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quarta-feira, junho 24, 2009

Ashes of Time Redux (2008)

Origem: Hong Kong

Duração: 93 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Jacky Cheung, Tony Leung Ka Fai, Li Bai, Carina Lau, Charlie Yeung

"Ouyang Feng e Hung Chi"

Introdução

Como deve ser do conhecimento de muitos que visitam este espaço, “Ashes of Time Redux” não difere muito do original “Ashes of Time”, tratando-se de uma versão melhorada em termos de imagem e outros aspectos relacionados com a produção. É certo que existem alguma subtracções e adições feitas por “Redux”, que darei conta abaixo. Mesmo assim, embora algumas sejam importantes, decidi não elaborar um texto feito à imagem do normal no “My Asian Movies”. Sendo assim, a sinopse infra é a mesma que consta no artigo que elaborei acerca de “Ashes of Time” há três anos atrás. Na “review”, abordarei sobretudo e de uma forma sumária, as diferenças entre ambas as versões, tentando emitir a minha opinião pessoal. Optei igualmente desta vez, por não atribuir a costumeira pontuação, pois entendo que, também neste particular, não deveria fazer uma autonomização das duas obras, sob pena de desvirtuar o pensamento de Wong Kar Wai. A crítica original encontra-se AQUI.

"Huang Yaoshi Aka Evil East"

Sinopse

"Ouyang Feng" (Leslie Cheung), também conhecido sob a alcunha de "Malicious West", é um proprietário de uma taberna situada no meio do deserto. Trata-se de um homem morto emocionalmente, devido ao casamento do seu irmão mais velho com a mulher que ama (Maggie Cheung). Vive do seu negócio e da contratação de espadachins necessitados de dinheiro, tendo em vista a perpetração de assassinatos por encomenda. Estranhas pessoas chegam à taberna, cada qual com a sua história que normalmente converge para a tragédia pessoal. Podemos acompanhar "Huang Yaoshi" (Tony Leung Ka Fai), cujo nome de batalha é "Evil East", um dotado homem da espada, cuja atitude cavalheiresca perante o mundo, a vida e o amor, deixaram-lhe um rasto de remorso e recriminação.

“Murong Yang” (Brigitte Lin), por seu lado, é um jovem em busca de vingança sobre “Evil East”, por este ter abandonado a sua irmã “Murong Yin”. Esta, por sua vez, deseja a morte do irmão, por este andar a tentar matar a sua paixão “Evil East”. “Yin” e “Yang” acabam por revelar serem a mesma pessoa, completamente destroçada pela rejeição de “Evil East” e incapaz de encontrar um caminho para a paz interior. Problemas trágicos são demonstrados por outros elementos da história, desde o espadachim cego (Tony Leung Chiu Wai) que é contratado para liquidar um bando de salteadores e cujo último desejo antes de falecer e ver o desabrochar das flores de cerejeira (em sentido figurado, pois tal serve para designar a esposa) na sua terra-natal, passando pelo assassino de bom coração “Hung Chi” (Jacky Cheung) que não gosta de usar sandálias, acabando na jovem e pobre rapariga camponesa (Charlie Yeung) que tenta comprar vingança com um cesto de ovos e uma mula.


"O espadachim cego"

"Review"

Precisamente 14 anos depois, o mestre Wong Kar Wai decidia dar um novo corpo ao seu único registo do “Wuxia”, e pessoalmente o meu filme predilecto do valioso espólio cinematográfico do realizador. Desde já se aplaude esta revisita, pelo restauro com a qualidade que esta magnífica obra merece. Como já tinha aludido no meu texto de 2006, e passo a citar “é francamente uma enorme injustiça não existir no mercado uma edição em DVD decente à disposição do público. As existentes são de má qualidade, e tornam-se um verdadeiro crime quando estamos perante uma obra desta envergadura.” Com “Ashes of Time Redux”, o problema fica resolvido, pois com a ajuda do insuspeito Christopher Doyle temos agora à disposição uma edição em condições de ser visionada e admirada. Contudo, existem outros aspectos igualmente importantes, que julgo não terem tomado a direcção correcta.

A principal crítica dirige-se aos cortes que o filme levou, dos quais eu nunca vou perdoar a remoção do grito de sofrimento dado por Brigitte Lin na famosa cena do lago, acompanhado pela música emblemática que associávamos sempre a “Ashes of Time”. Aliás, esta melodia, tal como a conhecíamos, foi removida de vez em “Redux”, notando-se contudo alguma da sua influência nos novos arranjos musicais. Existem outras retiradas e adições, tais como as duas primeiras cenas de luta, pelo que a primeira vez que nos deparamos com os salteadores é o único combate em que está envolvido “Ouyang Feng”, a personagem interpretada por Leslie Cheung. Aproveitando para me referir às cenas mais movimentadas, em “Redux” as lutas são mais perceptíveis, embora neste particular continue a imperar alguma confusão desenfreada. É definitivamente o grande calcanhar de aquiles desta película, como também já tinha aludido no meu anterior texto.


"Ouyang Feng e Murong Yang"

Uma adição que se saúda é o “flashback” relativo à noite do casamento da apaixonada de “Feng”, corporizada em Maggie Cheung, que é mais completa e envolvente do que na versão original. Outra inovação de assinalar, passa pelo derradeiro combate do espadachim cego, interpretado por Tony Leung Chiu Wai, em que Kar Wai opta ora por cortar o som, ou distorcê-lo, assim como tornar a cena mais escura de forma a simbolizar a perda de visão do protagonista. O efeito, sem margem para qualquer dúvida, embrenha mais o espectador na tragédia pessoal da personagem. O sangue carmim, bastante vívido, a jorrar da garganta do espadachim faz o resto. A propositada saturação de cores que predomina em “Redux”, faz com que o filme seja mais estilizado e bonito à vista, aspecto que era extremamente prejudicado pela pobreza de tratamento da versão original. Outro aspecto que é de relevar, passa pelo facto de a grande senhora do cinema asiático, Brigitte Lin, poder debitar agora o seu próprio diálogo em mandarim. Na primeira versão, as falas da actriz eram dobradas para cantonês, havendo alguma detestável dessincronização entre os movimentos da boca e o som. Aqui, felizmente, isto já não se passa.

Sem desprezar os bons predicados que o novo tratamento a “Ashes of Time” mereceu, julgo que o melhor teria sido fazer uma simples, mas efectiva recuperação a esta pérola da sétima arte. “Redux” parece ter sido uma película feita mais para os fãs de Kar Wai, pós - “In The Mood for Love/2046”, desligando-se por vezes do espírito original da obra. Por mim, tudo se mantinha, apenas a imagem e o registo do som eram melhorados. As adições seriam bem-vindas, mas apenas para complementar o que já de bom existia. Quanto à banda-sonora, deixava-a precisamente como estava na versão original, principalmente devido à “tal” música inesquecível, e se possível tentava introduzir de uma forma lógica, o fabuloso violoncelo de Yo Yo Ma que perdura maravilhosamente em “Redux”. Façam pois o favor de confrontar as duas versões, e depois cada um diga de sua justiça! Acima de tudo o que interessa, é que o cerne da questão continua presente: o efeito das tristes memórias passadas na nossa vida presente, e a agonia que as alimenta e as cicatriza no íntimo do nosso ser...

Confiram, nem que seja para observarem o grande e malogrado Leslie Cheung, num dos papéis mais brilhantes da sua carreira!



"Luta no rio"

The Internet Movie Database (IMDb) link - Refere-se à versão originária de "Ashes of Time"

Trailer

Outras críticas em português:

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Eleição/Election/Hak se wui - 黑社会 (2005)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Simon Yam, Tony Leung Ka Fai, Louis Koo, Wong Tin Lam, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Maggie Siu, David Chiang, Berg Ng, You Yong, Yuen Bun, Raymond Wong, Tam Ping Man, Wong Chung, Chan Siu Pang

"Lam Lok"

Sinopse

Numa Hong Kong com mais de 300.000 membros de tríades, a organização mais respeitada, denominada “Sociedade Wo Sing”, está prestes a eleger um novo líder, e tudo parece resumir-se à escolha entre “Lam Lok” (Simon Yam) e “Grande D” (Tony Leung Ka Fai). Este último começa a subornar os “tios”, que são os membros mais antigos da tríade e responsáveis pela escolha do chefe. Contudo, as pretensões de “Grande D” são barradas por “Teng” (Wong Tin Lam), um homem idoso que é o membro mais respeitado da “Wo Sing” e que apela à unidade da organização em detrimento dos jogos de bastidores. Em consequência, “Lok” acaba por ser apontado como o responsável máximo do grupo criminoso.

"Grande D"

Acontece que a eleição de “Lok” só estará completa quando este possuir o ceptro da “Cabeça do Dragão”, o símbolo usado pelo líder da “Wo Sing” e representativo da sua autoridade. “Grande D”, ciente desta premissa, tudo faz para impedir que o artefacto seja entregue a “Lok”. Com todos os membros da tríade a tomar partido, ora por “Lok”, ora por “Grande D”, a guerra pelo poder dentro da organização parece ser inevitável.

"Os Tios procedem à eleição do líder da tríade Wo Sing"

"Review"

“Eleição” é um dos filmes mais conhecidos de Johnny To e dos produtos mais bem sucedidos da sua companhia, a conhecida “Milkyway". Foi uma película que causou imensa sensação nos circuitos cinematográficos, tendo vencido nove prémios, divididos pelos “Golden Horse Awards”, os “Hong Kong Film Awards”, e Sitges, o conhecido festival internacional de cinema catalão. Viria ainda a concorrer para o galardão máximo de Cannes, a “Palma de Ouro”, mas aí viria a ser ultrapassado por “L'Enfant”, dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc). Quentin Tarantino é um professo admirador desta longa-metragem, e viria a contribuir na edição de DVD norte-americana, onde pontificava a sua citação “o melhor filme do ano”. Quer se goste ou se recrimine, uma coisa é certa. É praticamente inquestionável que “Eleição” é dos mais emblemáticos, senão o mais importante filme do género “tríade” dos últimos anos.

Um dos grandes méritos desta obra é elucidar-nos sobre o “modus operandi” das tríades de um ponto de vista mais conceptual e educativo. “Eleição” faz-nos interiorizar o aspecto “político” essencial na vivência do crime organizado de Hong Kong, que passa muito pelo aspecto negocial onde se pretende um certo equilíbrio e onde todos podem lucrar com as actividades ilícitas. Trata-se de um jogo que ocorre não só entre os elementos das tríades, mas igualmente com a polícia que revela deter grande interesse no evitar de conflitos entre os “gangsters”. Temos igualmente a hipótese de observar os rituais ancestrais das tríades, com todo o simbolismo associado às cerimónias de iniciação e às juras de fidelidade entre os seus membros. É um dos ritos destas organizações criminosas, a saber, o processo de escolha do líder, que constitui o cerne da trama. Tal “eleição” poderá variar entre um processo de votação oligárquico, como é o caso da tríade Wo Sing (“empresa” sobre a qual gravita a película), ou por um sistema monárquico onde um familiar sucede a outro, como aprendemos que acontece noutras tríades. Tudo sucede como se estivéssemos a dissertar sobre os multi-variados sistemas de governação das nações, com os seus próprios processos de “checks and balances” ao melhor estilo dos politólogos John Locke ou Montesquieu.

"Luta nas ruas de Hong Kong"

É certo que as traições, o jogo duplo e a violência são inevitáveis, mas “Eleição” não cai na tentação fácil de se transformar num “gun fu” no inimitável estilo das conhecidas obras de John Woo. Por força desta asserção, a obra revela uma identidade própria e distintiva, que consegue ser extremamente apelativa e verosímil. É aqui que reside a força do filme. Aliás, para termos uma ideia da forma como o confronto entre os membros das tríades é abordado nesta obra, não existe praticamente nenhum duelo de balas. Tudo é tratado com o máximo realismo e crueza, com agressões “mano a mano”, onde os punhos e os pés (sem recurso a técnicas de artes marciais), os facalhões, as garrafas de "whisky" e outros utensílios primários ditam a lei.

Os “jogos de poder” e a duplicidade das estratégias evidenciadas, necessariamente têm de se reflectir na forma de actuação das personagens. Sem querer desvendar demasiado o enredo, sempre se dirá que o espectador terá de estar preparado para alguns volte-faces na história, onde quem parecerá estar imbuído de “boas intenções” (passe a expressão) revela um carácter frio, sanguinário e calculista, e por outra via, quem se assemelha ao que mais associamos ao “mafioso” típico, é quem cede e acaba por ser vítima dos seus próprios desígnios, quando as coisas parecem estar bem encarreiradas. É a estratégia de Maquiavel, exteriorizada na sua obra e verdadeiro guia político, “O Príncipe”, posta em prática religiosamente. Os actores Simon Yam e Tony Leung Ka Fai desempenham com bastante competência os seus papéis, mas são verdadeiramente os intérpretes que têm os papéis secundários, mormente Louis Koo e o obeso Wong Tin Lam, que fazem as maiores despesas a nível de representação, carecendo apenas de falta de minutos. Espectacular é a actuação de Nick Cheung, no papel de “Jet” (“Cabeça de Peixe” na versão portuguesa), o pequeno traficante de droga, que revela um pendor eléctrico, maníaco e violento ao nível de um Jacky Cheung nos seus melhores dias.

“Eleição” constitui uma das numerosas boas produções que os estúdios “Milkyway” têm dado a conhecer ao grande público, e que de alguma forma têm defendido a honra do cinema de Hong Kong que, diga-se de passagem, já passou melhores momentos. É um filme que assenta num espectro político interessante, para além de ser extremamente informativo para aqueles que se interessam pelo submundo daquela região administrativa chinesa (esperemos que de um ponto de vista estritamente teórico). Consegue dosear estes aspectos, utilizando uma violência que se afigura necessária, mas longe de ser gratuita. Aliando-se todos estes factores a uma realização e interpretação bem conseguidas, uma cinematografia de elevada qualidade e a momentos emblemáticos assinaláveis, não se poderá pedir muito mais. Talvez lhe fique a faltar apenas um pouco mais de alma e aposta nas interessantíssimas personagens secundárias.

Poderá não ser um filme de “eleição”, mas fica bem lá perto!

"A cerimónia de fidelidade"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





terça-feira, outubro 09, 2007

O Rei dos Jogadores - O Regresso/God of Gamblers Returns/Du shen xu ji (1994)

Origem: Hong Kong

Duração: 125 minutos

Realizador: Wong Jing

Com: Chow Yun Fat, Jacqueline Wu, Tony Leung Ka Fai, Chingmy Yau, Xie Miao, Wu Xing Gao, Law Kar Ying, Sharla Cheung, Tsui Kam Kong, Charles Heung, Blacky Ko, Ken Lo, Elvis Tsui, Baau Hon Lam, Law Hang Kang, Wong Kam Kong, Tse Miu, Chi Fai Chan

"Ko Chun e os seus aliados pouco ortodoxos"

Estória

Após os eventos ocorridos em “O Rei dos Jogadores”, “Ko Chun (Chow Yun Fat) estabeleceu-se em França, conjuntamente com a sua nova esposa (Sharla Cheung), que aguarda um filho de “Ko”. O cenário idílico não dura muito tempo, pois “Chao Sin Chi” (Wu Xing Gao), um renomado jogador taiwanês e líder de uma tríade daquele país, pretende desafiar “Ko” e retirar-lhe o título de melhor jogador de casino do mundo. Tendo em vista forçar “Ko” a aceitar o seu desafio, assassina a sua mulher grávida. Antes de expirar, a mulher de “Ko” obriga-o a prometer que durante um ano ele não jogará, nem tão pouco usará o título de “Rei dos Jogadores”.

Passados onze meses e qualquer coisa, “Ko” encontra-se na China e faz amizade com um líder de uma tríade de Taiwan chamado “Hoi On” (Blacky Ko). “Hoi On” é assassinado pelos capangas de “Chao”, como resultado de uma luta pelo poder, e à semelhança do que tinha acontecido com a sua falecida esposa, “Ko” é obrigado a fazer outra promessa, que neste caso consiste em levar “Hoi Siu” (Xie Miao) de volta a Taiwan, onde deverá ser entregue aos cuidados da irmã mais velha “Hoi Tong” (Chingmy Yau). Na sua fuga para a ilha, “Ko” é ajudado por “Siu Yu” (Jacqueline Wu) e “Siu Fang” (Tony Leung Ka Fai), conhecidos respectivamente por “Violinha” e “Trombetinha”, dois irmãos que se dedicam a pequenas vigarices. Pelo caminho, ainda levam amordaçado “Kok Chin Chung” (Elvis Tsui) o capitão da polícia chinesa que os persegue.

"Hoi Tong"

Chegado a Taiwan, “Ko”, conjuntamente com o seu séquito, prepara-se para a vingança sobre “Chao”, num duelo de jogadores que envolverá não apenas dinheiro, mas igualmente a vingança e a vida dos elementos das facções oponentes.

"Sing Fu"

"Review"

O primeiro episódio da saga “God of Gamblers” teve um sucesso bastante grande, fazendo com que Chow Yun Fat tivesse a possibilidade de representar um dos papéis mais emblemáticos da sua carreira, o “Rei dos Jogadores” “Ko Chun”. Como muitas vezes acontece, e quando estamos perante uma fórmula ganhadora, a tendência é tirar o partido ao máximo e toca a enveredar por intermináveis sequelas e inclusive até prequelas. Os ditames comerciais assim o ordenam e o cinema asiático é particularmente pródigo neste género de situações, admita-se.

Como prova do acima veiculado, após a película “O Rei dos Jogadores”, datada de 1989, foram realizadas outras duas longas-metragens, intituladas respectivamente de “God of Gamblers 2” e “God of Gamblers 3: Back to Shanghai”, ambas repetindo o realizador Wong Jing, sem Chow Yun Fat, mas com o rei da comédia de Hong Kong, Stephen Chow. Em 1994, Wong Jing viria a ter a oportunidade de seduzir novamente Chow Yun Fat e acompanhado de um elenco com algum respeito, no qual se destaca Tony Leung Ka Fai e Chingmy Yau, realizou este “O Rei dos Jogadores – O Regresso”. Esqueçam agora “God of Gamblers 2” e “God of Gamblers 3: Back to Shanghai”, com Stephen Chow. O filme que ora se analisa é que deverá, em potência, ser considerado a verdadeira sequela de “O Rei dos Jogadores”, película já analisada anteriormente neste espaço.

E a conclusão a que se chega rapidamente é que este filme é eivado de incongruências narrativas determinantes. A mais evidente quanto a mim, passa pelo facto de a personagem de “Ko Chun” abominar, entre outras coisas, que lhe tirem fotografias. É uma imagem de marca que já tinha transparecido e muito em “O Rei dos Jogadores”. Ora, “Ko Chun” quando chega ao casino, onde se irá disputar o duelo final com o infame Chao, é recebido em apoteose. A cena assemelha-se muito a uma cerimónia dos Óscares, com passadeira vermelha e onde dezenas de “flashes” de câmaras fotográficas são disparadas a torto e a direito. O que ainda salva a narrativa, fazendo com que a mesma ainda mereça uma nota positiva, passa pela grande imaginação que alguns filmes de acção de Hong Kong detêm e que fazem com que passemos um bom bocado. “O Rei dos Jogadores – O Regresso” é um desses filmes.

"O vilão Chao Sin Chi"

É impossível passar despercebida a tentativa de sublimação dos regimes democráticos capitalistas orientais, face ao poder político chinês. Tal é expressado essencialmente pela transformação operada na personagem interpretada por Elvis Tsui, o capitão da polícia chinesa “Kok Chin Chung”. “Kok” começa por abominar o facto de praticamente ter sido raptado e levado para Taiwan (que como se sabe não mantém uma relação muito amistosa com a China), e à certa altura começa a apreciar as virtuosidades do capitalismo. A situação evolui e “Kok” é praticamente convertido a um modo de vida antagónico àquele a que estava acostumado. Mais uma crítica à democracia dita “musculada” do potentado chinês, que eventualmente faria mais sentido na altura em que este filme foi realizado, embora se reconheça que ainda hoje ainda há muito a fazer. É apenas uma opinião. Vale o que vale.

Os actores fazem o que podem neste filme, embora sem laivos que sequer se assemelhem a qualquer brilhantismo. No entanto, sempre há a destacar o eterno Chow Yun Fat, que com enorme naturalidade se destaca de todos os restantes actores sempre que entra numa cena, sendo ocasionalmente ofuscado por outro grande vulto do cinema asiático, Tony Leung Ka Fai, nas cenas mais cómicas. Mesmo assim, e mais uma vez podem acusar-me de um certo circunspectivismo, Tony Leung Ka Fai é outro actor a quem não assenta nada bem a comicidade (excepção feita porventura à cena da imitação de um relógio, que embora degenere numa enorme “palhaçada”, sempre arranca alguns sorrisos). Ah! Já me ia esquecendo! Chow Yun Fat é verdadeiramente ofuscado por Chingmy Yau, mas por outras razões que passam sobretudo por um vestido vermelho que lhe assenta bem como tudo. Quanto à camisa da noite meia para o transparente, pode-se dizer que o administrador deste blogue e subscritor do presente texto, ficou simplesmente sem palavras…(já cá faltava a costumeira piada sexista!).

“O Rei dos Jogadores – O Regresso” vale sobretudo pelo entretenimento, as boas intenções (algumas conseguidas, outras nem por isso) e pouco mais!

"Wu, o eterno guarda-costas de Ko Chun, mostra o que vale"

Trailer (Não encontrado), The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,13







segunda-feira, setembro 03, 2007

Votações do "My Asian Movies"

Outros quatro grandes representantes do que se faz de melhor no cinema asiático e que estão a votos neste blogue:

Maggie Cheung

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Herói, Ashes of Time, New Dragon Gate Inn, 2046, The Moon Warriors

Tony Leung Ka Fai

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Ashes of Time, New Dragon Gate Inn, O Mito, A Dinastia da Espada, Dupla Visão, O Amante, O Rei dos Jogadores - O Regresso

Yoon Son-yi (Yoon Soy)

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Shadowless Sword, Arahan

Andy Lau

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": O Segredo dos Punhais Voadores, The Duel, Infiltrados, Battle of Wits, O Rei dos Jogadores, The Moon Warriors















sábado, agosto 04, 2007

O Amante/L'Amant/The Lover (1992)

Origem: França/Vietname

Duração: 111 minutos

Realizador: Jean-Jacques Annaud

Com: Jane March, Tony Leung Ka Fai, Fréderique Menninger, Arnaud Giovaninetti, Melvil Poupaud, Lisa Faulkner, Xiem Mang, Philippe Le Dem, Ann Schaufuss, Quach Van Han, Jeanne Moreau (narradora)

Chamada de atenção!

Porventura alguns estranharão ou acharão que o filme que ora se critica, não se enquadra no conteúdo temático deste blogue. Para os devidos esclarecimentos ir aqui.

"A rapariga francesa - Marguerite Duras"

Estória

Em 1929, no Vietname colonial, uma jovem rapariga francesa de 15 anos (Jane March) viaja num velho “ferry” através do delta do rio Mekong, dirigindo-se para Saigão. Ela retorna de uma visita à sua família que reside em Sadec, e faz a viagem de volta para o colégio interno onde estuda no 11º ano.

Um abastado chinês de 32 anos (Tony Leung Ka Fai) aborda-a e após uma breve conversa, oferece-lhe boleia no seu luxuoso veículo, para o resto da viagem. A rapariga, filha de uma professora arruinada financeiramente (Fréderique Menninger), deixa-se impressionar pelo aspecto do chinês e aceita a sua oferta.

"O chinês aborda a rapariga no ferry"

A partir daqui, um tórrido relacionamento físico instala-se entre os dois, fazendo com que se encontrem frequentemente num quarto em Saigão. A rapariga que era virgem, vê o seu mundo dar uma volta de 180 graus, descobrindo o prazer sexual, a paixão e eventualmente o amor.

Aos poucos os sentimentos de ambos começam a evoluir, mas o futuro do relacionamento é uma batalha perdida devido às diferenças pessoais, étnicas e culturais que subsistem entre os orientais e os europeus colonizadores.

"O prelúdio de um entrelaçar de mãos"

"Review"

A escritora e realizadora Marguerite Duras constituiu um dos maiores vultos da cultura gaulesa, com um passado muito ligado ao oriente, tendo nascido em Saigão, na Indochina colonizada, actual Vietname. A sua vivência pessoal cicatrizada pela dureza e a adolescência de certa forma trágica, marcaram para sempre as suas obras e profícua actividade cultural. Em 1984 dava vida ao livro “L’Amant” que pretendeu ser um registo autobiográfico da sua adolescência no Vietname e que se centrava num romance proibido que manteve com um homem chinês mais velho. Este escrito viria a dar origem ao filme de Jean-Jacques Annaud, com o mesmo nome, e que aqui se tentará analisar um pouco.

Sempre nutri uma simpatia pelos filmes de Jean-Jacques Annaud, autor de películas como “O Nome da Rosa”, Sete Anos no Tibete” ou “Inimigo às Portas”. A extrema sensibilidade e devoção com que se dedica aos seus registos, facilmente passam para os espectadores, fazendo com que os mesmos não consigam ficar indiferentes ao que se pretende transmitir. Outra coisa que se acentua em Annaud é o cuidado que põe nos detalhes das suas obras. Os diálogos são importantes, mas os gestos e as expressões das personagens nunca podem ser olvidados de alguma forma. Percebe-se bastante bem este aspecto, quando se visiona o “Making of” de “O Amante” e vemos o realizador francês dirigir uma inexperiente Jane March, indicando-lhe as poses que deverá utilizar na cena do “ferry” em que a actriz observa o rio Mekong. O resultado foi um transpirar exuberante de sensualidade e ao mesmo tempo meninice, que atrai a atenção de qualquer um. Eu se estivesse naquele barco, provavelmente teria que dar um mergulho para o rio, a ver se esfriava as ideias (já cá faltava a piada sexista)!


"O entrelaçar de mãos"

O argumento não é nada complexo, mas é extremamente tocante e bem feito. No fundo o que se depara perante nós é mais uma história de um amor proibido entre duas pessoas que só detêm diferenças entre si. Como já foi aludido na sinopse, Jean March tem 15 anos, é francesa, provém de uma família pobre e permanentemente destroçada por conflitos. Tony Leung Ka Fai interpreta uma personagem de um chinês rico, com 32 anos, “bon vivant” e que não consegue resistir aos atributos da jovem francesa. Todos nós sentimos à partida que este romance não poderá ter um desfecho feliz, mas mesmo assim a envolvência transmitida pelos dois amantes faz com que não desviemos os olhos do ecrã.

Os aspectos secundários do enredo, mas igualmente bastante importantes para que tenhamos uma percepção completa dos eventos, ajudam imenso à qualidade da trama. Focam-se essencialmente na família de Jane March. A mãe é uma mulher destroçada pela perda do marido e por um investimento ruinoso que fez, tendo como resultado o lançamento da família na miséria. O irmão mais velho é um verdadeiro cretino controlador, que esgota os parcos recursos da família na diversão e nos antros de ópio. O irmão mais novo é demasiado frágil para se deparar com os problemas da vida, sendo frequentemente tiranizado pelo mais velho, necessitando da protecção da irmã.

Quando se analisa “O Amante” é inevitável falar das cenas de sexo e de toda a celeuma que se originou à volta das mesmas. Jane March à altura tinha 18 anos e era uma estreante no mundo da sétima arte. O facto de ter usado cinco duplos nas cenas tórridas, não lhe livrou do facto de o meio alcunhá-la de “the sinner of Pinner” (“a pecadora de Pinner”). Pinner foi o subúrbio de Londres onde Jane March cresceu. Por sua vez, Tony Leung Ka Fai usou dois duplos.

As cenas propriamente ditas são escaldantes o suficiente para que possamos enquadrá-las no erótico. Inclusive gerou-se um debate entre os “users”da IMDb acerca de uma cena em que supostamente nos aperceberíamos que teria havido uma penetração. Julgo que quanto a isso não restarão muitas dúvidas. Existe sim senhor um momento em que é visível perceber tal sucedeu. Agora julgo que os intervenientes da cena muito possivelmente não terão sido Jean March e Tony Leung Ka Fai, mas sim os seus duplos. À altura da estreia do filme, Annaud foi questionado acerca do mesmo e deixou, provavelmente por questões de “marketing”, a dúvida no ar.

Só me resta dizer, um pouco em jeito de conclusão, que a fotografia é excelente, o que valeu inclusivamente uma nomeação para um Óscar, na edição dos prémios da Academia de 1993. As interpretações são muito boas, deixando-me uma mágoa pessoal que Jane March nunca tivesse até hoje uma carreira digna de se ver. Questiono-me o “porquê” acerca disto. Tony Leung Ka Fai é capaz do melhor e do pior. Aqui representou um dos mais bem conseguidos papéis da sua pródiga carreira. Não tenho dúvidas acerca disto.

“O Amante” constitui uma obra com mérito, e que ressalta o triunfo sentimental e sexual das mulheres e porque não dizê-lo dos homens também. Embora não seja propriamente o meu género de filme preferido, o seu visionamento é sem dúvida aconselhável!


"Cenas tórridas de amor num quarto em Saigão"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 9

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63







sexta-feira, agosto 03, 2007

Dupla Visão/Double Vision/Shuang Tong - 雙瞳 (2002)

Origem: Taiwan

Duração: 105 minutos

Realizador: Chen Kuo Fu

Com: David Morse, Tony Leung Ka Fai, Rene Liu, Leon Dai, Lung Sihung, Yang Kuei Mei, Huang Wei Han

"Huang Huo Tu"

Estória

“Huang Huo Tu” (Tony Leung Ka Fai) é um polícia afecto aos assuntos relacionados com os estrangeiros (o equivalente seria o nosso serviço de estrangeiros e fronteiras), de Taipei, capital de Taiwan, que possui uma vida familiar destroçada, devido a um trágico evento ocorrido há dois anos atrás relacionado com uma denúncia de um caso de corrupção. A sua filha (Huang Wei Han) perdeu a fala derivado do facto de ter sido feita refém do próprio tio que viria a ser morto. A sua mulher (Rene Liu) pretende pedir o divórcio, pois já não consegue suportar a constante ausência do marido e sua despreocupação com os problemas conjugais.

O marasmo trágico de “Huo” é repentinamente interrompido, quando uma série de bizarros homicídios começam a se suceder em Taipei, que põem a polícia completamente “à nora” quanto ao modo de execução dos crimes. Um empresário que nunca saiu do seu gabinete morre afogado; a amante de um senador morre queimada, sem que o seu apartamento contenha vestígios de qualquer incêndio; um padre ocidental falece dilacerado, sem que existam quaisquer vestígios de luta.

"Kevin Richter"

O governo de Taiwan decide pedir ajuda aos E.U.A., a que este país corresponde enviando um dos seus maiores especialistas em assassinos em série, o agente do F.B.I. “Kevin Richter” (David Morse).

“Richter” acaba por fazer dupla com “Huo” e juntos deparam-se com uma teia intrincada de pistas, algumas de índole sobrenatural, que parecem levar a uma obscura seita taoista cujo fito é a busca do segredo da imortalidade.


"A amante de um senador é consumida pelo fogo"

"Review"

“Dupla Visão” nasceu de uma colaboração entre Taiwan e os Estados Unidos, através da filial asiática da “Sony Pictures”. Por esse facto beneficiou de um tratamento preferencial em relação à generalidade das películas asiáticas, começando desde logo pela distribuição internacional da película. Pretendia-se aqui fazer um “thriller” na linha de filmes como “Seven” e “Resurrection”, embora com uma adição de elementos sobrenaturais. O resultado foi bom? Sinceramente não.

Eu sou daquelas pessoas que acha que a conversa sobre os “clichés” do cinema tornou-se tão banal, ao ponto de ela própria se tornar “cliché”, com a agravante de ser bastante irritante. A minha experiência afirma que metade das pessoas que criticam “clichés” fazem-no sem ter a perfeita consciência do assunto que estão a tratar, ou dizem-no simplesmente por estar na moda. Chegam ao ponto de se deixarem influenciar de tal forma por terceiros ou pelo meio envolvente, sendo capazes de negarem os próprios gostos. Na adolescência é normal que isso aconteça, pois no fundo a personalidade ainda está em formação. Na idade adulta, é preciso estabilizar e tomar opiniões conscientes e decididas. Eu gosto de filmes que estão, a meu ver, cheios de “clichés”. Acima de tudo, adoro películas que me despertem todo o tipo de sensações. Se tiver “clichés” que se dane! Não há que ter medo de admitir que esse mesmo filme é bom e que nos preencheu de alguma forma!

"A filha de Huo observa um nado-morto"

“Visão Dupla” está cheio de “clichés”. Mas mesmo assim poderia ser uma longa-metragem do meu agrado. Aquilo é o polícia que tem um trauma que o separou emocionalmente da família; vem outro polícia de uma cultura completamente diferente e existe o clássico choque de culturas, à semelhança de filmes como “Inferno Vermelho” ou “Fúria no Bairro Japonês”, esses ícones de acção dita “rasca”, mas que há bastantes anos entretiveram-me imenso; a aura negra e o mistério estão todos lá.

Simplesmente, o argumento do meu ponto de vista é mau, e o encadeamento da trama inevitavelmente fica mortalmente afectado devido a esta premissa. A certa altura, uma pessoa com “dois dedos de testa” tem de concluir inevitavelmente que o filme se torna desinteressante e por vezes sem nexo nenhum. Mesmo nos “clichés” há sempre a possibilidade de inovação. Não, esta premissa não é contraditória. Chama-se evolução!

A sensação com que fico é que se pretendeu oferecer um produto muito virado para o público ocidental, com algumas preocupações a nível estético e de misticismo. Claro que sou forçado a admitir que alguns elementos distintivos do cinema asiático estão presentes no filme, e que o salvam de alguma forma. Não tenho pejo nenhum em anuir positivamente perante a cena em que os polícias se defrontam num templo, com os elementos da seita taoísta “O Verdadeiro Sábio”. Tal constituiu claramente o apogeu do filme, e fez-me arregalar os olhos. Quem dera que o filme fosse todo assim!

Os efeitos especiais são aceitáveis. Julgo ser minimamente consensual quando afirmo que a cena da morte da amante do senador pelo fogo está um regalo de se ver. As cenas violentas marcam bastante a sua presença, envolvendo por vezes algum “gore”.

Tony Leung Ka Fai e David Morse, dois actores de eleição, oferecem-nos duas interpretações medianas. Este último desiludiu-me de sobremaneira, pois tenho-o como um actor de referência. Vou culpar o malfadado argumento e dar o benefício a um homem com provas mais do que dadas. Rene Liu, uma actriz que confesso não conhecer bastante bem, acaba por deter a melhor actuação, o que deve ter justificado o prémio que recebeu para melhor actriz secundária na 22ª edição dos “Hong Kong Film Awards”.

Nada de especial!

"Na iminência do confronto entre a polícia e os elementos da seita taoísta "O Verdadeiro Sábio"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia, Cine-Ásia, Boca do Inferno

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 5

Banda-sonora - 6

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 6,50





domingo, janeiro 21, 2007

A Dinastia da Espada/The Huadu Chronicles: Blade of the Rose Aka The Twins Effect II/Fa dou daai jin (2004)

Origem: Hong Kong

Duração: 103 minutos

Realizadores: Patrick Leung e Corey Yuen

Com: Charlene Choi, Gillian Chung, Jaycee Chan, Donnie Yen, Wilson Chen, Qu Ying, Fan Bing Bing, Tony Leung Ka Fai, Daniel Wu, Edison Chen, Jim Chin, Jackie Chan

"O grupo dos heróis"

Estória

Numa China mítica e que nunca existiu, pelo menos no nosso universo, existe uma sociedade tipicamente matriarcal, onde as mulheres dominam e os homens são escravos. O conceito de escravidão é levado literalmente, pois os homens são conhecidos por "Idiotas", usados unicamente para trabalhos forçados e procriação, pelas mulheres intituladas por "Amazonas".

Neste mundo vive a afoita "13ª Mestre" (Charlene Choi), uma traficante de escravos, e "Pássaro Azul" (Gillian Chung), uma agente governamental ao serviço da maléfica imperatriz ( Qu Ying). Ambas as raparigas um certo dia envolvem-se num combate, devido ao negócio dos escravos pertencente a "13ª Mestre".

"A imperatriz maléfica"

Quando as coisas acalmam entre as contendentes, as mesmas veêm-se envolvidas numa épica aventura que decidirá o futuro do reino. Tudo se deve a um rebelde, sugestivamente chamado de "Tigre Agachado, Dragão Escondido" (Donnie Yen - repare-se que em inglês a personagem sugestivamente chama-se "Crouching Tiger Hidden Dragon"), que luta contra a imperatriz maligna, tendo por objectivo restaurar a igualdade entre os sexos.

Devido a uma profecia que afirma que um jovem guerreiro, empunhando a fabulosa espada "Excalibur", irá derrotar a rainha, as duas mulheres fazem-se à estrada com propósitos bem distintos. Acompanham-nas "Cabeça de Carvão" (Jaycee Chan) e "Cabeça de Ferro" (Wilson Chen), dois jovens escravos que estão intimamente ligados à profecia.

A aventura pelo destino do reino inicia-se!

"Duelo de titãs: Donnie Yen Vs. Jackie Chan"

"Review"

As "Twins" (Charlene Choi e Gillian Chung) são uma banda musical que transformou-se num verdadeiro fenómeno de popularidade juvenil em Hong Kong, e um pouco por todo o extremo oriente (quem quiser saber mais clique aqui). Como muitas vezes as estrelas musicais acabam por entrar no mundo do cinema, por vezes com bons resultados (pense-se em Leslie Cheung), era inevitável que as "Twins" acabassem por enveredar pelo mesmo caminho. "A Dinastia da Espada" constitui o segundo esforço das meninas em conjunto, nas lides da sétima arte.

Resultado: elas são a prova viva que muitas vezes nós devemo-nos ficar nas artes de origem, e fugir a sete pés das coisas para as quais não possuímos jeito absolutamente nenhum! E a crítica não se resume apenas às miúdas!

Comecemos pelo início.

Desde logo quem olha para o elenco de "A Dinastia da Espada" chega facilmente à conclusão que o mesmo é uma mescla de actores verdadeiramente consagrados, com talentos em vias de consolidação, ídolos "pop" e "um menino do papá"! Tradução: Tony Leung Ka Fai, Jackie Chan e Donnie Yen fazem parte da fina-flor do cinema asiático; Daniel Wu e Edison Chen são actores que começam a marcar verdadeiramente o seu espaço, valendo esta asserção mais para Wu; as "Twins" já se sabe; Jaycee Chan é "apenas" o filho de Jackie Chan!

Com tanta "misturada", ou obteriamos um filme que poderia primar pela novidade e quem sabe, eventualmente, obter um bom resultado, ou pelo contrário, estariamos perante um "flop" dos maiores! A segunda opção foi claramente o que viria a suceder...

Tudo começa com a "Emperor Entertainment Group" a querer fazer um grande "blockbuster", tentando potenciar ao máximo o "efeito das Twins". Já agora, e como se trata de um grande "looby" artístico de Hong Kong, presume-se com uma panóplia de recursos financeiros, nada melhor do que recrutar alguns grandes nomes de cinema para dar um ar mais de seriedade ao filme. E porque não aproveitar para lançar um rebento de um desses grandes nomes, chegando-se ao verdadeiro escândalo de uma nomeação para "Melhor Revelação" nos "Hong Kong Film Awards"?

"Twins Wire Fu"

O filme não tem muito que se lhe diga, pois nem vale a pena fazer um esforço para compreender algo que mais parece um "videoclip" a rebentar de "clichés" por todo o lado. A atmosfera é um misto de "Dungeons and Dragons" (o filme que constitui a mancha negra da carreira cinematográfica do grande Jeremy Irons), mas sem os dragões, e "Xena, The Warrior Princess". Junte-se umas pitadas de elementos orientais, especialmente dos Wuxia Pian, e obtemos "A Dinastia da Espada"!

Essencialmente, a película vale pela beleza das principais intervenientes femininas, pois de facto não me lembro de visionar um filme oriental com tanta rapariga bonita. Será agraciada igualmente pela luta entre as lendas Donnie Yen (quanto é que terá sido o "cachet", para permitir esta loucura!) e Jackie Chan (limita-se a aparecer durante uns cinco minutos, possivelmente para dar uma "forçazinha" ao filhote!), e um ou outro efeito especial que escape à mediocridade!

As interpretações são básicas, especialmente a de Jaycee Chan que não tem simplesmente futuro no ramo...Embora não morra de amores pelo pai, ao menos admito que ele é possuidor de um carisma fora do comum, que o elevou ao mais alto patamar!

Já agora, Tony Leung Ka Fai, o que é que se passa??? O Sr. já não se dá ao respeito?

Película verdadeiramente sofrível, com uma vertente cómica disparatada e irritante. Mais valia ter gasto o imenso dinheiro em causas humanitárias!

"A Imperatriz produz um dos feitiços que fazem parte do seu extenso leque de recursos"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 5

Banda-Sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 6

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do M.A.M. - 6

Classificação final: 6,50





domingo, dezembro 31, 2006

O Mito/The Myth/San wa (2005)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 117 minutos

Realizador: Stanley Tong

Com: Jackie Chan, Kim Hee-sun, Tony Leung Ka Fai, Mallika Sherawat, Yu Rong-guang, Choi Min-su, Patrick Tam, Ken Wong, Sun Zhou, Shao Bing, Jin Song, Ken Lo, Hayama Hiro

"O intrépido arqueólogo Jack"

Estória

O general "Meng Yi" (Jackie Chan) é incumbido pelo imperador Qin de receber nas fronteiras do reino a princesa coreana "Ok-soo" (Kim Hee-sun), futura concubina do monarca. O casamento não é bem visto por certas facções dos coreanos, e em virtude deste facto, o general "Choi", antigo noivo de "Ok-soo", ataca a caravana da princesa e o exército comandado pelo general "Meng Yi".

No meio da refrega, o general "Meng Yi" e "Ok-soo" são separados do exército de Qin e encetam uma viagem sozinhos até à cidade imperial. Um sentimento bastante grande começa a desenvolver-se entre os dois o que leva à inevitável paixão.

"A bela princesa Ok-soo"

Nisto somos levados ao presente, onde conhecemos "Jack Lee" (interpretado igualmente por Jackie Chan), um corajoso e bondoso arqueólogo que vive atormentado com uns estranhos sonhos, onde é um general do reino de Qin que se encontra apaixonado por uma das princesas do reino, estando constantemente dividido entre os seus sentimentos e a lealdade para com o imperador.

"Jack", a pedido de "William" (Toni Leung Ka Fai) parte com este para Dasar na Índia, tendo em vista investigar certas partículas de meteorito que desafiam as leis da gravidade, fazendo levitar tanto objectos, como pessoas. O arqueólogo acidentalmente desemboca no início de uma jornada fantástica, que explicará a razão de ser dos seus estranhos sonhos e levará à maior descoberta da história da China!

"O valente e honrado general Meng Yi"

"Review"

Foi com extrema desconfiança que parti para o desafio em visionar "O Mito", atendendo a que não sou nada fã de Jackie Chan, desgostando inevitavelmente de todos os trabalhos do actor. Esclareço desde já que esta asserção não se trata de nenhum ataque pessoal a Chan, nem ao seu trabalho, que é manifestamente incontornável no panorama do cinema asiático. Simplesmente parte do meu próprio gosto cinematográfico, normalmente avesso a comédias, ou a cenas de luta que redondam em extremas palhaçadas, embora com aspectos imaginativos. No entanto, o "trailer" despontou-me a atenção, e o facto de o filme ter Tony Leung Ka Fai e Kim Hee-sun (actores por quem nutro simpatia) como os protagonistas remanescentes, fizeram-me correr o risco de eventualmente dar a nota mais baixa de sempre e fazer a crítica mais malévola do "My Asian Movies".

A verdade é que apanhei uma desilusão pela positiva, se é que tal é possível, e já não pude destronar "Dragon Chronicles..." como a película menos cotada do "blog". "O Mito" é uma agradável surpresa, e constitui ao mesmo tempo o melhor filme que tive a oportunidade de ver com Jackie Chan, superando inclusive a "mítica" saga de "The Legend of the Drunken Master" (fãs dos filmes de "Kung-fu" não me enforquem na praça pública!!!).

Comecemos pelo início.

"O mito" são duas estórias que correm em paralelo. Uma no tempo da dinastia "Qin", que era a parte que eu tinha quase a certeza ser do meu agrado; outra em 2005, aquela que em princípio iria irritar-me e começar a revelar o mau feitio e a intolerância na escrita. Os "flashbacks" são inevitáveis, como é óbvio, mas bem enquadrados, fazendo com que o espectador mantenha-se sempre a par do enredo e não degenere em confusões medíocres. O resultado é uma película que resulta num misto de épico de índole oriental e uma espécie de "Indiana Jones".

"Os apaixonados Meng Yi e Ok-soo"

Uma das coisas que agradou-me de sobremaneira em "O Mito" foi a faceta aventureira que o mesmo comporta, e que nos leva a conhecer diferentes culturas asiáticas, redundando num saudável ecletismo. O desenrolar da acção beneficia imenso com este aspecto, e saúda-se a visão de Jackie Chan e Stanley Tong em dar vida a uma película que nos possibilita apreciar uma falange de actores chineses a trabalhar com os seus pares coreanos e indianos. E o que torna este aspecto ainda mais interessante é o facto de a ciência histórica de cada um dos países de onde proveêm os actores, estar lá, e não serem meros adereços secundários.

Jackie Chan tem uma actuação mais séria do que o normal, e que embora não seja nada digna de prémios e aclamações, fez-me pensar que o actor deveria por vezes apostar em papéis mais sérios, de modo a que possamos apanhar de vez em quando uma "lufada de ar fresco". É claro que as cenas de luta com alguma "palhaçada" à mistura acabam por aparecer, mas são ténues e não desfilam tanta comicidade como o habitual em outros filmes de Chan. As lutas passadas no segmento épico do filme são de boa qualidade, destacando-se o papel e o treino dos cavalos como verdadeiras armas e amigos de batalha.

Kim Hee-sun não aparece assim tanto como eu gostaria, mas sempre que o faz irradia um brilho próprio das grandes estrelas, em que muito ajuda a sua ternura e quase inultrapassável beleza, que nem mesmo a igualmente linda Mallika Sherawat consegue ofuscar. O papel de Tony Leung Ka Fai fez-me ficar algo confuso, atendendo a que estou mais habituado a vê-lo no desempenho de personagens mais sérias e trágicas. Passado o choque, e tentando ser o mais objectivo possível, acaba por ser aceitável.

Os efeitos especiais estão verdadeiramente bons, embora com uma ou outra falha mais evidente. No entanto, o belíssimo trabalho que se faz aquando da aproximação do epílogo, faz com que as prévias imperfeições desapareçam da nossa mente. Caramba, aquele túmulo do imperador Qin e o ambiente em redor estão mesmo bons!!!

Não entendo sinceramente muitas das más críticas feitas a "O Mito". A mim afigura-se que se trata de um filme bastante razoável e agradável de se ver, o que ainda terá mais pertinência quando não é um fã de Jackie Chan que está a proferir esta afirmação.

Aconselho vivamente!

"Jack reencontra a princesa Ok-soo no fabuloso túmulo do imperador Qin"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cineasia, Rascunhos, Cinema ao Sol Nascente

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8