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domingo, dezembro 27, 2009

Goemon (2009)

Capa

Origem: Japão

Duração aproximada: 128 minutos

Realizador: Kazuaki Kirya

Com: Yôsuke Eguchi, Takao Osawa, Ryoko Hirosue, Jun Kaname, Gori, Mikijiro Hira, Masato Ibu, Hashinosuke Nakamura, Eiji Okuda, Susumu Terajima

Goemon

Goemon”

Sinopse

Em 1582, o nobre mais poderoso do Japão “Oda Nobunaga” (Hashinosuke Nakamura) é vítima de um assassinato, sendo sucedido pelo seu principal general “Toyotomi Hideyoshi” (Eiji Okuda). Apesar de existir uma pacificação quase geral do país, o fosso entre ricos e pobres é imenso, e a miséria grassa um pouco por toda a parte. O ninja e mestre dos ladrões “Goemon” (Yôsuke Eguchi) , tem por objectivo principal roubar aos ricos e distribuir o produto dos seus furtos pelos mais pobres. Numa das suas peripécias, “Goemon” apodera-se de uma aparentemente inofensiva caixa, mas que revela ser um artefacto de grande importância.

“Mitsunari” (Jun Kaname), um dos mais influentes administradores de “Toyotomi”, desesperado por reaver a caixa, encarrega o poderoso ninja “Saizo” (Takao Osawa) de perseguir o seu amigo de infância “Goemon”. Contudo, o herói consegue se furtar às tentativas de “Saizo” e acaba por entregar a misteriosa caixa ao lendário “Hattori Hanzou” (Susumu Terajima), o maior mestre ninja que o mundo jamais viu.

Chacha 2

Lady Chacha”

Na posse do segredo revelado pela artefacto outrora em seu poder, memórias cruéis de infância retornam à mente de “Goemon”, e este parte numa cruzada de vingança contra aqueles que assassinaram o seu amado mentor “Oda Nobunaga”, mesmo que tenha de sacrificar o amor que sente por “Chacha” (Ryoko Hirosue). O destino do próprio Japão estará em jogo, e uma nova era de poder governamental ficará decidida.

Saizou

Saizou”

Review”

Quando visionei “Casshern”, a película de estreia do realizador Kazuaki Kirya fiquei impressionado por diversos motivos. Para além de ter efeitos especiais de elevadíssima qualidade, possuía um argumento deveras interessante, bem elaborado e articulado, que me atraiu imenso devido à multiplicidade de temas relevantes com que lidava. Cinco anos depois, Kirya lança-se numa segunda obra que igualmente colheu muito a minha atenção. Não só pela feliz experiência anterior, mas igualmente por tratar de uma época que me apraz imenso, ou seja, a transição do período Sengoku, para a época de Azuchi-Momoyama e por fim para o xogunato Tokugawa. O mesmo será dizer que em “Goemon” é abordado, os governos de Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu, três das figuras mais relevantes da odisseia do país do sol nascente. Numa investigação mais aturada, conclui que praticamente todos os intervenientes de “Goemon” existiram ou são alvos de lendas, como próprio herói da trama, uma espécie de “Robin Hood” da zona (Ishikawa Goemon). Embora se reconheça que tal facto possa levantar dificuldades para aqueles que não estejam minimamente familiarizados com a história do Japão desta altura, sempre se dirá que não consigo imaginar melhor possibilidade para um grande argumento do que a atrás retratada. Atendendo ao meu gosto pessoal, é claro.

Em jeito de adiantamento em relação às conclusões digo que fiquei um pouco desiludido, e as minhas expectativas saíram algo goradas. O desenrolar da trama é algo descurado, e poderia ter sido francamente melhorado, face aos predicados descritos no anterior parágrafo. A apreciação positiva neste particular, derivará sobretudo do quão interessante é sempre arriscar no período feudal japonês, assim como alguns tópicos que são positivamente desenvolvidos. É normal que, atendendo à anterior experiência de Kirya, o enfoque fosse dado nos efeitos especiais e na espectacularidade, ou seja, é notório que se pretendia transformar esta película numa grande experiência visual. Por outra via, denota-se que todos os combatentes do filme possuem poderes para além da imaginação, o que transforma os combates em experiências excitantes, embora algo exageradas. Digamos que, neste particular, será um “wuxia” de Zhang Yimou multiplicado por dez. Isto não quer dizer que a qualidade seja superior, apenas que as hipérboles visuais estão constantemente presentes. Em suma, o CGI aqui dita as leis, por vezes com bons resultados, outras nem por isso.

Mitsunari

Mitsunari”

Outro aspecto com os seus altos e baixos passa pelo guarda-roupa. Deparámo-nos com um vestuário, manancial bélico e uma caracterização absolutamente fenomenal em variados momentos. Pessoalmente, aqui destaco o figurino do senhor feudal Oda Nobunaga, que bate os restantes aos pontos. No entanto, e até tentando compreender algum tipo de inovação, achei de algum exagero o uso de armas de fogo, com modelos que não eram vulgares no Japão da altura. Mesmo que Kirya tenha tentado uma justificação, com o apaziguamento que os cristãos ocidentais tentavam perante os senhores feudais japoneses (nota: é um facto histórico consolidado que o Toyotomi Hideyoshi não era afã do credo católico), a desproporcionalidade é mais do que evidente. Confesso eventualmente que esteja a tomar uma posição um pouco extremista, em detrimento de uma das funções que considero primordiais no cinema, ou seja, o entretenimento. Mas igualmente não acompanhei a ideia de Kirya em substituir as tradicionais armaduras dos samurais, por outras que mais se assemelham às dos cavaleiros europeus da idade média. E achei quase escandaloso, no conflito final que presumo ser uma reprodução da batalha de Sekigahara, o facto de ambos os exércitos usarem armaduras que em muito se assemelham às dos soldados do império na saga “A Guerra das Estrelas”. É um facto conhecido que George Lucas se inspirou no material bélico e ambiente do Japão feudal, para dar corpo a muitas das suas criações na famosa primeira trilogia. Isto não obvia a que em “Goemon”, mesmo assim, tudo pareça algo descontextualizado.

No que concerne à actuação dos actores, sempre se dirá que Takao Osawa, no papel do ninja “Saizo”, e Eiji Okuda, a quem coube representar “Toyotomi Hideoshi” são aqueles que se exibem em melhor nível. Merece igualmente uma palavra de apreço o actor Hashinosuke Nakamura, que rebenta as costuras de estilo como o senhor feudal “Oda Nobunaga”, que apenas pecará pela falta de minutos. O restante do “cast” tem os seus altos e baixos, principalmente Yôsuke Eguchi que personifica “Goemon”, o herói da história.

Quem procura entretenimento ao máximo, e não se importa com alguns efeitos especiais exagerados (embora outros absolutamente formidáveis), “Goemon” é um “blockbuster” japonês mais do recomendado. Agora o certo é que a aura mais de “videogame”, do que propriamente de filme, faz com que “Goemon” não destoasse nada numa “Playstation” ou outra consola do género.

A ver, mas sem expectativas exageradas.

No local especial

Num local especial”

imdb Nota 6.8/10 (546 votos) em 27/12/2009

Outras críticas em português:

  1. Conquistadores

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 6

Classificação final: 7,50

 

sábado, setembro 26, 2009

Hana and Alice/Hana to Arisu - 花とアリス (2004)


Origem: Japão


Duração: 135 minutos


Realizador: Shunji Iwai


Com: Yu Aoi, Anne Suzuki, Tomohiro Kaku, Shoko Aida, Hiroshi Abe, Sei Hiraizumi, Tae Kimura, Takao Osawa, Ryoko Hirosue, Makoto Sakamoto, Eri Fuse, Ayumi Ito, Kazusa Matsuda, Nao Omori, Hiroyuki Nakano, Zen Kajihara

"Setsuko Arisugawa Aka Alice"

Sinopse

“Hana Arai” (Anne Suzuki) e “Setsuko Arisugawa Aka Alice” (Yu Aoi) são colegas de escola e grandes amigas. Certo dia, num devaneio de adolescente próprio dos 15 anos que ambas possuem, “Alice” leva “Hana” numa viagem de comboio, com o objectivo de espiarem um estrangeiro com boa aparência, acompanhado de um jovem japonês que presumem ser o meio-irmão mais novo, ou alguém aparentado. Meses depois, “Hana” começa o ensino secundário e no liceu encontra o jovem japonês que se chama “Masashi Miyamoto” (Tomohiro Kaku). A rapariga apaixona-se e começa a seguir o seu amor, até ao dia que o vê bater com a cabeça contra uma porta de metal e desmaiar. Quando “Miyamoto” acorda, “Hana” aproveita a situação e afirma que é sua namorada. O rapaz fica surpreendido, e “Hana” fá-lo crer que ficou com amnésia devido à pancada.


"Hana"

Apesar do seu cepticismo, “Miyamoto” embarca na jogada até descobrir umas fotos no computador de “Hana”, que foram tiradas numa altura em que supostamente não eram ainda namorados. Apanhada no seu embuste, a rapariga mente e conta ao rapaz que as fotos foram tiradas por “Alice”, supostamente um ex-relacionamento do jovem. “Miyamoto” tenta travar conhecimento com “Alice”, e através da convivência entre ambos, aquela apercebe-se que nutre sentimentos pelo rapaz. Um triângulo amoroso toma forma.

"Duas amigas inseparáveis"

"Review"

Quer se aprecie o estilo ou não, é forçoso reconhecer que Shunji Iwai é daqueles realizadores que possui uma facilidade tremenda em dotar simples histórias do quotidiano com grande profundidade. No caso específico do realizador japonês, esta premissa assume especial acuidade quando se trata da juventude nipónica, como é bem exemplificado com “All About Lily Chou-Chou”, e este filme que agora se irá tentar analisar. Começando por tomar forma em três curtas-metragens, dedicadas à publicidade do chocolate “Kit Kat” e onde era focado os dissabores amorosos de duas amigas que se apaixonavam pelo mesmo rapaz, Iwai viria a acrescentar hora e meia de película, de maneira a dar corpo a um filme com pouco mais de duas horas. Não enveredando por alguns dos caminhos outrora prosseguidos no já mencionado “All About Lily Chou Chou” (que futuramente com certeza merecerá um texto neste espaço), Iwai decide adoptar em “Hana and Alice” uma perspectiva mais inocente e leve dos jovens japoneses, deixando de parte aspectos como a reflexão cultural acerca da sociedade nipónica, ou um aspecto que sempre existiu e que actualmente parece estar na moda. Falo do propalado “bullying”.

À partida, “Hana and Alice” parece ser um simples conto de adolescentes em transição para o liceu, onde estão presentes as suas amizades, amores, relação com os pais e demais aspectos próprios da idade. No entanto, estamos a falar de um filme de Iwai, portanto haverá sempre de esperar algo que não seja aparentemente tão redutor ou comum. Iwai demonstra, à partida, ter dedicado especial atenção a esta obra, não apenas realizando o filme, mas também escrevendo o argumento, tomado conta da sala de edição e compondo uma excelente banda-sonora. É certo que “Hana and Alice” não é dotado de grandes filosofias, ou reflexões sobre os aspectos que incide. Contudo, é uma obra delicada como uma pétala de uma rosa, que pretende expôr o quão forte são as paixões dos jovens e o quanto necessitam de acreditar em algo, mesmo que seja uma mentira ou um sonho inatingível. É por esse motivo que, a título meramente exemplificativo, as maquinações de “Hana”, no sentido de conquistar “Miyamoto” não soam a nada de malévolo, mas sim à luta de uma jovem no sentido de procurar a felicidade e o bem-estar. As vidas das raparigas são abordadas, não apenas no campo da relação que mantêm uma com a outra e de ambas com “Miyamoto”, mas igualmente com o meio envolvente nos quais se destaca claramente a família e por vezes até uma perspectiva de carreira profissional futura. Tudo decorre com uma presença realista, que faz com que o espectador se identifique e entenda muitas das situações que “Hana” e “Alice” vivenciam. Alie-se esta forma de narração e filmagem a uma constante atmosfera quase mágica onde a trama decorre, e temos uma obra que verdadeiramente se pode apreciar com um espírito de serenidade. “Hana and Alice” possui efectivamente uma cinematografia belíssima e que nos embrenha no abraço terno da história.


"Miyamoto e Alice"

As actrizes fazem um trabalho muito apreciável, conseguindo momentos de boa representação e genuína expressão sentimental. Anne Suzuki consegue enfatizar uma “Hana” insegura, que ora age racionalmente, ora se deixa libertar pelos seus desejos mais recônditos e que dirige para “Miyamoto”. No rapaz, consegue extravasar a sua real personalidade, de pessoa carente e que não tem pejo em embarcar na mentira (perdoável) só para obter a felicidade e algum reconhecimento. Por sua vez, Yu Aoi, na pele de “Alice” (um diminutivo de “Arisugawa” - “Arisu”=”Alice”), tem momentos de autêntico brilhantismo, cujo expoente muito provavelmente será a memorável actuação de cinco minutos de “ballet” no epílogo da película. No bom trabalho das actrizes, caberá talvez, de uma forma contraproducente, um dos calcanhares de aquiles de “Hana and Alice”. Aoi consegue se sublimar de certa forma perante Suzuki, pois esta obra é mais “Alice” do que “Hana”, gerando por vezes algum desequilíbrio narrativo.

“Hana and Alice" pecará eventualmente por ser um filme talvez demasiado longo, para o que se pretende transmitir. No entanto, possui predicados inolvidáveis, que quase todos apreciarão. É um filme honesto e sincero, que expõe de uma forma cativante os anseios da adolescência, fazendo com que o espectador se identifique facilmente com as situações vividas ou os sentimentos explanados. Tudo sem qualquer pretensiosismo, grandes dramas ou “truques de algibeira”. É na descoberta da pureza que muitas vezes temos a percepção e necessária compreensão das atitudes dos mais jovens, e chegamos aos seus corações. “Hana and Alice” é um filme que navega naquelas águas, e qualquer tentativa de procurar explicações transcendentais para problemas simples, será meio caminho para passar ao lado desta longa-metragem. Junte-se a este aspecto, uma fotografia de sonho e seremos obrigados a admitir que vale bem a pena dar uma oportunidade ao visionamento de mais uma obra de um realizador que já deixou uma marca profunda no espectro cinematográfico japonês. No fundo é uma película bastante madura que aborda de certa forma, precisamente, a imaturidade.

Confiram!


"Uma actuação inesquecível"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8





sábado, julho 25, 2009

Departures/Okuribito - おくりびと (2008)
Origem: Japão
Duração: 130 minutos
Realizador: Yojirô Takita
Com: Masahiro Motoki, Tsutomu Yamazaki, Ryoko Hirosue, Kazuko Yoshiyuki, Kimiko Yo, Takashi Sasano, Mitsuyo Hoshino, Tarô Ishida, Hiroyuki Kishi, Miyuki Koyanagi, Tôru Minegishi, Sanae Miyata, Ryôsuke Ohtani, Tatsuhito Okuda, Genjitsu Shu, Tetta Sugimoto, Taro Suwa, Yukiko Tachibana, Takao Toji, Tatsuo Yamada

"Mika e Daigo"

Sinopse

“Daigo Kobayashi” (Masahiro Motoki) é um violoncelista profissional, que toca numa orquestra de Tóquio. As audiências das actuações são cada vez menores, e chega o dia em que o grupo de músicos é desmantelado. Desempregado e com um violoncelo de 180 milhões de ienes para pagar (cerca de 136.000 euros!!!), “Daigo” vê-se obrigado a devolver o instrumento que era um sonho de uma vida. Sem objectivo imediato na capital, decide partir acompanhado pela sua mulher “Mika” (Ryoko Hirosue) para Sakata, Yamagata, a terra onde nasceu.

Ao consultar os classificados de um diário, “Daigo” fica animado com o anúncio de um emprego que parece promissor. Trata-se de uma estabelecimento que lida com “partidas”, e “Daigo” fica firmemente convencido que se trata de uma agência de viagens. Cedo, o protagonista tem uma desagradável surpresa, pois o que está em causa é a despedida do mundo. O objecto da firma em questão, a “NK Agent”, consiste em proceder a uma cerimónia em frente dos membros da família do falecido, que passa por embelezar e tornar apresentável o cadáver, antes de o mesmo ser depositado no caixão.

"Daigo, acompanhado pelo mestre Sasaki"

Apesar dos obstáculos e problemas iniciais, “Daigo” sob a orientação do seu patrão “Ikuei Sasaki” (Tsutomu Yamazaki), acaba por apreciar o seu trabalho, auferindo uma excelente remuneração. Contudo, nem tudo são rosas, e atendendo a que socialmente a sua profissão é considerada desonrosa, “Daigo” nada conta à esposa. No entanto, é impossível esconder tal facto para sempre...

"Daigo toca a sua triste melodia"

"Review"

Na edição dos óscares de 2008, o favorito para ganhar na categoria “melhor filme estrangeiro” era sem dúvida “Waltz With Bashir”, o candidato de Israel. Para além do “frisson” todo gerado à volta desta película, havia o quase determinante facto de a mesma ter sido a vencedora na categoria de melhor filme estrangeiro, nos “Globos de Ouro”, considerados com propriedade a antecâmara dos óscares. Foi pois, com alguma surpresa, que o vencedor do galardão da academia seria “Okuribito”, uma longa-metragem japonesa que nem sequer tinha defrontado o filme israelita na “pool” derradeira dos “Globos”. A vitória de “Okuribito” constituiu um grande feito para o cinema nipónico, pois foi o primeiro filme japonês a vencer esta importante distinção. É certo que em 1955, “Samurai I: Musashi Miyamoto”, de Hiroshi Inagaki, tinha obtido um prémio honorário da academia que visava honrar a melhor película estrangeira. Mas o que é certo é que a categoria só viria a ser oficialmente reconhecida no ano seguinte. Quanto à surpresa pelo facto de “Okuribito” ter ganho o galardão referenciado, esta sensação só ocorrerá para quem ainda não visionou o filme.

Remotamente baseado na obra “Coffinman: The Journal of a Buddhist Mortician”, “Okuribito” demorou, imagine-se, dez anos a ser filmado! Durante todo este tempo, o actor Masahiro Motoki estudou os rituais de preparação do cadáver tendo em vista a sua inumação, assim como aprendeu a tocar o violoncelo de uma forma bastante competente. Por sua vez, o realizador Yojirô Takita, assistiu a várias cerimónias fúnebres, de forma a tentar perceber melhor a consternação das famílias dos falecidos. Pelo facto dos aspectos relacionados com a morte e os funerais serem uma espécie de tabu no Japão, Takita confessou que ficou um pouco reticente quanto à receptividade do filme perante o público. Embrenhando-me um pouco mais numa das temáticas principais desta obra, todos nós temos um pouco a noção que o país do sol nascente é uma terra de rituais. “Okuribito” foca-se num dos seus costumes mais fascinantes, a arte do Nokanshi, um profissional cuja função é, como já acima induzi, preparar o corpo antes de ser colocado dentro do caixão. É deveras fascinante observar os nossos Nokanshi, “Daigo” e o mestre “Sasaki”, a exercerem o seu ofício. Uma tarefa que não tem nada de simples, é exercida com um cuidado e uma elevação espantosa. Podemos observar os homens com uma indelével delicadeza, a limpar e a vestir o corpo dos falecidos. Trata-se de uma espécie de cerimónia refinada, praticada com movimentos elegantes, que verdadeiramente transmitem compaixão e um enorme respeito pelo ser humano e a sua memória. Com a sua arte muito própria, sentimos que o Nokanshi consegue dar um semblante de vida ao falecido e uma alegria aos seus seres amados.

Sendo um misto extremamente bem equilibrado de muito drama e alguma comédia, “Okuribito” é uma película quase infinitamente enternecedora, que merece algumas lágrimas derramadas (algumas foram-me confessadas) durante o seu visionamento. Está longe de ser uma obra “lamechas” ou de sentimento artificial. Constitui, isso sim, um desfilar de sentimentos tão díspares, mas ao mesmo tempo muito caros e próximos de qualquer ser humano que se preze como tal. Neste particular, e acreditem que para quem me conhece é um grande elogio, apenas “Cinema Paraíso” e mais meia-dúzia de películas me fizeram sentir assim. Ninguém consegue ficar indiferente à forma como o realizador Yojirô Takita, expõe brilhantemente o drama pessoal de “Daigo” no exercício de uma profissão supostamente desonrada, ou a dor progressiva e atroz, até à rendição total, que os familiares sentem à medida que os seus entes queridos são preparados para a derradeira viagem. E o culminar de tudo chega com o significativo epílogo, em que nos curvamos totalmente quão muro já carcomido que é finalmente derrubado. Parafraseando uma pessoa com a qual troquei impressões acerca do filme, “é um filme que fala sobre a morte, mas que diz muito sobre a vida.” (Rodrigo C. Palma dixit).


"A equipa da NK Agent"

Os restantes aspectos artísticos de “Okuribito” são, à falta de melhor expressão, um sonho. A banda-sonora é de uma qualidade extrema, a que não será alheio o facto de ter sido um trabalho com a marca de Joe Hisaishi. O compositor tem um currículo enormíssimo, tendo arquitectado o som que ouvimos em vários filmes desde os anime de Miyazaki, passando pelas películas de Kitano, entre muitas mais, num conjunto de cerca de setenta registos. No caso particular de “Okuribito”, Isaishi aplicou-se ao máximo e destaca-se no seu trabalho, o som do violoncelo que penetra no âmago das nossas pessoas, exteriorizando exemplarmente a aura desta longa-metragem. À medida que escrevo este texto, vou ouvindo-a, enterneço-me ainda mais, o que me faz perder um pouco alguma objectividade que é necessária quando opinamos acerca de um filme. Por sua vez, a fotografia é belíssima, onde predominam as paisagens invernosas, num misto de cinzento e branco, que anuncia um pouco a tragédia, o saudosismo e a tristeza.

Os actores destilam sobriedade, competência e acima de tudo são autênticos. Já tinha aludido ao esforço enorme que o actor Masahiro Motoki dispendeu na preparação para a sua personagem. Imagino que não será nada fácil embrenhar-se no mundo dos Nokanshi, ou a aprender a tocar um instrumento como o violoncelo. Para além destes aspectos, Motoki convence-nos da sua vergonha inicial pela profissão, da sua escondida dedicação pela esposa, mas acima de tudo pelo seu fenomenal desempenho nas cenas em que tem de exercer o seu ofício e na paixão que começa a ganhar pelo mesmo. A actriz Ryoko Hirosue é um encanto, e possui um dos sorrisos mais queridos que já vi. A sua serenidade e acima de tudo a maneira como exterioriza o apoio e preocupação pelo bem-estar do marido é algo de bastante assinalável. Destacaria igualmente o veterano Tsutomu Yamazaki, no papel do mestre “Sasaki”. O seu ar rezingão, mas orgulhoso de “Daigo”, e as experiências que vive com o jovem, provocam dos momentos mais cómicos e desafogados do filme, mas também dos mais introspectivos e com mais significado. Por vezes, assume o papel do conselheiro e, porque não dizê-lo, do pai que “Daigo” tanto recrimina, mas que lhe fez falta na vida , tratando-se de um aspecto que lhe revestiu a personalidade de algum ressentimento.

Que dizer mais? Apenas que “Okuribito”, mais do que um marco, é um grande triunfo do cinema japonês. Facilmente considero-o um dos melhores filmes que tive a felicidade de ver nos últimos anos. Posso dizer que raramente vejo uma película até acabar o genérico. De atordoado, só despertei quando o leitor voltou ao menu inicial...

Um pecado mortal se não o verem!


"O ritual dos Nokanshi"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 10

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 9,13