"MY ASIAN MOVIES"マイアジアンムービース - UM BLOGUE MADEIRENSE DEDICADO AO CINEMA ASIÁTICO E AFINS!!!

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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Realizador Asiático Preferido - Votação

Apresento-vos mais um realizador asiático que está sujeito ao vosso escrutínio, no quadro de votações mais abaixo à direita. Não custa relembrar que podem escolher mais do que uma opção, antes de clicarem e submeterem o(s) vosso(s) voto(s). Igualmente podem sugerir outros nomes para serem postos a votação.
Zhang Yimou

Informação

Filmografia (caso exista alguma crítica, o título estará assinalado a cor vermelha. Para aceder ao texto, basta clicar):

  1. Red Sorghun (1987)
  2. Operation Cougar (1988)
  3. Judou (1990)
  4. Raise the Red Lantern (1991)
  5. The Story of Qiu Ju (1992)
  6. To Live (1994)
  7. Lumiére et Compagnie - dirigiu uma curta metragem (1995)
  8. Keep Cool (1997)
  9. Not One Less (1999)
  10. Happy Times (2000)

Nota pessoal: Esta afirmação poderá ser um pouco temerária, pois nestas coisas é sempre complicado eleger um realizador que colha mais a nossa simpatia. No entanto, julgo que este candidato é o meu preferido!


quarta-feira, janeiro 30, 2008

Caminho Solitário/Riding Alone For Thousands of Miles/Qian li zou dan qi - 千里走单骑 (2005)

Origem: China

Duração: 104 minutos

Realizador: Zhang Yimou

Com: Ken Takakura, Shinobu Terajima, Kiichi Nakai, Jiamin Li, Lin Qiu, Jiang Wen, Zhezhou He, Zhenbo Yang, Ken Nakamoto, Li Bin Li, Ziliang Chen

"O Sr. Takata"

Estória

O pescador japonês “Gouichi Takata” (Ken Takakura) está de relações cortadas com o filho “Kenichi” (Kiichi Nakai) desde a morte da mãe deste. Certo dia, “Rie”, a esposa de “Kenichi”, contacta “Takata”, informando-o que o filho possui um cancro no fígado, que o levará inevitavelmente à morte.

"Takata entre Jasmine e Lingo, os guias chineses"

“Takata” viaja até Tóquio tendo em vista a reconciliação com o seu filho, mas este recusa ver o pai, devido ao conflito que existe entre ambos. “Rie” empresta uma cassete vídeo a “Takata”, que contém um documentário que “Kenichi” realizou acerca da ópera chinesa. No filme podemos ver “Kenichi” a pedir ao cantor “Li Jiamin” (Li Jiamin) para representar a ópera “Riding Alone For Thousands of Miles”. “Li” recusa devido a estar alcoolizado, mas fica a promessa de no próximo ano, quando “Kenichi” retornar à aldeia de “Li”, perto da cidade de Lijiang (China), a actuação ser realizada. Após ver a cassete, “Takata” decide viajar pelo sul da China e gravar a actuação de “Li”, tendo em vista cumprir uma das últimas vontades de “Kenichi”.

A viagem servirá para compreender melhor a perspectiva do filho sobre a vida, resultando numa aventura impregnada de humanidade.

"O pequeno Yang Yang"

"Review"

“Riding Alone For Thousands of Miles”, é uma popular estória chinesa que narra a épica aventura do general Guan Yu, que percorreu um longo caminho para se reunir com o amigo a quem tratava como irmão, o senhor da guerra Liu Bei. O conto está retratado na obra literária do século XIV, “Romance of the Three Kingdons”, de Luo Guanzhong. O título tenta traçar um certo paralelo entre a lenda e a tentativa de “Takata” em completar os desígnios do seu filho, aumentando desta forma as suas hipóteses de reconciliação com aquele.

Pessoalmente entendo que as longas-metragens que lidam com conflitos familiares, têm uma potencialidade intrínseca para tocar os nossos corações. Quando se trata de um pai e de um filho, a comoção torna-se maior, não sei porquê. Talvez por achar que tenho uma excelente relação com os meus pais, com os naturais altos e baixos, e não conseguir imaginar viver uma situação como a de “Takata” e do seu filho “Kenichi”. Sou capaz de superar, como já o fiz, um desaguisado amoroso. Mas quando entro em conflito com quem me deu vida, mesmo tendo razão, não presto para mais nada e passo o tempo todo a pensar nisso. Foi por essa mesma razão que quando li pela primeira vez a sinopse de “O Caminho Solitário”, fiquei com a nítida sensação que a película não me iria ser indiferente. Tendo então Zhang Yimou como realizador, este pensamento era quase uma certeza. Não me enganei.

A “performance” dos actores é de um elevadíssimo nível, ainda para mais quando temos várias personagens que não são representadas por profissionais, mas por aldeões da zona de Lijiang. Como é natural, quem brilha mais é Ken Takakura, o protagonista da estória. Em vez de proferir a minha opinião, porque não expor o pensamento de alguém com verdadeira autoridade no assunto:

“Ken Takakura é o meu ídolo. Ele é o ídolo de uma geração inteira de chineses. Mesmo hoje ele permanece como o meu ídolo, tanto no ecrã, como na vida real. Eu adoro a sua personalidade. Uma vez eu disse que uma boa performance com lágrimas era um requisito básico para os actores. Contudo, Ken Takakura nunca chora nos filmes que protagoniza. Mais tarde apercebi-me que as suas actuações demonstravam um diferente tipo de choro, o do coração. O sofrimento é uma espécie de choro, mas o choro invisível do coração é mais apelativo e tocante. Eu gosto da sua performance discreta e reservada. É necessário emoções e sentimentos fortes para representar desta forma, mas ao mesmo tempo é preciso controlar essas mesmas emoções e sentimentos. Até agora, nunca encontrei ninguém na China que fosse capaz de fazer isto.”

Dito pelo próprio Zhang Yimou. A opinião emitida acerca do lendário actor japonês foi brilhantemente declamada numa entrevista ao “China Daily”, na estreia mundial de “O Caminho Solitário” em Lijiang, cidade que fica próxima da aldeia onde decorre grande parte do filme.

"Ópera chinesa"

“O Caminho Solitário” prima pelo realismo incutido nas premissas por onde navega. Podemos sentir perfeitamente o silencioso sofrimento de um pai que só se apercebe realmente do quanto o filho significa para ele, quando se apercebe que vai perde-lo para sempre. Ken Takakura é o actor ideal para transmitir o tal “choro invisível, apelativo e tocante”, tão elevado por Yimou. A sua aparência dura e fria dá mais significado às fragilidades evidenciadas quando as coisas não lhe correm tão bem na busca pela actuação do cantor “Li Jiamin”. Percebe-se perfeitamente o porquê de muitos afirmarem que o papel de “Takata” foi escrito com o pensamento em Ken Takakura. O toque final é dado pelas interpretações dos já mencionados nativos chineses, fazendo com que sintamos que não estão a representar. Verdadeiramente estão a ser eles próprios, ou seja, autênticos.

A ideia de redenção está presente, quando no meio dos altos e baixos da demanda de “Takata”, surge o relacionamento com o pequeno “Yang Yang”, o filho do cantor “Li Jiamin”, que este nunca conheceu. “Takata” contribui, na sua singela maneira, para uma aproximação de ambos. No fundo funciona como um elo, não completamente desinteressado, que tenta evitar um afastamento semelhante ao que assombra a sua vida. A apresentação das fotografias de “Yang Yang” ao pai, é um momento de superior comoção e de grande cinema.

Um dos aspectos mais fascinantes do filme passa pelo confronto cultural, no bom sentido. “Takata” é um japonês que se encontra imerso numa China rural, onde não entende a língua dos habitantes, possuindo um pseudo-tradutor que não ajuda muito neste particular. Provém de um país democrático, com uma vertente bastante ocidental, que se confronta com os aspectos particulares de uma república “musculada”, entre os quais a burocracia e o controle. Apesar das naturais dificuldades, a interpenetração cultural funciona muito bem, e a amizade e respeito nasce entre os representantes de ambos os povos, unidos por problemas que superiorizam qualquer língua ou postura social.

“O Caminho Solitário” é ideal para quem prefere a faceta de Yimou relacionada com os dramas existencialistas, na linha de outros filmes do realizador tais como “Nenhum a Menos” ou “O Caminho Para Casa” (para falar dos mais recentes). Para aqueles que preferem a fase de Yimou relacionada com a sua trilogia de “Wuxia” (“Herói”, O Segredo dos Punhais Voadores” e “A Maldição da Flor Dourada”), o filme que presentemente se analisa não dirá assim tanto. Para mim e para outros leitores deste blogue, que apreciamos ambas as vertentes do realizador, “O Caminho Solitário” constituirá mais um argumento para elegermos Yimou como um dos melhores realizadores de sempre.

Sob o signo da ternura e amor parental, Zhang Yimou presenteia-nos com mais um tratado verdadeiramente humanista em toda a acepção da palavra. Pelo exposto, apenas só tenho de recomendar vivamente “O Caminho Solitário”. Principalmente a pais e filhos que têm uma tendência para a incompreensão mútua…

"Takata digere a mágoa, observando um céu inesquecível"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinematoca, Blog Downz

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25







domingo, outubro 28, 2007

A Maldição da Flor Dourada/Curse of the Golden Flower/Man Cheng jin dai huang jin jia - 满城尽带黄金甲 (2006)

Origem: China

Duração: 109 minutos

Realizador: Zhang Yimou

Com: Gong Li, Chow Yun Fat, Jay Chou, Liu Ye, Ni Dahong, Chen Jin, Li Man, Qin Junjie

"A imperatriz Fénix"

Estória

O imperador “Ping” (Chow Yun Fat) é um homem poderoso que construiu um império vasto, dominado pela grandiosidade e pela opulência. “Ping” descobre que a sua esposa, a imperatriz “Fénix” mantém um “affair” com o príncipe “Wan” (Liu Ye), o herdeiro do trono (Nota: o príncipe “Wan” é fruto do primeiro casamento do imperador, logo não estamos a falar de incesto, pois a imperatriz é a sua madrasta), e instrui o médico da corte (Ni Dahong) para juntar um veneno de origem persa ao remédio que é ministrado a “Fénix”, tendo em vista a cura da sua anemia. O veneno é servido em poucas doses, tendo em vista provocar uma loucura crescente na imperatriz, que a levará inevitavelmente à morte. Por outra via, o príncipe “Wan” envereda por um relacionamento proibido com “Chen” (Li Man), a filha do médico da corte e a responsável por servir o “presente envenenado” à imperatriz.

"O imperador Ping"

O imperador mantém em secretismo a relação que manteve com a sua primeira esposa e mãe do príncipe “Wan”, dando a entender que a mesma faleceu e prestando-lhe homenagem todos os anos na cerimónia mais importante do reino e denominada “Festa dos Crisântemos”. No meio de toda esta turbulência familiar, encontra-se o príncipe “Jie” (Jay Chou) que tenta de alguma forma manter a harmonia. No entanto, quando descobre os planos de assassínio da sua mãe, e que estão a ser levados a cabo pelo seu pai, associa-se à conspiração da imperatriz “Fénix” que passa por uma tomada de poder a ser efectuada na noite da “Festa dos Crisântemos”.

Acontece que o imperador não está tão desprevenido quanto isso…

"O principe Jie, 2º na linha do trono, em apuros"

"Review"

Baseado na peça intitulada “Thunderstorm”, do dramaturgo Cao Yu, chega-nos o terceiro “Wuxia” de Zhang Yimou, para o qual o realizador dispôs de um orçamento na ordem dos 45 milhões de dólares, tornando-se à altura a mais cara produção asiática de sempre, superando “The Promise” de Kaige Chen. Desde já se afirma que mantém muitos dos aspectos já anteriormente evidenciados em “Herói” e “O Segredo dos Punhais Voadores”, mas que a nível de argumento denota um certo parentesco com “The Banquet – Inimigos do Império”, de Feng Xiaogang.

“A Maldição da Flor Dourada” é uma película sustentada a nível da trama, essencialmente em intrigas palacianas, tão do agrado das obras de William Shakespeare, e por aqui fica explicada a analogia que fizemos acima com “The Banquet”, filme que tinha por mote principal uma adaptação oriental da tragédia “Hamlet” do conhecido dramaturgo inglês. Existem as costumeiras traições, os escândalos, e inclusive até o choque provocado pelos incestos (não estou a referir-me à relação entre a imperatriz e o príncipe “Wan”, pelos motivos já explicados na sinopse). Tudo gira essencialmente em torno de um drama familiar que ocorre no seio de uma família poderosa, ou seja, a do próprio imperador. E nem os mimos próprios da corte, as facilidades inerentes ao estatuto da nobreza e a faustosidade do modo de vida dos intervenientes conseguem por cobro a estas situações. Zhang Yimou quando se referiu a esta obra, resumiu a mensagem que tentava passar com a frase: “Gold and Jade on the outside, rot and decay on the inside”. Julgo que sintetizou extremamente bem as incidências familiares que constituem o cerne da longa-metragem. Outra declaração emblemática que fará jus ao drama familiar que se avizinha, será a proferida pelo imperador “Ping” ao seu filho o príncipe “Jie”: “Nunca adquiras pela força aquilo que eu não te der”.

Quando nos deparámos com os cenários e o guarda-roupa de “A Maldição da Flor Dourada”, percebemos de imediato onde foi investida grande parte dos tais 45 milhões de dólares que constituíram o orçamento do filme. O palácio é de uma sumptuosidade a toda a prova, sendo considerado um dos maiores cenários jamais construídos. Na verdade, é o mesmo palácio que foi usado nas filmagens de “Herói”, e onde residia o imperador “Qin”, o tal que “queria unir tudo debaixo dos céus”. Simplesmente na aludida estrutura, foram acrescentados muitos mais ornamentos e cor, sendo o resultado final fantástico. Mais impressionante ainda, se tal é possível, é o guarda-roupa envergado pelas personagens. Não existem absolutamente palavras para o descrever, sendo melhor deixar as imagens falarem por si. Apesar de por vezes roçar o signo da extravagância, o detalhe e as cores usadas nos trajes usados tanto pela família real, como pelos restantes intervenientes, dos quais se destacam os soldados, é de “saltar os olhos da cara”! Só a título de curiosidade, os robes que são usados pelo casal imperial nos momentos finais do filme, são completamente bordados à mão, tendo demorado dois meses a concluir e exigido o trabalho de 40 pessoas!!!


"O ataque dos misteriosos assasinos"

As cenas de combate acompanham fielmente toda a aura do filme, enveredando pela espectacularidade, não tendo pejo em fazer uso do “CGI” e dos guindastes. Refira-se apenas que ao contrário do que aconteceu nos dois anteriores “Wuxia” de Zhang Yimou, aqui temos a oportunidade de ver uma batalha monumental entre dois exércitos. Digamos que o mais exuberante foi guardado para o fim, embora tenha colhido a minha preferência pessoal o assalto à residência do médico imperial, efectuada por uns assassinos muito “sui generis”, que através de cordas, deslizavam pelas montanhas até ao seu alvo principal.

Outro motivo de interesse no filme é a possibilidade de vermos actuar em conjunto dois dos maiores nomes de sempre do cinema asiático, ou seja, Gong Li e Chow Yun Fat, que representam o desavindo casal imperial. Gong Li que durante largos anos foi a musa de Yimou, tendo mesmo mantido um relacionamento amoroso longo com o realizador, já não trabalhava com aquele há 11 anos. Por sua vez, Chow Yun Fat volta à representação no cinema asiático, de onde nunca deveria ter saído, após um interlúdio de 5 anos. Como grandes actores que são, é óbvio que destacam-se dos demais. Mesmo assim, confesso que já os vi fazer melhor. É o problema das películas que apostam em excesso na espectacularidade do visual. Muitas vezes, a representação não chama tanto à atenção, e espera-se “que o resto faça o resto”. De qualquer forma, fiquei bem impressionado com o actor Liu Ye, no papel do príncipe “Wan”, o herdeiro do trono.

“A Maldição da Flor Dourada” constitui uma boa proposta, que se revela essencial para os apreciadores da cinematografia do consagrado Zhang Yimou. No entanto, será o elo mais fraco da brilhante trilogia de “Wuxia” do realizador, pelo facto de não possuir a profundidade e a genialidade de “Herói”, nem tão pouco a paixão de “O Segredo dos Punhais Voadores”. Admita-se que o facto de não inovar grande coisa, mas sim acrescentar algo ao que de bom anteriormente tinha sido feito, retirou impacto ao filme. Poderá isto ser uma evidência do cansaço de uma fórmula de sucesso? O futuro o dirá.

"A batalha final"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artísitco - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





terça-feira, outubro 23, 2007

O Caminho Para Casa/The Road Home/Wo de fu qin mu qin - 我的父亲母亲 (1999)
Origem: China
Duração: 86 minutos
Realizador: Zhang Yimou
Com: Zhang Ziyi, Sun Honglei, Zheng Hao, Zhao Yulian, Li Bin, Chang Guifa, Sing Wencheng, Liu Qi, Ji Bo, Zhang Zhongxi
"A jovem Zhao Di"

Estória

Um jovem empresário chamado “Luo Yusheng” (Sun Honglei), retorna à sua aldeia Sanhetun, pela pior das razões. O seu pai “Luo Changyu”, um professor primário amado por todos, faleceu durante uma tempestade de neve, quando viajava tendo em vista a angariação de fundos para a construção de uma nova escola. É necessário tratar do funeral, e cabe a “Yusheng”, o único filho, tratar da penosa tarefa.

“Zhao Di” (Zhao Yulian), a mãe de “Yusheng”, encontra-se devastada devido à morte do seu marido e único amor da sua vida. Em respeito por uma antiga tradição, “Di” insiste que o corpo do marido seja trazido a pé desde a morgue situada numa cidade vizinha, até à aldeia. A pedido dos habitantes da povoação, “Yusheng” tenta dissuadir a mãe dos seus propósitos, pois não existem homens suficientes para o pretendido, além dos existentes serem todos idosos.

"O professor Luo Changyu"

Antes de tomar a sua decisão final, “Yusheng” reflecte sobre a história de amor dos pais, que é bem conhecida por todos os que vivem em Sanhetun, e nesta parte somos levados até ao longínquo ano de 1958. A então jovem de 18 anos “Zhao Di” (Zhang Ziyi) assiste à chegada à aldeia do novo professor primário, o citadino “Luo Changyu” (Zheng Hao). A rapariga enamora-se de imediato, e é correspondida. Acontece que “Changyu” tem problemas com o regime comunista, e é levado de volta à cidade para prestar esclarecimentos acerca dos seus ideais políticos. “Di” fica todos os dias a mirar a estrada de acesso à aldeia, enfrentando condições meteorológicas adversas, esperando que o seu amor retorne. Até que um dia o professor retorna, e finalmente sucede-se o feliz enlace.

De volta ao presente, “Yusheng” percebe a importância da estrada ou do “caminho para casa”, e opera-se um volte face nas suas ideias para as exéquias pai falecido. Igualmente questiona-se acerca do sentido da sua vida.

"O início de uma bela estória de amor"

"Review"

Baseado no romance “Remembrance”, de Shi Bao, autor que igualmente foi o responsável pelo argumento do filme que ora se analisa, “O Caminho Para Casa” constituiu a estreia na sétima arte de Zhang Ziyi. No mundo do trabalho, como em tudo na vida, é preciso ter sempre alguma dose de fortuna, e a aclamada actriz chinesa foi favorecida neste aspecto em grandes dosagens! Teve a oportunidade como debutante de ser dirigida pelo mais emblemático realizador da denominada “5ª geração”, Zhang Yimou, e de participar num filme que tem tanto de belo, que até dói! Mas lá chegaremos.

A película foi alvo de inúmeros e merecidos prémios em vários certames internacionais de cinema, destacando-se o “Urso de Prata” – prémio do grande júri, no Festival Internacional de Cinema de Berlim (foi igualmente nomeado para o “Urso de Ouro”, o galardão máximo do festival, mas não venceu), e o “Audience Award”, na categoria de “Cinema do Mundo”, distinção obtida no conhecido “Festival de Cinema de Sundance”. Foi igualmente o responsável por uma “birra” de Yimou, relacionada com o conhecidíssimo Festival de Cannes, e que passou pelo facto de na edição de 1999 do certame, ter sido decidido exibir o filme do realizador chinês “Nenhum a Menos”, sendo recusada a mostragem de “O Caminho Para Casa”. Yimou respondeu retirando ambos os filmes da competição!

“O Caminho Para Casa” é um hino ao bom cinema! Esta é a primeira ideia a reter. Ao mesmo tempo possui uma estória simples, mas extremamente bem contada e significativa, que nos atinge em cheio no coração, enternece-nos e transporta o nosso ser para uma dimensão superior a nível de sensibilidade. Durante hora e meia abstraímo-nos de tudo e de todos, e a mais leve distracção que perturbe o embevecimento perante esta obra magnífica, parece uma heresia cósmica, merecedora de um apedrejamento na praça pública. Além do mais, “O Caminho Para Casa” possui outro factor inolvidável que é fazer com que mesmo aqueles que possuem um coração empedernido, possam acreditar no amor. Foi assim que me senti quando visualizei pela primeira vez “O Caminho Para Casa”, e esta sensação repete-se sempre que revejo esta longa-metragem. Poucos filmes têm o condão de provocar um efeito semelhante na minha pessoa, e este é sem dúvida um deles.

"O professor acompanha os alunos a casa"

Yimou prova, antes da trilogia de “wuxias” que o consagrou definitivamente a nível internacional, que é um realizador de uma divisão superior e de elite na constelação dos grandes nomes da sétima arte. A maneira como gere docemente factos que implicam uma grande tensão sentimental, é de arrepiar. Aqui não existem dramatismos forçados na exposição da estória, fluindo tudo natural e suavemente. O cenário é de sonho, a fotografia é soberba, a banda-sonora de extrema qualidade e fiel aos desígnios do filme. Que poderemos ansiar mais?

Como já cima foi referido, “O Caminho Para Casa” constituiu a película que deu a conhecer essa jovem, embora já flamejante estrela do cinema asiático, Zhang Ziyi. E à altura, não seria muito difícil de perceber que estaríamos perante um caso bastante sério no panorama cinematográfico oriental, como cerca de dois anos depois se viria a confirmar com a participação da actriz em “O Tigre e o Dragão”. Zhang Ziyi é fenomenal no papel de “Zhao Di”, ao ponto de fazer com que eu desejasse ser um professor na China rural do fim dos anos 50, e deixar a “treta” da papelada que costumo estar envolvido no meu emprego, e me "azucrina" o juízo! A força da sua interpretação e a pureza com que transmite os seus sentimentos, atropela-nos de sobremaneira, enternecendo-nos ao ponto máximo. Foram bastante raras as estreias de actores que denotassem esta qualidade, asseguro-vos.

Muitas vezes se afirma que as coisas simples são as mais belas da vida. “O Caminho Para Casa” é um filme simples, sem grandes pretensiosismos. Igualmente constitui uma das mais belas obras do cinema asiático que tive oportunidade (e neste caso a felicidade) de visionar. Se algum defeito de maior lhe pode ser assacado, é a sua curta duração (menos de hora e meia) e que assume maior relevância quando estamos deslumbrados com tamanha magnificência. No entanto, sempre se poderá dizer em abono da verdade, que nada fica por contar e que porventura o mérito da película será ainda maior por conseguir atingir o seu objectivo, quando outros filmes com o dobro do tempo falham redondamente as suas premissas. Muitas vezes navegando nas mesmas águas de “O Caminho Para Casa”. Isto faz lembrar quase aquela estória do "falam, falam e não dizem nada", ao invés daqueles que com poucas palavras transmitem de uma forma concisa e deveras explicativa a sua mensagem.

Um triunfo “simplesmente” imperdível!

"A última morada de um homem amado por todos"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Marcelo Ikeda, Cinedie Asia, Veja On Line, Terra Cinema, Contracampo, Cine-Ásia

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 10

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,88





sábado, janeiro 27, 2007

A Tríade de Xangai/Shanghai Triad/Yao a yao yao dao waipo qiao (1995)

Origem: China

Duração: 103 minutos

Realizador: Zhang Yimou

Com: Gong Li, Li Bao Tian, Wang Xiao Xiao, Ye Sun Chun, Li Xui Jian, Fu Biao, Chen Shu, Jiang Liu, Jiang Baoying, Qianquan Yang


"Bijou Jingbao, a cantora do clube e amante do chefe da tríade Tang"

Estória

No início dos anos 30, um "gansgter" chamado "Liu" trás o seu jovem sobrinho "Shuiseng" para Xangai, em ordem a pô-lo ao serviço da amante de "Tang", o chefe da mais poderosa tríade da cidade.

A amante de "Tang", chamada "Bijou Jingbao", canta no clube pertença do mafioso e possui um feitio irascível e presunçoso, o que dificulta imenso o trabalho de "Shuiseng", um pobre rapaz do campo que não está habituado à grande cidade e à opulência dos ricos de Xangai.

"O jovem Shuisheng vê o crime através dos seus olhos de adolescente"

"Bijou" tem um caso proibitivo com o nº 2 da tríade, "Mr. Song", que caso seja descoberto levará inevitavelmente à morte de ambos.

Entretanto, devido ao confronto da tríade de "Tang" e a rival liderada por "Fat Yu", "Tang" refugia-se numa pequena ilha nos arredores de Xangai, levando "Bijou" e "Shuiseng" consigo. O rapaz começa lentamente a aproximar-se da sua patroa, acabando por conquistar a sua confiança.

Na quietude da ilha, "Tang" começa a arquitectar o plano que o levará a eliminar todos os que se lhe opõem, inclusive os que lhe são mais próximos.

"Tang, o chefe da tríade"

"Review"

O mestre Zhang Yimou, como é do conhecimento geral, já era um realizador aclamado e tremendamente respeitado, antes da realização da sua trilogia de "wuxias" (Herói, Segredo dos Punhais Voadores e Curse of the Golden Flower). Pense-se em "Raise the Red Lantern" ou "Ju Dou".

A "Tríade de Xangai" possui alguns elementos característicos dos filmes de Yimou, como a excelente fotografia, mas apesar de ser um filme razoável, está uns furos abaixo de muitas das obras do realizador. Se calhar, a excelência a que o cineasta chinês nos habituou, faça com que os padrões de exigência subam acima do normal, porventura roçando a injustiça.

Comecemos pelo início.

À medida que ia visionando esta obra de Yimou, que confesso o meu desconhecimento anterior, fiquei com a sensação que estava perante uma mistura de dois filmes americanos cujo tema era a máfia italiana e que fizeram algum sucesso. Falo de "The Cotton Club", de Francis Ford Coppola, e de "Billy Bathgate", da autoria de Robert Benton.

A analogia que fiz com "The Cotton Club", deve-se em muito ao ambiente musical que cerceia "A Tríade de Xangai", pois grande parte do filme tem como pano de fundo o clube pertença do mafioso, com a amante que é a estrela cantora e dançarina.

Por outra via, relacionei a película de Yimou, com "Billy Bathgate", pois também neste filme o crime organizado é visto sobretudo pelos olhos de um adolescente.

"A tríade"

A musa de Yimou, Gong Li, presenteia-nos com mais uma boa actuação, embora não tão elevada como outras que temos visto. O resto do "cast" acompanha-a de uma forma bastante competente e credível, destacando-se aqui o jovem Wang Xiao Xiao, no papel de "Shuisheng".

Zhang Yimou pretende aqui demonstrar, através de uma adaptação livre da obra do romancista Li Xiao, uma vertente mais pessoal do crime organizado. Não se foca tanto na violência própria do meio, mas sim nos dramas pessoais de cada um dos intervenientes, em especial da cantora "Bijou" e do jovem campónio "Shuisheng".

Sendo inevitável nas obras de Yimou, o papel das mulheres é fortemente abordado no desenrolar das situações, e na própria envolvência da trama. Tudo leva a crer que "Bijou", à semelhança de "Shuisheng", era proveniente do meio rural chinês, e que desde muito cedo envolveu-se no submundo de Xangai, embarcando numa viagem sem retorno. No fim, vemos outra pobre rapariga de nove anos a desembocar pelo mesmo caminho, não sem antes apercebermo-nos que a mãe da criança possuía a sua história muito pessoal e igualmente trágica.

Quanto a mim, o que faz "A Tríade de Xangai" não ser uma obra com a magnificência de outras do realizador, é a lentidão com que as situações acontecem, por vezes sem razão nenhuma para tal. O filme não é difícil de entender, embora faça questão de passar uma mensagem profunda e significativa. Outro aspecto que fez com que eu não gostasse tanto desta longa-metragem como desejaria, passa pela quase ausência da acção e da violência típica do meio. Obviamente que não queria ver um filme do Steven Seagal, ou de outros semelhantes... Estou a falar da acção típica de obras como a trilogia do "Padrinho", por exemplo. O defeito pode ser meu, mas não concebo filmes que versem sobre o crime organizado, sem os arquétipos próprios e que lhes ficam tão bem.

Uma proposta interessante, embora longe de ser uma obra-prima para mais tarde recordar.

"O refúgio da ilha"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M" - 7

Classificação final: 7,38







terça-feira, abril 25, 2006

O Segredo dos Punhais Voadores/House of Flying Daggers/Shi mian mai fu (2004)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 114 minutos
Realizador: Zhang Yimou
Com: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Zhang Ziyi, Dandan Song


"A fantástica dança dos tambores"
Estória
Os últimos anos da dinastia Tang são marcados pela crescente corrupção no governo da China, e a população anda descontente. Várias organizações rebeldes começam a emergir com o intuito de derrubar os governantes corruptos. A mais conhecida e temida dá pelo nome do "Clã dos Punhais Voadores", chamada assim devido ao peculiar punhal que usam como arma.

"O Clã dos Punhais Voadores"
Os agentes estaduais "Jin" e "Lao" conseguem matar o líder da organização secreta, e agora pretendem assassinar ou prender os restantes membros, mas a tarefa resulta árdua. Após investigações, a pista para a resolução do desiderato dos polícias vai dar a "Mei", uma rapariga cega que trabalha num bordel local.
Após algumas peripécias, "Mei" é presa e "Lao" e "Jin" armam um embuste, que passa por este último resgatar a jovem da cadeia, com o intuito dela conduzi-lo ao covil dos "Punhais Voadores". "Jin" assim o faz, mas à medida que a fuga se prolonga, não consegue evitar começar a sentir-se atraído por "Mei".
A partir daqui o enredo transforma-se numa estória de amor, devoção e traição.

"A beleza estonteante de Mei"

"Review"

"O Segredo dos Punhais Voadores" é a segunda incursão de Zhang Yimou no género "Wuxia Pien", depois da aclamação recebida em "Herói". O resultado é francamente bom, embora esteja uns furos abaixo do primeiro trabalho.

A fotografia permanece um verdadeiro espanto, assim como o guarda-roupa, Já é uma imagem de marca destes filmes em geral, e dos de Yimou em particular.

Zhang Ziyi continua a deslumbrar e a tornar-se cada vez mais numa actriz consagrada, apesar da sua relativa juventude. Podemos apreciar agora o seu trabalho em "Memórias de uma Gueixa", filme com uma produção verdadeiramente internacional. A cena da dança dos tambores, protagonizada por esta actriz, é de uma beleza indescritível, de suspirar e querer mais, e ficará com certeza durante bastante tempo, na memória de todos os que tiveram a oportunidade, ou melhor, a felicidade de a vislumbrar.

Takeshi Kaneshiro efectua uma representação muito credível, e a sua passagem de agente do governo numa missão que não admite falhas, para o amante que é ao mesmo tempo um protector é honesta e bem intencionada.

O ícone de Hong Kong, Andy Lau, dá corpo a uma personagem envolta numa aura obscura e sinistra, que posteriormente revela as suas fraquezas emocionais, num "acting" muito bem conseguido.

"Mei e Jin"

Como "Wuxia" que é, torna-se incontornável dissertar acerca das cenas de luta presentes em "O Segredo dos Punhais Voadores". Neste particular, como em outros, este filme é inferior a "Herói". No entanto há que reconhecer que a sequência da floresta de bambú, embora não me tenha convencido na primeira impressão, é das melhores cenas de acção jamais filmadas em películas deste género.

O grande problema do filme é sem dúvida o seu final. Embora deveras emocionante, com alguns exageros admita-se, é demasiado focado nas 3 personagens principais e deixa-nos a certa altura completamente "à nora" quanto à organização da qual a película retirou o seu nome. Fiquei bastante desgostoso com a cena em que se observa os soldados a penetrar na floresta que abriga o covil do clã e...

Quem visiona o "Segredo dos Punhais Voadores" tem que se preparar para o seguinte: o clã embora seja uma parte importante do enredo, acaba por não ser mais que um ilustre acessório a uma maravilhosa estória de amor. Quanto a mim, e com todo o respeito, Yimou falhou neste aspecto e perdeu a oportunidade de realizar um filme ao nível de "O Tigre e o Dragão" e "Herói". Em virtude disto "faltou-lhe um bocadinho assim".

É minha opinião que aqueles que não costumam ver cinema oriental, irão gostar mais de "O Segredo dos Punhais Voadores" do que "Herói". Esta afirmação foi por mim comprovada nas salas de cinema do "Madeira Shopping", um grande centro comercial que existe aqui no Funchal. Desloquei-me a esta estrutura comercial para ver tanto "Herói", como "O Segredo dos Punhais Voadores", obviamente em alturas distintas, atendendo a que os filmes não são contemporãneos. Constatei o seguinte:

Em "Herói" houve pessoas que adoraram o filme, outras entraram numa onda completamente básica que passava por criticar e rir à gargalhada, impedindo com a sua má educação que o restante público pudesse desfrutar e apreciar a película como deve ser. As mais elementares regras da convivência social ensinam que "quem não gosta, não estraga!". E logo "Herói" que é um filme que requer uma certa atenção, por forma a percebermos a sua mensagem. Continuo a dizer que há gente que devia de ser proibida de entrar em certos lugares públicos, incluindo as salas de cinema...

Já em "O Segredo dos Punhais Voadores", a opinião foi mais consensual em sentido positivo. Lembro-me, com um certo agrado, que até lá estavam os pais de um grande amigo meu, sendo do meu conhecimento pessoal que o gosto cinematográfico daquelas pessoas passa mais por filmes tipo "Casablanca" e afins, e no final da exibição estavam francamente satisfeitos. Inclusive, no meu local de trabalho, conhecedores do meu gosto cinematográfico, disseram-me que simplesmente tinham adorado esta longa-metragem.

Quanto a mim, e enquanto apreciador do género, o "Segredo dos Punhais Voadores" está no meu top 10 no que respeita a cinema asiático, mas mantenho a minha convicção que se encontra uns furos abaixo tanto de "Herói" como do "Tigre e do Dragão". No entanto sou forçado a admitir que o enredo é mais atractivo para o público ocidental.

A ver para sentir a sua grande beleza! Tem um cantinho muito especial na minha "DVDteca!

"O violento combate entre Lao e Jin"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link
Outras críticas em português: Cinedie Asia, Cinerama, Gonn 1000, Cineasia

Avaliação:


Entretenimento - 9
Interpretação - 8
Argumento - 7
Guarda-roupa e adereços - 9
Banda-sonora - 9
Emotividade - 10
Mérito artístico - 9
Gosto pessoal do "M.A.M." - 9
Classificação final: 8,75

Herói/Hero/Ying Xiong (2002)
Origem: China
Duração: 94 minutos
Realizador: Zhang Yimou
Com: Jet Li, Tony Leung Chiu Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Daoming Chen, Liu Zhong Yuan, Zheng Tia Yong

"Espada Partida e Neve Esvoaçante, um amor verdadeiro, mas por vezes difícil"

Na China existem sete reinos independentes entre si, mas um deles, Qin, tornou-se mais forte e ameaça anexar os restantes pela força. A única coisa que parece interpor-se nos planos do imperador Qin, são 3 poderosos assassinos do reino rival de Zhao, chamados "Espada Partida" (Tony Leung Chiu Wai), "Neve Esvoaçante" (Maggie Cheung) e "Céu" (Donnie Yen). O imperador Qin encontra-se desesperado e oferece recompensas fabulosas, mas parece que ninguém consegue matar os guerreiros.

"Sem Nome e Céu, em pose espectacular!"

Até que um dia, no palácio Qin aparece "Sem Nome" (Jet Li), um desconhecido que é guarda de uma prefeitura menor, afirmando que lutou e matou os 3 assassinos, reclamando assim a recompensa pelo feito.

O imperador alegra-se, mas faz questão de saber os pormenores da aventura de "Sem Nome". Num diálogo ilustrado com "flashbacks", aos poucos chega-se à conclusão que nem tudo é o que parece, e são trazidas à luz dodia revelações surpreendentes...

"Lua..."

"Review"

O enredo de "Herói" é dividido em várias perspectivas sobre o mesmo acontecimento, em sentido progressivo, com o intuito de nos aproximar crescentemente da realidade, através de um diálogo cheio de substância e com influências da "arte da guerra" de Sun Tzu, mantido entre o imperador Qin e "Sem Nome".

É uma estória, constituída por várias estórias.

Descobrimos com suavidade e elegância a relação de "Espada Partida" e "Neve Esvoaçante", um amor incompreendido com uma certa "nuance", pois são eles próprios que não conseguem adaptar-se às ambições e ensejos um do outro. "Lua", fiel discípula de "Espada Partida", por sua vez está fadada ao amor não correspondido do seu mestre. "Céu", representado por Donnie Yen, é um homem solitário, que embora tenha uma pequena participação no filme em termos de minutos, oferece-nos cenas memoráveis, na reeedição do duelo com Jet Li, já anteriormente travado em "Era Uma Vez na China II".

Quem visiona "Herói" fica claramente com a nítida sensação que está perante um belo quadro, em que o autor vai pintando cada cena à medida das suas múltiplas sensações, com aguarelas vivas, mas que representam sobretudo uma alegria perene ou uma tristeza infindável. Consegue transmitir através de cores vivas sentimentos cinzentos e negros. É esta a grande beleza de "Herói", juntar o que de melhor têm filmes como "Rashomôn" ou "Ashes of Time".

Isto para dizer que "Herói tem simplesmente a mais bela fotografia que tive oportunidade de contemplar com estes olhos que um dia "a terra há de comer". Assistir a este filme é como observar um sonho cheio de imaginação e de cores, temperado com laivos de grande genialidade!

"O imperador Qin, que deseja unir tudo debaixo dos céus"

As cenas de luta são impressionantes, mas poéticas ao mesmo tempo. Muitas vezes ficamos coma sensação que mais do que uma batalha pela vida e destruição do oponente, estamos a vislumbrar uma bela dança, extremamente cuidada nos seus pormenores. Mas apesar de tudo transparece sempre aquela fúria de matar e sobreviver, sem falsos pretenciosismos, com extrema atenção no detalhe. É uma reunião de opostos, que desemboca numa união fabulosa e bem conseguida. A genialidade é assim...

O "cast" é deveras bom, e nem menos era exigível para uma obra com esta magnitude. Quem está familiarizado com o cinema oriental, sabe muito bem que estamos perante um elenco constituído por alguns dos actores mais consagrados daquelas paragens. Provavelmente todos identificarão à partida Jet Li, e em seguida Zhang Ziyi, mas asseguro-vos que em termos de carreira, Maggie Cheung e Tony Leung Chiu Wai, não ficam nada atrás daqueles actores. Para os mais desprevenidos, indico apenas um filme: "Disponível para amar (In the Mood for Love)".

Faço aqui questão de dar uma palavra de apreço a Jet Li. Não duvidava que a este actor faltasse capacidades de representação, mas convenhamos que quem estava habituado aos filmes anteriores protagonizados por Li, em especial os efectuados em "Hollywood", ficava com a sensação que a única coisa que se visava era demonstrar a grande habilidade do actor no domínio das artes marciais, sem representação qusase nenhuma digna de registo. Em "Herói", Jet Li extremamente bem orientado por Yimou, demonstra finalmente que sabe dar verdadeiramente vida a uma personagem fascinante. "Sem Nome" fala pouco é certo, mas está longe de ser fácil de interpretar.

O ressurgimento em grande do género "Wuxia Pien", efectuado pelo "O Tigre e o Dragão", com merecido impacto internacional, torna incontornável as comparações de "Herói", com aquele filme. Mas verdadeiramente são películas muito diferentes e com objectivos distintos. Mesmo assim, far-se-à aqui um breve exercício, no que é susceptível de ser confrontado.

Primeira ideia a reter: venha o diabo e escolha!

No entanto, e fazendo uma análise o mais fria possível, direi que "O Tigre e o Dragão" assume logo vantagem pela maior notoriedade internacional, atestada pelos 4 óscares que ganhou, para além de outros 70 prémios, um pouco por todo o mundo. O facto de ter aparecido primeiro, também ajudou imenso, pois o impacto foi muito maior. Beneficiou igualmente de uma melhor difusão a nível internacional, ao contrário de "Herói", que apesar de datar de 2002, apenas chegou em 2004 aos E.U.A., pela mão do admirador de cinema oriental, Quentin Tarantino. Igualmente a estória de "O Tigre e o Dragão" parecerá à primeira vista mais atraente para o espectador, pela simples razão de ser mais fácil de seguir, atendendo a que é mais linear e menos complexa. O estigma neste particular em relação a "Herói" é facilmente ultrapassado com um segundo visionamento. Quanto ao dramatismo envolvente, penso que "O Tigre e o Dragão" é mais bem conseguido, sendo francamente difícil de superar. No entanto, reconheça-se que "Herói" não fica muito atrás.

Ambos os filmes têm níveis praticamente idênticos no que toca à banda-sonora, ao "cast", nas cenas de acção e no argumento.

O "Herói" é um vencedor claro no guarda-roupa e na fotografia, embora a equipa de "O Tigre e o Dragão", também tenha estado bem neste particular.

Mais do que um realizador, Zhang Yimou demonstra ser um verdadeiro poeta cinematográfico. A confirmação viria igualmente com o muito bom filme "O Segredo dos Punhais Voadores".

Uma pérola da sétima arte!!!

"Neve Esvoaçante a cavalgar para o início do seu destino final"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:


Avaliação:
Entretenimento - 8
Interpretação - 9
Argumento - 9
Guarda-roupa e adereços - 10
Banda-sonora - 10
Emotividade - 10
Mérito artístico - 10
Gosto pessoal do "M.A.M." - 10
Classificação final: 9,50