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sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Eleição/Election/Hak se wui - 黑社会 (2005)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Simon Yam, Tony Leung Ka Fai, Louis Koo, Wong Tin Lam, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Maggie Siu, David Chiang, Berg Ng, You Yong, Yuen Bun, Raymond Wong, Tam Ping Man, Wong Chung, Chan Siu Pang

"Lam Lok"

Sinopse

Numa Hong Kong com mais de 300.000 membros de tríades, a organização mais respeitada, denominada “Sociedade Wo Sing”, está prestes a eleger um novo líder, e tudo parece resumir-se à escolha entre “Lam Lok” (Simon Yam) e “Grande D” (Tony Leung Ka Fai). Este último começa a subornar os “tios”, que são os membros mais antigos da tríade e responsáveis pela escolha do chefe. Contudo, as pretensões de “Grande D” são barradas por “Teng” (Wong Tin Lam), um homem idoso que é o membro mais respeitado da “Wo Sing” e que apela à unidade da organização em detrimento dos jogos de bastidores. Em consequência, “Lok” acaba por ser apontado como o responsável máximo do grupo criminoso.

"Grande D"

Acontece que a eleição de “Lok” só estará completa quando este possuir o ceptro da “Cabeça do Dragão”, o símbolo usado pelo líder da “Wo Sing” e representativo da sua autoridade. “Grande D”, ciente desta premissa, tudo faz para impedir que o artefacto seja entregue a “Lok”. Com todos os membros da tríade a tomar partido, ora por “Lok”, ora por “Grande D”, a guerra pelo poder dentro da organização parece ser inevitável.

"Os Tios procedem à eleição do líder da tríade Wo Sing"

"Review"

“Eleição” é um dos filmes mais conhecidos de Johnny To e dos produtos mais bem sucedidos da sua companhia, a conhecida “Milkyway". Foi uma película que causou imensa sensação nos circuitos cinematográficos, tendo vencido nove prémios, divididos pelos “Golden Horse Awards”, os “Hong Kong Film Awards”, e Sitges, o conhecido festival internacional de cinema catalão. Viria ainda a concorrer para o galardão máximo de Cannes, a “Palma de Ouro”, mas aí viria a ser ultrapassado por “L'Enfant”, dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc). Quentin Tarantino é um professo admirador desta longa-metragem, e viria a contribuir na edição de DVD norte-americana, onde pontificava a sua citação “o melhor filme do ano”. Quer se goste ou se recrimine, uma coisa é certa. É praticamente inquestionável que “Eleição” é dos mais emblemáticos, senão o mais importante filme do género “tríade” dos últimos anos.

Um dos grandes méritos desta obra é elucidar-nos sobre o “modus operandi” das tríades de um ponto de vista mais conceptual e educativo. “Eleição” faz-nos interiorizar o aspecto “político” essencial na vivência do crime organizado de Hong Kong, que passa muito pelo aspecto negocial onde se pretende um certo equilíbrio e onde todos podem lucrar com as actividades ilícitas. Trata-se de um jogo que ocorre não só entre os elementos das tríades, mas igualmente com a polícia que revela deter grande interesse no evitar de conflitos entre os “gangsters”. Temos igualmente a hipótese de observar os rituais ancestrais das tríades, com todo o simbolismo associado às cerimónias de iniciação e às juras de fidelidade entre os seus membros. É um dos ritos destas organizações criminosas, a saber, o processo de escolha do líder, que constitui o cerne da trama. Tal “eleição” poderá variar entre um processo de votação oligárquico, como é o caso da tríade Wo Sing (“empresa” sobre a qual gravita a película), ou por um sistema monárquico onde um familiar sucede a outro, como aprendemos que acontece noutras tríades. Tudo sucede como se estivéssemos a dissertar sobre os multi-variados sistemas de governação das nações, com os seus próprios processos de “checks and balances” ao melhor estilo dos politólogos John Locke ou Montesquieu.

"Luta nas ruas de Hong Kong"

É certo que as traições, o jogo duplo e a violência são inevitáveis, mas “Eleição” não cai na tentação fácil de se transformar num “gun fu” no inimitável estilo das conhecidas obras de John Woo. Por força desta asserção, a obra revela uma identidade própria e distintiva, que consegue ser extremamente apelativa e verosímil. É aqui que reside a força do filme. Aliás, para termos uma ideia da forma como o confronto entre os membros das tríades é abordado nesta obra, não existe praticamente nenhum duelo de balas. Tudo é tratado com o máximo realismo e crueza, com agressões “mano a mano”, onde os punhos e os pés (sem recurso a técnicas de artes marciais), os facalhões, as garrafas de "whisky" e outros utensílios primários ditam a lei.

Os “jogos de poder” e a duplicidade das estratégias evidenciadas, necessariamente têm de se reflectir na forma de actuação das personagens. Sem querer desvendar demasiado o enredo, sempre se dirá que o espectador terá de estar preparado para alguns volte-faces na história, onde quem parecerá estar imbuído de “boas intenções” (passe a expressão) revela um carácter frio, sanguinário e calculista, e por outra via, quem se assemelha ao que mais associamos ao “mafioso” típico, é quem cede e acaba por ser vítima dos seus próprios desígnios, quando as coisas parecem estar bem encarreiradas. É a estratégia de Maquiavel, exteriorizada na sua obra e verdadeiro guia político, “O Príncipe”, posta em prática religiosamente. Os actores Simon Yam e Tony Leung Ka Fai desempenham com bastante competência os seus papéis, mas são verdadeiramente os intérpretes que têm os papéis secundários, mormente Louis Koo e o obeso Wong Tin Lam, que fazem as maiores despesas a nível de representação, carecendo apenas de falta de minutos. Espectacular é a actuação de Nick Cheung, no papel de “Jet” (“Cabeça de Peixe” na versão portuguesa), o pequeno traficante de droga, que revela um pendor eléctrico, maníaco e violento ao nível de um Jacky Cheung nos seus melhores dias.

“Eleição” constitui uma das numerosas boas produções que os estúdios “Milkyway” têm dado a conhecer ao grande público, e que de alguma forma têm defendido a honra do cinema de Hong Kong que, diga-se de passagem, já passou melhores momentos. É um filme que assenta num espectro político interessante, para além de ser extremamente informativo para aqueles que se interessam pelo submundo daquela região administrativa chinesa (esperemos que de um ponto de vista estritamente teórico). Consegue dosear estes aspectos, utilizando uma violência que se afigura necessária, mas longe de ser gratuita. Aliando-se todos estes factores a uma realização e interpretação bem conseguidas, uma cinematografia de elevada qualidade e a momentos emblemáticos assinaláveis, não se poderá pedir muito mais. Talvez lhe fique a faltar apenas um pouco mais de alma e aposta nas interessantíssimas personagens secundárias.

Poderá não ser um filme de “eleição”, mas fica bem lá perto!

"A cerimónia de fidelidade"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





2 comentários:

Takeo Maruyama disse...

Johnnie To rules!!! O que falta de ação em seus filme abunda em ótimos roteiros e excelentes interpretações. Definitivamente um dos meus realizadores (ou diretores, como dizemos no Brasil) favoritos.

Shinobi disse...

Olá Takeo!

Concordo plenamente com o que tu disseste. Pessoalmente, To é dos meus realizadores de "eleição" ;) !

Um abraço!