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terça-feira, julho 27, 2010

The Good, the Bad, the Weird – Joheun nom, nabbeun nom, isanghan nom - 좋은 놈, 나쁜 놈, 이상한 놈 (2008)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 130 minutos

Realizador: Kim Ji-woon

Com: Song Kang-ho, Lee Byung-hun, Jung Woo-sung, Yoon Je-moon, Ryoo Seung-su, Song Young – chang, Son Byeong-ho, Oh Dal-su, Uhm Ji-won

Yon Tae-goo - the Weird 3

Yoon Tae-gu, o esquisito”

Sinopse

Na Manchúria, década de '30, o mítico e sanguinário assassino “Park Chang-yi” (Lee Byung-hun), o “Mau”, assalta um comboio de forma a roubar um mapa dos oficiais japoneses, que supostamente levará a um grande tesouro. Infelizmente para “Chang-yi”, “Yoon Tae-gu”, o “Esquisito”, leva a melhor e foge com o mapa em busca da fortuna.

Park Chang-yi - the bad 2

Park Chang-yi, o mau”

No entanto, as coisas não correm assim tão bem para “Tae-gu”, pois este é capturado por “Park Do-won”, o “Bom”, que ao mesmo tempo é um caçador de recompensas muito conceituado. Tendo tomado conhecimento do tesouro, “Do-won” resolve fazer uma sociedade pouco convencional com “Tae-gu”, e ambos partem em busca da riqueza e glória. Contudo, as coisas não serão fáceis, pois serão perseguidos pelo psicótico “Chang-yi”, por outros grupos de salteadores e pelo próprio exército imperial japonês.

Park Do-won - the good

“Park Do-won, o bom”

Review”

“The Good, the Bad, the Weird” teve honras de estreia no festival de Cannes, edição de 2004, tendo recebido no geral críticas favoráveis, assim como venceu os prémios para melhor realizador e efeitos especiais no conceituado festival de Sitges, o certame de cinema catalão que é uma referência no panorama da sétima arte asiática na Europa.

Com “The Good, the Bad, the Weird”, um conceito à partida estranho, o “western” asiático, marca pontos outra vez. Depois de “Peace Hotel” (Hong Kong), “As Lágrimas do Tigre Negro” (Tailândia) e “Sukiyaki Western Django” (Japão), é chegada a vez de a Coreia do Sul provar que o cinema oriental tem a versatilidade suficiente para emanar obras com conceitos que à partida, estariam culturalmente deslocados do seu horizonte. Claramente tributário do que denomina de “western spaghetti”, o realizador Kim Ji-woon faz apelo à trilogia do “Homem sem Nome”, de Sergio Leone, em especial da lendária película “O Bom, o Mau e o Vilão”. Sendo que até 2009, “The Good, the Bad, the Weird” constituía a longa-metragem mais cara da história do cinema sul-coreano, Kim Ji-woon chamando a si a tradição de acrescentar um nome de uma iguaria à palavra “western”, de forma a individualizar determinado subgénero, chamaria de “kimchee western” à sua obra, em homenagem a um prato tradicional sul-coreano.

Dotado de um ritmo incrível e contagiante, “The Good, the Bad, the Weird” é um exercício divertido e que captará a atenção do espectador até aos créditos finais. Kim Ji-woon sai-se bem na homenagem que faz aos filmes de Leone, criando uma atmosfera própria e típica para o género, embora positivamente introduza elementos mais contemporâneos e actuais. A escolha da Manchúria dos anos '30, dominada pelos japoneses, é bastante feliz e serve de pano de fundo ideal para toda a trama. Os momentos de acção são espectaculares, com tiroteios de suster a respiração, perseguições alucinantes e diálogos emblemáticos, com alguma ironia que nos faz sorrir, típicos de um “western” que se preze como tal.

Os salteadores

O bando de salteadores”

Como o próprio título deste filme indica, está em causa o encontro entre três pistoleiros de renome, sendo os mesmos interpretados por três dos maiores nomes da cena sul-coreana. Song Kang-ho (o “Esquisito”) consegue evidenciar a melhor prestação a que não será alheio o facto de o seu papel ser mais ecléctico e atreito a demonstrar diferentes vertentes de representação. Lee Byung-hun (o “Mau”) consegue sobressair uma aura sinistra que era o que se lhe pedia para a sua actuação. Embora se reconheça que muito do seu trabalho se confina a parecer um “mau com estilo”, o realizador Kim Ji-won, num “flashback” à Sergio Leone, confere mais profundidade a esta personagem em concreto. O terceiro elemento da parelha, Jung Woo-sung (o “Bom”), é quem verdadeiramente sofre com a maneira como o argumento é desfilado, o que sinceramente deveria ter sido algo alterado de forma a relevar este competente actor. Woo-sung sofre de uma falta gritante de minutos, em comparação com os seus dois companheiros da película. Supostamente, e fazendo o paralelo com o anti-herói protagonizado pelo grande Clint Eastwood na película de Leone anteriormente mencionada, Woo-sung é algo maltratado nesta longa-metragem, a nível de protagonismo.

Com a costumeira animosidade anti-japonesa, embora aqui algo dissimulada, “The Good, the Bad, the Weird” é uma boa proposta a nível de entretenimento, que não defraudará os fãs do “western”, da aventura e até dos momentos mais descontraídos e eivados de boa disposição. O seu “pace” é contagiante, as personagens têm o seu “quê” de fascínio, os cenários são mais do adequados, existe acção a rodos e nesta vertente o que é que se pode pedir mais? Mais uma boa proposta para um Domingo à tarde bem passado!

Curiosidade e ao mesmo tempo um desejo escondido: Se o “mestre” John Woo embarcasse num “Asian Western”, e colocasse uma pitada dos seus predicados de “heroic bloodshed”, o que sairia dali?

Luta

Chang-yi cavalga com os seus apaniguados, no meio de uma luta renhida”

imdb 7.4 em 10 (4.961 votos) em 27 de Julho de 2010

Outras críticas em português:

  1. Sake com Sal
  2. Cinecafri
  3. Cinematório
  4. Cinefilia
  5. Omelete

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

 

segunda-feira, maio 18, 2009

Sukiyaki Western Django/Sukiyaki Uesutan Jango - スキヤキ・ウエスタンジャンゴ (2007)

Origem: Japão

Duração: 98 minutos

Realizador: Takashi Miike

Com: Hideaki Ito, Masanobu Ando, Koichi Sato, Kaori Momoi, Yusuke Iseya, Quentin Tarantino, Renji Ishibashi, Yoshino Kimura, Takaaki Ishibashi, Teruyuki Kagawa, Toshiyuki Nishida, Shun Oguri, Masato Sakai, Hideaki Sato, Yoji Tanaka, Christian Storms

"O pistoleiro sem nome"

Sinopse

Numa vila algures perdida no Japão, denominada “Nevada”, dois grupos digladiam-se pelo controlo da região, tendo em vista encontrar uma fabulosa quantia em ouro. Os bandos são os “Heike”, que usam uma indumentária de cor vermelho-sangue, chefiados pelo maníaco “Kiyomori” (Koichi Sato) e os “Genji”, que envergam uma roupa branco-neve, e são dominados pelo perigoso e calculista “Yoshitsune” (Yusuke Iseya). A maior parte dos habitantes, atemorizados pelos delinquentes, abandonaram a povoação e os poucos que restaram vivem um dia-a-dia dominado pelo medo.

"Os Genji, liderados por Yoshitsune"

Certo dia, chega a “Nevada” um misterioso pistoleiro (Hideaki Ito) que oferece os seus serviços ao grupo que pagar mais. Entrando em desacordo com ambas as facções, o homem sem nome aproxima-se de “Ruriko” (Kaori Momoi), a dona do “saloon” da zona. Aqui, aprende a trágica história de “Akira”, o filho de “Ruriko”, um ex-membro dos “Heike” que se apaixonou por “Shizuka” (Yoshino Kimura), uma mulher do clã rival. O casal esperava que a sua união acabasse com um conflito sem sentido, mas “Akira” acaba por ser assassinado por “Kiyomori”. Em virtude desta situação, “Shizuka” retorna aos “Genji”, onde se torna a sua meretriz.

Após várias incidências, e depois de descobrir que “Ruriko” na realidade é uma lendária pistoleira supostamente desaparecida, ambos unem esforços para de uma vez por todas acabar com a tirania dos “Genji” e dos “Heike”.

"Kiyomori, o lunático líder dos Heike"

"Review"

Como é do conhecimento geral, o “western” é um género cinematográfico norte-americano, que teve como inspiração as aventuras e vicissitudes dos pioneiros na descoberta do oeste daquele país. Pelo menos foi assim numa fase inicial, e posteriormente conheceu algumas derivações, colhendo a minha preferência pessoal o denominado “spaghetti western”, um subgénero que deu a conhecer grandes realizadores como Sergio Leone ou Sergio Corbucci. Por este motivo, é natural que um “western” provindo do oriente cause sempre alguma estranheza, à semelhança do que tinha acontecido, por exemplo, sete anos antes com “Tears of the Black Tiger”. No entanto, há que ter em conta que quando Takashi Miike toma conta de um projecto, o mesmo normalmente desconhece limites ou fronteiras em função da personalidade e orientações do realizador japonês. O título da película revela muito do conteúdo desta obra. “sukiyaki” é um prato tradicional do país do sol nascente, que poderemos fazer analogia com a expressão “spaghetti” no sentido de designar a estirpe italiana. Quanto a “western”, estamos conversados. “Django” evoca o filme de culto com o mesmo nome, do já mencionado realizador Sergio Corbucci, onde Franco Nero desempenharia um papel de uma carreira e que viria a reinventar em registos subsequentes.

A primeira conclusão a retirar quando findamos o visionamento de “Sukiyaki Western Django”, doravante “SWD”, é que estamos perante um tributo memorável ao “western” no seu todo, mas em especial à sua faceta mais crua consubstanciada nas longa-metragens dos realizadores acima referidos, sem prejuízo de vir à mente também o nome de Sam Peckinpah. Junte-se uns aperitivos orientais, principalmente no que toca ao sentimento e aspecto visual, e estamos perante uma obra de grande mérito que, antecipadamente afirmo, irá apaixonar muitos dos que por aqui passam. O argumento é tributário de “O Bom, o Mau e o Vilão” e “Por Um Punhado de Dólares”, no que toca à personagem principal da trama, num paralelo traçado entre Clint Eastwood e Hideaki Ito. Igualmente existem claras afinidades com o papel de Toshiro Mifune em “Yojimbo”, e que inclusive dá azo a uma feliz passagem de “SWD”, em que um dos elementos dos “Genji” vira-se para o pistoleiro e diz-lhe frontalmente “Não te armes em Yojimbo!!!”. O resultado é uma clara história de vingança, que não prima muito pela originalidade, mas sim pela grande exibição visual e sentimental.

"Ruriko"

“SWD” não perde tempo em exibir os seus atributos de espectacularidade e arranca a todo o gás, com uma memorável sequência onde estão envolvidos “Ringo” (interpretado por Tarantino), uma cobra, um falcão e um bando de malfeitores. A premissa do causar deslumbramento é uma constante em todo a película, fazendo com que “SWD” seja uma soma de inúmeras cenas inesquecíveis que perpetuar-se-ão na nossa memória. E quanto a tomar partido quanto à mais conseguida, tal se revelará um desiderato titânico no que toca à escolha. Esta obra é extremamente marcada pelo surrealismo das situações, sejam as mesmas impregnadas de violência, “gore”, sensualidade, comédia ou heroísmo. Miike tem isto tudo para oferecer em “SWD” e nós claramente estamos dispostos a aceitar e a agradecer! É um clássico caso em que o estilo supera a substância, corporizado num filme com uma dinâmica e energia contagiante e que não deixará quem o visiona ter uma pausa para respirar! Preparem-se para pouco mais de hora e meia de divertimento, a não ser que tenham a sorte de visionar a versão “uncut” de duas horas, ganhando desta forma mais meia-hora de entretenimento puro e duro!

Ao contrário do que se poderia pensar, e tendo em vista acentuar ainda mais a “misturada” envolvente, as personagens japonesas de “SWD” expressam-se maior parte das vezes em inglês. Para que nada corresse mal neste particular, especialmente no que toca à necessidade de fazer algum tipo de dobragem (aspecto que repudio bastante) Miike recrutou actores nipónicos que tiveram um especial contacto com o ocidente, tendo aí vivido ou trabalhado. Cabe a Hideaki Ito representar o emblemático pistoleiro sem nome, não se saindo mal no desiderato. Atendendo ao perfil misterioso e distante do papel, a Ito não são atribuídos muitos diálogos. A sua performance é essencialmente mais física e feita de poses marcantes. É certo que Ito está bastante longe de ter um carisma como Clint Eastwood, mas dá para o requerido. Sato Koichi brilha como “Kiyomori”, o lunático líder dos “Heike”, e destila malvadez por todos os poros. Particularmente interessante é a analogia que o mesmo faz, comparando a situação de conflito existente entre os “Heike” e os “Genji”, com a “Guerra das Rosas” de Shakespeare. “Kiyomori” julga que será um novo Henrique VI e a partir daí exige que todos o chamem “Henry”, lançando o epíteto de “Kiyomori” para trás das costas. Verdadeiramente de apreciar é a actuação de Yusuke Iseya, na pele do viperino “Yoshitsune”, chefe dos “Genji”. Trata-se de um rapaz imbuído de muito poder, e que encarna o espírito de um novo samurai, atendendo a que o mesmo julga que os antigos guerreiros já não representam o verdadeiro espírito da guerra e do combate. Iseya é intenso na sua actuação e facilmente poderá ser apontado como o elo mais forte de “SWD”. As senhoras Yoshino Kimura e Kaori Momoi destilam sensualidade, beleza e paixão por toda a película, sendo ambas um importante complemento para os supra citados actores. Ainda temos a oportunidade de observar o mítico Quentin Tarantino, desta vez na pele de actor, a pedido especial do seu amigo Miike. A sua interpretação roça essencialmente o exagero das situações, resultando em momentos dotados de um cariz algo cómico.

Com um guarda-roupa, à falta de melhor expressão, fabuloso, uma banda-sonora claramente tributária dos “spaghetti western” e uma fotografia do melhor que já se viu a nível do cinema, “SWD” é um entretenimento imperdível que nos fará dar suspiros de pura nostalgia e revivalismo. Não se nega que existe um certo exagero, certamente requisitado, nas situações presentes. Mas tal acentua apenas mais a aura fantástica e seguidora da cultura do estilo e da diversão, que muito tem lugar no mundo da sétima arte. Miike oferece-nos acima de tudo uma proposta reciclada de um género que cativou milhares de fiéis seguidores por todo o mundo, e adicionou-lhe características próprias do seu país natal. “SWD” estava marcado à partida pelo signo da estranheza e do insólito, mas o resultado foi uma obra marcante, susceptível de atrair e unir desde cultores de diversos estilos cinematográficos, até ao mais simples apreciador de filmes. Cabe agora questionar se estamos perante o nascimento de um novo subgénero, o “Sukiyaki Western”, ou apenas um devaneio quase genial de um realizador que não nos cessa de surpreender!

Imperdível!

"O pistoleiro sem nome Vs. Yoshitsune, o standoff final"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku.

Avaliação:

Entretenimento - 10

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,38





sábado, janeiro 10, 2009

As Lágrimas do Tigre Negro/Tears of the Black Tiger/Fah talai jone - ฟ้าทะลายโจร (2000)

Origem: Tailândia

Duração: 97 minutos

Realizador: Wisit Sasanatieng

Com: Chartchai Ngamsan, Suwinit Panjamawat, Stella Malucchi, Supakorn Kitsuwon, Arawat Ruangvuth, Sombat Metanee, Pairoj Jaisingha, Naiyana Sheewanun, Kanchit Kwanpracha, Chamloen Sridang

"Dum, o Tigre Negro"

Sinopse

“Rumpoey” (Stella Malucchi) e “Dum” (Charchai Ngamsan) são dois jovens de origens totalmente opostas. A primeira provém de uma família abastada, tendo um pai bastante influente e poderoso. O segundo, é de origens humildes, sendo filho de um agricultor. A evacuação de Banguecoque, durante a II Guerra Mundial, faz com que os mesmos se encontrem no meio rural e tornem-se muito próximos. A paixão inevitavelmente acontece, mas desde o início parece votada ao malogro, atendendo às grandes diferenças sociais e económicas que separam o casal. Terminado o conflito, “Rumpoey” regressa à capital tailandesa, ficando “Dum” a viver no campo.

"Rumpoey"

Dez anos depois, e devido a um acaso, “Rumpoey” e “Dum” encontram-se novamente, desta vez em Banguecoque. A história de amor reata-se, e ambos fazem promessas mútuas de viverem juntos para sempre. Contudo, o destino reserva surpresas desagradáveis. O pai de”Dum” é assassinado por aldeões rivais, e “Rumpoey” é obrigada a tornar-se noiva do capitão “Kumjorn” (Arawath Ruangvuth), num casamento a realizar-se por mera conveniência. Consumido pelo desgosto, “Dum” transforma-se no “Tigre Negro”, o fora-da-lei mais temido do burgo. Apesar das terríveis incidências, a paixão entre “Rumpoey” e o agora “Tigre Negro” permanece intocada. Resta saber se a mesma irá triunfar.

"Duelo, sob um cenário pintado de cores vívidas"

"Review"

Sete anos antes de Takashi Miike realizar “Sukiyaki Western Django”, a cinematografia tailandesa corporizaria uma ideia no mínimo estranha, que era realizar um “western” com contornos asiáticos. O projecto viu a luz do dia, e alcançaria à altura um sucesso sem precedentes para um filme da Tailândia (antes do fenómeno "Ong Bak" em 2003), tendo sido o primeiro filme daquele país a merecer uma presença em Cannes. Salienta-se igualmente a participação em outros certames internacionais, onde fez sensação em Vancouver, no Canadá e Gijón, na vizinha Espanha. Esta película é frequentemente comparada aos filmes de Sergio Leone, essencialmente devido a não se furtar a algumas características mais emblemáticas atribuídas genericamente aos “westerns” daquele realizador. Falamos da violência crua, a banda-sonora bastante distintiva (embora aqui mesclada com alguns ritmos orientais), um pendor romântico mais exacerbado e um manancial de personagens dotadas de características um tanto ou quanto peculiares. Contudo, é necessário ter presente que os “westerns” norte-americanos e os “spaghetti” incidiam quase todos sobre histórias ocorridas no período que mediou entre o fim da guerra civil norte-americana (Guerra da Secessão) e o fim do século XIX. Pelo contrário, os eventos narrados em “As Lágrimas do Tigre Negro” sucedem-se nas décadas de '40 e '50, e por vezes assumem mais contornos de narrativas de boiadeiros (género sertão brasileiro). Mesmo assim, e na sua esmagadora maioria, não subsistem dúvidas que é de um “western” atípico que estamos a falar.

Sendo a estreia na realização de Wisit Sasanatieng, “As Lágrimas do Tigre Negro” vive sob um signo surrealista, com características que o distinguem do comum das longas-metragens. Existem cenas rodadas sob um cenário pintado com cores pastel, que supostamente será uma homenagem ao likay, uma espécie de ópera tradicional tailandesa. O colorido das paisagens rurais é extremamente saturado, e as paredes dos prédios frequentemente estão pintadas de um verde berrante ou cor-de-rosa luzidio. Chegados aqui, já todos perceberam que a película é rodada sob cenários artificiais (que se notam claramente) ou naturais, sob um espectro colorido extremamente acentuado e verdadeiramente espectacular. Outra característica identificativa da película passa pela violência marcante. Temos um apreciável número de mortes, com muitos intervenientes a serem despachados sequencialmente e numa questão de segundos, ao melhor estilo do “gun fu” de John Woo. Tudo acompanhado dos impossíveis litros de sangue que jorram das feridas, e as cabeças a explodir com miolos a voar por todo os lado.

"O capitão Kumjorn"

As hipérboles são claramente requisitadas em vários aspectos, e isso transpira por todos os poros. Os actores assumem uma postura virada para a paródia, com poses e expressões propositadamente exageradas. Foi intenção de Wisit Sasatanieng não escolher intérpretes consagrados do cinema tailandês, pois entendeu que os mesmos não possuiriam o espírito descontraído necessário para um filme desta estirpe. O pretendido seriam intérpretes que não se importassem de se sujeitarem ao ridículo de certas cenas. Sendo assim, o “cast”, com uma ou outra excepção, passa por nomes de segunda linha, que cumprem ao fornecerem o ar amador necessário para que esta obra cumpra os seus objectivos. A caracterização acompanha, de uma forma intencional, o tom geral desta longa-metragem. Atente-se aos notórios bigodes pintados em algumas personagens ou as roupas garridas, que acentuam o tom bizarro da película.

Com um estilo bastante “kitsch” e algo “cartoonesco”, confessado e exteriorizado pelo realizador Wisit Sasatanieng, “As Lágrimas do Tigre Negro” é um filme que valerá sobretudo por alguns aspectos bastante criativos, algo inovadores e inconvencionais. O exagero e o “non sense” é explanado de uma forma intencional, obtendo-se momentos interessantes. Contudo, é minha perspectiva que esta longa-metragem não será passível de ser levada muito a sério, pois apesar de ser considerada um marco artístico por muita da crítica de cinema, não possui predicados suficientes para que possa almejar um estatuto que se possa reconduzir a uma obra de eleição. A sua exuberância valeu-lhe um reconhecimento apreciável, mas passado o efeito de “lufada de ar fresco”, julga-se que apenas os amantes do cinema mais burlesco, continuarão a relembrar esta obra com um sorriso nos lábios. No fundo, como em quase tudo na vida, tudo se resumirá a uma questão de preferências e de gostos pessoais.

"Tiroteio entre a polícia e o bando de foras-da-lei"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 6

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50