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sábado, maio 23, 2009

Peppermint Candy/Bakha satang - 박하사탕 (1999)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 130 minutos

Realizador: Lee Chang-dong

Com: Sul Kyung-gu, Moon So-ri, Kim Yeo-jin, Koh Seo-hee, Seo Jeong, Park Ji-young, Park Se-beom, Lee Dae-yeon, Kim Kyoung-ik

"Eu quero voltar para trás!!!"

Sinopse

Em 1999, um homem de fato, aparentemente perturbado, chega a uma reunião de antigos companheiros do liceu, que ocorre ao pé de um rio e nas imediações de um caminho de ferro. As pessoas reconhecem o estranho como “Yong-ho” (Sul Kyung-gu), um companheiro de turma que não tinham conseguido contactar de forma a que o mesmo pudesse estar presente no encontro. No meio das festividades, “Yong-ho” dirige-se para o caminho-de-ferro, coloca-se à frente de um comboio em andamento e antes de ser atropelado, grita a plenos pulmões “Eu quero voltar para trás!!!”.


"Yong-ho e a pseudo Sum-im"

A partir daqui somos transportados para várias fases do passado de “Yong-ho”. Três dias antes da desesperada acção do protagonista, entendemos que este perdeu tudo o que tinha na vida, desde a mulher, a filha, o emprego e o seu dinheiro. Nesta fase, “Yong-ho” tem igualmente a oportunidade de ver pela última vez o seu verdadeiro amor “Sum-im” (Moon So-ri), que se encontra internada no hospital em coma. Em contínuas analepses, é-nos apresentado o casamento infeliz de “Yong-ho” com “Hong-ja” (Kim Yeo-jin), as suas tácticas brutais quando era agente da polícia e o incidente trágico que ocorreu quando prestou serviço militar no exército. Finalmente chegamos ao ano de 1979, em que vemos um jovem “Yong-ho” sonhador, bastante diferente do que viria a tornar-se vinte anos depois.

"À espera de alguém que nunca chega"

"Review"

Quantas vezes ao longo da nossa vida, encontramos pessoas que nos fazem questionar acerca dos motivos que as levam a tomar atitudes desesperadas ? Inclusive a muitos de nós já nos aconteceram situações que moldaram o nosso carácter, de uma forma que não gostamos e que influencia negativamente as nossas vidas. O que poderá levar alguém ao desespero total ? Como é que se chegou a este ponto? São estas premissas que são profusamente tratadas em “Peppermint Candy” e que redundam numa história muito palpável e real. Os eventos postos perante os nossos olhos, poderiam suceder a qualquer um e por esta razão, em determinado momento específico existe uma identificação do espectador com as agruras de “Yong-ho”. Pelo exposto, o primeiro ponto a reter é que “Peppermint Candy” possui um impacto psicológico extremamente forte e denso.

A vida pode ser uma verdadeira locomotiva em andamento, e quando por vezes paramos para reflectir, apercebemo-nos que o tempo passou de uma forma veloz, escapando à nossa percepção imediata. Dizem que este efeito tende a acentuar-se à medida que as pessoas vão envelhecendo, e eu tendo a concordar com esta premissa. O comboio do tempo marca várias vezes a sua presença em “Peppermint Candy”, aparecendo num tom premonitório e de viagem pela vida de “Yong-ho”, marcando a transacção entre as diversas subhistórias da personagem principal, com os seres e as paisagens a se moverem num efeito “rewind”. Esse comboio do tempo é personificado materialmente por um...comboio, que serve igualmente de instrumento para que “Yong-ho” dê corpo à suprema loucura e suicide-se. Isto não é um “spoiler”, pois a cena acontece nos primeiros cinco minutos desta película, para além do facto de estar reflectida na maior parte dos “posters” e capas que deram publicidade a “Peppermint Candy”. Através das várias vivências de “Yong-ho”, e à semelhança de outras obras sul-coreanas, podemos observar alguns dos momentos que marcaram a história daquele país. Um grande exemplo passa pelo grande movimento estudantil dos anos '70, em que vários jovens amotinaram-se de forma a provocar uma profunda transformação sócio-cultural na Coreia do Sul.

"O desespero de alguém que perdeu o sentido da vida"

A narrativa não deve muito à acção e ao movimento, pugnando por expressar-se de uma forma contida e metódica. Isto não significa que “Peppermint Candy” seja chato ou entediante. O realizador Lee Chang-Dong aposta muito no simbolismo das situações e numa panóplia variada de eventos, tendo em vista apresentar uma miríade de emoções e pontos de vista. Não se pense que tal aspecto degenerará em confusão, enevoando a percepção do espectador relativamente aos acontecimentos. Pelo contrário. Clamando pela nossa sensibilidade e particular atenção, entendemos os motivos que norteiam as acções de “Yong-ho”, embora exista claramente um apelo à predestinação e à ideia basilar que nós não podemos escapar ao que o fado reservou para nós. Em certas situações, é transmitido que “Yong-ho” é apenas um peão ou uma peça de uma máquina em movimento que se reconduz a um mundo e a uma sociedade em transformação. Aqueles que, como eu próprio, muitas vezes procuram o cinema como uma forma de escape à realidade, não deverão se aventurar por “Peppermint Candy” pela simples razão de ele nos atirar contra uma trama muito sombria e crua mas, insisto, tremendamente verdadeira. O que sucede é palpável, mesmo que para alguns de nós, bafejados pela sorte, não o seja.

O actor Sul Kyung-gu é fantástico no papel de “Yong-ho”. Consegue adaptar-se de uma forma extremamente competente e versátil em cada fase da vida da personagem, revelando múltiplas facetas e personalidades em função do estado de espírito de “Yong-ho” e da época em que ocorre a trama. Como é normal em função do argumento, Kyung-gu é a âncora do filme e tudo gravita em torno dele e da sua representação de uma alma inicialmente singela e inocente e por fim torturada. Ou será o contrário?!

“Peppermint Candy” é uma viagem pela essência de um ser humano que se torna gradualmente mais escura, embora a película faça um percurso inverso na exposição da história, optando pelas já citadas analepses. Atravessa a inocência de jovens comportamentos, passa pelo cruel despertar para aspectos menos positivos da vida e desemboca no mais penoso desespero pessoal. Trata-se de uma obra intelectualmente estimulante, sem se desligar de momentos que verdadeiramente nos partem o coração. Acima de tudo, tem o condão de nos fazer pensar acerca de variadíssimos aspectos do nosso quotidiano e nas consequências que os mesmos poderão ter um dia mais tarde. Trata-se, sem margem para qualquer dúvida, de mais uma boa proposta do profícuo cinema sul-coreano que destila beleza através da dor e sofrimento. Ah, é verdade! Todos conhecem muito bem esta frase, mas não custa repeti-la: “O tempo não volta para trás...”.

Vale bem a pena conferir!

"Vinte anos depois, Yong-ho vai a uma reunião dos seus antigos colegas"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





2 comentários:

Nuno disse...

Amigo Jorge,

A verdade é que já por várias vezes tive para comprar este filme e nunca o fiz porque nunca tinha lido nada sobre ele e limitava-me a ter como referência a classificação (alta) do IMDB.
Depois de mais uma fantástica analise feita por ti, vejo que fiz mal em não comprá-lo.
À proxima oportunidade ...compro.

Um Abração

Shinobi disse...

Vale bem a pena ver esta película. Está impregnada de humanidade, embora seja inevitavelmente triste. Faz-nos pensar.
Um bom filme, sem dúvida nenhuma!

Grande abraço, Nuno!