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quinta-feira, novembro 20, 2008

As Tears Go By/Wong gok ka moon - 旺角卡 (1988)

Origem: Hong Kong

Duração: 98 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Andy Lau, Maggie Cheung, Jacky Cheung, Alex Man, Ronald Wong, William Chang, Kau Lam

"Wah"

Sinopse

“Wah” (Andy Lau) é um “gangster” de Hong Kong, cuja vida já correu melhor. A sua namorada fez um aborto sem ele saber, conduzindo desta forma ao fim de uma relação de seis anos. Acresce o facto do seu extemporâneo amigo “Fly” (Jacky Cheung) estar sempre a arranjar problemas, tendo “Wah” invariavelmente que resgatá-lo dos sarilhos em que se mete.

A vida de “Wah” sofre um abalo positivo quando “Ngor” (Maggie Cheung), uma prima que desconhece proveniente da ilha de Lantau, necessita de passar uns dias em Hong Kong, de forma a consultar um médico devido a uma doença pneumológica. Um romance desencadeia-se entre os dois e após “Ngor” retornar a Lantau, “Wah” decide perseguir a sua paixão e deixar os seus dias de criminoso para trás.

"Ngor"

Contudo, “Fly” farto de ser um “zé-ninguém” dentro da tríade, desencadeia um perigoso conflito com “Tony” (Alex Man) para além de aceitar um perigoso trabalho que parece estar votado ao fracasso. “Wah”, em nome da grande amizade que nutre por “Fly”, não tem escolha senão retornar a Kowloon e tentar salvar o jovem irreflectido. À partida de Lantau, “Wah” assegura a “Ngor” que retornará. No entanto, tal parece ser uma promessa difícil de cumprir.

"Fly"

"Review"

“As Tears Go By” foi a película de estreia do conhecedíssimo realizador Wong Kar Wai, e passados 20 anos continua a ser o seu sucesso comercial com maior relevância em Hong Kong, segundo rezam as estatísticas. A razão talvez passe por ser a longa-metragem mais acessível e menos esotérica do realizador, pelo menos das que eu tive a oportunidade de visionar. Como faltam pouquíssimos filmes (a nível das fitas de longa duração) deste autor para que eu possa deter um conhecimento quase total da sua obra, julgo que não andarei muito longe da verdade. Quase certo é que para a maior parte dos fãs de Wong Kar Wai é um filme primário, em nada se comparando com os trabalhos posteriores; para o apreciador não tão familiarizado com os trabalhos deste autor, “As Tears Go By” constituirá uma película apelativa que deslumbrará em vários momentos. Cabe-me a mim agora tomar uma posição por mais humilde ou superficial que seja.

Apesar de “As Tears Go By” ser marcado por vezes por alguma ingenuidade, são visíveis as marcas distintivas mais técnicas que iriam enformar o cinema de Kar Wai no futuro, e que muitos de nós conhecemos e apreciamos. É reconhecido que subjaz a esta obra alguns traços comuns do cinema de Hong Kong – versão anos 80, mormente na sua vertente de filme de tríade, a que está inerente a correlativa violência. Mas à semelhança de seis anos mais tarde, Kar Wai com “Ashes of Time”, ter dado corpo a um wuxia que se afastou bastante do protótipo do género, com “As Tears Go By”, as características do filme de acção acabam por ser algo secundarizadas perante a exploração de sentimentos e motivações pessoais dos intervenientes. Para além do mais, já se vislumbram os pormenores estéticos deliciosos, assim como uma preocupação com o detalhe e com a ambiência urbana. O realizador é um poeta estético, e aqui já nos é dado a a oferecer passagens emblemáticas a nível de imagem tal como aquela que nos é facultada no início do filme onde o bulício de Hong Kong e a sua forte carga de néon é explanada através do reflexo num conjunto de ecrãs de televisão. A mesma cena viria, sintomaticamente, a repetir-se num período posterior da película. A fotografia aqui ainda não estava a cargo do fantástico Christopher Doyle, companheiro de futuras andanças de Kar Wai. Neste prelúdio da sua carreira, o realizador socorrer-se-ia de outro colega de profissão, o conhecido Andrew Lau que muitos anos mais tarde seria co-autor de “Infiltrados”. Está lá também o costumeiro “slow motion” e o “slow pace”, que Kar Wai tanto celebra e que visa de algum modo potenciar melhor a sua mensagem e possibilitar a apreensão máxima do seu estilo visual, criativo e introspectivo.

"Beijo"

Sendo eu um fã de cinema algo permeável ao romance e ao tema da redenção falhada, com a subsequente exploração das suas diversas facetas, ver um filme de Kar Wai significará à partida um exercício significativo de prazer e reflexão. Em “As Tears Go By”, não haverá lugar para desilusões neste campo, nem que seja pelo facto de ser exposto um dos beijos mais românticos de sempre e que por esse mesmo motivo é capa de quase todas as edições e cartazes do filme. Os protagonistas são um dos duos emblemáticos da história do cinema asiático, os então jovens Andy Lau e Maggie Cheung, embora se reconheça que as futuras parelhas Leslie Cheung/Maggie Cheung, ou Tony Leung Chiu Wai/Maggie Cheung (sempre a Maggie!!!) tenham uma envolvência porventura superior. Retornando à estonteante cena, a mesma é acompanhada sonoramente por uma não tão boa (mas não sei porquê, assenta às mil maravilhas na sequência toda) versão de “cantopop” de “Take My Breath Away”, a música dos Berlin, que seria popularizada por “Top Gun” do realizador Tony Scott, onde despontaram Tom Cruise, Kelly McGillis e Val Kilmer. Sendo um filme de Kar Wai, mesmo que no início da carreira, possui um cunho sentimental bastante próprio, discreto do ponto de vista mais físico (com a excepção do afamado beijo e uma ou outra cena dispersa) mas nem por isso menos revelador da pujança apaixonada dos intervenientes. Somos perfeitamente capazes de sentir todo o manancial de emoções transmitidas pelo casal Lau/Cheung, que nos proporcionam momentos de actuação significativos e que demonstram a sua qualidade quase intrínseca como bons actores. O tempo daria razão à qualidade dos intérpretes, que quer se goste, quer se critique negativamente, anos mais tarde tornar-se-iam em dois “monstros” sagrados do panorama de Hong Kong, e porque não assumi-lo, internacional.

Sendo muitas vezes associado a “Mean Streets” (em Portugal recebeu o título de “Os Cavaleiros do Asfalto”), de Martin Scorsese, e apontado como uma inspiração primordial para esta obra de Wong Kar Wai, “As Tears Go By” é um filme que possui méritos inolvidáveis e, como referi acima, já demonstrava um pouco do que seria o cunho do realizador no futuro. É certo que em algumas alturas não consegue fugir a alguns “clichés” e estereótipos próprios do cinema de Hong Kong de então, não se podendo comparar na parte mais pro-activa às obras de John Woo. Não se nega igualmente que porventura estará longe de ser das longas-metragens mais bem executadas do realizador. Mas igualmente se costuma dizer que na “meninice” e no começo de uma vida, de uma história ou de uma carreira, é que se encontra a virtude e esta manifesta-se na inocência e nos primeiros passos, ainda que inseguros. “As Tears Go By” é a expressão inicial de amor pelo cinema manifestada por Wong Kar Wai, e como qualquer primeira paixão, existem sempre características únicas e marcas que ficam.É uma película para os menos exigentes e que cedem perante as primeiras impressões, mas igualmente para os apaixonados. E uma coisa é certa. Para além daquele beijo portentoso, que transpira fulgor e sentimento por todos os poros, é impossível esquecer a expressão de Andy Lau num epílogo convulsivo e lancinante. São estes pormenores que marcam qualquer cinéfilo que se preze como tal, ou simplesmente um amante da beleza.

A não perder!

"A vingança de Wah"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

  1. Contracampo

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





2 comentários:

tf10 disse...

Kar wai a partir do caldo que se vivia em HK na altura e a começar a descobrir o seu próprio estilo!
Confesso que quando me lembro do filme a primeira imagem que tenho é sempre da garra e intensidade que o Jacky Cheung costuma emprestar sempre às suas actuações! E a Maggie tão inocente! :)

abraço!

Shinobi disse...

Sem dúvida que neste filme, Kar Wai agarra-se aos estereótipos de HK à altura ( e se calhar é por esse motivo que este filme acaba por ser um pouco mais apreensível à primeira vista que os restantes), mas introduz vários aspectos que iriam marcar o seu estilo, e que subsequentemente seriam bastante desenvlvidos. O Jacky Cheung efectivamente demonstra uma dinâmica muito forte na sua actuação (à semelhança de outras), o que ainda sai mais valorizada quando observamos as características da sua personagem, ou seja, a do jovem marginal imberbe e inconsequente.
Quanto a Maggie Cheung, de tão inocente que estava, confesso que nem a estava a reconhecer no início do filme (quando o vi pela primeira vez). Parecia muito mais a Maggie Cheung na segunda parte :))!

Abraço!