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domingo, janeiro 13, 2008

Paprika/Papurika - パプリカ (2006)

Origem: Japão

Duração: 87 minutos

Realizador: Satoshi Kon

Vozes das personagens principais (versão japonesa): Megumi Hayashibara (Dra. Atsuko “Paprika” Chiba), Tôru Emori (Dr. Seijirô Inui), Katsunosuke Hori (Dr. Toratarô Shima), Tôru Furuya (Dr. Kôsaku Tokita), Kôichi Yamadera (Dr. Morio Osanai), Akio Ôtsuka (Detective Kanakawa), Hideyuki Tanaka (Administrador), Satomi Kôrogi (Boneca Japonesa), Daisuke Kanaguchi (Kei Himuro)

"Dra. Atsuko Chiba"

Estória

Um grupo de cientistas desenvolve uma ferramenta psiquiátrica conhecida como “DC Mini”. O aparelho permite que um médico entre directamente na mente do paciente, e proceda ao tratamento internamente, para além de estar habilitado a detectar qualquer ameaça psicológica ao bem-estar de uma pessoa.

O projecto encontra-se em grande perigo, quando três dos mais recentes “DC Mini” desenvolvidos pelo obeso “Dr. Tokita” são furtados, sem que os programas de segurança estejam instalados. Este factor leva a que os ladrões consigam entrar nos sonhos de qualquer ser humano e leva-los a cometer crimes ou a se suicidarem. O problema aumenta ainda mais, quando os denominados “terroristas da mente” parecem conseguir cumprir os seus propósitos, mesmo com as pessoas acordadas.

"Detective Kanakawa"

A única que parece ter poder para remediar a situação é “Paprika”, uma jovem rapariga que constitui o alter-ego da “Dra. Atsuko Chiba”, e que consegue penetrar nos sonhos das pessoas afectadas. Com o auxílio do detective “Kanakawa” e do “Dr. Shima”, “Paprika” tenta por cobro à situação.

"A Dra. Chiba mira o seu alter-ego Paprika"

"Review"

Baseado no livro com o mesmo nome, do autor japonês Yasutsaka Tutsui, “Paprika” constitui o mais recente trabalho do fenomenal realizador de “anime” Satoshi Kon. O filme teve um certo eco no nosso país, sendo um dos vencedores do Fantasporto – edição de 2007, tendo igualmente sido nomeado para o Leão de Ouro em Veneza, em 2006. Aliás coube a este último festival a honra em apadrinhar a estreia mundial da película.

Satoshi Kon gosta de brincar com as mentes daqueles que têm a felicidade de visionar as suas longas-metragens de animação, e “Paprika” não constitui excepção. Pelo contrário, até potencia este factor. O realizador japonês tem um iminente fascínio por tudo o que esteja relacionado com memórias e a percepção ou anti-percepção da realidade. No fundo tudo se reconduzirá a questões de identidade, não apenas vistas do prisma singular das pessoas, como também da raça humana vista como um todo. Em “Paprika”, Satoshi Kon está no seu terreno preferido, pois acima de tudo é abordado exaustivamente os medos e desejos que se encontram escondidos lá bem no fundo do nosso subconsciente.

Tendo por base estes princípios gerais, “Paprika” é dominado pelo signo de um belo, mas de alguma forma perturbador surrealismo. O papel do inconsciente na criação artística, reflectida prementemente na própria concepção dos bonecos animados presentes nos sonhos das personagens, está todo lá. O abstracto e o factor psicológico são reis na narrativa. Os sonhos (alguns verdadeiros pesadelos) das personagens são completamente desligados de qualquer lógica ou razão que se identifique à primeira vista. Tudo isto encontra-se muito presente em “Paprika”, o que poderá de certa forma desnortear o espectador. Provavelmente a intenção será essa. Esta faceta do realizador provavelmente fará com que o mesmo nunca atinja um público tão vasto como Miyazaki, mas nem por isso será de lhe atribuir um papel diminuto no panorama do “anime” japonês. Muito pelo contrário. Kon merece ser considerado um dos expoentes mais importantes do género.

"A identidade de Paprika é revelada"

A animação está francamente melhor que os anteriores trabalhos do realizador, o que sem dúvida será o resultado de um orçamento mais desafogado. Aqui é tudo topo de arte, sem espaço para qualquer tipo de primitivismo. Isto não quer dizer, obviamente, que filmes como “Millennium Actress” ou “Tokyo Godfathers” não possuam os seus méritos visuais. Mas ficava-se sempre com a sensação que os espantosos produtos dos estúdios Ghibli de Miyazaki e Isao Takahata deixavam tudo o resto a milhas de distância. Com o apoio da “Madhouse”, Kon oferece-nos um produto de elevadíssima qualidade artística, e que impressiona pela beleza e pelo detalhe.

Satoshi Kon não é apenas mais um realizador. Pondo de parte os seus inegáveis méritos técnicos, Kon é acima de tudo um amante de cinema e isto nota-se a milhas de distância. As menções que faz a filmes como “Tarzan”, ao épico “Journey to the West” ou às suas próprias obras (pense-se nos cartazes referentes a “Millennium Actress” e “Tokyo Godfathers” expostos no cinema) elucidam que estamos perante um cultor da sétima arte, que faz questão de propalar a sua paixão.

Imperdoavelmente ainda não tinha visionado este “Paprika”. Apesar de o considerar uma obra superior, a minha película preferida do realizador continua a ser “Millennium Actress”, sobretudo pela pujança sentimental transmitida. Paprika”, pelo contrário, trilhará caminhos mais duros e porventura menos palpáveis, sem prejuízo de também transmitir mensagens significativas da perspectiva da paixão e do sentimento, conforme se divisa da união entre a “Dra. Chiba” e o “Dr. Tokita”.

Quanto a mim, e sem retirar qualquer tipo de elogio aqui feito à obra, prefiro filmes mais directos. É uma questão de gosto pessoal, nada mais do que isso. No entanto, esta brincadeira mental tem muito que se lhe diga, e uma delas é sem dúvida “Bom filme”!


"O Dr. Osanai explode num turbilhão de borboletas azuis"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Esta crítica igualmente se encontra disponível "on line" em ClubOtaku

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Animação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,14




2 comentários:

Nuno disse...

Jorge,

Gostei do Paprika, tem muito de surrealismo... e eu amo o surrealismo. Para que saibas meu pintor preferido é Dali. Um belo filme ...surrealista, mais um que nos dá essa escola fantástica da animação que é o Japão e que tem como expoente máximo Hayao Myazaki.

Fantástica apreciação ao filme. Parabéns

Shinobi disse...

Eu também gostei bastante do filme, embora tenha de admitir que não seja grande apreciador do movimento surrealista, em todas as suas vertentes. No entanto, só um louco não reconhece o mérito dos grandes nomes que compõem aquela corrente artística, dos quais mencionaste porventura o expoente máximo.

Muito obrigado pelo elogio ao texto, Nuno. É por esses motivos que, mesmo quando estou cansado, tenho sempre vontade de por qualquer coisa aqui.

Abração!