"Meimei" De volta ao tempo presente, “Mardar”, após cumprir uma pena de prisão, retorna a Xangai, tendo em vista procurar o seu amor de sempre. Na sua busca, depara-se com “Meimei” e convence-se que esta é “Moudan” devido à grande semelhança física entre as duas.

"Uma sereia dos tempos modernos"
"Review"
“Suzhou River” (esqueçamos agora o título que mereceu em Portugal) foi um filme chinês que marcou alguns pontos nos certames de cinema internacional, tendo inclusive merecido uma distinção no nosso bem conhecido “Fantasporto”, edição de 2002. A crítica especializada, quando se refere a “Suzhou River”, costuma apontar esta película como tributária e influenciada pelo romantismo típico das obras de Wong Kar Wai, apontando-se igualmente algumas características dos filmes de Hitchcock. O amor obsessivo por uma mulher que não poderá ser bem quem se pensa, é relacionado com “Vertigo”, assim como a personagem do realizador tende a ser reconduzida a “Rear Window”. Não sendo eu um particular fã do mestre do suspense, tenderei por defeito a situar “Suzhou River” numa onda que detém algumas semelhanças com o denominado “amor urbano”, muito presente nas longas-metragens de Kar Wai e que, à semelhança de muitos, aprecio imenso. Certo é que Lou Ye enfrentou alguns dissabores com a difusão da obra que constitui objecto do presente texto, tendo a mesma sido banida das salas de cinema chinesas, sanção que perdura até aos presentes dias, segundo o que me foi dado a conhecer. O próprio realizador, à altura, seria proibido de realizar filmes durante dois anos. Mais recentemente, a feitura de “Summer Palace”, em 2006, valeu-lhe nova proibição em dirigir películas por mais 5 anos. Contudo, numa atitude corajosa que se saúda face a regimes “musculados”, Lou Ye desafiou a proibição ao dar vida a “Spring Fever”, uma longa-metragem já deste ano.
Não é segredo para ninguém que no início do nosso século, os épicos de artes marciais, ou meramente históricos, é que foram os pontas-de-lança da cinematografia asiática, no que ao ocidente diz respeito. Após a explosão de “Crouching Tiger, Hidden Dragon”, começaram a surgir outros trabalhos emblemáticos do género, a maior parte a cargo de realizadores da denominada quinta geração do cinema chinês, dos quais Zhang Yimou e Kaige Chen talvez sejam os nomes que dirão mais ao comum dos espectadores. Enquanto Yimou brindava-nos com a sua inesquecível trilogia de “wuxia” (sendo “Hero”, o expoente maior), Chen enveredava pela orientação mais terra-a-terra de “The Emperor and the Assassin”, antes de naufragar em “The Promisse”. Em total dissonância com esta orientação, a denominada “sexta geração” de realizadores chineses, numa perspectiva anti-sistema, apostou em filmes de baixo orçamento, com um grande pendor urbano, neo-realista e mesmo existencialista. Os temas que tratam são bastante actuais, e focam-se sobretudo na entrada lenta da China no mercado capitalista, e nos aspectos, tanto nocivos como positivos que grassam pela população, não amiúde entre os jovens. O realizador Lou Ye é um filho dessa geração, ao lado de outros nomes como Jia Zhangke ou Wang Xiaoshuai, por exemplo. Confesso que não se trata de uma perspectiva que colha muito a minha predilecção, do ponto de vista cinematográfico. Mas é indubitável que granjeou seguidores, e que denota méritos inquestionáveis. “Suzhou River” é um honrado produto desta corrente.
“- Se algum dia eu te deixar, irás à minha procura?”, pergunta “Meimei”, ao narrador da história. Está dado o mote para uma estranha e inebriante história de amor e de diversas vidas interligadas, onde pano de fundo é uma contemporânea Xangai, a maior cidade da China e uma das mais vastas metrópoles do mundo. No entanto, não nos é demonstrado a urbe pejada de arranha-céus e luzes de néon. Somos, isso sim, confrontados com uma povoação monstruosa e decadente, onde a paixão obsessiva e um sentimento inexorável de perda ditam a lei. A estrutura narrativa passa essencialmente pelos sentidos do realizador anónimo, dos quais ouvimos apenas a sua voz, quer a contar a sua história e a de terceiros, assim como a dialogar com os restantes intervenientes da história, principalmente “Meimei” e “Mardar”. Num estilo que por vezes se aproxima do registo documentário, o referido protagonista marca igualmente a sua intervenção com gestos, e através da sua própria vivência dos acontecimentos. Esta maneira de apresentar a trama, tem uma grande vantagem no sentido de criar uma intimidade próxima com o espectador, fazendo com que o mesmo se imbua mais nas experiência do narrador. Atrever-me-ia a dizer que é quase um estilo de “role playing game”, em que a única diferença passará por não estar na nossa disponibilidade manietar as opções das figuras do filme. Talvez, o termo “voyeurismo” assuma aqui alguma acuidade, e não seja tão despiciendo quanto isso. A partir do momento que começamos a visionar “Suzhou River”, somos remetidos a maior parte das vezes à condição de “voyeur”.
A actriz Zhou Xun dá corpo a uma interpretação de excelente nível, tanto no papel de “Meimei”, como no de “Moudan”. Ela consegue apanhar brilhantemente as características de cada uma das mulheres, extravasando as características de ambas, que se afiguram bastante diversas. Pelo menos, numa primeira aproximação. Zhou Xun efectivamente aqui demonstra ser uma “sereia” (expressão com um sentido muito próprio no filme) dos tempos modernos, demonstrando que possui valor para ambicionar um dia a ser uma verdadeira diva do cinema oriental. Alguns trabalhos posteriores da actriz viriam a confirmar esta premissa. Outros, nem por isso. Jia Hongshen igualmente marca pontos na película, representando o papel de um homem amargurado e de certa forma fadado a um destino trágico. O seu recorte melancólico ajusta-se às mil maravilhas no desafio que aqui lhe foi proposto. O próprio tom do realizador na narrativa é muito bem encaixado, quase poético e que adensa imenso a profundidade emocional que é requerida.
“Suzhou River” não é um filme de fácil apreensão, não estando esta premissa relacionada com um enredo de difícil degustar para o espectador. A sua maior dificuldade advirá do facto de, embora ser uma película que apela aos sentimentos de quem a visiona, necessitar de ser interiorizada de uma forma bastante particular. À semelhança de vários pontos do nosso planeta, em redor do poluído rio “Suzhou” subsistem edifícios degradados, miséria e várias histórias anónimas de crime, amor, traição ou simples sobrevivência. Esta é, pelos vistos, apenas mais uma. Mas indubitavelmente de grande significado e narrada com uma agonizante pendor documental.
Uma boa proposta de um malfadado elemento da sexta geração dos realizadores chineses.
The Internet Movie Database (IMDb) link
Outras críticas em português:
Avaliação:
Entretenimento - 7
Interpretação - 9
Argumento - 8
Banda-sonora - 8
Guarda-roupa e adereços - 7
Emotividade - 9
Mérito artístico - 8
Gosto pessoal do "M.A.M." - 7
Classificação final: 7,88






















