"My Asian Movies" マイアジアンムービース
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Terça-feira, Dezembro 01, 2009
Domingo, Novembro 29, 2009
Crows Zero/Kurôzu Zero – クローズ (2007)
Origem: Japão
Duração aproximada: 130 minutos
Realizador: Takashi Miike
Com: Shun Oguri, Kyôsuke Abe, Meisa Kuroki, Takayuki Yamada, Sansei Shiomi, Ken'ichi Endô, Gorô Kishitani, Kenta Kiritani, Sousuke Takaoka, Yusuke Kamiji, Tsutomu Takahashi, Suzunosuke, Kaname Endo, Sunsuke Taido
“Genji rodeado dos seus lugares-tenente”
Sinopse
“Genji Takaya” (Shun Oguri) é um estudante que foi transferido para o liceu “Suzuran”, considerado a escola mais violenta de todo o Japão, onde “gangs” de estudantes digladiam-se constantemente pelo controlo do estabelecimento. Embora não domine todo o território, o estudante mais temido é “Tamao Serizawa” (Takayuki Yamada), que é conhecido pela sua especial ferocidade que emprega nas lutas, apesar do seu ar inocente. “Genji” começa a dar nas vistas quando sozinho derrota quatro Yakuza, e coloca sob o seu domínio uma das classes, anteriormente chefiada por “Chuta” (Suzunosuke).
“Serizawa e o seu gang”
“Genji” cai nos bons auspícios do Yakuza “Ken” (Kyosuke Abe), que o aconselha da melhor forma a subir na hierarquia de “Suzuran”. O rapaz, juntamente com “Chuta”, começa a juntar correligionários e a unir facções rivais, de forma a poder ombrear com “Serizawa”. No desígnio, consegue cativar líderes de outras classes, tais como o alucinado, mas leal “Makise” (Takahashi Tsutomu) e o calculista “Izaki” (Sousuke Takaoka). Pelo meio, “Genji” apaixona-se pela bela “Ruka Aizawa” (Meisa Kuroki). “Seizawa” apercebe-se da ascensão de “Genji” no meio, e prepara-se para defender a sua supremacia. Um embate demolidor aproxima-se.
“Ken Katagiri e os companheiros yakuza”
“Review”
Baseado na popular manga shonen “Crows”, de Hiroshi Takahashi, o profícuo Takashi Miike faz uma incursão no mundo da juventude delinquente e rebelde, com muita acção e violência à mistura. Dizem os entendidos que o filme é uma fiel adaptação do espectro geral da banda-desenhada, embora se passe numa altura anterior ao enredo ali presente. Confesso que nunca tive a oportunidade de passar os olhos pela manga, pelo que neste particular abster-me-ei, dando tal facto por assente até prova em contrário. À altura, “Crows Zero” constituiu o maior sucesso de bilheteira do realizador, e não é difícil perceber porquê. Trata-se de uma obra muito comercial, cheia de ídolos dos adolescentes japoneses, dos quais se destaca o actor principal Shun Oguri, muito apreciado sobretudo pelo público feminino. A “comercialidade” deste filme levantou várias reticências na crítica e fãs mais puristas de Miike, não fosse o realizador encarado como um “enfant terrible” do actual paradigma cinematográfico nipónico.
O crescendo da fama de Miike, inclusive nos meios internacionais, implica naturalmente a atracção dos grandes estúdios e a possibilidade de obtenção de orçamentos acima da média. Embora existam uma grande diversidade de opiniões, no tocante ao relacionamento destes aspectos com o resultado final em “Crows Zero”, sempre irei pelo meio termo, correndo o risco de ser acusado de “uma fuga para a frente”, ou da resposta fácil. Sendo perceptível que a faceta de um maior número de potenciais apreciadores aumenta em “Crows Zero”, numa relação com anteriores obras de Miike, sempre se reconhecerá que alguns traços típicos do cinema do realizador como a abordagem frontal (embora não visceral) e violenta marcam a sua presença.
“Luca Aizawa e Genji”
Como já acima aflorei, “Crows Zero” é uma longa-metragem que lida com um tema que normalmente tem bastante aceitação no público, principalmente no mais jovem, que passa pela adolescência conturbada que degenera em violência, à semelhança de uma qualquer luta animal ou animalesca que vise a conquista de um grupo determinado. Sendo uma película a explodir de testosterona, sempre tem os seus momentos mais profundos, que passam sobretudo pelas delicadas relações entre os intervenientes. Mesmo assim, esta última premissa assume natureza de excepção. Quem aqui dita a lei são os punhos, com um exagero claramente requisitado, mas com uma capacidade de entretenimento muito elevada. As cenas de acção estão geralmente bem coreografadas, com aspectos claramente hiperbólicos onde são quebradas algumas leis da física, mas aceitáveis face ao espectro geral desta obra. Socos demolidores, pontapés que seriam capazes de deitar abaixo uma parede de tijolos, uma resistência à pancada fora do normal e afins. O aspirante a visionar “Crows Zero” irá deparar-se com um misto de realidade por vezes grotesca, com um enxerto algo fantástico, mas devidamente ali enquadrado.
O ambiente de banda-desenhada encontra-se bastante presente, com as caretas e trejeitos do costume a pontificar e que confere alguma comicidade ao filme. A banda-sonora acompanha fielmente toda a aura rebelde e “carpe diem” da película, com faixas que vão desde o hip-hop interpretado ao vivo pela actriz Meisa Kuroki, até ao “Punk Rockabilly” dos “The Street Beats”, de que recentemente dei conta aqui, colocando um vídeo de uma música que gostei particularmente, intitulada “Eternal Rock n' Roll”, e que ilustra o genérico final do filme.
Com actuações agradáveis de Shun Oguri e Cia., onde desponta muito mais o estilo “fixe” e de impressão à primeira vista, do que algum laivo de genialidade técnica, “Crows Zero” acaba por se revelar uma agradável proposta no segmento do entretenimento. Estará longe de constituir uma das obra de referência de Takashi Miike, mas atrairá imenso a generalidade do público pela sua irreverência. Afinal quem é que resiste a uma história de adolescentes rebeldes, a transbordar de carisma e onde cada dia é vivido como se fosse o último? Acrescente-se uns pequenos condimentos de romance, música da “desbunda”, uma pequena história Yakuza paralela, e o truque está feito.
Ideal para um domingo à tarde!
“O liceu Suzuram”
Nota 6.9 (1.024 votos) em 29/11/2009
Outras críticas em português:
Avaliação:
Entretenimento – 9
Interpretação – 7
Argumento – 7
Banda-sonora – 8
Guarda-roupa e adereços – 8
Emotividade – 9
Mérito artístico – 7
Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7
Classificação final: 7,75
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Jorge Soares Aka Shinobi
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6:38 PM
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Etiquetas: Acção, Goro Kishitani, Japão, Kenichi Endo, Kenta Kiritani, Kyôsuke Abe, Meisa Kuroki, Sansei Shiomi, Shun Oguri, Sousuke Takaoka, Suzunosuke, Takashi Miike, Takayuki Yamada, Yusuke Kamiji
Quarta-feira, Novembro 25, 2009
“Testemunhos” de Battosai (Batto presenta…)
Esta semana, vamos ter o primeiro convidado, que se expressa em língua espanhola. Falo de “Battosai”, um residente na cidade de Valladolid, o administrador do blogue “Batto presenta…” (carregar na foto, para aceder) e colaborador do “PUNTASIA”. Conheci (virtualmente falando) o “Battosai” na segunda edição do concurso anual que levo a cabo no “ My Asian Movies”, tendo logo se revelado um concorrente destemido e conhecedor de cinema oriental a rodos, classificando-se em 3º lugar e com direito a prémio. Desde então, o entrevistado de hoje é um assíduo frequentador do meu blogue, e enriquece-o bastante com os seus comentários pertinentes, sejam de concordância ou não. O espaço principal do “Battosai” é, à semelhança de outros pertencentes a entrevistados anteriores, possuidor de uma elevada qualidade. Embora não se dedique por completo ao cinema oriental, o que confere uma agradável diversidade, tem uma componente asiática muito forte e variada.
A foto que ilustra esta entrevista, exibe a grande admiração que o “Battosai” nutre, e tenho a certeza que não é o único, pelas beldades que pontificam no cinema oriental.
Abaixo segue a entrevista com um ilustre representante de “nuestros hermanos”.
“My Asian Movies”: O que achas que distingue genericamente a cinematografia oriental das demais?
Battosai: El cine occidental me da la sensación de estar hecho (en general, por supuesto siempre hay excepciones) para el consumo inmediato y masivo, preocupándose principalmente por obtener un buen rendimiento en taquilla. En el oriental, y aunque lógicamente también quieran ganar dinero, que de eso viven, los directores parecen más preocupados por poner en imágenes lo que tienen en mente que los de occidente. Gracias a eso nos encontramos con que se atreven a hacer cosas que sería impensable encontrarse en una filmografía occidental.
“M.A.M.”: O que te fascina mais neste tipo de cinema?
B. : La facilidad con la que consigue emocionarme y la calidad de sus actores.
“M.A.M.”: Tens ideia de qual o primeiro filme oriental que visionaste?
B. : Hace tanto tiempo que no estoy seguro, pero el primero que recuerdo haber visto es “Mi vecino Totoro”.
“M.A.M.”: Qual o país que achas, regra geral, põe cá para fora as melhores obras? No fundo, a tua cinematografia oriental favorita?
B. : Si tengo en cuenta tanto cine clásico como contemporáneo me quedo sin duda con el japonés. Sin embargo, si considero solo el cine actual, la cosa cambia. En conjunto sigo prefiriendo el japonés, pero si pienso en mis películas preferidas, predominan las coreanas.
“M.A.M.”: E já agora, qual o género com o qual te identificas mais? És mais virado (a) para o drama, épico, wuxia, “Gun-fu”...
B. : Me cuesta mucho decidir, ya que veo de todo y en todos los géneros encuentro filmes que me fascinan. Lo único que tengo claro es que el género que menos me gusta es el de terror. En cuanto al que más, quizá sea el de amor, tanto dramas como comedias románticas, pero es curioso que esto ocurre solo con el cine oriental, mientras que en el occidental prefiero otros géneros.
“M.A.M.”: Uma tentativa de top 5 de filmes asiáticos?
B. : Buf... “Rashomon” y “Los siete samuráis” (Shichinin no Samurai), de Akira Kurosawa; “El intendente Sansho” (Sansho Dayu), de Kenji Mizoguchi; “Dolls”, de Takeshi Kitano; y “Hierro 3” (Bin-jip), de Kim Ki-duk.
“M.A.M.”: Realizador asiático preferido?
B. : Akira Kurosawa.
“M.A.M.”: Já agora, actor e actriz?
B. : Voy a decir uno de cada, pero que conste que si respondiera en otro momento probablemente diría a dos diferentes, ya que hay unos cuantos buenísimos que me encantan y entre los que me cuesta mucho decidir.
Actor: Toshiro Mifune. Actriz: Gong Li.
“M.A.M.”: Um filme oriental sobrevalorizado e outro subvalorizado?
B. : “All About Lily Chou-chou” y “The Host” (al menos en España no gustó demasiado), respectivamente.
“M.A.M.”: A difusão do cinema oriental está bem no teu país, ou ainda há muito para fazer?
B. : Queda muchísimo por hacer. Hay algunos festivales o ciclos dedicados a cine asiático en las principales ciudades, pero comercialmente con distribución a nivel nacional solo se pueden ver películas de unos pocos directores (Yimou, Kitano, Miyazaki, Kim Ki-duk, Bong Joon-ho, Park Chan-wook y poco más) o películas que hayan ganado el Oscar de extranjera o algún premio importante en Cannes, Venecia o Berlín. Y encima lo poco que llega se suele estrenar muy tarde, a veces con años de retraso.
“M.A.M.”: Que conselho darias a quem tem curiosidade em conhecer o cinema oriental, mas sente-se algo reticente?
B. : Lo primero, que empiece por aquellas películas que gustan a casi todo el mundo, como pueden ser “My Sassy Girl” o “Red Cliff”; con las que hayan tenido un relativo éxito en occidente, como “Despedidas” (Okuribito) o “La princesa Mononoke” (Mononoke Hime); o con aquellas de las que se haya hecho un remake en Hollywood, que si lo hacen es porque la película es fácilmente accesible a nuestro público. Si le gustan esas, entonces ya debe ir cambiando poco a poco a cosas más típicas de allí y distintas del cine occidental, de manera que cuando acabe viendo las obras asiáticas más personales, diferentes y quizá extrañas para un espectador de aquí no se asuste, ya que se habrá ido acostumbrando gradualmente. Si se le pone directamente una de ese tipo se corre el riesgo de que huya espantado y no vuelva a ver una película de Asia en su vida.
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Jorge Soares Aka Shinobi
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9:33 PM
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Etiquetas: Testemunhos
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
Beldades da Cultura Asiática - Hyori Lee
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Jorge Soares Aka Shinobi
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9:24 PM
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THE STREET BEATS - ETERNAL ROCK'N'ROLL
Gostei disto :))) ! Da banda-sonora do próximo filme sobre o qual colocarei um texto aqui ;)!
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Jorge Soares Aka Shinobi
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6:35 PM
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Domingo, Novembro 22, 2009
Chungking Express/Chung Hing sam lam - 重庆森林 (1994)
Origem: Hong Kong
Duração aproximada: 102 minutos
Realizador: Wong Kar Wai
Com: Tony Leung Chiu Wai, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin, Valerie Chow, Chen Jinquan, Guan Lina, Huang Zhiming, Zhen Liang, Zuo Songshen, Lynne Langdon
“A misteriosa mulher da peruca loira”
Sinopse
“He Zhiwu” (Takeshi Kaneshiro) é um polícia que vive um desgosto amoroso, considerando que a sua paixão “May” o abandonou. O seu sofrimento leva-o a desenvolver uma estranha obsessão por datas de validade, que exterioriza alimentando-se de ananás enlatado cuja expiração ocorre no dia 1 de Maio. Chegado à data em questão, “He Zhiwu” promete a si próprio que se irá apaixonar pela primeira mulher que encontrar num bar. Depara-se com uma estranha personagem, de óculos escuros e cabeleira loira (Brigitte Lin), que irá, por momentos, conferir-lhe uma nova perspectiva de vida.
“He Zhiwu e a sua estranha paixão”
O “polícia 663” (Tony Leung Chiu Wai) igualmente anda com os seus problemas de ordem romântica. A sua namorada, uma hospedeira do ar (Valerie Chow), deixou-o e o sentimento de solidão começa a destruí-lo por dentro. No entanto, o polícia é amado sem saber por “Faye” (Faye Wong), uma empregada de um estabelecimento de comida rápida chamado “Midnight Express”. Incapaz de demonstrar directamente o seu amor, “Faye” entra na vida do “polícia 663” de uma forma original.
“Faye dança ao som de Califonia Dreamin´”
“Review”
“Se a minha memória dela tiver um prazo de validade, que seja de dez mil anos...”. É com esta “tagline” que “Chungking Express” se apresenta ao espectador, estando criado o mote para um dos filmes mais fascinantes acerca de uma temática que julgo ser cara a qualquer ser humano, o amor. Dez mil anos em muitas culturas é um número que reflecte o conceito de “para sempre”. Isto para dizer que a frase que ilustrou inicialmente o debutar do filme que ora se propõe analisar um pouco, visa no fundo evidenciar o conceito de memórias de paixão que se pretendem ver eternizadas. Mesmo que as mesmas sejam dolorosas. Wong Kar Wai rodaria “Chungking Express” no mesmo ano em que daria a vida a outra película de eleição. Falo de “Ashes of Time”, a única incursão do realizador no “wuxia”. Aliás, “Chungking Express” seria o produto do descanso do realizador de Hong Kong, quando o mesmo recuperava da grande exigência e esforço despendido no seu épico de artes marciais. A feitura da película foi num tempo recorde, mais ou menos três meses, e o resultado redundou num desafogo financeiro, principalmente depois de “Ashes of Time” não ter sido bem aceite pelo público em geral.
Tendencialmente enquadrado em algo que nos faz lembrar “pop art”, Kar Wai propõe-se a nos apresentar uma história de paixão e emoções, onde os intervenientes são pessoas na casa dos vinte e muitos anos e que tem por pano de fundo uma Hong Kong no limiar da transição para a soberania chinesa. A ânsia em viver as emoções ao máximo, parece se coadunar com uma miríade de situações. Desde o estabelecimento de um qualquer prazo para a duração de uma relação intensa, ou evidenciar uma crítica política subtil no sentido de a entrega do território à China ser uma eventual expiração da validade das liberdades individuais, incluindo a de experienciar o amor ao máximo. Salvo melhor opinião, sempre considerei “Chungking Express” como a obra que estabeleceu definitivamente Kar Wai como uma certeza e um autor de eleição. Ou sendo um pouco mais lírico, como o poeta do amor, do romance, do sonho, das cores e das emoções. À semelhança de praticamente todas as obras do autor, a natureza individual do ser humano e a sua interacção sentimental constitui o cerne da trama. As personagens principais do filme vivem um rodopio na maneira como lidam com o sentimento de perda, que parece por vezes estranha, para não dizer alienada, mas que causa um certo sentido de familiaridade. E neste aspecto, Kar Wai acerta no alvo em cheio. Não pretendendo, como aliás também é seu timbre, manter um ritmo coerente no argumento, o objectivo é fazer com que o espectador encontre, por si só, algo muito íntimo e com o qual se consiga identificar.
Como seria de esperar, ou não estivéssemos a falar de um filme de Kar Wai, “Chungking Express” rebenta a escala em estilo. O uso das cores e da fotografia é algo quase impossível de descrever em palavras, e julga-se que é daquelas coisas que só vendo para acreditar. O uso da técnica de filmagem, ora em acelerações de imagem, ou num costumeiro “slow motion”, confere uma apreciável dinâmica que se interliga de uma forma bastante feliz com os demais aspectos da película. O apresentar intencional de imagens enevoadas, ou a filmagem no meio do bulício de Hong Kong, onde muitos dos transeuntes não fazem a mínima ideia de que uma película está a ser rodada, faz com que a aura mágica se interpenetre com a realidade quotidiana, num resultado muito satisfatório, diferente mas muito envolvente. A nível da trama, existe alguma descompensação, porquanto o segmento Tony Leung Chiu Wai/Faye Wong é mais longo, perceptível e regra geral melhor que o de Takeshi Kaneshiro/Brigitte Lin, embora se possa reconhecer que este último talvez esteja dotado de mais profundidade.
“Um beijo ardente”
A fenomenal banda-sonora merece aqui um pequeno parágrafo. Entre alguma música étnica e “reggae” de entretenimento auditivo bastante apreciável, somos presenteados com uma versão cantonesa de “Dreams” dos “The Cranberries” que resulta muito bem, e se enquadra às mil maravilhas no ambiente geral do filme. Mas os momentos verdadeiramente divinais, e não apenas por ser uma preferência pessoal, é a saturação de “California Dreamin'”, dos Mamas and Papas. São inesquecíveis os momentos em que Faye Wong dança no “Midnight Express”, embrenhada no seu mundo bastante pessoal. O inesquecível êxito dos anos 60, que pontificou em muitas películas por esse mundo fora, confere grandiosidade e faz Faye Wong ainda brilhar mais.
Os actores exibem-se num plano muito elevado, ou não estivéssemos a lidar com um “cast” extremamente forte. Pessoalmente, aprecio imenso a forma como Kar Wai dirige os intérpretes dos seus filmes, retirando o que de melhor têm para dar. E embora aprecie imenso as actuações nesta obra de Tony Leung Chiu Wai, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin e Valerie Chow, há que reconhecer que Faye Wong está absolutamente divinal. A actriz exibe uma personagem alienada, que nas suas próprias palavras, ouve música em volume alto, pois assim inibe-se de pensar. Wong passeia classe pela tela e deixa-nos siderados com o seu sonho íntimo, as suas actuações aparentemente incompreensíveis e a maneira como se intromete na tortura pessoal de Tony Leung Chiu Wai, é algo digno de se ver. E por vezes questiono-me como é que Faye Wong, que já demonstrou ter grandes capacidades como actriz, não entrou na esfera das super-estrelas, à semelhança de uma Maggie Cheung ou de uma Gong Li?
Destilando sensualidade por todos os poros e com um manancial de frases emblemáticas inesquecíveis, “Chungking Express” mantém-se até hoje como uma das maiores obras do realizador Wong Kar Wai e um verdadeiro marco do cinema mundial. Há quem considere mesmo que se estará presente perante o produto mais forte que, até hoje, Kar Wai deu vida. Eu não concordo, mas percebo bem as válidas razões de quem produz tal afirmação. Sendo um maravilhoso exemplo “new wave”, explora efectivamente os meandros dos corações desolados e de uma certa alienação e depressividade urbana. É certo que as poucas cenas de acção parecem algo atabalhoadas, mas é preciso interiorizar que o objectivo deste filme não é expôr qualquer trama criminosa, ou enveredar pelo diapasão de movimento exagerado. “Chungking Express” é um romance com cariz muito pessoal, e o seu maior trunfo será sempre a exposição de várias perspectivas do amor , e a percepção directa da sua magia. Já agora, e como é discernido do filme, será que fazer demasiado exercício, como “jogging”, faz-nos desidratar tanto, que não restam lágrimas para derramar?
Imperdível para qualquer fã de cinema e da beleza!
“O polícia 663 e a hospedeira”
Nota 8.0 (15.154 votos) em 22/11/2009
Outras críticas em português:
Avaliação:
Entretenimento – 7
Interpretação – 9
Argumento – 8
Banda-sonora – 10
Guarda-roupa e adereços – 8
Emotividade – 9
Mérito artístico – 9
Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8
Classificação final: 8,50
Publicada por
Jorge Soares Aka Shinobi
em
2:31 PM
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Etiquetas: Brigitte Lin, Chen Jinquan, Drama, Faye Wong, Guan Lina, Hong Kong, Huang Zhiming, Lynne Langdon, Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Valerie Chow, Wong Kar Wai, Zhen Liang, Zuo Songshen
Terça-feira, Novembro 17, 2009
“Testemunhos” de Ibirá Machado (“Cinema Indiano”)
O entrevistado desta semana é Ibirá Machado, o mentor de um dos espaços mais emblemáticos em língua portuguesa acerca de cinema indiano, que, passe a repetição, é o “Cinema Indiano”. A designação do blogue do Ibirá não é inocente, e serve para desmistificar um erro recorrente que eu próprio aqui já tentei esclarecer. O cinema indiano não se resume unicamente a “Bollywood”, que é a expressão que serve para nomear os filmes de dialecto hindi, sediados em Mumbai. É uma realidade muito mais vasta e que abrange vários tipos de industrias cinematográficas como “Kollywood”, “Tollywood”, entre outras. O canto do Ibirá esclarece estas questões e outras, pelo que aqueles que pretendam ter um conhecimento mais aprofundado deste tema e de mil e uma coisas relacionadas com os “cinemas” daquelas paragens, têm absolutamente de dar um pulo ao “Cinema Indiano”. O Ibirá é um verdadeiro conhecedor e apaixonado deste segmento da sétima arte, e isto nota-se na enorme variedade de assuntos que são tratados no seu espaço. Lá encontrarão críticas a filmes, orientações para bandas-sonoras, notícias, vídeos e muito mais.
Para acederem ao maravilhoso site do Ibirá, basta carregar na foto que ilustra esta entrevista. Aproveito para esclarecer que a mesma foi tirada em Nova Deli (sim, o Ibirá já esteve na Índia) numa popular festa indiana, chamada Holi, o festival das cores. Abaixo ficam as respostas que o Ibirá, amavelmente, acedeu a conceder ao “My Asian Movies”.
“My Asian Movies”: O que achas que distingue genericamente a cinematografia oriental das demais?
Ibirá Machado : Acho que cada país possui uma estética própria que se manifesta em todas as possibilidades de artes, o que inclui o cinema. No caso do cinema que entendo melhor (além do cinema brasileiro), que é o cinema indiano, é evidente uma estética muito diferente em vários níveis, a começar pelo roteiro, passando pela própria cinematografia (maneira mesmo de filmar e editar), os cenários, o enredo, as músicas, enfim. De qualquer forma, eles também fazem o que podemos chamar de cinema de arte, ou seja, com uma estética mais ocidental (sobretudo europeia).
“M.A.M.”: O que te fascina mais neste tipo de cinema?
I.M. : A outra forma de ver o mundo, que não pelo prisma cartesiano do ocidente. No oriente, o padrão coletivo e uma visão mais sistêmica faz muita diferença em como as suas artes são expressadas. Isso é o que me atrai.
“M.A.M.”: Tens ideia de qual o primeiro filme oriental que visionaste?
I.M. : Não tenho a menor ideia. Filme indiano foi Asoka (2001), mas oriental em si... não sei. Vi muitos e muitos antes dos anos 2000.
“M.A.M.”: Qual o país que achas, regra geral, põe cá para fora as melhores obras? No fundo, a tua cinematografia oriental favorita?
I.M. : Eu sou muito suspeito a falar. Não acho que a Índia faça efetivamente os melhores filmes, mas é quem faz MAIS filmes, e isso é muito importante. A China produz obras maravilhosas, e mesmo o Japão também cria filmes que Deus do céu!
“M.A.M.”: E já agora, qual o género com o qual te identificas mais? És mais virado (a) para o drama, épico, wuxia, “Gun-fu”...
I.M. : Ah... pra mim o filme tem que ser original, bem feito e cativar o espectador. O seu gênero em si não faz muita diferença pra mim. Pode ser de terror, pode ser de amor, pode ser suspense ou de ninjas; sendo bem feito, recomendo a todos :)
“M.A.M.”: Uma tentativa de top 5 de filmes asiáticos?
I.M. : Ui, que difícil! Vou fazer uma lista dos meus filmes indianos preferidos, porque acho que terei muita dificuldade de incluir na lista filmes de outros países asiáticos que também considero fantásticos, mas que são tão diferentes... bom, lá vai:
Taare Zameen Par (2007)
The Terrorist (1999)
Black (2004)
“M.A.M.”: Realizador asiático preferido?
I.M. : Aamir Khan
“M.A.M.”: Já agora, actor e actriz?
I.M. : (Não gosto disso, pois sinto-me obrigado a restringir algo que talvez eu internamente não restrinja, mas vamos tentar)
Aamir Khan e Aishwarya Rai
“M.A.M.”: Um filme oriental sobrevalorizado e outro subvalorizado?
I.M. : Dentro do cinema indiano, acho que Devdas (2002) é muito sobrevalorizado, e já disse isso no meu blog. E The Terrorist (1999) é um que, a meu ver, mereceria muito mais destaque.
“M.A.M.”: A difusão do cinema oriental está bem no teu país, ou ainda há muito para fazer?
I.M. : Em São Paulo temos bons acessos a filmes orientais, mas não aos indianos. Nenhum filme indiano jamais veio aos cinemas brasileiros, embora alguns possam ser encontrados em vídeolocadoras. Minha luta hoje é quebrar o paradigma de que filme indiano é ruim e abrir uma porta para que eles entrem no Brasil oficialmente.
“M.A.M.”: Que conselho darias a quem tem curiosidade em conhecer o cinema oriental, mas sente-se algo reticente?
I.M. : Antes de tudo, nem sei porque alguém deveria ter reticências com qualquer tipo de cinema. Ninguém nesse mundo deveria pensar que somente Estados Unidos e Europa sabem fazer filmes. O ser humano faz filmes, isso é o que deveria importar a todos. E assim todos deveriam conhecer o que o ser humano produz, independentemente da origem. Não?
Publicada por
Jorge Soares Aka Shinobi
em
9:18 PM
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Etiquetas: Testemunhos















