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quarta-feira, junho 24, 2009

Ashes of Time Redux (2008)

Origem: Hong Kong

Duração: 93 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Jacky Cheung, Tony Leung Ka Fai, Li Bai, Carina Lau, Charlie Yeung

"Ouyang Feng e Hung Chi"

Introdução

Como deve ser do conhecimento de muitos que visitam este espaço, “Ashes of Time Redux” não difere muito do original “Ashes of Time”, tratando-se de uma versão melhorada em termos de imagem e outros aspectos relacionados com a produção. É certo que existem alguma subtracções e adições feitas por “Redux”, que darei conta abaixo. Mesmo assim, embora algumas sejam importantes, decidi não elaborar um texto feito à imagem do normal no “My Asian Movies”. Sendo assim, a sinopse infra é a mesma que consta no artigo que elaborei acerca de “Ashes of Time” há três anos atrás. Na “review”, abordarei sobretudo e de uma forma sumária, as diferenças entre ambas as versões, tentando emitir a minha opinião pessoal. Optei igualmente desta vez, por não atribuir a costumeira pontuação, pois entendo que, também neste particular, não deveria fazer uma autonomização das duas obras, sob pena de desvirtuar o pensamento de Wong Kar Wai. A crítica original encontra-se AQUI.

"Huang Yaoshi Aka Evil East"

Sinopse

"Ouyang Feng" (Leslie Cheung), também conhecido sob a alcunha de "Malicious West", é um proprietário de uma taberna situada no meio do deserto. Trata-se de um homem morto emocionalmente, devido ao casamento do seu irmão mais velho com a mulher que ama (Maggie Cheung). Vive do seu negócio e da contratação de espadachins necessitados de dinheiro, tendo em vista a perpetração de assassinatos por encomenda. Estranhas pessoas chegam à taberna, cada qual com a sua história que normalmente converge para a tragédia pessoal. Podemos acompanhar "Huang Yaoshi" (Tony Leung Ka Fai), cujo nome de batalha é "Evil East", um dotado homem da espada, cuja atitude cavalheiresca perante o mundo, a vida e o amor, deixaram-lhe um rasto de remorso e recriminação.

“Murong Yang” (Brigitte Lin), por seu lado, é um jovem em busca de vingança sobre “Evil East”, por este ter abandonado a sua irmã “Murong Yin”. Esta, por sua vez, deseja a morte do irmão, por este andar a tentar matar a sua paixão “Evil East”. “Yin” e “Yang” acabam por revelar serem a mesma pessoa, completamente destroçada pela rejeição de “Evil East” e incapaz de encontrar um caminho para a paz interior. Problemas trágicos são demonstrados por outros elementos da história, desde o espadachim cego (Tony Leung Chiu Wai) que é contratado para liquidar um bando de salteadores e cujo último desejo antes de falecer e ver o desabrochar das flores de cerejeira (em sentido figurado, pois tal serve para designar a esposa) na sua terra-natal, passando pelo assassino de bom coração “Hung Chi” (Jacky Cheung) que não gosta de usar sandálias, acabando na jovem e pobre rapariga camponesa (Charlie Yeung) que tenta comprar vingança com um cesto de ovos e uma mula.


"O espadachim cego"

"Review"

Precisamente 14 anos depois, o mestre Wong Kar Wai decidia dar um novo corpo ao seu único registo do “Wuxia”, e pessoalmente o meu filme predilecto do valioso espólio cinematográfico do realizador. Desde já se aplaude esta revisita, pelo restauro com a qualidade que esta magnífica obra merece. Como já tinha aludido no meu texto de 2006, e passo a citar “é francamente uma enorme injustiça não existir no mercado uma edição em DVD decente à disposição do público. As existentes são de má qualidade, e tornam-se um verdadeiro crime quando estamos perante uma obra desta envergadura.” Com “Ashes of Time Redux”, o problema fica resolvido, pois com a ajuda do insuspeito Christopher Doyle temos agora à disposição uma edição em condições de ser visionada e admirada. Contudo, existem outros aspectos igualmente importantes, que julgo não terem tomado a direcção correcta.

A principal crítica dirige-se aos cortes que o filme levou, dos quais eu nunca vou perdoar a remoção do grito de sofrimento dado por Brigitte Lin na famosa cena do lago, acompanhado pela música emblemática que associávamos sempre a “Ashes of Time”. Aliás, esta melodia, tal como a conhecíamos, foi removida de vez em “Redux”, notando-se contudo alguma da sua influência nos novos arranjos musicais. Existem outras retiradas e adições, tais como as duas primeiras cenas de luta, pelo que a primeira vez que nos deparamos com os salteadores é o único combate em que está envolvido “Ouyang Feng”, a personagem interpretada por Leslie Cheung. Aproveitando para me referir às cenas mais movimentadas, em “Redux” as lutas são mais perceptíveis, embora neste particular continue a imperar alguma confusão desenfreada. É definitivamente o grande calcanhar de aquiles desta película, como também já tinha aludido no meu anterior texto.


"Ouyang Feng e Murong Yang"

Uma adição que se saúda é o “flashback” relativo à noite do casamento da apaixonada de “Feng”, corporizada em Maggie Cheung, que é mais completa e envolvente do que na versão original. Outra inovação de assinalar, passa pelo derradeiro combate do espadachim cego, interpretado por Tony Leung Chiu Wai, em que Kar Wai opta ora por cortar o som, ou distorcê-lo, assim como tornar a cena mais escura de forma a simbolizar a perda de visão do protagonista. O efeito, sem margem para qualquer dúvida, embrenha mais o espectador na tragédia pessoal da personagem. O sangue carmim, bastante vívido, a jorrar da garganta do espadachim faz o resto. A propositada saturação de cores que predomina em “Redux”, faz com que o filme seja mais estilizado e bonito à vista, aspecto que era extremamente prejudicado pela pobreza de tratamento da versão original. Outro aspecto que é de relevar, passa pelo facto de a grande senhora do cinema asiático, Brigitte Lin, poder debitar agora o seu próprio diálogo em mandarim. Na primeira versão, as falas da actriz eram dobradas para cantonês, havendo alguma detestável dessincronização entre os movimentos da boca e o som. Aqui, felizmente, isto já não se passa.

Sem desprezar os bons predicados que o novo tratamento a “Ashes of Time” mereceu, julgo que o melhor teria sido fazer uma simples, mas efectiva recuperação a esta pérola da sétima arte. “Redux” parece ter sido uma película feita mais para os fãs de Kar Wai, pós - “In The Mood for Love/2046”, desligando-se por vezes do espírito original da obra. Por mim, tudo se mantinha, apenas a imagem e o registo do som eram melhorados. As adições seriam bem-vindas, mas apenas para complementar o que já de bom existia. Quanto à banda-sonora, deixava-a precisamente como estava na versão original, principalmente devido à “tal” música inesquecível, e se possível tentava introduzir de uma forma lógica, o fabuloso violoncelo de Yo Yo Ma que perdura maravilhosamente em “Redux”. Façam pois o favor de confrontar as duas versões, e depois cada um diga de sua justiça! Acima de tudo o que interessa, é que o cerne da questão continua presente: o efeito das tristes memórias passadas na nossa vida presente, e a agonia que as alimenta e as cicatriza no íntimo do nosso ser...

Confiram, nem que seja para observarem o grande e malogrado Leslie Cheung, num dos papéis mais brilhantes da sua carreira!



"Luta no rio"

The Internet Movie Database (IMDb) link - Refere-se à versão originária de "Ashes of Time"

Trailer

Outras críticas em português:

quinta-feira, outubro 16, 2008

A Better Tomorrow/Ying hung boon sik - 英雄本色 (1986)

Origem: Hong Kong

Duração: 90 minutos

Realizador: John Woo

Com: Ti Lung, Chow Yun Fat, Leslie Cheung, Waise Lee, Shing Fui On, Kenneth Tsang, Emily Chu, John Woo, Tsui Hark, Shi Yangzi, Tien Feng

"Mark"

Sinopse

“Ho” (Ti Lung) e “Mark” (Chow Yun Fat) são dois conhecidos membros de uma tríade, que encontram-se envolvidos numa vasta operação ilegal de falsificação de dólares americanos. “Ho” tem um irmão que adora e protege imenso, chamado “Kit” (Leslie Cheung). Apesar de o sentimento ser mútuo, “Kit” não desconfia da vida criminosa do irmão mais velho e sonha prosseguir uma carreira completamente antagónica, ou seja, ser um inspector da polícia de Hong Kong.

"Os irmãos Ho e Kit"

A tragédia abate-se sobre os dois irmãos, quando devido a um trabalho falhado de “Ho” em Taiwan, uma tríade rival assassina o pai de ambos. “Ho” é preso, “Kit” descobre a vivência ilícita do irmão e vota-lhe ódio e desprezo, enquanto “Mark” na sua sede de vingança fica inválido e leva a partir daí uma vida miserável. Após cumprir uma pena de prisão, “Ho” está decidido a recuperar a confiança e amor do irmão, e decide abandonar o crime, arranjando um emprego honesto como motorista de táxi. No entanto, as coisas não correm pelo melhor e o antagonismo de “Kit” aumenta ainda mais quando negam-lhe uma promoção, pelo motivo de ser o irmão de “Ho”.

As coisas pioram quando “Shing” (Waise Lee), actualmente o chefe mais poderoso das tríades, começa a infernizar a vida de “Ho” por este se ter recusado a juntar novamente à organização. Pressionados pelas actuações de “Shing”, os irmãos esquecem as suas querelas e com a ajuda de “Mark”, enfrentam sozinhos e de frente a tríade que não os deixa em paz na busca de um amanhã melhor.

"Shing rodeado dos seus capangas"

"Review"

Quando nos referimos aos filmes de tríades de Hong Kong, na vertente “heroic bloodshed”, é meu costume e de tantos outros afirmar que existe um período antes de “A Better Tomorrow”, e outro posterior que nos viria a dar obras brilhantes, quase todas da autoria de John Woo, tais como “The Killer”, “Bullet in the Head” e “Hard Boiled”. O cinema de Hong Kong viria a diversificar finalmente a sua internacionalização, não vivendo quase exclusivamente dos filmes de artes marciais ou do wuxia. E por aqui desde logo se afere da incontornável importância desta película, pois foi praticamente aqui que tudo começou no que toca a destilar qualidade e um estilo incomparável relativamente ao conceito da vingança servida num avassalador prato de balas por um anti-herói! Numa lista revelada nos “Hong Kong Film Awards” de 2005, onde foi consultado um painel composto por 101 pessoas, desde realizadores de cinema, críticos e estudiosos do fenómeno da sétima arte, “A Better Tomorrow” foi eleito o segundo melhor filme de sempre do triângulo China/Hong Kong/Taiwan (consultar o resto da lista AQUI). Convenhamos que qualquer escolha tem sempre muito de discutível, e o que é bom para um muitas vezes não vale nada para outro, mas é forçosamente necessário reconhecer que “A Better Tomorrow”, pela sua importância histórica e imponência cinematográfica, é um claro candidato a figurar em qualquer “top” da sétima arte que se preze. Praticamente sem publicidade de relevo antes da sua estreia, esta longa-metragem viria a bater recordes de bilheteira em toda a Ásia, e poder-se-á afirmar que não constituiu quase nenhum risco financeiro a feitura de duas sequelas e uma prequela.

Alertando desde já que sou um admirador do actor em questão, um dos aspectos que importa antecipadamente esclarecer é a real importância de Chow Yun Fat no filme, e que imperativamente terá de ser desmistificada. Com certeza que todos os que estão familiarizados com o filme, já se aperceberam que é a sempre a figura do mencionado intérprete que aparece por todo o lado em jeito de destaque, seja nos “trailers”, nas capas das inúmeras edições de dvd ou nas fotos mais emblemáticas. Com todo o respeito, e que é imenso, a verdadeira estrela da película é o actor Ti Lung, do qual Leslie Cheung e Chow Yun Fat constituem uns espectaculares adjuvantes. O verdadeiro coração desta longa-metragem assenta na relação dos dois irmãos “Ho” e “Kit”, suportadas por duas boas interpretações do já mencionado Ti Lung e do saudoso Leslie Cheung. A Chow Yun Fat está reservado um importante papel de rebeldia, determinação e fúria, residindo neste actor a força da longa-metragem, reconheço. Mas meus amigos, a alma e o espírito ficarão a cargo de Ti Lung e um pouco de Leslie Cheung. Se não vos confessasse isto, não estaria a ser sincero e a pactuar com o politicamente correcto. Cumpre ainda referir uma curiosidade e que passa por tanto John Woo, o realizador, como Tsui Hark (produtor) terem participações no filme, e não apenas como meros figurantes!

"Mark sofre um brutal espancamento"

A fórmula de sucesso é a mesma a que estamos habituados no que toca a John Woo, embora exista um certo refinamento em “A Better Tomorrow”, em detrimento de uma aposta mais premente nos espectaculares momentos de acção. Com uma trama forte, é-nos dado a interiorizar a actuação das tríades, e a amizade de “Ho” e “Mark”, evidenciando honra no mundo do crime. Paralelamente, observamos a grande ternura que une os irmãos “Ho” e “Kit”, com o irmão mais velho a assumir uma postura protectora e de admiração que muito colhe a nossa simpatia. O negócio ilícito corre bem, a amizade dos intervenientes parece impossível de ser abalada, e o futuro de “Kit” parece ser o mais auspicioso possível. O terreno está preparado para que possamos gozar à vontade as sensações posteriores de pena, revolta e vingança quando tudo descamba e o paraíso acabou.

Outro aspecto bastante propalado acerca de “A Better Tomorrow” é o facto de a película “rebentar as costuras” de estilo, possuindo cenas emblemáticas para dar e vender. Tirando a parte final, em que já se está mesmo a ver (por isso não é nenhum spoiler!) vai haver matança e balas a rodos, normalmente faz-se a apologia de uma cena que marca imenso o filme. Falamos do tiroteio com o cunho de Chow Yun Fat, aquando da vingança que leva a cabo pela prisão de “Ho”. O actor entra num restaurante, impecavelmente vestido de fato, coberto com um sobretudo. Num corredor, vai posicionando armas estrategicamente em canteiros de flores, enquanto está agarrado a uma bela rapariga. Entra na sala onde os seus inimigos estão a jantar, e cumpre o seu objectivo de assassinato. À medida que posteriormente vai recuando no corredor e as suas balas esgotam, retira as armas dos ditos canteiros e continua a disparar, cobrindo a sua retirada e espalhando o inferno na terra. Tudo alternado entre planos rápidos e “slow motion”. Esta sequência é uma candidata a lugar honroso numa rubrica do género “os dois minutos mais intensos da história do cinema”. No que toca a estilo, a personagem “Mark”, viria a marcar uma posição bastante forte perante a juventude de Hong Kong na altura. Muitos adoptaram o estilo evidenciado por Chow Yun Fat nesta longa-metragem, acorrendo às lojas para comprar sobretudos pretos (para o clima de Hong Kong isto é terrível, principalmente no Verão) e óculos “Ray-Ban”, e andando de palito na boca. As autoridades criticaram imenso este facto, acusando John Woo de propalar o estílo dos criminosos pertencentes às tríades. Poderá passar também por aqui a explicação para o facto de Chow Yun Fat ter um papel predominante no que toca a Leslie Cheung e Ti Lung, assunto que já abordei mais acima.

Quando “A Better Tomorrow” estreou em Hong Kong, foi um murro no estômago e tornou-se no filme com mais receitas de bilheteira na história da região administrativa chinesa, tendo mantido o lugar por alguns anos. Apesar de não chegar ao brilhantismo de “The Killer”, é um filme com um mérito cinematográfico extraordinário. O seu “quid” passará por iniciar a brilhante odisseia dos “heroic bloodshed” de John Woo, consubstanciando um dos períodos de ouro do cinema de Hong Kong. Mais pode se lhe assacar outra proeza de renome que foi catapultar para as luzes da ribalta um actor que até então era conhecido por só participar, salvo uma ou outra excepção, em verdadeiros fracassos de bilheteira, comédias duvidosas e dramas de calibre menor. Quem? Esse mesmo! Estou a referir-me a Chow Yun Fat.

Imperdível!

"O trio no meio do inferno final"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25






segunda-feira, março 17, 2008

Adeus Minha Concubina/Farewell My Concubine/Ba wang bie ji - 霸王别姬 (1993)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 164 minutos

Realizador: Kaige Chen

Com: Leslie Cheung, Zhang Fengyi, Gong Li, Lu Qi, Ying Da, Ge You, Li Chun, Lei Han, Tong Di, Ma Mingwei, Fei Yang, Yin Zhi, Zhao Hailong, Li Dan, Jiang Wenli

"Cheng Dieyi"

Estória

1924, ano do generalíssimo chinês. “Cheng Douzi” (Ma Mingwei) é abandonado pela mãe que é uma prostituta, e fica aos cuidados de uma trupe de ópera chinesa. “Douzi” é uma criança diferente, enfrentando por este facto a discriminação dos colegas. No entanto, é amparado por “Shitou” (Fei Yang), um dos jovens que exerce o seu mister na companhia, e ambos tornam-se grandes amigos.

A disciplina na escola é bastante diferente do mundo de sonho que é apresentado ao público na representação das peças. A brutalidade impera, o regime do professor é atroz e deveras marcial. As crianças e adolescentes são brutalmente espancados, à mínima falha que cometam. No meio deste mundo cruel, “Douzi” acaba por aprender a tornar-se num Dan, ou seja, o actor que representa papéis femininos na ópera chinesa.

"Juxian"

1937, véspera da guerra com o Japão. “Douzi” e “Shitou” são estrelas famosas da ópera de Pequim, e mudaram os seus nomes para “Cheng Dieyi” (Leslie Cheung) e “Duan Xiaolou” (Zhang Fengyi). A ópera mais badalada que representam, e que os tornam amados pelo público é “Adeus Minha Concubina”. “Dieyi” começa a expressar mais acentuadamente a sua homossexualidade e está apaixonado pelo amigo “Xiaolou”. No entanto, este enamora-se por uma prostituta chamada “Juxian” (Gong Li), e casa com ela. Esta situação afasta os dois amigos, e “Dieyi” recusa actuar com “Xiaolou”.

Posteriormente, os companheiros sanam as suas diferenças e voltam à representação. No entanto, em 1966, a revolução cultural de Mao Tse Tung iria deixar marcas indeléveis no percurso dos amigos em particular e da ópera de Pequim em geral.

"Xiaolou e Dieyi"

"Review"

Falar ou escrever acerca de “Adeus Minha Concubina”, é uma honra para quem possui a temeridade de expressar algo acerca de um dos maiores expoentes de sempre do cinema asiático. Torna-se igualmente uma empresa extremamente complicada, porquanto estamos perante uma película impregnada de um sem número de aspectos sentimentais, sociológicos e históricos de relevo incontornável. Isto faz com que seja praticamente impossível abarcar todo o esplendor daquele que para muitos é considerada a mais bela obra de cinema oriental jamais feita. Eu não partilho desta opinião, no que concerne à eleição propriamente dita, mas há que profusamente reconhecer que estamos perante uma longa-metragem verdadeiramente essencial para aqueles que amam o cinema em todas as suas vertentes.

Baseado num romance da escritora chinesa Lilian Lee, podemos afirmar que, ao contrário de outras obras magníficas de cinema asiático, “Adeus Minha Concubina” teve um merecido reconhecimento mundial, o que em muito contribuiu para um olhar de respeito do ocidente para o que de melhor se fazia na sétima arte oriental. Atestam esta afirmação os inúmeros prémios que venceu em certames internacionais. Do seu “currículo” destacam-se pela proeminência, a nomeação para dois óscares (Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia), os prémios BAFTA (Reino Unido) e Globo de Ouro (E.U.A.) para o melhor filme estrangeiro, e a Palma de Ouro de Cannes, distinção partilhada com “O Piano” de Jane Campion.

São 53 anos de retrospectiva que passam pelos nossos olhos aquando do visionamento desta película, e que abordam aspectos nucleares da história chinesa do século XX, e que o filme faz questão de os distinguir e titular muito bem, de forma a que não percamos o “fio à meada”. O enredo arranca em 1924 (“Era do generalíssimo chinês”), e passa por 1937 (“Véspera da guerra com o Japão”), 1945 (“Derrota japonesa”), 1948 (“Evacuação dos nacionalistas de Chiang Kai Chek para Taiwan), 1966 (“Revolução cultural”), terminando em 1977 (“O ano em que nasceu Jorge Soares Aka Shinobi” - eh, eh, eh, isto não consta do filme como é óbvio!!!). Relacionado intimamente com os aspectos históricos, algumas críticas têm sido aventadas no sentido de os mesmos carecerem de algum desenvolvimento argumentativo. Ora, quanto a este particular, julgo pontificarem duas razões de extrema relevância, uma directamente relacionada com a trama, outra de ordem mais prática. Quanto à primeira, sempre se dirá que a história serve apenas de pano de fundo para uma narrativa que assenta em dois aspectos fulcrais, a saber, a relação entre dois amigos e a sua ligação à ópera de Pequim. Trata-se, portanto de um aspecto secundário importante, mas que não pode deixar de ser encarado como um “sidekick” para algo mais central. Relativamente à segunda, é importante referir que “Adeus Minha Concubina”, à semelhança de outras obras chinesas (embora esta tenha tido também influência da região administrativa de Hong Kong), passou pelo crivo da censura duas vezes. E como é óbvio, o resultado foram alguns cortes de cenas consideradas “agitadoras” do espectro comunista chinês. Mesmo assim, até considerei neste caso em concreto que o “Index” lá do sítio foi benevolente e algo democrático, pois podemos nos aperceber perfeitamente da brutalidade primária da denominada “Revolução Cultural”, e dos efeitos perniciosos que a mesma teve em aspectos nucleares do modo vivencial e tradição do povo chinês.

"Dieyi preparado para a representação de Adeus Minha Concubina"

O trio fantástico de actores dá vida a uma performance memorável e que tão cedo não é esquecida. Que me perdoem Zhang Fengyi e Gong Li, mas é o malogrado Leslie Cheung que faz uma actuação de vida, que não apenas roça, mas atinge verdadeiramente o brilhantismo. E que ainda assume mais relevância, quando conhecemos um pouco da carreira desta figura incontornável. Cheung não era propriamente um actor virado para os dramas ditos mais intelectuais, apesar da sua carreira ser bastante ecléctica, com incursões por vários géneros desde o “wuxia”, o romance, a acção muito relacionada com tríades, etc. Aqui temos a oportunidade de ver um Cheung, mais maduro, seguro de si e demonstrando a todos aqueles que ainda teriam algumas dúvidas, que de facto estamos (infelizmente “estávamos”) perante um actor de dimensão superior. O papel de “Dieyi” assenta-lhe que nem uma luva, não pelas razões que algumas línguas viperinas declaram à altura, em alusões quase frontais à homossexualidade do actor, mas sim porque Cheung foi dos melhores intérpretes asiáticos de todos os tempos. Tão simples como isso. Não deve ser nada fácil representar um “dan” da ópera de Pequim, e Cheung falo com a maior sensibilidade do mundo e arredores, ilustrada pela seguinte frase proferida no filme pelo mestre de “Dieyi”: “Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?!”.

“Adeus Minha Concubina” respira estética por todos os poros, sustentado por um guarda-roupa lindíssimo e uma fotografia verdadeiramente de sonho, com pormenores ao alcance de poucos. O esplendor visual é de cortar simplesmente a respiração! Num manancial de cores, é-nos apresentado vários momentos da famosa Ópera de Pequim, que confesso, é necessário aprender a apreciar. Contudo, a actuação muito própria deste género de representação, é extremamente envolvente e leva-nos, nem que seja pela curiosidade, a tentar entender o que os actores pretendem transmitir.

Kaige Chen foi um filho da revolução, dita cultural, chinesa. Em 1969, foi enviado para o meio rural, onde foi sujeito a trabalhos bastante árduos. Posteriormente viria a ser um guarda vermelho, e aquando da sua entrada para a escola de cinema, denunciou algumas actividades do seu próprio pai, susceptíveis de serem qualificadas como subversivas. O pai de Chen viria a ser detido e sentenciado a trabalhos forçados por alguns anos. Apesar do seu progenitor o ter perdoado, Chen confessaria a sua vergonha por tal facto, mais do que uma vez. Quem conhece esta história pessoal do realizador, e tendo o pai deste trabalhado igualmente neste filme, poderá sentir a comoção que não deverá ter sido as filmagens que abordaram este período, onde se vislumbraram tantas traições familiares.

Em “Adeus Minha Concubina” somos transportados para outra terra e tempo distintos do nosso, em que não somos apenas meros figurantes, mas conseguimos verdadeiramente sentir o pulsar das emoções transmitidas. E é deste Kaige Chen que todos nós precisamos! O revelar de uma das mentes mais esclarecidas e brilhantes da denominada quinta geração dos realizadores chineses, a quem é exigível a realização de mais obras de dimensão superior! “Flops” com intuitos comerciais como “The Promise” é que dispensamos e nada acrescenta às nossas vidas!

Um momento verdadeiramente magnífico e imperdível, que está para os amantes de cinema, como uma ida a Meca para os muçulmanos. Temos que lá estar, nem que seja uma única vez!

"Dieyi aprisionado pelos guardas vermelhos de Mao Tse Tung"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,88





quarta-feira, dezembro 26, 2007

A Chinese Ghost Story II/Sien nui yau wan II yan gaan do - 倩女幽魂 II:人間道 (1990)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Tony Ching Siu Tung

Com: Leslie Cheung, Joey Wong, Michelle Reis, Jacky Cheung, Wu Ma, Waise Lee, Lau Shun, Lau Siu Ming, Tin Kai Man, Ku Feng, To Siu Chun

"Ning outra vez em apuros com demónios"

Atenção!!!

Parte do enredo de “A Chinese Ghost Story” poderá ser revelado mais abaixo, pelo que só deverão prosseguir na leitura do presente texto, caso tenham visionado aquele filme.

"Ning entre as duas irmãs, Ching Fung (com o punhal) e Yut Chi"

Estória

Em “A Chinese Ghost Story”, “Ning Tsai Chen” (Leslie Cheung), ajudado pelo estranho monge taoista “Yen” (Wu Ma), salvou o seu amor “Nieh Hsiao Tsing” (Joey Wong), do espírito aterrador chamado “Old Dame”. Desta forma foram criadas as condições para que “Nieh” pudesse reencarnar, tendo em vista reunir-se a “Ning”, bastantes anos mais tarde.

Após estes eventos, “Ning” e o seu amigo “Yen” seguem por caminhos separados, prosseguindo “Ning” no seu ofício de cobrador de impostos, enquanto que o monge volta para o templo de “Lan Yeuk”. Devido a um infeliz caso de identidades trocadas, “Ning” é preso e passa meses numa cela com um ancião chamado “Chu” (Ku Feng). O velho apercebe-se que “Ning”, embora ingénuo, é uma boa pessoa com um coração e uma ética acima de qualquer reparo. Por esse motivo, resolve ajudá-lo a fugir na véspera da sua execução.

Foragido, “Ning” conhece “Jichan” (Jacky Cheung), um espadachim taoista que igualmente possui poderes mágicos. Os companheiros são atacados por um bando de guerreiros, comandados por “Ching Fung” (Joey Wong), que possui uma semelhança notável com “Nieh”, o fantasma que é o amor de “Ning”. O nosso herói é confundido com o ancião com quem partilhou a cela, um filósofo bastante respeitado. Devido a este facto, os guerreiros solicitam a “Ning” que os comande na tentativa de resgate do pai de “Fung”. Uma aventura fabulosa inicia-se, fazendo com que “Ning” mais uma vez enfrente alguns dos piores demónios existentes neste mundo e no outro!

"Ching Fung possuída perante o olhar de Ning e do guerreiro taoísta Jichan"

"Review"

A saga “A Chinese Ghost Story” constitui um dos ícones emblemáticos da cinematografia de Hong Kong, e é encarada como um dos grandes feitos de Tsui Hark, aqui envergando as vestes de produtor. Mas como quase sempre acontece aquando do surgimento de uma boa ideia, o seu uso excessivo sem grandes inovações, eventualmente faz com que a fórmula acabe por se gastar. Existem 3 filmes, todos com a realização de Tony Ching Siu Tung e produção de Tsui Hark, e o que desde logo se deve ter em conta é que a qualidade vai decrescendo de película para película. Em 1997, ainda viria a ser feito um filme de animação.

Partindo da ideia acima veiculada, a segunda longa-metragem que ora se analisa constitui uma obra inferior à sua predecessora, mas melhor do que aquela que viria a seguir. A razão para tal? Essencialmente duas. A primeira deve-se ao facto do impacto já não ser o mesmo do primeiro filme. A segunda reconduzir-se-á ao pouco uso do “comic relief” “Yen”, que só aparece basicamente na última meia-hora de filme.

"O oficial Tso em combate"

Os efeitos especiais são, à semelhança do que já acontecia na primeira película, um pouco atabalhoados. Mas também no texto referente àquela obra, já tinha sido explicado que estamos perante filmes que já foram feitos há cerca de 18-20 anos, para além do facto de sermos obrigados a reconhecer que a indústria cinematográfica de Hong Kong à altura, embora profícua, estava muito longe de poder competir a nível de recursos com o que então se fazia em Hollywood. Hoje em dia, as diferenças já se encontram muito mais esbatidas. Contudo, a menor destreza dos efeitos é compensada com a aura negra e fantasmagórica que carrega toda a película aos ombros e que constitui sem dúvida uma imagem de marca desta saga, que a meu ver, só viria a ser igualada em “The Bride With White Hair”. Cumpre ainda chamar a atenção para o facto de nas lutas, por vezes, ser visível os guindastes que suportam os actores. Este aspecto é claramente perceptível na primeira vez em que “Ning” se depara com o grupo de guerreiros comandado por “Ching Fung”. Ora tal aspecto não abona nada a favor do filme, e faz cair no ridículo cenas que até têm algo de belo. Um certo cuidado é necessário, meus senhores!

Quanto ao “cast”, as grandes novidades em relação ao primeiro filme passam pelo recrutamento de Jacky Cheung como o monge “sidekick” de “Ning”, de Michelle Reis como mais uma cara bonita para deliciar os olhos do público masculino, e de Waise Lee como o valente oficial do exército. Embora o elenco tenha ficado teoricamente mais forte em relação ao primeiro filme, na prática isso não se nota. Jacky Cheung bem tenta, mas não consegue proporcionar os bons momentos que o monge interpretado por Wu Ma nos oferece na longa-metragem anterior. Aliás, como já acima foi dito, o mesmo só decide aparecer mais para o epílogo da película e, aí sim, ficamos um tanto ou quanto satisfeitos. Michelle Reis nada faz de relevo, pelo que tirando os óbvios atributos físicos, nada de marcante há a relevar. Waise Lee será porventura a excepção, porquanto o seu desempenho como o oficial “Tso”, representa uma boa adição no que toca às cenas mais movimentadas. Quanto a Leslie Cheung e a Joey Wong, as super-estrelas do filme, não brilham tanto como anteriormente, embora desempenhem os seus papéis com o nível habitual, ou seja, bom. Esta asserção mesmo assim valerá mais para Leslie Cheung.

“A Chinese Ghost Story II” viria essencialmente a manter o que de bom já tinha sido feito anteriormente, embora como já se disse, esteja uns furos abaixo da película que inaugurou a saga. Um filme razoável, que valerá mais pelo interesse histórico, do que propriamente pelos aspectos mais cinematográficos. Terá ainda o “quid”, em especial para o público português, de ter vencido o prémio para melhores efeitos especiais no Fantasporto – edição de 1992, para além de ter sido nomeado para melhor filme no mesmo certame (o vencedor foi “Totó, o Herói”, do belga Jaco Van Dormael).


"O monge Yen faz mais uma vez uso dos seus vastos poderes mágicos"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38





segunda-feira, julho 30, 2007

Votações do "My Asian Movies"

Conforme o prometido na semana passada, aqui vão mais duas actrizes e dois actores que estão a votação neste blogue. Para a semana, serão apresentados outros quatro.

Zhang Ziyi

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": O Tigre e o Dragão, Herói, O Segredo dos Punhais Voadores, Os Guerreiros da Montanha, The Banquet (Inimigos do Império), 2046, Memórias de Uma Gueixa, O Caminho Para Casa

Leslie Cheung

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": The Bride With White Hair , Ashes of Time, A Chinese Ghost Story, The Bride With White Hair II, Anna Magdalena

Joan Chen

Informação

Não participou em nenhum filme criticado no "My Asian Movies".

Ekin Cheng

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Os Guerreiros da Montanha, The Duel, A Man Called Hero , The Storm Riders



sábado, março 10, 2007

Anna Magdalena/Ngon na ma dak lin na (1998)

Origem: Hong Kong

Duração: 98 minutos

Realizador: Chung Man Yee

Com: Takeshi Kaneshiro, Aaron Kwok, Kelly Chen, Leslie Cheung, Anita Yuen, Jacky Cheung, Chun Chung, Josie Ho, Eric Tsang, Wei Wei

"Os três principais protagonistas da esquerda para a direita: Mok Man Yee (Kelly Chen), Yau Muk Yan (Aaron Kwok) e Chan Kar Fu (Takeshi Kaneshiro)"

Estória

O tímido e introspectivo afinador de pianos "Chan Kar Fu" tem uma vida calma e extremamente solitária, até ao dia em que dois eventos acontecem de forma sequencial.

O primeiro dá-se quando "Chan" vai afinar um piano a uma casa onde vive um jovem casal. Ela chora incessantemente, pois tudo indica que o namorado a vai deixar, o que inovidavelmente acaba por suceder.

O pior é que o rapaz, chamado "Yau Muk Yan", "atrela-se" a "Chan" e acaba por ir viver para o apartamento deste, provocando um choque no monótono dia-a-dia do afinador de pianos. Tudo se deve a "Yau" ser o completo oposto de "Chan", ou seja, irresponsável, um escritor desempregado que ainda não escreveu uma linha que fosse, viciado no jogo e um mulherengo de "1ª linha".

"Chan Kar Fu é um rapaz solitário e que dificilmente se apaixona"

O segundo acontecimento passa pela mudança de uma bela rapariga de seu nome "Mok Man Yee" para o andar de cima, que tem uma fixação pelo minueto de Bach "Anna Magdalena", tocando-o incessantemente no seu piano.

Os dois companheiros de apartamento, após um início atribulado com a nova vizinha devido a problemas de ruído, acabam ambos por se apaixonarem pela rapariga, sendo "Yau" o previsível vencedor, e em consequência começar a namorar com "Mok".

Entretanto "Chan" fecha-se no seu casulo, e apesar de não ser escritor, acaba por elaborar um romance pouco convencional, mas com uma mensagem muito significativa.

"A sedutora Mok Man Yee"

"Review"

Em 1998, o realizador Chung Man Yee resolveu juntar três estrelas emergentes de Hong Kong (Takeshi Kaneshiro, Aaron Kwok e a cantora Kelly Chen), com extrema popularidade junto das camadas mais imberbes da actual região administrativa chinesa e dar corpo a um drama urbano, protagonizado por jovens adultos supostamente todos na casa dos vinte e tal anos. Temperou o elenco com actores consagrados tais como o mítico e já falecido Leslie Cheung, Anita Yuen, Eric Tsang e Jacky Cheung, obtendo desta forma um "cast" extremamente forte. O resultado a nível da representação foi bastante bom, embora não extraordinário como sucedeu com outros registos relativos a cada um dos actores individualmente considerados.

O argumento é bastante atractivo para o segmento geracional dos 20-30 anos, no qual me incluo. No fundo o que aqui está em causa, são dois tipos de rapazes, completamente o oposto um do outro e que em função das suas características muito próprias, são bem sucedidos em certos aspectos da sua vida, e noutros uns completos fracassados. O amor constitui o principal aspecto abordado, embora outros sirvam de muleta para expor melhor o cerne da questão, ou seja, a vida em si.

Como já foi referido na sinopse, "Chan" é um rapaz independente, que possui o seu apartamento e um emprego estável. No entanto, a sua vida amorosa é um vazio completo, atendendo à sua grande timidez. Tentam por vezes impingir-lhe raparigas, mas ele invariavelmente despreza-as e fecha-se na sua concha. Um dia, finalmente, quando encontra uma mulher que lhe agrada de sobremaneira, vê-se novamente toldado pela sua timidez e permite ser ultrapassado pelo amigo "Yau".

Falemos agora desta personagem.

"Yau" é o típico irresponsável, "fura-vidas", oportunista e "bon vivant". Não trabalha, mas também não faz nada para mudar esta situação; tem uma fixação por apostas em corridas de cavalos; julga ser um escritor, mas nem uma linha escreveu ainda. Não tem dinheiro nem bens em seu nome, e anda constantemente a mudar de residência, tendo orgulho em carregar os seus poucos pertences numa miserável caixa de cartão.

À primeira vista, "Chan" parece ter uma vida bem melhor do que a do seu companheiro de apartamento, mas isso não é bem assim, pois "Yau" tem um charme e uma alegria de viver irresistível, fazendo com que a sua vida amorosa seja bastante preenchida, sendo irresistível para as mulheres. precisamente o grande vazio da vida de "Chan". Podemos, com alguma certeza afirmar que o que um tem, o outro não possui e vice-versa. A amizade entre ambos acaba por resultar, e cada um tenta suprir as lacunas do outro como pode e observados certos limites.

"Mok", a rapariga, acaba por ser um catalisador que desperta as latentes fragilidades de "Chan" e "Yau".

"Chan Kar Fu está constantemente a livrar Yau Muk Yan de problemas"

A maneira como a estória nos é narrada é interessante. O filme é dividido em quatro partes, que o realizador faz questão em fazer perceber ao espectador a sua concreta divisão. Os três primeiros capítulos incidem sobre o relacionamento entre os dois rapazes e entre estes e a rapariga. A quarta apanha-nos de surpresa, à semelhança de um murro bem apontado ao nariz que nos atordoa completamente. Ela refere-se ao conto surrealista escrito por "Chan", que pretende acima de tudo explanar o amor que este sente por "Mok" e que em tempo algum foi capaz de declarar. Neste segmento do filme, entramos num mundo completamente à parte. É como se estivéssemos a visionar uma película completamente diferente.

A fotografia do filme é espectacular, principalmente as partes mais rurais, que beneficiaram largamente do facto de bastantas cenas terem sido rodadas no Vietname, usufruindo das maravilhosas paisagens naturais deste país. A intervenção de Peter Pau (The Bride With White Hair, Tigre e o Dragão e The Promise) não é nada alheia a este facto em especial.

Verdadeiramente negativo é o fraco desenvolvimento do epílogo do filme, em que os aspectos marginais à estória de ficção elaborada por "Chan", são levados praticamente a "correr". Por outras palavras, entramos no tal mundo à parte da estória escrita pelo tímido personagem, e quando finalmente voltamos à realidade do enredo principal, o mesmo é despachado às "três pancadas". Tal aspecto mereccia sem dúvida um melhor tratamento.

No mínimo curiosa, mas ao mesmo tempo significativa, foi a alusão final desta longa-metragem e que se reporta directamente à mundialmente conhecida obra do escritor Charles Dickens "A Tale of Two Cities" (Um conto de duas cidades). Não parafraseando, sempre se poderá dizer que no fundo tenta-se expressar uma perspectiva realista e porventura pessimista dos relacionamentos amorosos, no sentido de uns encontrarem por sorte ou por mérito aquela pessoa amada; os restantes invariavelmente deambulam por uma estrada sem retorno.

Filme interessante, mas que não obterá consensos.

"A certa altura o surrealismo marca a sua presença"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38





sexta-feira, fevereiro 02, 2007

The Bride With White Hair 2/Bai fa mo nu zhuan II (1993)

Origem: Hong Kong

Duração: 80 minutos

Realizador: David Wu

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Christy Chung, Sunny Chan, Kwok Leung Cheung, Lily Chung, Eddy Ko, Lan Law, Heung Kam Lee, Joey Maan, Chun Fung Ng, Richard Suen, Ruth Wynona Tao, Tak Ngai Yeung

"Lian Nichang, a noiva"

Atenção - "Spoilers"!!!

O texto que se segue será revelador do enredo do primeiro filme "The Bride With White Hair" , pelo que só deverá prosseguir caso já tenha visionado esta película!

Estória

No epílogo de "The Bride With White Hair", "Cho Yi Hang" tinha-se exilado no Monte Shin Fung, desgostoso devido ao trágico caminho que o seu relacionamento com "Lian Nichang" tinha enveredado.

Entretanto, devido ao grande desgosto provocado pela traição de "Cho Yi Hang", "Lian Nichang" vê o seu cabelo negro mudar para uma fantasmagórica cor branca, e decide enveredar por uma cruzada sangrenta contra todos os homens, que tem por seres em quem não se pode confiar minimamente.

"Cho", consumido pela culpa, aguarda expectante no Monte Shin Fung, à espera que uma flor mágica desabroche e que poderá servir de cura para a maleita do seu amor.

"O jovem Fung Chun Kit ferido após uma batalha com a noiva diabólica"

À medida que o tempo passa, "Lian" toma como propósito pessoal eliminar os restantes membros masculinos dos oito grandes clãs de artes marciais. No topo da lista encontra-se o jovem "Fung Chun Kit", o sobrinho de "Cho" e último descendente da outrora poderosa sociedade de artes marciais conhecida como "Wu Tang".

"Kit" assiste ao rapto da sua esposa "Lyre", sem nada poder fazer face aos incríveis poderes de "Lian". Esta por sua vez, através de bruxaria e artes negras, converte "Lyre" para a sua causa e incute-lhe um ódio mortal por todos os homens, incluindo "Kit".

"Kit" não tem outra alternativa senão atacar o reduto de "Lian", liderando para o efeito uma força composta por membros de todos os clãs.

"A noiva num raro momento de serenidade, a ser penteada pela sua amiga (amante?)"

"Review"

Como já foi aludido na crítica efectuada ao primeiro filme , Ronny Yu pretendeu claramente rodar a saga de "Lian Nichang" em dois episódios, em vez de fazer uma única película. Também já opinei acerca deste aspecto, e acho que a estória ficou claramente a perder com esta opção, embora acredite que a nível de proveitos comerciais o mesmo não se tenha passado. Aliás, "The Bride With White Hair 2", tem pelo menos formalmente como realizador David Wu, o irmão de Ronny Yu, embora se afirme que o aclamado realizador de Hong Kong tenha metido o seu cunho pessoal na segunda parte da saga. Se meteu, pelo menos não parece...e aqui já se adivinha com uma certa antecipação que a minha opinião em relação a este filme não é muito positiva.

Esta película está claramente a milhas da sua predecessora.

O enredo, embora minimamente imaginativo (principalmente devido à exploração do desgosto de várias mulheres por terem sido maltratadas pelos seus amados), não tem a força, nem nos capta a atenção como o anterior.

Em muito contribui o facto da estória de amor entre "Kit" e "Lyre", não ter metade do interesse que a de "Lian Nichang" e "Cho Yi Hang" nos despertaram. Muito contribui o facto de o "casting" não ter sido particularmente feliz. Algum dia Sunny Chan e Joey Maan têm sequer metade do carisma e do talento que Brigitte Lin e Leslie Cheung possuem? É mais do que óbvio que a resposta terá de ser inevitavelmente negativa.

"Lian Nichang rodeada do seu séquito de mulheres revoltadas"

As próprias lutas que em muito poderiam contribuir para salvar um pouco desta longa-metragem, desiludem de sobremaneira. "Lian Nichang, a noiva" parece que não tem paciência para aplicar "uns golpes à maneira" e a sua imagem de marca que era o chicote desapareceu. Ela limita-se a olhar para os seus inimigos e projectá-los no ar devido a um qualquer poder telecinético. Ou então atira os seus longos cabelos brancos, e perfura os seus oponentes até à morte. Claro que sempre se poderá dizer que enquanto no primeiro filme, ela era uma clássica guerreira cheia de virtudes de combate, no segundo "Lian" já se afigura como uma bruxa com poderes paranormais, devido à sua transformação, ocasionada pelo desgosto de amor que sofreu. Mesmo assim, a explicação não me convence muito. O caminho que se seguiu não foi o melhor. Os restantes intervenientes não convencem nada em relação às suas capacidades de combate. Não é nada que se compare ao espectáculo produzido na saga "Era Uma Vez na China", "New Dragon Gate Inn", "Swordsman II" ou "A Chinese Ghost Story".

O que se salva verdadeiramente desta película são os dez minutos finais, em que "Cho Yi Hang" aparece finalmente para confrontar "Lian Nichang", e tentar expiar os seus pecados passados. Digamos que constituiu um final bastante belo, embora trágico como já seria de esperar, e que valeu pelo filme todo.

E é nisto que se resume de interessante em "The Bride With White Hair 2". Os dez minutos finais...

"O trágico reencontro dos eternos apaixonados Cho Yi Hang e Lian Nichang"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 6

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M" - 6

Classificação final: 6,75





domingo, outubro 08, 2006

Leslie Cheung (Biografia)

Fat-Chong Cheung, mais conhecido por Leslie Cheung, nasceu em Hong Kong, no dia 09 de Dezembro de 1956, sendo o mais novo de dez irmãos.

Desde muito novo, teve contacto com o cinema, pois o seu pai era o alfaiate do actor William Holden.

Após o divórcio dos seus pais (circunstância que invocou sempre para justificar o porquê de não acreditar no casamento) foi estudar para a Universidade de Leeds, em Inglaterra.

Depois de retornar a Hong Kong, Leslie Cheung lançou-se no mundo da música, tendo ficado em 2º lugar no concurso "ATV Asian Music", para melhor cantor. Em 1981, o seu album "The wind blows on" foi um espantoso sucesso, tendo-o tornado no mais popular intérprete musical do continente asiático.

À semelhança de muitos outros casos em Hong Kong, o seu sucesso no mundo da música, fê-lo entrar para o mundo da sétima arte, tendo o seu primeiro grande papel sido no clássico de acção de John Woo "A better tomorrow", onde contracenou com outro grande nome do cinema asiático, Chow Yun Fat.

A carreira de Leslie Cheung no cinema estava definitivamente lançada, e em 1987 protagoniza outro grande clássico do cinema de Hong Kong, "A Chinese Ghost Story". Em 1988, entra na sequela de "A better tomorrow" e interpreta um dos seus papéis mais emblemáticos, o de playboy fumador de ópio no filme de Stanley Kwan, "Rouge", uma estória de fantasmas que se passa em Hong Kong, num período que medeia entre 1930 e 1987. "Rouge" foi um dos filmes mais aclamados do cinema oriental dos anos 80 e estabeleceu definitivamente Leslie Cheung como um actor dotado de grande versatilidade, sendo capaz de interpretar tanto heróis de acção, como desempenhar papéis iminentemente românticos.

O actor continuou a protagonizar uma série de filmes durante os anos 90, o que lhe deu oportunidade de trabalhar com os mais conceituados realizadores. Logo em 1990, protagonizou mais um filme de acção de John Woo, "Once a thief", sendo acompanhado por Chow Yun Fat, à semelhança dos dois filmes da saga "A better tomorrow".

Mais tarde, expandiu as sua capacidades de interpretação no filme de Wong Kar-Wai "Days of being wild" (1991), desempenhando o papel de "Yuddy", um homem que usa e abusa das mulheres com que enceta relacionamentos.

Em 1993, Cheung dá vida a uma das personagens mais marcantess da sua carreira, o do espadachim "Cho Yi-Hang", no clássico "Wuxia" intitulado "The Bride With White Hair", fazendo uma dupla romãntica inesquecível com Brigitte Lin. Não nos podemos igualmente esquecer que nesse mesmo ano, faz parte de um dos mais importantes clássicos de Kaige Chen, "Adeus minha concubina".

As capacidades de Cheung estão sempre em crescendo e parecem não ter limites. A emotividade e extrema competência com que encara os seus papéis fazem com que já nesta altura seja sem dúvida um dos actores mais emblemáticos de Hong Kong, estando para muitos e com toda a justiça, no topo da cadeia.

Em 1994, volta a trabalhar com Wong Kar-Wai, num dos mais incompreendidos e ao mesmo tempo melhores filmes a que Hong Kong deu vida, o épico de artes marciais "Ashes of Time". Em 1997, outra vez aliado ao mesmo realizador, protagoniza talvez o papel mais polémico da sua carreira em "Felizes juntos". Referimo-nos ao homossexual "Ho Po-Wing" que mantém um relacionamento com "Lau Yiu-Fai", personagem desempenhada pelo igualmente grande actor Tony Leung Chiu-Wai.

Tendo continuado a manter uma profícua carreira cinematográfica, destaca-se ainda o seu papel como um corrector de bolsa que descobre outras facetas da vida, ao adoptar uma criança em "The Kid", e ainda a interpretação no "thriller" intitulado "Inner Senses", como um psiquiatra.

A tragédia chegou no dia 1 de Abril de 2003 (oxalá fosse mesmo uma mentira, embora de mau gosto), quando Leslie Cheung suicidou-se, atirando-se do 24º andar do Hotel Mandarim, situado no distrito de negócios de Hong Kong. Uma nota de suicídio foi encontrada na sua roupa, dando a entender que a causa principal deste acto teria sido a grande depressão em que se encontrava na altura. Muito se especulou acerca dos motivos para a depressão, mas apenas os mais próximos do malogrado actor, porventura saberão das reais razões.

O que é certo é o facto de o cinema mundial, e o asiático em particular, terem ficado incrivelmente mais pobres com a perca deste grande talento.

Curiosidades (Fonte: Internet Movie Data Base)

  • Foi um dos mais populares cantores asiáticos dos anos 80. Deu por terminada a carreira em 1989, não sem antes dar concertos durante 33 noites seguidas.
  • Membro do juri do Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 1998.
  • Foi o primeiro actor de Hong Kong a entrar num filme proveniente da República Popular da China (Adeus minha concubina.
  • Membro do juri do Festival Internacional de Cinema de Tóquio, em 1993.
  • Foi o primeiro cantor a efectuar 100 concertos no Coliseu de Hong Kong.
  • A sua música intitulada "Monica" foi votada a canção do século.
  • Foi consagrado como a maior estrela do cinema asiático pela cadeia de televisão CCTV-MTV, em 2000.
  • Já após a sua morte, em 2005 foi considerado o actor chinês favorito em 100 anos de cinema chinês, numa votação organizada pela "Henderson Land Development Co. Ltd", "Hong Kong Ferry Co. Ltd", "HKFAA" and "UA Cinemas" no âmbito do centenário da história do cinema chinês.
  • Foi um dos primeiros da geração de estrelas "Pepsi" na Ásia.

Filmes:

  1. The drummer (1982)
  2. Intellectual Trio (1985)
  3. For your heart only (1985)
  4. A better tomorrow (1986)
  5. A chinese ghost story (1987)
  6. A better tomorrow II (1987)
  7. Fatal Love (1988)
  8. Chatter street killer (1988)
  9. Aces go places 5 - The Terracota hit (1989)
  10. A chinese ghost story II (1990)
  11. Rouge (1990)
  12. The banquet (1991)
  13. Arrest the restless (1992)
  14. All's well, end's well (1992)
  15. Adeus Minha Concubina (1993)
  16. Eagle shooting heroes (1993)
  17. The eagle shooting heroes: Dong cheng xi jiu (1994)
  18. The chinese feast (1994)
  19. The bride with white hair (1994)
  20. The bride with white hair II (1994)
  21. Once a thief (1994)
  22. Long and winding road (1994)
  23. It's a wonderful life (1994)
  24. He's a woman, she's a man (1994)
  25. Ashes of time (1994)
  26. All's well, end's well too (1994)
  27. The phantom lover (1996)
  28. Who's the woman, who's the man (1996)
  29. Viva erotica (1996)
  30. Tri-star (1996)
  31. San seunghoi tan (1996)
  32. Days of being wild (1996)
  33. Temptress moon (1997)
  34. Felizes juntos (1997)
  35. Knock off (1998)
  36. Anna Magdalena (1998)
  37. Moonlight express (1999)
  38. Time to remember (2000)
  39. Okinawa rendez-vous (2000)
  40. Cheong wong (2000)
  41. Inner senses (2002)

The Internet Movie Database (IMDb) link, Leslie Cheung Fan Club