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domingo, maio 04, 2008

Cinema Mágico/Electric Shadows/Meng ying tong nian -
梦影童年 (2004)

Origem: China

Duração: 93 minutos

Realizadora: Xiao Jiang

Com: Xia Yu, Li Haibin, Zhang Yijing, Qi Zhongyang, Wang Zhengjia, Zhang Haoqi, Xia Yuquing, Jiang Shan, Zhenhua, Jiang Yihong

"As crianças Ling Ling e Mao Dabing"

Sinopse

O jovem “Mao Dabing” (Xia Yu) é um moço de entregas que distribui água engarrafada e possui uma paixão pelo cinema, em especial o de acção. Certo dia quando se dirigia apressado para a sala de espectáculos do burgo, choca com a sua bicicleta contra uma pilha de tijolos. Ao tentar-se erguer, é agredido por uma rapariga surda chamada “Ling Ling” (Qi Zhongyang). A mulher usa um dos tijolos e acerta com o mesmo na cabeça de “Dabing”, fazendo-o desmaiar.

“Ling Ling” é detida pela polícia, mas mesmo assim pede a “Dabing” que alimente os peixes que se encontram no seu apartamento. “Dabing”, sem perceber porquê que vai fazer um favor a uma pessoa que o agrediu, acaba por anuir no pedido da jovem.

"Xuehua e Pan"

Na morada de “Ling Ling”, “Dabing” descobre o diário da rapariga e começa a folheá-lo com bastante interesse. Aqui somos levados a recuar vinte e poucos anos até à China rural. A mãe de “Ling Ling”, “Xuehua” (Jiang Yihong) é abandonada com uma filha bebé (a jovem “Ling Ling”) nas mãos. “Xuehua” conhece “Pan” (Li Haibin), um projeccionista de cinema. Uma grande ternura nasce entre os dois, e ambos acabam por se casar. “Ling Ling” e o seu amigo irreverente “Dabing”, entram num mundo de sonho, que é o cinema ao ar livre, retrospectivando uma série de películas aconselhadas pela ditadura chinesa, muitas protagonizadas pela actriz Zhou Xuan (uma intérprete chinesa que fez furor na segunda metade da década de 30 até aos anos 50). O mundo idílico da jovem sofre um grande abalo, quando nasce o seu irmão, fazendo com que “Ling Ling” comece a sentir-se relegada para segundo plano. O sentimento de angústia cresce, até desembocar num evento trágico.

Retornados ao presente, “Dabing” apercebe-se que “Ling Ling” era a sua jovem companheira das brincadeiras de meninice e das noites de cinema, e luta para reunir a filha aos seus pais.

"Numa sessão de cinema privada"

"Review"

Em relação a “Cinema Mágico”, Andrew Sun” do “The Hollywwod Reporter” afirmou textualmente “que é o equivalente chinês de Cinema Paraíso”. Uma afirmação bastante temerária por sinal, e que faz questão de ilustrar a edição portuguesa em dvd (e não só)! Estabelecer comparações com uma das melhores obras cinematográficas da história do cinema e pessoalmente a minha preferida, é bastante arriscado e poderá pôr em causa a credibilidade de quem as profere. É um elogio enorme e um tanto ou quanto sensacionalista, que impõe uma pressão devastadora nos ombros de uma película honesta e enternecedora, mas que nem de longe nem de perto, poderá almejar a atingir o estatuto e o significado da obra-prima do cinema italiano.

“Electric Shadows” é a tradução literal da expressão “dian ying”, que é o termo usado pelos chineses cujo idioma é o mandarim, para se referirem a “cinema” (esta palavra que significa tanto para todos nós; portanto se forem algum dia a uma parte mandarim do país, já sabem o que têm a dizer). Esta longa-metragem teve uma aceitação positiva por parte da cena internacional, tendo desfilado nos ecrãs dos festivais de Toronto, Marraquexe, Vancouver e Pusan, sendo elogiada pela crítica, relevando-se sobretudo a simplicidade e o amor ao cinema demonstrado pela realizadora Xiao Jiang.

À semelhança de muitos, um dos meus “calcanhares de Aquiles” são os filmes acerca de cinema, ou que a sétima arte em si tenha um papel preponderante no enredo. Quando existe um cunho bastante pessoal na feitura deste género de películas, as obras ainda marcam mais uns pontos na minha consideração. “Electric Shadows” preenche quase na sua plenitude estes requisitos, sendo uma semi-biografia da realizadora Xiao Jiang. Ao mesmo tempo, estamos perante uma carta de amor aos seus tempos de criança em que não existia televisão ou vídeos na casa dos chineses, e a projecção de cinema ao ar livre era determinante para a ocupação dos tempos livres das pessoas residentes nas províncias mais isoladas.


O enquadramento histórico dos eventos não é esquecido, fazendo-se algumas referências ao regime ditatorial chinês. Tais factos reconduzem-se essencialmente à censura imposta aos filmes e música que eram permitidos chegar aos olhos e ouvidos da população. Igualmente, é curioso observar a influência que as películas do regime causam nas crianças e nas suas brincadeiras quotidianas. “Mao Dabing” (cujo nome significa literalmente “soldado de Mao” - entenda-se o deificado líder chinês Mao Tse Tung ou Mao Zedong), veste-se como um filho do poder instituído e as brincadeiras com os seus amigos enveredam sempre por batalhas fictícias contra os inimigos subversivos do país. Aqui não se pretende fazer uma crítica velada ao regime, mas apenas expor os condicionalismos sociais existentes à altura. Acima de tudo, e como já foi aflorado, é sintomático e perceptível que Xiao Jiang almeja homenagear o cinema, em concreto todos os realizadores e filmes chineses que enriqueceram a sua vida quando era uma petiz. Isto acaba por ter um efeito positivo na nossa cultura cinematográfica, pois é-nos dado a conhecer um pouco da história da cinematografia chinesa, passando à frente dos nossos olhos filmes como “Street Angel” (1937), “Railway Guerrillas” (1956), “The Red Lantern” (1970), “Red Detachment of Women” (1971), “Shining Red Star” (1974) e “The Back Alley” (1981) . Como por vezes é perceptível pelo título, quase todas estas longas-metragens são propagandísticas das virtudes do regime comunista chinês e, já agora, completamente desconhecidas para a minha pessoa. Inclusive existe uma importante referência a uma obra albanesa intitulada "Victory Over Death", protagonizada pela actriz Mila Galani. A tal facto, não passará despercebido a simpatia que o poder político chinês nutria pelo país satélite da antiga União Soviética, comandado durante anos por Enver Hoxha.

"Pan numa projecção de cinema ao ar livre"

O argumento acaba por ser enternecedor e desafiador para os nossos sentimentos. Contudo, é necessário que seja dito que é altamente previsível, e não consegue evitar cair em situações forçadas e incredíveis. A actuação dos actores é genuína, fazendo com que todos nós a aceitemos sob o signo da credibilidade. O destaque irá para a bela actriz Jiang Yihong, cujo amor e luta por algo melhor para os filhos, transcende o ecrã. Quanto à banda-sonora, a mesma é exposta de uma forma competente, acentuando alguns picos mais dramáticos desta longa-metragem.

“Cinema Mágico” constitui, enquanto obra de estreia de Xiao Jiang, um bom esforço impregnado de idealismo e, como é normal, de alguma inexperiência. Contudo é suficiente para que o meu interesse por futuros trabalhos da realizadora esteja despertado. Uma coisa é certa! Tirando o facto de ambos os filmes exporem o amor de alguém pelo cinema e a importância que este tem para a vida de todas as pessoas, é altamente ofensivo comparar este filme a “Cinema Paraíso”. A obra italiana está a anos-luz de distância da película que é objecto deste texto. Curiosamente “Cinema Mágico” constitui até agora a única obra conhecida da realizadora. No espaço de 4 anos nada mais aconteceu, o que nos fará questionar se não houve uma falsa partida na carreira de alguém...

Com interesse!


"Os jovens Mao Dabing e Ling Ling"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Asia

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50






7 comentários:

Su disse...

gostei de ler-te, até poderia começar assim:

O jovem "schinobi" (Ninja) é um moço da autarquia que distribui assinaturas e possui uma paixão pelo cinema, em especial o asiatico..............

como ves eu nem sei o que significa plágio:)))))))))

jocas maradas

Shinobi disse...

Eh, eh, eh! Dava uma história e peras de certeza!

O moço ninja, distribuidor de assinaturas numa autarquia,e que ao mesmo tempo tem uma paixão pelo cinema asiático. Com uma banda-sonora decente, isto até tem pernas para andar, lololol :)!

Beijinho grande!

annabel lee disse...

Eh... não é que "os direitos humanos" no tibete sejam muito diferentes do resto da China. Aliás, as minorias étnicas na china possuem alguns privilégios em relação as próprios 'han' (minoria dominante). A única coisa que de facto não é respeitada a 100% no Tibete é a soberania teocêntrica da religião tibetana. Mas de resto sinceramente acho que é normal o governo chinês reagir contra o extremismo de alguns jovens tibetanos que não passam de terroristas como a ETA. Ou também podiamos gritar 'free País Basco', não é muito diferente, simplesmenta não é na europa, é na ásia. Eu não estou a defender a propaganda comunista, percebes? Simplesmente acho que esta ideia de "free tibete" é um pseudo-progressismo desinformado.

annabel lee disse...

han (étnia dominante e não minoria... :P)

Shinobi disse...

Olá annabel lee!

Antes de tudo queria saudar o teu regresso aos comentários aqui no meu blogue e fazer os meus votos para que o curso de línguas e culturas orientais da Universidade do Minho esteja a ir de vento em popa :) !

Falando agora do assunto em concreto, os argumentos expostos não justificam o facto de o Tibete ter sido um país independente e soberano, que foi ilegitimamente invadido e anexado pela China nos anos ´50. Repara, aqui não estamos a falar de comunistas ou não comunistas. Estamos isso sim a analisar um país ocupado por uma potência muito maior, e que tem direito à sua auto-determinação e livre arbítrio. Quer escolha uma soberania teocêntrica ou não. Isso cabe ao povo tibetano decidir, mediante o proporcionar das condições em liberdade para tal.
Quanto à comparação do extremismo dos jovens tibetanos (reprovável, diga-se de passagem) com a ETA, bem...não podia discordar maís...
A ETA é uma organização terrorista, com uma estrutura organizacional extremamente elevada e que inclusivamente cobra como receita, sob ameaça ou "racketing", os denominados impostos de revolução! O denominado país basco nunca foi uma região independente, e está enquadrado numa nação onde não existe pena de morte e cuja sanção criminal mais elevada são 25 anos de prisão (à semelhança de Portugal). Estamos perante uma democracia, com todos os seus defeitos e virtudes.
A China, embora esteja a minguar a sua cultura repressiva, é uma potência ocupante, onde vigora a pena de morte, e segundo dados fornecidos pela amnistia internacional, executou quase 500 pessoas em 2007, tendo ao mesmo tempo proferido quase 2000 sentenças de morte (das quais muitas se transformarão inapelavelmente em execuções). Isto choca-me imenso, pois sou um claro opositor da pena capital!
A mesma Amnistia Internacional, uma entidade que considero idónea até prova em contrário, tem pugnado pela violação de direitos humanos não só na China, como também no Tibete. Até prova em contrário, tenho esta afirmação por justa...portanto...

Cumprimentos e continuação das excelentes actividades que se desenvolvem por esse lado :) !

Nuno disse...

Amigo Jorge,

Já vi o filme há algum tempo, mas a tua fantástica análise (mais uma)recordou-me alguns aspectos que o avançar da idade se tinha encarregado de olvidar. Direi o mesmo que disse à Helena F. Não sendo uma obra prima é um filme que se vê bem, e o que mais recordo com agrado deste filme é a interpretação de 2 miudos. Concordo com 7 valores.... e que ninguém se atreva a fazer comparações com "Cinema Paraíso"... o melhor filme jamais feito até hoje.

Um abraço amigo

Shinobi disse...

Caro amigo Nuno,

como sempre o teu comentário foi extremamente elucidativo. "Cinema Mágico" é um filme bonito, quenos puxa um bocado pelo sentimento enquanto amantes de cinema. Quanto à interpretação, embora reconheça que a dos dois miúdos está simplesmente enternecedora, daria o prémio à mãe da pequena "Ling Ling" (isto não tem nada a ver com o facto de a actriz Jiang Yihong ser agradável à vista ;), embora também ajude :D ).
Quanto a comparações com "Cinema Paraíso", só mesmo por alguma abordagem temática. A Helena F. no seu texto abordou este aspecto muito bem!

Grande abraço!