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terça-feira, julho 27, 2010

The Good, the Bad, the Weird – Joheun nom, nabbeun nom, isanghan nom - 좋은 놈, 나쁜 놈, 이상한 놈 (2008)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 130 minutos

Realizador: Kim Ji-woon

Com: Song Kang-ho, Lee Byung-hun, Jung Woo-sung, Yoon Je-moon, Ryoo Seung-su, Song Young – chang, Son Byeong-ho, Oh Dal-su, Uhm Ji-won

Yon Tae-goo - the Weird 3

Yoon Tae-gu, o esquisito”

Sinopse

Na Manchúria, década de '30, o mítico e sanguinário assassino “Park Chang-yi” (Lee Byung-hun), o “Mau”, assalta um comboio de forma a roubar um mapa dos oficiais japoneses, que supostamente levará a um grande tesouro. Infelizmente para “Chang-yi”, “Yoon Tae-gu”, o “Esquisito”, leva a melhor e foge com o mapa em busca da fortuna.

Park Chang-yi - the bad 2

Park Chang-yi, o mau”

No entanto, as coisas não correm assim tão bem para “Tae-gu”, pois este é capturado por “Park Do-won”, o “Bom”, que ao mesmo tempo é um caçador de recompensas muito conceituado. Tendo tomado conhecimento do tesouro, “Do-won” resolve fazer uma sociedade pouco convencional com “Tae-gu”, e ambos partem em busca da riqueza e glória. Contudo, as coisas não serão fáceis, pois serão perseguidos pelo psicótico “Chang-yi”, por outros grupos de salteadores e pelo próprio exército imperial japonês.

Park Do-won - the good

“Park Do-won, o bom”

Review”

“The Good, the Bad, the Weird” teve honras de estreia no festival de Cannes, edição de 2004, tendo recebido no geral críticas favoráveis, assim como venceu os prémios para melhor realizador e efeitos especiais no conceituado festival de Sitges, o certame de cinema catalão que é uma referência no panorama da sétima arte asiática na Europa.

Com “The Good, the Bad, the Weird”, um conceito à partida estranho, o “western” asiático, marca pontos outra vez. Depois de “Peace Hotel” (Hong Kong), “As Lágrimas do Tigre Negro” (Tailândia) e “Sukiyaki Western Django” (Japão), é chegada a vez de a Coreia do Sul provar que o cinema oriental tem a versatilidade suficiente para emanar obras com conceitos que à partida, estariam culturalmente deslocados do seu horizonte. Claramente tributário do que denomina de “western spaghetti”, o realizador Kim Ji-woon faz apelo à trilogia do “Homem sem Nome”, de Sergio Leone, em especial da lendária película “O Bom, o Mau e o Vilão”. Sendo que até 2009, “The Good, the Bad, the Weird” constituía a longa-metragem mais cara da história do cinema sul-coreano, Kim Ji-woon chamando a si a tradição de acrescentar um nome de uma iguaria à palavra “western”, de forma a individualizar determinado subgénero, chamaria de “kimchee western” à sua obra, em homenagem a um prato tradicional sul-coreano.

Dotado de um ritmo incrível e contagiante, “The Good, the Bad, the Weird” é um exercício divertido e que captará a atenção do espectador até aos créditos finais. Kim Ji-woon sai-se bem na homenagem que faz aos filmes de Leone, criando uma atmosfera própria e típica para o género, embora positivamente introduza elementos mais contemporâneos e actuais. A escolha da Manchúria dos anos '30, dominada pelos japoneses, é bastante feliz e serve de pano de fundo ideal para toda a trama. Os momentos de acção são espectaculares, com tiroteios de suster a respiração, perseguições alucinantes e diálogos emblemáticos, com alguma ironia que nos faz sorrir, típicos de um “western” que se preze como tal.

Os salteadores

O bando de salteadores”

Como o próprio título deste filme indica, está em causa o encontro entre três pistoleiros de renome, sendo os mesmos interpretados por três dos maiores nomes da cena sul-coreana. Song Kang-ho (o “Esquisito”) consegue evidenciar a melhor prestação a que não será alheio o facto de o seu papel ser mais ecléctico e atreito a demonstrar diferentes vertentes de representação. Lee Byung-hun (o “Mau”) consegue sobressair uma aura sinistra que era o que se lhe pedia para a sua actuação. Embora se reconheça que muito do seu trabalho se confina a parecer um “mau com estilo”, o realizador Kim Ji-won, num “flashback” à Sergio Leone, confere mais profundidade a esta personagem em concreto. O terceiro elemento da parelha, Jung Woo-sung (o “Bom”), é quem verdadeiramente sofre com a maneira como o argumento é desfilado, o que sinceramente deveria ter sido algo alterado de forma a relevar este competente actor. Woo-sung sofre de uma falta gritante de minutos, em comparação com os seus dois companheiros da película. Supostamente, e fazendo o paralelo com o anti-herói protagonizado pelo grande Clint Eastwood na película de Leone anteriormente mencionada, Woo-sung é algo maltratado nesta longa-metragem, a nível de protagonismo.

Com a costumeira animosidade anti-japonesa, embora aqui algo dissimulada, “The Good, the Bad, the Weird” é uma boa proposta a nível de entretenimento, que não defraudará os fãs do “western”, da aventura e até dos momentos mais descontraídos e eivados de boa disposição. O seu “pace” é contagiante, as personagens têm o seu “quê” de fascínio, os cenários são mais do adequados, existe acção a rodos e nesta vertente o que é que se pode pedir mais? Mais uma boa proposta para um Domingo à tarde bem passado!

Curiosidade e ao mesmo tempo um desejo escondido: Se o “mestre” John Woo embarcasse num “Asian Western”, e colocasse uma pitada dos seus predicados de “heroic bloodshed”, o que sairia dali?

Luta

Chang-yi cavalga com os seus apaniguados, no meio de uma luta renhida”

imdb 7.4 em 10 (4.961 votos) em 27 de Julho de 2010

Outras críticas em português:

  1. Sake com Sal
  2. Cinecafri
  3. Cinematório
  4. Cinefilia
  5. Omelete

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

 

quinta-feira, novembro 06, 2008

I'm a Cyborg But That's Ok/Saibogujiman kwenchana - 싸이보그지만 괜찮아 (2006)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 105 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lim Su-jeong, Jeong Ji-hun Aka Rain, Choi Hie-jin, Kim Byeong-ok, Lee Yong-nyeo, Oh Dal-su, Yu Ho-jeong


"Young-goon"

Sinopse

“Young-goon” (Lim Su-jeong) é uma jovem rapariga que trabalha numa fábrica de componentes electrónicos. Pensando que é um ciborgue de guerra que necessita de uma recarga, corta os pulsos e liga-se à corrente, dando a aparência que tentou cometer suicídio. Por esse motivo, é internada num sanatório.


"Park Il-sum"

Na instituição de saúde mental, “Young-goon” relaciona-se quase exclusivamente com objectos mecânicos, falando com máquinas de café e sumos, e relógios de pêndulo. Igualmente deixa bem claro que não ingerirá nenhum tipo de comida convencional, pois um ciborgue não pode ingerir este tipo de alimentos, sob pena de danificar os circuitos. Em vez disso, “Young-goon” insiste em tentar provar bocados de metal e pilhas.

A vida de “Young-goon” altera-se por completo quando começa a relacionar-se com outro paciente do manicómio chamado “Park Il-sum”, um cleptomaníaco que afirma conseguir roubar a essência das pessoas, quer se consubstanciem em qualidades, quer em defeitos. O rapaz, à sua maneira pouco convencional tenta ajudar “Young-goom” nos seus problemas e uma história de amor incomum começa a nascer.


"O romance nasce onde por vezes menos se espera"

"Review"

Em 2006, após a realização de obras que ficarão para sempre na história do cinema asiático, mormente a aclamada “trilogia da vingança” (“Sympathy for Mr. Vengeance”, “Oldboy” e “Sympathy for Lady Vengeance”), Park Chan-wook viria a trilhar por caminhos que colhem imenso a afeição da cinematografia do seu país, ou seja, o romance. O objecto desta abordagem seria corporizado em “I'm a Cyborg But That's Ok”, uma história de amor que nada de normal tem à primeira vista, mas cuja originalidade não seria suficiente para fabricar um novo sucesso e “frisson”, à semelhança do que sucedeu com as obras acima mencionadas, ou com outro aclamado filme do autor “JSA – Joint Security Area”. Nem mesmo com a presença de um dos ídolos “pop” mais amados pela juventude sul-coreana, o cantor conhecido como Rain. Mesmo assim, a película viria a marcar significativamente a sua presença no festival internacional de cinema de Berlim – edição 2007, ao vencer o prémio “Alfred Bauer”, um troféu que possui o nome do fundador do certame e que se destina a reconhecer uma longa-metragem inovadora na arte cinematográfica.

Recorrendo a uma faceta extremamente surrealista, Park Chan-wook desta vez oferece-nos um filme visualmente muito forte e belo, que recorrentemente me fez lembrar algumas obras de Tim Burton, tais como “Charlie e a Fábrica de Chocolate”. Os tons são vívidos e coloridos, transparecendo uma certa aura que roça a fantasia. Os efeitos especiais são muito bem executados, dos quais se destaca claramente as transformações imaginárias de “Young-goon” para ciborgue, com rajadas de metralhadora a despontarem violentamente pelas pontas dos seus dedos, ou a cena muito bem conseguida de “Park Il-sum” encostado ao corpo de “Young-goon”, onde podemos observar o mecanismo interno imaginário da rapariga, com todas aquelas roldanas e luzes. Lim Su-jeong, que já conhecia de “História de Duas Irmãs”, explana uma performance formidável. O seu ar decadente, vidrado, mas frágil atinge quase os limiares da perfeição. Uma agradável surpresa para mim, foi Jeong Ji-hun, mais conhecido por Rain. Esta figura é, como acima referi, um verdadeiro ícone musical na Coreia do Sul cuja influência já extravasou as fronteiras do seu país, vendendo milhões de discos por toda a Ásia. Todos nós sabemos de alguns infelizes exemplos recentes, principalmente vindos de Hong Kong, de cantores que foram um verdadeiro fiasco quando se aventuraram na sétima arte. O maior exemplo que me ocorre são as “Twins”. Longe vão os tempos dos chamados “Four Heavenly Kings”, o grupo de cantores constituído por Andy Lau, Aaron Kwok, Jacky Cheung e Leon Lai. Ou então do eteno Leslie Cheung. Rain, cuja estreia numa longa-metragem foi precisamente com “I'm a Cyborg But That's Ok”, oferece uma interpretação muito prometedora, a que não será alheia com certeza a direcção de Park Chan-wook. Com este duo, e com os demais actores, tudo consegue fluir naturalmente, apesar da maioria dos intérpretes darem vida a personagens que tudo têm menos de “natural”.

Antes de tudo, e com já referi acima algumas vezes, “I'm a Cyborg But That's Ok” é uma história de amor, na vertente da comédia romântica. Simplesmente o seu “background” não é cor-de-rosa, nem apresenta características demasiado idílicas. Afinal estamos a falar de uma longa-metragem que se passa quase exclusivamente num local que não associamos a nada de positivo, ou seja, um hospital psiquiátrico. Em certos aspectos, e com os devidos considerandos e distâncias (que são vastos), poderá ser tributário de “Voando Sobre Um Ninho de Cucos”, essa fantástica obra do realizador Milos Forman em que Jack Nicholson teve o papel, entre outros, de uma vida. Existem um manancial de doentes mentais, cada um com disfunções muito próprias tais como uma “tirolesa” compulsiva, que está constantemente com os seus “yoyodelele's”, maníacos do ténis-de-mesa, uma paciente que adora inventar contos aparentemente verdadeiros com o intuito de criar falsos mitos, outro que julga que tudo o que de mal acontece é culpa sua, etc..., etc..., etc... Junte-se a este mundo à parte um casal que na loucura se apaixona e auxilia, e temos o cenário criado para um dos romances mais “sui generis” da história. Afinal como é que não poderia dar certo entre uma relação entre uma rapariga que pensa que é um ciborgue mortal e um rapaz que julga poder absorver as características de terceiros com uma simples palmada na mão?! E o que ressalta de toda esta “anormalidade” (sem qualquer sentido pejorativo) é a imensa criatividade com que tudo nos é apresentado, inclusive o desenvolvimento dos sentimentos entre os protagonistas. É verdadeiramente enternecedor observar os esforços nada convencionais de “Il-sum” para auxiliar “Young-goon”, desde tentar convence-la que instalou um dispositivo no seu corpo que transforma a comida ingerida em material que não irá prejudicar os seus componentes, até colocar-se ao seu lado num temporal com um para-raios, à espera que ambos sejam atingidos por um relâmpago. Isto faz com que os sorrisos mantenham-se nas nossas faces, quer seja pelo estigma do “oh, tão querido!”, ou pelo simples prazer de visionar situações de boa comédia.

"I'm a Cyborg..."

“I'm a Cyborg But That's Ok” é um filme que demonstra aspectos bastante originais, e que apesar de ter alguns momentos de comédia negra, acaba por debaixo da pele ser uma história de amor inteligente, embora um tanto ou quanto confusa, porventura de um modo intencional. Tenta demonstrar que mesmo nas situações mais improváveis e incomuns, existe sempre espaço para o sentimento e para a procura de uma razão de existir (mesmo que esta se reconduza a explodir com o mundo todo, após uma descarga de um bilião de “volts”!!!). Trata-se de uma película perspicaz, com momentos assombrosos no bom sentido, mas por vezes com falta de rumo. Demonstra de uma perspectiva fantasista que até mesmo na insanidade é possível ser feliz! O que interessa é acima de tudo que todos se sintam confortáveis com a situação, mesmo numa conjuntura de alienação social. E se um pensa que consegue roubar as almas de outrem, e outro pensa que é um ciborgue destinado a acabar com o mundo, por mim...está tudo ok!

Boa película sem margem para dúvida, mas de Chan-wook esperava algo mais! A conferir!

"A expectativa..."

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8








terça-feira, setembro 02, 2008

Vingança Planeada/Sympathy for Lady Vengeance Aka Lady Vengeance/Chinjeolhan geumjassi - 친절한 금자씨 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 115 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Kwon Yea-young, Go Su-hee, Kim Bu-seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-hoo, Lee Seung-Shin, Nam Ill-woo, Oh Dal-su, Yu Ji-tae, Tony Barry, Anne Cordiner, Kang Hye-jeong, Lee Dae-yeon, Lim Su-gyeong, Oh Kwang-rok, Ra Mi-ran, Seo Yeong-ju, Shin Ha-kyun, Song Kang-ho

"Lee Geum-ja"

Sinopse

Em 1991, “Lee Geum-ja” (Lee Yeong-ae) foi condenada ao cumprimento de uma pena de reclusão por um ilícito hediondo, a saber, o rapto e homicídio de uma criança. O crime foi extremamente emblemático na época em que sucedeu, tendo a comunicação social empolado a situação de tal maneira que “Geum-ja” tornou-se numa notória assassina com apenas 19 anos à altura.

"O escândalo de uma jovem de 19 anos acusada de um crime hediondo"

No tempo que passou na prisão, “Geum-ja” tornou-se conhecida pela sua bondade e ar angélico, granjeando desta forma grande popularidade entre os funcionários da cadeia e as reclusas. Igualmente encontrou consolo na religião católica, adoptando um fervor espiritual exemplar. Em 2004, 13 anos depois do início do seu cativeiro, “Geum-ja”, agora uma bonita mulher com 32 anos, é libertada. Logo após o fim da sua provação, adopta uma postura completamente oposta à que tinha na prisão, dando uma volta de 180 graus na sua vida. Desde o início, faz por demonstrar que é um ser sério, frio e calculista, adoptando indumentárias preferencialmente de cor negra e pintando os seus olhos com uma sombra vermelho-sangue.

A súbita, mas calculada transformação de “Geum-ja”, deve-se a vingança que esta pretende exercer sobre um professor primário chamado “Baek” (Choi Min-sik). A razão para a atitude da mulher passa por a mesma ter sido obrigada a assumir as culpas pelo chocante crime que não cometeu, de forma a proteger a sua filha “Jenny” (Kwon Yea-young) de “Baek”. Meticulosamente “Geum-ja” arquitecta o seu plano, tendo por orientação e verdade absoluta que existem certas dívidas que só se pagam com sangue.

"Geum-ja empunha uma arma ultrapassada pouco convencional"

"Review"

Após no passado ter elaborado aqui textos acerca de “Sympathy for Mr. Vengeance” e “Oldboy”, chegou a altura de encerrar a trilogia não oficial de Park Chan-wook, dissertando um pouco agora acerca do último filme da saga “Sympathy for Lady Vengeance”, uma obra negra e poética da autoria do mestre sul-coreano à semelhança das suas antecessoras, embora com uma abordagem distinta. Antes de tudo constitui mais uma película bastante premiada, com galardões em vários certames internacionais entre os quais Veneza e o nacional Fantasporto – edição de 2006, onde viria a levar para casa o prémio relativo à secção “Orient Express” do festival. Beneficiando do “hype” de “Oldboy” realizado dois anos antes, “Sympathy for Lady Vengeance” foi uma obra bastante aguardada pois muita era a curiosidade em saber até onde Park Chan-wook poderia ir com o seu amado conceito da “vendeta”, depois do estrondoso êxito da sua película anterior. O resultado desde já se adianta que é extremamente positivo, tendo Chan-wook criado uma longa-metragem de eleição, não atingindo contudo o nível da sua predecessora (a pergunta que aqui se coloca é se dentro do género, alguém ou algo o conseguirá fazer).

Um aspecto que desde logo chama a atenção é a criação da personagem de “Geum-ja”, com todos os seus atributos físicos e psicológicos. É traçado um retrato complexo (mas perfeitamente perceptível aos olhos do espectador) de uma mulher bela, eivada de um ar angélico, que joga fora completamente o início da sua vida adulta em nome de algo maior. É uma figura enigmática, mas que colhe a nossa simpatia, apesar da sua faceta anjo-demónio que a actriz Lee Young-ae interpreta de uma forma bastante competente. Por outra via, somos confrontados com um “Baek” que aparentemente se configura como um cidadão normal, mas que na realidade é um verdadeiro monstro doentio, sem escrúpulos, cuja “tara” passa por se aproveitar de crianças indefesas, causando desta forma a infelicidade e a miséria nas famílias dos jovens. Como seria de esperar, o fantástico e renomado intérprete sul-coreano Choi Min-sik oferece-nos um desempenho acima da média que pecará apenas por algo que lhe é completamente alheio, ou seja, a falta de minutos. Como praticamente nada é perfeito, e esta premissa também se aplica ao cinema, Chan-wook podia ter investido mais em “Baek” e nas suas motivações, de maneira a que tivéssemos um sentido mais lúcido da outra face da moeda, assim como a oportunidade de vermos mais de um actor que pertence à fina-flor do cinema mundial. Pelo contrário, Chan-wook optou por centrar mais a narrativa na personagem principal, a “Lady Vengeance Geum-ja”, o que se torna aceitável, pois focámo-nos quase por completo no cerne principal do filme, a vingança justificada de uma mulher amarga, mas completamente determinada. Mesmo assim é caso para perguntar se a trama tivesse concedido mais algum destaque a “Baek”, não saborearíamos nós melhor o “cocktail molotov" que se avizinha?!

O restante elenco comporta-se à altura, restando apenas expôr umas curiosidades que com certeza agradarão aos fãs da “trilogia da vingança” de Chan-wook. Os dois assassinos contratados para matar “Geum-ja” são interpretados pelos conhecidos actores sul-coreanos Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, que deram vida aos papéis principais em “Sympathy for Mr. Vengeance”. Aliás se repararmos bem no conjunto de intérpretes que Park Chan-wook reuniu para a longa-metragem que ora se analisa, veremos que estamos perante uma verdadeira constelação de estrelas e mais do que isso, aglutinaram-se todos os artistas que representaram os papéis mais emblemáticos das restantes películas da saga. Além dos já mencionados Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, temos Choi Min-sik, Kang Hye-jeong, Yu Ji-Tae e Oh Dal-su de “Oldboy”. Fica apenas a faltar a actriz Bae Doo-na (a "Yeong-jin" de “Sympathy for Mr. Vengeance”) para ficarmos com o repertório completo.

"Baek em apuros"

No que toca à exposição da violência, “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme aparentemente menos intenso que “Sympathy for Mr. Vengeance” ou “Oldboy”. Em “Sympathy for Mr. Vengeance” estávamos perante um conceito de vingança mais impulsivo e delapidante, onde as motivações de todas as “partes do conflito” são profusamente abordadas e tudo parece ter origem no amor, um sentimento à primeira vista (mas não à segunda) contraditório com o resultado final. Nessa obra-prima intitulada “Oldboy”, a vingança aparece mais como uma maníaca necessidade, consubstanciada num desejo animalesco de retribuição dolorosa por um emprisionamento aparentemente injustificado. O que viria a seguir é forte demais para quase todos nós! No tocante a “Sympathy for Lady Vengeance”, é exposta uma abordagem mais sentimental (do ponto de vista convencional) e menos crua da vingança, quando comparada com as películas anteriormente mencionadas. No entanto se, e como já mencionei, os pormenores mais “físicos” da questão estão refreados, isto não significa necessariamente que o filme não tenha a mesma intensidade. A violência aqui é mais induzida, do que propriamente explanada. Relembre-se apenas, e a título exemplificativo, na cena em que uma das companheiras de “Geum-ja” na cadeia está a fazer calmamente um churrasco, enquanto um bando de polícias cautelosamente se aproxima de arma em punho. Mais tarde vimos a saber que a pessoa em questão tinha sido presa por ter morto o marido e posteriormente o ter cozinhado às fatias e ingerido o petisco...Outro aspecto de aplaudir é conceito de “vingança partilhada” exposto nos últimos 15-20 minutos da película, que se torna numa lufada de ar fresco e de certa forma surpreende “positivamente” o espectador.

Com uma banda-sonora espectacular composta por excertos na sua maior parte de Vivaldi, (debitando igualmente uma melodia de Niccoló Paganini) e na esteira de clássicos japoneses como “Lady Snowblood” de Toshiya Fujita (salvo as devidas adaptações e diferenças em função da contemporaneidade e não só), “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme que recupera o conceito da mulher inocente e frágil que devido às agruras da vida, contraria a sua natureza e embarca no “olho por olho, dente por dente”. Vindo de Park Chan-wook, o resultado não poderia ser outro senão um filme catalisado por elementos psicológicos bastante bem explorados, consubstanciado em mais uma reinvenção de uma vingança sangrenta, que é de aplaudir. O resultado é óptimo, fazendo com que a película seja absolutamente de visionamento obrigatório. Encerra-se desta forma e com chave de ouro, um dos ciclos mais emblemáticos da história do cinema asiático, quiçá mundial, traduzido num dos mais brilhantes tratamentos conferidos à natureza humana e à sua volatilidade!

Muito bom!

"Geum-ja e a filha Jenny"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





quarta-feira, abril 30, 2008

The Host - A Criatura/The Host/Gwoemul -
괴물 (2006)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 114 minutos

Realizador: Bong Joon-ho

Com: Song Kang-ho, Byeon Hee-bong, Park Hae-il, Bae Doo-na, Ko Ah-seong, Oh Dal-su, Lee Jae-eung, Lee Dong-ho, Yoon Je-moon, Lim Pil-seong, Kim Roi-ha

"Gang-du"

Sinopse

No rio Han, em Seul, as pessoas deparam-se com uma visão incomum. Um ser estranho encontra-se suspenso numa ponte, e todos, incluindo o retardado “Gung-du” (Song Kang-ho), pasmam-se com a situação. O momento de letargia desaparece abruptamente, quando a criatura resolve atacar a população e espalhar o caos pelas margens do curso de água. “Gung-du” agarra na filha “Hyun-seo” (Ko Ah-seong) e foge em desespero, à semelhança de todos os que se encontram no local. Contudo, e devido ao raciocínio lento de “Gung-du”, a criatura apanha “Hyun-seo” e arrasta-a para as águas do rio.

"Gang-du em fuga com a filha Hyun-seo"

Como se este problema não fosse o suficiente, “Gung-du” e a restante família, o pai “Hee-bong” (Byeon Hee-bong), o irmão Nam-il (Park Hae-il) e a irmã “Nam-joo” (Bae Doo-na) são mantidos em quarentena no hospital, por terem entrado em contacto com o monstro e desta forma se suspeitar que estão infectados com um vírus mortal. Partindo do pressuposto que o benjamim da família se encontra morto, a ideia depressa se altera quando “Gung-du” recebe uma chamada da filha. A rapariga atemorizada, e através de um telemóvel, afirma que está presa no covil da criatura, algures na rede de esgotos perto do rio Han.

A família escapa-se do hospital e une-se no objectivo comum que é resgatar “Hyun-seo”. Para tal, e sendo apenas cidadãos comuns, vão ter que partir à caça da maior ameaça que a cidade de Seul já enfrentou!

"Hyun-seo"

"Review"

Em 2006, directamente da Coreia do Sul, e à semelhança do monstro do rio Han que protagoniza a película, emergia “The Host”, um filme que chamaria a atenção de todo o cinéfilo ocidental para o cinema coreano (coisa rara a estreia de um filme asiático na Madeira, pois também aqui andou a deambular nas salas de cinema). O grande sucesso desta longa-metragem começaria dentro de fronteiras, com “The Host” a desalojar o trono que pertencia a “The King and the Clown”, e a tornar-se por direito próprio, o campeão das bilheteiras na Coreia do Sul, tendo sido visto por 13 milhões de pessoas!!!
No meio de 18 prémios conquistados, sobretudo em festivais de cinema realizados no oriente, sempre se destacará o galardão para melhor realizador conquistado no “Fantasporto”, que viria a repetir em Sitges, assim como o atribuído para melhores efeitos especiais atribuído neste último certame. A sua estreia mundial, teve a grande honra de suceder em Cannes, o que forçosamente tenho de reconhecer que não é para qualquer um. Como se este já pujante cartão de visita não bastasse, a conceituada publicação “Cahiers du Cinema” viria a considerar “The Host”, como o 3º melhor filme de 2006.

Com este digno cartão de visita, sempre se adiantará que ao contrário da esmagadora maioria das críticas que existem espalhadas pela “net”, este texto não irá trilhar os caminhos do endeusamento de “The Host”, nem nada que se pareça. A película tem qualidade, isso é inegável. Mas sinceramente, ainda não descobri, ao fim de 3 visionamentos, o que ela tem assim de tão especial para merecer as apologias hiperbólicas que foram veiculadas um pouco por todo o lado. Por vontade própria, torna-se um texto ingrato para escrever...

Antes de tudo, comecemos pelo principal (de um ponto de vista empírico), ou seja, o monstro que anda a espalhar a miséria pelos habitantes de Seul e por uma família em particular. O facto de a criatura surgir logo no início, ao invés do costumeiro suspense que se costuma fazer, é de saudar e rompe com convenções. Todos nós estamos habituados a que filmes do género, exponham as suas aberrações de uma forma progressiva. Um respirar atroz, um olhar malévolo, um vulto repentino, etc...etc... Em “The Host”, o “simpático” desvio da natureza é-nos dado a conhecer logo de início, e não perde tempo a fazer das suas, ou seja, a atacar as inocentes pessoas que gostam de andar pelas margens do rio Han. E daqui decorre a premissa principal da película e a partir de onde tudo se desenvolve, a saber, o rapto da jovem “Hyun-seo”, filha do principal herói da longa-metragem, “Gung-du”. Nada de rodeios, directo ao assunto!

"Nam-joo"

Falemos agora do aspecto do “bicho”. Sinceramente não gostei... Para os parâmetros sul-coreanos, podemos afirmar que “The Host” até teve um orçamento relativamente desafogado (cerca de 10 milhões de dólares). No entanto, tal representa uma verba modesta face às grandes produções norte-americanas (a maior parte de valor discutível, diga-se de passagem), com possibilidades de gastar exorbitâncias em efeitos especiais. Segundo consta, o realizador pretendia, em coerência com o argumento, que o monstro se assemelhasse a um animal que tivesse sofrido uma mutação anormal. Não tenho dúvidas nenhumas que o objectivo foi conseguido. Simplesmente estamos a falar de uma questão de pura estética, em que como tudo na vida, os gostos variam e muito. Não achei nada de especial (o “Alien” para mim ainda continua a ser o indisputado campeão). O que me fez preencher um pouco as vistas foram os movimentos acrobáticos da criatura, que são acima de qualquer repreensão. Realistas e naturais, acabam por ser o ponto forte do CGI usado nesta longa-metragem. Confesso que o grande alarido que se fez à altura, em relação a este filme em concreto, possa ter condicionado de alguma forma a opinião aqui expressa.

A crítica aos americanos não é nada de novo na cinematografia sul-coreana, e esta por sinal tem por base factos verídicos. Pelos vistos, em 2000, um cientista que trabalhava para o exército norte-americano baseado na Coreia do Sul, despejou uma grande quantidade de formol nos esgotos de Seul. Tal consubstanciou-se num atentado ambiental de alguma gravidade que causou revolta entre a população. Bong Joon-ho, admite, entre sorrisos esparsos, que o filme poderá conter algum anti-americanismo à mistura. Quanto a mim, é indubitável que se fez algum exercício fantasista no sentido de pensar nas consequências das atitudes irreflectidas de alguns, no sentido de criar um ser que espalhe o terror pela maior metrópole do país. A origem dessa instabilidade nasce de algo exterior à cultura coreana (os americanos), e que a condiciona fortemente. É um monstro, mas poderia ser uma infinidade de coisas mais, sempre com o aspecto nacionalista e político subjacente. O certo é que a maior ditadura do mundo, a norte-coreana (na minha singela opinião) fez uma apologia de “The Host”, o que é certamente uma novidade no que toca aos “filmes subversivos do vizinho capitalista”.

O que é de acentuar mais, na minha humilde opinião, é a união expressa (uma “máfia” no bom sentido, expressão com a qual concordo plenamente quando bem interpretada) de uma família com grandes frustrações no seu seio. Temos como elementos componentes o patriarca “Park Hie-bong”, que tenta ser o elo mais forte, mas que nos podemos aperceber dos erros da juventude e das repercussões subsequentes; o filho mais velho, “Gung-du”, um retardado inconsequente, que foi abandonado com uma filha nos braços; “Nam-il”, que concluiu a sua licenciatura, mas cujo desemprego vota-o ao alcoolismo; “Nam-joo”, uma praticante de tiro com arco, dotada de elevado potencial, mas que falha sempre na hora da verdade. Todos sem excepção unem-se, apesar da sua pouca conveniência social, e prosseguem ligados na prossecução de um objectivo comum: recuperar a sua redenção, corporizada tanto no objectivo como na pessoa mais “normal” da família, a jovem “Hyun-seo”. A partir daí temos o motivo para a exposição de boas interpretações do elenco, sem excepção. O drama, até prova em contrário, continua a ser o que os coreanos executam com mais mestria. Já dizia a personagem “Gyeon-woo” de “My Sassy Girl”, interpretada pelo actor Cha Tae-hyun, “all koreans love melodrama”, e como quem corre por gosto não cansa...

A comédia “nonsense”, para não variar afigura-se um tanto ou quanto dispensável, pois não resulta por aí além e quebra um pouco o espírito do filme. O epílogo é extremamente previsível e não consegue escapar a uma vertente moralista que, embora educativa (o que é sempre de elogiar), dispensava-se um pouco atendendo ao contexto em geral.

Em jeito de conclusão, resta apenas afirmar o quase óbvio para quem leu com atenção este texto. A Coreia do Sul tem obras cinematográficas de um nível bastante superior a “The Host”, e que são praticamente desconhecidas do público ocidental, cujo rol seria exaustivo enumerar. No alto da minha ingenuidade, é para mim um mistério, como as mesmas não conseguem ter a projecção que o filme que ora se disserta alcançou. Sempre se poderá dizer que a explicação terá algo de futebolístico: às vezes não é quem é melhor jogador, mas sim quem tem o melhor empresário ou quem possui um manancial de fintas que não o fazem propriamente um executante de primeira fila. Provavelmente o mais plausível será que a opinião aqui veiculada, pelo facto de ser minoritária, não há de colher vencimento. Mas fazendo uso de um “cliché” acertadíssimo, nem sempre as maiorias têm razão.

Depois de visionar “The Host”, e embora sejam pertencentes a géneros completamente distintos, só me resta concluir que o melhor filme de Bong Joon-ho continua a ser “Memories of Murder”. Contudo, será inegável que valerá a pena dar uma espreitadela, nem que seja para chegar a uma conclusão idêntica à minha, ou, pelo contrário, atirá-la completa ou parcialmente para o balde do lixo...


"Nam-joo enfrenta o monstro"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Cinedie Asia,
  2. Cinema2000,
  3. Zona de Culto,
  4. Royale With Cheese,
  5. Duelo ao Sol,
  6. Cine-Asia
  7. Devaneios
  8. Batto presenta...

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Eotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





quinta-feira, junho 08, 2006

Oldboy-Velho Amigo/Oldboy (2003)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 120 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Choi Min-sik, Yu Ji-tae, Kang Hye-jeong, Ji Dae-han, Oh Dal-su

"Ou falas e contas tudo o que sabes, ou..."

Considerações pessoais

Quando ocorreu a ideia de criar este "blog" e como ficou atestado no primeiro "post", o conteúdo temático deste espaço versaria sobretudo sobre os "swordplay" asiáticos. Na altura, alertei igualmente que ocasionalmente poderia ser efectuada uma crítica a filmes que não se enquadrassem no género mencionado, mas respeitando sempre a trave-mestra por que se rege o "blog" : tem que ser um filme de origem asiática. Afinal de contas, a designação deste espaço é "My Asian Movies", que significa literalmente "Os meus filmes asiáticos".

Como se pretende que este espaço seja dinãmico e anti-estanque, mais uma página cumpre virar e nada melhor que "Oldboy" para incrementar e iniciar uma variação mais abrangente de conteúdos do "blog".

Feito este parênteses, vamos ao que interessa!

"Dae-su sem contemplações!"

Estória

"Oh Dae-su" é um normal, embora não muito responsável chefe de família, que é raptado no meio da rua e emprisionado num apartamento. Entretanto a sua mulher é assassinada e perde o rasto à sua filha pequenina. O cativeiro dura uns longos 15 anos, em que podemos acompanhar o quotidiano desta personagem no espaço em que está confinado, assim como o aumento progressivo da sua paranóia, situação normal para uma pessoa a quem foi retirada a liberdade e não faz a mínima ideia das razões para tal.

"Dormindo com o inimigo"

Decorido este período, "Dae-su" é finalmente libertado e assume como único objectivo descobrir as motivações que estão por detrás do seu sequestro e consequentemente de vingar-se dos seus misteriosos inimigos. Pelo caminho trava conhecimento com uma jovem rapariga, que o ajuda nasua demanda e com a qual acaba por encetar um relacionamento.

De cena em cena o véu do mistério vai sendo descerrado e a realidade torna-se cruel demais...

"Uiiiiiiiii!"

"Review"

Desde logo devo alertar que "Oldboy" não é um filme destinado a pessoas facilmente impressionáveis ou com uma moral muito rígida. Se consideram-se enquadrados nesta categoria, esqueçam o visionamento da película, pois ela só vos revoltará e provavelmente não conseguirão ver até ao fim. Só a título de exemplo, o actor principal Choi Min-sik, numa cena come um polvo vivo. O animal em questão tem "apenas" o tamanho de um pequeno gato! Acreditem que isto nem é nada comparado com outras imagens e com o próprio enredo. "Oldboy" faz do terrorismo psicológico e do choque uma verdadeira arte!

A fluidez da película é muito boa. O espectador consegue sentir a agonia da solidão, e todo um manancial de diferentes sensações, assim como a raiva expedida por "Dae-su", de que serve como exemplo uma cena em que aquele "arruma" literalmente com uma dúzia de homens directamente responsáveis pela sua tragédia. Não estamos a falar em cenas de artes marciais! A personagem principal violentamente bate e esmaga os seus oponentes com um martelo!

"Perdão..."

A paixão crescente e agonizante entre "Dae-su" e a jovem "Mi-do" constitui um dos muitos pontos fortes do filme e desemboca no momento mais chocante. E mais não digo...

Todos os actores interpretam os seus papéis com grande mérito, mas a de Choi Min-sik é verdadeiramente transcendente. Até hoje nunca vi um "acting" tão bem conseguido e capaz de envergonhar qualquer actor que tenha ganho um óscar. A maneira como "Dae-su" é corporizado com os seus medos, anseios, ódio latente e desespero existencial é digna dos mais elevados elogios e de praticamente nenhum reparo.

"Oldboy" constitui uma película revestida de uma qualidade inegável, que justamente viu o seu valor reconhecido em Cannes - edição de 2004, ao vencer o grande prémio do juri.

Posso-vos dizer que ao acabar de ver o filme, senti-me subitamente atordoado. Desliguei o leitor de dvd, fui para a varanda, acendi um cigarro e para com os meus botões pensei: "Fui atropelado por um comboio!!!"

"Já lixei a vida a toda a gente e agora vou-me!"


Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 10

Guarda roupa e adereços - 8

Banda-sonora - 7

Emotividade - 10

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,75