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terça-feira, Setembro 16, 2008

A Touch of Zen Aka Xia Nu, the Gallant Lady/Xia Nu - 俠女 (1971)

Origem: Taiwan

Duração: 180 minutos

Realizador: King Hu

Com: Shih Chun, Feng Hsu, Bai Ying, Roy Chiao, Han Hsue, Han Ying Chieh, Sammo Hung, Jackie Chan, Billy Chan, Chang Ping Yu, Lam Ching Ying, Miao Tien, Tien Peng, Tsao Chien

"Ku Shen"

Sinopse

“Ku Shen” (Shih Chun) é um pobre e simples pintor, que ama a cultura e está constantemente a recitar as máximas de Confúcio, a figura que mais admira. A pacata vida da aldeia de “Ku Shen” chega ao fim quando começam a chegar homens do primeiro-ministro, o eunuco “Wei”. O objectivo dos mesmos passa por capturar e executar a filha de um oficial honesto que sucumbiu pelo facto de querer denunciar as maquinações de “Wei” ao imperador.

"Ku Shen e Yang"

Entretanto, “Ku Shen” recebe novos vizinhos, que vão residir para a mansão abandonada de um antigo general, que muitos dizem estar assombrada. É aqui que "Ku Shen" conhece “Yang Hui Ching” (Feng Hsu), e desenvolve sentimentos pela rapariga. Cedo se descobre que “Yang” é na realidade a filha do oficial falecido, que os homens do eunuco “Wei” tão ansiosamente procuram.

“Yang” com a ajuda de “Ku Shen”, e os generais foragidos “Shih” (Bai Ying) e “Lu Meng” (Han Hsue) tudo vai fazer para evitar a sua captura. Contudo, o auxílio principal residirá no monge “Hui Yan”, um ser verdadeiramente iluminado que propaga a mensagem de Buda pela terra.


"O monge Hui Yuan numa pose celestial"

"Review"

No início dos anos '30, o governo nacionalista chinês, que tinha em Chiang Kai Shek o seu homem forte, baniu o wuxia alegando para o efeito que este género era entretenimento barato e uma influência nociva para a população. Essa foi a principal razão para que algumas companhias tivessem se deslocado para Hong Kong, entre as quais a maior de todas, os “Shaw Brothers”, de modo a continuarem a realização dos filmes. Com o aparecimento do realizador King Hu e dos seus clássicos, uma página determinante do wuxia foi virada e a partir daí o género viria a ser definitivamente respeitado, mau grado um ou outro período menos positivo pelo qual viria a atravessar. A importância de King Hu afere-se essencialmente pelo facto de os seus filmes serem dotados de uma representação mais cuidada, com a introdução de elementos artísticos inovadores no cinema de artes marciais de então, mas acima de tudo pela forte impregnação de aspectos históricos e culturais do povo chinês. Não querendo pactuar com a produção em massa, e muitas vezes desprovida de qualidade que os “Shaw Brothers” queriam impôr, King Hu viajou até Taiwan e seria esta nação (pelo menos para alguns) que viria a ter o privilégio de acolher algumas das suas obras mais importantes.

Tentar escrever algo acerca de “A Touch of Zen”, ou “Xia Nu, the Gallant Lady” é dissertar acerca de um dos filmes mais fundamentais de sempre da história do cinema oriental, sendo para muitos considerada a melhor obra do realizador. Com 3 anos de rodagem e composta por duas partes, de hora e meia cada uma sensivelmente, a importância da película é inegável e de uma evidência gritante, existindo igualmente muito boa gente que aqui vê o melhor wuxia jamais realizado. Quanto a esta questão, com certeza que será difícil reunir consensos. Agora o certo é que a influência desta longa-metragem no que vinha a fazer-se a seguir é inegável, sendo mais do que claro a inspiração que serviu a filmes como “O Tigre e o Dragão” ou “O Segredo dos Punhais Voadores”, só para mencionar exemplos mais recentes. Vejam-se apenas as emblemáticas cenas da floresta de bambu que constam nestas duas películas. Cumpre ainda dizer que “A Touch of Zen” constituiu o primeiro filme do triângulo China – Hong Kong – Taiwan a receber um prémio em Cannes. Igualmente foi considerado pela revista “Time” um dos 100 melhores filmes de todos os tempos, assim como o 9º melhor filme chinês da história nos “HK Film Awards” (devida à velha querela entre a China e Taiwan, assim como a uma dúzia de outros factores, “A Touch of Zen” é considerado por muitos um filme do “Império do Meio”). Julgo que pelo breve relato, já se poderá aferir da incontornabilidade da película que agora se vai analisar um pouco.

Quando há uns anos deparei-me pela primeira vez perante “A Touch of Zen”, e reparei na duração do filme (3 horas!) quase que estive para abandonar a ideia de visionar esta obra, pois filmes de longo curso normalmente significam uma de duas coisas: ou são fantásticos e nem damos pelo tempo passar, ou perdem-se em considerações fúteis e demasiado contemplativas que acabam por se tornar numa maçada ostracizante! Mas a questão é que eu gostava e gosto do género, e esta ideia aliada às opiniões na esmagadora maioria abonatórias, fizeram com que eu reconsiderasse a decisão e desse uma oportunidade à obra de King Hu. Em boa hora o fiz! Estamos perante uma longa (bastante longa) – metragem com um pendor poético e espiritual, que se entranha pelo nosso ser e deixa definitivamente uma marca duradoura. É certo que por vezes o ritmo da película quebra um pouco, mas isso não quer dizer forçosamente que o interesse diminua. A espantosa fotografia com que somos presenteados e a trama simples mas segura, mantém avivada a nossa atenção, demonstrando que King Hu era um realizador de uma dimensão superior no segmento onde se inseria e que verdadeiras lendas cinematográficas anteriores como “Come Drink With Me” ou “Dragon Inn” não tinham sido obra do acaso.


"O general Shih em acção"

Os combates demoram a aparecer, e temos que aguardar quase 60 minutos para que os mesmos comecem a dar um ar da sua graça. Contudo, e atendendo ao diapasão da altura, os mesmos satisfazem e por vezes chegam mesmo a entusiasmar. É certo que temos porventura exemplos maiores de acção e que preenchem mais as medidas dos fãs da “old school”, mas uma das características que fazem de “A Touch of Zen” um filme tão distinto dos congéneres é não viver exclusivamente do manejo da nobre arte da esgrima e das artes marciais. Elas estão lá, senão não estaríamos perante um wuxia orgulhoso e de pleno direito. No entanto, a majestosidade, o dilema moral e espiritual, o “frenesim” sentimental e histórico, a abordagem de um espectro político interessante, é que fazem com que “A Touch of Zen” viesse a marcar um estilo que quase 40 anos depois ainda faz escola, embora com alguns alunos que reprovariam no exame final.

Outra característica verdadeiramente marcante de “A Touch of Zen” são as suas personagens bastante atractivas para o espectador. Atente-se por exemplo a “Ku Shen”, interpretado pelo actor Shih Chun, que é o “bonzinho” da história. Esta figura colhe sempre a simpatia de todos nós, sobretudo por denotarmos capacidades intrínsecas na pessoa em causa, mas que simplesmente não despontam devido a uma excessiva humildade ou falta de ambição. Chega o dia em que finalmente o rapaz tem a oportunidade de brilhar e mostrar que lhe está reservado um papel muito especial no mundo. “Yang”, protagonizada por Feng Hsu, é o protótipo típico da mulher forte e misteriosa que, embora honrada, toma como único objectivo um propósito legítimo: vingar a morte do pai e posteriormente enclausurar-se da sociedade. Possui uma presença bastante forte no ecrã e que eleva bastante a personalidade do filme. Embora não seja uma figura tão notada a nível de minutos como as personagens mencionadas anteriormente, verdadeiramente quem domina o filme é o monge “Hui Yuan”, interpretado pelo mítico Roy Chiao. Uma imagem da mais completa serenidade mas também da firmeza, que empurra esta obra para outra dimensão. “Hui Yuan” é sem dúvida absolutamente alguma, um dos monges mais sensacionais que já vi personificado numa película. Aqui nota-se bastante um carinho muito especial e destreza demonstrada pelo realizador King Hu em relação a “Hui Yuan”, ao fabricar fabulosos planos em que o sacerdote surge com o sol nas suas costas, criando um efeito que se assemelha a uma aura divina. Da cena final, nem vale a pena falar...Só mesmo visto! Cumpre ainda dizer que sempre temos a oportunidade de ver o conhecidíssimo Sammo Hung, com apenas 19 anos à altura, fazendo um pequeno papel nos últimos 15 minutos, como combatente ao serviço do vilão da história.

À semelhança do extraordinário e acima aludido belo epílogo centrado no monge “Hui Yan”, “A Touch of Zen” é uma gratificante jornada para a iluminação! Apesar de eu ser avesso por natureza a “remakes”, ainda para mais de obras desta dimensão e importância, sinto uma certa ponta de curiosidade em saber como Zhang Yimou trabalharia com esta película, usando os vastos meios que actualmente existem. Se resultasse, que festim de arte seria!

Essencial e altamente recomendável para qualquer fã de Wuxia!

"A mansão supostamente assombrada"

Segmento do filme - a floresta de bambu,

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13






10 comentários:

Nuno disse...

Amigo Jorge,

Não conhecia a existência deste filme, e pelos vistos quem fica a perder sou eu. Não conheço nada de King Hu, (só o nome) por isso não podia ter visto o filme. A verdade é que tenho andado calaceiro em relação ao cinema, principalmente o asiático... Deve ser crise de meia idade (isso queria eu...era sinal que chegava aos 98...)

Um Abração

Shinobi disse...

Amigo Nuno,

apesar de ser uma película bastante longa, definitivamente tens de ver este filme.

Os wuxia de Zhang Yimou, que eu e tu tanto gostamos, assim como "O Tigre e o Dragão" beberam muita inspiração nos filmes de King Hu, no qual este claramente se destaca.

É certo que não terá a espectacularidade dos filmes citados, mas se situares "A Touch of Zen" no seu tempo, chegarás à conclusão que se trata de uma obra incontornável.

Aconselho bastante!

Grande abraço!

tf10 disse...

Eu reitero aquilo que já tinha dito sobre o filme no post dedicado ao realizador e associo-me ao teu entusiasmo por este multifacetado e épico filme!
E sublinho o papel magnânimo do Monge que é verdadeiramente terrifico! Que figura! :)

abraço!

Shinobi disse...

Sem dú vida amigo tf10, sem dúvida :) !

Um abraço!

Takeo Maruyama disse...

Eis um grande clássico que eu, imperdoavelmente, ainda não tive o prazer de apreciar.

Como comentastes há pouco, Jorge, os filmes de King Hu devem ser analisados como produtos de seu tempo. Já ouvi alguns conhecidos meus dizendo que obras-primas como Come Drink With Me e Dragon Inn são bastante monótonos, o que é uma heresia! Não se deve comparar wuxias de década de 60 com os shapes do fim dos anos 70, senão chegaremos à essa conclusão mesmo.

Mais uma grande resenha, como sempre, Jorge.

Abraço

Shinobi disse...

Olá Takeo!

Tu tens de conferir este filme, pois é sem dúvida alguma uma obra de um mérito enorme! É certo que é bastante longo, mas pessoalmente não achei nada chato! Os amigos que falaste, provavelmente gostam mais daqueles wuxia que são pancadaria do princípio ao fim ;) !

No restante só me resta agradecer, desejar as rápidas melhoras e congratular-te pelo regresso ao espectacular "Asian Fury"

Grande abraço!

Juniper Girl disse...

Oh, lastima que não dei com o teu blog quando estive na Madeira. É bom encontrar bloggers de otras latitudes encantados pelo o cinema asiatico. Muito completo o teu blog.

^^

Shinobi disse...

Olá juniper girl!


Muito obrigado pelos elogios ao meu blogue! Espero que agora que o tenhas descoberto, apareças aqui frequentemente e comentes os "posts" :) !
Estive no teu blogue, o "Puntasia", e gostei bastante! Já o adicionei nos links do "My Asian Movies"!

Beijinho!

antonio cesar disse...

ESSE FILME ESTA NA FILMOGRAFIA DO JACKIE CHAN E SAMMO HUNG, ALGUEM SABE QUAL O INVOLVIMENTO DELES COM ESSE FILME?

Jorge Soares Aka Shinobi disse...

Olá António César!

São papéis praticamente de meros figurantes...

Abraço!