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segunda-feira, março 17, 2008

Adeus Minha Concubina/Farewell My Concubine/Ba wang bie ji - 霸王别姬 (1993)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 164 minutos

Realizador: Kaige Chen

Com: Leslie Cheung, Zhang Fengyi, Gong Li, Lu Qi, Ying Da, Ge You, Li Chun, Lei Han, Tong Di, Ma Mingwei, Fei Yang, Yin Zhi, Zhao Hailong, Li Dan, Jiang Wenli

"Cheng Dieyi"

Estória

1924, ano do generalíssimo chinês. “Cheng Douzi” (Ma Mingwei) é abandonado pela mãe que é uma prostituta, e fica aos cuidados de uma trupe de ópera chinesa. “Douzi” é uma criança diferente, enfrentando por este facto a discriminação dos colegas. No entanto, é amparado por “Shitou” (Fei Yang), um dos jovens que exerce o seu mister na companhia, e ambos tornam-se grandes amigos.

A disciplina na escola é bastante diferente do mundo de sonho que é apresentado ao público na representação das peças. A brutalidade impera, o regime do professor é atroz e deveras marcial. As crianças e adolescentes são brutalmente espancados, à mínima falha que cometam. No meio deste mundo cruel, “Douzi” acaba por aprender a tornar-se num Dan, ou seja, o actor que representa papéis femininos na ópera chinesa.

"Juxian"

1937, véspera da guerra com o Japão. “Douzi” e “Shitou” são estrelas famosas da ópera de Pequim, e mudaram os seus nomes para “Cheng Dieyi” (Leslie Cheung) e “Duan Xiaolou” (Zhang Fengyi). A ópera mais badalada que representam, e que os tornam amados pelo público é “Adeus Minha Concubina”. “Dieyi” começa a expressar mais acentuadamente a sua homossexualidade e está apaixonado pelo amigo “Xiaolou”. No entanto, este enamora-se por uma prostituta chamada “Juxian” (Gong Li), e casa com ela. Esta situação afasta os dois amigos, e “Dieyi” recusa actuar com “Xiaolou”.

Posteriormente, os companheiros sanam as suas diferenças e voltam à representação. No entanto, em 1966, a revolução cultural de Mao Tse Tung iria deixar marcas indeléveis no percurso dos amigos em particular e da ópera de Pequim em geral.

"Xiaolou e Dieyi"

"Review"

Falar ou escrever acerca de “Adeus Minha Concubina”, é uma honra para quem possui a temeridade de expressar algo acerca de um dos maiores expoentes de sempre do cinema asiático. Torna-se igualmente uma empresa extremamente complicada, porquanto estamos perante uma película impregnada de um sem número de aspectos sentimentais, sociológicos e históricos de relevo incontornável. Isto faz com que seja praticamente impossível abarcar todo o esplendor daquele que para muitos é considerada a mais bela obra de cinema oriental jamais feita. Eu não partilho desta opinião, no que concerne à eleição propriamente dita, mas há que profusamente reconhecer que estamos perante uma longa-metragem verdadeiramente essencial para aqueles que amam o cinema em todas as suas vertentes.

Baseado num romance da escritora chinesa Lilian Lee, podemos afirmar que, ao contrário de outras obras magníficas de cinema asiático, “Adeus Minha Concubina” teve um merecido reconhecimento mundial, o que em muito contribuiu para um olhar de respeito do ocidente para o que de melhor se fazia na sétima arte oriental. Atestam esta afirmação os inúmeros prémios que venceu em certames internacionais. Do seu “currículo” destacam-se pela proeminência, a nomeação para dois óscares (Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia), os prémios BAFTA (Reino Unido) e Globo de Ouro (E.U.A.) para o melhor filme estrangeiro, e a Palma de Ouro de Cannes, distinção partilhada com “O Piano” de Jane Campion.

São 53 anos de retrospectiva que passam pelos nossos olhos aquando do visionamento desta película, e que abordam aspectos nucleares da história chinesa do século XX, e que o filme faz questão de os distinguir e titular muito bem, de forma a que não percamos o “fio à meada”. O enredo arranca em 1924 (“Era do generalíssimo chinês”), e passa por 1937 (“Véspera da guerra com o Japão”), 1945 (“Derrota japonesa”), 1948 (“Evacuação dos nacionalistas de Chiang Kai Chek para Taiwan), 1966 (“Revolução cultural”), terminando em 1977 (“O ano em que nasceu Jorge Soares Aka Shinobi” - eh, eh, eh, isto não consta do filme como é óbvio!!!). Relacionado intimamente com os aspectos históricos, algumas críticas têm sido aventadas no sentido de os mesmos carecerem de algum desenvolvimento argumentativo. Ora, quanto a este particular, julgo pontificarem duas razões de extrema relevância, uma directamente relacionada com a trama, outra de ordem mais prática. Quanto à primeira, sempre se dirá que a história serve apenas de pano de fundo para uma narrativa que assenta em dois aspectos fulcrais, a saber, a relação entre dois amigos e a sua ligação à ópera de Pequim. Trata-se, portanto de um aspecto secundário importante, mas que não pode deixar de ser encarado como um “sidekick” para algo mais central. Relativamente à segunda, é importante referir que “Adeus Minha Concubina”, à semelhança de outras obras chinesas (embora esta tenha tido também influência da região administrativa de Hong Kong), passou pelo crivo da censura duas vezes. E como é óbvio, o resultado foram alguns cortes de cenas consideradas “agitadoras” do espectro comunista chinês. Mesmo assim, até considerei neste caso em concreto que o “Index” lá do sítio foi benevolente e algo democrático, pois podemos nos aperceber perfeitamente da brutalidade primária da denominada “Revolução Cultural”, e dos efeitos perniciosos que a mesma teve em aspectos nucleares do modo vivencial e tradição do povo chinês.

"Dieyi preparado para a representação de Adeus Minha Concubina"

O trio fantástico de actores dá vida a uma performance memorável e que tão cedo não é esquecida. Que me perdoem Zhang Fengyi e Gong Li, mas é o malogrado Leslie Cheung que faz uma actuação de vida, que não apenas roça, mas atinge verdadeiramente o brilhantismo. E que ainda assume mais relevância, quando conhecemos um pouco da carreira desta figura incontornável. Cheung não era propriamente um actor virado para os dramas ditos mais intelectuais, apesar da sua carreira ser bastante ecléctica, com incursões por vários géneros desde o “wuxia”, o romance, a acção muito relacionada com tríades, etc. Aqui temos a oportunidade de ver um Cheung, mais maduro, seguro de si e demonstrando a todos aqueles que ainda teriam algumas dúvidas, que de facto estamos (infelizmente “estávamos”) perante um actor de dimensão superior. O papel de “Dieyi” assenta-lhe que nem uma luva, não pelas razões que algumas línguas viperinas declaram à altura, em alusões quase frontais à homossexualidade do actor, mas sim porque Cheung foi dos melhores intérpretes asiáticos de todos os tempos. Tão simples como isso. Não deve ser nada fácil representar um “dan” da ópera de Pequim, e Cheung falo com a maior sensibilidade do mundo e arredores, ilustrada pela seguinte frase proferida no filme pelo mestre de “Dieyi”: “Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?!”.

“Adeus Minha Concubina” respira estética por todos os poros, sustentado por um guarda-roupa lindíssimo e uma fotografia verdadeiramente de sonho, com pormenores ao alcance de poucos. O esplendor visual é de cortar simplesmente a respiração! Num manancial de cores, é-nos apresentado vários momentos da famosa Ópera de Pequim, que confesso, é necessário aprender a apreciar. Contudo, a actuação muito própria deste género de representação, é extremamente envolvente e leva-nos, nem que seja pela curiosidade, a tentar entender o que os actores pretendem transmitir.

Kaige Chen foi um filho da revolução, dita cultural, chinesa. Em 1969, foi enviado para o meio rural, onde foi sujeito a trabalhos bastante árduos. Posteriormente viria a ser um guarda vermelho, e aquando da sua entrada para a escola de cinema, denunciou algumas actividades do seu próprio pai, susceptíveis de serem qualificadas como subversivas. O pai de Chen viria a ser detido e sentenciado a trabalhos forçados por alguns anos. Apesar do seu progenitor o ter perdoado, Chen confessaria a sua vergonha por tal facto, mais do que uma vez. Quem conhece esta história pessoal do realizador, e tendo o pai deste trabalhado igualmente neste filme, poderá sentir a comoção que não deverá ter sido as filmagens que abordaram este período, onde se vislumbraram tantas traições familiares.

Em “Adeus Minha Concubina” somos transportados para outra terra e tempo distintos do nosso, em que não somos apenas meros figurantes, mas conseguimos verdadeiramente sentir o pulsar das emoções transmitidas. E é deste Kaige Chen que todos nós precisamos! O revelar de uma das mentes mais esclarecidas e brilhantes da denominada quinta geração dos realizadores chineses, a quem é exigível a realização de mais obras de dimensão superior! “Flops” com intuitos comerciais como “The Promise” é que dispensamos e nada acrescenta às nossas vidas!

Um momento verdadeiramente magnífico e imperdível, que está para os amantes de cinema, como uma ida a Meca para os muçulmanos. Temos que lá estar, nem que seja uma única vez!

"Dieyi aprisionado pelos guardas vermelhos de Mao Tse Tung"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,88





8 comentários:

Nuno disse...

Jorge,

Vi este filme muito recentemente e achei-o verdadeiramente fantástico. Uma obra prima. Ainda ontem falávamos de Kaige Chen e sobre o seu último filme não ter sido grande coisa...esperemos que o próximo seja deste nivel.

Uma análise fabulosa, esta que fizeste ao filme. Digo-o porque vi-o há uns 2 meses e é exactamente como tu o descreves. Adorei o remate final...poético, e verdadeiro: "Um momento verdadeiramente magnífico e imperdível, que está para os amantes de cinema, como uma ida a Meca para os muçulmanos" .Simplesmente fantástico. O Jorge ao seu melhor nivel...estavas inspirado, muito inspirado.
Parabéns

Um Abração

P.S....não sei como depois de análises destas ainda há gente a votar no Jackie Chan como melhor relizador!!!!!????

Shinobi disse...

Nuno,

do pouco que eu sei sobre o próximo filme de Kaige Chen, julgo que poderemos ter alguma esperança. A película chama-se "Mei Lanfang", e visa ser uma biografia da maior estrela de sempre da ópera chinesa. Já estás a ver os pontos de contacto com "Adeus Minha Concubina"! A estreia parece estar prevista para o fim deste ano, e tem como actores principais Zhang Ziyi (que dispensa apresentações), Leon Lai, Gillian Chung, Sun Honglei e Daoming Chen, tudo personalidades emblemáticas do cinema chinês e de Hong Kong. Esperemos que saia qualquer coisa de jeito!

De vez em quando, como qualquer pessoa, tenho os meus momentos :) . Este pelos vistos, saiu bem!

Obrigado pela força!

Grande abraço!

PS: Para mim também é um enigma como é que o Jackie Chan tem tantos votos para melhor realizador. É o que eu digo, as pessoas não perceberam a pergunta, ou então não sabem distinguir o cú das calças...

Su disse...

eu não vi o filme...li o livro e amei.....

esse outro não é o tal que eu detesto? opssss

jocas maradas

Shinobi disse...

Su,

apesar de não ter lido o livro, o filme é simplesmente espectacular!
Merece que dês uma espreitadela!

"Esse outro" é mesmo aquele que tu detestas :) !

Beijinho!

isabel victor disse...

Muito bom !


cineAbraço

Shinobi disse...

Pois é Isabel, o filme de facto tem uma elevadíssima qualidade!!!

Outro!

Battosai disse...

Hace mucho tiempo la empecé a ver y no pude terminarla, y hace unos días la vi por fin entera. Buenísima ^^

Shinobi disse...

Olá, Battosai!

É dos melhores filmes asiáticos de sempre e com um Leslie Cheung na sua pujança máxima!

Abraço!