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quarta-feira, junho 03, 2009

Ichi - 壱 (2008)

Origem: Japão

Duração: 120 minutos

Realizador: Fumihiko Sori

Com: Haruka Ayase, Takao Osawa, Shido Nakamura, Yôsuke Kubozuka, Akira Emoto, Riki Takeuchi, Go Riju, Mayumi Sada, Ryosuke Shima, Eri Watanabe


"Ichi"

Sinopse

“Ichi” é uma “goze”, uma mulher invisual que ganha a vida cantando e tocando o instrumento designado como “shamisen”. Devido ao facto de ser cega, mas igualmente possuidora de uma grande beleza, as pessoas tentam sempre abusar da sua confiança e normalmente as coisas não acabam bem. Porquê? A razão passa por “Ichi”, além de não possuir visão, ser linda, e uma trovadora, é igualmente uma espadachim temível, tendo uma lâmina bem afiada, disfarçada de bordão. A jovem deambula pelo Japão, em busca do espadachim cego que a tratou como um pai e a ensinou a manejar a espada.



"Ichi e o samurai Toma"

Certo dia, e através de um incidente com o temível gangue “Banki”, “Ichi” trava conhecimento com o samurai “Toma Fujihira” (Takao Osawa), que a tenta salvar dos bandidos, mas que devido à sua questionável capacidade para o combate, acaba é por ser defendido por “Ichi”. O casal chega à pequena povoação chamada “Bito”, onde os “Banki”, sob a égide do seu temível líder também chamado “Banki” (Shido Nakamura), aterrorizam a população. Após mais um reencontro com elementos dos “Banki”, “Toma” é contratado como guarda-costas por “Toraji” (Yôsuke Kubozuka), o chefe dos “Shirakawa”, o clã opositor dos “Banki” e que tenta acabar com o terror imposto por estes. “Toraji” dá emprego a “Toma” convencido que o samurai derrotou alguns membros dos “Banki”, quando na realidade foi “Ichi” que os venceu.

“Ichi” e “Toma” começam a ficar cada vez mais próximos, e uma paixão começa a nascer. No entanto, o inevitável conflito entre os “Shirakawa” e os seus opositores aproxima-se e o casal terá de enfrentar a batalha mais difícil da sua vida contra os “Banki”.

"Os Banki"

"Review"

Como já aludi anteriormente, a propósito do texto elaborado sobre a película “Zatôichi”, realizada e protagonizada por Takeshi Kitano, a personagem do afamado espadachim cego foi profusamente representada na sétima arte. Desta vez, o conto do mais famoso invisual da história do cinema nipónico, quiçá do oriental, é transposto para a tela mais uma vez, destarte sob a forma feminina corporizada na goze “Ichi”. Não estamos perante o campo do “chambara” mais estilizado ou com motivos fantásticos, dos quais constituem exemplos relativamente recentes “Azumi”, Shinobi: Heart Under Blade” ou “Dororo”. O que nos é dado a conhecer é um clássico filme de samurais, que usa técnicas mais modernas, mas que mantém os arquétipos clássicos do género. O realizador Fumihiko Sori não está interessado em adoptar qualquer orientação revisionista de uma fórmula de comprovado sucesso. O filme afigura-se mais como uma sequela de “Zatôichi”, nem que seja pelo facto de nos ser induzido que a rapariga é a filha do famoso espadachim. Pessoalmente e como fã deste tipo de obras acho, à partida, entendo que a decisão de Sori é de saudar.

Quanto à trama propriamente dita, estamos perante uma mulher que é cega, mas como já referi acima, linda de morrer. Por este motivo, “Ichi” é constantemente confrontada com abusos de terceiros, que fazem com que a mesma tenha uma visão extremamente pessimista da vida e da injustiça da sociedade feudal do Japão. Estas situações chegam mesmo a acontecer perante outras pessoas que possuem a mesma deficiência física do que ela, e que se encontram perante um estatuto social semelhante. Cumpre dizer que o antigo Japão não era bastante clemente para com aqueles que possuíam deficiências físicas ou mentais, pois entendia-se que tal constituía um castigo dos deuses. Por estas e outras razões, e apesar de enfrentar os contratempos com uma elevada e por vezes violenta dignidade, “Ichi” não encontra sentido na vida. Nos dizeres da própria protagonista, a mesma não consegue ver a diferença entre o dia e a noite, entre o bem e o mal, não conhece o que não corta com o sabre. Ela está na fronteira entre a vida e a morte, e a sua única motivação é encontrar o homem que ela acredita ser o seu pai, antes de penar pelos tortuosos caminhos da vida até ao fim da sua existência. Uma possível forma de redenção, parece ser personificada no samurai “Toma”. O homem continua a lutar, em nome dos seus sentimentos, para que “Ichi” ganhe alegria e subsequentemente lute pela vida.


"Ichi demonstra as suas inegáveis qualidades como espadachim"


A acção é-nos apresentada de uma forma bastante intensa, na esteira dos melhores clássicos do “chambara”, não fosse o coreógrafo Hiroshi Kozune, o responsável pelas magníficas batalhas de “Ran”, do grande mestre Akira Kurosawa ou pelo belo filme de Yôji Yamada, “The Twilight Samurai”. O que aqui se critica é os litros de sangue derramado, fruto de muito “CGI” (imagens geradas por computador) que por vezes são irrealistas e pecam por alguma falta de qualidade. A banda-sonora é, à falta de melhor adjectivo, espectacular. Desde já se informa que não é da autoria de um japonês, ou qualquer autor oriental, mas sim da compositora australiana Lisa Gerrard, que conta de entre os seus inúmeros trabalhos uma colaboração com Hans Zimmer no filme “Gladiador”. Como se tal não fosse suficiente, é uma das mentoras do eterno grupo musical “Dead Can Dance”.

Fiquei extremamente impressionado com a performance de Haruka Ayase. Ela consegue transmitir na perfeição a aura melancólica e o pessimismo existencialista de “Ichi”. O seu semblante carregado de uma infindável tristeza e desilusão, enternece-nos grandemente e nunca chega a ser enfadonho. E ajuda bastante ser uma das actrizes japonesas mais bonitas que vi em toda a minha vida! Takao Osawa e Shido Nakamura são dois nomes consagrados da cena nipónica, mas aqui exibem-se a níveis diferentes. Enquanto Osawa consegue almejar o pretendido, ou seja, ser um “sidekick” à altura de “Ichi”, Nakamura desiludiu-me bastante. Isto assume proporções maiores, quando eu sou um fã do trabalho do actor. Não tem alma na actuação, assumindo por vezes poses perfeitamente disparatadas e que não lhe ficam nada bem. Porventura, a forma como foi congeminado o seu papel no argumento, não fez jus às inegáveis capacidades deste intérprete. Osawa, pelo contrário, exterioriza bem o homem pouco confiante que vai buscar a sua força interior ao sentimento que começa a nutrir por “Ichi”, e que o ajuda a combater a injustiça reinante e a se afirmar como samurai, mas acima de tudo como homem.

“Ichi”, a espadachim, amante e música, poderá estar limitada num dos seus cinco sentidos, mas a sua tristeza e aura fadada à tragédia, muitas vezes farão com que nós consigamos perceber o âmago da sua própria alma. Num “cocktail” de muita emoção e momentos de acção extasiantes, “Ichi” configura-se como uma película com predicados sentimentais de muita qualidade e visualmente bastante apelativa. Contudo, falta-lhe alguma densidade e exploração argumentativa, que constitui uma característica essencial que distingue os bons filmes das obras de verdadeira eleição. O facto de possuir um estranho Shido Nakamura, capaz de bem melhor do que aqui revela, assim como não reinventar o género (à parte o carácter mais trágico da personagem principal), sendo algo estereotipado, também não ajuda muito a uma suposta grandiosidade. Contudo entre prós e contras, a balança pende claramente para o lado positivo, e admito desta forma que gostei do filme!


"A tocar shamisen e a cantar a sua triste melodia"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





10 comentários:

Nuno disse...

Amigo Jorge,

Mais uma fantástica análise tua sobre um filme a que curiosamente já tinha lido uma crítica, por sinal com opinião diferente da tua. É um filme que verei quando chegar a Portugal. Quando a tua opinião pessoal é 7, não compro os filmes na net, espero que saiam em Portugal, e este será o caso. Tenho alguma curiosidade de vê-lo, para além de que, como sabes, gosto do género... e um Zatoichi de saias não é de menosprezar.

Um Abração

Shinobi disse...

O filme é muito agradável, e tem partes simplesmente espectaculares! Escusado será dizer que a presença da belíssima Haruka Ayase ilumina o ecrã!
Só não gostei muito de alguma falta de densidade narrativa e da actuação de Shido Nakamura (um actor que prezo muito).

Grande abraço!

Dewonny disse...

Estou a procura desse filme na rede, quero muito vê-lo!
Abraço! Diego!

Shinobi disse...

Diego, acho que vais gostar bastante do filme!

Embora não seja uma obra inesquecível, vale bem a pena dar uma espreitadela!

Abraço!

Andando, voy por la vida mirando.... disse...

Adorei a análise. Buscando informações sobre a atriz, encontrei este filme, mas nada muito profundo acerca dele, por isso me agradou os comentários, e falar da Haruka Ayase é até covardia. Para mim, hoje, é uma das melhores atrizes japonesas. Tudo o que vi dos seu trabalho, posso classificar de MA RA VI LHO SO. Parabéns, mas uma vez..acertou em cheio!
Ah! Alguém sabe se já podemos encontrá-lo aqui no Brasil com legenda em português?

Shinobi disse...

Oláq Andando (...)!

Antes de tudo, fico feliz que a análise tenha sido do teu agrado! Do que conheço do seu trabalho, posso dizer que fiquei bastante impressioando com Haruka Ayase!

Quanto ao facto de encontrar o dvd com legendas em português, desconfio bastante que exista.

De qualquer forma, sugiro que dê um pulo no seguinte link:

http://asianspace.blogspot.com/2009/05/ichi-2008.html

Abraço!

Ernesto R. Pereira disse...

Olá Jorge, ainda não ví o filme. Mais através de seu review estou mais ancioso para ver. Um forte abraço!!

Shinobi disse...

Olá Ernesto!

Embora o filme não seja nada de transcendente, é bastante agradável!
Peca por falta de desenvolvimento, e na minha opinião tem um Shido Nakamura bastante fraco...
Contudo tem momentos bastante bons, e julgo que, regra geral, agradará à maior parte das pessoas. Nem que seja para descontrair!

Dewonny disse...

Caro amigo Jorge, consegui assistir esse filme no início desse mês e fiquei maravilhado, se trata de uma bela obra, fiquei sem palavras com a atuação de Haruka Ayase, surpreendente e perfeita no manuserio da espada e no drama vivido pela personagem, além de lindíssima e maravilhosa ela é muito talentosa, em breve comentarei esse filme no meu blog, vou me inspirar no seu excelente texto pra não fazer feio, espero q não se importe, muito do que vc escreveu eu também achei a mesma coisa, também lembrei do ótimo Zatoichi, temos aqui a versão feminina de um samurai cego. Nota 8.5!
Abraço! Diego!

Shinobi disse...

Tirando a actuação de Shido Nakamura que me decepcionou imenso, eu achei o filme com um nível bastante aceitável. Pode-se inspirar no texto à vontade, pois apreciarei bastante ;) !
Quanto a Haruka Ayase, além de estar muito bem no papel, é uma mulher deslumbrante! Que "brasa", como se diz na minha terra :D !

Abraço, amigo Dewonny!