"MY ASIAN MOVIES"マイアジアンムービース - UM BLOGUE MADEIRENSE DEDICADO AO CINEMA ASIÁTICO E AFINS!!!

domingo, janeiro 03, 2010

“Testemunhos” de Luis Peres (“Cinema ao Sol Nascente”)

Foto

O convidado desta semana é o Luis Peres, administrador do blogue “Cinema ao Sol Nascente” (para aceder, cliquem na foto). O Luis é um desenhador gráfico, com 39 anos, que resolveu apostar, e bem, nas lides da sétima arte oriental, expressando contributos através do seu interessante espaço. Foi com imenso agrado que vi aparecer mais um espaço português dedicado ao cinema asiático surgir, ainda por cima numa altura em que o “Cine Asia” infelizmente findou e o Luis Canau teima em nos privar dos seus elucidativos textos. O Luis Peres brinda-nos com imensa descontracção na abordagem que faz dos filmes que coloca no seu blogue, além de facultar imensa imensa informação acerca das películas, facultando sugestões de visionamento, compra dos dvds, entre muitas outras coisas. Sem dúvida, o “Cinema ao Sol Nascente” deve ser conferido por todos aqueles que nutrem interesse pela cinematografia oriental.

Abaixo segue a entrevista.

“My Asian Movies”: O que achas que distingue genericamente a cinematografia oriental das demais?

Luis Peres : A maneira como normalmente as personagens são trabalhadas e desenvolvidas. Ao ponto de conseguir uma coisa que eu julgava impossível, produzir cinema para adolescentes com muita alma e por vezes um sentido poético completamente inesperado. Um filme teen oriental não é de forma nenhuma a banalidade que normalmente é produzida em Hollywood e isso surpreendeu-me. Obras como o “The Classic” ou até mais recentemente “Midnight Sun” são bom exemplo disto.
Outra coisa de que não estava à espera era de encontrar uma qualidade de efeitos especiais absolutamente extraordinária que rivaliza com qualquer filme americano hoje em dia. Quem ainda pensa que os filmes orientais são apenas Kung-Fu com fios, se calhar vê um
“Natural City”, ou um “Assembly” e fica um bocado surpreendido pois ao contrário do que é habitual nos filmes de efeitos especiais americanos, no caso oriental estes estão lá mais para servir a história do que para meter pinta e isso faz com que toda qualidade de uma obra se destaque.


“M.A.M.”: O que te fascina mais neste tipo de cinema?

L.P. : A humanidade dos personagens que normalmente transcende até a história mais ridícula ou exagerada que nos possa aparecer pela frente. A criatividade de alguns argumentos que não hesitam em correr riscos com temas que jamais seriam tratados no cinema americano. A forma como alguns filmes conseguem passar da comédia, ao drama e até mesmo ao terror sem nunca perderem a sua identidade ou parecerem forçados. Essencialmente a naturalidade como os orientais conseguem trabalhar uma data de referências diferentes sem que ás vezes se perceba que tipo de filme estamos a ver.

“M.A.M.”: Tens ideia de qual o primeiro filme oriental que visionaste?

L.P. : Há uns anos atrás, tinha pura e simplesmente deixado de ir a clubes de vídeo pois já não podia mais com cinema americano. Tudo me parecia igual, tudo pré-fabricado e estava mesmo desesperado por recuperar aquela magia de ver cinema que me entusiasmasse e surpreendesse.
Por causa da fama do filme na altura comprei o dvd do
RINGU mas fiquei muito decepcionado pois o filme não me assustou minimamente e muito menos me impressionou enquanto cinema. Estive mais uns meses sem ver grande coisa, pois cada dia que passava o cinema americano parecia mais transformado num produto para teenagers ou então pior, pseudo cinema de autor com pretensões a cinema europeu.
Um dia, um amigo meu que trabalhava num clube de vídeo, sugeriu que espreitasse o “In the Mood For Love” do Wong Kar Wai e passei-me com a atmosfera, estilo visual, maneira de contar a simplicidade de toda a história, etc.
A partir daí, comecei à procura de tudo o que pudesse existir de semelhante e a partir de um site chamado KFC Cinema fui explorando um a um todos os filmes que me pareciam interessantes.
Até que cheguei a
IL MARE e pronto, já não consegui mais parar.


“M.A.M.”: Qual o país que achas, regra geral, põe cá para fora as melhores obras? No fundo, a tua cinematografia oriental favorita?

L.P. : A resposta é simples mas ao mesmo tempo complexa porque acho que acaba por ser sempre injusta, mas essencialmente, para mim ninguém bate a China a fazer épicos históricos estilo Wuxia, a Coreia do Sul é absolutamente notável a produzir histórias de amor muito humanas a partir das histórias adolescentes mais básicas e o Japão é muito bom a criar filmes de terror doentios e originais muitas vezes com bastante estilo kitch.
Da Tailândia não tenho grande opinião pois acho o cinema deles algo ambíguo e ligeiramente ocidentalizado...ainda estou a explorar.

“M.A.M.”: E já agora, qual o género com o qual te identificas mais? És mais virado (a) para o drama, épico, wuxia, “Gun-fu”...

L.P. : A partir de “In The Mood For Love”, “Il Mare”, “My Sassy Girl”, “Be with you” e “The Classic”, posso dizer que definitivamente o meu estilo favorito é mesmo o cinema romântico oriental.
O que não deixa de ser estranho pois até encontrar o cinema asiático, a coisa que mais detestava ver eram filmes de amor … ao estilo Hollywood (exceptuando o Casablanca) claro pois já não podia mais com a banalidade das pseudo-love-stories americanas feitas a metro. Especialmente as tretas feitas para adolescentes.
No entanto, quando vi os primeiros filme românticos asiáticos fiquei absolutamente cativado pela forma como conseguem criar emoção e transportar o espectador para o interior de muitas histórias por vezes aparentemente banais apenas pela forma como sabem humanizar os personagens.
O oriente consegue até produzir uma coisa que julgava impossível, cinema romântico adolescente, para adolescentes e com adolescentes mas com muita identidade emocional verdadeiramente genuína e por vezes adulta.
Há qualquer coisa no cinema romântico oriental que os americanos jamais conseguirão reproduzir como se viu bem pelos inacreditavelmente maus remakes gringos de “Il Mare” transformado no hilariante “The Lake House” ou com o totalmente desprovido de poesia “My Sassy Girl” versão Nova York onde se provou que não bastava ter uma gaja doida na história para conseguir reproduzir a mesma alma do fabuloso original Sul Coreano.


“M.A.M.”: Uma tentativa de top 5 de filmes asiáticos?

L.P. : Ok, mas sem ordem de preferência, pois para mim estão todos no topo:
1- Be With You (Japão)
2- Natural City (Coreia do Sul)
3- My Sassy Girl (Coreia do Sul)
4- In the Mood for Love (China)
5- Il Mare (Coreia do Sul)
E se quiseres mais dois , “A Tale of Two Sisters” e “Cyborg She”

“M.A.M.”: Realizador asiático preferido?

L.P. : Wong Kar Wai nesta sua fase moderna e mais comercial (In the Mood for Love, 2046, My Blueberry Nights), e Jae-young Kwak (My Sassy Girl, Cyborg She, The Classic).

“M.A.M.”: Já agora, actor e actriz?

L.P. : É-me completamente indiferente.

“M.A.M.”: Um filme oriental sobrevalorizado e outro subvalorizado?

L.P. : Sobrevalorizado é fácil, toda a filmografia do Tsui Hark. Jamais irei compreender como raio é que este tipo é tão conceituado, pois ainda não vi um único filme dele que não sofresse de uma enorme falha na estrutura narrativa, montagem, personagens sem interesse, ritmos incoerentes, acção sem qualquer emotividade, etc. Para mim é um dos piores realizadores orientais de sempre pois os filmes dele dão-me sono.
Subvalorizado... talvez os excelentes “The Princess and the Warriors” e
“The Promise”, quanto a mim dois perfeitos exemplos do bom cinema ultra comercial com tiques de história romântica pirosa, mas que nem por isso deixam de ter os seus bons momentos de acção e serem bastante poéticos no desenlace da história de amor. Previsíveis, mas não menos divertidos e atmosféricos, sendo o exemplo perfeito do estilo de fantasia oriental plenamente baseado no seu género de contos populares.

“M.A.M.”: A difusão do cinema oriental está bem no teu país, ou ainda há muito para fazer?

L.P. : A difusão está óptima. Cada vez vejo mais dvds nos cestos de promoções dos hipermercados. Há muito por onde escolher, desde Jackie Chans e Jet Lis dos anos 80 editados em 4:3, com som em mono, até épicos históricos como o novo “The Warriors” cortado dos lados, o “A Tale of Two Sisters” editado em Pt num dvd com imagem de VHS e som em stereo. Não esquecendo ainda a genial edição do “Natural City” numa cópia dvd em Portugal com uma imagem (MUITO) pior do que o dvd rip da edição oriental original sacada da net.
Temos ainda depois os Anime dobrados em português nos cinemas, sem opção para vermos as versões originais nas salas (afinal toda a gente sabe que os desenhos animados são filmes para putos) e as ocasionais mostras de cinema oriental carregadas apenas de Tsui Harks e filmes de kung-fu que contribuem imenso para a imagem de que não há mais nada na Ásia para se ver.
Tirando isto a divulgação do cinema em Pt não podia estar melhor...especialmente quando aqui em Portimão há três salas a passar o “This is it” do Miguel Jackson, mas nem sequer há planos para passar a versão remontada, para americano ver, do
“Red Cliff”.

“M.A.M.”: Que conselho darias a quem tem curiosidade em conhecer o cinema oriental, mas sente-se algo reticente?

L.P. : Viva a pirataria !
Eu não entendo como ainda vêem com a conversa de que a pirataria prejudica a indústria das vendas de filmes. As pessoas que eu conheço que simplesmente não compram nem nunca compraram filmes, não vão começar a comprar por deixar de haver pirataria, MAS as pessoas que como eu gostam MESMO de cinema, não vão deixar de comprar um dvd só porque primeiro sacaram ou viram o filme na internet.
Aliás, pelo menos comigo os estúdios orientais já ganharam mais dinheiro à custa da pirataria do que se eu nunca tivesse sacado um filme, pois em tudo aquilo que eu saco só para ver se me poderá agradar, pelo menos em 99% dos casos compro de seguida o dvd.
Inclusivamente, por exemplo, saquei meses atrás o filme “Assembly” mas logo nos primeiros vinte minutos achei que aquilo era tão bom que seria um crime continuar a vê-lo numa cópia pirata, por isso parei e encomendei o dvd, tendo depois visto a obra num DTS fantástico.
Nem sempre saco um filme antes de o ver. Também sou daqueles que compra dvds orientais à parva, especialmente quando tenho a sensação de que vou gostar muito da obra e raramente me tenho enganado, mas para isso é preciso ter alguma experiência dentro do género.
Portanto, quanto a mim o melhor conselho que tenho para dar ás pessoas que agora chegam a isto, é que explorem bem o que existe, pois a oferta de cinema oriental realmente de qualidade e que muitas vezes limpa o chão com os filmes americanos do momento é absolutamente notável.
Procurem opiniões em blogs e se tiverem coragem comprem um dvd ou dois. Se não forem corajosos, saquem os filmes da net e vejam se gostam pois se lhes acontecer o mesmo que a mim e ficarem completamente apaixonados por esta cinematografia, podem ter a certeza que irão querer ter os filmes em DVD na vossa cinemateca pessoal pois nada se compara a uma cópia original de um filme que gostamos.
Só deixo aqui um grande aviso de cautela....NÃO COMPREM EDIÇÕES PORTUGUESAS de filmes orientais. Muito cuidado, pois estas são geralmente tão más e editadas em condições tão medíocres que lhes irão estragar o prazer e a surpresa de poderem encontrar pela primeira vez um bom filme. Saquem antes uma cópia da net , ou comprem logo o dvd original no oriente, pois as lojas online são totalmente seguras e rápidas na entrega.
Evitem as edições PT de “The Warriors”, “The Promise”, “Natural City”(com o titulo ridículo à portuga “amor cibernético), ou
“A Tale of Two Sisters”...entre outros...cuidado com as edições pt.

 

8 comentários:

Miguel disse...

Um testemunho muito elucidativo e com pontos pertinentes. Pena é que, os dvds encomendados pela net raramente oferecem legendas em português. Identifico-me imenso com a opinião do Luis, apesar de, face às críticas generalizadas de Cyborg She, ter ficado um pouco desiludido com o desenrolar da história. No resto, mais um blogue a visitar com insistência e especial interesse.

Ibirá Machado disse...

E viva a pirataria! Eu acho que em muitos dos casos, o mundo dos downloads de filmes e legendas simplesmente abre a porta da cultura e ponto. O fato de, aqui no Brasil, muita gente não saber inglês, é um impeditivo profundo para que comprem DVDs não editados em pt. Não fosse a pirataria na internet, jamais seriam formados públicos de cinemas fora do circuito Estados Unidos-Europa.

Miguel disse...

Concordo, sem a pirataria eu não me teria tornado um admirador do cinema oriental, não pelo pouco que é editado em Portugal. Depois, e como disse o Luis, acabo sempre procurando os originais - sempre em português - daqueles filmes que mais me marcam. Pena a pouca disponibilidade de um mercado tão vasto e com tão bom cinema.

tf10 disse...

De facto a abrangência do cinema asiático é tão grande que o testemunho desta semana não podia estar mais nos antípodas daquilo que eu busco e retiro do cinema asiático, eu diria até mesmo do Cinema. (Sim, aquela "review" é algo que me faz acreditar que jamais partilharemos uma visão da sétima arte).
Uma das coisas que mais me chamou a atenção na entrevista e que achei verdadeiramente irónico, foi esse feroz e insistente apoucar do cinema de Hollywood, vindo de alguém que vê (e gosta) de filmes que, bem vistas as coisas, não são assim tão diferentes daqueles que tão furiosamente critica.

Quanto aos dvds e as legendas, não foi por acaso que eu referi que quem não é fluente em Inglês fica irremediavelmente pelo básico no que se refere ao cinema asiático. E isto mesmo tendo em conta a pirataria. Parece-me que há países onde (de forma genérica) esse problema é mais gritante (Espanha ou Brasil) que sofrem dessa inacreditável idiotice que é a dobragem e estão menos disponíveis para o Inglês.

Marcus disse...

Realmente, achar dvds originais orientais em português é complicadíssimo, achei que era só aqui no Brasil, mas vejo que na Europa e sobretudo a língua portuguesa fica de fora disso. É uma pena.

Battosai disse...

En las románticas opinas exactamente como yo ^^

Me apunto Natural City y Midnight Sun.

Pasadlo bien.

Nuno disse...

Vai ficando claro, com a publicação das várias entrevistas, que o único factor comum aos entrevistados é a sua paixão pelo cinema na generalidade, e ao cinema asiático em particular.
No restante, e como diria o outro "todos iguais, todos diferentes"...

Takeshi disse...

A opinião de Luis Peres a respeito dos "piratas" é bem interessante.

Se ficarmos a esperar o lançamento oficial dos filmes orientais que tanto amamos, morreremos esperando.

Pelo o que percebi as edições portuguesas de DVD são bem piores que as do Brasil. Pelo menos eu não tenho notado cortes em filmes que vi por aqui. Isto é, filmes que são comprados pelas distribuidoras brasileiras direto da Ásia.

Não cito os casos como o de "Shaolin Soccer" que foi distribuído pela Buena Vista/Miramax: Há cortes enormes, edição sonora e etc. Neste caso é irônico dizer que se quisermos ver o "original" temos que baixá-lo da Internet.

O ruim aqui no Brasil também está na oferta de títulos, a maioria são filmes de "ação", mas nas locadoras tenho encontrado diversos outros gêneros. É pouco ainda, mas percebo que vem crescendo.

Outro problema, que nem é tão grave, mas fãs mais chatos como eu reclamam, é a falta de "conteúdo extra" nos DVDs.