Caminho Solitário/Riding Alone For Thousands of Miles/Qian li zou dan qi - 千里走单骑 (2005)Origem: China
Duração: 104 minutos
Realizador: Zhang Yimou
Com: Ken Takakura, Shinobu Terajima, Kiichi Nakai, Jiamin Li, Lin Qiu, Jiang Wen, Zhezhou He, Zhenbo Yang, Ken Nakamoto, Li Bin Li, Ziliang Chen
"O Sr. Takata"
Estória
O pescador japonês “Gouichi Takata” (Ken Takakura) está de relações cortadas com o filho “Kenichi” (Kiichi Nakai) desde a morte da mãe deste. Certo dia, “Rie”, a esposa de “Kenichi”, contacta “Takata”, informando-o que o filho possui um cancro no fígado, que o levará inevitavelmente à morte.
"Takata entre Jasmine e Lingo, os guias chineses"
“Takata” viaja até Tóquio tendo em vista a reconciliação com o seu filho, mas este recusa ver o pai, devido ao conflito que existe entre ambos. “Rie” empresta uma cassete vídeo a “Takata”, que contém um documentário que “Kenichi” realizou acerca da ópera chinesa. No filme podemos ver “Kenichi” a pedir ao cantor “Li Jiamin” (Li Jiamin) para representar a ópera “Riding Alone For Thousands of Miles”. “Li” recusa devido a estar alcoolizado, mas fica a promessa de no próximo ano, quando “Kenichi” retornar à aldeia de “Li”, perto da cidade de Lijiang (China), a actuação ser realizada. Após ver a cassete, “Takata” decide viajar pelo sul da China e gravar a actuação de “Li”, tendo em vista cumprir uma das últimas vontades de “Kenichi”.
A viagem servirá para compreender melhor a perspectiva do filho sobre a vida, resultando numa aventura impregnada de humanidade.
"O pequeno Yang Yang"
"Review"
“Riding Alone For Thousands of Miles”, é uma popular estória chinesa que narra a épica aventura do general Guan Yu, que percorreu um longo caminho para se reunir com o amigo a quem tratava como irmão, o senhor da guerra Liu Bei. O conto está retratado na obra literária do século XIV, “Romance of the Three Kingdons”, de Luo Guanzhong. O título tenta traçar um certo paralelo entre a lenda e a tentativa de “Takata” em completar os desígnios do seu filho, aumentando desta forma as suas hipóteses de reconciliação com aquele.
Pessoalmente entendo que as longas-metragens que lidam com conflitos familiares, têm uma potencialidade intrínseca para tocar os nossos corações. Quando se trata de um pai e de um filho, a comoção torna-se maior, não sei porquê. Talvez por achar que tenho uma excelente relação com os meus pais, com os naturais altos e baixos, e não conseguir imaginar viver uma situação como a de “Takata” e do seu filho “Kenichi”. Sou capaz de superar, como já o fiz, um desaguisado amoroso. Mas quando entro em conflito com quem me deu vida, mesmo tendo razão, não presto para mais nada e passo o tempo todo a pensar nisso. Foi por essa mesma razão que quando li pela primeira vez a sinopse de “O Caminho Solitário”, fiquei com a nítida sensação que a película não me iria ser indiferente. Tendo então Zhang Yimou como realizador, este pensamento era quase uma certeza. Não me enganei.
A “performance” dos actores é de um elevadíssimo nível, ainda para mais quando temos várias personagens que não são representadas por profissionais, mas por aldeões da zona de Lijiang. Como é natural, quem brilha mais é Ken Takakura, o protagonista da estória. Em vez de proferir a minha opinião, porque não expor o pensamento de alguém com verdadeira autoridade no assunto:
“Ken Takakura é o meu ídolo. Ele é o ídolo de uma geração inteira de chineses. Mesmo hoje ele permanece como o meu ídolo, tanto no ecrã, como na vida real. Eu adoro a sua personalidade. Uma vez eu disse que uma boa performance com lágrimas era um requisito básico para os actores. Contudo, Ken Takakura nunca chora nos filmes que protagoniza. Mais tarde apercebi-me que as suas actuações demonstravam um diferente tipo de choro, o do coração. O sofrimento é uma espécie de choro, mas o choro invisível do coração é mais apelativo e tocante. Eu gosto da sua performance discreta e reservada. É necessário emoções e sentimentos fortes para representar desta forma, mas ao mesmo tempo é preciso controlar essas mesmas emoções e sentimentos. Até agora, nunca encontrei ninguém na China que fosse capaz de fazer isto.”
Dito pelo próprio Zhang Yimou. A opinião emitida acerca do lendário actor japonês foi brilhantemente declamada numa entrevista ao “China Daily”, na estreia mundial de “O Caminho Solitário” em Lijiang, cidade que fica próxima da aldeia onde decorre grande parte do filme.
"Ópera chinesa"
“O Caminho Solitário” prima pelo realismo incutido nas premissas por onde navega. Podemos sentir perfeitamente o silencioso sofrimento de um pai que só se apercebe realmente do quanto o filho significa para ele, quando se apercebe que vai perde-lo para sempre. Ken Takakura é o actor ideal para transmitir o tal “choro invisível, apelativo e tocante”, tão elevado por Yimou. A sua aparência dura e fria dá mais significado às fragilidades evidenciadas quando as coisas não lhe correm tão bem na busca pela actuação do cantor “Li Jiamin”. Percebe-se perfeitamente o porquê de muitos afirmarem que o papel de “Takata” foi escrito com o pensamento em Ken Takakura. O toque final é dado pelas interpretações dos já mencionados nativos chineses, fazendo com que sintamos que não estão a representar. Verdadeiramente estão a ser eles próprios, ou seja, autênticos.
A ideia de redenção está presente, quando no meio dos altos e baixos da demanda de “Takata”, surge o relacionamento com o pequeno “Yang Yang”, o filho do cantor “Li Jiamin”, que este nunca conheceu. “Takata” contribui, na sua singela maneira, para uma aproximação de ambos. No fundo funciona como um elo, não completamente desinteressado, que tenta evitar um afastamento semelhante ao que assombra a sua vida. A apresentação das fotografias de “Yang Yang” ao pai, é um momento de superior comoção e de grande cinema.
Um dos aspectos mais fascinantes do filme passa pelo confronto cultural, no bom sentido. “Takata” é um japonês que se encontra imerso numa China rural, onde não entende a língua dos habitantes, possuindo um pseudo-tradutor que não ajuda muito neste particular. Provém de um país democrático, com uma vertente bastante ocidental, que se confronta com os aspectos particulares de uma república “musculada”, entre os quais a burocracia e o controle. Apesar das naturais dificuldades, a interpenetração cultural funciona muito bem, e a amizade e respeito nasce entre os representantes de ambos os povos, unidos por problemas que superiorizam qualquer língua ou postura social.
“O Caminho Solitário” é ideal para quem prefere a faceta de Yimou relacionada com os dramas existencialistas, na linha de outros filmes do realizador tais como “Nenhum a Menos” ou “O Caminho Para Casa” (para falar dos mais recentes). Para aqueles que preferem a fase de Yimou relacionada com a sua trilogia de “Wuxia” (“Herói”, “O Segredo dos Punhais Voadores” e “A Maldição da Flor Dourada”), o filme que presentemente se analisa não dirá assim tanto. Para mim e para outros leitores deste blogue, que apreciamos ambas as vertentes do realizador, “O Caminho Solitário” constituirá mais um argumento para elegermos Yimou como um dos melhores realizadores de sempre.
Sob o signo da ternura e amor parental, Zhang Yimou presenteia-nos com mais um tratado verdadeiramente humanista em toda a acepção da palavra. Pelo exposto, apenas só tenho de recomendar vivamente “O Caminho Solitário”. Principalmente a pais e filhos que têm uma tendência para a incompreensão mútua…
"Takata digere a mágoa, observando um céu inesquecível"
Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link
Outras críticas em português: Cinematoca, Blog Downz
Avaliação:
Entretenimento - 7
Interpretação - 9
Argumento - 9
Banda-sonora - 8
Guarda-roupa e adereços - 7
Emotividade - 9
Mérito artístico - 9
Gosto pessoal do "M.A.M." - 8
Classificação final: 8,25