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quarta-feira, agosto 19, 2009

Ip Man - 葉問 (2008)
Origem: Hong Kong
Duração: 107 minutos
Realizador: Wilson Yip
Com: Donnie Yen, Simon Yam, Gordon Lam, Lynn Xiong, Louis Fan, Hiroyuki Ikeuchi, Xing Yu, Wong Yau Nam, Chen Zhihui
"O grande mestre Ip Man"

Sinopse

Em 1930, a cidade de Foshan é conhecida pelo grande número de praticantes de artes marciais, e pelas várias escolas que rivalizam entre si. “Ip Man” (Donnie Yen) é de longe o melhor lutador, mas a sua humildade faz com que não aceite discípulos, e leve uma vida abastada e calma com a sua família e amigos, para além de treinar e tentar aperfeiçoar as suas habilidades. De vez em quando, “Ip Man” luta privadamente com outros mestres, inapelavelmente vencendo-os sempre, inclusive o lutador forasteiro “Jin” (Louis Fan) que pretendia desonrar os combatentes de Foshan.

"Ip Man e a sua família"

Em 1937, com o incidente Marco Polo, o Japão invade em força a China e ocupa Foshan. O outrora rico “Ip Man”, vê-se privado da sua casa que se torna o quartel-general das forças nipónicas e cai na miséria. Obrigado a trabalhar numa mina de carvão e posteriormente na fábrica de algodão do amigo “Quan” (Simon Yam), “Ip Man” apercebe-se da tirania dos japoneses perante os habitantes de Foshan, e começa a criar um sentimento nacionalista e de defesa da pátria ocupada. Vencendo vários japoneses em combates de artes marciais, “Ip Man” acaba por desafiar o general “Miura” (Hiroyuki Ikeuchi), o comandante local, para uma luta perante os habitantes da cidade.

"Ip Man, rodeado por dez lutadores japoneses"

"Review"

“Ip Man” visa ser um filme biográfico acerca de uma das personagens contemporâneas mais importantes do mundo das artes marciais, chamado precisamente Ip Man. Este mestre de artes marciais é bastante conhecido na China e em Hong Kong, tendo sido celebrizado no ocidente por ter sido mentor de, nada mais, nada menos que Bruce Lee. O projecto de fazer um filme acerca da vida de Ip Man já existia há algum tempo, desde 1998, mas parecia votado ao abandono. Contudo, o conhecido produtor Raymond Wong, após ter obtido o consentimento dos filhos de Ip Man, foi de armas e bagagens para Foshan, de forma a investigar o passado do famoso praticante de Wing Chun. Estreada a película, a recepção foi francamente positiva, com críticas bastante favoráveis e a consagração nos Hong Kong Film Awards, onde a obra viria a arrecadar o prémio para melhor filme e para melhor coreografia de acção. Sendo a primeira parte de uma trilogia, a sequela chega já em 2010, onde a personagem de Bruce Lee, aparecerá com a tenra idade de 10 anos.

Ao longo de muitos anos, foram realizadas várias películas das cinematografias de Hong Kong, China e Coreia do Sul, cujo inspiração principal passava pela resistência a um invasor estrangeiro. Em muitas delas, o alvo principal eram os japoneses, pelas razões históricas que todos conhecemos, e que não vale a pena estar a explorar muito agora, pois já o fiz profusamente antes, a propósito de outras críticas. No caso em concreto do cinema de artes marciais, tal premissa deu origem a obras emblemáticas como “Fist of Fury”, “Fist of Legend”, “Fighter in the Wind” e “Fearless”, tendo desta forma quase nascido um subgénero no meio. “Ip Man” é uma obra que se enquadra bastante na linha anteriormente mencionada, tendo inclusive uma cena no dojo em que o mestre chinês dá uma verdadeira lição de pancadaria a um grupo de japoneses. O paralelo é fácil de se aperceber para os mais informados na matéria, não fossem existir cenas parecidas em “Fist of Fury” ou “Fist of Legend”, cujos intervenientes foram Bruce Lee e Jet Li, respectivamente. O nacionalismo está bastante presente, evidenciando-se em vários momentos. “Ip Man” é um herói chinês que recusa a vergar-se perante a opressão que lhe está a destruir o país e subsequentemente a vida. Podemos ver o mestre a tomar diversas atitudes de resistência contra a dominação japonesa, e até contra as aproximações mais amigáveis destes. Exemplo disto é a recusa do pedido do general “Miura” por parte de “Ip Man”, e que consistia em ensinar Wing Chun aos soldados nipónicos. Consta que esta parte não tem nada de mito, mas aconteceu mesmo na realidade, salvaguardando-se desta forma algum rigor histórico.

"Ip Man em acção"

As cenas de acção estão extremamente felizes, com um Donnie Yen numa forma invejável aos 45 anos. A situação só pode melhorar com a coreografia a cargo do insuspeito Sammo Hung, com uma vastíssima e por demais conhecida experiência na matéria. As entusiasmantes cenas de artes marciais estão bem temperadas com a parte mais dramática da trama, fazendo com que os combates não sejam insípidos e plenamente justificados face às circunstâncias. Cumpre dizer que Yen é bem secundado por actores que detém experiência no domínio das artes marciais, como são Louis Fan e Hiroyuki Ikeuchi, sendo este último um cinturão negro em judo.

Donnie Yen, exibe-se num bom plano, e atrever-me-ia a dizer que é dos papéis mais bem conseguidos da sua carreira. Justifico-me pelo facto de normalmente associarmos Donnie Yen às personagens exclusivamente de acção, em que lhe é apenas exigido que se exiba num bom plano a nível do seu inquestionável domínio das artes marciais. Aqui é-lhe imposto algo mais. Yen tem de aliar a parte física à parte mais representativa que ligamos a um actor dito mais convencional. O resultado foi bastante satisfatório. Donnie Yen sem deslumbrar, demonstra que não é apenas um dos melhores executantes de filmes de acção a nível mundial, mas também é capaz de se adaptar a papéis onde efectivamente tem de agir a um nível mais erudito. Na minha opinião, este mito de Hong Kong precisava de um papel assim, nem que fosse para desmistificar algum estereótipo que lhe havia sido colocado. O próprio Donnie Yen haveria de confessar que este tinha sido o trabalho mais difícil da sua profícua carreira. Além de estar meses a preparar-se mentalmente para representar Ip Man, Yen entrou numa dieta exigente de vegetais e consumia apenas uma refeição diária. Treinou imenso Wing Chun e estudou arduamente a vida de Ip Man, de forma a se embrenhar melhor na personagem.

Um dos pontos bem conseguidos de “Ip Man”, é que ao lado de Yen, Fan e Hikeuchi, despontam bons actores, com provas dadas na representação em filmes de géneros distintos do das artes marciais. Gordon Lam possivelmente é o que se sai melhor. O seu papel de um ex-polícia, que se torna um tradutor para os japoneses (e por este motivo, visto como um traidor), é profundo e bem executado. Sentimos as dúvidas que Lam sente ao longo do filme, e o seu desempenho faz-nos questionar acerca da reacção que teríamos numa situação semelhante. Por este motivo, acabamos por justificar muitas das suas acções, e no fim, de uma forma diversa, o heroísmo de Lam acaba por ser quase tão grande como o do próprio Donnie Yen. Igualmente não se pode esquecer a presença do competente e emblemático actor Simon Yam, que se exibe num nível aceitável, embora não dê tanto nas vistas como o já citado Gordon Lam.

Com uma bela banda-sonora do conhecido compositor japonês Kenji Kawai, “Ip Man” constitui uma agradável surpresa e um marco na carreira, tanto do realizador Wilson Yip, como do mítico Donnie Yen. É certo que falha bastante (pelo menos, atendendo ao que li) como biografia do verdadeiro Ip Man, mas ganha no entretenimento e no enredo ficcionado. É pois, com alguma ânsia, que se aguarda “Ip Man 2”, esperando que se enverede pela mesma linha do primeiro filme, onde a acção está bem temperada com o drama. E sempre teremos a oportunidade de ver quem é que Donnie Yen vai desancar em Hong Kong, já que não terá os japoneses como alvo a abater. E sim, como já referi acima, vamos ter como uma das personagens um miúdo chamado Bruce Lee, a dar os primeiros passos na direcção da sua saga no mundo das artes marciais. A curiosidade aumenta ainda mais, quando Wong Kar Wai está a preparar o seu próprio “biopic” do mestre e que terá Tony Leung Chiu Wai como protagonista principal. Desconfio, e tenho a certeza que não estou sozinho neste particular, que iremos nos deparar com uma abordagem completamente distinta da vida de “Ip Man”, provavelmente mais contemplativa e incidente sobre outros aspectos ditos mais existencialistas e dramáticos. Quanto a este “Ip Man”, é sem margem para qualquer dúvida, uma boa obra do cinema de Hong Kong, que entusiasma e, por essa via, merecerá uma atenta espreitadela.

Bom filme!


"O general Miura Vs. Ip Man"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 7,88




17 comentários:

Takeo Maruyama disse...

Excelente resenha como sempre, Jorge. Atrevo-me a dizer que a sua crítica de Ip Man talvez seja a mais completa em língua portuguesa publicada até hoje.

Particularmente achei Ip Man um ótimo filme, mas não justifica todos os comentários extremamente elogiosos que andei a ler por aí. Confesso que esperava muito mais. Porém, o que mais me irrita são os comentários de praticantes de Wing Chun, que tendem a encarar essa obra de forma mais emocional e não admitem opiniões contrárias às próprias.

No Orkut comparei Ip Man a Fearless com clara predileção por esse último, e os acima citados praticantes de Wing Chun consideraram isso uma heresia, pois Ip Man "é uma reconstituição fiel da vida do Grande Mestre de Bruce Lee" e Fearless "é uma biografia exageradamente fantasiada da vida de Huo Yuan Jia", por isso seria injusto compará-los.

Será que é tão difícil entender que eu apenas analisei as obras cinematográficas e não a vida e a importância de suas personagens?

Takeo Maruyama disse...

A propósito, a única cena de luta que me decepcionou em Ip Man foi justamente a luta do dojo. No início da década de 1970 era comum os coreógrafos criarem lutas de 1 herói contra vários vilões ao mesmo tempo. Enquanto o herói batia em 1 bandido, o resto ficava correndo em volta deles fazendo poses pra dar a impressão de movimento.

No entanto, desde meados dos anos 80 as coreografias evoluíram bastante a ponto desse tipo de coreografia old school virar piada. Por esse motivo, achei inadmissível um coreógrafo tão experiente como Sammo Hung criar uma luta onde Donnie Yen agarra um japonês por vez e enche a cara dele de pancada sossegadamente enquanto o resto fica apenas correndo em volta deles!

Os tais praticantes de Wing Chun não me perdoaram até hoje por essa minha opinião, mas também conheci vários outros que concordaram comigo.

Shinobi disse...

Olá, Takeo!

Antes de tudo agradeço os elogios ao texto, que ainda têm mais valor vindos de quem vem :) !

Eu gostei bastante do filme, embora reconheça e concordo contigo, que fazem mais do filme do que ele realmente é. Eu igualmente prefiro ligeiramente "Fearless" a "Ip Man".

É falso que "Ip Man" seja uma reconstituição fiel da vida do grande mestre, e isso é assumido pelo próprio realizador do filme. Tem. isso sim, alguns factos verídicos e outros que nem por isso. Basta consultar a biografia de Ip Man.
Obviamente Takeo, que eu compreendo que tu analisaste o filme em si. Deixemos a vida e a importância das pessoas para o canal História e o "Biography".

Por acaso tinha ficado bem impressionado com a luta do dojo, mas depois da tua explicação, tenho a impressão que já não a aprecio tanto ;) !

Grande abraço!

Nuno Cargaleiro disse...

Olá, constatei que tens um link para o meu antigo endereço http://viciadocinematv.blogs.sapo.pt/
Deixo-te esta mensagem para indicar que voltei ao activo, mas desta vez com o endereço http://viciadocinematv.com
Desde já convido-te a visitares o espaço, dares a tua opinião e/ou sugestão, e caso queiras, actualizares com a nova hiperligação.

Cumprimentos Cinéfilos,
Nuno Cargaleiro

Shinobi disse...

Olá, Nuno Cargaleiro!

Desde já se saúda o regresso às lides activas do cinema, num site que terei muito gosto em visitar.
Já actualizei o "link", constando o mesmo agora na secção dedicada aos "sites de cinema generalista".

Abraço!

Nuno disse...

Amigo Jorge,

Mais uma fantástica análise que me deixa com água na boca para ver o filme. Há dias comprei vários filmes no Yesasia e tentei comprar o Ip Man em Blueray, mas não havia...esperarei mais um tempo e quem sabe da próxima encomenda já o tenham disponivel...

Grande Abraço

Shinobi disse...

Olá, amigo Nuno!

O filme é bastante agradável de se ver, e julgo que irás ficar agradado com o seu visionamento.
Atendendo ao sucesso que esta película teve, julgo que mais cedo ou mais tarde, não terás dificuldade em arranjá-lo no formato que pretendes.
No restante, obrigado pelo apoio sempre presente :) !

Grande abraço!

Takeshi disse...

Concordo com o Takeo, essa é a resenha mais completa no nosso idioma.

Mas até compreendo o fato de um herói catar um sujeito e meter-lhe porrada, enquanto os outros esperam por sua vez... Afinal, é um ato de covardia para um samurai atacar em 10 contra 1, a honra do guerreiro como é que fica? hehehe.

Patyka disse...

Olá, Jorge!

Eu gostei muito do filme, e no que tange à fidelidade do filme à biografia do Ip Man, eu já estava previnida de que o mesmo não pretendia ser absolutamente fiel à história do Ip Man, mas mesmo assim considerei um bom biopic. Fico também na espera ansiosa pela continuação em 2010.

E nem preciso mencionar que aguardarei com mais ansiedade ainda pela versão do Kar-Wai com o meu uerido T.L.Chi Wai! :O \O/

Beijins

Shinobi disse...

Olá, Takeshi!

Antes de tudo agradeço a confiança no texto!
Quanto à honra dos samurais, é por demais conhecido que os mesmos supostamente se regiam por regras morais muito rígidas que corporizadas no "Bushido".
Agora é certo que como os japoneses, à excepção talvez do general "Miura", são descritos em "Ip Man" como seres maléficos e sem honra alguma, não me admirava que os dez japoneses caissem todos ao mesmo tempo em cima do grande mestre. E aí se calahar as coisas ficavam mais difíceis para ele, eh, eh, eh!

Abraço!

Shinobi disse...

Olá, Patyka!

O filme tem qualidade, e confesso que apreciei bastante visioná-lo.
Aguardemos então pela segunda parte, e já agora pela versão de Wong Kar Wai com o meu actor preferido de HK, Tony Leung Chiu Wai. Agora, uma coisa é certa. Desconfio que a nível de acção, o biopic de Kar Wai não se poderá comparar com o de Wilson Yip. Ter Donnie Yen neste particular, ajuda muito!

Beijinho!

Takeshi disse...

Você me fez lembrar daqueles japoneses da década de 70, bem mais maléficos, sem escrúpulo algum. Mas a justificativa para apanharem sem fazer nada naquela época é simples: com aquela cara de mal do Bruce Lee, todos ficavam paralisados de puro medo! hahaha. Bom, paro aqui com as minhas graças. Abraços!

Dewonny disse...

Pra mim, um dos melhores de Donnie Yen na minha humilde opinião, e dessa safra mais recente de filmes q ele anda fazendo é o q ele esteve melhor!
Gostei bastante, muito boa história do lendário Ip Man, adorei as cenas de luta, simplesmente excelentes, nada a reclamar, grande trabalho de Sammo Hung! Nota 8.5!
Abraço! Diego!

Shinobi disse...

Olá, Diego!

Fiquei bastante agradado com "Ip Man"! Demonstra, de certa forma, que Donnie Yen é capaz de mais coisas para além de largar porrada!
Vamos ver como é que vão sair as sequelas!

Abraço!

Nasp disse...

Acabei de ver este filme e fiquei imensamente agradado :)

Grande filme!!!!

Jorge Soares Aka Shinobi disse...

É um bom filme, sem dúvida!!!

Aderbal Amaral dos Santos Filho disse...

Olá e boa noite a todos!!
Acabei de assistir o filme na data de hj 08/11/2012 e devo adimitir que foi um espetáculo. Muito bom... de maravilhosa qualidade a ponto de me deixar emocionado, pelo carater desse Homem... desse grande guerreiro que foi o IP MAN. Parabéns a toda equipe do filme e bem merecida essa homanagem. Muito bom!!!
Aderbal Amaral, Periperi, Salvador, Bahia.