"MY ASIAN MOVIES"マイアジアンムービース - UM BLOGUE MADEIRENSE DEDICADO AO CINEMA ASIÁTICO E AFINS!!!

Mostrar mensagens com a etiqueta Thriller. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Thriller. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 06, 2010

Kaminey: The Scoundrels/Kaminey – कमीने (2009)

Capa

Origem: Índia

Duração aproximada: 130 minutos

Realizador: Vishal Bhardwaj

Com: Shahid Kapoor, Priyanka Chopra, Deb Mukherjee, Shivkumar Subramaniam, Chandan Roy Sanial, Tenzing Nima, Hrishikesh Joshi, Amole Gupte, Rajatva Datta, Harish Khanna, Carlos Paca, Eric Santos, Sagar, Samrat, Vijay Raj

Charlie 6

Charlie Sharma”

Sinopse

“Guddu” e “Charlie Sharma” (ambos interpretados por Shahid Kapoor) são dois irmãos gémeos, que detestam-se e não falam um com o outro há 3 anos. “Guddu” prefere levar uma vida honesta, dedicando-se a causas sociais, tais como trabalhar na prevenção da SIDA em Mumbai. Por sua vez, “Charlie” é um delinquente de pouca monta, que ambiciona a progredir rápido na vida, viciando corridas de cavalos.

Guddu 2

Guddu Sharma”

Um dia, a vida de ambos sofre um volte-face inesperado. “Guddu” casa com “Sweety” (Priyanka Chopra), uma mulher que espera um filho seu. Esta atitude, faz com que “Guddu” incorra na ira de “Sunil Bhope” (Amole Gupte), o irmão de “Sweety”, um político e “gangster” perigoso, que almejava casar aquela com o filho de um rico construtor civil. Entretanto, “Charlie” encontra um carregamento valioso de cocaína pertencente a polícias corruptos, e vê aqui uma oportunidade para enriquecer rapidamente, vendendo a droga. No meio da confusão, as vidas dos irmãos cruzam-se novamente e ambos terão de lutar para sair do perigoso jogo em que se meteram.

Sweety 2

Sweety”

Review”

Depois de ter ganho alguma proeminência na cena de “bollywood”, com “Maqbool” e “Omkara”, duas adaptações shakespearianas, o realizador Vishal Bhardwaj deu vida a “Kaminey”, um “thriller”, com uma aura urbana muito forte, onde o submundo de Mumbai e o jogo de sentimentos ditam a lei. Trata-se de uma obra pouco convencional, atendendo ao espectro de onde provém, tendo granjeado mesmo alguns problemas com a certificação da película por parte do comité de censura do cinema indiano, um organismo que não faz sentido nenhum existir num país que se auto intitula como a maior democracia do mundo. Efectivamente, há que reconhecer que “Kaminey” é um desafio ao público indiano, e ao de Mumbai em particular, para pôr de parte certos convencionalismos instalados, e ter uma mente mais aberta no que toca ao visionamento de cinema.

“Kaminey” possui um argumento bastante interessante, que reza a história, foi adquirido a um escritor queniano, por 4 mil dólares. A trama não se atém apenas ao crime e às acções mais movimentadas decorrentes desta premissa. Existe uma exposição de humor bastante subtil, mas perceptível, assim como momentos de pura ironia. Pense-se, a título meramente exemplificativo, no facto de “Guddu” pertencer a uma ONG (Organização Não Governamental), que luta contra a propagação da Sida. Entre as medidas e acções que propõem passa, obviamente, pelo uso do preservativo. Numa noite, “Guddu” deixa-se convencer por “Sweety”, a não usar o contraceptivo e o resultado é a gravidez daquela. Outro exemplo reconduzir-se-á aos defeitos na fala que ambos os irmãos padecem, e que geram alguns momentos de boa disposição.

Sweety defende Guddu

Sweety defende Guddu dos apaniguados do irmão”

Apesar de eu não ser propriamente um fã de Shahid Kapoor, tenho forçosamente de reconhecer que o actor em causa, demonstra aqui certos predicados representativos de aplaudir. Tendo que dar corpo a duas personagens diferentes, com personalidades naturalmente distintas, Kapoor sai-se muito bem e consegue transmitir ao espectador as angústias, problemas e sonhos de ambos os irmãos. O próprio papel, de um ponto de vista físico, viria a ser exigente pois Kapoor teve de trabalhar bastante para ganhar um corpo mais musculado do que tinha. A belíssima Priyanka Chopra, uma antiga miss mundo, consegue ser uma companheira de Kapoor convincente, alternando entre a rapariga imberbe e a mulher forte, que chega a defender o seu amor dos espancamentos dos apaniguados do seu irmão, o gangster “Sunil Bhope”. E por falar do chefe criminoso e xenófobo, proveniente de Mumbai, gostei particularmente da interpretação do actor Amole Gupte, evidenciadora de um sarcasmo e perigosidade bastante premente.

Com uma banda-sonora mediana, e cenas mais fortes do que estamos habituados a ver numa obra de “Bollywood”, “Kaminey” é uma proposta deveras interessante da meca do cinema indiano. Revela algo que o realizador Vishal Bhardwaj já tinha demonstrado em anteriores películas suas, que é uma rebeldia contra o “status quo” institucionalizado na cena de Mumbai. “Kaminey” é polémico quanto baste, e potenciador de agradar até aqueles que não elegem “bollywood” no seu visionamento, ou que desconfiam das suas produções.

A conferir!

Charlie 5

Charlie em perigo”

imdb 7.6 em 10 (3.252 votos) em 6 de Setembro de 2010


Outras críticas em português/espanhol:

  1. Cinema Indiano
  2. El Pozo de Sadako

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,63

quinta-feira, agosto 27, 2009

Ghajini - घजनी (2008)
Origem: Índia
Duração: 186 minutos
Realizador: A.R. Murugadoss
Com: Aamir Khan, Asin Thottumkal, Jiah Khan, Pradeep Singh Rawat, Tinnu Anand, Riyaz Khan, Vibha Chhibber, Sunil Grover, Anjum Rajabali, Sonal Sehgal, Khalid Siddiqui, Kunal Vijaykar
"Sanjay Singhania"

Sinopse

“Sanjay Singhania” (Aamir Khan) é um milionário, presidente da companhia “Air Voice”, a maior empresa de comercialização de telemóveis em toda a Índia. O executivo de 31 anos sofre de uma doença rara, pois perde a memória de eventos e pessoas, após um período de 15 minutos. A razão para a sua maleita, deve-se a uma pancada forte que levou na cabeça, com uma barra de ferro, quando tentou salvar a sua namorada “Kalpana Shetty” (Asin Thottumkal) de ser assassinada. “Sanjay” não foi bem sucedido, e a rapariga é morta de uma forma impiedosa.

"Kalpana Shetty"

Em virtude deste facto, “Sanjay” embarca numa cruzada vingativa contra o gangster “Ghajini Dharmatma” (Pradeep Singh Rawat), o responsável pela morte de “Kalpala”. No entanto, devido aos seus problemas de memória, tem de se socorrer de um bloco de notas onde aponta factos cruciais e de uma máquina “polaroid” onde tira fotografias de pessoas e locais que lhe são importantes. Menos convencional, é o facto de “Sanjay” tatuar notas importantes no seu corpo, de forma a que a vingança e as razões para tal nunca sejam esquecidas.


"Sunita, a jovem estudante de medicina"

"Review"

Em 2005, A.R. Murugadoss realizaria um filme de seu nome “Ghajini”, que viria a ter algum sucesso no meio cinematográfico indiano, embora fosse uma obra do cinema Tamil, também conhecido por "Kollywood". Não custa relembrar que existe um erro recorrente, passando o mesmo por associar o cinema indiano exclusivamente a “Bollywood”. Como já referi anteriormente em outros textos, “Bollywood” é um termo para designar a indústria de cinema sedeada em Mumbai (antiga Bombaim), e é apenas uma das várias cinematografias existentes na Índia. Mesmo assim, continua a ser a maior indústria de cinema do mundo, a nível de número de películas produzidas anualmente. Se contabilizássemos todos as obras das diferentes indústrias regionais de cinema na Índia, o número ainda seria naturalmente maior. Retornando à longa-metragem que me proponho a analisar neste texto, o “Ghajini” de 2005 viria a criar algum “frisson”, e por esse motivo, em 2008 A.R. Murugadoss viria a dirigir um “remake”, desta vez sob os auspícios de “Bollywood”, e com um dos maiores nomes de sempre daquela cinematografia como actor principal. Refiro-me ao “grande” Aamir Khan.

Uma das grandes questões que giram em torno dos dois “Ghajini”, é que ambos são olhados como uma versão indiana do filme “Memento”, de Christopher Nolan, tendo existido inclusive algumas insinuações de plágio. Aamir Khan viria a sair em defesa de A.R. Murugadoss, afirmando que o realizador tinha ouvido falar de um filme chamado “Memento”, e a ideia do mesmo tinha-o fascinado. Sem ver a película, Murugadoss decidiu escrever a sua própria versão do argumento. Após concluir o texto, visionou o filme americano, achou-o bastante diferente do que tinha escrito e decidiu avançar na realização de “Ghajini”. Como pessoa que viu ambos os filmes, e sem querer tirar partidos, tenho a dizer que existe uma inspiração grande e por vezes óbvia de “Ghajini” na película americana. Contudo, existem elementos suficientes para autonomizar ambos os filmes, de forma a torná-los distintos.

Outro dos aspectos pelo qual “Ghajini” é bastante conhecido, passa pelo facto de ser o campeão de bilheteira de toda a história de “Bollywood”, como alguns cartazes alusivos a esta obra fazem questão de apregoar. Se tomarmos em conta unicamente o montante total de receitas auferido nas bilheteiras, esta premissa afigurar-se-á como verdadeira. No entanto, urge densificar um pouco mais este aspecto. A fazer fé no “BoxOffice India”, e ajustando os valores pela inflação, concluiremos que o filme “Sholay”, de 1975, onde despontava a super-estrela de então Amitabh Bachchan, será o filme mais rentável de sempre de “Bollywood”. Tudo não passam de indicadores, que por vezes podem ser de alguma forma torneados. Pretendo aqui apenas chamar a atenção para não tomarem certas verdades como absolutas. Incontornável é o facto de “Ghajini” ser das películas mais bem sucedidas de sempre do espectro “bollywoodesco” ou “bollywidiano”, se preferirem, e a sua enorme aceitação já deu inclusive origem ao primeiro videojogo tridimensional indiano para PC.



"Sanjay defronta os homens do gangster Ghajini"

“Ghajini” é um clássico filme que aposta essencialmente no conceito de vingança, à semelhança de muitos outros que já foram aqui criticados no “My Asian Movies”, destacando-se pela sua importância inquestionável a trilogia da vingança de Park Chan-wook e os “gun fu” de John Woo. No entanto, “Ghajini”, em nome da necessária empatia e compreensão do espectador com os motivos que norteiam as atitudes violentas que grassam pela película, demonstra algo mais do que actos considerados primários. Sendo assim, esta obra poderá facilmente se dividir em duas partes, a saber, a cruel vingança de “Sanjay” e as peripécias do seu relacionamento com “Kalpala”, através de “flashbacks” que acontecem ao longo desta longa-metragem. No início do filme, somos confrontados com o “Sanjay” actual, que vive num apartamento lúgubre, e cujo único propósito na vida é exterminar o responsável por todas as suas desgraças. Mas “qual a razão para isto tudo ?”, questiona-se o espectador. Através da leitura dos diários de “Sanjay”, por parte de “Sunita” (uma estudante de medicina que se interessa pelo caso do homem) assim como por “Arjun Yadav”, um inspector que investiga as mortes provocadas pelo herói da trama, entramos nas costumeiras analepses. E é aqui que se encontra a parte dita normal numa película de “Bollywood”, que é o romance, o sonho e tudo o mais. Deparámo-nos com um “Sanjay” completamente diferente. Um jovem executivo, bem sucedido, que rocambolescamente conhece uma actriz de comerciais frustrada, mas terrivelmente encantadora. Embrenhamo-nos no amor que começa a despontar e, a certa altura, esquecemo-nos daquele “Sanjay” rancoroso e violento, que parece viver um pesadelo permanente. Contudo, a desgraça inevitavelmente acontece, e já hipnotizados, torcemos para que Aamir Khan comece a espalhar o inferno na terra, com o nosso total apoio. Trata-se de uma técnica narrativa sobejamente usada, mas que, não sei porquê, continua a resultar muito bem. Penso que a razão passará pela nossa própria essência humana, que em algum sítio recôndito acolhe uma “Lei de Talião”, onde a norma principal é “o olho por olho e dente por dente”. O que interessa é que “Sanjay” não defrauda as expectativas neste particular, e parte para a ignorância, transformando “Ghajini” no filme mais violento de “Bollywood” que até hoje tive a oportunidade de visionar.

Aamir Khan dá vida a mais uma interpretação de bom nível e muito forte, de um ponto de vista emocional. Quem conhece minimamente o cinema de “Bollywood”, sabe que estamos perante um dos expoentes máximos do género e um grande actor. Em “Ghajini”, Khan tem de ser mais multifacetado que o normal, ora desempenhando facetas que lhe são mais familiares, como o galã romântico, mas também dando corpo a um homem consumido pela raiva e frustração, que exterioriza através de uma violência sem tréguas. O intérprete preparou-se intensamente para este papel, com muitas horas de ginásio e uma alimentação regrada, de forma a poder ostentar um físico mais poderoso. Mas existe sempre algo que a natureza nos deu e à qual não podemos fugir. Aamir Khan é um actor que não possui uma grande estatura, rondando cerca de 1, 68m de altura. Para o estereótipo do herói violento de acção, designado grosseiramente como “alto e bruto”, Khan fica a perder um pouco neste aspecto. Ainda para mais, quando os combates são desfilados com brutalidade, mas também com exageros, desde empurrões, pontapés ou socos que projectam os seus adversários, francamente maiores, a metros de distância. A credibilidade fica um tanto ou quanto afectada, embora estejamos a falar de um aspecto menor da película. Quanto a Asin Thottumkhal, confesso que nunca tinha ouvido falar anteriormente desta actriz, mas pelos vistos ela também parecia debutar mais por outras cinematografias regionais indianas, que confesso serem totalmente desconhecidas para mim. Tenho a dizer que Asin é belíssima e encantadora, e a mesma não tem pejo ou dificuldade alguma em transmitir isso na película. A sua energia representativa é contagiante, e coloca-nos todos de bom humor. À actriz está reservado o papel de descompressão em “Ghajini”, nas partes em que não nos deparamos com aquela tensão negra da vingança. Uma boa surpresa, e sem dúvida alguma, um jovem valor a acompanhar. O resto do “cast” não consegue acompanhar o duo principal, e em várias partes desta longa-metragem é por demais evidente este aspecto. Apenas o actor Pradeep Singh Rawat, que interpreta o vilão “Ghajini”, consegue fugir um pouco a este diapasão geral.

Com uma banda-sonora claramente mediana, o que constitui uma surpresa quando o compositor é A.R. Rahman, confesso que não consigo entender muito bem o sucesso que rodeou “Ghajini”. É certo que se trata de um bom filme, mas sinceramente está a milhas de outras obras que “Bollywood” já teve o privilégio de oferecer ao mundo do cinema. Julgo que a explicação passará muito pela curiosidade em ver um Amir Khan completamente transfigurado fisicamente, uma excelente campanha de "marketing" e o facto de a película oferecer um tipo de violência e impacto psicológico distinto do que costuma ocorrer por aquelas paragens. Pelo exposto, aconselha-se o seu visionamento sem expectativas desmesuradas!


"O impiedoso Ghajini (de camisa branca) ordena aos seus apaniguados que façam mais uma vítima"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63



quarta-feira, julho 29, 2009

Eleição 2/Election 2/Hak se wui yi wo waa kwai - 黑社会:以和为贵 (2006)
Origem: Hong Kong
Duração: 88 minutos
Realizador: Johnnie To
Com: Louis Koo, Simon Yam, Wong Tin Lam, You Young, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Mark Cheng, Andy On, Tam Ping Man
"Jimmy Lee"

Atenção! Spoiler!

“Eleição 2” é a sequela de “Eleição”, filme já anteriormente criticado neste espaço AQUI. Pelo exposto, o texto abaixo poderá conter “spoilers” em relação ao primeiro filme. Se não viu ainda “Eleição”, não deverá continuar a ler este escrito.

Sinopse

Dois anos após “Lam Lok” (Simon Yam) ter saído vitorioso sobre “Big D” (à altura interpretado por Tony Leung Ka Fai), na disputa sobre o comando da tríade Wo Sing, é tempo de eleger um novo líder para a organização, considerando que o mandato está a chegar ao fim. A liderança de “Lok” foi considerada bastante positiva, mas a tradição exige que se mude de chefe de dois em dois anos. Os candidatos que se chegam à frente são “Kun” (Gordon Lam) e “Jet” (Nick Cheung), mas ambos revelam ser marionetas de “Lok”. Por outra via, existe uma falange forte da tríade que pretendia que “Jimmy Lee” (Louis Koo) assumisse os destinos da Wo Sing, mas este apenas importa-se com os seus negócios pessoais.

"Lam Lok"

Na realidade, “Lok” não se mostra predisposto a deixar o lugar de chefe da tríade, e começa em maquinações para renovar o seu mandato, desafiando todas as regras da organização. Acontece que “Jimmy Lee” recebe um golpe muito duro nos seus proveitosos ganhos, quando o inspector chinês “Xi” (You Young) lança-lhe um ultimato, afirmando que ele só poderá continuar no seu negócio dos dvd piratas, se obtiver uma posição mais importante no “ranking” da tríade. Face a esta perspectiva das coisas, “Jimmy Lee” entra na corrida para líder da Wo Sing. Cedo, “Lok” e “Jimmy Lee” convencem-se que a única forma de serem eleitos, é matarem o rival. Uma batalha sangrenta tem o seu início.

"Jet"

"Review"

Um ano após o sucesso de “Eleição”, um dos mais importantes filmes acerca do quotidiano das tríades, Johnnie To daria corpo a “Eleição 2”, uma película que visa concluir de certa forma os eventos passados na primeira obra, assim como selar o destino tanto de “Lok”, como de “Jimmy Lee”, tendo esta última personagem um protagonismo central na história. “Eleição” constituiu um marco na compreensão do “modus operandi” das organizações do submundo do crime de Hong Kong, tendo demonstrado ser um bom produto de entretenimento, mas igualmente imbuído de um factor cultural bastante assinalável. “Eleição 2” faz jus à notoriedade do seu predecessor, e encarna muito do espírito do primeiro filme. Simplesmente, entendo que consegue ser, na generalidade, uma película mais violenta e brutal. A cena do canil é bastante ilustrativa deste aspecto.

A guerra que a certa altura desencadeia-se entre os outrora aliados “Lok” e “Jimmy Lee”, é um conflito sem quartel e que impressiona imenso o espectador. À semelhança da primeira película, o conflito não é corporizado em gloriosos “stand off” à John Woo ou batalhas infernais onde as saraivadas de balas ditam a lei. Os confrontos são travados com argúcia e engenho, onde as movimentações nos bastidores do crime e as jogadas políticas marcam o passo. E quando se passam a coisas mais sérias, de um ponto de vista de acção, a mesma é exposta de uma forma crua e fria, mas muito mais palpável e realista. A tensão é enorme, pois sentimos que apesar de muito do que nos é apresentado passar pelo jogo duplo da traição, a presença do “banho de sangue” está sempre presente e poderá emergir a qualquer momento. Não existem causa justas, ou qualquer espaço para a moralidade. O que subjaz passa apenas por conseguir os objectivos, e usar as pessoas como meros peões para a obtenção do prémio máximo. “Os fins justificam os meios”, já dizia Nicolau Maquiavel, e “Eleição 2”, encarna muito bem esta premissa. Tanto “Lok”, como “Jimmy Lee” não vão em pruridos, e dá-se um autêntico embate de gigantes onde, inevitavelmente, só um poderá sobreviver.

"Lam Lok, rodeado dos membros da tríade"

À semelhança igualmente do primeiro filme, em “Eleição 2” não existem heróis, embora se reconheça alguma simpatia não desmedida pela causa interesseira de “Jimmy Lee”. No meio de tanto fora-da-lei, sempre se poderá tomar algum partido. Contudo, não repugnará que alguns fiquem do lado de “Lok”, desafiando as tradições instituídas e criticando os motivos de “Jimmy Lee” no ataque à liderança. No meio de tanta amoralidade, e alguma imoralidade, com certeza que eventualmente haverá algum partidário da lei e da ordem, que pugnaria pela extinção completa da tríade Wo Sing, e das suas actividades criminosas. Mas esta questão é claramente secundária. O que interessa é que, mesmo sem conhecimento prático de causa, é minha firme convicção que Johnnie To conseguiu capturar o verdadeiro espírito da vivência das tríades, tornando a saga “Eleição”, um documento de reputável interesse.

“Eleição 2” continua o bom trabalho evidenciado na primeira obra, e um dos seus grandes méritos foi não cair na tentação que muitas sequelas infelizmente prosseguiram. Ambos os filmes foram provavelmente os maiores feitos do género “tríade” dos últimos anos. Não caem na tentação da violência fácil. Outrossim, tentam nos imbuir num espírito mais realista no sentido de percebermos o que realmente são as organizações do submundo de Hong Kong e o seu impacto na sociedade. Por outra via, To teve o condão de reunir um grupo de actores que perceberam efectivamente qual o espírito da película e a interpretam muito bem. No caso particular de Louis Koo, estamos perante um dos melhores papéis da carreira do actor. No fim, só resta declarar que a mensagem da primeira película, mantém-se essencialmente a mesma. Há quase sempre alguém que nos suplanta em algo, assim como, de uma forma ou outra, todos somos vítimas dos nossos próprios desígnios. Nas tríades, pelos vistos e em razão da sua natureza intrínseca, estas realidades têm um campo natural de aplicação!

A ver, juntamente com “Election”, num “2 em 1” eivado de qualidade!

"O Tio Teng"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Eleição/Election/Hak se wui - 黑社会 (2005)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Simon Yam, Tony Leung Ka Fai, Louis Koo, Wong Tin Lam, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Maggie Siu, David Chiang, Berg Ng, You Yong, Yuen Bun, Raymond Wong, Tam Ping Man, Wong Chung, Chan Siu Pang

"Lam Lok"

Sinopse

Numa Hong Kong com mais de 300.000 membros de tríades, a organização mais respeitada, denominada “Sociedade Wo Sing”, está prestes a eleger um novo líder, e tudo parece resumir-se à escolha entre “Lam Lok” (Simon Yam) e “Grande D” (Tony Leung Ka Fai). Este último começa a subornar os “tios”, que são os membros mais antigos da tríade e responsáveis pela escolha do chefe. Contudo, as pretensões de “Grande D” são barradas por “Teng” (Wong Tin Lam), um homem idoso que é o membro mais respeitado da “Wo Sing” e que apela à unidade da organização em detrimento dos jogos de bastidores. Em consequência, “Lok” acaba por ser apontado como o responsável máximo do grupo criminoso.

"Grande D"

Acontece que a eleição de “Lok” só estará completa quando este possuir o ceptro da “Cabeça do Dragão”, o símbolo usado pelo líder da “Wo Sing” e representativo da sua autoridade. “Grande D”, ciente desta premissa, tudo faz para impedir que o artefacto seja entregue a “Lok”. Com todos os membros da tríade a tomar partido, ora por “Lok”, ora por “Grande D”, a guerra pelo poder dentro da organização parece ser inevitável.

"Os Tios procedem à eleição do líder da tríade Wo Sing"

"Review"

“Eleição” é um dos filmes mais conhecidos de Johnny To e dos produtos mais bem sucedidos da sua companhia, a conhecida “Milkyway". Foi uma película que causou imensa sensação nos circuitos cinematográficos, tendo vencido nove prémios, divididos pelos “Golden Horse Awards”, os “Hong Kong Film Awards”, e Sitges, o conhecido festival internacional de cinema catalão. Viria ainda a concorrer para o galardão máximo de Cannes, a “Palma de Ouro”, mas aí viria a ser ultrapassado por “L'Enfant”, dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc). Quentin Tarantino é um professo admirador desta longa-metragem, e viria a contribuir na edição de DVD norte-americana, onde pontificava a sua citação “o melhor filme do ano”. Quer se goste ou se recrimine, uma coisa é certa. É praticamente inquestionável que “Eleição” é dos mais emblemáticos, senão o mais importante filme do género “tríade” dos últimos anos.

Um dos grandes méritos desta obra é elucidar-nos sobre o “modus operandi” das tríades de um ponto de vista mais conceptual e educativo. “Eleição” faz-nos interiorizar o aspecto “político” essencial na vivência do crime organizado de Hong Kong, que passa muito pelo aspecto negocial onde se pretende um certo equilíbrio e onde todos podem lucrar com as actividades ilícitas. Trata-se de um jogo que ocorre não só entre os elementos das tríades, mas igualmente com a polícia que revela deter grande interesse no evitar de conflitos entre os “gangsters”. Temos igualmente a hipótese de observar os rituais ancestrais das tríades, com todo o simbolismo associado às cerimónias de iniciação e às juras de fidelidade entre os seus membros. É um dos ritos destas organizações criminosas, a saber, o processo de escolha do líder, que constitui o cerne da trama. Tal “eleição” poderá variar entre um processo de votação oligárquico, como é o caso da tríade Wo Sing (“empresa” sobre a qual gravita a película), ou por um sistema monárquico onde um familiar sucede a outro, como aprendemos que acontece noutras tríades. Tudo sucede como se estivéssemos a dissertar sobre os multi-variados sistemas de governação das nações, com os seus próprios processos de “checks and balances” ao melhor estilo dos politólogos John Locke ou Montesquieu.

"Luta nas ruas de Hong Kong"

É certo que as traições, o jogo duplo e a violência são inevitáveis, mas “Eleição” não cai na tentação fácil de se transformar num “gun fu” no inimitável estilo das conhecidas obras de John Woo. Por força desta asserção, a obra revela uma identidade própria e distintiva, que consegue ser extremamente apelativa e verosímil. É aqui que reside a força do filme. Aliás, para termos uma ideia da forma como o confronto entre os membros das tríades é abordado nesta obra, não existe praticamente nenhum duelo de balas. Tudo é tratado com o máximo realismo e crueza, com agressões “mano a mano”, onde os punhos e os pés (sem recurso a técnicas de artes marciais), os facalhões, as garrafas de "whisky" e outros utensílios primários ditam a lei.

Os “jogos de poder” e a duplicidade das estratégias evidenciadas, necessariamente têm de se reflectir na forma de actuação das personagens. Sem querer desvendar demasiado o enredo, sempre se dirá que o espectador terá de estar preparado para alguns volte-faces na história, onde quem parecerá estar imbuído de “boas intenções” (passe a expressão) revela um carácter frio, sanguinário e calculista, e por outra via, quem se assemelha ao que mais associamos ao “mafioso” típico, é quem cede e acaba por ser vítima dos seus próprios desígnios, quando as coisas parecem estar bem encarreiradas. É a estratégia de Maquiavel, exteriorizada na sua obra e verdadeiro guia político, “O Príncipe”, posta em prática religiosamente. Os actores Simon Yam e Tony Leung Ka Fai desempenham com bastante competência os seus papéis, mas são verdadeiramente os intérpretes que têm os papéis secundários, mormente Louis Koo e o obeso Wong Tin Lam, que fazem as maiores despesas a nível de representação, carecendo apenas de falta de minutos. Espectacular é a actuação de Nick Cheung, no papel de “Jet” (“Cabeça de Peixe” na versão portuguesa), o pequeno traficante de droga, que revela um pendor eléctrico, maníaco e violento ao nível de um Jacky Cheung nos seus melhores dias.

“Eleição” constitui uma das numerosas boas produções que os estúdios “Milkyway” têm dado a conhecer ao grande público, e que de alguma forma têm defendido a honra do cinema de Hong Kong que, diga-se de passagem, já passou melhores momentos. É um filme que assenta num espectro político interessante, para além de ser extremamente informativo para aqueles que se interessam pelo submundo daquela região administrativa chinesa (esperemos que de um ponto de vista estritamente teórico). Consegue dosear estes aspectos, utilizando uma violência que se afigura necessária, mas longe de ser gratuita. Aliando-se todos estes factores a uma realização e interpretação bem conseguidas, uma cinematografia de elevada qualidade e a momentos emblemáticos assinaláveis, não se poderá pedir muito mais. Talvez lhe fique a faltar apenas um pouco mais de alma e aposta nas interessantíssimas personagens secundárias.

Poderá não ser um filme de “eleição”, mas fica bem lá perto!

"A cerimónia de fidelidade"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





domingo, fevereiro 01, 2009

Chuva Sangrenta/Blood Rain/Hyeol-ui nu - 혈의 누 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 114 minutos

Realizador: Kim Dae-seung

Com: Cha Seung-won, Park Yong-woo, Ji Seong, Yoon Se-ah, Choi Ji-na, Cheon Ho-jin, Oh Hyeon-Kyeong, Choi Jong-won, Yoo Hae-jin, Jeong Gyoo-soo, Park Cheol-min, Choi Dong-joon, Park Choong-seon

"O detective imperial Won-kyu"

Sinopse

Em 1808, em plena dinastia Joseon, Dong-hwa é uma ilha remota, mas que vive numa certa prosperidade devido à sua importante fábrica de produção de papel. A relativa tranquilidade da localidade é seriamente perturbada, quando o navio que iria transportar o tributo anual ao imperador é incendiado. A corte envia o investigador “Won-kyu” (Cha Seung-won), tendo em vista que este averigue o sucedido.

"O jovem artesão Du-ho"

Uma missão que no início parecia um cumprimento de burocracias e formalidades, cedo sofre um volte-face arrepiante. “Won-kyu” depara-se com um corpo empalado de um habitante da ilha, conhecido por ser um bêbado e jogador inveterado. Os assassinatos começam a grassar, e o detective imperial apercebe-se que os crimes parecem estar relacionados com a execução do Comissário “Kang” (Cheon Ho-jin) e da sua família, ocorrida sete anos antes. O motivo da condenação foi pelo facto de “Kang” ser supostamente um católico, religião que foi proibida pela monarquia coreana. “Won-kyu” acaba por contactar com o responsável pelos homicídios, que enverga uma misteriosa máscara branca que oculta a sua face.

"A xamã"

"Review"

“Chuva Sangrenta” é um filme de mistério e detectives, que tem a particularidade de ocorrer numa época histórica, com todos os pormenores daí advenientes ou associados. Com base nesta mistura de elementos, obtemos uma película bastante interessante, com intriga e pormenores culturais suficientes para manter uma atenção constante de um espectador mais ou menos esclarecido.

Crânios esmagados, sangue a jorros, autópsias, corpos humanos desmembrados, empalados ou a serem cozidos em água a ferver. Tudo isto serve para referir que “Chuva Sangrenta” não se furta aos pormenores mais “gore” ou violentos, imprimindo desta forma um certo realismo às execuções ou os assassinatos, o que certamente não será para o estômago de qualquer um. Estas cenas em particular são extremamente bem elaboradas, e servem para acentuar os caminhos mais negros que por vezes a película percorre. Cumpre alertar que os defensores dos direitos dos animais não ficarão muito satisfeitos, com a decapitação gratuita de cinco galinhas, em que se nota que não houve recurso a efeitos especiais.

"Uma das vítimas é cozida viva"

O argumento, por seu turno, detém altos e baixos. Explora bem o factor cultural , mas por vezes existe um certo entusiasmo que confunde o espectador tanto na resolução do mistério, assim como na fronteira entre o mundano e o sobrenatural. É por este motivo que, apesar de ser uma película com quase duas horas de duração, certas aspectos ficam por explicar e outros simplesmente não têm sentido. Pelo menos à primeira vista. O que funciona bem, e como já acima dei a entender, são os pormenores históricos dos quais destacaria a perseguição aos católicos e a tudo o que representasse contactos profundos com a cultura ocidental. Todos nós temos a consciência do que representou a inquisição na Idade Média, e as atrocidades que se cometeram em nome de Deus, quando na realidade era a mente dos homens que era fanática ou deturpada. Ora séculos mais tarde, com a expansão europeia para o extremo oriente, em especial para a China, Coreia e Japão, os católicos igualmente foram vítimas de ataques desmesurados. Especialmente os autóctones que se convertiam. Embora não haja um tratamento exaustivo desta questão, sempre temos elementos suficientes para entender um pouco este confronto religioso, e que à primeira vista lateral, constitui um factor importante e decisivo para uma melhor percepção de “Chuva Sangrenta”.

Os cenários e guarda-roupa são exibidos de uma forma quase perfeita, o que constitui sem dúvida alguma um dos pontos fortes desta longa-metragem. Os elementos orquestrais presentes na banda-sonora conferem uma certa dimensão à película, mas nada de extasiante. Os actores esforçam-se por apresentarem-se em bom nível, mas o que de bom sucede nas personagens secundárias, falha um pouco nos intérpretes principais. “Wong-kyu”, interpretado pelo actor Cha Seung-won, consegue ser credível, mas por vezes sensaborão e sem alma. Poderíamos eventualmente traduzir por ausência de algum carisma.

“Chuva Sangrenta” foi por alguns comparado a “O Nome da Rosa”, a maravilhosa obra do realizador Jean-Jacques Annaud, baseada num ainda mais fenomenal livro de Umberto Eco. Contudo, o filme coreano está a milhas de sequer poder ser mencionado ao lado daquela película, porquanto está longe de evidenciar uma mestria argumentativa e uma representação à altura. No entanto, sempre se dirá que esta película tem alguns aspectos interessantes e que na sua quase globalidade se reconduzem ao aproximar histórico-cultural de uma época importante e de transição para os coreanos. Igualmente será de apreciar alguns factores prementes da trama, no que concerne à investigação dos homicídios, que por vezes entusiasma. Por fim, torna-se importante relevar a inusitada violência e realismo, que poderão causar algum suplício às mentes mais sensíveis e impressionáveis. Com uma carreira ainda breve, o realizador Kim Dae-seung oferece-nos um “thriller” histórico que abre o apetite para que futuras realizações sejam elevadas a um nível superior.

Não custa conferir!

"Won-kyu persegue o assassino"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





sexta-feira, janeiro 16, 2009

Mad Detective/Sun taam - 神探 (2007)
Origem: Hong Kong
Duração: 91 minutos
Realizadores: Johnny To e Wai Ka Fai
Com: Lau Ching Wan, Andy On, Kelly Lin, Gordon Lam, Lee Kwok Lun, Karen Lee, Flora Chan, Eddie Cheung, Eddy Ko, Lam Suet, Jo Koo, Wong Wah Ho, Jay Lau
"Bun, the Mad Detective"
“Bun” (Lau Ching Wan) é um ex-inspector, que foi expulso da polícia devido a alegadamente ter problemas mentais. Para muitos era considerado um investigador genial, mas os seus métodos tinham tudo menos de ortodoxo, essencialmente devido a tentar recriar os homicídios que tinha a seu cargo. Essencialmente, “Bun” tentava interiorizar os sofrimentos das vítimas ou agir como os homicidas, devido a ter a melhor percepção acerca da complexidade dos casos. A tolerância para “Bun” findou no dia em que o mesmo mutila parte da sua orelha e oferece ao seu superior hierárquico como presente de reforma.
"Da esquerda para a direita, o agente Ho e o principal suspeito Chi Wai"
Cinco anos mais tarde, o agente “Ho” (Andy On) investiga o intrincado desaparecimento de um colega da polícia, sem conseguir obter resultados. Ciente do génio de “Bun”, decide solicitar o auxílio deste no caso. Cedo, começa a arrepender-se da ideia, pois “Bun” parece ter enlouquecido ainda mais, falando com pessoas supostamente imaginárias e provocando uma série de problemas por todo o lado onde passa. Contudo, “On” começa aperceber-se do real dom de “Bun”. Pelos vistos, este tem o poder de conseguir identificar as múltiplas personalidades que residem numa pessoa, que a seus olhos são corporizadas em seres de carne e osso. As provas parecem apontar para “Chi Wai” (Gordon Lam) que tem nada mais, nada menos, que sete personalidades múltiplas, todas bastante distintas.
"Bun recria um dos comportamentos do suspeito"
Sinopse

A “Milkyway”, uma conhecida empresa de produção de filmes fundada por Johnnie To em 1996 (site oficial AQUI), foi indubitavelmente uma das coisas boas que aconteceu ao cinema de Hong Kong nos últimos anos. Digo isto, pois desde a sua fundação, várias obras renomadas e de boa qualidade tiveram o selo daquela produtora, das quais destacaria mais por ser do meu conhecimento pessoal e agrado “The Mission”, “Needing You...”, “Exiled” e os dois “Election”. Foi com alguma expectativa que ansiava tomar contacto com “Mad Detective”, não apenas pelo excelente “feedback” que o filme possuiu perante a crítica mais especializada, mas igualmente por ter sido um nomeado para o “Leão de Ouro”, a mais alta distinção que um filme pode obter no conceituado festival de Veneza. Outros factores de interesse passavam pelo facto de consagrar uma nova reunião entre dois realizadores de inspirações distintas, Johnnie To e Wai Ka Fai, que não trabalhavam juntos na direcção desde “Running On Karma” (2003), assim como marcava o regresso do actor Lau Ching Wan aos filmes de To, facto que não ocorria desde o ano de 2002, com “My Left Eye Sees Ghosts”. Mesmo tendo recebido uma classificação para maiores de 18 anos em Hong Kong, a película não deixou de ser um sucesso de bilheteira na sua terra de origem, granjeando um grande interesse junto de muitos espectadores.

“Mad Detective” prima pela positiva em muitos aspectos, mas é sem dúvida a magistral interpretação do grande Lau Ching Wan que sobressai. O actor, que pessoalmente admiro bastante e é um favorito de To, consegue oferecer-nos uma interpretação maravilhosamente equilibrada na representação de um “desiquilibrado”, balançando extremamente bem os momentos em que precisa de exteriorizar a loucura e a esquizofrenia, com a comicidade e a veia trágica. A performance de Lau Ching Wan consegue verdadeiramente marcar o estado de espírito de quem visiona esta longa-metragem, sendo capaz de tanto nos pôr a meditar, como a rir ou a simpatizar com a sua contínua progressão para um caminho sem retorno chamado “decadência pessoal”. Os restantes actores aparecem em bom plano, mas é óbvio que empalidecem perante a grandeza de Ching Wan. Mesmo assim, sempre se dará alguma parte do destaque a Andy On, no papel do jovem detective “Ho”, pois frequentemente aquele actor é associado mais à faceta “quebra-corações” (própria de intérpretes sem substância como Nicholas Tse), do que propriamente às suas qualidades artísticas. Andy On, sem deslumbrar, consegue ser um competente “sidekick” de Lau Ching Wan.

"O imaginário de Bun necessariamente reflecte-se na sua vida pessoal"

Na esteira do propalado comportamento “anormal” de “Bun”, Johnny To e Wai Ka Fai mantêm fluídos os 91 minutos de duração da película, tornando-a extremante interessante. Existiu uma opção extremamente feliz neste domínio e que passou pela escolha de uma multiplicidade de personagens para representar as diversas facetas de determinada pessoa, sob a perspectiva esquizofrénica de “Bun”. A interacção entre o detective e as diversas personalidades de “Chi Wai”, o principal suspeito dos assassinatos é, à falta de melhor expressão, genial. Some-se este aspecto aos devaneios pessoais de “Bun”, essencialmente relacionados com a relação que tem com a esposa, e os seus métodos nada ortodoxos na investigação dos crimes, e temos meio caminho andado para nos apercebermos de uma coisa extremamente importante. Estamos perante uma das melhores obras que Hong Kong produziu nos últimos anos, e quiçá, a nível global, das mais competentes que evocam a ténue fronteira entre o imaginário e a realidade. O argumento que viria a ser premiado na 27ª edição dos HK Film Awards (2008) é extremamente forte e bem conseguido, como parece ser apanágio dos escritores ao serviço da Milkyway, e constitui outra das chaves-mestra da película. Este aspecto apenas vem reforçar a qualidade desta obra.

Com uma efectividade tremenda perante aqueles que se interessam por filmes que abordam os meandros da natureza humana, “Mad Detective” revela ser uma longa-metragem que satisfaz plenamente. Tem ritmo, mistério, acção e suspense o suficiente para prender a nossa atenção até ao fim. Para além destes aspectos em concreto, revela ser uma película inteligente na maneira como associa os devaneios de um ser lunático, despertando-nos uma diversidade de sensações que irão desde o riso, até à pena ou a compreensão. Eu e as minhas personalidades escondidas (se é que tenho algumas) definitivamente aconselhamos este filme a toda a gente! E já agora não custa repetir que Lau Ching Wan é mesmo grande e está a milhas de distância da maior parte dos seus conterrâneos que despontam na cinematografia de Hong Kong (Tony Leung Chiu Wai e mais alguns à parte) !

A não perder!

"O standoff final"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial (Reino Unido)

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





domingo, dezembro 14, 2008

Death Note: The Last Name/Desu nôto: The Last Name - デスノート (2006)

Origem: Japão

Duração: 135 minutos

Realizador: Shusuke Kaneko

Com: Tatsuya Fujiwara, Ken'ichi Matsuyama, Erika Toda, Nana Katase, Takeshi Kaga, Shido Nakamura, Peter, Shigeki Hosokawa, Shunji Fujimura, Shin Shimizu, Sota Aoyama, Magy, Michiko Godai

"Ryuk e Light Yagami"

Alerta! "Spoilers"!

“Death Note: The Last Name” é a continuação do filme “Death Note”, anteriormente criticado neste espaço (para ler o escrito ir AQUI). Pelo exposto, o texto abaixo contém pormenores essenciais da trama da primeira película, pelo que só deverá prosseguir caso tenha visionado aquela obra.

Sinopse

“Misa Amane” (Erika Toda), uma famosa estrela da TV Sakura e ídolo dos jovens japoneses, encontra-se a ser perseguida por um fã alucinado que a pretende assassinar. Quando já não parece haver fuga possível, o homem morre inexplicavelmente de ataque cardíaco e um estranho caderno de notas aparece vindo do nada. Mal “Misa” toca no objecto, depara-se perante o Shinigami “Rem” (Peter), o deus da morte que é o dono do caderno de notas.

Entretanto, “Light Yagami” (Tatsuya Fujiwara) consegue os seus propósitos ao entrar para a equipa especial que investiga o misterioso assassino “Kira”, liderada por “L.” (Ken'ichi Matsuyama). Uma nova sucessão de mortes de criminosos sucede, que apanha de surpresa “Light” e os restantes, e cedo se descobre que existe uma personagem denominada “Kira 2".

“Misa” acaba por se revelar a “Light” como sendo “Kira 2”, e apaixona-se por ele. “Light”, o "Kira" original, embora relutante, acaba por juntar esforços com a rapariga. Auxiliados pelos seus Shinigami, ambos diligenciam na morte de “L.”. No entanto, é imperioso descobrir o verdadeiro nome do genial investigador.

"Misa Amane usa os olhos do deus da morte"

"Review"

Na conclusão do texto acerca de “Death Note”, alertei para o facto de ser fulcral visionar igualmente este “Death Note: The Last Name”, pois só assim o espectador ficará com uma noção completa da história. Caso assim não se proceda, quem espreitar apenas “Death Note” ficará com um sentimento de incompletude, não havendo um epílogo propriamente dito. Por outra via, quem perder “Death Note” e entrar directamente em “Death Note: The Last Name”, sentir-se-á confuso pois não conseguirá entender muitas das premissas do filme. A explicação passará por um ser a continuação do outro, não podendo desta forma serem observados de uma forma isolada. Não é inocente o facto de ambas as longas-metragens serem do mesmo ano, assim como a segunda parte ter sido realizada três meses depois. Atendendo a este factor, a história de “Death Note: The Last Name” começa exactamente onde “Death Note” acaba.

"Light rodeado dos Shinigamis Ryuk e Rem"

Comparativamente ao primeiro filme, “Death Note: The Last Name” foca-se mais na contenda entre “Light” e “L.”. Este aspecto torna-se perfeitamente natural face ao evoluir da história, porquanto na primeira parte, o que estava mais em causa era a adaptação de “Light” à sua nova condição de “deus do novo mundo” (expressão que o rapaz usa para se auto-designar) e a permanente descoberta dos poderes do seu caderno de notas. É certo que “L.” já detém um papel preponderante, pois a caçada ao homem que mantém conhece alguma evolução. Contudo, é no filme que ora se analisa que verdadeiramente começa a sério o confronto de titãs, ilustrado numa guerra intelectual e psicológica quase incessante, onde cada um dos oponentes está quase sempre a preparar armadilhas e a lançar rasteiras um ao outro. Torna-se interessante, embora com algumas falhas argumentativas mais evidentes, observar o duelo cerebral entre “L.” e “Light” e toda a envolvência que daí resulta. O jogo do gato e do rato assume aqui o seu apogeu, com muitos avanços e recuos que têm a potencialidade de prender a atenção do espectador.

Os aspectos mais visuais, interpretativos e musicais mantêm-se essencialmente semelhantes aos primeiro filme, com algumas bem-vindas adições. O “cast” é praticamente o mesmo, havendo apenas a entrada relevante da actriz e ídolo pop japonês, a bela Nana Katase. Erika Toda tem bastante mais minutos, atendendo ao desenrolar da trama, onde aqui assume um papel determinante. A nível de interpretação, talvez seja de relevar Ken'ichi Matsuyama que tem a oportunidade de desfilar com mais sentimento as pouco peculiares características de “L.”, conseguindo momentos de verdadeira alucinação. É uma personagem que enfatiza bastante o provérbio “de génio e louco, todos nós temos um pouco”. “L.” tem muito de génio, e possivelmente bastante mais de louco. Surge um novo Shinigami chamado “Rem”, visualmente bem elaborado à semelhança de “Ryuk” e que coexiste com este, embora com características psicológicas bastante distintas. “Ryuk”, o deus da morte de “Light” não parece interessar-se bastante pelo seu protegido, demonstrando ser uma personagem mais cínica e sarcástica. “Rem”, pelo contrário, revela ser bastante protector em relação a “Misa”, devido a factores que aqui não posso revelar, sob pena de cometer um grave “spoiler”. A nível do som, se em “Death Note” os Red Hot Chili Peppers tinham cedido a sua música “Dani California” para o genérico, aqui participam na banda-sonora com “Snow”, contribuindo ainda mais para a aura juvenil desta longa-metragem.

"Rem e Misa"

“Death Note: The Last Name” revela ser um filme quase à altura do seu predecessor, pois mantém praticamente todas as características que definiram “Death Note” como uma das mais bem sucedidas obras japonesas dos últimos anos. Contudo, e principalmente a nível da trama, está uns furos abaixo do que se pedia, fazendo com que não seja um filme tão bem conseguido como o primeiro. O seu epílogo, embora satisfatório, fique um tanto ou quanto além das expectativas. Mesmo assim, e atendendo à época que presentemente está a decorrer, não deixa de ser uma boa prenda de Natal. Especialmente se conseguirmos obter as maravilhosas edições especiais em dvd, visualmente bonitas e com bastantes extras, num “dois em um” que enriquece bastante a nossa colecção privada.

A conferir, mas não antes de visualizar o primeiro filme! Fica mais uma vez o insistente alerta!

"Duelo de génios"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75