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quarta-feira, março 09, 2011

Exiled/Fong juk – 放‧逐 (2006)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 110 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Anthony Wong, Francis Ng, Simon Yam, Nick Cheung, Lam Suet, Roy Cheung, Josie Ho, Richie Ren, Gordon Lam, Cheung Siu Fai, Ellen Chan, Hui Siu Hung, Ronald Yam

O grupo

“Da esquerda para a direita, em cima: Fat, Tai, Blaze e Cat; em baixo, Wo, a esposa Jin e o filho de ambos”

Sinopse

Em 1999, dois anos após o mesmo ter acontecido com Hong Kong, Macau está prestes a deixar a soberania de um país europeu, neste caso Portugal, e a retornar para o território da China. Quatro elementos de uma tríade chefiada por Fay (Simon Yam), a saber, “Blaze” (Anthony Wong), “Tai” (Francis Ng), “Cat” (Roy Cheung) e “Fat” (Lam Suet), são incumbidos da missão de matar um ex-membro da organização chamado “Wo” (Nick Cheung). Acontece que deparados perante o seu antigo companheiro e amigo, os quatro não conseguem levar a cabo o golpe e unem-se para proteger “Wo”, a sua esposa “Jin” (Josie Ho) e o filho de ambos recém-nascido.

Blaze 2

“Blaze”

Acontece que “Fay” vem de Hong Kong até Macau, de forma a destronar o domínio do “gangster” “Keung” (Gordon Lam), e assegurar que “Wo” efectivamente está morto. Quando descobre o que se passou, “Fay” não se deixa ficar e organiza uma caçada ao grupo. Uma cruzada de sangue está prestes a se desencadear.

Fai depara-se com Keung

“Fay depara-se com o rival Keung”

Review”

Tendo sido exibido em certames de cinema por todo o mundo, de que constituem exemplo Veneza e Toronto, e sido filmado na antiga colónia portuguesa de Macau, “Exiled” tem o condão de fazer assomar uma ideia logo à minha mente: não consigo encontrar um filme que defina melhor o estilo de Johnnie To e que granjeou tantos fãs. A película teve críticas positivas um pouco por todo o meio especializado e conseguiu mesmo ter a honra de ter sido a submissão oficial de Hong Kong aos óscares – 2008, na categoria de melhor filme estrangeiro.

“Exiled” representa o que de melhor a cena de Hong Kong tem para oferecer, possuindo momentos perfeitos de tensão e acção, a par de cenas dramáticas de antologia, que ficam gravadas algures na nossa memória, num “freeze frame” mental. A técnica de “slow motion” usada nas cenas de acção, onde os tiroteios infernais irrompem destemidos, é simplesmente maravilhosa e de chorar por mais. Os intervenientes são meticulosamente posicionados, antes da abrupta violência emergir, e uma autêntica valsa diabólica de balas, sangue e destruição demonstrar a sua estranha, mas inquestionável beleza. Num culminar usual, todos estes aspectos irrompem no inevitável “stand off” final.

Como foi referido na sinopse, a acção de “Exiled” passa-se numa Macau em processo de transicção da governação portuguesa para a administração chinesa. Aqui, com ou sem razão, é traçado um quadro de uma terra onde a lei não consegue impor a sua vontade, onde a polícia é pouco efectiva e corrupta, e as tríades fazem quase o que lhes bem apetece. Ajustes de contas são desfilados num restaurante, numa rua, num descampado, sem que as forças da ordem consigam fazer algo para impedi-lo, sendo mesmo atacadas em nome da cobiça que rodeia um enorme carregamento de ouro.

Tiroteio 2

“Tiroteio no restaurante”

Na nossa humilde opinião, é improvável alguém se autointitular um apreciador do cinema de Hong Kong, sem prezar esta película e outras de natureza semelhante, desde que bem executadas e portadoras de um signo de qualidade. Tem um conjunto de homens afectados pela dureza do seu percurso de vida, que deixam a acção falar por si e mulheres que não conseguem entender esta maneira de agir e pugnam por um modo de vida mais calmo e pacífico. Mas acima de tudo, evidencia de sobremaneira aquele destino traduzido por um caminho que por mais que façamos, simplesmente não lhe conseguimos fugir.

Aqueles que se deram ao trabalho de reparar no grupo de actores que exibem as suas potencialidades nesta película, forçosamente terão de concluir que estamos perante um elenco de eleição, onde pontificam alguns dos mais talentosos intérpretes de Hong Kong e habitués das longas-metragens de Johnny To. O grande Anthony Wong exibe mais uma actuação de grande nível, num estilo inimitável e que só a ele lhe pertence, sendo bem acompanhado por Francis Ng. Simon Yam é um dos meus actores preferidos daquelas paragens, e para mim é algo complicado colocar-lhe defeitos. Igualmente é alguém que impõe um cunho e ritmo muito próprio nas suas performances, sendo que aqui o que lhe faltará serão, eventualmente e por força do argumento, mais alguns minutos. Nick Cheung, Roy Cheung e Lam Suet não destoam e enquadram-se bem nos seus papéis.

“Exiled” é um filme que honra muito bem o estilo do seu criador. É um orgulhoso e excelente exemplo do género “tríade” e atrever-me-ia a afirmar, quase um sonho para qualquer amante do género. Ao mesmo tempo, configura-se como uma história de amizade e honra impressionante, onde em nome dos ideiais e do código de conduta, mais depressa se verga do que se torce. A redenção acaba por ser tratada de uma forma crua, mas credível. No fundo, “Exiled” demonstra ser uma obra simples, nada esotérica e, à falta de melhor expressão...um filmão!!!

Fat Blaze Tai Cat

“Fat, Blaze, Tai e Cat”

imdb7.3 em 10 (3.904 votos) em 9 de Março de 2011

Outras críticas em português:

  1. Cine Players (Emílio Franco Jr.)
  2. Cinedie Asia
  3. Cine-Asia

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,25

segunda-feira, novembro 29, 2010

Mulan/Hua Mulan – 花木蘭 (2009)

Capa

Origem: Hong Kong/China

Duração aproximada: 114 minutos

Realizadores: Jingle Ma e Wei Dong

Com: Vicki Zhao, Aloys Chen (Chen Kun), Jaycee Chan, Hu Jun, Nicky Li, Yu Rong Guang, Lu Xujin, Vitas, Xu Jiao

Mulan

“Hua Mulan”

Sinopse

“Hua Mulan” (Vicki Zhao) é uma mulher que se disfarça de homem, de forma a tomar o lugar do seu pai “Hua Mu” (Yu Rong Guang), no exército do reino Wei, na guerra que se aproxima com os bárbaros Rouran. À medida que “Mulan” começa a ser extremamente bem sucedida no campo de batalha, uma paixão floresce no seu coração por “Weitan” (Aloys Chen), um general do exército Wei.

Wentai

“Weitan”

“Weitan” apercebe-se que para que “Mulan” atinja todo o seu potencial no campo de batalha, é necessário que a jovem se aperceba dos horrores da guerra, e em consequência disso, desaparece. Entretanto, o novo líder dos Rouran, o impiedoso “Modu” (Hu Jun) planeia uma invasão em larga escala, e “Mulan” terá de assumir o comando das forças de Wei para fazer face ao poderoso inimigo.

Wude

“Wude, o criado do líder dos Rouran”

Review”

“Hua Mulan” é uma heroína do folclore chinês que originalmente foi mencionada num poema do século VI, intitulado “A Balada de Mulan”. A lenda inspirou vários filmes, remontando o mais antigo a 1927, de seu nome “Hua Mulan Joins the Army”, do realizador Li Pingqian. Mas com certeza que quando o nome de “Mulan” é referido, virá à mente de quase todas as pessoas, a película de animação da Disney de 1998, que mereceu o epíteto da guerreira.

O realizador Jingle Ma, aqui auxiliado por Wei Dong, não reúne consensos na critica e público de Hong Kong, assim como no mundo dos apreciadores de cinema asiático em geral. Alvo de verdadeiras diatribes, Jingle Ma é visto por alguns como um puro “comercialista”, que dá corpo a películas de substância duvidosa. Quanto a nós, iremos por uma posição um pouco mais intermédia, reconhecendo que somos apreciadores por exemplo de “Fly Me to Polaris”, e duvidamos com propriedade de algumas outras obras de gosto bastante duvidoso.

Mulan e Wentai

“Mulan e Weitan”

Desta vez, e em jeito antecipação, iremos situar “Mulan”, no plano das boas obras de Jingle Ma, ideal para um público que não seja demasiado exigente com os pormenores e que se deixe seduzir pelos elementos mais apreensíveis do cinema, o que não é necessariamente mau. A história de “Mulan” é tremendamente popular entre os chineses e inevitavelmente teria de ser adaptada várias vezes para o grande ecrã. Nesta versão, existe uma grande incidência sobre os sentimentos da guerreira, sendo nos dado a observar os seus anseios, medos, inultrapassável coragem e, não fosse este um filme de Jingle Ma, a sua descoberta do amor. Para a envolvência presente em “Mulan”, muito contribui o desempenho da belíssima Vicki Zhao, que consegue praticamente transportar o filme aos seus ombros, conseguindo um saudável equilíbrio entre a faceta dura e a vulnerável da personagem. A película capta a atenção em muitos momentos, e muito certamente não defrauda os sentidos. Embora o detalhe histórico seja algo secundarizado, em detrimento da faceta mais pessoal de “Mulan”, não faltarão alguns momentos belicistas do agrado dos amantes do épico, possuindo os mesmos uma qualidade apreciável. Desde as batalhas em grande escala, apoiadas pelo guarda-roupa bem urdido e as paisagens como um bonito pano de fundo, até ao velho diapasão de questionar se existem guerras justas, existirão motivos de sobra para manter os espectadores minimamente interessados em seguir esta longa-metragem até ao seu epílogo.

Dotado de um inegável pendor comercial, “Mulan” acaba por constituir uma agradável surpresa, que dá alguns pontos à seriedade de Jingle Ma, enquanto realizador, embora apoiado neste desiderato em particular por Wei Dong. Com uma banda-sonora quase de antologia e uma grande emotividade, não se espere contudo uma obra do firmamento maior da aliança China/Hong Kong, que permaneça nos anais da história. Aguarde-se, isso sim, por um bom filme, ao nível de muitos que por aí deambulam, e cuja existência tem algum razão e significado. Pelo menos, até ao próximo “remake” ou versão.

Aconselhável!

Mulan 3

“Mulan comanda o exército de Wei”

imdb6.3 em 10 (986 votos) em 29 de Novembro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 7

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

domingo, outubro 17, 2010

Ninja in the Dragon's Den Aka Ninja Kommando/Long zhi ren zhe – 龙之忍者 (1982)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 95 minutos

Realizador: Corey Yuen

Com: Hiroyuki Sanada, Conan Lee, Hwang Jang Lee, Tai Po, Wei Ping Ao, Kwan Yung Moon, Hiroshi Tanaka, Kaname Tsushima, Ma Chin Ku, Feng Tien, Wu Jiaxiang

Jin-wu

Jin Wu”

Sinopse

“Jin Wu” (Hiroyuki Sanada) é um ninja consumido por um sentimento de vingança, cujo objectivo final é matar o assassino do seu pai. O seu próximo passo é viajar até à China, de forma a encontrar “Fok” (Hiroshi Tanaka), o suposto responsável pela morte do progenitor de “Jin Wu”. Por sua vez, “Fok” é como um pai para o jovem mestre “Jay Ching” (Cona Lee), um habilidoso praticante de kung-fu, que revela ser bastante imaturo, pois anda sempre a pregar partidas a terceiros ou a arranjar lutas.

Jay

Jay Ching”

Chegado à China, “Jin-wu” procura assassinar “Fok”, mas inevitavelmente choca com “Jay”, que tenta proteger o ancião. Peripécia após peripécia, e luta após luta, “Jin Wu” e “Jay” acabam por se unir contra um inimigo comum.

Jin wu 3

Jin Wu nos trajes de ninja”

Review”

Constituindo o primeiro sucesso do conhecido actor e realizador Corey Yuen, “Ninja in the Dragon's Den” é mais um daqueles filmes que é apontado como uma referência obrigatória dos filmes de artes marciais. Embora não seja um dos meus favoritos, sou obrigado a concordar. Logo no início da película, a introdução promete imenso, pois afigura-se a um clip musical, onde os ninjas são reis. Podemos ver os míticos assassinos japoneses a demonstrar muitos dos seus truques e acrobacias, ao som de uma típica melodia pop dos anos '80, onde a certa altura se ouve o vocalista a debitar com convicção “ooh, shaka ninja!” Atentem à letra e vão perceber a que me estou a referir:

Silent Night!
Along the coast no sign is heard,
Of a man who might!
move through the night without a word,
as if he wasn't there, and you can't be sure, that he wasn't there!

Refrão
now listen to me children and I'll tell you of the legend of the Ninja,
they were men of the night
they moved in the night
and shared their lives
they were ready to fight (ooh shaka-ninja)
ready to kill,
they were ready to die,
ready to die -- ie, ahh --

Velhos ninjas

Velhos amigos”

Feito este apontamento que reputo de interessante, “Ninja in the Dragon's Den” revela ser um conto clássico de artes marciais, onde os costumeiros conceitos da amizade, honra e vingança estão bem presentes. Adicione-se estas premissas a momentos ingénuos de comédia e a um manancial de excelentes e bem executadas cenas de combate, temos que o “cocktail mágico” está pronto. É só ingeri-lo e deliciar-se, sem grande stress ou filosofias exacerbadas. Efectivamente, é preciso reconhecer que onde esta obra precisa de apostar mais, ou seja os combates de kung-fu, sai claramente vencedora. Imaginativas, brilhantes, de tirar a respiração, Corey Yuen providencia as condições para o grande Hiroyuki Sanada, Conan Lee e demais intervenientes ofereçam um “show” de acrobacias e golpes de antologia, que ficarão na retina de todos aqueles que visionarem esta longa-metragem. O clímax, neste particular, não será tanto a luta final entre os dois heróis e o também mítico Hwang Jang Lee, mas sim o combate precedente entre os protagonistas da película, onde os estratagemas e as armadilhas resultam numa combinação simplesmente fenomenal.

Com uma narrativa algo incoerente, (mas daí o que há de novo ou especial ?), e interpretações que apenas necessitam de ser acima da média no que concerne à parte física, “Ninja in the Dragon's Den” marca um capítulo do bom cinema de artes marciais, que nunca poderá desiludir os verdadeiros fãs, mesmo os mais exigentes. Os restantes, deverão passar apenas os olhos se estiverem curiosos para descobrir algo mais acerca das obras de artes marciais que se faziam há anos atrás, com muito menos recursos materiais do que é possível hoje em dia. Caso contrário, é favor passar ao lado e não estragar com criticas descontextualizadas ou completamente desfasadas do tempo ou do género.

Se és fã de artes marciais, não percas tempo. Este tem de fazer parte da tua colecção!

Luta

Jin Wu demonstra as suas capacidades”

imdb 7.5 em 10 (630 votos) em 17 de Outubro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,88

domingo, agosto 22, 2010

Fist of Legend/Jing wu ying xiong – 精武英雄 (1994)

Capa 2

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 103 minutos

Realizador: Gordon Chan

Com: Jet Li, Shinobu Nakayama, Chin Siu Hou, Billy Chow, Yasuaki Kurata, Paul Chun, Jackson Liu, Ada Choi, Yuen Cheung Yan, Toshimichi Takahashi, Kenji Tanigaki, Wong Sun, Lee Man Biu

Chen Zhen 4

“Chen Zhen”

Sinopse

“Chen Zhen” (Jet Li), é um estudante de engenharia chinês, que se encontra a tirar a sua licenciatura no Japão, onde mantém um relacionamento com “Mitsuko Yamada” (Shinobu Nakayama) e luta contra as discriminações xenófobas que o clã do dragão negro leva a cabo contra os imigrantes e estrangeiros. No ano de 1937, “Chen” retorna a Xangai, um protectorado britânico, mas que na realidade se encontra ocupado pelos japoneses, tendo em vista vingar a morte do seu mestre “Huo Yuanjia” às mãos de “Ryuchi Akutagawa” (Jackson Liu), o campeão dos opressores.

Mitsuko Yamada

Mitsuko Yamada”

Após lutar e derrotar “Akutagawa”, “Chen” desconfia do sucedido, atendendo a que o seu oponente nunca teria capacidades para derrotar “Huo Yuanjia”. Após algumas investigações, “Chen” conclui que o seu mestre foi alvo de envenenamento o que lhe retirou faculdades durante o combate. Ferido na sua honra, e pugnando pela defesa do nome da escola “Chin woo”, “Chen” parte numa cruzada de retaliação, que culmina no desafio ao general “Fujita” (Billy Chow), o líder da conspiração e um temível combatente e assassino.

Luta 5

Chen Zhen dá uma lição aos japoneses do clã do dragão negro”

Review”

Qualquer fã do cinema de artes marciais, sabe perfeitamente que “Fist of Legend” é uma obra incontornável, sendo para muitos considerado o melhor filme de sempre do género. Tendo por inspiração “Fist of Fury”, protagonizado pelo malogrado e lendário Bruce Lee, e apesar de não ser um grande cultor das películas deste estilo, penso que no que toca às longas-metragens dos anos '90, “Fist of Legend” provavelmente estará no mais elevado grau do pedestal, a par de “Drunken Master II”. Aqui Jet Li interpreta “Chen Zhen”, o mais conhecido discípulo da lenda “Huo Yuanjia”, um herói popular e co-fundador da “Associação Internacional de Chin woo”, uma escola de artes marciais que presentemente possui mais de 50 delegações espalhadas por todo o mundo. O curioso é que Jet Li viria a interpretar 12 anos depois, a personagem de “Huo Yuanjia”, no aclamado “Fearless”, de Ronny Yu.

Apesar das premissas presentes em “Fist of Legend”, esta película não seria considerada um “remake” oficial de “Fist of Fury”, atendendo a que os direitos pertencentes à conhecida “Golden Harvest”, não foram adquiridos pela “Eastern Productions”, a produtora do filme mais recente. Contudo, o argumento de “Fist of Legend” é marcadamente inspirado pelo de “Fist of Fury”, com ressalva de algumas excepções que servem para dar uma identidade mais própria. Um dos aspectos mencionados, e que merecem aqui algum destaque, é a personagem de Yasuaki Kurata, um dos maiores nomes dos filmes de artes marciais, que serve para dar um brilho mais incandescente a esta obra. “Fuimo Funakoshi”, o mestre de artes marciais interpretado por Kurata, é uma personagem que não existia em “Fist of Fury”. Em “Fist of Legend”, o realizador Gordon Chan tem o mérito de usar, de forma eficiente, a moral envolta em “Funakoshi”, de forma a que possamos entender que existe uma diferença muito grande entre o militarismo do Império do Japão que grassou nas décadas de '30 e '40, em oposição aos honrados mestres de artes marciais que mais do que nacionalismos exacerbados, defendiam a pureza de espírito e o respeito pelo próximo no combate. Acresce o facto de ser sempre um prazer termos a oportunidade de vermos grandes nomes das artes marciais exibirem os seus dotes um contra o outro, como é o caso de um combate efectuado entre Jet Li e Yasuaki Kurata. Independentemente da valia técnica e física dos protagonistas, a luta em causa prima igualmente pelo diálogo construtivo entre dois lutadores de gerações diferentes, em que Kurata dá uma lição moral a Li, tentando apontar-lhe o caminho e verdadeiro significado do espectro que deve nortear o facto de se ser um praticante de artes marciais.

Luta 8

“Chen Zhen luta contra o seu amigo Hou Ting Han”

As cenas de luta são, à falta de melhor adjectivo, impressionantes! E mantêm a sua actualidade, mesmo hoje em dia, ou seja não envelheceram nem foram ultrapassadas. O conhecidíssimo Yuen Woo Ping efectua um trabalho maravilhoso na direcção das cenas de acção, onde muito contribuirá o facto de ter à sua disposição excelentes executantes do género. Os momentos memoráveis de luta são imensos e farão as delícias dos espectadores, pois golpes de antologia não faltarão, evidenciando um Jet Li na melhor forma da sua carreira. Pense-se nos inesquecíveis momentos em que “Chen Zhen” entra autoritário pelo “dojo” do clã do dragão negro, e dá uma valente tareia nos japoneses, ou no combate a dois entre “Chen Zhen” e o seu amigo/rival “Hou Ting An”, exponenciado ainda mais espectacularmente na luta já acima mencionada com Kurata. Se alguma crítica existe a fazer, ainda que muito leve, será o facto de o digladiar final entre “Chen Zhen” e o temível general “Fujita” ter ficado um pouco aquém das expectativas, quando já vínhamos detrás com uma rodagem impressionante de pontapés, socos e acrobacias miraculosas.

Embora a película viva essencialmente do desfilar das impressionantes demonstrações de artes marciais, existe um cuidado mínimo em expor o espectro histórico e cultural da China em geral, e de Xangai em particular, onde os japoneses obtêm a predominância no domínio de um país estrangeiro, com todos os antagonismos daí advenientes. E este aspecto é bastante de elogiar, atendendo a que existem outras películas do género que desprezam completamente o pano de fundo que lhes serve de base, ficando a perder claramente por descurarem o manancial sócio-cultural subjacente. Por outra via, haverá à partida um sentimento nacionalista presente em “Fist of Legend”, que visa reagir contra a ocupação japonesa e sublimar as artes marciais chinesas perante as provenientes do país do sol nascente. Mas teremos de ser sinceros e reconhecer que os nipónicos não são todos reportados como maus. Desta vez, podemos nos aperceber que é salvaguardada a noção de terem honra, mesmo nas situações de maior “frisson”. Pense-se que “Chen Zhen”, o herói da trama, está apaixonado por uma bondosa mulher japonesa, o embaixador deste país é visto como uma pessoa equilibrada, a personagem interpretada pela lenda Yasuaki Kurata é um modelo de mestre de artes marciais e até “Akutagawa”, o combatente que mata o mestre de “Chen Zhen”, tem demonstrações óbvias de ser um homem justo e honrado. A excepção vai para o general “Fujita”, mas que é compreensível, pois é o vilão da história e o alvo a abater.

“Fist of Legend” ficará para sempre conhecido como uma das obras mais marcantes do cinema de Hong Kong em geral, e dos filmes de artes marciais em particular. Possui um Jet Li memorável e um Kurata que deslumbra apenas com a sua presença, uma história propícia para o que se pretende do género “aluno vinga mestre”, uma banda-sonora adequada, e mais alguns aspectos laterais que preenchem aquelas pequenas frestas que muitas vezes ficam esquecidas. O que é que se pode pedir mais: que apareçam novas obras que mereçam honrar a herança desta longa-metragem.

Um “must” do cinema de artes marciais! Obrigatório!

Luta 7

Chen Zhen Vs. General Fujita”

imdb 7.5 em 10 (7.467 votos) em 22 de Agosto de 2010

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

segunda-feira, maio 31, 2010

Peking Opera Blues/Do ma daan – 刀馬旦 (1986)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 104 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Brigitte Lin, Cherie Chung, Sally Yeh, Kenneth Tsang, Wu Ma, Paul Chun, Mark Cheng

Ling e Cao Wan

“Ling e Cao Yan”

Sinopse

Em 1913, o general Yuan Shikai tomou o poder após a queda da monarquia ilustrada na dinastia Qin. Yuan precisa de uma grande quantidade de dinheiro proveniente dos governos europeus para se manter no poder, e o general “Cao” (Kenneth Tsang) ajuda-o a tomar providências para segurar os empréstimos. Contudo, a filha de “Cao”, “Cao Yan” (Brigitte Lin) está aliada aos rebeldes que se opõem à ditadura militar, e conspira para furtar ao pai os documentos que comprovam o negócio com as potências ocidentais.

Sheung Hung

“Bai Niu”

Durante o seu plano para sonegar ao pai os acordos que titulam os empréstimos, “Cao” inesperadamente conhece duas mulheres. Uma é “Bai Niu” (Sally Yeh), a filha de “Wong” (Wu Ma), que dirige uma companhia de ópera chinesa, onde só são admitidos homens em respeito pela tradição. “Bai” não se conforma com este costume, pois ela adora representar e adoraria ser uma actriz profissional. A outra companheira que não estava nos planos é “Hong” (Cherie Chung), uma fura-vidas que se embrenha na companhia de ópera, de maneira a recuperar uma caixa cheia de jóias de grande valor. As três mulheres envolvem-se ainda mais na intriga política, quando travam conhecimento com o espião “Ling” (Mark Cheng), e todos juntos travam uma luta para evitar que o regime corrupto que domina a China leve a sua avante.

Hong

Hong”

Review”

Quando existem referências às grandes obras produzidas pelo cinema de Hong Kong, e foram muitas, em quase todas aparecerá inapelavelmente “Peking Opera Blues”, considerado um dos expoentes máximos do conhecidíssimo Tsui Hark. Efectivamente, um dos pontos fortes desta película passa pela grande e feliz mistura de géneros, que o realizador de origem vietnamita conseguiu urdir. O filme encontra-se imbuído de referências históricas de um período importante e delicado da história chinesa, assim como passeia pelos caminhos da intriga política, do drama, do romance, deambulando ainda pela comédia e uma dose apreciável de acção.

Efectivamente, o período onde decorre a trama de “Peking Opera Blues” é deveras interessante para aqueles que se interessam e apreciam a componente da ciência histórica na sétima arte. Como já foi aflorado na sinopse, a China vivia uma altura onde a monarquia milenar tinha tombado há poucos anos, e o general Yuan Shikai tinha tomado o poder, governando como o primeiro Presidente da República. A questão é que Shikai enveredou por uma orientação autocrática, tendo a certa altura tentado reviver o império chinês, onde chegou a declarar-se imperador. Esta atitude revelou ser potenciadora de rebeliões, um pouco por todo o Império do Meio, onde se revelou nesta altura o conhecido Sun Yat Sen. É pois nesta época conturbada, retratada por Tsui Hark com algum rigor e espectacularidade, que decorre a acção desta longa-metragem.

As 3 amigas

As 3 aventureiras”

Feito o pequeno enquadramento histórico, o pano de fundo da trama decorre essencialmente na ópera chinesa, onde é denotada uma abordagem muito interessante, como momentos muito apreciáveis. Mas onde existe um “glamour” muito próprio e associado a esta arte, igualmente há lugar para a paródia. Os homens por vezes parecem muito efeminados (relembramos que às mulheres naquela altura não era permitido representar) assim como por sua vez as raparigas têm de se fazer passar por homens, de forma a que lhes seja dada a oportunidade de actuar num palco. A acção, a cargo do quase insuspeito Ching Siu Tung, tem momentos verdadeiramente espectaculares, quer a nível do domínio das artes marciais, como dos duelos com armas de fogo. O entretenimento, com margem para dúvidas mínimas está bem conseguido. Por sua vez, a caracterização da época e das personagens, constitui um dos pontos fortes de “Peking Opera Blues”. Tudo cuidado, com muito atenção aos pormenores e um guarda-roupa portentoso, em especial as vestes dos intérpretes da ópera chinesa.

Os actores exibem-se no plano que lhes é exigido e pouco mais. No entanto, e não obstante ser conhecida a minha admiração pessoal pela actriz, a verdade é que Brigitte Lin mais uma vez marca a sua presença e destaca-se dos restantes intervenientes. A versátil actriz de Hong Kong, que muitos clamam pelo seu regresso, confere uma personalidade muito própria a “Cao Yan”, a filha rebelde do general, e ainda tem tempo para dar um ar da sua graça no que mais a celebrizou nos filmes, ou seja, a exibição de artes marciais.

Apesar de não concordar com aqueles que colocam “Peking Opera Blues” como uma das melhores películas de sempre do espectro de Hong Kong, forçosamente terá de ser admitido que estamos perante uma longa-metragem com uma qualidade acima da média e que terá de constar na galeria dos filmes notáveis da região administrativa chinesa, nem que seja pela sua importância histórica. A sua miscigenação feliz de predicados assim o exige, e nós na qualidade de fãs, nada temos a opor.

A conferir!

Ópera chinesa

Fabulosa caracterização na ópera chinesa”

imdb 7.6 em 10 (969 votos) em 31/05/2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,63

 

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Boat People/Tau ban na hoi - 投奔怒海 (1982)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração: 108 minutos

Realizadora: Ann Hui

Com: George Lam, Season Ma, Cora Miao, Andy Lau, Kei Mung Sek

Akutagawa

O jornalista japonês Shiomi Akutagawa”

Sinopse

“Shiomi Akutagawa” (George Lam) é um fotojornalista japonês, que retorna ao Vietname em 1978, três anos após a vitória dos comunistas sobre o Vietname do Sul e os seus aliados norte-americanos. Apesar de as autoridades quererem fazer crer que vivem numa sociedade feliz e justa, o que “Akutagawa” testemunha é bastante diferente. Uma grande falange da população passa fome, a brutalidade policial grassa nas ruas e a corrupção é comum entre os elementos do governo.

Cam Nuong

Cam Nuong”

Nas suas deambulações, “Akutagawa” faz amizade com uma família pobre de Danang, acompanhando de perto “Cam Nuong” (Season Ma), o elemento mais velho dos três irmãos. Por outra via, “Akutagawa” toma contacto com “To Minh” (Andy Lau), um ladrão que é enclausurado num campo de concentração, denominado sugestivamente de “nova zona económica”, onde a sua função é a desminagem. “To Minh” tenta fugir para fora do país num barco de refugiados, mas a aventura acaba em tragédia. “Akutagawa” sente a necessidade de dar a conhecer ao mundo o que na realidade se passa no novo Vietname, mas a sua tarefa corre grande perigo de fracassar.

To Minh

To Minh”

Review”

Para muitos considerado como o filme mais importante da carreira da realizadora Ann Hui, feito numa fase ainda precoce da sua carreira, “Boat People” centra o seu enredo no impacto repressivo e violento da ditadura de Ho Chi Minh nos diversos sectores da sociedade vietnamita. À altura foi considerado, com muita propriedade, uma película extremamente intensa e que mereceu honras de exibição (com polémica á mistura) no festival de Cannes, edição de 1983. A ideia para levar a cabo a empresa que constituiu esta obra, teve origem no grande número de refugiados vietnamitas que começou a chegar em Hong Kong, nos fins dos anos '70. Hui, encarregue de fazer um documentário baseado nesta situação, e após uma série de entrevistas com os fugitivos do regime comunista acerca da queda de Saigão e da vida de então no Vietname, propôs-se a realizar “The Story of Woo Viet”, onde debutava Chow Yun Fat, no papel precisamente de um vietnamita que se refugiava em Hong Kong. Posteriormente, a República Popular da China, daria autorização a Ann Hui para rodar “Boat People” na ilha de Ainan, tornando-se este filme o primeiro de Hong Kong a ser rodado completamente na potência continental, sob o regime comunista. Para quem não sabe, o termo “Boat People”, refere-se aos imigrantes ilegais ou aqueles que procuram asilo num país estrangeiro, e que normalmente usam barcos para chegarem aos seus destinos. A designação teve uma certa afinidade com os vietnamitas, pois o seu êxodo naqueles transportes foi particularmente significativo na época referenciada.

Atendendo à trama e forma como é exposto o regime comunista vietnamita, era de esperar que o filme gerasse alguma controvérsia, tendo sido precisamente o que sucedeu. Considerando que a China tinha travado recentemente, uma curta mas sangrenta guerra com o Vietname, muitos viram “Boat People” como uma propaganda propositada contra este último país. Ann Hui sempre negou este aspecto, enfatizando que o resultado da película baseou-se tão-só nas várias entrevistas com refugiados vietnamitas que manteve em Hong Kong. Igualmente acentuou que os chineses nunca lhe haviam solicitado que orientasse o argumento para a difamação do governo sediado em Hanói. A questão é que até hoje, Hui não se livrou do rótulo de anti-regime vietnamita.

Vítima

Uma vítima jaz sob o estandarte vietnamita”

Efectivamente, o filme faculta um olhar cruel sobre a situação do Vietname pós-guerra e o impacto das reformas do conhecido ditador Ho Chi Minh, sobre o dia-a-dia dos seus conterrâneos. Impera a pobreza e a tirania, que o jornalista “Akutagawa” se apercebe, apesar de alguns esforços dos capangas do regime em esconder a realidade. À medida que o repórter se embrenha cada vez mais no dia-a-dia dos vietnamitas, na cidade de Danang, em especial de uma família com quem trava um conhecimento mais aprofundado, esta visão verdadeiramente aterradora vai tomando forma. E progressivamente vamos nos percebendo as razões daqueles que fogem de um inferno na terra, tendo em vista a procura de uma vida melhor, ou apenas de paz e segurança. Tudo será melhor do que a situação em que vivem actualmente.

Hui dirige o filme com uma mestria de saudar, e faculta-nos diversos momentos fortes e simbólicos. Pense-se nas cenas em que os corpos de pessoas fuziladas, são pilhados pelos seus concidadãos pobres que, mais do que qualquer falta de respeito pelos mortos, querem apenas encontrar algo de valor que os ajude a sobreviver. Mas na realidade, um dos momentos mais fortes e que originaram uma polémica enorme, foi aquela em que o exército vietnamita intercepta um barco de refugiados, e metralha-o impiedosamente, pondo fim à vida de algumas dezenas de pessoas. A realizadora Ann Hui insiste que a situação em concreto foi baseada num evento real, esclarecendo apenas que na sua obra as pessoas são baleadas, enquanto que no acontecimento invocado, o barco foi afundado pelas patrulhas do país da Indochina.

Os actores denotam um trabalho meritório e situado num plano que reputo de elevado. George Lam é credível no papel do jornalista japonês, em busca da verdade e genuinamente preocupado com a miséria do povo vietnamita. Season Ma, enternece no papel jovem de 14 anos, que se vê na contingência de cuidar da família e tudo fazer em prol dela, principalmente do seu irmão mais novo. Na altura, um jovem e desconhecido Andy Lau (sim, esse mesmo!) evidencia que poderia ser um caso sério em Hong Kong. O que é certo é que decorridos 28 anos, Lau é uma das maiores figuras do cinema asiático e do da região administrativa em particular.

Impregnado de humanidade, “Boat People” constitui um filme que facilmente poderá ser acusado de propaganda contra o regime comunista que emergiu vitorioso da guerra do Vietname. O que é certo é que, ao contrário do que alguns dizem, o tempo não consegue apagar tudo e todos nós sabemos, em maior ou menor medida, o quão desumano poderá se tornar uma sociedade marcial, dominada por um poder político ditatorial, que acaba por servir apenas os interesses de alguns. Mesmo questionando-se a mensagem e a veracidade histórica (sempre discutível), estamos perante um bom filme, na tradição de películas fantásticas como “The Killing Fields”, de Roland Joffé. É cru, mas ao mesmo tempo incrivelmente sentimental. Por vezes violento, contém igualmente momentos de uma ternura inesquecível. Atente-se ao epílogo, é centremo-nos no olhar com que “Cam Nuong” fixa no horizonte, à medida que segura no colo o seu pequeno irmão. E se calhar perceberemos minimamente o que é um misto de sonho, expectativa, esperança e algum sofrimento.

A ver com muita atenção!

Cam Nuong e o irmão 2

Cam Nuong fita o horizonte, ao mesmo tempo que embala o irmão mais novo”

imdb 8/10 (128 votos) em 26 de Fevereiro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Comrades, Almost a Love Story/Tian mi mi - 甜蜜蜜 (1996)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 118 minutos

Realizador: Peter Chan

Com: Maggie Cheung, Leon Lai, Eric Tsang, Kristy Yeung, Irene Tsu, Christopher Doyle, Michelle Gabriel, Joe Cheung Tung Cho, Ding Yue

Li Xiao Jun 2

Li Xiao Jun”

Sinopse

“Li Xiao Jun” (Leon Lai) é um recém imigrante em Hong Kong, proveniente de Wuxi, uma cidade chinesa da província de Jiangsu. A sua principal aspiração é ganhar algum dinheiro para enviar à família e conseguir trazer a sua noiva “Li Xiao Ting” (Kristy Yeung) para Hong Kong, a fim de se casarem. Chegado à actual região administrativa chinesa, “Xiao Jun” torna-se amigo de “Qiao Li” (Maggie Cheung), uma mulher que só pensa em tornar-se rica e ascender socialmente. A amizade transforma-se progressivamente noutro tipo de sentimento, e ambos tornam-se amantes ocasionais.

Qiao Li

Qiao Li”

Conscientes que a sua relação não pode dar certo, devido à noiva que “Xiao Jun” possui em Wuxi, o casal decide manter-se apenas como amigos. As coisas parecem correr bem, pois os dois estão a progredir bem financeiramente, dando forma aos seus sonhos. Inesperadamente, uma crise financeira assola Hong Kong, e a situação económica de “Qiao Li” complica-se drasticamente. Por esta via, vê-se obrigada a arranjar um emprego como massagista e acaba por encetar um relacionamento com um membro de uma tríade chamado “Pao” (Eric Tsang). Por sua vez, “Xiao Jun” consegue finalmente trazer a noiva para Hong Kong e o enlace sucede-se. Contudo, apesar dos seus maiores esforços, os caminhos de “Xiao Jun” e “Qiao Li” cruzam-se outra vez, e ambos começam a questionar-se acerca das suas opções do passado.

Li Xiao Jun e Quiao Li

“Li Xiao Jun e Qiao Li”

“Review”

“Comrades, Almost a Love Story” faz parte daquele grupo de filmes de Hong Kong, cada vez mais raros hoje em dia, que mereceram amplos elogios da crítica um pouco por toda a parte. Premiadíssimo em variados certames de cinema, sobretudo asiáticos, a película que ora se analisa foi, com propriedade, considerada o 11º melhor filme chinês de sempre pela “Chinese Movie Database”, e o 28º nos Hong Kong Film Awards. O seu título original evoca uma música da popularíssima cantora de Taiwan Teresa Teng, e o seu sentido real é um verdadeiro hino ao amor. Esta longa-metragem em si, consubstancia-se mesmo numa bonita homenagem à intérprete musical e os motivos alusivos a Teng, consubstanciam-se num verdadeiro enredo secundário.

A aclamação de “Comrades, Almost a Love Story” é merecida. Não tenhamos dúvidas quanto a este aspecto. Apesar do seu pendor algo comercial, estamos perante um romance cheio de detalhes significativos e dotado de uma sensibilidade maravilhosa e pulsante. O destilar dos sentimentos é extremamente efectivo, com cenas de antologia, olhares e muitos gestos significativos. A trama tem algo de épico, pois acompanha a relação de “Xiao Jun” e Qiao Li” durante um período de 10 anos, mais propriamente entre 1986 e 1996. O argumento é extremamente interessante, quanto a mim bem expresso na “tagline” do Dvd da Mei Ah, que reza mais ou menos o seguinte: “Esta não é uma história acerca de duas pessoas que se apaixonam, mas antes acerca de dois corações que fazem tudo para não se apaixonarem”.

Os aspectos muito ligados ao sonho que tanto dominam as histórias românticas, aqui são algo deixados à parte e a simplicidade na exposição das situações marca presença. Mesmo sendo uma longa-metragem com laivos de paixão retumbantes, trata-se de uma película com pessoas “reais”, onde não subsiste nada que se possa reputar de exagerado ou incredível. A tensão é progressiva e enleia o espectador nas teias do relacionamento dos intervenientes. Dois amigos vêm aumentar de forma sustentada a sua amizade, e tornam-se cada vez mais próximos, embora não de uma forma demasiado evidente. O realizador Peter Chan começa então a criar as condições para que a paixão se desenvolva e atira-nos à cara o seu manancial de cenas memoráveis, como o dar de mãos no novo ano lunar chinês. A partir daqui embarcamos numa viagem através do âmago da paixão humana, sem qualquer tipo de pretensiosismo exacerbado.

Qiao Li e Pau Au Yeung

Qiao Li e Pao Au Yeung”

Embora o cerne da trama seja as dificuldades de “Xiao Jun” e “Qiao Li” em se amarem, “Comrades, Almost a Love Story” possui outros predicados a nível do argumento dos quais emana muito interesse. Um já foi referido, e trata-se do alusivo à cantora Teresa Teng. Outro, será indubitavelmente a relação estabelecida entre os naturais de Hong Kong, e aqueles que provêm da China propriamente dita. Apercebemo-nos que existem diferenças de grande relevância, que começam a se acentuar logo pela dicotomia da língua, ou seja, o cantonês “versus” o mandarim que é o idioma da maior parte dos imigrantes naturais da China. Aqueles que tentam a sua sorte em Hong Kong são olhados com algum desdém pelos habitantes da actual região administrativa e isso reflecte-se no pulsar do dia-a-dia dos participantes da história e anima-os a lutar por melhores condições de vida.

A diva Maggie Cheung faz uma das grandes interpretações da sua carreira, reconhecida em variados prémios que venceu, de que constitui exemplo o galardão para melhor actriz conseguido em praticamente todos os certames a que o filme concorreu. A sua presença é luminosa, e conseguida em todos os momentos, quer naqueles mais virados para o drama, assim como nos mais descontraídos. Em “Comrades, Almost a Love Story”, Maggie Cheung prova porque que é considerada justamente uma das melhores actrizes de sempre, no panorama do cinema oriental. É bastante gratificante observar como a actriz personifica uma mulher confiante, ambiciosa e apegada ao dinheiro, que acaba por se sacrificar por algo que sente que é maior do que ela. Por sua vez, o conhecido Leon Lai, o par romântico da história, exibe-se igualmente num bom plano, e aqui provavelmente obtém um dos melhores papéis da sua profícua carreira. O “pequeno grande” Eric Tsang, para não variar, tem uma presença marcante e cabe ainda salientar o facto de o grande mestre da fotografia e da imagem Christopher Doyle, aqui fazer uma “perna” na representação.

“Comrades. Almost a Love Story” é uma poderosa história de amor, e sem margem para dúvidas, um dos grandes filmes de Hong Kong da década de '90,  para além dos melhores dramas asiáticos de sempre. O destino sempre foi um tema grato para o cinema asiático e o de Hong Kong em particular, com temas que reflectem o facto de as personagens não conseguirem controlar o fado a que estão submetidas. A mensagem de “Comrades, Almost a Love Story” é um colosso de emoções, transmitindo a possibilidade de as histórias de amor poderem não acabar sempre bem, assim como que para o conquistar temos sempre de dar algo muito profundo de nós. No fundo, sempre se concluirá que o sentimento sobre o qual já tantos escreveram ou dissertaram, é o mais pujante motor da vida e nasce, muitas vezes, em locais ou momentos inesperados.

Obrigatório, principalmente para aqueles que apreciam um romance inteligente, mas nem por menos, carregado de uma miríade colorida de bonitos sentimentos!

imdb Nota 8.0/10 (1.482 votos) em 07/01/2010

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 7

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.”: 8

Classificação final: 8,13