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quarta-feira, março 09, 2011

Exiled/Fong juk – 放‧逐 (2006)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 110 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Anthony Wong, Francis Ng, Simon Yam, Nick Cheung, Lam Suet, Roy Cheung, Josie Ho, Richie Ren, Gordon Lam, Cheung Siu Fai, Ellen Chan, Hui Siu Hung, Ronald Yam

O grupo

“Da esquerda para a direita, em cima: Fat, Tai, Blaze e Cat; em baixo, Wo, a esposa Jin e o filho de ambos”

Sinopse

Em 1999, dois anos após o mesmo ter acontecido com Hong Kong, Macau está prestes a deixar a soberania de um país europeu, neste caso Portugal, e a retornar para o território da China. Quatro elementos de uma tríade chefiada por Fay (Simon Yam), a saber, “Blaze” (Anthony Wong), “Tai” (Francis Ng), “Cat” (Roy Cheung) e “Fat” (Lam Suet), são incumbidos da missão de matar um ex-membro da organização chamado “Wo” (Nick Cheung). Acontece que deparados perante o seu antigo companheiro e amigo, os quatro não conseguem levar a cabo o golpe e unem-se para proteger “Wo”, a sua esposa “Jin” (Josie Ho) e o filho de ambos recém-nascido.

Blaze 2

“Blaze”

Acontece que “Fay” vem de Hong Kong até Macau, de forma a destronar o domínio do “gangster” “Keung” (Gordon Lam), e assegurar que “Wo” efectivamente está morto. Quando descobre o que se passou, “Fay” não se deixa ficar e organiza uma caçada ao grupo. Uma cruzada de sangue está prestes a se desencadear.

Fai depara-se com Keung

“Fay depara-se com o rival Keung”

“Review”

Tendo sido exibido em certames de cinema por todo o mundo, de que constituem exemplo Veneza e Toronto, e sido filmado na antiga colónia portuguesa de Macau, “Exiled” tem o condão de fazer assomar uma ideia logo à minha mente: não consigo encontrar um filme que defina melhor o estilo de Johnnie To e que granjeou tantos fãs. A película teve críticas positivas um pouco por todo o meio especializado e conseguiu mesmo ter a honra de ter sido a submissão oficial de Hong Kong aos óscares – 2008, na categoria de melhor filme estrangeiro.

“Exiled” representa o que de melhor a cena de Hong Kong tem para oferecer, possuindo momentos perfeitos de tensão e acção, a par de cenas dramáticas de antologia, que ficam gravadas algures na nossa memória, num “freeze frame” mental. A técnica de “slow motion” usada nas cenas de acção, onde os tiroteios infernais irrompem destemidos, é simplesmente maravilhosa e de chorar por mais. Os intervenientes são meticulosamente posicionados, antes da abrupta violência emergir, e uma autêntica valsa diabólica de balas, sangue e destruição demonstrar a sua estranha, mas inquestionável beleza. Num culminar usual, todos estes aspectos irrompem no inevitável “stand off” final.

Como foi referido na sinopse, a acção de “Exiled” passa-se numa Macau em processo de transicção da governação portuguesa para a administração chinesa. Aqui, com ou sem razão, é traçado um quadro de uma terra onde a lei não consegue impor a sua vontade, onde a polícia é pouco efectiva e corrupta, e as tríades fazem quase o que lhes bem apetece. Ajustes de contas são desfilados num restaurante, numa rua, num descampado, sem que as forças da ordem consigam fazer algo para impedi-lo, sendo mesmo atacadas em nome da cobiça que rodeia um enorme carregamento de ouro.

Tiroteio 2

“Tiroteio no restaurante”

Na nossa humilde opinião, é improvável alguém se autointitular um apreciador do cinema de Hong Kong, sem prezar esta película e outras de natureza semelhante, desde que bem executadas e portadoras de um signo de qualidade. Tem um conjunto de homens afectados pela dureza do seu percurso de vida, que deixam a acção falar por si e mulheres que não conseguem entender esta maneira de agir e pugnam por um modo de vida mais calmo e pacífico. Mas acima de tudo, evidencia de sobremaneira aquele destino traduzido por um caminho que por mais que façamos, simplesmente não lhe conseguimos fugir.

Aqueles que se deram ao trabalho de reparar no grupo de actores que exibem as suas potencialidades nesta película, forçosamente terão de concluir que estamos perante um elenco de eleição, onde pontificam alguns dos mais talentosos intérpretes de Hong Kong e habitués das longas-metragens de Johnny To. O grande Anthony Wong exibe mais uma actuação de grande nível, num estilo inimitável e que só a ele lhe pertence, sendo bem acompanhado por Francis Ng. Simon Yam é um dos meus actores preferidos daquelas paragens, e para mim é algo complicado colocar-lhe defeitos. Igualmente é alguém que impõe um cunho e ritmo muito próprio nas suas performances, sendo que aqui o que lhe faltará serão, eventualmente e por força do argumento, mais alguns minutos. Nick Cheung, Roy Cheung e Lam Suet não destoam e enquadram-se bem nos seus papéis.

“Exiled” é um filme que honra muito bem o estilo do seu criador. É um orgulhoso e excelente exemplo do género “tríade” e atrever-me-ia a afirmar, quase um sonho para qualquer amante do género. Ao mesmo tempo, configura-se como uma história de amizade e honra impressionante, onde em nome dos ideiais e do código de conduta, mais depressa se verga do que se torce. A redenção acaba por ser tratada de uma forma crua, mas credível. No fundo, “Exiled” demonstra ser uma obra simples, nada esotérica e, à falta de melhor expressão...um filmão!!!

Fat Blaze Tai Cat

“Fat, Blaze, Tai e Cat”

imdb7.3 em 10 (3.904 votos) em 9 de Março de 2011

Outras críticas em português:

  1. Cine Players (Emílio Franco Jr.)
  2. Cinedie Asia
  3. Cine-Asia

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,25

quarta-feira, agosto 19, 2009

Ip Man - 葉問 (2008)
Origem: Hong Kong
Duração: 107 minutos
Realizador: Wilson Yip
Com: Donnie Yen, Simon Yam, Gordon Lam, Lynn Xiong, Louis Fan, Hiroyuki Ikeuchi, Xing Yu, Wong Yau Nam, Chen Zhihui
"O grande mestre Ip Man"

Sinopse

Em 1930, a cidade de Foshan é conhecida pelo grande número de praticantes de artes marciais, e pelas várias escolas que rivalizam entre si. “Ip Man” (Donnie Yen) é de longe o melhor lutador, mas a sua humildade faz com que não aceite discípulos, e leve uma vida abastada e calma com a sua família e amigos, para além de treinar e tentar aperfeiçoar as suas habilidades. De vez em quando, “Ip Man” luta privadamente com outros mestres, inapelavelmente vencendo-os sempre, inclusive o lutador forasteiro “Jin” (Louis Fan) que pretendia desonrar os combatentes de Foshan.

"Ip Man e a sua família"

Em 1937, com o incidente Marco Polo, o Japão invade em força a China e ocupa Foshan. O outrora rico “Ip Man”, vê-se privado da sua casa que se torna o quartel-general das forças nipónicas e cai na miséria. Obrigado a trabalhar numa mina de carvão e posteriormente na fábrica de algodão do amigo “Quan” (Simon Yam), “Ip Man” apercebe-se da tirania dos japoneses perante os habitantes de Foshan, e começa a criar um sentimento nacionalista e de defesa da pátria ocupada. Vencendo vários japoneses em combates de artes marciais, “Ip Man” acaba por desafiar o general “Miura” (Hiroyuki Ikeuchi), o comandante local, para uma luta perante os habitantes da cidade.

"Ip Man, rodeado por dez lutadores japoneses"

"Review"

“Ip Man” visa ser um filme biográfico acerca de uma das personagens contemporâneas mais importantes do mundo das artes marciais, chamado precisamente Ip Man. Este mestre de artes marciais é bastante conhecido na China e em Hong Kong, tendo sido celebrizado no ocidente por ter sido mentor de, nada mais, nada menos que Bruce Lee. O projecto de fazer um filme acerca da vida de Ip Man já existia há algum tempo, desde 1998, mas parecia votado ao abandono. Contudo, o conhecido produtor Raymond Wong, após ter obtido o consentimento dos filhos de Ip Man, foi de armas e bagagens para Foshan, de forma a investigar o passado do famoso praticante de Wing Chun. Estreada a película, a recepção foi francamente positiva, com críticas bastante favoráveis e a consagração nos Hong Kong Film Awards, onde a obra viria a arrecadar o prémio para melhor filme e para melhor coreografia de acção. Sendo a primeira parte de uma trilogia, a sequela chega já em 2010, onde a personagem de Bruce Lee, aparecerá com a tenra idade de 10 anos.

Ao longo de muitos anos, foram realizadas várias películas das cinematografias de Hong Kong, China e Coreia do Sul, cujo inspiração principal passava pela resistência a um invasor estrangeiro. Em muitas delas, o alvo principal eram os japoneses, pelas razões históricas que todos conhecemos, e que não vale a pena estar a explorar muito agora, pois já o fiz profusamente antes, a propósito de outras críticas. No caso em concreto do cinema de artes marciais, tal premissa deu origem a obras emblemáticas como “Fist of Fury”, “Fist of Legend”, “Fighter in the Wind” e “Fearless”, tendo desta forma quase nascido um subgénero no meio. “Ip Man” é uma obra que se enquadra bastante na linha anteriormente mencionada, tendo inclusive uma cena no dojo em que o mestre chinês dá uma verdadeira lição de pancadaria a um grupo de japoneses. O paralelo é fácil de se aperceber para os mais informados na matéria, não fossem existir cenas parecidas em “Fist of Fury” ou “Fist of Legend”, cujos intervenientes foram Bruce Lee e Jet Li, respectivamente. O nacionalismo está bastante presente, evidenciando-se em vários momentos. “Ip Man” é um herói chinês que recusa a vergar-se perante a opressão que lhe está a destruir o país e subsequentemente a vida. Podemos ver o mestre a tomar diversas atitudes de resistência contra a dominação japonesa, e até contra as aproximações mais amigáveis destes. Exemplo disto é a recusa do pedido do general “Miura” por parte de “Ip Man”, e que consistia em ensinar Wing Chun aos soldados nipónicos. Consta que esta parte não tem nada de mito, mas aconteceu mesmo na realidade, salvaguardando-se desta forma algum rigor histórico.

"Ip Man em acção"

As cenas de acção estão extremamente felizes, com um Donnie Yen numa forma invejável aos 45 anos. A situação só pode melhorar com a coreografia a cargo do insuspeito Sammo Hung, com uma vastíssima e por demais conhecida experiência na matéria. As entusiasmantes cenas de artes marciais estão bem temperadas com a parte mais dramática da trama, fazendo com que os combates não sejam insípidos e plenamente justificados face às circunstâncias. Cumpre dizer que Yen é bem secundado por actores que detém experiência no domínio das artes marciais, como são Louis Fan e Hiroyuki Ikeuchi, sendo este último um cinturão negro em judo.

Donnie Yen, exibe-se num bom plano, e atrever-me-ia a dizer que é dos papéis mais bem conseguidos da sua carreira. Justifico-me pelo facto de normalmente associarmos Donnie Yen às personagens exclusivamente de acção, em que lhe é apenas exigido que se exiba num bom plano a nível do seu inquestionável domínio das artes marciais. Aqui é-lhe imposto algo mais. Yen tem de aliar a parte física à parte mais representativa que ligamos a um actor dito mais convencional. O resultado foi bastante satisfatório. Donnie Yen sem deslumbrar, demonstra que não é apenas um dos melhores executantes de filmes de acção a nível mundial, mas também é capaz de se adaptar a papéis onde efectivamente tem de agir a um nível mais erudito. Na minha opinião, este mito de Hong Kong precisava de um papel assim, nem que fosse para desmistificar algum estereótipo que lhe havia sido colocado. O próprio Donnie Yen haveria de confessar que este tinha sido o trabalho mais difícil da sua profícua carreira. Além de estar meses a preparar-se mentalmente para representar Ip Man, Yen entrou numa dieta exigente de vegetais e consumia apenas uma refeição diária. Treinou imenso Wing Chun e estudou arduamente a vida de Ip Man, de forma a se embrenhar melhor na personagem.

Um dos pontos bem conseguidos de “Ip Man”, é que ao lado de Yen, Fan e Hikeuchi, despontam bons actores, com provas dadas na representação em filmes de géneros distintos do das artes marciais. Gordon Lam possivelmente é o que se sai melhor. O seu papel de um ex-polícia, que se torna um tradutor para os japoneses (e por este motivo, visto como um traidor), é profundo e bem executado. Sentimos as dúvidas que Lam sente ao longo do filme, e o seu desempenho faz-nos questionar acerca da reacção que teríamos numa situação semelhante. Por este motivo, acabamos por justificar muitas das suas acções, e no fim, de uma forma diversa, o heroísmo de Lam acaba por ser quase tão grande como o do próprio Donnie Yen. Igualmente não se pode esquecer a presença do competente e emblemático actor Simon Yam, que se exibe num nível aceitável, embora não dê tanto nas vistas como o já citado Gordon Lam.

Com uma bela banda-sonora do conhecido compositor japonês Kenji Kawai, “Ip Man” constitui uma agradável surpresa e um marco na carreira, tanto do realizador Wilson Yip, como do mítico Donnie Yen. É certo que falha bastante (pelo menos, atendendo ao que li) como biografia do verdadeiro Ip Man, mas ganha no entretenimento e no enredo ficcionado. É pois, com alguma ânsia, que se aguarda “Ip Man 2”, esperando que se enverede pela mesma linha do primeiro filme, onde a acção está bem temperada com o drama. E sempre teremos a oportunidade de ver quem é que Donnie Yen vai desancar em Hong Kong, já que não terá os japoneses como alvo a abater. E sim, como já referi acima, vamos ter como uma das personagens um miúdo chamado Bruce Lee, a dar os primeiros passos na direcção da sua saga no mundo das artes marciais. A curiosidade aumenta ainda mais, quando Wong Kar Wai está a preparar o seu próprio “biopic” do mestre e que terá Tony Leung Chiu Wai como protagonista principal. Desconfio, e tenho a certeza que não estou sozinho neste particular, que iremos nos deparar com uma abordagem completamente distinta da vida de “Ip Man”, provavelmente mais contemplativa e incidente sobre outros aspectos ditos mais existencialistas e dramáticos. Quanto a este “Ip Man”, é sem margem para qualquer dúvida, uma boa obra do cinema de Hong Kong, que entusiasma e, por essa via, merecerá uma atenta espreitadela.

Bom filme!


"O general Miura Vs. Ip Man"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 7,88




quarta-feira, julho 29, 2009

Eleição 2/Election 2/Hak se wui yi wo waa kwai - 黑社会:以和为贵 (2006)
Origem: Hong Kong
Duração: 88 minutos
Realizador: Johnnie To
Com: Louis Koo, Simon Yam, Wong Tin Lam, You Young, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Mark Cheng, Andy On, Tam Ping Man
"Jimmy Lee"

Atenção! Spoiler!

“Eleição 2” é a sequela de “Eleição”, filme já anteriormente criticado neste espaço AQUI. Pelo exposto, o texto abaixo poderá conter “spoilers” em relação ao primeiro filme. Se não viu ainda “Eleição”, não deverá continuar a ler este escrito.

Sinopse

Dois anos após “Lam Lok” (Simon Yam) ter saído vitorioso sobre “Big D” (à altura interpretado por Tony Leung Ka Fai), na disputa sobre o comando da tríade Wo Sing, é tempo de eleger um novo líder para a organização, considerando que o mandato está a chegar ao fim. A liderança de “Lok” foi considerada bastante positiva, mas a tradição exige que se mude de chefe de dois em dois anos. Os candidatos que se chegam à frente são “Kun” (Gordon Lam) e “Jet” (Nick Cheung), mas ambos revelam ser marionetas de “Lok”. Por outra via, existe uma falange forte da tríade que pretendia que “Jimmy Lee” (Louis Koo) assumisse os destinos da Wo Sing, mas este apenas importa-se com os seus negócios pessoais.

"Lam Lok"

Na realidade, “Lok” não se mostra predisposto a deixar o lugar de chefe da tríade, e começa em maquinações para renovar o seu mandato, desafiando todas as regras da organização. Acontece que “Jimmy Lee” recebe um golpe muito duro nos seus proveitosos ganhos, quando o inspector chinês “Xi” (You Young) lança-lhe um ultimato, afirmando que ele só poderá continuar no seu negócio dos dvd piratas, se obtiver uma posição mais importante no “ranking” da tríade. Face a esta perspectiva das coisas, “Jimmy Lee” entra na corrida para líder da Wo Sing. Cedo, “Lok” e “Jimmy Lee” convencem-se que a única forma de serem eleitos, é matarem o rival. Uma batalha sangrenta tem o seu início.

"Jet"

"Review"

Um ano após o sucesso de “Eleição”, um dos mais importantes filmes acerca do quotidiano das tríades, Johnnie To daria corpo a “Eleição 2”, uma película que visa concluir de certa forma os eventos passados na primeira obra, assim como selar o destino tanto de “Lok”, como de “Jimmy Lee”, tendo esta última personagem um protagonismo central na história. “Eleição” constituiu um marco na compreensão do “modus operandi” das organizações do submundo do crime de Hong Kong, tendo demonstrado ser um bom produto de entretenimento, mas igualmente imbuído de um factor cultural bastante assinalável. “Eleição 2” faz jus à notoriedade do seu predecessor, e encarna muito do espírito do primeiro filme. Simplesmente, entendo que consegue ser, na generalidade, uma película mais violenta e brutal. A cena do canil é bastante ilustrativa deste aspecto.

A guerra que a certa altura desencadeia-se entre os outrora aliados “Lok” e “Jimmy Lee”, é um conflito sem quartel e que impressiona imenso o espectador. À semelhança da primeira película, o conflito não é corporizado em gloriosos “stand off” à John Woo ou batalhas infernais onde as saraivadas de balas ditam a lei. Os confrontos são travados com argúcia e engenho, onde as movimentações nos bastidores do crime e as jogadas políticas marcam o passo. E quando se passam a coisas mais sérias, de um ponto de vista de acção, a mesma é exposta de uma forma crua e fria, mas muito mais palpável e realista. A tensão é enorme, pois sentimos que apesar de muito do que nos é apresentado passar pelo jogo duplo da traição, a presença do “banho de sangue” está sempre presente e poderá emergir a qualquer momento. Não existem causa justas, ou qualquer espaço para a moralidade. O que subjaz passa apenas por conseguir os objectivos, e usar as pessoas como meros peões para a obtenção do prémio máximo. “Os fins justificam os meios”, já dizia Nicolau Maquiavel, e “Eleição 2”, encarna muito bem esta premissa. Tanto “Lok”, como “Jimmy Lee” não vão em pruridos, e dá-se um autêntico embate de gigantes onde, inevitavelmente, só um poderá sobreviver.

"Lam Lok, rodeado dos membros da tríade"

À semelhança igualmente do primeiro filme, em “Eleição 2” não existem heróis, embora se reconheça alguma simpatia não desmedida pela causa interesseira de “Jimmy Lee”. No meio de tanto fora-da-lei, sempre se poderá tomar algum partido. Contudo, não repugnará que alguns fiquem do lado de “Lok”, desafiando as tradições instituídas e criticando os motivos de “Jimmy Lee” no ataque à liderança. No meio de tanta amoralidade, e alguma imoralidade, com certeza que eventualmente haverá algum partidário da lei e da ordem, que pugnaria pela extinção completa da tríade Wo Sing, e das suas actividades criminosas. Mas esta questão é claramente secundária. O que interessa é que, mesmo sem conhecimento prático de causa, é minha firme convicção que Johnnie To conseguiu capturar o verdadeiro espírito da vivência das tríades, tornando a saga “Eleição”, um documento de reputável interesse.

“Eleição 2” continua o bom trabalho evidenciado na primeira obra, e um dos seus grandes méritos foi não cair na tentação que muitas sequelas infelizmente prosseguiram. Ambos os filmes foram provavelmente os maiores feitos do género “tríade” dos últimos anos. Não caem na tentação da violência fácil. Outrossim, tentam nos imbuir num espírito mais realista no sentido de percebermos o que realmente são as organizações do submundo de Hong Kong e o seu impacto na sociedade. Por outra via, To teve o condão de reunir um grupo de actores que perceberam efectivamente qual o espírito da película e a interpretam muito bem. No caso particular de Louis Koo, estamos perante um dos melhores papéis da carreira do actor. No fim, só resta declarar que a mensagem da primeira película, mantém-se essencialmente a mesma. Há quase sempre alguém que nos suplanta em algo, assim como, de uma forma ou outra, todos somos vítimas dos nossos próprios desígnios. Nas tríades, pelos vistos e em razão da sua natureza intrínseca, estas realidades têm um campo natural de aplicação!

A ver, juntamente com “Election”, num “2 em 1” eivado de qualidade!

"O Tio Teng"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Eleição/Election/Hak se wui - 黑社会 (2005)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Johnny To

Com: Simon Yam, Tony Leung Ka Fai, Louis Koo, Wong Tin Lam, Lam Suet, Eddie Cheung, Nick Cheung, Gordon Lam, Maggie Siu, David Chiang, Berg Ng, You Yong, Yuen Bun, Raymond Wong, Tam Ping Man, Wong Chung, Chan Siu Pang

"Lam Lok"

Sinopse

Numa Hong Kong com mais de 300.000 membros de tríades, a organização mais respeitada, denominada “Sociedade Wo Sing”, está prestes a eleger um novo líder, e tudo parece resumir-se à escolha entre “Lam Lok” (Simon Yam) e “Grande D” (Tony Leung Ka Fai). Este último começa a subornar os “tios”, que são os membros mais antigos da tríade e responsáveis pela escolha do chefe. Contudo, as pretensões de “Grande D” são barradas por “Teng” (Wong Tin Lam), um homem idoso que é o membro mais respeitado da “Wo Sing” e que apela à unidade da organização em detrimento dos jogos de bastidores. Em consequência, “Lok” acaba por ser apontado como o responsável máximo do grupo criminoso.

"Grande D"

Acontece que a eleição de “Lok” só estará completa quando este possuir o ceptro da “Cabeça do Dragão”, o símbolo usado pelo líder da “Wo Sing” e representativo da sua autoridade. “Grande D”, ciente desta premissa, tudo faz para impedir que o artefacto seja entregue a “Lok”. Com todos os membros da tríade a tomar partido, ora por “Lok”, ora por “Grande D”, a guerra pelo poder dentro da organização parece ser inevitável.

"Os Tios procedem à eleição do líder da tríade Wo Sing"

"Review"

“Eleição” é um dos filmes mais conhecidos de Johnny To e dos produtos mais bem sucedidos da sua companhia, a conhecida “Milkyway". Foi uma película que causou imensa sensação nos circuitos cinematográficos, tendo vencido nove prémios, divididos pelos “Golden Horse Awards”, os “Hong Kong Film Awards”, e Sitges, o conhecido festival internacional de cinema catalão. Viria ainda a concorrer para o galardão máximo de Cannes, a “Palma de Ouro”, mas aí viria a ser ultrapassado por “L'Enfant”, dos irmãos Dardenne (Jean-Pierre e Luc). Quentin Tarantino é um professo admirador desta longa-metragem, e viria a contribuir na edição de DVD norte-americana, onde pontificava a sua citação “o melhor filme do ano”. Quer se goste ou se recrimine, uma coisa é certa. É praticamente inquestionável que “Eleição” é dos mais emblemáticos, senão o mais importante filme do género “tríade” dos últimos anos.

Um dos grandes méritos desta obra é elucidar-nos sobre o “modus operandi” das tríades de um ponto de vista mais conceptual e educativo. “Eleição” faz-nos interiorizar o aspecto “político” essencial na vivência do crime organizado de Hong Kong, que passa muito pelo aspecto negocial onde se pretende um certo equilíbrio e onde todos podem lucrar com as actividades ilícitas. Trata-se de um jogo que ocorre não só entre os elementos das tríades, mas igualmente com a polícia que revela deter grande interesse no evitar de conflitos entre os “gangsters”. Temos igualmente a hipótese de observar os rituais ancestrais das tríades, com todo o simbolismo associado às cerimónias de iniciação e às juras de fidelidade entre os seus membros. É um dos ritos destas organizações criminosas, a saber, o processo de escolha do líder, que constitui o cerne da trama. Tal “eleição” poderá variar entre um processo de votação oligárquico, como é o caso da tríade Wo Sing (“empresa” sobre a qual gravita a película), ou por um sistema monárquico onde um familiar sucede a outro, como aprendemos que acontece noutras tríades. Tudo sucede como se estivéssemos a dissertar sobre os multi-variados sistemas de governação das nações, com os seus próprios processos de “checks and balances” ao melhor estilo dos politólogos John Locke ou Montesquieu.

"Luta nas ruas de Hong Kong"

É certo que as traições, o jogo duplo e a violência são inevitáveis, mas “Eleição” não cai na tentação fácil de se transformar num “gun fu” no inimitável estilo das conhecidas obras de John Woo. Por força desta asserção, a obra revela uma identidade própria e distintiva, que consegue ser extremamente apelativa e verosímil. É aqui que reside a força do filme. Aliás, para termos uma ideia da forma como o confronto entre os membros das tríades é abordado nesta obra, não existe praticamente nenhum duelo de balas. Tudo é tratado com o máximo realismo e crueza, com agressões “mano a mano”, onde os punhos e os pés (sem recurso a técnicas de artes marciais), os facalhões, as garrafas de "whisky" e outros utensílios primários ditam a lei.

Os “jogos de poder” e a duplicidade das estratégias evidenciadas, necessariamente têm de se reflectir na forma de actuação das personagens. Sem querer desvendar demasiado o enredo, sempre se dirá que o espectador terá de estar preparado para alguns volte-faces na história, onde quem parecerá estar imbuído de “boas intenções” (passe a expressão) revela um carácter frio, sanguinário e calculista, e por outra via, quem se assemelha ao que mais associamos ao “mafioso” típico, é quem cede e acaba por ser vítima dos seus próprios desígnios, quando as coisas parecem estar bem encarreiradas. É a estratégia de Maquiavel, exteriorizada na sua obra e verdadeiro guia político, “O Príncipe”, posta em prática religiosamente. Os actores Simon Yam e Tony Leung Ka Fai desempenham com bastante competência os seus papéis, mas são verdadeiramente os intérpretes que têm os papéis secundários, mormente Louis Koo e o obeso Wong Tin Lam, que fazem as maiores despesas a nível de representação, carecendo apenas de falta de minutos. Espectacular é a actuação de Nick Cheung, no papel de “Jet” (“Cabeça de Peixe” na versão portuguesa), o pequeno traficante de droga, que revela um pendor eléctrico, maníaco e violento ao nível de um Jacky Cheung nos seus melhores dias.

“Eleição” constitui uma das numerosas boas produções que os estúdios “Milkyway” têm dado a conhecer ao grande público, e que de alguma forma têm defendido a honra do cinema de Hong Kong que, diga-se de passagem, já passou melhores momentos. É um filme que assenta num espectro político interessante, para além de ser extremamente informativo para aqueles que se interessam pelo submundo daquela região administrativa chinesa (esperemos que de um ponto de vista estritamente teórico). Consegue dosear estes aspectos, utilizando uma violência que se afigura necessária, mas longe de ser gratuita. Aliando-se todos estes factores a uma realização e interpretação bem conseguidas, uma cinematografia de elevada qualidade e a momentos emblemáticos assinaláveis, não se poderá pedir muito mais. Talvez lhe fique a faltar apenas um pouco mais de alma e aposta nas interessantíssimas personagens secundárias.

Poderá não ser um filme de “eleição”, mas fica bem lá perto!

"A cerimónia de fidelidade"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





sexta-feira, janeiro 16, 2009

Mad Detective/Sun taam - 神探 (2007)
Origem: Hong Kong
Duração: 91 minutos
Realizadores: Johnny To e Wai Ka Fai
Com: Lau Ching Wan, Andy On, Kelly Lin, Gordon Lam, Lee Kwok Lun, Karen Lee, Flora Chan, Eddie Cheung, Eddy Ko, Lam Suet, Jo Koo, Wong Wah Ho, Jay Lau
"Bun, the Mad Detective"
“Bun” (Lau Ching Wan) é um ex-inspector, que foi expulso da polícia devido a alegadamente ter problemas mentais. Para muitos era considerado um investigador genial, mas os seus métodos tinham tudo menos de ortodoxo, essencialmente devido a tentar recriar os homicídios que tinha a seu cargo. Essencialmente, “Bun” tentava interiorizar os sofrimentos das vítimas ou agir como os homicidas, devido a ter a melhor percepção acerca da complexidade dos casos. A tolerância para “Bun” findou no dia em que o mesmo mutila parte da sua orelha e oferece ao seu superior hierárquico como presente de reforma.
"Da esquerda para a direita, o agente Ho e o principal suspeito Chi Wai"
Cinco anos mais tarde, o agente “Ho” (Andy On) investiga o intrincado desaparecimento de um colega da polícia, sem conseguir obter resultados. Ciente do génio de “Bun”, decide solicitar o auxílio deste no caso. Cedo, começa a arrepender-se da ideia, pois “Bun” parece ter enlouquecido ainda mais, falando com pessoas supostamente imaginárias e provocando uma série de problemas por todo o lado onde passa. Contudo, “On” começa aperceber-se do real dom de “Bun”. Pelos vistos, este tem o poder de conseguir identificar as múltiplas personalidades que residem numa pessoa, que a seus olhos são corporizadas em seres de carne e osso. As provas parecem apontar para “Chi Wai” (Gordon Lam) que tem nada mais, nada menos, que sete personalidades múltiplas, todas bastante distintas.
"Bun recria um dos comportamentos do suspeito"
Sinopse

A “Milkyway”, uma conhecida empresa de produção de filmes fundada por Johnnie To em 1996 (site oficial AQUI), foi indubitavelmente uma das coisas boas que aconteceu ao cinema de Hong Kong nos últimos anos. Digo isto, pois desde a sua fundação, várias obras renomadas e de boa qualidade tiveram o selo daquela produtora, das quais destacaria mais por ser do meu conhecimento pessoal e agrado “The Mission”, “Needing You...”, “Exiled” e os dois “Election”. Foi com alguma expectativa que ansiava tomar contacto com “Mad Detective”, não apenas pelo excelente “feedback” que o filme possuiu perante a crítica mais especializada, mas igualmente por ter sido um nomeado para o “Leão de Ouro”, a mais alta distinção que um filme pode obter no conceituado festival de Veneza. Outros factores de interesse passavam pelo facto de consagrar uma nova reunião entre dois realizadores de inspirações distintas, Johnnie To e Wai Ka Fai, que não trabalhavam juntos na direcção desde “Running On Karma” (2003), assim como marcava o regresso do actor Lau Ching Wan aos filmes de To, facto que não ocorria desde o ano de 2002, com “My Left Eye Sees Ghosts”. Mesmo tendo recebido uma classificação para maiores de 18 anos em Hong Kong, a película não deixou de ser um sucesso de bilheteira na sua terra de origem, granjeando um grande interesse junto de muitos espectadores.

“Mad Detective” prima pela positiva em muitos aspectos, mas é sem dúvida a magistral interpretação do grande Lau Ching Wan que sobressai. O actor, que pessoalmente admiro bastante e é um favorito de To, consegue oferecer-nos uma interpretação maravilhosamente equilibrada na representação de um “desiquilibrado”, balançando extremamente bem os momentos em que precisa de exteriorizar a loucura e a esquizofrenia, com a comicidade e a veia trágica. A performance de Lau Ching Wan consegue verdadeiramente marcar o estado de espírito de quem visiona esta longa-metragem, sendo capaz de tanto nos pôr a meditar, como a rir ou a simpatizar com a sua contínua progressão para um caminho sem retorno chamado “decadência pessoal”. Os restantes actores aparecem em bom plano, mas é óbvio que empalidecem perante a grandeza de Ching Wan. Mesmo assim, sempre se dará alguma parte do destaque a Andy On, no papel do jovem detective “Ho”, pois frequentemente aquele actor é associado mais à faceta “quebra-corações” (própria de intérpretes sem substância como Nicholas Tse), do que propriamente às suas qualidades artísticas. Andy On, sem deslumbrar, consegue ser um competente “sidekick” de Lau Ching Wan.

"O imaginário de Bun necessariamente reflecte-se na sua vida pessoal"

Na esteira do propalado comportamento “anormal” de “Bun”, Johnny To e Wai Ka Fai mantêm fluídos os 91 minutos de duração da película, tornando-a extremante interessante. Existiu uma opção extremamente feliz neste domínio e que passou pela escolha de uma multiplicidade de personagens para representar as diversas facetas de determinada pessoa, sob a perspectiva esquizofrénica de “Bun”. A interacção entre o detective e as diversas personalidades de “Chi Wai”, o principal suspeito dos assassinatos é, à falta de melhor expressão, genial. Some-se este aspecto aos devaneios pessoais de “Bun”, essencialmente relacionados com a relação que tem com a esposa, e os seus métodos nada ortodoxos na investigação dos crimes, e temos meio caminho andado para nos apercebermos de uma coisa extremamente importante. Estamos perante uma das melhores obras que Hong Kong produziu nos últimos anos, e quiçá, a nível global, das mais competentes que evocam a ténue fronteira entre o imaginário e a realidade. O argumento que viria a ser premiado na 27ª edição dos HK Film Awards (2008) é extremamente forte e bem conseguido, como parece ser apanágio dos escritores ao serviço da Milkyway, e constitui outra das chaves-mestra da película. Este aspecto apenas vem reforçar a qualidade desta obra.

Com uma efectividade tremenda perante aqueles que se interessam por filmes que abordam os meandros da natureza humana, “Mad Detective” revela ser uma longa-metragem que satisfaz plenamente. Tem ritmo, mistério, acção e suspense o suficiente para prender a nossa atenção até ao fim. Para além destes aspectos em concreto, revela ser uma película inteligente na maneira como associa os devaneios de um ser lunático, despertando-nos uma diversidade de sensações que irão desde o riso, até à pena ou a compreensão. Eu e as minhas personalidades escondidas (se é que tenho algumas) definitivamente aconselhamos este filme a toda a gente! E já agora não custa repetir que Lau Ching Wan é mesmo grande e está a milhas de distância da maior parte dos seus conterrâneos que despontam na cinematografia de Hong Kong (Tony Leung Chiu Wai e mais alguns à parte) !

A não perder!

"O standoff final"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial (Reino Unido)

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





quinta-feira, abril 17, 2008

Jiang Hu - Irmãos de Sangue/Jiang Hu - Blood Brothers/Gong Wu -
江湖 (2004)

Origem: Hong Kong

Duração: 82 minutos

Realizador: Wong Ching Po

Com: Andy Lau, Jacky Cheung, Shawn Yue, Edison Chen, Chapman To, Jacqueline Wu, Eric Tsang, Norman Tsui, Miu Kiu Wai, Gordon Lam, Gia Lin, Lam Suet, Kara Hui, Xiao Hai, Ha Ping, Tony Ho, Iris Wong, Donna Chu

"Hung e Esquerdino"

Sinopse

Na noite em que a sua mulher (Jacqueline Wu) dá luz a um filho, “Hung” (Andy Lau), um chefe de uma poderosa tríade de Hong Kong, apercebe-se que a sua vida mudou. O seu melhor amigo e homem de confiança “Esquerdino” (Jacky Cheung), tenta convencer “Hung” a se exilar nas Filipinas com a família, e a entregar-lhe a liderança da organização.

“Esquerdino”, confiante que “Hung” acederá aos seus desejos, manda assassinar outros 3 líderes das tríades, de forma a que o seu reino seja total e indisputado. “Hung” descobre os objectivos de “Esquerdino”, e por sua vez tenta boicotar os planos de assalto ao poder daquele. Ao mesmo tempo, é dado a conhecer a “Hung” que nas próximas doze horas alguém tentará matá-lo. Como o homicídio foi encomendado a uma pessoa completamente desconhecida, “Hung” não tem outro remédio senão aguardar pelo assassino, em ordem a eliminá-lo.

"Yik e Yoyo"

Paralelamente e numa esfera muito mais modesta de criminalidade, dois jovens delinquentes chamados“Yik” (Shawn Yue) e “Turbo” (Edison Chen), tentam singrar no submundo de Hong Kong, sendo-lhes encomendado um assassinato de um poderoso chefe mafioso. A tarefa parece ser praticamente impossível, mas “Yik” está determinado a provar o seu valor e levar o trabalho até ao fim.

As ruas de Hong Kong estão em tumulto, e prontas a reclamar vítimas...

"Turbo em dificuldades"

"Review"

O merecido sucesso do fenomenal “Infiltrados” e das suas duas sequelas, deram um inspirante fôlego aos filmes de tríades “made in Hong Kong”. “Jiang Hu – Irmãos de Sangue”, é um dos filhos da prole de “Infiltrados”, dando-se inclusive ao verdadeiro luxo de repetir alguns dos actores que pontificaram naquela obra-prima do bom cinema. Falamos de Andy Lau, Eric Tsang, Shawn Yue, Edison Chen e Chapman To, grandes figuras da cena cinéfila daquelas paragens, em especial os dois primeiros. Junte-se o consagrado Jacky Cheung, que não contracenava com Andy Lau desde “As Tears Go By”, de Wong Kar Wai, e teremos um grupo extremamente forte, seguro e coeso, que prometia um filme de qualidade acima da média.

Mais vale ir directo ao assunto, e afirmar desde logo que algo não correu bem. Também convém ser sincero e assumir, sem qualquer tipo de rodeio, que a opinião aqui veiculada sobre “Irmãos de Sangue” é claramente minoritária. A grande maioria daqueles que na net se dedicam ao cinema asiático, pugnam pela elevação da obra.

A fórmula do jovem que quer ascender no mundo do crime organizado, ao mesmo tempo que um chefe consolidado enfrenta a sua decadência está gasta. Foi um uso e abuso de uma ideia de sucesso, que acabaria por redundar na sua inevitável saturação. Existem até filmes que gozam com este tipo de argumento, tais como “Jiang Hu – The Triad Zone”, com Tony Leung Ka Fai. “Irmãos de Sangue” acaba por bater na mesma tecla, embora de uma forma mais intimista. Eu não digo que a intenção não fosse boa, e até existem momentos do filme que prometem algo de distinto no sentido positivo. Prometem...nunca concretizam.

"Esquerdino enfrenta o perigo à chuva"

A duração da película, diga-se em abono da verdade, não ajuda muito. Uns míseros 82 minutos (regra geral, com várias excepções, gosto dos mais ou menos dos filmes com 120 minutos), não dão para grande coisa. Mas é preciso reconhecer que o tempo limitado, poderá muitas vezes ajudar a distinguir um bom realizador (e a sua equipa é claro), doutro mediano ou medíocre. A capacidade de separar o essencial do acessório, é uma virtude da vida em geral, e do cinema em particular. Tal não constitui segredo para ninguém, nem eu descobri a pólvora de certeza. No entanto, quando temos uma “longa-metragem” (será ?), em que muitos desses tais 82 minutos são feitos de “slow motion” e aposta na estética em geral, é quase certo que não restará bastante para contar. Claro que temos os diálogos mantidos entre “Hung” e “Esquerdino” durante um jantar a dois, que têm o condão de serem algo insípidos, retirando uma ou outra parte que nos desperta o interesse. Não existindo uma boa gestão do escasso tempo disponível, a necessária empatia que temos de criar com as personagens sai deveras prejudicada. A certa altura, estava a focar as minhas esperanças, qual bóia de salvação, no relacionamento entre “Yik” e a prostituta “Yoyo” (interpretada pela actriz Gia Lin). Existem cenas bem conseguidas entre ambos, e que apelam para o nosso sentimento (significativo aquele abraço numa rua deserta à noite). Contudo, tal prazer é fugaz, e entrámos outra vez no marasmo e no desinteressante.

É certo que existe alguma acção que é de relevar. Com certeza que a interpretação de Shawn Yue, no papel do assassino votado à tragédia, merece algum reconhecimento. À fotografia deverá, igualmente, ser votado algum destaque, sendo-nos apresentado uns planos nocturnos muito intensos e que marcam de alguma forma a nossa impressão do filme, embora seja uma agradável superficialidade. A luta de rua final prometia imenso, mas quando vejo duas pessoas a defenderem-se de um bando enorme de rufias, uma com um guarda-chuva, outra com um lenço daqueles de pôr à volta do pescoço, e mesmo assim arrumarem uma dúzia...para mim já é demais! Não estamos a falar de um “wuxia”, povoado de guerreiros com poderes sobre-humanos a desafiar as leis da gravidade. E não me venham com as tretas do simbolismo, pois verdadeiramente o que se pretendeu foi acentuar o dramatismo em série e irreal, já agora recorrendo a mais uns “slow motion”.

Salva-se acima de tudo e a título de consolação, o epílogo do filme. Confesso que fui apanhado de surpresa, ou porque andava distraído, ou então pelo facto de certos aspectos da película terem sido muito bem ocultados. Vou dar uma o benefício da dúvida a mim mesmo, e optar pela segunda hipótese. Neste aspecto, tenho de dar o braço a torcer, e admitir que somos encaminhados para uma determinada direcção, e no fim desembocamos num destino completamente diverso. Não estou a falar daqueles epílogos pseudo-intelectuais, que têm mais de idiotice do que propriamente material de qualidade para discutir. Estamos no campo do “Ah, isto até faz sentido!”.

“Jiang Hu” poderá ser livremente traduzido como submundo. Como este filme é apreciado por tantos e bons críticos de cinema asiático, faz com que um enigma existencialista nasça dentro do meu ser...e deixa-me na penumbra...

"A morte grassa nos passeios"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 7