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sábado, julho 25, 2009

Departures/Okuribito - おくりびと (2008)
Origem: Japão
Duração: 130 minutos
Realizador: Yojirô Takita
Com: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano, Mitsuyo Hoshino, Tarô Ishida, Hiroyuki Kishi, Miyuki Koyanagi, Tôru Minegishi, Sanae Miyata, Ryôsuke Ohtani, Tatsuhito Okuda, Genjitsu Shu, Tetta Sugimoto, Taro Suwa, Yukiko Tachibana, Takao Toji, Tatsuo Yamada

"Mika e Daigo"

Sinopse

“Daigo Kobayashi” (Masahiro Motoki) é um violoncelista profissional, que toca numa orquestra de Tóquio. As audiências das actuações são cada vez menores, e chega o dia em que o grupo de músicos é desmantelado. Desempregado e com um violoncelo de 180 milhões de ienes para pagar (cerca de 136.000 euros!!!), “Daigo” vê-se obrigado a devolver o instrumento que era um sonho de uma vida. Sem objectivo imediato na capital, decide partir acompanhado pela sua mulher “Mika” (Ryoko Hirosue) para Sakata, Yamagata, a terra onde nasceu.

Ao consultar os classificados de um diário, “Daigo” fica animado com o anúncio de um emprego que parece promissor. Trata-se de uma estabelecimento que lida com “partidas”, e “Daigo” fica firmemente convencido que se trata de uma agência de viagens. Cedo, o protagonista tem uma desagradável surpresa, pois o que está em causa é a despedida do mundo. O objecto da firma em questão, a “NK Agent”, consiste em proceder a uma cerimónia em frente dos membros da família do falecido, que passa por embelezar e tornar apresentável o cadáver, antes de o mesmo ser depositado no caixão.

"Daigo, acompanhado pelo mestre Sasaki"

Apesar dos obstáculos e problemas iniciais, “Daigo” sob a orientação do seu patrão “Ikuei Sasaki” (Tsutomu Yamazaki), acaba por apreciar o seu trabalho, auferindo uma excelente remuneração. Contudo, nem tudo são rosas, e atendendo a que socialmente a sua profissão é considerada desonrosa, “Daigo” nada conta à esposa. No entanto, é impossível esconder tal facto para sempre...

"Daigo toca a sua triste melodia"

"Review"

Na edição dos óscares de 2008, o favorito para ganhar na categoria “melhor filme estrangeiro” era sem dúvida “Waltz With Bashir”, o candidato de Israel. Para além do “frisson” todo gerado à volta desta película, havia o quase determinante facto de a mesma ter sido a vencedora na categoria de melhor filme estrangeiro, nos “Globos de Ouro”, considerados com propriedade a antecâmara dos óscares. Foi pois, com alguma surpresa, que o vencedor do galardão da academia seria “Okuribito”, uma longa-metragem japonesa que nem sequer tinha defrontado o filme israelita na “pool” derradeira dos “Globos”. A vitória de “Okuribito” constituiu um grande feito para o cinema nipónico, pois foi o primeiro filme japonês a vencer esta importante distinção. É certo que em 1955, “Samurai I: Musashi Miyamoto”, de Hiroshi Inagaki, tinha obtido um prémio honorário da academia que visava honrar a melhor película estrangeira. Mas o que é certo é que a categoria só viria a ser oficialmente reconhecida no ano seguinte. Quanto à surpresa pelo facto de “Okuribito” ter ganho o galardão referenciado, esta sensação só ocorrerá para quem ainda não visionou o filme.

Remotamente baseado na obra “Coffinman: The Journal of a Buddhist Mortician”, “Okuribito” demorou, imagine-se, dez anos a ser filmado! Durante todo este tempo, o actor Masahiro Motoki estudou os rituais de preparação do cadáver tendo em vista a sua inumação, assim como aprendeu a tocar o violoncelo de uma forma bastante competente. Por sua vez, o realizador Yojirô Takita, assistiu a várias cerimónias fúnebres, de forma a tentar perceber melhor a consternação das famílias dos falecidos. Pelo facto dos aspectos relacionados com a morte e os funerais serem uma espécie de tabu no Japão, Takita confessou que ficou um pouco reticente quanto à receptividade do filme perante o público. Embrenhando-me um pouco mais numa das temáticas principais desta obra, todos nós temos um pouco a noção que o país do sol nascente é uma terra de rituais. “Okuribito” foca-se num dos seus costumes mais fascinantes, a arte do Nokanshi, um profissional cuja função é, como já acima induzi, preparar o corpo antes de ser colocado dentro do caixão. É deveras fascinante observar os nossos Nokanshi, “Daigo” e o mestre “Sasaki”, a exercerem o seu ofício. Uma tarefa que não tem nada de simples, é exercida com um cuidado e uma elevação espantosa. Podemos observar os homens com uma indelével delicadeza, a limpar e a vestir o corpo dos falecidos. Trata-se de uma espécie de cerimónia refinada, praticada com movimentos elegantes, que verdadeiramente transmitem compaixão e um enorme respeito pelo ser humano e a sua memória. Com a sua arte muito própria, sentimos que o Nokanshi consegue dar um semblante de vida ao falecido e uma alegria aos seus seres amados.

Sendo um misto extremamente bem equilibrado de muito drama e alguma comédia, “Okuribito” é uma película quase infinitamente enternecedora, que merece algumas lágrimas derramadas (algumas foram-me confessadas) durante o seu visionamento. Está longe de ser uma obra “lamechas” ou de sentimento artificial. Constitui, isso sim, um desfilar de sentimentos tão díspares, mas ao mesmo tempo muito caros e próximos de qualquer ser humano que se preze como tal. Neste particular, e acreditem que para quem me conhece é um grande elogio, apenas “Cinema Paraíso” e mais meia-dúzia de películas me fizeram sentir assim. Ninguém consegue ficar indiferente à forma como o realizador Yojirô Takita, expõe brilhantemente o drama pessoal de “Daigo” no exercício de uma profissão supostamente desonrada, ou a dor progressiva e atroz, até à rendição total, que os familiares sentem à medida que os seus entes queridos são preparados para a derradeira viagem. E o culminar de tudo chega com o significativo epílogo, em que nos curvamos totalmente quão muro já carcomido que é finalmente derrubado. Parafraseando uma pessoa com a qual troquei impressões acerca do filme, “é um filme que fala sobre a morte, mas que diz muito sobre a vida.” (Rodrigo C. Palma dixit).


"A equipa da NK Agent"

Os restantes aspectos artísticos de “Okuribito” são, à falta de melhor expressão, um sonho. A banda-sonora é de uma qualidade extrema, a que não será alheio o facto de ter sido um trabalho com a marca de Joe Hisaishi. O compositor tem um currículo enormíssimo, tendo arquitectado o som que ouvimos em vários filmes desde os anime de Miyazaki, passando pelas películas de Kitano, entre muitas mais, num conjunto de cerca de setenta registos. No caso particular de “Okuribito”, Isaishi aplicou-se ao máximo e destaca-se no seu trabalho, o som do violoncelo que penetra no âmago das nossas pessoas, exteriorizando exemplarmente a aura desta longa-metragem. À medida que escrevo este texto, vou ouvindo-a, enterneço-me ainda mais, o que me faz perder um pouco alguma objectividade que é necessária quando opinamos acerca de um filme. Por sua vez, a fotografia é belíssima, onde predominam as paisagens invernosas, num misto de cinzento e branco, que anuncia um pouco a tragédia, o saudosismo e a tristeza.

Os actores destilam sobriedade, competência e acima de tudo são autênticos. Já tinha aludido ao esforço enorme que o actor Masahiro Motoki dispendeu na preparação para a sua personagem. Imagino que não será nada fácil embrenhar-se no mundo dos Nokanshi, ou a aprender a tocar um instrumento como o violoncelo. Para além destes aspectos, Motoki convence-nos da sua vergonha inicial pela profissão, da sua escondida dedicação pela esposa, mas acima de tudo pelo seu fenomenal desempenho nas cenas em que tem de exercer o seu ofício e na paixão que começa a ganhar pelo mesmo. A actriz Ryoko Hirosue é um encanto, e possui um dos sorrisos mais queridos que já vi. A sua serenidade e acima de tudo a maneira como exterioriza o apoio e preocupação pelo bem-estar do marido é algo de bastante assinalável. Destacaria igualmente o veterano Tsutomu Yamazaki, no papel do mestre “Sasaki”. O seu ar rezingão, mas orgulhoso de “Daigo”, e as experiências que vive com o jovem, provocam dos momentos mais cómicos e desafogados do filme, mas também dos mais introspectivos e com mais significado. Por vezes, assume o papel do conselheiro e, porque não dizê-lo, do pai que “Daigo” tanto recrimina, mas que lhe fez falta na vida , tratando-se de um aspecto que lhe revestiu a personalidade de algum ressentimento.

Que dizer mais? Apenas que “Okuribito”, mais do que um marco, é um grande triunfo do cinema japonês. Facilmente considero-o um dos melhores filmes que tive a felicidade de ver nos últimos anos. Posso dizer que raramente vejo uma película até acabar o genérico. De atordoado, só despertei quando o leitor voltou ao menu inicial...

Um pecado mortal se não o verem!


"O ritual dos Nokanshi"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 10

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 9,13

20 comentários:

Takeshi disse...

Poucos críticos souberam descrever tão bem este filme como você. Parabéns!

Shinobi disse...

Olá, Takeshi!

Só tenho a agradecer o elogio que fez ao meu texto, que ainda tem mais valor vindo de quem vem :) !

Abraço!

Patyka disse...

Oi, Jorge!

Devo confessar também que este filme me fez derramar lágrimas sentidas, alguns filmes me deixam comovida, mais sempre consigo conter a emoção, principalmente se não estiver assistindo sozinha, mas desta vez, não tive pudores e deixei extravasar, pois como o seu amigo mesmo disse, este é um filme que fala sobre a morte, mas diz muito sobre a vida.

Com certeza, o tema abordado não é de fácil tratamento, mexe com muitos tabus que a sociedade tem sobre a morte. Interessante, que no começo estranhei muito o ritual ser feito à vista dos parentes, mas depois comecei a compreender, não sei se isto tem a ver com uma suposta diferença de mentalidade entre ocidentais e orientais sobre a morte, mas o filme consegue tratar do tema com tão grande delicadeza e sensibilidade, que vai se afastando aos poucos um sentimento de incômodo em relação ao ritual Nokanshi.

Com sempre, Jorge, você traz - além das suas impressões sobre o filme - informações que nos fazem admirar mais ainda todo o trabalho realizado no mesmo. Gostei muito da atuação do ator que fez o "Daigo" e fiquei admirada com a sua dedicação ao filme. Aliás, todos os atores estão de parabéns. Posso dizer que este filme foi um dos melhores que assisti.

Gostei muito de sua crítica.

Beijins!

Shinobi disse...

Olá, Patyka!

Pessoalmente, fiquei extremamente sensibilizado com "Departures/Okuribito" É um filme dotado de uma sensibilidade enorme, em variadíssimos aspectos.

Confesso que, quanto a mim, foi dos melhores filmes que já vi :) ! E não te preocupes com as lágrimas, pois muitas vezes só faz bem em derramá-las ;)!

Acredite que mais gente confessou-me que chorou no filme, e eu pessoalmente também fiquei um pouco emocionado :) !

Beijinho!

Patyka disse...

Pois é, Jorge, me emocionei muito com este filme, faz tempo que um filme não mexe comigo desta forma; tenho tido a oportunidade de ver belos filmes, mas devo dizer que este foi especial. E que bom saber que este sentimento é compartilhado com várias pessoas, incluindo você, o que só denota o grande alcance emocional do filme.

Nestas horas, agradeço a Deus por ter descoberto e estar conhecendo cada vez mais o cinema oriental. :)

E parabéns pela crítica!;)

Beijins!

Shinobi disse...

Fico feliz que tenha gostado do texto acerca de "Departures", Patyka!

Quando os filmes são bons, normalmente os textos também correm minimamente bem :) !

Bjs.!

plexu disse...

Este foi, para mim, o melhor filme do ano de 2008.

Abraços

Shinobi disse...

Olá, plexu!

Já somos dois a pensar da mesma forma!

Abraço!

tf10 disse...

Ora viva!
Quanto ao tão propagandeado Okuribito só posso dizer que o achei um filme banalíssimo! É de um academismo tão grande que tudo se torna bastante previsível, inclusive, a meio do filme já sabemos qual vai ser a sequência final. Como se não fosse suficiente temos também uma banda sonora demasiado orquestral que lhe confere um tom ainda mais "sentimentaleiro"......A única coisa verdadeiramente irrepreensível, como não podia deixar de ser, é o Yamazaki (que é um senhor), ao contrario do jovem actor que revelou alguma falta de talento sobretudo nos momentos mais bem humorados.
É uma pena ver um filme tão vulgar ser tido (e sobretudo publicitado) como algo que representa a superior qualidade do cinema Japonês num ano (infelizmente para nós alguns só chegaram este ano) que teve coisas absolutamente divinais!

abraço e continuação!

Shinobi disse...

Olá, tf10!

Como deves de imaginar, não podia discordar contigo mais.
É um filme que se encontra bastante longe de ser banal, a começar logo por um dos temas principais da trama. E esse aspecto, o da actividade dos Nokanshi, conjugado bastante equilibradamente com os restantes, (esses sim mais corriqueiros, mas bastante significativos)conferem ao filme uma dimensão excepcional. A sua alguma previsibilidade, não destoa, pois apesar de nos apercebermos para onde o filme caminha, a viagem vale bem a pena e o epílogo só vem reforçar bastante esta ideia. A mensagem é forte, e os temas da redenção sempre foram caros para mim, portanto...
No que se refere à banda-sonora, achei a mesma um portento e perfeitamente adequada a toda a aura do filme, que é enorme num sentido positivo. O seu tom demasiado orquestral, quanto a mim é positivo e muito belo. Se acentua mais o sentimentalismo, também não vejo daí mal nenhum, desde que seja feito com classe e sobriedade, como é o caso.
O jovem actor (embora neste momento, esteja a caminho dos 44 anos), faz um trabalho bastante meritório, quer nas cenas mais dramáticas, como nas mais cómicas. Nestas últimas, acho que reflectiu muito bem o quão atrapalhado se sente, por estar a exercer uma profissão fora do normal e com a qual não se sente muito à vontade. Quanto a Tsutomu Yamazaki, apreciei imenso a sua figura paternalista e relativamente à actriz Ryoko Hirosue, apreciei imenso a sua faceta de esposa e suporte de Daigo, perante as suas contrariedades.
Infinitamente longe de ser vulgar, e como deixei a perceber no texto acerca do filme que está a ser comentado, esta película é um verdadeiro triunfo para o cinema japonês. Entendo pois desta forma, que será bastante difícil de ser sublimado por muitas obras. As suas várias conquistas, e não estou a falar apenas do óscar, parecem-me dar razão.
Por isso reitero a todos os que por cá passam: vejam o filme e depois venham cá dizer de sua justiça!

No restante, fico bastante agradado pelo teu regresso aos comentários aqui no meu espaço. Já fazia bastante tempo que não davas sinal de vida :)))) !

Grande abraço!

H. disse...

Já está aqui para ver em breve ;)

Shinobi disse...

Olá H.!

Julgo que vais gostar do filme. Eu adorei!

Beijinho!

PS: Espero que as férias tenham sido boas e retemperadoras :) !

Americo disse...

Ola Shinobi

1. discordo do Takeshi. Acho que voce não é um dos, foi o unico (das criticas que li) a conseguir expressar o âmago do filme - missão quase (quase!) impossivel para uma pessoa nascida e criada sob outra cultura...

2. concordo com o tf10 com relação à previsibilidade. Aliás, nada mais previsivel do que a propria vida. Amanhã é domindo,vamos ter um almoço comemorativo, depois na segunda vou acordar cedo ir trabalhar, participar das três reuniões agendadas... e, a maior das previsões: um dia vamos todos deixar este mundo.

3. Quem disser que não aprendeu nada com esse film é porque já sabe de tudo,jáesgotou a sua missão na terra,já pode partir...

4. uma coisa me desgostou muito no filme: o titulo em inglês (Departures??? quem foi o AUTOR de tamanho equivoco?) e depois o golpe de misericordia: quando passram para o portugues conseguiram piorar a coisa usando a palavra no singular (!!!!).

No mais, parabens pelo blog e parabens de novo pelos comentarios e preciosas informações sobre o filme OKURIBITO.

Shinobi disse...

Olá, Américo!

Adorei o teu comentário, pois está imbuído de uma forte personalidade e alma acerca do assunto.
Na parte dos elogios que me são dirigidos, só me resta agradecer e esperar que este blog continue a merecer a tua preferência.
Efectivamente concordo contigo, no que concerne aos títulos em inglês e português. Infelizmente, estamos cheios de casos destes, que muitas vezes prejudicam o próprio filme, pois não traduzem o seu objecto.

No restante, continua a passar por aqui e a trocar ideias comigo e com o resto dos que por cá me visitam!

Grande abraço!

Battosai disse...

Como acabo de decir en la entrada de Ashes of Time, me ha encantado. Preciosa ^^

Shinobi disse...

Como já disse antes, "Departures" é um marco do cinema japonês. Para mim, é facilmente considerado um dos melhores filmes dos últimos anos!

Abraço, Battosai!

Dewonny disse...

Belíssima obra, merecido o oscar de filme estrangeiro, nota 8.5!
Abs! Diego!

Shinobi disse...

Uma verdadeira obra-prima!

Amei este filme, é maravilhoso!

Abraço!

Maryssol disse...

Excellllllllllllllente, maravilhoso, não tenho palavras para descrever o filme.

Jorge Soares Aka Shinobi disse...

Uma verdadeira obra-prima! Filmes destes não aparecem todos os dias!