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quinta-feira, julho 17, 2008

O Bordel do Lago/The Isle/Seom -
섬 (2000)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 90 minutos

Realizador: Kim Ki-duk

Com: Jung Suh, Kim Yoo-suk, Park Sung-hee, Jo Jae-hyeon, Jang Hang-seon, Kim Yeo-jin, Won Seo

"Hee-jin"

Sinopse

“Hee-jin” (Jung Suh) é uma mulher solitária que dirige uma estância de pesca, num remoto lago sul-coreano. O local tem os seus atractivos próprios, pois os turistas podem pernoitar em cabanas flutuantes, e usufruir dos bens e serviços vendidos por “Hee-jin” que vão desde isco para o peixe, comida, café e até sexo.

"Hyun-shik e Hee-jin, numa das cabanas flutuantes"

Certo dia, “Hee-jin” observa um dos turistas, “Hyun-shik” (Kim Yoo-suk) a tentar cometer suicídio usando uma pistola. A rapariga consegue arrancar-lhe a arma das mãos com um anzol, e a partir daí começa a desenvolver uma estranha obsessão pelo homem. No início começa a resistir aos avanços impulsivos de “Hyun-shik”, mas quando este começa a receber frequentes visitas de uma prostituta, o feitio ciumento e recalcado de “Hee-jin” começa a se revelar.

“Hee-jin” arranja uma maneira de livrar-se da rival e a partir daqui lança-se de corpo e alma num relacionamento amoroso pouco convencional, alicerçado sobretudo em fantasmas do passado. “Hyun-shik” recupera de uma desilusão sentimental portentosa que acabou em tragédia. Por sua vez, “Hee-jin” combate a sua solidão emocional na satisfação dos anseios do seu amante. Sob um fundo natural de sonho, a paixão revela-se de uma forma pouco comum e por vezes grotesca.

"O lago"

"Review"

Para não variar e à semelhança da maior parte dos filmes de Kim Ki-duk, “O Bordel do Lago” (doravante apenas “The Isle”) foi uma película aclamada nos circuitos intelectuais de cinema no estrangeiro. Pelo contrário, no país do realizador, esta longa-metragem foi deveras criticada pela negativa, tendo sido atacada por tudo o que era crítico de cinema doméstico. Tendo feito furor nos festivais de Veneza e Sundance, mesmo assim correm rumores que não terá sido uma película de fácil visionamento para alguns espectadores. Contam-se histórias de pessoas a vomitar ou a desmaiar nas cenas mais mórbidas de “The Isle”, assim como a tapar os olhos ou simplesmente a abandonar a sala de cinema. Mesmo assim, esta longa-metragem viria a ser nomeada para o Leão de Ouro de Veneza, merecendo uma especial menção nesta competição. Mas onde a longa-metragem viria a brilhar mais seria, claro está, no “nosso” Fantasporto – edição de 2001, que nestas coisas, anda sempre muito à frente! Dois prémios e uma nomeação para o melhor filme dariam para que esta película marcasse o conhecido certame português de cinema.

Merecerá “The Isle” uma fama tão grotesca, gerando amores e ódios, dividindo desta forma as opiniões de uns e outros? Bem, a resposta é sim. E porquê?

A primeira ideia a reter acerca de “The Isle” é que estamos perante um género de poesia doentia, pintada com laivos de genialidade. A segunda marca que fica é que esta obra está impregnada de algum exagero chocante, certamente requisitado, que nos aflige sentimentalmente. Isto ajuda a transmitir uma visão diferente e pouco convencional do amor, onde a maioria de nós certamente não se reverá, mas que não deixa de ter uma pujança tremenda. O que de mais fascinante existe no cinema de Kim Ki-duk é o carácter marcadamente pessoal e estimulante das suas obras, que em muito desafia as nossas mentes. Alie-se estas características a uma beleza visual de nomeada, para termos o estilo próprio de um dos melhores realizadores asiáticos da actualidade. O filme é um claro reflexo desta faceta do realizador, e que em obras futuras viria a ser, digamos, mais refinada.

Em “The Isle” somos forçados a nos confrontar com situações que não são de fácil resolução para o comum do espectador, no qual me incluo. Igualmente, deparamo-nos com o lado mais grotesco do desejo e do amor, faceta que admiro do ponto de vista de saber fazer cinema, mas que confesso, não absorve a minha predilecção pessoal. Quando se fala destes sentimentos tão nobres, eu ainda sou daqueles seres mais básicos que gosta de ver um drama bem interpretado, mas que de alguma forma contenha predicados tradicionalistas no sentido de “forçar até certo ponto”. Por esta razão, “The Isle”, com a sua visão crua, e atrever-me-ia a dizer horrenda, da paixão, não é o meu género de romance. Não deixa de ser arte da melhor qualidade, simplesmente não é o meu tipo e pronto! É certo que não se poderá ter uma visão tão redutora, no sentido de considerar esta obra como sendo apenas uma história de amor. As incidências que se passam ao longo do filme, indicam muito mais do que isto, sobretudo pela extrema densidade humana com que tudo nos é apresentado. Mas é inegável que o relacionamento sádico de “Hee-jin” e “Hyun-shik” dominam a trama, e tudo gira à volta deste casal peculiar.

"Hee-jin nas profundezas do lago"

Definitivamente, “The Isle” não é aconselhável para algumas pessoas mais sensíveis, e principalmente para os que possuem uma obsessão pelos chamados direitos dos animais. Existem tratamentos gratuitos para com peixes e rãs que segundo o realizador Kim Ki-duk são mesmo reais. Neste particular, achei algo impressionante a forma como um casal mutila parcialmente um peixe, fazendo “sushi” e a seguir solta-o impunemente pelo lago. Causa algum asco ver o pobre do peixe a nadar, quando deixou um terço de si para trás. Mas pior ainda são os anzóis! Oh, meu Deus os anzóis! Aquando da exibição do filme existem duas cenas que causaram grande controvérsia e que têm a ver directamente com este instrumento tão caro aos pescadores. A que se passou com “Hyun-shik” ainda consegui “engolir” a custo (passe o trocadilho; quem viu a película certamente perceberá), mas a que sucede com “Hee-jin” é simplesmente forte demais. É um caso deveras marcante no domínio da tortura auto-infligida, e que tão cedo não cairá no esquecimento daqueles que tiveram a oportunidade em visionar esta longa-metragem. O que ainda torna estas cenas todas mais marcantes (aqui ressalta verdadeiramente o génio de Ki-duk) é que tudo isto é feito sob os auspícios de um dos mais belos cenários naturais constantes de um filme. Existe uma antítese entre o actuado e o pano de fundo que não está ao alcance de qualquer um. A cena final é bastante sintomática deste aspecto e ao mesmo tempo constitui uma daquelas imagens que tudo explica mas ao mesmo tempo deixa interrogações importantes.

No entanto, não se pense que “The Isle” é um filme de terror. Como já cima foi dito, é um romance cicatrizado de existencialismo. O amor, a paixão e o desejo estão todos lá e em quantidades astronómicas. Simplesmente existem uma pluralidade de situações em que Ki-duk decide efectivamente envergonhar o Marquês de Sade na abordagem que faz a um relacionamento pouco convencional, tornando-o por vezes num sonho e noutras um verdadeiro pesadelo físico e psicológico. Honra seja feita, o objectivo foi conseguido.

O estilo de representação é bastante característico das obras de Ki-duk, com os olhares e os movimentos a sobreporem-se por diversas vezes aos diálogos. Isto é particularmente evidente na representação da actriz Jung Suh, que só por uma única vez se faz ouvir no filme, quando grita de dor que nem uma desalmada (pudera!!!). Contudo, e como já tinha referido aquando do texto acerca de “Ferro 3”, o realizador sul-coreano é um verdadeiro mestre na arte de dirigir os actores, proporcionando que os mesmos se desinibam . A escolha do elenco com certeza também deverá ser criteriosa, pois não é qualquer um que terá estrutura mental e talento para protagonizar as exigentes películas de Ki-duk.

“The Isle” constitui uma obra de inegável mérito no panorama cinematográfico, embora tenhamos de convir que estará longe de gerar consensos, incluindo o meu. Sem margem para dúvida que prefiro as obras posteriores de Ki-duk, em especial a fase pós-2003, com “Primavera (...)” e sucedâneos! A partir desta fase em concreto, o realizador demonstra uma clara maturidade no sentido de provocar a admiração, a miríade de sentimentos, e porque não dizer, o choque, de uma maneira muito mais subtil, mas nem por isso menos efectiva. Na minha opinião pessoal, “Samaritana” até hoje é o seu auge.

A ver com bastante atenção e já agora com algum estômago. No entanto, não nos podemos esquecer que acima de tudo estamos perante um grito de dor, seja físico ou, ainda mais provável, emocional.

"Hyun-shik socorre Hee-jin, como corolário de uma das situações mais chocantes do filme"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Asia

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





6 comentários:

tf10 disse...

O Ki duk é um bom exemplo de um realizador desprezado no próprio país e reverenciado internacionalmente. Isto serve para mostrar que não é só em Portugal - como muitas vezes se diz - que isso acontece! Mas nós temos também exemplos, desde o grande Manoel de Oliveira até ao genial João césar Monteiro! Infelizmente......

Vi o "The Isle" justamente no nosso Fantas no longínquo ano de 2001 se não estou em erro e é seguramente dos meus favoritos do grande Ki duk! É um dos filmes da sua linha mais "dura", que já vinha de trás com "Real Fiction", "Wild Animals" e se manteve com "Address Unknown" ou "Bad Guy"! Faço sempre questão de avisar que este "The Isle" não será aconselhável para quem se estiver a iniciar no universo Kidukiano, porque é sem dúvida dos mais agressivos! Pessoalmente (e percebi que, ao contrário de ti) eu gosto do drama bem visceral, crú, austero e sem embelezamentos. Isso (entre outras coisas) explica, por exemplo, o facto de venerar os autores da chamada 6º geração do cinema Chinês! Puro e duro! eh eh :)
No caso do Ki duk este "The Isle" é um dos melhores exemplos da violência (fisica e sobretudo psicológica) e da carga áspera do seu cinema!

abraço!

Shinobi disse...

Olá tf10!

Os exemplos que deste do nosso país foram felizes, pois efectivamente grandes nomes como Manoel de Oliveira ou César Monteiro são mais considerados no exterior do que em Portugal. E acho que neste aspecto estou à vontade para falar, pois embora reconheça a importância da sua obra, não sou fã de nenhum dos dois :) .

Em relação a Kim Ki-duk, efectivamente o mesmo se passa. Julgo que a explicação passará em parte pelo facto do cinematografia sul-coreana estar mais virada para o romance cor-de-rosa, com os mais variados exemplos (alguns que até gosto batante). Pois eu contrário de ti, não sou muito apreciador do tal drama crú e sem embelezamentos, embora existam algumas excepções. A título exemplificativo, adoro a trilogia da vingança do Park Chan-wook, assim como a fase de Ki-duk pós-2003, que contém algumas coisas bem "pesadas" ;)! Quanto à 6ª geração do cinema chinês, confesso que não sou grande apreciador (prefiro a 5ª geração), mas até aí existem filmes de grande gabarito artístico que aprecio.

"The Isle" é um filme de uma qualidade soberba, isso é inegável. Simplesmente, e como te apercebeste e bem, não faz muito o meu género, eh, eh, eh!

Grande abraço!

Nuno disse...

Caro Jorge

Directamente de Santorini, para dizer-te que, como sabes, Kim Ki-duk é um dos meus realizadores preferidos, e este "The Isle" um dos filmes que mais gosto deste realizador. Falta-me ver "Adress Unknown" que comprei recentemente em Madrid, mas a filmografia deste homem é, para mim, simplesmente fantástica.
Quem viu outros filmes de Kim Ki-Duk, como "Primavera, Verão..." ou "Ferro 3" ou mesmo "Time" e a "Samaritan Girl" tem que se mentalizar para ver drama puro e duro. Um filme sensacional deste mestre do cinema asiático.

Um Abraço

Shinobi disse...

Olá Nuno!

Antes de tudo espero que as férias estejam a correr pelo melhor! Tenho a certeza que sim!

Eu também gosto bastante deste realizador e dos seus filmes em geral. Mas como já disse ao tf10, sou mais fã da sua fase pós-2003.

Este "The Isle" é um bom filme, mas o meu gosto não se compadece muito com a crueza, sendo os filmes de Ki-duk uma excepção. Mesmo assim, e sem querer retirar o mérito a uma película de qualidade inegável, aqui acho que por vezes se foi longe demais. Mas é como digo, é tudo uma questão de opiniões ;) .

Grande abraço!

Anónimo disse...

Subscrevo: não foi a melhor forma (filme) para me iniciar no universo de Ki duk. Pela primeira vez, na vida, me senti mal a ver a porcaria (o que no momento pensei) de um filme!!! Ainda bem que estava em casa...respirei ar muito fresco da noite, baixei a cabeça e decidi...és parva, ele é parvo, não somos assim...o tanas não somos...passados 5 minutos (da minha vida - eu e a Vida)vejo tudo de novo (já com estômago) e ávida de conhecer/ver tudo o que produziu.

escapimos

Shinobi disse...

Olá anónimo!

"The Isle" constitui um bom exercício de Ki-duk. É uma película poderosa e extremamente marcante. No entanto, não tenho dúvidas que o realizador sul-coreano elevaria o seu nível em obras posteriores!

Abraço!