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quinta-feira, abril 10, 2008

Paint It Yellow/Rang De Basanti - रंग दे बसंती (2006)

Origem: Índia

Duração: 171 minutos

Realizador: Rakeysh Omprakash Mehra

Com: Aamir Khan, Alice Patten, Soha Ali Khan, Kunal Kapoor, Siddhart, Sharman Joshi, Atul Kulkarni, Sharman Joshi, Steven Mackintosh, Madhavan, Waheeda Rheman, Anupan Kher, Kiron Kher, Om Puri, Lekh Tandon, Cyrus Sahukar, Mohan Agashe, Pravishi Das
"O grupo de jovens amigos (da esquerda para a direita): Karan, DJ, Ajay, Sonia, Aslam e Sukhi"

Estória

A jovem, mas persistente realizadora de cinema “Sue McKinley” (Alice Patten), resolve viajar até à Índia, tendo em vista dar vida a um filme baseado no diário do seu avô “McKinley” (Steven MacKintosh), que foi um oficial do império britânico nos anos tumultuosos dos movimentos independentistas do país. A sua amiga “Sonia” (Soha Ali Khan) ajuda-a a encontrar os actores de que necessita para levar a cabo a curta-metragem, a saber, os estudantes da Universidade de Deli “DJ” (Aamir Khan), “Karan” (Siddhart), “Aslam” (Kunal Kapoor) e “Sukhi” (Sharman Joshi). Em breve junta-se ao grupo o nacionalista hindu “Laxman” (Atul Kulkarni), que no início não é muito bem vindo devido à sua ideologia política e à animosidade que sente para com “Aslam”, um muçulmano com uma veia poética.

Ao fim de algum tempo de rodagem, em que os jovens boémios começam a despertar a sua consciência de cidadania, um trágico evento ocorre. “Ajay” (Madhavan), o noivo de “Sonia” e piloto da força aérea indiana, falece num trágico acidente, quando despenha-se a bordo do caça modelo “Mig-21”. O governo atribui as culpas do sinistro a “Ajay”, e encerra a investigação, tentando ocultar os sinistros negócios que envolvem corrupção na compra de aviões defeituosos aos russos.

"Sue e DJ"

Descontentes com a situação, o grupo de amigos organiza um protesto contra o corrupto governo indiano, que é reprimido de forma extremamente violenta. Revoltados, os jovens decidem reavivar o espírito dos antigos combatentes pela liberdade do país e enveredam pela violência, ao assassinar o ministro da defesa indiano (Mohan Agashe). Para grande frustração de “DJ” e dos amigos, a imprensa manipulada considera o ministro um mártir e apelida-os de terroristas. Numa última tentativa de passarem a mensagem ao país, os estudantes tomam a estação de rádio “All India”. No entanto, o poder instalado tudo fará no sentido de a culpa morrer solteira...

"Ajay e Sonia"

"Review"

“Rang De Basanti” significa “pinta de amarelo”. Para nós, isto pode parecer à primeira vista uma frase sem significado nenhum, ou um devaneio de algum desequilibrado. No entanto, tudo se resume a uma primeira impressão e a uma questão cultural. Na Índia, quando alguém profere a frase em hindu “Main rang de basanti”, significa “pinta-me de amarelo (ou cor de açafrão)”. A expressão idiomática significa que a pessoa está disposta a sacrificar-se por uma grande causa, que considera maior do que o seu próprio ser.

Baseado num poema escrito por Dushyant Kumar, “Rang De Basanti” constituiu a proposta da Índia tanto para os “Globos de Ouro”, assim como para os “Óscares” de 2007, não vindo infelizmente a ser um dos cinco filmes seleccionados para o “round” final. Digo “infelizmente”, pois esta película possui uma grande qualidade, sendo para muitos um dos mais brilhantes filmes indianos jamais realizados. Sou obrigado a concordar, apesar de não conhecer tantas longas-metragens da cinematografia daquele país quanto isso. As razões, passo-as já a explicar.

Quando um país elege uma película do seu espólio cinematográfico, para representá-lo numa cerimónia da magnitude mundial como os “Óscares”, temos de partir do pressuposto que o filme em questão terá forçosamente de possuir alguma qualidade intrínseca. Mesmo admitindo que a cerimónia já não é o que era (principalmente por estar sujeita aos lóbis publicamente conhecidos), e que a nação em questão não costuma emanar obras que sejam muito do meu agrado. O positivo cartão de visita começa a ser mais sustentado, quando reparei que “Rang De Basanti” ostentava uma orgulhosa pontuação de 8.3 no IMDb, tendo por base um universo de 6.776 votos, o que já é um número aceitável para chegarmos a conclusões (embora tenhamos de ter em conta que muitos desses votos deverão ser indianos, assim como este povo é cioso e louvavelmente defensor da sua indústria cinematográfica). Quando reparei que o autor da banda-sonora é A.R. Rahman, e temos o conhecimento que o ilustre compositor indiano esteve 3 anos a configurar os normalmente maravilhosos sons com que nos brinda nas obras que intervém, a água começa a crescer na boca e decidi arriscar na aquisição do filme. Em boa hora o fiz, não só pelo facto da análise global que faço à película ser assaz positiva, mas também pelo facto de ter tido a sorte de adquirir uma edição com muito boa qualidade.

Para um leigo dito interessado como eu, que lamentavelmente nunca esteve na Índia, mas que recorre bastante à sua faceta de autodidacta, “Rang De Basanti” é, por diversos motivos, um interessantíssimo objecto de estudo. É um filme que lida com um manancial de aspectos, todos normalmente bem conjugados, e que se reconduzem essencialmente a factores sociológicos, culturais, históricos e políticos.

Na 1ª fase do filme, é-nos dada a conhecer a vivência de um grupo de jovens, que nos surpreendem pelo seu amor à cultura ocidental e pelo gosto descomplexado pela vida. A chave e diapasão consiste em viver o dia-a-dia como se fosse o último, não revelando esperança numa nação em que um futuro radioso parece ser uma quimera. Isto percebe-se quando “lhes foge a boca para a verdade”, a maior parte das vezes quando estão alcoolizados. É especialmente sintomático um debate de ideias significativo, que ocorre num bar, entre “Ajay” e o restante grupo. Os jovens pugnam pelo “No Better Tomorrow” (passe o trocadilho com a fenomenal saga de John Woo “A Better Tomorrow”), enfatizando verdades quase inquestionáveis tais como a Índia ser um país dominado pela pobreza e pela corrupção, em que apesar de um dia possuírem uma licenciatura, o mais certo é não terem uma oportunidade de singrarem. “Ajay”, estoicamente (como convém a um militar) e reconhecendo que de facto nem tudo está bem, afronta a crítica fácil e desafia cada um dos seus amigos a tentar pôr a sua marca no mundo. “Entrem para a administração...”, “Alistem-se no exército...”, “se não puderem fazer a mudança de dentro – nota: entenda-se a administração ou o exército - tentem fazê-la na rua, por amor ao vosso país...” . As discordâncias continuam, mas existem valores porventura mais altos tais como a saudável amizade que une os intervenientes, e que parece ser o suficiente para ultrapassar todos os obstáculos. É uma fase de alegria, de amizade e amor, com um canto fácil e contagiante!

"DJ vence uma corrida tradicional de cavalos"

Quando as coisas começam a complicar-se com a morte de “Ajay”, a vertente mais descontraída e bem disposta do filme sofre um eclipse completo. Finda um cenário que até poderíamos considerar idílico atendendo às circunstâncias, e passamos a “coisas mais sérias”, passe a expressão. Como “quem não sente, não é filho de boa gente”, os jovens dão o grito de revolta e empregam uma luta social contra a política corrupta e injusta. A bandeira é “Ajay”, o mártir da causa, e o motor a rebeldia própria da juventude, agora canalizada para outras batalhas. O problema é que mesmo tendo a razão do seu lado, os inseparáveis amigos excedem-se nas suas acções. Já se está mesmo a ver que o final não vai ser feliz, fazendo “Rang De Basanti” jus ao estigma dos seus parentes de “Bollywood”.

A fotografia do filme é, para não variar, belíssima. Os cenários, também para não destoar, são uma coisa perfeitamente de outro mundo. O património arquitectónico e cultural da Índia e do oriente em geral, é extremamente difícil de bater, e “Rang De Basanti” faz questão de mostrar isso mesmo. Os constantes interlúdios com o passado, onde pontifica o avô de “Sue McKinley” estão expostos em tons “sépia”, característica que adoro. Porquê? Simplesmente porque o espectador interioriza muito melhor as analepses, embrenhando-se com mais densidade na estória que se pretende transmitir. A conjugação do passado e presente funcionam na perfeição, possibilitando ao mesmo tempo que o espectador faça as distinções necessárias de uma forma mais ágil e eficaz. No entanto, a interpenetração e a univocidade não deixam de estar presentes, mantendo a narrativa como um todo coeso. “Rang De Basanti” interpreta estes aspectos de uma forma bastante competente.

Os actores dão alma às suas interpretações, sendo de destacar o ídolo de “Bollywood” Aamir Khan, que representa uma personagem 15 anos mais nova (“DJ” tem 25 anos, e Aamir Khan 40). No entanto, a sua jovialidade natural, aliada a uns truques de cosmética, faz-nos concluir que dificilmente a escolha teria sido melhor. Confesso que fiquei um tanto ou quanto intrigado, pela razão que AR Rahman demorou 3 anos a elaborar a banda-sonora. Embora agradável, não possui a complexidade musical e de coreografias que outras obras apresentam, como por exemplo “Dil Se”, criticado há pouco tempo neste espaço. Aqui “Rang De Basanti” já não é o típico filme de “Bollywood”. As músicas existem, mas de uma forma convencional, como num filme dito mais corrente. E quando existe algo parecido com uma coreografia, as coisas acontecem de forma bastante natural. É como se nós estivéssemos todos num grupo de amigos, e decidíssemos relembrar músicas antigas e começar a cantar. Nada demais.

“Rang De Basanti” constitui uma proposta extremamente recomendável, mesmo para aqueles que desconfiam bastante das produções de “Bollywood” (muitas vezes com razão). Apesar de, como já foi anteriormente aludido, o filme não conseguir fugir a um inevitável fatalismo (um pouco forçado, admita-se), uma mensagem positiva é extraída. Não basta apenas criticar e baixar os braços. É absolutamente necessário lutar pelos nossos ideais, e a partir daqui digladiar pela mudança da sociedade para algo melhor. Nunca ninguém disse que iria ser fácil, mas igualmente não podemos deixar o pessimismo nos levar a pensar que tal é impossível... Acima de tudo, julgo, salvo melhor opinião, que “Rang De Basanti” é um apelo atractivo e sedutor à consciência dos jovens indianos, no sentido de fazerem algo pelo futuro do seu país. Não elogia as virtudes da Índia, até pelo contrário. Mas provocantemente, incute-lhes um orgulho nacionalista nada bacoco, suficiente para um verdadeiro “grito do Ipiranga”. Este espírito é ilustrado pela frase forte do filme: "Só existe duas maneiras de viver a vida: Aceitar as coisas tais como elas são, ou ter a coragem de as mudar."

Constitui até ao presente momento, a minha verdadeira “Passagem para a Índia”, embora não guiada por David Lean ;) !


"Grita liberdade!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25







5 comentários:

Nuno disse...

Amigo Jorge,

Felicito-te a dobrar: por mais esta magnífica análise, e por ser a mais um filme indiano...que muito sinceramente me deixou com água na boca.

Um Abraço

Shinobi disse...

Este Nuno, vale bem a pena adquirir!!!
Uma lição para quem quer perceber os anseios da juventude indiana, e o seu papel na transformação do país!

Muito bom!

Quanto à análise, agradeço-te imenso a força. Ainda bem que foi do teu agrado :) !

Um abraço!!!

Nirmal Simon disse...

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Maryssol disse...

è o meu filme bolly preferido

Jorge Soares Aka Shinobi disse...

É dos meus preferidos também :) !