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terça-feira, novembro 06, 2007


As Filhas do Botânico/Les Filles du Botaniste/The Chinese Botanist's Daughters/Zhiwuyuan - 植物园 (2006)

Origem: França/Canadá

Duração: 94 minutos

Realizador: Dai Sijie

Com: : Mylène Jampanoi, Li Xiaoran, Fu Ling Dong, Wang Wei Chang, Nu Quynh Nguyen, Van Quang Nguyen, Linh Thj Bich Thu, Phuong Thanh, Tuo Jilin

Introdução

O filme que agora se vai analisar está inserido na rubrica deste espaço denominada “Cunho da Ásia”. Apesar de ser uma produção franco-canadiana, toda a película é falada em mandarim.

"An"

Estória

“Li Ming” (Mylène Jampanoi) perdeu os pais em criança, devido ao grande terramoto de Tangshan. Tendo crescido num orfanato, certo dia surge uma oportunidade para ir estudar durante seis semanas as propriedades medicinais das plantas, junto do “Senhor Chen” (Fu Ling Dong), um renomado botânico da cidade de Kunlin.

Chegada ao seu destino, “Li Ming” descobre que o “Senhor Chen” vive numa pequena ilha transformada num luxuriante jardim botânico, nos arredores da cidade. Igualmente se apercebe que se trata de uma pessoa muito introspectiva e que está habituado a ser obedecido. “An" (Li Xiaoran), a filha do “Senhor Chen”, fica feliz pela chegada de “Li Ming”, devido ao facto de ter agora alguém com quem desabafar e ajude a suportar melhor a vida solitária na ilha.

"Li Ming"

Rapidamente a amizade entre “Li Ming” e “An" evolui para algo mais, e nasce uma relação proibida entre as duas mulheres. Com as seis semanas a se expirarem, as amantes arranjam um artifício para prolongar a estadia de “Li Ming”, e que passa por esta contrair matrimónio com “Tan” (Wang Wei Chang), o irmão de “An". “Tan”, um soldado do Exército da Libertação do Povo, após o casamento é obrigado a ir para o Tibete, deixando rédea livre para que o romance entre a irmã e a agora esposa possa continuar imperturbado.

Tudo corre ao sabor das expectativas de “Li Ming” e de “An", até ao fatídico dia em que o “Senhor Chen” apanha em flagrante as duas raparigas nos seus actos proibidos…

"Alegria sob um fundo de sonho"

"Review"

“As Filhas do Botânico” foi um filme que desde o início despertou bastante a minha curiosidade, mas por razões alheias ou não à minha vontade, só tive oportunidade de visioná-lo há poucos dias. Foi a sessão que passou na “Casa das Mudas” na Calheta, uma vila aqui da Madeira, em que não pude ir por razões pessoais. Foram as vezes em que estive na secção de cinema asiático na “Fnac”, e encontrava sempre algum dvd que me atraía mais a atenção e o disco das “Filhas do Botânico” era relegado para segundo plano. Depois de conferir este filme, martirizei-me de sobremaneira e pus-me a pensar se arrumasse melhor o meu tempo, se calhar dava para ter ido vê-lo ao cinema, ou se o meu sexto sentido estivesse a funcionar como deveria de ser, já constaria da minha “dvdteca” há mais tempo. Porquê que digo isto? Simplesmente porque “As Filhas do Botânico” é uma excepcional obra de cinema. Já vos explico melhor o meu ponto de vista.

“La premiere des libertes est celle d’aimer “, “ The first of liberties is the one to love “, “A primeira das liberdades pessoais é escolher quem amamos (…aquele que amamos”)”. Esta é a “tagline” que consta na apresentação da longa-metragem que ora se analisa, e que muito diz sobre o filme. Constitui o início de uma viagem íntima pelos meandros da China pós-revolução cultural consubstanciada num romance proibido, constituindo o mesmo uma das mais belas estórias de amor que tive a oportunidade de visionar.

A primeira coisa que todos nós temos de fazer para apreciar verdadeiramente “As Filhas do Botânico” é pôr de parte os nossos preconceitos, o que constitui bastantes vezes um desafio pessoal. Os tais preconceitos, que não tenho vergonha em afirmar, vivem um pouco em mim. Tento-os combater, como qualquer pessoa, mas há sempre algo que reside em nós e que nos leva a lançar a costumeira “piadinha” maldosa trocada entre amigos do género “Ah, aquele (a) não engana! Joga no outro clube”. Pois é meus amigos, não estamos perante o romance convencional entre um homem e uma mulher, mas como já devem certamente ter-se apercebido, é-nos apresentada uma estória de amor lésbica. Mas a mesma é tão bem concebida, e os sentimentos explanados de uma forma tão sincera e apaixonada, que não podemos deixar de nos sentir comovidos e torcer para que tudo dê certo entre “Li Ming” e “An".É um orgulhoso heterossexual que vos afirma! Infelizmente, nem tudo corre bem (que se dane o quase “spoiler”!) e um sentimento de tristeza assome-nos. E essa melancolia é pura, e faz-nos imprecar contra tudo o que é injustiça neste mundo e arredores!

"Uma despedida sentida"

O realizador Dai Sijie faz uma crítica directa ao regime comunista chinês e que tem momentos cómicos como o pássaro enjaulado (repare-se no subtil pormenor) que constantemente repete afrase “Viva o presidente Mao!”. No entanto, esse mesmo momento é ironicamente inserido na película quando os momentos mais trágicos se sucedem, ou seja, as raparigas estão a passar o inferno na terra e lá aparece novamente o dito pássaro a apregoar a cantilena! Outro ataque (este mais directo) efectuado à renomada ditadura asiática, e que constitui um dos grandes momentos do filme passa pelo julgamento das amantes. Neste aspecto em concreto, Sijie foi acusado por alguns de ser extremamente manipulador, principalmente pelo facto de a homossexualidade, embora bastante criticada na China, não ser sancionada com a pena de morte. O caso em concreto é passível de ser alvo de várias interpretações e julgo sinceramente que a apontada pelos detractores de Sijie é extremamente redutora. Porque não entender que o realizador pretendeu apenas pôr o acento tónico no factor discriminação em si. Eu pessoalmente entendi que as protagonistas estavam a ser julgadas por homicídio, e que o seu relacionamento foi apenas um veículo que potenciou uma morte (atendendo à factualidade em concreto, posso-vos dizer que como jurista estes eventos em princípio nunca dariam lugar a uma condenação por homicídio em Portugal, e bem!). De qualquer maneira, é conhecida a animosidade que Sijie nutre pelo espectro político chinês, e que passará sobretudo pelas más experiências que teve com o mesmo. O realizador provém de uma família de classe média instruída, e durante a denominada “revolução cultural” frequentou um campo de reeducação entre 1971 e 1974. Cumpre ainda dizer que foi proibida a rodagem de “As Filhas do Botânico” na China devido ao seu conteúdo. Estará Sijie habilitado a umas maldades atendendo a estas situações. Talvez sim, talvez não, quem sabe?

Igualmente emergiram críticas que Mylène Jampanoi não sabia representar, ou que o filme se revelou tímido na exploração do romance lésbico entre “An" e “Li Ming”. Quanto ao primeiro aspecto tenho a dizer que nada é mais falso. Mylène Jampanoi, uma actriz que confesso o meu total desconhecimento quanto aos seus trabalhos anteriores, oferece-nos uma interpretação de elevada qualidade no papel da órfã reprimida, que liberta a sua sexualidade de uma forma inesperada, num país pouco tolerante. Agora é certo que é ofuscada e em muito pela magnífica representação e sublime beleza da actriz Li Xiaoran, uma intérprete que tem tudo para ser um caso sério no panorama do cinema asiático, e não só. Acho que disse tudo!

Quanto à suposta timidez na abordagem a um tema por natureza sensível, a saber, a relação homossexual, não podia discordar mais. Os sentimentos são explanados com uma grande profundidade, e que nos tocam imenso lá no fundo. Não me canso de dizer isto! Se estavam à espera da exploração gratuita das cenas mais físicas, enganem-se. Para isso existem variados produtos no mercado a que podem recorrer. Suavemente, sentimos a intensidade do amor de “An" e “Li Ming”. O efeito é conseguido com um grande “sex appeal”, e uma obra de arte é realizada. Nada mais interessa.

Com uma banda-sonora para ouvir, fazendo chorar bastante e por mais, acompanhada por uma fotografia esplendorosa que eleva competentemente as quase inultrapassáveis paisagens vietnamitas, “As Filhas do Botânico” é um filme lindo em praticamente todos os seus aspectos, e destina-se àqueles que possuem um coração. Como em certos aspectos sou optimista, gosto de pensar que todos nós, sem excepção, temos um a bater no peito…

" O prelúdio de um beijo"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 10

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M" - 9

Classificação final: 8,75








8 comentários:

Matheus Andrade disse...

acabei de adquirir este filme e nao vejo a hora de assistir!!!! depois da crítica, entaum!!!!!!!!

muito bom!

Shinobi disse...

Olá Matheus!

Como deve ter percebido pela crítica, a minha opinião é extremamente positiva quanto ao filme. Simplesmente adorei!

No entanto, desde já aviso que é uma película que não reúne consensos, e que muitos entendem que não vale grande coisa. Como é óbvio, discordo em completo!

Grande abraço e volte sempre!

Nuno disse...

Caro Jorge,

Já vi o filme há algum tempo, e o que retive foi a sensualidade que algumas cenas têm... das melhores que vi nos últimos tempos, e claro, a banda sonora.
Mais uma excelente análise, apesar de eu ser dos que acham que o filme não vale mais que 7.
Parabéns e um abraço
Nuno

Shinobi disse...

Olá Nuno!

Obrigado pelos elogios à crítica, e posso desde já te dizer que pertences à grande maioria no que toca à opinião acerca deste filme!

No entanto, este tocou-me particularmente. Acho-o excelente!

Grande abraço!

Dewonny disse...

Fiquei bem interessado nesse filme, que ainda não tinha conhecimento, valeu pela dica!
Abs!

Shinobi disse...

Eu achei o filme qualquer coisa de muito belo! Embora exista muita gente que não o tenha achado nada de especial, eu adorei!

Espero que goste!

Abraço!

Battosai disse...

Hola, Shinobi.

Siento decirte que en esta no estamos de acuerdo. No me ha gustado demasiado, aunque no está mal. En lo que sí coincido es en la banda sonora. Maravillosa.

Shinobi disse...

Olá Battosai!

Felizmente, não estamos sempre de acordo ;) !

Pessoalmente, adorei o filme!

Abraço!