentido crescente e controlado. Existem excepções, é claro, mas “Bang Rajan” não é uma delas.

"Rodeados na batalha"

“Bang Rajan” tem elementos que nos fazem lembrar “Sete Samurais”, na parte em que uma vila inferiorizada perante um inimigo externo, consegue fazer face às adversidades graças a um punhado de guerreiros dotados de uma grande alma e força de vontade. Terá igualmente algum do espírito presente em “Braveheart”, essencialmente devido às sangrentas batalhas que nos são apresentadas e que constituem sem dúvida alguma, o ponto forte do filme. Os combates são impregnados de um grande realismo, e o que faz mais impressão sem dúvida nenhuma, é a maneira como os guerreiros tailandeses combatem. Fazem-no sem qualquer tipo de protecção como uma armadura. Marcham para a guerra em tronco nu, armados com os seus sabres e machados extremamente afiados. Estas armas quando entram em acção ao cortar a carne do oponente, só nos fazem lembrar o talhante lá do bairro a fazer o seu trabalho. Brrrr..... O realizador Tanit Jitnukul filma as lutas em larga escala, mas igualmente intimista e de uma forma um tanto ou quanto desorganizada. Isto acaba por ter efeitos positivos na película. A câmara acompanha a ferocidade dos guerreiros de muito perto e com movimentações que acentuam a acção. Inclusive, nos combates travados em lama, as lentes ficam completamente conspurcadas quando os guerreiros tombam. Qualquer tipo de guerra convencional não parece existir, mas antes uma guerrilha organizada e tribal, eivada de uma violência quase sem precedentes.

Os “clichés” e estereótipos da ordem encontram-se presentes, de forma a possibilitar que esta longa-metragem conquiste uma certa empatia perante quem a visiona. Existe “Tong Menn”, o homem que caminha e pena pela estrada da vida da vida, agarrado ao álcool e à sua miséria pessoal, tornando-se desta forma a personagem trágica do filme; “Nuat Kheo”, o herói relutante, que acaba por corajosamente assumir a responsabilidade pelos destinos de um povo que à partida tem o seu destino selado; “In”, o conscencioso guerreiro que ama a sua esposa, mas ciente do seu dever para com a comunidade, tudo faz para equilibrar os seus deveres familiares com a sua honra no campo de batalha.

O epílogo já se está mesmo a ver que apostará tudo no drama exacerbado e nas cenas emblemáticas. Por mim, tudo bem! É das facetas que gosto mais dos épicos asiáticos, confesso! No entanto, afigura-se-me que a forma como os “tearjerkers” foram inseridos, acabaram por tornar as cenas potencialmente mais fortes do filme, numa piroseira que deve bastante à credibilidade. Embora reconheça que sou bastante permeável a estes jogos sentimentais que os realizadores asiáticos adoram fazer (é uma questão cultural, acima de tudo), e que tal constitui um factor importante para o meu propalado gosto por esta cinematografia, haverá sempre que distinguir o excelente, do bom, do mediano e do mau. Não nego que fiquei tocado pelos amantes moribundos a rastejarem num campo de batalha, de forma a se poderem tocar por uma última vez. Simplesmente entendo que se calhar é preciso reinventar um pouco o género. Em defesa de “Bang Rajan”, sempre se poderá invocar que o filme é de 2000, e portanto antecedente de muitas obras célebres que enveredaram pelo mesmo diapasão. No entanto, fico com a franca impressão que a nível de representação e do caminhar pelas estradas do “jogo de lágrimas”, os tailandeses terão ainda muito que aprender com as restantes cinematografias asiáticas de eleição.

“Bang Rajan” constitui um épico aceitável, cujo visionamento se aconselha. Isto assume mais acuidade, quando a edição de dvd de dois discos da Contender é um verdadeiro mimo, com extras fenomenais!


"Monumento aos heróis de Bang Rajan"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50




quinta-feira, março 27, 2008


A Lenda de Suriyothai/The Legend of Suriyothai/Suriyothai (2001)

Origem: Tailândia

Duração: 137 minutos

Realizador: Chatrichalerm Yukol

Com: M. L. Piyapas Bhirombhakdi, Sarunyu Wongkrachang, Chatchai Plengpanich, Johnny Anfone, Mai Charoenpura, Sinjai Plengpanich, Sorapong Chatree, Ampol Lamppon, Supakorn Kitsuwan, Penpak Sirikul, Thongwiset Wannasa, Saad Peampongsanta, Yani Tramod, Soranut Chatwiboon, Russaya Kerdchai, Pisan Akaraseni, Phimonrat Phisarayabud

"A Rainha Suriyothai prepara-se para a batalha"

Estória

Na Tailândia do Séc. XVI, a jovem princesa “Suriyothai” (Phimonrat Phisarayabud) encontra-se apaixonada pelo valente Lorde “Piren” (Soranut Chatwiboon), sendo no entanto obrigada a casar com o príncipe “Tien”(Sarunyu Wongkrachang), em nome da paz entre os diferentes reinos do Sião. Com o tempo, “Suriyothai” acaba por aprender a gostar de “Tien”, essencialmente devido à sua bondade, e torna-se a sua mais leal conselheira.

Anos mais tarde, o principal reino do Sião, Ayutthaya é governado pelo rei “Chai Raja”, que assumiu o trono em ordem a proteger o território dos invasores birmaneses. O monarca, após a morte da mulher, toma como nova esposa a pérfida “Srisuchadan” (Mai Charoenpura), uma descendente da dinastia deposta dos Uthong. A nova rainha apaixona-se por “Worawongsa” (Johnny Afone), e juntos congeminam o assassinato do rei, em ordem a tomar o trono, o que acaba por acontecer.


"O principe Tien a caminho de ser coroado"

“Suriyothai” (M. L. Piyapas Bhirombhakdi), agora uma mulher experiente, tenta defender a posição do marido, o príncipe “Tien”, e roga ao seu amor de adolescência Lord “Piren” (Chatchai Plengpanich), agora comandante dos exércitos reais, que lute contra “Srisuchadan” e “Worawongsa”. “Piren” é bem sucedido no ataque e os usurpadores são mortos.

O principe “Tien” torna-se no monarca reinante. No entanto, o inimigo fidagal birmanês descobre as lutas de poder de Ayutthaya, e invade o reino, tentando aproveitar-se da instabilidade. O exército do Sião parte para uma grande e decisiva batalha, e Suriyothai acompanha-o dando o exemplo na defesa da nação.


"Os amantes e usurpadores, Worawongsa e Srisudachan"

"Review"

“A Lenda de Suriyothai” constitui mais uma grande produção asiática, constituindo de longe a mais dispendiosa obra do cinema tailandês (falou-se em quase 20 milhões de dólares). E a primeira característica que desde logo marca esta película é que provavelmente deve ser dos filmes mais “reais” e “nobres” que existem. Isto no sentido do denominado “sangue azul”. Estranha à primeira vista esta afirmação, não! Passo a explicar. O filme foi pago na sua exclusividade com fundos pertencentes à Rainha Sirikit da Tailândia, mulher do actual rei Rama IX (a Tailândia é uma monarquia parlamentar à semelhança de, por exemplo, o Reino Unido ou a Espanha). A actriz principal M. L. Piyapas Bhirombhakdi, que representa a princesa Suriyothai na sua fase adulta, é um membro da família real tailandesa, ostentando o título de Mom Luang (daí o M.L. no início do nome da intérprete). O realizador Chatrichalerm Yukol é, ele próprio, um parente afastado da rainha Sikirit. E claro está, o filme visa ser uma biografia de uma das figuras mais emblemáticas da história tailandesa, que é uma princesa e posteriormente rainha.

Consta que foi da própria rainha Sikirit, a ideia da realização deste filme, por entender que as escolas tailandesas já não ensinam pormenorizadamente a história do seu país. Pensou a monarca que o cinema seria uma boa maneira de chegar às mentes e corações da população, e daí surgiu o embrião para que “A Lenda de Suriyothai” visse a luz do dia. O filme impressiona de facto pela sua pujança, e sente-se à primeira vista que houve uma grande necessidade de ostentação. Os milhares de figurantes presentes nas batalhas foram recrutados do exército e marinha tailandesas, para além de dezenas de elefantes pertencentes à monarquia. Muitas das cenas foram filmadas nos sumptuosos palácios pertencentes à realeza daquele país, ricamente ornamentados, com decorações de sonho, que visam sobretudo demonstrar faustosidade. A grandiosidade demonstrada em muitos aspectos do filme, desemboca em algo bastante frequente nos filmes tailandeses, o antagonismo com a Birmânia (actual Myanmar). O filme foca mais uma das fases conflituosas com o país vizinho, reconduzindo-se por vezes a um teor nacionalista e propagandístico. A lição de história também serve para dizer mal do vizinho autocrático. Atente-se à foto do rei “Hongsa”, o monarca dos birmaneses à altura, presente neste texto e digam lá se não parece um demónio sanguinário e calculista!

Esta longa-metragem ganhou uma certa notoriedade, que constituiu motivo suficiente para ter direito ao apadrinhamento do mítico realizador Francis Ford Coppola, que reeditou o filme, reduzindo-o para 137 minutos, quando o original possuía quase 3 horas, tendo inclusive sido realizada uma versão de quase 5 horas!!! O reeditamento efectuado explica bastante uma das principais falhas da película, no sentido de por vezes depararmo-nos com sequências de cenas que não fazem lá muito sentido. A razão estará supostamente nos cortes efectuados, pois em princípio a versão original que contava, como atrás foi dito, com 3 horas, deixaria certamente muitas poucas pontas soltas. Na sequência do interesse do realizador americano, a película mereceu uma estreia nos E.U.A., sob a chancela “Francis Ford Coppola presents”. Esta situação poderia eventualmente dar azo a que os americanos, muitas vezes com a sua mania das grandezas, pensassem que Coppola teria ido “dar uma perninha” à Tailândia, e realizado um filme totalmente oriental. Com certeza que vocês estarão a pensar agora que eu estarei a exagerar e que “presents” não é a mesma coisa que “directed by”. Pois eu lembro-me perfeitamente de uma discussão num fórum do IMDb, acerca do que significava a expressão “Quentin Tarantino presents” constante na versão de Herói de Zhang Yimou, que estreou nos Estados Unidos. Só vos digo que haviam umas poucas de mentes brilhantes que estavam firmemente convencidas que Quentin Tarantino era, efectivamente, o realizador de “Herói”. Abstenho-me, naturalmente, de comentar...


"O invasor Hongsa, o rei da Birmânia"

Sri Suriyothai era uma personagem histórica que absolutamente nunca tinha ouvido falar na vida, até adquirir a película que presentemente se analisa. A sua história é inspiradora e não resisto a contá-la, mesmo tendo a consciência que o que se irá seguir, poderá consubstanciar-se num enorme spoiler!!! Ficam avisados!

Em 1548, quem reinava no Sião era o rei Maha Chakapat. Seis meses apenas tinham decorrido sobre a sua regência, quando os birmaneses invadiram o seu território. O rei Chakapat, como era sua obrigação, conduziu o exército real ao encontro dos invasores, montado no seu elefante de guerra. Às mulheres não era permitido combater. No entanto, a rainha Suriyothai, imbuída pelo amor ao seu marido, disfarçou-se de homem e igualmente partiu no seu próprio elefante. Durante a batalha, o elefante do rei Chakapat tombou devido às imensas feridas, e o monarca esteve em sério risco de ser morto. No entanto, a corajosa Suriyothai interpôs-se entre o marido e as tropas birmanesas, sendo morta e desta forma, salvando a vida do seu marido. Ai, já não se fazem mulheres como antigamente...

A nível argumentativo, esta longa-metragem poderá dividir-se em duas partes. A primeira gira em torno das lutas pelo poder, sendo constituída sobretudo por intrigas palacianas e assassinatos. Denota um certo interesse, principalmente histórico e visual, mas poder-se-á por vezes tornar-se algo monótono e nada ideal para apreciarmos, se estivermos extenuados após um penoso dia de trabalho. Mesmo assim, sempre se dirá que a parte dramática é conseguida, atingindo pontos de elevada qualidade. Quando tudo está assente no que toca às disputas pelo trono, entramos na segunda parte que se reconduzirá à invasão dos birmaneses. E aí sim, lá está presente todo aquele pendor épico que amo e para o qual eu vivo! Batalhas fenomenais, com centenas de figurantes e sangue a jorros. Um realismo admirável, dificilmente atingível por outras obras. Verdade se diga, à parte da impressionante luta corpo a corpo e do uso de artilharia, não há nada que se compare a um exército acompanhado por uma manada de elefantes! O seu avanço pesado, o animal couraçado, o cavaleiro armado com uma lança específica para o efeito...um espectáculo! É por estas e por outras, que uma das minhas personalidades históricas preferidas é Alexandre, o Grande. Quando o mítico imperador invadiu a Índia, teve uma batalha decisiva contra o Rei Porus, na margem do rio Hydaspes, actual Jhelum. Apesar das forças macedónias e aliadas serem numericamente superiores, as forças combinadas dos indianos possuíam nas suas fileiras cerca de 200 elefantes de guerra. A cavalaria macedónia foi praticamente inútil, pois os cavalos assustaram-se perante a visão dos formidáveis animais. Alexandre só viria a ganhar a batalha, com o sacrifício de cerca de 12.000 homens das suas extraordinárias falanges, que rodearam os elefantes e mataram-nos quase todos. Perdoem-me o aparte histórico, não resisti.

Uma nota que nos enobrece nesta película (ou talvez não) será a análise incidental à presença portuguesa no Sião, com vários mercenários nossos conterrâneos a combater do lado dos tailandeses e a serem pagos a peso de ouro. O detalhe histórico é extremamente cuidado, e isso nota-se nas suas armaduras e restante armamento, embora nunca seja explorado no sentido de os vermos a falar a nossa língua-mãe, e até ter uma personagem interventiva.

Já aflorei os cortes de que o filme foi alvo, por força da sua apresentação nos Estados Unidos e cabe agora revelar verdadeiramente qual a sua verdadeira fraqueza. É a própria rainha Suriyothai, o que é triste. Calma, não estou a atacar a actriz que a representa, mas sim o protagonismo de Suriyothai na película. É suposto, pretendendo esta longa-metragem ter um cunho biográfico (embora naturalmente romanceado), que a trama se centrasse na personagem da monarca. Ora, ela simplesmente desaparece a meio do filme, e ficamos a contemplar anos de intrigas e assassinatos sem ver cor da ilustre. Apenas quando os birmaneses invadem o Sião em força, é que Suriyothai reaparece na máxima força e toma nas suas mãos as rédeas da situação. Por isso que vos alerto que irão aprender muito mais acerca do período histórico do que acerca da personagem em si. Tenho praticamente a certeza que esta situação estará directamente relacionada com a passagem do filme pela sala de edição. Mas como não tive a oportunidade de comparar a edição que possuo, com a original, o que exteriorizei não passará de uma suposição.

Com uma rodagem que demorou mais de dois anos, precedida de 5 anos de estudos históricos e arqueológicos, de forma a produzir um épico de antologia, “A Lenda de Suriyothai” resultou numa película de inegável interesse, que com certeza será à medida dos fãs dos épicos como eu.

Aconselhável!

"Suriyothai em plena batalha"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinema ao Sol Nascente

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63








segunda-feira, outubro 01, 2007

Bangkok Dangerous - Vingança Silenciosa/Bangkok Dangerous/Bangkok Dangerous - เพชฆาตเงียบ อันตราย (1999)

Origem: Tailândia

Duração: 101 minutos

Realizadores: Irmãos Pang (Danny e Oxide Pang)

Com: Pawalit Mongkolpisit, Premsinee Ratanasopha, Patharawarin Timkul, Pisek Intrakanchit, Korkiate Limpapat, Piya Boonnak

"Kong, o assassino surdo"

Estória

“Kong” (Pawalit Mongkolpisit) é um assassino surdo, que perdeu a sua audição em criança, tendo por esse motivo se tornado num homem bastante revoltado. “Aom” (Patharawarin Timkul), a gerente de um bar de “strip”, é que serve de intermediário entre “Kong” e um chefe mafioso, dando-lhe as instruções acerca dos alvos a abater.

“Kong” nutre uma grande amizade por “Aom” e o seu amante “Jo” (Pisek Intrakanchit), pois foram eles que se aperceberam da capacidade de “Kong” no manejo das armas, fazendo com que o mesmo se sentisse útil na vida. “Jo” treinou “Kong”, aperfeiçoando a sua técnica de tiro e de combate corpo a corpo, tornando-o num assassino extremamente competente.

"Fon, a tentativa de redenção de Kong"

Certo dia, após um “trabalho” em Hong Kong, “Kong” adoece e dirige-se a uma farmácia, onde conhece “Fon” (Premsinee Ratanasopha). A simpatia e a amabilidade da rapariga conquistam-no, e ambos começam a sair juntos, encetando um relacionamento. “Kong” apaixona-se de tal forma que começa inclusive a questionar-se acerca do seu modo de vida, pensando seriamente em mudar o mesmo.

Quando “Jo” mata um dos braços-direitos do chefe mafioso devido à violação de “Aom”, e aquele por sua vez assassina “Jo” e “Aom”, “Kong” interrompe a sua viagem para uma vida honesta, e embarca numa cruzada muda para a vingança. Uma “vingança silenciosa”.

"Aom"

"Review"

“Bangkok Dangerous” constituiu a estreia na realização dos irmãos gémeos verdadeiros Pang (como um conjunto, pois Oxide Pang já havia dirigido em 1997 a película “Who Is Running?”), uma colaboração familiar que se tornaria sobejamente conhecida devido sobretudo a filmes como “Re-cycle” ou “The Eye”, granjeando uma legião fiel de seguidores. O filme teve um certo reconhecimento internacional, comprovado pelo “International Critics Film Award” (FIPRESCI), atribuído no Festival Internacional de Cinema de Toronto, Canadá.

Quem está familiarizado com o cinema de acção de Hong Kong, a premissa que serve de base a “Bangkok Dangerous” não será propriamente uma novidade de estarrecer. Para quem viu o “The Killer” de John Woo, esta afirmação ainda fará mais sentido. Um assassino implacável, o típico “hitman”, depara-se com uma possibilidade de redenção, que no caso em concreto é uma rapariga singela, e questiona verdadeiramente o seu modo de vida. O conflito é tão grande, que o criminoso parece (digo “parece” porque no filme isso por vezes não é tão líquido assim) decidir abandonar o seu ilícito modo de vida, tendo em vista pugnar pelo que é certo face ao socialmente estabelecido como correcto. Quando se está a falar em tirar vidas humanas, acho que isto em princípio não oferece discussão!

Como qualquer filme do género, que absolutamente não se pode desligar da veia trágica habitual (isto é um elogio, acreditem!), acontece um evento que impossibilita o nosso anti-herói de entrar no bom caminho. A coisa em princípio não vai acabar bem, e na realidade finda ainda pior! “Bangkok Dangerous” resume-se pois a três ou quatro ideias capitais, a saber, um modo de vida ilícito e decadente, uma possibilidade de salvação face a esse mesmo modo de vida, a impossibilidade de tal acontecer, e por fim a vingança violenta que deita tudo a perder, e que não deixa sobreviventes, quer seja do ponto de vista físico, quer sentimental.

É um bom filme? Vale a pena perder uma hora e quarenta e um minutos da nossa vida?

"Jo"

A resposta é “Sim, é um bom filme, e sim, com certeza valerá perder esse tempo.”

Em “Bangkok Dangerous”, os irmãos Pang dão completamente a perceber que poderiam tornar-se num fenómeno sério do cinema asiático. O estilo de realização é delicioso, com particular incidência nos vários “flashbacks” que nos deparamos ao longo do filme. Cada um constitui uma surpresa agradável para os nossos olhos, com o uso das tonalidades acinzentadas e acastanhadas, transmitindo um ar rudimentar que nos desloca no tempo até às várias fases da vida de “Kong” e nos envolve numa certa tristeza. O efeito é bem conseguido, e acabámos por nutrir uma certa simpatia pelo assassino surdo “Kong” e até compreensão pelo seu “modus vivendi”. As cenas em câmara lenta, a duplicação de imagens, a extrema atenção aos pormenores, a banda - sonora de qualidade e imaginação acima da média, assim como a excelente fotografia dão o toque final. Não será interessante ver o ponto de vista de um assassino que não consegue ouvir, e que na hora da verdade só se apercebe dos gestos e das expressões horrorizadas das vítimas?

Não se pense que o drama toma por completo conta do filme, ou não estivéssemos a falar de um assassino que opera em Banguecoque. Os aspectos sociais negativos da capital tailandesa são, directa ou indirectamente, abordados com alguma premência, embora não exaustivamente. Digamos que servem como um “pano de fundo” bem elaborado, onde nos apercebemos dos meandros da máfia organizada e da prostituição, presente tanto nas ruas como nos designados “go-go bars”. Inevitavelmente, a violência marca a sua presença com bastantes tiroteios e sangue a jorros.

Os irmãos Pang, atingido o estrelato internacional, resolveram reinventar “Bangkok Dangerous”, num novo filme com o mesmo nome, cuja estreia mundial está prevista para o ano de 2008. A película em questão irá contar com, nada mais, nada menos, a super-estrela de Hollywood Nicolas Cage, para além de Charlie Yeung, uma intérprete bem conhecida do cinema de Hong Kong. Considerando que os realizadores são os mesmos que a obra original e o elenco estará dotado de alguns nomes asiáticos, poderemos em abstracto esperar um “remake” que não seja tão mau quanto isso. Pelo contrário, se a directiva principal for a perfeita idiotice em pensar que o público ocidental não consegue apreciar o estilo próprio do cinema asiático, já estou a ver que nada de bom virá daqui. A vingar este preconceito, aliado a uns bons “punhados de dólares”, um “flop” monumental nascerá. É praticamente uma certeza!

“Bangkok Dangerous” é um filme de visionamento bastante aconselhável!


"Redenção?"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8




segunda-feira, junho 04, 2007

A Honra do Dragão/Warrior King Aka The Protector/Tom Yum Goong - ต้มยำกุ้ง (2005)

Origem: Tailândia

Duração: 110 minutos

Realizador: Prachya Pinkaew

Com: Tony Jaa, Petchtai Wongkamlao, Xing Jing, Johnny Nguyen, Nathan Jones, Bongkoj Khongmalai, David Asavanond, Dean Alexandrou, Lateef Crowder, Damian De Montemas, Don Ferguson, Jon Foo, Ron Smoorenburg, David Ussawanon, Suchao Pongwilai

Considerações introdutórias

Nas férias gozadas pela minha pessoa e que já começam a deixar saudades, faziam-se tardes de cinema em casa, quando não havia pachorra para as almoçaradas. Verdade seja dita, tal só acontecia devido à valente noitada e à inerente/necessária cura da ressaca.
Um grande amigo e principal anfitrião da minha estadia lá para a região centro do nosso país, decidiu na ida ao clube de vídeo, trazer este “A Honra do Dragão”, desafiando-me a criticá-lo aqui no blogue quando retornasse à Madeira.
A sugestão não foi nada ingénua, pois o meu colega é um acérrimo crítico pela negativa do cinema asiático, preferindo infinitamente as lides “hollywoodescas”, em especial a vertente da comédia.

Já tinha visto “A Honra do Dragão”, embora não possua o Dvd na minha colecção de cinema asiático. Sendo assim, durante este texto, esqueçam a expressão “My Asian Movies” e foquem-se apenas em “Asian Movie”, pois pela primeira vez é criticada uma película que não consta do meu acervo pessoal. Lá para o futuro, e a um preço nunca superior a 5, 6 euros, ponderarei a aquisição.

"Kham com o pai"

Estória

“Kham” (Tony Jaa) é um jovem tailandês que desde muito novo cresceu rodeado de elefantes, imbuído num espírito de amizade e devoção para com estes animais, sendo orientado e influenciado pelo seu pai (Sotorn Rungruaeng). O rapaz é educado na mais estrita tradição dos Jaturangkabart, os antigos guerreiros do Sião, que protegiam os elefantes de guerra durante as batalhas.

Certo dia, “Kham” e o seu pai levam o elefante “Por Yai” e a sua cria “Korn”, tendo em vista conseguir com que os mesmos sejam seleccionados para pertencerem aos animais pessoais do imperador, o que constitui uma grande honra e um objectivo de uma vida. No entanto, e com a colaboração de um “gansgter” local, os elefantes são roubados e enviados para Sidney, a cargo de um mafioso vietnamita chamado “Jhonny” (Johnny Nguyen), proprietário do conhecido restaurante asiático “Tom Yum Goong”.

"A devoção mostrada para com Por Yai"

“Kham” embarca para a Austrália tendo em vista recuperar os seus animais e amigos, sendo posteriormente ajudado pelo polícia australo-tailandês caído em desgraça “Mark” (Petchtai Wongkamlao Aka Mum Jokmok) e “Pla” (Bongkoj Khongmalai), uma estudante tailandesa, que é forçada a prostituir-se para pagar uma antiga dívida.

Do outro lado, está o “gangster” “Jhonny” que acaba por ser uma figura menor quando comparada com “Madame Rose” (Xing Jing) e o seu grupo de rufias, entre os quais pontifica o gigantesco “T. K.” (Nathan Jones).

"Kham prepara-se para enfrentar o gigante T.K."

"Review"

Quem conhece o enredo do mega-êxito “Ong Bak”, apercebe-se logo das evidentes semelhanças existentes entre aquela longa-metragem e o argumento de “A Honra do Dragão”, cujo título original “Tom Yum Goong” se refere a uma sopa tradicional tailandesa que dá o nome ao restaurante do filme. Num, o que era furtado era a cabeça de um Buda, aqui são elefantes, constituindo ambos símbolos sagrados da cultura e religião tailandesa. Posteriormente, em ambos os filmes, um jovem ingénuo, mas que ao mesmo tempo é uma autêntica máquina de pancadaria, dirige-se para um sítio estranho, enorme e cosmopolita (troquemos por miúdos: grande cidade) tendo em vista recuperar o que foi roubado. Conhece pessoas que o ajudam a ultrapassar as dificuldades, nos casos vertentes, um rapaz e uma rapariga com vidas complicadas. Os maus são mesmo maus, e lá se vê o herói obrigado a demonstrar dezenas de vezes que quando toca a partir braços, pernas e tudo o que venha mais à rede, quem manda é ele! Como é preciso dar um toque de dramatismo à coisa, toca a morrer alguém, que lhe é bastante próximo. E já está! Temos aqui a fórmula mágica para demonstrar no ecrã, as quase inexcedíveis capacidades de luta da super-estrela de artes marciais Tony Jaa.

Pelos vistos, o realizador Prachya Pinkaew pretendeu em “A Honra do Dragão” esgotar ao máximo o estilo de filme que se assemelha muito a um videojogo de luta em que temos dezenas de personagens menores a serem “despachadas” em poucos segundos, e uns mais complicados que ainda levam uns minutos a por cobro. No entanto, e mesmo num segmento cinematográfico tão limitado do qual “A Honra do Dragão” faz parte, sempre se torna interessante ver estilos de luta tão díspares a se confrontarem. Jaa tem que se deparar com lutadores de “Wushu”, assim como de Capoeira, para não falar do colosso Nathan Jones (“Boagrius” de “Tróia”, o gigante que Brad Pitt mata no início do filme) um ex-lutador de “wrestling”, cujas medidas oficiais andam pelos 2,08 metros de altura e 180 quilos!!!

"Luta com o mestre de Capoeira"

O próprio Jaa introduz uma variante nova de Muay Thai, distinta da usada em “Ong Bak”, e que sugestivamente se denomina de muaykodchasarn (tradução livre: boxe de elefante). O próprio actor confessou que pretendeu combinar a arte de defesa de um elefante, com a citada arte marcial. O efeito, diga-se em abono da verdade, é devastador para os oponentes.

Notei igualmente que se pretendeu apostar ligeiramente mais no dramatismo das situações. O filme começa com uns bons dez minutos a mostrar um pequeno “Kham” a crescer em conjunto com o elefante “ Por Yai”, com todas as convivências e brincadeiras que normalmente temos com os amigos quando somos petizes. Igualmente aqui nos apercebemos da importância da tradição sagrada dos Jaturangkabart, os defensores dos elefantes, dos quais “Kham” directamente descende. Está criada a empatia e a explicação necessária para todo o manancial de luta e fricção de feitios que posteriormente irá decorrer. No fim, a perda do costume, que nos chega através de um choque que confesso inesperado, mais pela maneira como nos é apresentado.

Filme mediano, e por vezes infantil, que apenas servirá para libertarmos um pouco de tensão ao visionarmos os incríveis golpes e acrobacias de Tony Jaa. Mas daí, existem muitas outras coisas que poderão produzir o mesmo efeito. A escolha é vossa…

"Amparado..."

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Outras críticas em português: Axasteoquê?

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 5

Argumento - 6

Guarda-roupa e adereços - 7

Banda-sonora - 6

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 6,88

Dedicado ao "Mano"








segunda-feira, abril 16, 2007

Ondas Invisíveis/Invisible Waves (2006)

Origem: Tailândia

Duração: 114 minutos

Realizador: Pen-Ek Ratanaruang

Com: Tadanobu Asano, Kang Hye-jeong, Eric Tsang, Maria Cordero, Toon Hiranyasap, Ken Mitsuishi, Hideki Jitsuyama, Tomono Kuga, Hiro Sano, Prompop Lee

"Kyoji"

Estória

“Kyoji Hamamura” (Tadanobu Asano) é um cozinheiro japonês, que trabalha em Macau, território asiático que esteve sob administração portuguesa até fins de 1999. Por trás do seu honrado ofício, “Kyoji” é igualmente um assassino a soldo de um poderoso chefe mafioso, chamado “Wiwat” (Toon Hiranyasap).

O mais recente trabalho que lhe é encomendado passa por assassinar a esposa do patrão, a Sra. “Seiko” (Tomono Kuga), que é ao mesmo tempo amante de “Kyoji”. O japonês é bem sucedido na sua missão, usando para o efeito o método do envenenamento, após um jantar a dois.

"Noi"

Posteriormente, o chefe de “Kyoji” comunica-lhe que ele terá de desaparecer por uns tempos até as coisas acalmarem, enviando-o para Phuket, uma ilha que constitui uma renomada estância turística da Tailândia.

“Kyoji” embarca num navio até ao seu destino de fuga, e durante o cruzeiro conhece uma jovem rapariga chamada “Noi” (Kang Hye-jeong) que viaja acompanhada da sua filha bebé de nome “Nid”. Uma amizade nasce, e porventura algo mais.

Quando “Kyoji” chega a Phuket, começam a acontecer sérios problemas com a sua vida, vendo-se rodeado de intriga e traição por todos os lados.

"Um beijo ardente, o prelúdio de um homicídio"

"Review"

Da Tailândia, e sob a chancela do realizador Pen-Ek Ratanaruang (realizador de “Last Life in the Universe” e “6ixtynin9 – Sixty Nine”), chega-nos “Ondas Invisíveis”, um filme que mereceu honras de abertura do Festival Internacional de Cinema de Banguecoque – 2006, para além de ter sido um competidor na 56ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Por força do argumento escrito por Pradba Yoon, revelador de um enredo passado em locais distintos, e com personagens de origens diversas, Ratanaruang teve de se rodear de intérpretes de várias paragens.

Foi feliz na escolha do elenco, cerceando-se de actores com provas dadas. Tadanobu Asano é um afamado actor japonês, que detém no seu currículo participações em “Zatoichi”, “Ichi – O Assassino”, “Taboo”, “Gojoe”, entre muitos outros. Possuía igualmente a vantagem de já ter anteriormente entrado em outro filme do realizador tailandês (falamos de “Last Life in the Universe”). Da Coreia do Sul foi recrutada Kang Hye-jeong, a “Mi-do” do fenomenal “Oldboy”. Hong Kong, por sua vez, marca presença com o veterano Eric Tsang, conceituado actor que tem como cartão de visita películas como a trilogia de “Infiltrados”, “Fly Me To Polaris” e “Anna Magdalena”.

A trama de “Ondas Invisíveis” gira à volta de temas como a culpa ou a traição, sendo apresentado envolto numa extrema melancolia. E é a partir desta premissa, que se constrói um filme rodeado de uma aura soturna e porventura triste, bem ilustrada pelos interlúdios que focam o ondular das ondas.

"Kyoji, após ser assaltado, telefona ao patrão a solicitar auxílio"

A realização evoca bem este aspecto, optando por, não amiúde, enveredar por filmar indícios do que se está a passar em determinadas cenas, acompanhados apenas dos sons humanos, como o arfar, ou então do arrastar e do ranger de objectos. Veja-se por exemplo a cena em que “Kyoji” está a debater-se com o assaltante no seu quarto de hotel em Phuket. A porta do quarto e a parede circundante está a ser filmada. Ouvimos os sons da luta. Mas em momento algum vemos “Kyoji” a lutar com o delinquente. Outro exemplo será a cena do jantar homicida.

A fotografia, da autoria de um dos melhores mestres da arte, Christopher Doyle (“Herói”, “2046”), envereda muitas vezes pelos tons acinzentados, acompanhando fidedignamente os sentimentos ilustrados pelos intervenientes. Não é um dos melhores trabalhos de Doyle, diga-se de passagem.

A interpretação dos actores constituirá eventualmente o melhor que o filme tem. Tadanobu Asano presenteia-nos com uma actuação competente e convincente. Kang Hye-jeong, embora a milhas do que nos mostrou em “Oldboy” (convenhamos que é extremamente complicado igualar tal registo), demonstra que merece um lugar de nomeada no panorama do cinema asiático. Os restantes intérpretes estão, em geral, num nível aceitável. Destaco aqui Ken Mitsuishi no papel de “Lizard”.

O pior é sem dúvida a extrema monotonia pela qual o filme envereda, que por vezes nos faz bocejar, e se estivermos um pouco cansados, porque não dizer adormecer. Existem alturas desta longa-metragem, em que o encadeamento é claramente um excelente remédio para quem sofre de insónias.

Uma proposta mediana que não entusiasma, mas que possivelmente elevará a cultura cinematográfica de cada um...

"A morte iminente"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-asia, C7nema

Avaliação:

Entretenimento - 6

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 6

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7