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quarta-feira, abril 25, 2007

Samaritana/Samaritan Girl/Samaria - 사마리아 (2003)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 95 minutos

Realizador: Kim Ki-duk

Com: Kwak Ji-min, Seo Min-jeong (aka Han Yeo-rum), Lee Eol, Woo Yong, Park Geong-gi, Jeong In-gi

"Yeo-jin segura na lista de clientes, sob um fundo outonal de sonho"

Estória

“Yeo-jin” (Kwak Ji-min) e “Jae-yeong” (Seo Min-jeong) são duas jovens estudantes de liceu, unidas por uma grande amizade. As raparigas parecem levar uma vida normal de adolescentes, no entanto a realidade demonstra que isto não é bem assim.

Em ordem a terem possibilidades financeiras que lhes permita viajar até à Europa, fazem uma parceria que passa por “Jae-yeong” se dedicar à prostituição, enquanto “Yeo-jin”, à semelhança de um “manager”, arranja os clientes e faz a gestão do dinheiro ganho com a ilícita actividade.

Apesar de estarem unidas por um objectivo comum, as raparigas têm perspectivas antagónicas acerca da situação que ambas vivenciam. “Jae-yeong” encontra a felicidade em dormir com homens mais velhos a troco de dinheiro, acreditando que é uma moderna incarnação de Vasumitra, uma lendária prostituta indiana que convertia homens ao budismo, através do sexo. Por outro lado, “Yeo-jin”, apesar de não ter contacto físico com os clientes, sente-se impura por estar envolvida no esquema, e de certa forma culpada por permitir que a amiga se sujeite a tais actos.

Após um acidente trágico que envolve “Jae-yeong”, “Yeo-jin” sente a necessidade de expiação pelos seus pecados, e arranja uma forma pouco convencional de o fazer. Começa a dormir com os clientes da amiga, mas em vez de receber os proveitos do seu trabalho, devolve-lhes o dinheiro que anteriormente foi cobrado por “Jae-yeong”.

O pior acontece quando o pai estremado de “Yeo-jin”, um polícia de Seul, descobre as actividades da filha e, inconformado, resolve pôr cobro à situação.

"O pai de Yeo-jin sofre imenso com a vida da filha"

"Review"

Kim Ki-duk é um dos mais conhecidos e controversos realizadores da Coreia do Sul, tendo a fama de ser mais apreciado no exterior, em especial na Europa, do que propriamente na sua terra-natal. Tal já deu azo a confrontações verbais, em que o realizador, após o fracasso de bilheteira na nação sul-coreana de um dos seus filmes, ameaçou que iria embora do país, e nunca mais aí realizaria produções cinematográficas. Posteriormente, Ki-duk retratar-se-ia desta afirmação. De qualquer forma quando estamos a falar de um realizador de longas-metragens como “The Isle”, “Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring”, “3-Iron” e este “Samaria”, há que reconhecer o mérito do coreano e admitir que estamos perante um dos melhores realizadores asiáticos da actualidade. Esta premissa assume ainda mais acutilância, quando Ki-duk escreveu praticamente todos os argumentos dos seus filmes.

“Samaritana” não será um filme fácil de digerir para muitos de nós, atendendo à controvérsia em que se vê envolto, versando acerca da prostituição juvenil e das suas motivações, para além das trágicas implicações no seio de uma família, ou melhor dizendo, de várias famílias.

O argumento afigura-se quase excepcional, estando dividido em três partes, a saber, “Vasumitra”, “Samaria” e “Sonata”.

Em “Vasumitra”, é-nos apresentada a relação entre as duas amigas, onde podemos acompanhar os seus périplos pela actividade a que se dedicam. Aqui embora “Yeo-jin” tenha o seu quê de importância na estória, a trama centra-se sobretudo em “Jae-yeong” e nas razões que a levam a prostituir-se e que não passam apenas pelo dinheiro. O conflito muitas vezes desencadeia-se entre ambas, mas acabam sempre por se apoiarem, embora “Yeo-jin”, em assomos de moralidade, insista sempre em lavar sofregamente a amiga, como se quisesse lhe retirar toda a sujidade e impureza do mundo, tanto física, como moral. A primeira tragédia acontece.

“Samaria” constitui a parte central da trama, e a mais longa. Observa-se a transição de “Yeo-jin”, como gestora do “negócio”, para a prostituta. Porventura, o termo “prostituta” aqui não é bem aplicado, pois a rapariga devolve o dinheiro anteriormente pago pelos clientes, à medida que os vai riscando da lista pertencente a “Jae-yeong”. O pai de “Yeo-jin” revela-se finalmente, e assume uma importância fulcral na batalha de sentimentos que aqui se desenrola. Sentimos o seu angustiante sofrimento, e a sua luta longe dos olhares de “Yeo-jin”, para que os propósitos dos clientes resultem frustrados. É-nos dado a visionar das mais belas e significativas cenas desta longa-metragem. A da voz da filha no telemóvel é particularmente tocante. Neste segmento só pensamos “Se fosse a minha filha, o que é que eu faria?”

Finalmente chegamos a “Sonata”, em que as coisas parecem estar a compor-se. Aqui é que verdadeiramente Kim Ki-duk demonstra o expoente máximo da sua capacidade em contar uma estória, ao fazer com que nos deparemos com duas opções.Uma trágica e que nos atinge como um valente estalo na cara, outra serena e terna, que nos faz sorrir. Encapotada surge uma terceira, que se consubstancia no epílogo e acaba por ser uma grande lição de vida! É tremendo como nos conseguem fazer sentir tantas sensações díspares, num tão curto espaço de tempo!

"Yeo-jin carrega a tragédia de Jae-yeong"

A interpretação dos actores, e em especial das actrizes, é de uma grande valia artística, o que ainda assume mais mérito quando estamos a falar de praticamente estreantes no mundo da sétima arte. Seo Min-jeong, a actriz que interpreta “Jae-yeong” (porque não dizê-lo Vasumitra) debutou em “Samaritana”. Kwak Ji-min, a moralista decadente “Yeo-jin” (já agora a “Samaritana”) por sua vez, só tinha entrado em “Whispering Corridors 3: Wishing Stairs”, uma película de terror. Ambas agem como verdadeiras profissionais, e parece que já possuem grande experiência e talento. Cumpre igualmente parabenizar Lee Eol, o pai da “Samaritana”, que verdadeiramente nos deslumbra nas partes em que sofre pelo comportamento da filha. Mesmo assim o que eu gostaria mesmo era de ver Choi Min-sik a representar este papel. O filme seria perfeito!

E a fotografia, senhores! Um tempero de paisagens de sonho e de estética nua e crua, sem falha de maior que se aponte, sempre em perfeita consonância com os vislumbres sentimentais que se pretendem ver passar.

“Samaritana” constitui um filme de elevadíssimo nível que, não sendo fácil de apreender, despertará sentimentos no corpo e na alma dificilmente olvidados ou esquecíveis. Um dos justos vencedores do Festival Internacional de Cinema de Berlim – edição de 2004.

Muito bom!

"A fúria de um pai"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Ásia, Axasteoquê?, Play It Again

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,38




5 comentários:

Bakemon disse...

É um dos meus preferidos do Ki-Duk. As mortes são de dar inveja a Park Chan-Wook e a trilogia de vingança. A sequência do pai de família que se mata após um jantar é magnífico.

Shinobi disse...

Pois é Bakemon, este filme de facto tem uma qualidade muito acima da média, e pessoalmente também é dos meus preferidos do Kim Ki-duk. Quanto à comparação com a trilogia da vingança, prefiro não dar opinião, pois é daqueles casos em que se costuma dizer "venha o diabo e escolha". A sequência do pai de família que se mata após a refeição é sem dúvida das melhores cenas que o filme oferece! Já agora Bakemon, permite-me que te dê os parabéns pelo excelente blogue, do qual sou frequentador assíduo, assim como por teres posto um link para o "My Asian Movies".

Abraço!

Rui Luís Lima disse...

este cavalheiro é surpreendente, Kim Ki-Duk, já lhe fixámos o nome!
um abraço cinéfilo
paula e rui lima

Shinobi disse...

É um excelente realizador, não duvidem disso! Penso que em breve, farei mais uma crítica de um filme dele. O difícil é escolher!

Abraços cinéfilos!

Mr. Sombra disse...

Ótima crítica. Leia também: http://cinelevesresenhas.blogspot.com/2011/11/samaritana-2004.html