Natural City - 내츄럴 시티 (2003)Origem: Coreia do Sul
Duração: 112 minutos
Realizador: Min Byung-chun
Com: Yu Ji-tae, Lee Jae-un, Rin Seo, Jung Doo-hong, Chang Yun, Jeong Eun-pyo, Ko Ju-hye, Kim Eul-dong
"R"
Sinopse
O ano é 2080 e o mundo sobrevive em função de uma tecnologia avançada após uma guerra brutal. “R” (Yu Ji-tae) pertence a um corpo especial da polícia militar, cuja função é perseguir e eliminar ciborgues que traiam o seu propósito de existência (servir conforme foram programados) e se virem contra os humanos. O comportamento pouco ético do agente não é bem visto pelos seus colegas, em especial o seu amigo e chefe “Noma” (Chang Yun), o que faz com que ambos entrem em conflito por diversas vezes.
A razão para “R” comportar-se muitas vezes de modo reprovável e se meter em negócios ilícitos, muito se deve à paixão que este nutre por “Ria” (Rin Seo), uma ciborgue cuja função é dançar num bar. O prazo de validade de “Ria” está a expirar, e “R” recorre a todos os meios e mais alguns para descobrir uma forma de prolongar a existência do seu amor. A solução parece estar em “Cyon” (Lee Jae-un), uma rapariga que vive de tirar sortes e da prostituição, pela razão de o seu ADN ser o necessário para salvar “Ria”.
"Ria contempla uma paisagem de sonho"
“Cyon”, contudo, parece igualmente interessar a um poderoso ciborgue renegado chamado “Cyper” (Jung Doo-hong), o que provocará inevitavelmente um conflito de interesses com “R”. No meio de uma guerra aberta entre humanos e ciborgues, surgirão respostas surpreendentes para a vida dos contendores, e que fará com que o destino dos mesmos seja decidido definitivamente.
"O ciborgue Cyper"
"Review"
Vencedor do prémio para melhores efeitos especiais no “Fantasporto – edição de 2005”, “Natural City” constitui um filme de ficção científica sul-coreano, que descaradamente (não tomem desde já o termo como depreciativo) vai buscar imensa inspiração a essa fabulosa obra de Ridley Scott denominada “Blade Runner”. Trata-se de uma película que no tocante aos critérios estéticos, não deixa os seus créditos por mãos alheias, proporcionando-nos um espectáculo visualmente impressionante, em que os elementos futurísticos e mais obscuros ditam a lei. E essencialmente, esta é a razão principal para ver esta longa-metragem. O remanescente gira tudo à volta deste aspecto em particular. O uso e abuso do “CGI” (imagens geradas por computador) é extremamente competente, fazendo com que os cenários sejam, à falta de melhor expressão, completamente de sonho. O pendor pós-apocalíptico encontra-se bastante presente, corporizado no excessivo metal das estruturas e nas ruínas urbanísticas e pessoais . Por sua vez, a escuridão só encontra par no tempo constantemente chuvoso, que nos faz lembrar mais uma vez, e de sobremaneira, “Blade Runner”. Tudo por uns “míseros” 6 milhões de dólares, o que não é nada se pensarmos por exemplo que o orçamento para “The Matrix”, um filme eivado de elementos semelhantes, rondou os 63 milhões naquela moeda.
Por falar nesta última película, é claro que as cenas de acção de “Natural City” foram beber alguma inspiração na obra dos irmãos Wachowsky, com o habitual uso dos “slow motion” e da imagem acelerada ao sabor das conveniências do momento. A coreografia das lutas ficou a cargo do actor Jung Doo-hung, um reconhecido especialista de artes marciais (interpreta por exemplo um mestre de combate em “Fighter in the Wind”) e que dá vida nesta obra ao vilão cibernético “Cyper”. É mais um caso do triunfo do estilo sobre a técnica, em que como a expressão indica, o que interessa é conseguir espectacularidade visual. Ao contrário do que muitos defendem, existem aspectos bastante positivos nesta orientação, embora a veracidade fique a perder. O clímax chega com a companheira ciborgue de “Cyper”, a destilar uma quantidade de pancadaria à moda antiga nos polícias militares. Caramba, não há nada mais sexy que uma mulher bonita, armada em má e vestida de cabedal! Bem...talvez acrescentando uma katana ou qualquer espécie de sabre, sempre se possa mudar um pouco de opinião...
Um aspecto extremamente importante é o romance entre “R” e “Ria”, que promete um pseudo- triângulo amoroso com a humana “Cyon”. Aqui reside um dos itens mais interessantes do filme, e que para além do aspecto sentimental, faz reflectir acerca do futuro da humanidade e da relação desta com a máquina. “R” é um homem que está disposto a pisar a linha e a desafiar o instituído para salvar um ser cibernético que ama mais do que qualquer humana. Essa criação tecnológica, com prazo de validade à semelhança de qualquer produto que encontramos num super-mercado, é motivo para que um ser humano desafie tudo o que possa de forma a preservar a “boneca” (termo cínico que os colegas de “R” usam para designar “Ria”). É caso para reflectirmos até que ponto chegaremos com a evolução tecnológica, em que precisamos de nos desumanizar para voltarmos a ser criaturas sentimentais outra vez.
"Cyon perante a metrópole futurística"
Quanto ao desempenho dos actores, nada nos é oferecido que seja extasiante. Numa perspectiva de pura especulação, acredito que o realizador Min Byung-chun queira ter transportado a ideia para os intérpretes que tinham de ser o mais circunspectos possível, de forma a acompanhar a aura geral da longa-metragem. O resultado foi uma aparente falta de empatia com o telespectador. No entanto e ao contrário da opinião geral, é minha franca convicção que Yu Ji-tae desempenha um “R” de forma competente e sincera, invocando bem um teor depressivo muito próprio (esta faceta seria potenciada a 200% em “Oldboy”, num genial desempenho). Estamos perante um clássico anti-herói, inconsistente e cujo fito não se reconduz propriamente ao que é correcto de se fazer. “Cyon”, corporizada pela actriz Lee Jae-un, acaba de certa forma por ser a personagem central da película e que visa nos transmitir algum tipo de compreensão e esperança. A rapariga esforça-se, mas aqui precisávamos com todo o respeito de uma âncora como Kang Hye-jeong (a minha preferida para este género de papel em particular), ou então a super Jeon Do-yeon. Para um registo mais ameno, e eventualmente gastando mais uns “won” (a moeda da Coreia do Sul), sempre teríamos a estonteante Jun Ji-hyun. O resto do elenco queda-se por uma mediania que não embaraça, ressalvando o ar sempre marcial e “fixe” de Jung Doo-hung que levanta um pouco os nossos sobrolhos no que toca à acção. Peca pela falta de minutos!
Os amantes de “Blade Runner” e afins (não demasiado exigentes), com certeza que não ficarão indiferentes a “Natural City”, atendendo a que a atmosfera futurística e do “cyberpunk” está toda lá, temperada com os elementos dramáticos sul-coreanos do costume e momentos de acção por vezes bem conseguidos. Igualmente é preciso reconhecer que um dos grandes méritos de “Natural City” é pugnar por uma convergência dos cinéfilos mais existencialistas e pensadores no que toca ao futuro da humanidade, com aqueles que gostam mais de acção. A verdade é que a película acaba por perder um pouco a identidade, sendo algo ingénua e desta forma não conseguindo obter plenamente nenhum dos seus propósitos. Contudo, sempre se dirá que é um “blockbuster” de regalar a vista (“os olhos também comem”), detendo alguns momentos extremamente interessantes e até emblemáticos! Pense-se em “Cyon” a criar o seu jardim, sob os auspícios de uma bela estátua em homenagem a uma deusa desconhecida. Julgo que acima de tudo, a grande frustração que remanesce quando chegamos ao epílogo de “Natural City” passará pelo facto de uma ideia boa e atractiva (embora longe de original) ficar a meio caminho em alguns factores que lhe são dados a explorar.
Não custa nada conferir esta tentativa de abordagem futurística sul-coreana/“bladerunneriana” da relação homem e máquina, desde que não se aquilate grandes expectativas! O resultado redunda acima de tudo num “tour de force” visual e em meia-dúzia de aspectos que não são de olvidar!
"A polícia militar passa um mau bocado"
Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link
Outras críticas em português:
- Cine-Asia
- Cinema ao Sol Nascente
- Filmes Esquecidos e Outras Histórias...
- FanatiCine
- Mad Blog
- Zeta Filmes
Avaliação:
Entretenimento - 8
Interpretação - 7
Argumento - 7
Banda-sonora - 7
Guarda-roupa e adereços - 8
Emotividade - 8
Mérito artístico - 9
Gosto pessoal do "M.A.M." - 7
Classificação final: 7,63