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sábado, agosto 28, 2010

Vexille/Bekushiro: 2077 Nihon sakoku - ベクシル 2077日本鎖国(2007)

Capa

Origem: Japão

Duração aproximada: 109 minutos

Realizador: Fumihiko Sori

Vozes das personagens principais (versão japonesa): Meisa Kuroki (Vexille), Shosuke Tanihara (Leon), Yasuko Matsuyuki (Maria), Takaya Kuroda (Zak), Tetsuya Kakihara (Taro), Toshiyuki Morikawa (Kisaragi), Akio Otsuka (Saito), Romi Park (Takashi), Takahiro Sakurai (Ryo), Takayuki Sugo (Capitão Borg), Kenji Takahashi (Saga), Jiro Saito (Presidente Itakura)

Vexille 2

“Vexille Serra”

Sinopse

Num futuro algo distante, em 2067, o uso exagerado da robótica para múltiplos fins, causa preocupação na comunidade mundial. Com receio que a tecnologia seja usada para pôr em causa a própria identidade do ser humano, as Nações Unidas emanam uma resolução que proíbe a produção de andróides. Todos os países do mundo concordam e aderem, com a excepção de um: o Japão. Controlado pela poderosíssima multinacional “Daiwa Corporation”, o país do sol nascente vota-se a um isolamento total do resto do mundo, sendo todos os estrangeiros expulsos do país, e os demais impedidos de entrar.

Zak e Leon

“Zak e Leon, dois elementos da S.W.O.R.D.”

Dez anos depois, em 2077, a organização conhecida como “S.W.O.R.D.” , encontra-se encarregue de fiscalizar o cumprimento da resolução das Nações Unidas. Desconfiados de uma grande conspiração internacional, levada a cabo pela “Daiwa Corporation”, que ameaça os próprios Estados Unidos da América, é levada a cabo uma missão praticamente suicida: penetrar no território do Japão e descobrir o que passa no interior do país. Uma equipa da “S.W.O.R.D.” é recrutada, onde o único elemento feminino é “Vexille Serra”, uma reputada agente. Quando finalmente conseguem entrar no Japão, é-se-lhes deparada uma realidade surpreendente e descobrem que o que está em causa é bem mais grave do que se suspeitava.

Vexille

“Maria”

“Review”

Confesso que não tinha grandes expectativas relativamente a este “Vexille”, um anime que reúne a maioria da equipa que criou o bem sucedido “Appleseed”. Mas felizmente enganei-me, e esta película acabou por se revelar uma agradável surpresa aos meus olhos, e não só. Tendo a sua estreia mundial sido no Festival Internacional de Cinema de Locarno, Suíça, estamos perante um “thriller” de ficção científica, que expõe um futuro nada agradável para a humanidade, dotado de um verdadeiro pendor apocalíptico. O que é no mínimo curioso acerca do argumento, passa pelo facto de, apesar de estarmos a falar de um “blockbuster” da animação nipónica, o filme não se coibir de criticar abundantemente o país do sol nascente, numa altura em que muitos apontam um nacionalismo crescente na cinematografia asiática em geral e na japonesa em particular. Aqui o Japão é visto como o mau da fita, com heróis norte-americanos (ou melhor, uma heroína) a serem chamados para pôr cobro à situação. Isto não é necessariamente positivo, e até pode ser tributário de algum servilismo, mas o que importa agora aqui relevar é efectivamente a abordagem pouco convencional. Apesar de o filme sobreviver muito à custa de alguma acção exposta de uma forma feliz, e de uma animação que tem momentos excelentes (outros, nem por isso), o realizador Fumihiko Sori não tem pejo em atacar explicitamente algum nacionalismo exacerbado do seu país. É profusamente questionada a natureza humana, e as atitudes que tomamos que põem em causa o nosso próprio futuro, muitas vezes provocados por uma ambição e cobiça sem limites.

Saito e os seus apaniguados

“Saito, o homem de mão da Daiwa, e os seus apaniguados”

A animação tem pontos altos que nos estarrecem, e outros que não acompanham aqueles assim tão bem. Mesmo assim, no geral a apreciação terá de ser francamente positiva. As personagens têm uma expressividade muito autêntica, os fundos e as paisagens são, regra geral, muito bonitos e as cenas de acção bem urdidas. Neste último item, destacaria a perseguição no deserto, onde os “Jags”, monstros de metal que se assemelham aos vermes da areia de “Dune”, tentam alcançar “Vexille” e os seus companheiros. Cabe ainda referir que o desenho dos robôs (“mecha”) e das armaduras dos soldados da “S.W.O.R.D.”, uma espécie de exo-esqueleto de combate, está muito bem feito, conseguindo mesmo impressionar. Por sua vez, a banda-sonora constitui, sem margem para qualquer duvida, um dos itens mais fortes de “Vexille”. E ninguém poderá sequer ousar discutir que um dos momentos altos do filme é um extracto da fenomenal música dos Dead Can Dance, “The Host of Seraphim”, que serve para acentuar ainda mais a tristeza de uma morte, e que simplesmente gela-nos os sentidos.

“Vexille” acabaria por se revelar um sucesso, não apenas dentro de portas, mas também a nível internacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, a venda da sua edição em dvd ultrapassou as 350.000 cópias. Significativo, sem dúvida. Efectivamente estamos perante um produto interessante da animação japonesa, com alguns aspectos bastante originais que irão agradar àqueles que se dignarem a visioná-lo. Não sendo uma obra que possamos classificar de “eterna”, mesmo assim honra a brilhante cena de animação do seu pais de origem. Imperdível para os fãs de “anime”, que prezam os “mecha” e a ficção científica, aliada a um argumento mais elaborado, embora com alguns vazios. Os restantes, não perderão nada em conferir.

Aconselhável!

Monstros do deserto

“Jags”

imdb 7.1 em 10 (2.923 votos) em 28 de Agosto de 2010

Outras críticas em português:

  1. Um dia fui ao cinema
  2. O blog do Osvaldo
  3. Lenox weblog

Avaliação:

Entretenimento – 8

Animação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 8

quarta-feira, junho 03, 2009

Ichi - 壱 (2008)

Origem: Japão

Duração: 120 minutos

Realizador: Fumihiko Sori

Com: Haruka Ayase, Takao Osawa, Shido Nakamura, Yôsuke Kubozuka, Akira Emoto, Riki Takeuchi, Go Riju, Mayumi Sada, Ryosuke Shima, Eri Watanabe


"Ichi"

Sinopse

“Ichi” é uma “goze”, uma mulher invisual que ganha a vida cantando e tocando o instrumento designado como “shamisen”. Devido ao facto de ser cega, mas igualmente possuidora de uma grande beleza, as pessoas tentam sempre abusar da sua confiança e normalmente as coisas não acabam bem. Porquê? A razão passa por “Ichi”, além de não possuir visão, ser linda, e uma trovadora, é igualmente uma espadachim temível, tendo uma lâmina bem afiada, disfarçada de bordão. A jovem deambula pelo Japão, em busca do espadachim cego que a tratou como um pai e a ensinou a manejar a espada.



"Ichi e o samurai Toma"

Certo dia, e através de um incidente com o temível gangue “Banki”, “Ichi” trava conhecimento com o samurai “Toma Fujihira” (Takao Osawa), que a tenta salvar dos bandidos, mas que devido à sua questionável capacidade para o combate, acaba é por ser defendido por “Ichi”. O casal chega à pequena povoação chamada “Bito”, onde os “Banki”, sob a égide do seu temível líder também chamado “Banki” (Shido Nakamura), aterrorizam a população. Após mais um reencontro com elementos dos “Banki”, “Toma” é contratado como guarda-costas por “Toraji” (Yôsuke Kubozuka), o chefe dos “Shirakawa”, o clã opositor dos “Banki” e que tenta acabar com o terror imposto por estes. “Toraji” dá emprego a “Toma” convencido que o samurai derrotou alguns membros dos “Banki”, quando na realidade foi “Ichi” que os venceu.

“Ichi” e “Toma” começam a ficar cada vez mais próximos, e uma paixão começa a nascer. No entanto, o inevitável conflito entre os “Shirakawa” e os seus opositores aproxima-se e o casal terá de enfrentar a batalha mais difícil da sua vida contra os “Banki”.

"Os Banki"

"Review"

Como já aludi anteriormente, a propósito do texto elaborado sobre a película “Zatôichi”, realizada e protagonizada por Takeshi Kitano, a personagem do afamado espadachim cego foi profusamente representada na sétima arte. Desta vez, o conto do mais famoso invisual da história do cinema nipónico, quiçá do oriental, é transposto para a tela mais uma vez, destarte sob a forma feminina corporizada na goze “Ichi”. Não estamos perante o campo do “chambara” mais estilizado ou com motivos fantásticos, dos quais constituem exemplos relativamente recentes “Azumi”, “Shinobi: Heart Under Blade” ou “Dororo”. O que nos é dado a conhecer é um clássico filme de samurais, que usa técnicas mais modernas, mas que mantém os arquétipos clássicos do género. O realizador Fumihiko Sori não está interessado em adoptar qualquer orientação revisionista de uma fórmula de comprovado sucesso. O filme afigura-se mais como uma sequela de “Zatôichi”, nem que seja pelo facto de nos ser induzido que a rapariga é a filha do famoso espadachim. Pessoalmente e como fã deste tipo de obras acho, à partida, entendo que a decisão de Sori é de saudar.

Quanto à trama propriamente dita, estamos perante uma mulher que é cega, mas como já referi acima, linda de morrer. Por este motivo, “Ichi” é constantemente confrontada com abusos de terceiros, que fazem com que a mesma tenha uma visão extremamente pessimista da vida e da injustiça da sociedade feudal do Japão. Estas situações chegam mesmo a acontecer perante outras pessoas que possuem a mesma deficiência física do que ela, e que se encontram perante um estatuto social semelhante. Cumpre dizer que o antigo Japão não era bastante clemente para com aqueles que possuíam deficiências físicas ou mentais, pois entendia-se que tal constituía um castigo dos deuses. Por estas e outras razões, e apesar de enfrentar os contratempos com uma elevada e por vezes violenta dignidade, “Ichi” não encontra sentido na vida. Nos dizeres da própria protagonista, a mesma não consegue ver a diferença entre o dia e a noite, entre o bem e o mal, não conhece o que não corta com o sabre. Ela está na fronteira entre a vida e a morte, e a sua única motivação é encontrar o homem que ela acredita ser o seu pai, antes de penar pelos tortuosos caminhos da vida até ao fim da sua existência. Uma possível forma de redenção, parece ser personificada no samurai “Toma”. O homem continua a lutar, em nome dos seus sentimentos, para que “Ichi” ganhe alegria e subsequentemente lute pela vida.


"Ichi demonstra as suas inegáveis qualidades como espadachim"


A acção é-nos apresentada de uma forma bastante intensa, na esteira dos melhores clássicos do “chambara”, não fosse o coreógrafo Hiroshi Kozune, o responsável pelas magníficas batalhas de “Ran”, do grande mestre Akira Kurosawa ou pelo belo filme de Yôji Yamada, “The Twilight Samurai”. O que aqui se critica é os litros de sangue derramado, fruto de muito “CGI” (imagens geradas por computador) que por vezes são irrealistas e pecam por alguma falta de qualidade. A banda-sonora é, à falta de melhor adjectivo, espectacular. Desde já se informa que não é da autoria de um japonês, ou qualquer autor oriental, mas sim da compositora australiana Lisa Gerrard, que conta de entre os seus inúmeros trabalhos uma colaboração com Hans Zimmer no filme “Gladiador”. Como se tal não fosse suficiente, é uma das mentoras do eterno grupo musical “Dead Can Dance”.

Fiquei extremamente impressionado com a performance de Haruka Ayase. Ela consegue transmitir na perfeição a aura melancólica e o pessimismo existencialista de “Ichi”. O seu semblante carregado de uma infindável tristeza e desilusão, enternece-nos grandemente e nunca chega a ser enfadonho. E ajuda bastante ser uma das actrizes japonesas mais bonitas que vi em toda a minha vida! Takao Osawa e Shido Nakamura são dois nomes consagrados da cena nipónica, mas aqui exibem-se a níveis diferentes. Enquanto Osawa consegue almejar o pretendido, ou seja, ser um “sidekick” à altura de “Ichi”, Nakamura desiludiu-me bastante. Isto assume proporções maiores, quando eu sou um fã do trabalho do actor. Não tem alma na actuação, assumindo por vezes poses perfeitamente disparatadas e que não lhe ficam nada bem. Porventura, a forma como foi congeminado o seu papel no argumento, não fez jus às inegáveis capacidades deste intérprete. Osawa, pelo contrário, exterioriza bem o homem pouco confiante que vai buscar a sua força interior ao sentimento que começa a nutrir por “Ichi”, e que o ajuda a combater a injustiça reinante e a se afirmar como samurai, mas acima de tudo como homem.

“Ichi”, a espadachim, amante e música, poderá estar limitada num dos seus cinco sentidos, mas a sua tristeza e aura fadada à tragédia, muitas vezes farão com que nós consigamos perceber o âmago da sua própria alma. Num “cocktail” de muita emoção e momentos de acção extasiantes, “Ichi” configura-se como uma película com predicados sentimentais de muita qualidade e visualmente bastante apelativa. Contudo, falta-lhe alguma densidade e exploração argumentativa, que constitui uma característica essencial que distingue os bons filmes das obras de verdadeira eleição. O facto de possuir um estranho Shido Nakamura, capaz de bem melhor do que aqui revela, assim como não reinventar o género (à parte o carácter mais trágico da personagem principal), sendo algo estereotipado, também não ajuda muito a uma suposta grandiosidade. Contudo entre prós e contras, a balança pende claramente para o lado positivo, e admito desta forma que gostei do filme!


"A tocar shamisen e a cantar a sua triste melodia"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88