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domingo, novembro 01, 2009

Capa

Be With You/Ima, ai ni yukimasu - いま、会いにゆきます (2004)

Origem: Japão

Duração: 119 minutos

Realizador: Nobuhiro Doi

Com: Yûko Takeuchi, Shido Nakamura, Akashi Takei, Karen Miyama, Yosuke Asari, Yuuta Hiraoka, Chihiro Otsuka, Mikako Ichikawa, Katsuo Nakamura, You, Suzuki Matsuo, Fumiyo Kohinata, Tokimasa Tanabe, Kei Tanaka

Uma família feliz

“Uma família feliz”

Sinopse

“Takumi” (Shido Nakamura) vive com o seu filho de seis anos “Yuji” (Akashi Takei), e ambos estão de luto pela morte de “Mio” (Yûko Takeuchi), a sua amada esposa e mãe, respectivamente. O viúvo não tem muito jeito para cuidar da criança, mas dá o seu melhor apesar de se encontrar debilitado por uma doença que lhe afecta um pouco a locomoção. Como resultado da sua enfermidade, “Takumi” evita grandes multidões e vive uma vida um tanto ou quanto solitária. O jovem “Yuji” encontra-se algo desapontado com as limitações do seu progenitor, mas não deixa de o apoiar em tudo o que este leva a cabo.

Brincadeira

“Takumi e Mio brincam com o seu filho Yuji”

No seu leito de morte, “Mio” fez uma estranha promessa aos dois homens da sua vida. Garantiu que retornaria por ocasião da estação da chuva. Compreensivelmente, “Takumi” mostra-se céptico em relação à afirmação da sua esposa, mas “Yuji” nem por isso. No primeiro aniversário da morte de “Mio”, em plena estação da chuva, pai e filho passeiam pelos bosques na imediação da sua casa. Surpreendentemente, acabam por se deparar com uma mulher que é exactamente igual a “Mio”, e que parece sofrer de amnésia. Encorajados pela sua descoberta, “Takumi” e “Yuji” encaminham a mulher para a sua habitação, convencendo-a que ela é um elemento da sua família e que perdeu a memória.

A felicidade volta ao lar, e “Mio” reassume o seu papel como esposa e mãe, impregnando uma dinâmica nova ao lar. “Takumi”, numa tentativa de apelar às recordações da sua esposa, conta-lhe a história de como a conheceu e de como ambos se apaixonaram. Contudo, nem tudo o que é bom dura para sempre e todos ficam com a percepção que mal finde a estação das chuvas, a reunião dos três irá acabar e “Mio” partirá outra vez e para sempre.

Aio e Mio

“Aio e Mio partilham recordações”

“Review”

Baseado no “best seller” escrito Ichikawa Takuji, o filme “Be With You” já é considerado uma instituição no campo do drama asiático em geral e do nipónico em particular. Apesar de se encontrar imbuído de uma propositada manipulação sentimental, assim como poderá incorrer em algum excesso dramático, é uma experiência inesquecível desde o primeiro segundo até aos créditos finais. Dotado de um charme irresistível, embora simples e a leste de qualquer pretensiosismo, trata-se de uma película com uma envolvência e uma profundidade inolvidável e que quebrará a resistência dos corações mais empedernidos.

Antes de tudo, “Be With You” é uma ode ao amor, seja ele exteriorizado entre um casal apaixonado, como na sua componente paternal ou filial. E num misto de separação e reencontro, existe desde logo uma importante lição de vida a retirar do contexto desta longa-metragem. É essencial valorizarmos cada segundo que passamos com todas as pessoas pelas quais nutrimos verdadeiramente um amor ou amizade incondicional. É certo que em “Be With You” é escolhida uma trama que, à partida, se afigura inverosímil, e que roça por vezes um transcendental que parece desadequado ao contexto geral desta obra. Todavia, a forma como a evolução do argumento decorre perante nós, faz com que nos apercebamos que estamos perante uma história belíssima e que numa suave fluidez, cumpre plenamente os seus propósitos.

Muito ajuda à credibilidade de uma história com um elemento fantástico determinante (o retorno de “Mio” da morte), a grande performance dos actores principais. Yûko Takeuchi é a âncora da película, evidenciando uma actuação irrepreensível. A bela actriz japonesa destila força, graça e um calor humano abrasador, fazendo com que a personagem de “Mio” se traduza como o elo inquebrável que todos une e acolhe no seu regaço. O jovem Akashi Takei é uma criança querida, cujos actos sinceros, próprios de qualquer miúdo em idade da escola primária, nos enternecem ao ponto máximo. Ele necessita da sua mãe, sonha com a sua presença, vive um sonho impossível de concretizar que é o retorno de “Mio” e a sua esperança torna-se realidade. Até parece que os anseios de um petiz não conhecem limites e realizam verdadeiros milagres, Akashi Takei personifica uma criança cujo espírito forçosamente terá de ser admirado. Shido Nakamura, um actor que pessoalmente aprecio imenso, desponta num “Takumi” limitado, mas que força a nossa compaixão. Uma alma bondosa, ciente das suas incapacidades, que em nome do amor tenta dar tudo o que tem e não tem. Nakamura põe alma na sua actuação e espalha uma importante mensagem para aqueles que são mais pessimistas ou cujo rumo da vida anda meio perdido. Apesar de, em maior ou menor medida, possuirmos limitações, é possível encontrarmos o caminho para a felicidade. O grande mérito de Nakamura é fazer-nos acreditar que é sempre possível fazermos algo mais. Mesmo que no fim, subsista teimosamente a impressão que “Takumi” é sempre dependente de alguém, num caso de “Mio”, mais tarde de “Yuji”, é importante frisar que o homem, através da sua dedicação possibilitou que tanto mulher como o filho pudessem contribuir para o seu bem-estar. Shido Nakamura e Yûko Takeuchi casariam após a rodagem de “Be With You”, e quem sabe se o profícuo sentimentalismo exteriorizado pelos filmes e seus protagonistas, não os influenciou.

Beijo num campo de girassóis

“Beijo num campo de girassóis”

A par da significativa actuação do trio familiar, “Be With You” tem outros condimentos que elevam esta obra para uma dimensão superior. Possui uma fotografia e um uso de cores fantástico, que se expressa em tantos momentos, que seria aqui exaustivo identificar um por um. Destacaria, por colherem a minha preferência pessoal, o beijo de “Takumi” e “Mio” no campo de girassóis, rodeados por uma aura dourada tão significativa, parecendo que a própria alma do astro-rei ter-se-ia dignado a marcar a sua presença na terra. Os interlúdios da chuva, em paisagens de sonho, sejam os bosques como o lago, constituem momentos únicos e extremamente inspiradores. A adequada banda-sonora, faz o resto, embora se estranhe um pouco a música do genérico final, a cargo do grupo japonês de rock alternativo “Orange Range”, que me parece um tanto ou quanto desenquadrada. O que é certo é que essa melodia, de seu nome “Hana” (traduz-se literalmente por “flor”), foi o single mais vendido no país do sol nascente em 2005.

“Be With You” é verdadeira poesia viva e em movimento. Sob o diapasão do reencontro e da importância dos entes queridos na nossa vida, é um festival de pormenores e momentos que indelevelmente marcam a alma. Exterioriza uma feliz simbiose entre a vivência humana e a natureza, numa combinação extremamente feliz. A chuva, os bosques, a ambiência urbana minimalista andam de mãos dadas com o elogio à maternidade, aos valores familiares e acima de tudo à capacidade de de amar que qualquer ser humano, indubitavelmente, possui. Infelizmente, o costumeiro “remake” americano já está na forja, onde a actriz Jennifer Garner despontará no papel principal. “Ima, ai ni yukimasu”, o título da película, significa algo como “agora mesmo, eu irei ter contigo”. Façam pois o favor de pegar em vós mesmos e irem descobrir esta magnífica obra de cinema.

Ima, ai ni yukimasu

…agora mesmo, eu irei ter contigo”

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 9

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 10

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,50

quarta-feira, junho 03, 2009

Ichi - 壱 (2008)

Origem: Japão

Duração: 120 minutos

Realizador: Fumihiko Sori

Com: Haruka Ayase, Takao Osawa, Shido Nakamura, Yôsuke Kubozuka, Akira Emoto, Riki Takeuchi, Go Riju, Mayumi Sada, Ryosuke Shima, Eri Watanabe


"Ichi"

Sinopse

“Ichi” é uma “goze”, uma mulher invisual que ganha a vida cantando e tocando o instrumento designado como “shamisen”. Devido ao facto de ser cega, mas igualmente possuidora de uma grande beleza, as pessoas tentam sempre abusar da sua confiança e normalmente as coisas não acabam bem. Porquê? A razão passa por “Ichi”, além de não possuir visão, ser linda, e uma trovadora, é igualmente uma espadachim temível, tendo uma lâmina bem afiada, disfarçada de bordão. A jovem deambula pelo Japão, em busca do espadachim cego que a tratou como um pai e a ensinou a manejar a espada.



"Ichi e o samurai Toma"

Certo dia, e através de um incidente com o temível gangue “Banki”, “Ichi” trava conhecimento com o samurai “Toma Fujihira” (Takao Osawa), que a tenta salvar dos bandidos, mas que devido à sua questionável capacidade para o combate, acaba é por ser defendido por “Ichi”. O casal chega à pequena povoação chamada “Bito”, onde os “Banki”, sob a égide do seu temível líder também chamado “Banki” (Shido Nakamura), aterrorizam a população. Após mais um reencontro com elementos dos “Banki”, “Toma” é contratado como guarda-costas por “Toraji” (Yôsuke Kubozuka), o chefe dos “Shirakawa”, o clã opositor dos “Banki” e que tenta acabar com o terror imposto por estes. “Toraji” dá emprego a “Toma” convencido que o samurai derrotou alguns membros dos “Banki”, quando na realidade foi “Ichi” que os venceu.

“Ichi” e “Toma” começam a ficar cada vez mais próximos, e uma paixão começa a nascer. No entanto, o inevitável conflito entre os “Shirakawa” e os seus opositores aproxima-se e o casal terá de enfrentar a batalha mais difícil da sua vida contra os “Banki”.

"Os Banki"

"Review"

Como já aludi anteriormente, a propósito do texto elaborado sobre a película “Zatôichi”, realizada e protagonizada por Takeshi Kitano, a personagem do afamado espadachim cego foi profusamente representada na sétima arte. Desta vez, o conto do mais famoso invisual da história do cinema nipónico, quiçá do oriental, é transposto para a tela mais uma vez, destarte sob a forma feminina corporizada na goze “Ichi”. Não estamos perante o campo do “chambara” mais estilizado ou com motivos fantásticos, dos quais constituem exemplos relativamente recentes “Azumi”, Shinobi: Heart Under Blade” ou “Dororo”. O que nos é dado a conhecer é um clássico filme de samurais, que usa técnicas mais modernas, mas que mantém os arquétipos clássicos do género. O realizador Fumihiko Sori não está interessado em adoptar qualquer orientação revisionista de uma fórmula de comprovado sucesso. O filme afigura-se mais como uma sequela de “Zatôichi”, nem que seja pelo facto de nos ser induzido que a rapariga é a filha do famoso espadachim. Pessoalmente e como fã deste tipo de obras acho, à partida, entendo que a decisão de Sori é de saudar.

Quanto à trama propriamente dita, estamos perante uma mulher que é cega, mas como já referi acima, linda de morrer. Por este motivo, “Ichi” é constantemente confrontada com abusos de terceiros, que fazem com que a mesma tenha uma visão extremamente pessimista da vida e da injustiça da sociedade feudal do Japão. Estas situações chegam mesmo a acontecer perante outras pessoas que possuem a mesma deficiência física do que ela, e que se encontram perante um estatuto social semelhante. Cumpre dizer que o antigo Japão não era bastante clemente para com aqueles que possuíam deficiências físicas ou mentais, pois entendia-se que tal constituía um castigo dos deuses. Por estas e outras razões, e apesar de enfrentar os contratempos com uma elevada e por vezes violenta dignidade, “Ichi” não encontra sentido na vida. Nos dizeres da própria protagonista, a mesma não consegue ver a diferença entre o dia e a noite, entre o bem e o mal, não conhece o que não corta com o sabre. Ela está na fronteira entre a vida e a morte, e a sua única motivação é encontrar o homem que ela acredita ser o seu pai, antes de penar pelos tortuosos caminhos da vida até ao fim da sua existência. Uma possível forma de redenção, parece ser personificada no samurai “Toma”. O homem continua a lutar, em nome dos seus sentimentos, para que “Ichi” ganhe alegria e subsequentemente lute pela vida.


"Ichi demonstra as suas inegáveis qualidades como espadachim"


A acção é-nos apresentada de uma forma bastante intensa, na esteira dos melhores clássicos do “chambara”, não fosse o coreógrafo Hiroshi Kozune, o responsável pelas magníficas batalhas de “Ran”, do grande mestre Akira Kurosawa ou pelo belo filme de Yôji Yamada, “The Twilight Samurai”. O que aqui se critica é os litros de sangue derramado, fruto de muito “CGI” (imagens geradas por computador) que por vezes são irrealistas e pecam por alguma falta de qualidade. A banda-sonora é, à falta de melhor adjectivo, espectacular. Desde já se informa que não é da autoria de um japonês, ou qualquer autor oriental, mas sim da compositora australiana Lisa Gerrard, que conta de entre os seus inúmeros trabalhos uma colaboração com Hans Zimmer no filme “Gladiador”. Como se tal não fosse suficiente, é uma das mentoras do eterno grupo musical “Dead Can Dance”.

Fiquei extremamente impressionado com a performance de Haruka Ayase. Ela consegue transmitir na perfeição a aura melancólica e o pessimismo existencialista de “Ichi”. O seu semblante carregado de uma infindável tristeza e desilusão, enternece-nos grandemente e nunca chega a ser enfadonho. E ajuda bastante ser uma das actrizes japonesas mais bonitas que vi em toda a minha vida! Takao Osawa e Shido Nakamura são dois nomes consagrados da cena nipónica, mas aqui exibem-se a níveis diferentes. Enquanto Osawa consegue almejar o pretendido, ou seja, ser um “sidekick” à altura de “Ichi”, Nakamura desiludiu-me bastante. Isto assume proporções maiores, quando eu sou um fã do trabalho do actor. Não tem alma na actuação, assumindo por vezes poses perfeitamente disparatadas e que não lhe ficam nada bem. Porventura, a forma como foi congeminado o seu papel no argumento, não fez jus às inegáveis capacidades deste intérprete. Osawa, pelo contrário, exterioriza bem o homem pouco confiante que vai buscar a sua força interior ao sentimento que começa a nutrir por “Ichi”, e que o ajuda a combater a injustiça reinante e a se afirmar como samurai, mas acima de tudo como homem.

“Ichi”, a espadachim, amante e música, poderá estar limitada num dos seus cinco sentidos, mas a sua tristeza e aura fadada à tragédia, muitas vezes farão com que nós consigamos perceber o âmago da sua própria alma. Num “cocktail” de muita emoção e momentos de acção extasiantes, “Ichi” configura-se como uma película com predicados sentimentais de muita qualidade e visualmente bastante apelativa. Contudo, falta-lhe alguma densidade e exploração argumentativa, que constitui uma característica essencial que distingue os bons filmes das obras de verdadeira eleição. O facto de possuir um estranho Shido Nakamura, capaz de bem melhor do que aqui revela, assim como não reinventar o género (à parte o carácter mais trágico da personagem principal), sendo algo estereotipado, também não ajuda muito a uma suposta grandiosidade. Contudo entre prós e contras, a balança pende claramente para o lado positivo, e admito desta forma que gostei do filme!


"A tocar shamisen e a cantar a sua triste melodia"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





segunda-feira, maio 11, 2009

Red Cliff II/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (2009)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 142 minutos

Realizador: John Woo

Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin

"Zhou Yu indica o caminho para a batalha"

Alerta!

“Red Cliff II” é a segunda parte da saga de John Woo, iniciada com “Red Cliff”. Pelo exposto, só deverá ler o presente texto, caso tenha visto o primeiro filme, sob pena de “spoilers”. Contudo, para quem já visionou a película predecessora, o texto anteriormente escrito acerca da mesma poderá ser um importante complemento ao presente neste "post".

Sinopse

O primeiro-ministro do império Han “Cao Cao” (Zhang Fengyi) prepara-se para atacar as forças combinadas do sul, lideradas pelo vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai) e “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro). A refrega acontecerá na fortaleza do “Precipício Vermelho”, no rio Yangtzé. “Cao Cao” tem razões para se sentir confiante, pois as suas forças são infinitamente superiores a nível de homens e logística. Para piorar a situação, e tendo em vista minar a moral do exército aliado, “Cao Cao” envia aos seus inimigos embarcações cheias de soldados mortos infectados com febre tifóide. Este movimento provoca uma epidemia na fortaleza sitiada, e “Liu Bei” (You Yong) decide partir com o seu exército, temendo a morte dos seu povo. A aliança finda, e o vice-rei “Zhou Yu” fica apenas com as forças de Wu estimadas em cerca de 30.000 homens, que terão de lutar contra os mais de 800.000 que “Cao Cao” tem sobre o seu comando.

"Xiao Qiao entrega-se ao inimigo"

Contudo, “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro) recusa partir, e decide lutar ao lado do exército de Wu, numa batalha à partida supostamente perdida. As movimentações de ambas as partes começam, e chega o dia do desequilibrado mas inevitável confronto, onde o futuro dos reinos do sul será decidido.

"O intrépido Gan Xing"

"Review"

Após uma primeira parte que muito prometeu, e onde John Woo parece ter voltado aos bons velhos tempos, agora no registo do épico, chega a altura de “Red Cliff II”, onde ficaremos a saber o destino dos heróis da fortaleza do “Precipício Vermelho” e o desfecho da monumental batalha que se avizinha. Supostamente, e em virtude desta premissa, será de pensar que o mais espectacular teria sido deixado para o fim. Na minha opinião, não foi isso que aconteceu, mas tal constatação não é necessariamente má. Digamos, em abono da verdade, que tudo foi bem repartido, tornando “Red Cliff II” um excelente complemento do primeiro filme, e as duas partes da saga, um épico que com certeza perdurará na memória. “Red Cliff II” começa com uma ligeira súmula dos principais acontecimentos ocorridos em “Red Cliff”, de forma a que nos situemos no enredo, e já agora é-nos oferecido um interessante jogo de “Cuju”, uma forma primitiva de futebol, que muito me fez lembrar os jogos que costumava praticar na escola quando me aventurava no ensino primário e básico.

Embora como já foi aludido, Woo se aventure por um género distinto daquele que o celebrizou, o épico proporciona ao realizador exteriorizar características bastante marcantes do seu estilo próprio. Temas como honra, a amizade e objectivos/desafios aparentemente impossíveis de cumprir são profusamente tratados nesta película, fazendo com que a emoção e o heroísmo marquem bastantes pontos. Como seria de esperar, e apesar de possuir quase duas horas e meia de duração, a acção de “Red Cliff II” é regra geral, mais intensa que no seu predecessor. É natural que assim seja, pois em “Red Cliff” era necessário dar um enquadramento geral da trama, de forma a que o espectador percebesse efectivamente o que estava em causa. Quando refiro que a acção é mais intensa em “Red Cliff II”, não me refiro tanto aos momentos individualmente considerados, mas numa perspectiva de maior continuidade.

"Liu Bei e Zhuge Liang"

Do meu ponto de vista, a primeira parte possui um tratamento superior no que toca ao combate individual dos intervenientes. Mesmo com um ou outro auxílio de cabos e guindastes, assistimos a momentos verdadeiramente espectaculares, que fazem lembrar do melhor que já se fez a nível do “wuxia”. Em “Red Cliff II”, embora possamos vislumbrar algum atributo técnico dos litigantes, a lógica belicista funciona mais em conjunto. É-nos apresentado momentos grandiosos, no que toca a batalhas em grande escala. Assistimos a um confronto naval onde o sangue, e os elementos fogo, terra e água misturam-se num “cocktail” explosivo e imponente. Na razão de ser principal desta película, ou seja, a batalha do “Precipício Vermelho”, Woo introduz a estratégia militar perceptível mas efectiva, o sempre bem-vindo tema do sacrifício por algo maior do que nós, e a costumeira irmandade que unem os protagonistas perante situações críticas. E sim, é verdade! Woo não prescinde do seu habitual “standoff” final. Em jeito de conclusão deste ponto, sempre direi que a acção está mais presente do que no primeiro filme, que por força da sua conjuntura a difundia de uma forma mais esparsa.

Os actores repetem o bom registo da primeira parte, e parecem quase todos terem amadurecido nos seus papéis. Tony Leung Chiu Wai e Takeshi Kaneshiro cumprem o que lhes é pedido numa saudável concorrência interna, sem desligar dos aspectos mais conducentes à irmandade na guerra. Vicki Zhao, encantadora como sempre, brilha no ecrã. Shido Nakamura, um actor que pessoalmente aprecio imenso, é o verdadeiro reflexo do combatente feroz que não vacila nas horas difíceis e que se prontifica a tudo para que a empresa seja bem sucedida. Saúda-se o maior protagonismo da actriz Ling Chi Ling em “Red Cliff II”, que adiciona mais "glamour" à película. “Xiao Qiao” afigura-se uma aparente Helena de Tróia orientalizada, quando é espalhado o rumor que afinal a razão para “Cao Cao” provocar o conflito, passa por desejar ardentemente a mulher do vice-rei “Zhou Yu”. De uma forma heróica e aparentemente votada à tragédia, “Xiao” contribui para o esforço de guerra ao se entregar voluntariamente ao primeiro-ministro, de forma a fazer com que o mesmo cometa erros que muito poderão ditar o resultado final da batalha.

Com a saga “Red Cliff”, Woo afirmou ter cumprido o sonho de uma vida, que era fazer um épico de grande dimensão acerca de um evento importante da história chinesa. O resultado final redundou numa fita de eleição, que deverá figurar nas obras importantes do cinema asiático do século XXI. Imune às críticas de alguns puristas, que afirmaram que a segunda parte da película desviou-se um tanto ou quanto de um maior rigor histórico, é-nos oferecida acção, intriga, sacrifício, amor, heroísmo, honra, tudo ingredientes que o realizador ama e que apaixonam os fãs dos seus filmes. Acima de tudo, o grande mérito de “Red Cliff” e principalmente “Red Cliff II” é serem o reflexo do que o seu criador tem de melhor. Aguardamos ansiosamente a próxima obra!

Seja pois muito bem vindo de novo ao oriente, Mr. Woo!

"Sun Shangxiang"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto Pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50





domingo, dezembro 14, 2008

Death Note: The Last Name/Desu nôto: The Last Name - デスノート (2006)

Origem: Japão

Duração: 135 minutos

Realizador: Shusuke Kaneko

Com: Tatsuya Fujiwara, Ken'ichi Matsuyama, Erika Toda, Nana Katase, Takeshi Kaga, Shido Nakamura, Peter, Shigeki Hosokawa, Shunji Fujimura, Shin Shimizu, Sota Aoyama, Magy, Michiko Godai

"Ryuk e Light Yagami"

Alerta! "Spoilers"!

“Death Note: The Last Name” é a continuação do filme “Death Note”, anteriormente criticado neste espaço (para ler o escrito ir AQUI). Pelo exposto, o texto abaixo contém pormenores essenciais da trama da primeira película, pelo que só deverá prosseguir caso tenha visionado aquela obra.

Sinopse

“Misa Amane” (Erika Toda), uma famosa estrela da TV Sakura e ídolo dos jovens japoneses, encontra-se a ser perseguida por um fã alucinado que a pretende assassinar. Quando já não parece haver fuga possível, o homem morre inexplicavelmente de ataque cardíaco e um estranho caderno de notas aparece vindo do nada. Mal “Misa” toca no objecto, depara-se perante o Shinigami “Rem” (Peter), o deus da morte que é o dono do caderno de notas.

Entretanto, “Light Yagami” (Tatsuya Fujiwara) consegue os seus propósitos ao entrar para a equipa especial que investiga o misterioso assassino “Kira”, liderada por “L.” (Ken'ichi Matsuyama). Uma nova sucessão de mortes de criminosos sucede, que apanha de surpresa “Light” e os restantes, e cedo se descobre que existe uma personagem denominada “Kira 2".

“Misa” acaba por se revelar a “Light” como sendo “Kira 2”, e apaixona-se por ele. “Light”, o "Kira" original, embora relutante, acaba por juntar esforços com a rapariga. Auxiliados pelos seus Shinigami, ambos diligenciam na morte de “L.”. No entanto, é imperioso descobrir o verdadeiro nome do genial investigador.

"Misa Amane usa os olhos do deus da morte"

"Review"

Na conclusão do texto acerca de “Death Note”, alertei para o facto de ser fulcral visionar igualmente este “Death Note: The Last Name”, pois só assim o espectador ficará com uma noção completa da história. Caso assim não se proceda, quem espreitar apenas “Death Note” ficará com um sentimento de incompletude, não havendo um epílogo propriamente dito. Por outra via, quem perder “Death Note” e entrar directamente em “Death Note: The Last Name”, sentir-se-á confuso pois não conseguirá entender muitas das premissas do filme. A explicação passará por um ser a continuação do outro, não podendo desta forma serem observados de uma forma isolada. Não é inocente o facto de ambas as longas-metragens serem do mesmo ano, assim como a segunda parte ter sido realizada três meses depois. Atendendo a este factor, a história de “Death Note: The Last Name” começa exactamente onde “Death Note” acaba.

"Light rodeado dos Shinigamis Ryuk e Rem"

Comparativamente ao primeiro filme, “Death Note: The Last Name” foca-se mais na contenda entre “Light” e “L.”. Este aspecto torna-se perfeitamente natural face ao evoluir da história, porquanto na primeira parte, o que estava mais em causa era a adaptação de “Light” à sua nova condição de “deus do novo mundo” (expressão que o rapaz usa para se auto-designar) e a permanente descoberta dos poderes do seu caderno de notas. É certo que “L.” já detém um papel preponderante, pois a caçada ao homem que mantém conhece alguma evolução. Contudo, é no filme que ora se analisa que verdadeiramente começa a sério o confronto de titãs, ilustrado numa guerra intelectual e psicológica quase incessante, onde cada um dos oponentes está quase sempre a preparar armadilhas e a lançar rasteiras um ao outro. Torna-se interessante, embora com algumas falhas argumentativas mais evidentes, observar o duelo cerebral entre “L.” e “Light” e toda a envolvência que daí resulta. O jogo do gato e do rato assume aqui o seu apogeu, com muitos avanços e recuos que têm a potencialidade de prender a atenção do espectador.

Os aspectos mais visuais, interpretativos e musicais mantêm-se essencialmente semelhantes aos primeiro filme, com algumas bem-vindas adições. O “cast” é praticamente o mesmo, havendo apenas a entrada relevante da actriz e ídolo pop japonês, a bela Nana Katase. Erika Toda tem bastante mais minutos, atendendo ao desenrolar da trama, onde aqui assume um papel determinante. A nível de interpretação, talvez seja de relevar Ken'ichi Matsuyama que tem a oportunidade de desfilar com mais sentimento as pouco peculiares características de “L.”, conseguindo momentos de verdadeira alucinação. É uma personagem que enfatiza bastante o provérbio “de génio e louco, todos nós temos um pouco”. “L.” tem muito de génio, e possivelmente bastante mais de louco. Surge um novo Shinigami chamado “Rem”, visualmente bem elaborado à semelhança de “Ryuk” e que coexiste com este, embora com características psicológicas bastante distintas. “Ryuk”, o deus da morte de “Light” não parece interessar-se bastante pelo seu protegido, demonstrando ser uma personagem mais cínica e sarcástica. “Rem”, pelo contrário, revela ser bastante protector em relação a “Misa”, devido a factores que aqui não posso revelar, sob pena de cometer um grave “spoiler”. A nível do som, se em “Death Note” os Red Hot Chili Peppers tinham cedido a sua música “Dani California” para o genérico, aqui participam na banda-sonora com “Snow”, contribuindo ainda mais para a aura juvenil desta longa-metragem.

"Rem e Misa"

“Death Note: The Last Name” revela ser um filme quase à altura do seu predecessor, pois mantém praticamente todas as características que definiram “Death Note” como uma das mais bem sucedidas obras japonesas dos últimos anos. Contudo, e principalmente a nível da trama, está uns furos abaixo do que se pedia, fazendo com que não seja um filme tão bem conseguido como o primeiro. O seu epílogo, embora satisfatório, fique um tanto ou quanto além das expectativas. Mesmo assim, e atendendo à época que presentemente está a decorrer, não deixa de ser uma boa prenda de Natal. Especialmente se conseguirmos obter as maravilhosas edições especiais em dvd, visualmente bonitas e com bastantes extras, num “dois em um” que enriquece bastante a nossa colecção privada.

A conferir, mas não antes de visualizar o primeiro filme! Fica mais uma vez o insistente alerta!

"Duelo de génios"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75





quarta-feira, dezembro 10, 2008

Death Note/Desu nôto - デスノート (2006)

Origem: Japão

Duração: 121 minutos

Realizador: Shusuke Kaneko

Com: Tatsuya Fujiwara, Ken'ichi Matsuyama, Asaka Seto, Shigeki Hosokawa, Erika Toda, Shunji Fujimura, Takeshi Kaga, Yu Kashii, Shido Nakamura, Sota Aoyama, Michiko Godai

"Ryuk e Light Yagami"

“Light Yagami” (Tatsuya Fujiwara), filho de um inspector da polícia, é um jovem e brilhante estudante de direito, com um forte sentido de justiça. Contudo, encontra-se desiludido com o sistema judicial, pois vários delinquentes permanecem impunes após a prática de crimes horrendos. Certo dia, “Light” encontra um misterioso livro negro, pertencente a um Shinigami (literalmente "deus da morte") chamado “Ryuk” (Shido Nakamura). Na realidade, o estranho achado é um objecto com um imenso poder mortal. Escrevendo o nome de uma pessoa nas páginas do livro, de acordo com certas regras, a mesma morre de ataque de coração passados 40 segundos.

"L."

Vendo uma oportunidade de debelar as lacunas da polícia e dos juízes, “Light” começa a fazer justiça pelas próprias mãos, escrevendo o nome dos criminosos que escapam às mãos do sistema. Com o tempo, começa a dar utilizações mais elaboradas à sua arma, descobrindo que consegue provocar mortes da maneira que lhe apetece e no tempo que lhe convier mais.

Trabalhando sob o pseudónimo de “Kira”, e tendo “Ryuk” a seu lado, “Light” provoca um verdadeiro massacre entre os criminosos de todo o mundo. A sua popularidade cresce imenso, principalmente entre os jovens, mas também chama a atenção da polícia que não pode permitir que alguém faça justiça de forma tão atroz. No entanto, as autoridades são impotentes perante a forma de actuação de “Light”, até que “L” ( Ken'ichi Matsuyama), um jovem e brilhante detective, oferece a sua ajuda. O duelo entre as duas poderosas mentes começa, num típico jogo do gato e do rato.

"Shiori, a namorada de Light"

"Review"

  1. O humano cujo nome seja escrito neste livro de notas morrerá;
  2. A nota não terá efeito a não ser que a pessoa visualize a face do destinatário da morte quando estiver a escrever o seu nome. Assim, as restantes pessoas que partilhem o mesmo nome não serão afectadas;
  3. Após a aposição do nome do destinatário, se a causa da morte for escrita num espaço de 40 segundos, a mesma efectivar-se-á;
  4. Se a causa da morte não for especificada, o destinatário morrerá de ataque de coração;
  5. Quando a causa da morte seja especificada, os detalhes da mesma deverão ser escritos nos 6 minutos e 40 segundos seguintes;
  6. O humano que tocar neste livro consegue ver e ouvir o deus da morte que é o dono original. Não é necessário ser o possuidor actual do livro;
  7. Este livro será propriedade do mundo humano, a partir do momento que toque no seu solo;
  8. O humano que usar este livro não poderá ir nem para o céu, nem para o inferno;
  9. Se a ocasião da morte for escrita 40 segundos após a sua causa, o tempo em que ocorre o decesso pode ser manipulado;
  10. Mesmo que não seja o actual possuidor deste livro, poderá escrever na mesma o nome da pessoa a morrer, desde que o reconheça;
  11. Este livro só é efectivo durante 28 dias, contados de acordo com o calendário humano. Este princípio é conhecido como “a regra dos 28 dias”;
  12. Os indivíduos que percam a posse deste livro, igualmente perderão a memória de o terem usado;
  13. Caso algum dia voltem a tocar no livro, todas as memórias de o terem usado retornarão.

Numa tradução livre, e por esse motivo, provavelmente dotada de algumas imprecisões, o conjunto de regras acima exposto, são as relativas ao uso do livro de notas da morte, o objecto que constitui o cerne da trama do filme objecto do presente texto. É sempre importante saber por que linhas nos cosemos, e por essa razão, entendi como fulcral que os leitores desta crítica percebessem verdadeiramente o que significa o uso daquele instrumento mortal.

"Light em conversa amena com Ryuk"

Desta vez, o aclamado realizador japonês Shusuke Kaneko traz para a tela a adaptação “de carne e osso” de uma das mangas mais aclamadas de sempre do Japão, intitulada “Death Note”, da autoria de Takeshi Obata e Tsugumi Ohba. A banda desenhada venderia, imagine-se, 20 milhões de cópias só no país do sol nascente. Assim como seria previsível que a história teria honras de anime, igualmente aguardar-se-ia que a transposição para a sétima arte fosse também efectuada. Na realidade, quando nos referimos a “Death Note” é mais correcto falar em películas, porquanto “Death Note” para ser completamente apreendido, terá de ser conjugado com “Death Note: The Last Name”, que constitui a segunda parte da história. À semelhança de outras sagas que mereceram a atenção deste blogue, optou-se por respeitar as opções das companhias cinematográficas, dos produtores e realizadores, e por agora focar-me-ei apenas na primeira parte. Fica desde já a promessa que o próxima texto a colocar aqui no “My Asian Movies”, versará acerca de “Death Note: The Last Name”.

Apesar da sua premissa original e naturalmente apelativa para os fãs do lado mais sombrio da sétima arte, “Death Note” acaba por ter um argumento simples, facilmente perceptível e quase sempre bem conduzido. Trata-se de um clássico caso em que alguém tem o poder para fazer algo de grandioso no mundo, mas cujos caminhos que envereda acabam por corromper um objectivo magnânimo e justo. Já alguém dizia que “o poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente.” No caso de “Light”, a premissa ajusta-se que nem uma luva, pois partindo de um propósito inocente, embora algo justiceiro e errado, acaba por embarcar em atitudes que a “emenda sai pior do que o soneto”. No início trata-se de matar criminosos, que cometeram ilícitos hediondos. A certa altura, quando se vê confrontado com a perseguição que as forças policiais lhe movem, acaba por utilizar os mesmos métodos contra qualquer um que lhe possa fazer frente ou que esteja perto de descobrir a sua identidade. Isto causa uma transformação no outrora bem intencionado “Light”, tornado-o num ser mau, cuja perniciosidade acaba mesmo por surpreender o seu fiel companheiro, o deus da morte Ryuk.

Não é de admirar a aura negra e gótica do filme, atendendo à trama por onde navega. Apesar de este aspecto ser omnipresente na película, “Death Note” está longe de ser uma obra sangrenta, e aqui, consoante a perspectiva de cada um, poderá residir uma das falhas mais evidentes desta longa-metragem. Considerando que a esmagadora maioria dos alvos de “Light” falece de ataque de coração, e tendo o mesmo o poder de escolher as causas da morte, pergunta-se o porquê da falta de imaginação. Existem pessoas que clamavam por imolações, por enforcamentos, etc, etc,etc. Quanto a mim, julgo que a opção resultou bem, porquanto o epílogo do filme resulta claramente mais evidenciado. Correndo o risco de enveredar por um “meio spoiler”, entendo que tal capta muito mais a atenção do espectador, quando o rapaz decide finalmente fazer uso de todas as potencialidades do livro que tem nas mãos. E acentua claramente o seu intelecto e personalidade, acentuando o o caminho maligno e calculista pelo qual enveredou.

Quanto às actuações, é normal que “Light”, interpretado por Tatsuya Fujiwara (que viria a ser sobretudo por “Battle Royale”) e “L”, corporizado por Ken'ichi Matsuyama tenham o protagonismo quase total. Tatsuya Fujiwara desempenha de uma forma competente o seu papel, cumprindo a missão de parecer tanto sombrio, como tremendamente inocente. Matsuyama não fica atrás do seu oponente, e consegue explanar um “L” que por vezes parece um ser diminuído e alienado, mas que acaba por ser um “mastermind” da mais elevada craveira, demonstrando estar bem à altura de Fujiwara. Mesmo assim, e embora isto soe contraditório, quem acaba por impressionar mais é o totalmente computorizado “Ryuk”. Tirando o facto de a sua face lembrar imenso “Joker”, o arqui-inimigo de “Batman”, as suas movimentações roçam a perfeição e o seu carisma é bastante considerável.

Apesar de ter sido realizado há relativamente poucos anos, “Death Note” já se tornou um filme de culto para muitos, tendo-se tornado numa das películas japonesas mais bem sucedidas de sempre, quer dentro de portas, assim como um pouco pelo mundo inteiro. A tal facto não será alheio a bem sucedida mescla composta pelo pendor juvenil, pela faceta de thriller e os aspectos mais obscuros e sobrenaturais, corporizados sobretudo no bem conseguido demónio “Ryuk”. É dotado de momentos de tensão bem urdidos, em especial na derradeira parte, conseguindo desta forma abrir o apetite para “Death Note: The Last Name”. A sua visualização impressionaria tudo e todos, incluindo a conhecida banda rock “Red Hot Chili Peppers”, que forneceria o tema “Dani California” para o genérico do filme.

Sem dúvida uma obra a conferir! No entanto, é preciso não esquecer que a mesma terá de ser acompanhada por "Death Note: The Last Name".

"Death Note"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia
  2. Axasteoquê?!?

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em Clubotaku

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8





quinta-feira, outubro 30, 2008

Red Cliff/Chi bi - 赤壁 (2008)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 140 minutos
Realizador: John Woo
Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin
"O genial estratega Zhuge Liang"
Sinopse

No ano de 208, “Cao Cao” (Zhang Fengyi) o primeiro-ministro do imperador Han, convence este a declarar guerra aos senhores feudais do Sul da China “Liu Bei” (You Yong) e o duque de Wu “Sun Quan” (Chang Chen), afirmando falsamente que estes são traidores. Temendo “Cao Cao”, o monarca acede aos desejos deste e nomeia-o comandante de todos os exércitos, permitindo assim que este desencadeie o conflito.

“Liu Bei” e o seu povo conseguem escapar à justa após a batalha de Chang Ban, e refugiam-se numa fortaleza remota do reino. A sede de poder de “Cao Cao” está longe de ser saciada e este continua a progredir com o seu vasto exército. “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro), o genial estratega de “Liu Bei”, dirige-se aos domínios de “Sun Quan”, em ordem a solicitar a ajuda daquele no sentido de fazerem uma aliança militar contra os desígnios de “Cao Cao”. Com o auxílio do valente militar e principal conselheiro de “Sun Quan”, o vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai), “Zhuge Liang” consegue a tão pretendida união de esforços.

"O vice-rei Zhou Yu"

Após uma grande vitória contra os exércitos terrestres de “Cao Cao”, as forças combinadas de “Liu Bei” e “Sun Quan”, concentram-se na fortaleza de “Zhou Yu” conhecida como “Precipício Vermelho” (“Red Cliff”) e aguardam o confronto decisivo com as imensas forças de “Cao Cao”, compostas por 800.000 homens e 3.000 embarcações de guerra.

"Review"

Após uma longa passagem por Hollywood, o mítico realizador John Woo decide voltar à terra-natal não para realizar mais um dos seus sensacionais “heroic bloodshed”, mas para se aventurar no género épico. Para o efeito, foi-se inspirar na batalha dos precipícios vermelhos, um conflito armado que ocorreu no fim da dinastia Han, mais precisamente no ano de 208, e que antecedeu o período conhecido como o dos “Três Reinos”. A sua localização exacta é alvo de intensa discussão académica, sendo certo apenas que a mesma se desencadeou algures no rio Yangtzé. John Woo, no sentido de conferir uma verdade histórica mais palpável à sua obra basear-se-ia na “Crónica dos Três Reinos”, um documento oficial escrito por um militar da época de seu nome Chen Shou. No entanto, é certo que Woo não seguiu escrupulosamente a sua fonte primária, e enveredou por uma compreensível romantização no sentido de tornar esta longa-metragem mais apelativa ao grande público. Mas isso é o que praticamente toda a gente faz, e não é nada a que não estejamos já habituados. Cumpre ainda referir que “Red Cliff” é o filme asiático mais dispendioso da história, com um orçamento que ronda os 80 milhões de dólares. Enquanto na Ásia o filme terá duas partes que em conjunto totalizarão mais de 4 horas, para o Ocidente será feito um único filme com duas horas e meia de duração. Como sou avesso a cortes na sala de edição, seguirei a linha escolhida para a Ásia, e dissertarei um pouco acerca da primeira parte, ansiando para que em 2009 tenha a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista convosco acerca do epílogo desta película, consubstanciada na segunda parte.

"O primeiro-ministro do imperador Han, o ambicioso Cao Cao"

Os épicos asiáticos tendem a ser verdadeiramente grandiosos, não apenas em meios, mas igualmente em emoção, mensagem, sentimento e tudo aquilo que nós fãs do género prezamos com tanto coração. São estas características que normalmente os distinguem dos seus congéneres ocidentais, que muitas vezes são capazes de os superar na questão logística, mas que normalmente perdem aos pontos no que toca à envolvência transmitida ao espectador. Quem costuma visitar este espaço sabe que gosto de todos os géneros de cinema sem distinção, mas quando toca a puxar pelo pendor heróico “da coisa”, têm aqui um homem para o que der e vier. É por este mesmo motivo que os anos de 2007 e 2008, consubstanciaram-se numa possível época de ouro para mim, com a realização de um elevado número de longas-metragens que em potência poderiam preencher-me as medidas. Falo de “Warlords”, “The Forbidden Kingdom”, “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon”, este “Red Cliff” e “An Empress and the Warriors”. É certo que muitas vezes a expectativa dá lugar à desilusão, e o último filme mencionado ficou bastante longe de ser algo memorável. Felizmente, o mesmo não se pode afirmar em relação a este que agora se analisa.

Os meios usados são, à falta de expressão melhor, verdadeiramente impressionantes e preenchem as medidas aos espectadores. Estamos a falar de centenas de figurantes, referindo só a título de curiosidade que o exército vermelho chinês cedeu 1000 soldados para intervirem no filme. A apresentação dos exércitos, assim como da frota de navios de guerra deslumbra ao máximo, mesmo que nos apercebamos que houve algum inevitável recurso a imagens geradas por computador. Junte-se a estas características um guarda-roupa, decoração, arquitectura e manancial bélico marcado pelo detalhe, acompanhado de paisagens e fotografia esplendorosa e...já está! Temos uma receita de sucesso, e meio caminho andado para que o filme seja um êxito garantido, com o necessário sucesso de bilheteira. Não esquecer ainda a competente banda-sonora do excelente compositor japonês Taro Iwashiro, cujo trabalho em “Shinobi: Heart Unde Blade” simplesmente adorei! Embora aqui não atinja um nível semelhante, consegue nos hipnotizar o suficiente para nos embrenharmos ainda mais na película.

"O exército de Liu Bei prepara-se para a batalha, com o poderoso general Guan Yu na dianteira"

Por sua vez, os combates estão bem conseguidos, tanto de um ponto de vista colectivo como individual. “Red Cliff” aqui não deixa mesmo os seus créditos por mãos alheias e consegue elevar mais ainda os seus índices de pujança visual, ou não estivéssemos a falar de John Woo, auxiliado pela coreografia engendrada por Corey Yuen. É muito agradável à vista observar os planos da batalha em que as forças aliadas adoptam uma estranha mas bastante efectiva formação de anéis de tartaruga, que enreda as forças de Cao Cao numa bem urdida armadilha. Mas o que ainda mais me agradou foram as performances individuais que se destacam no meio da contenda geral. Para a alegria de muitos e também a desilusão de outros tantos, Woo decidiu fugir ao combate clássico, e colocar alguns elementos mais próprios do wuxia, com auxílio de guindastes se tal fosse necessário, fazendo com que uma aura mística e lendária rodeie os guerreiros. Contudo, não se ouse pensar que a crueza encontra-se ausente! Quando é necessário atacar forte e duro, com bastante sangue à mistura, temos igualmente uma mão cheia de cenas para satisfação pessoal. Sob o signo da espectacularidade, em que Woo sempre quase viveu, consegue-se concretizar uma saudável mescla de ambos os estilos de combate que só vem elevar o filme, na minha humilde opinião.

Não foi isenta de atribulações a reunião do elenco para “Red Cliff”, e atendendo à expectativa que tinha acerca da película, foi uma situação que acompanhei um pouco, recolhendo informação pelos sítios da especialidade, à medida que a coscuvilhice se ia desenrolando. Originariamente, o conhecedíssimo actor Chow Yun Fat (um velho conhecido de John Woo) tinha sido recrutado para o papel do vice-rei Zhou Yu, uma das personagens mais emblemáticas da trama. Posteriormente, Yun Fat viria a recusar a participação, alegando para o efeito que tinha recebido o guião uma semana antes da rodagem começar e por esse motivo não ter possibilidades de se preparar convenientemente. Terence Chang, o produtor da película desmentiu veementemente este facto afirmando que a seguradora do actor tinha se oposto a 73 (?!) cláusulas do contrato do actor. Por sua vez, outro monstro do cinema asiático Ken Watanabe teria sido seleccionado para o papel do vilão do filme Cao Cao. Supostamente, e aqui entram os costumeiros nacionalismos, não foi bem visto o facto de uma personagem importante da história chinesa ser interpretado por um estrangeiro. O consagrado Zhang Fengyi viria a ganhar o papel. Por fim, o meu actor favorito Tony Leung Chiu Wai. No início estava-lhe destinada a representação de Zhuge Liang, do meu ponto de vista a figura mais importante desta obra. O actor viria a declinar, invocando a razão de estar esgotado devido às filmagens de “Lust, Caution”. Numa reviravolta que poucos perceberam, Tony Leung viria a retornar ao “cast”, desta vez para assumir o papel que estava destinado a Chow Yun Fat, ou seja o do vice-rei Zhou Yu. Zhuge Liang viria a ser entregue a Takeshi Kaneshiro, um actor que dispensa qualquer tipo de apresentação. O certo é que o “casting” final redundou numa verdadeira constelação de estrelas de grandes cinematografias asiáticas, a saber, da China, Hong Kong e Japão. E embora o resultado da representação pudesse ter sido melhor, atendendo à qualidade intrínseca dos intervenientes, nota-se que o binómio entretenimento/espectacularidade levou a melhor sobre qualquer tipo de possível interpretação transcendental. A realidade é que todos, sem excepção, cumprem o que lhes é pedido, e o resultado é muito bom.

É curioso, e ao mesmo tempo de relevar, que as personagens são apresentadas num estilo que em muito homenageia os grandes clássicos de wuxia e até do denominado “kung fu old school”, cuja trama principal versava sobre a luta de um grupo heróico de guerreiros contra uma qualquer força opressora dominante. Temos o estratega nato e a personificação da inteligência erudita em “Zhuge Liang”, a valentia honrada em “Zhou Yu”, a coragem escondida em “Sun Quan”, a irreverência na princesa “Sun Shangxiang” (interpretada pela sempre bela Vicki Zhao), todos apoiados por um manancial de guerreiros, cada um com as suas qualidades pessoais e de combate muito próprias e distintas. A sim à primeira vista, lembrei-me de “The Water Margin” (a série, pois nunca tive o prazer de ver o filme de Chang Cheh), protagonizada pelo actor japonês Atsuo Nakamura, e que há uns anos passou na “SIC Radical” (para os leitores que não vivem em Portugal, ou que não têm acesso aos canais portugueses, informo que é um canal de televisão).

Resta ainda referir que o costumeiro e inevitável fetiche das pombas de John Woo, encontra-se bem presente em “Red Cliff”. Os simpáticos bichos marcam a sua presença em algumas fases do filme, tais como na homenagem ao mensageiro de Wu que é morto por “Cao Cao”, numa clara manobra de intimidação contra os aliados ou na parte em que propõem o casamento da princesa “Sun Shangxiang” a “Liu Bei” de forma a cimentar mais a aliança. As pombas acabam por assumir uma papel mais interventivo na longa-metragem, não se assumindo apenas como um adorno decorativo ou simbólico, mas igualmente servindo como um meio de comunicação à distância entre os guerreiros.

Confesso que a primeira parte de “Red Cliff” deixou-me com água na boca, e correspondeu bastante às minhas expectativas. Estamos perante um filme que se se enquadra na melhor tradição dos épicos asiáticos, e que ainda consegue introduzir alguns elementos do wuxia que acentuaram mais a sua espectacularidade. Aguardemos então por 2009, na esperança que o melhor ainda foi deixado para a segunda parte, ou seja, a própria batalha decisiva do precipício vermelho, que promete ser um dos maiores confrontos épicos da história do cinema!

Muito bom!


"As forças aliadas atraem o exército Han para uma armadilha, usando a táctica dos anéis de tartaruga"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Viscera Blog
  2. Batto presenta...
  3. Noite Americana

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






domingo, dezembro 30, 2007

Cartas de Iwo Jima/Letters from Iwo Jima Aka Red Sun, Black Sand/Io Jima Kara no Tegamî - 硫黄島からの手紙 (2006)

Origem: E.U.A. (U.S.A.)

Duração: 134 minutos

Realizador: Clint Eastwood

Com: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura, Hiroshi Watanabe, Takumi Bando, Yuki Matsuzaki, Takashi Yamaguchi, Eijiro Ozaki, Nae, Nobumasa Sakagami, Akiko Shima, Toshi Toda, Ken Kensei, Luke Eberl

"O general Kuribayashi"

Introdução

O presente texto é efectuado ao abrigo da rubrica deste espaço denominada “Cunho da Ásia”. Apesar de “Cartas de Iwo Jima” ser uma produção norte-americana, a esmagadora maioria dos actores são japoneses, que na película se expressam todos na sua língua materna.

"O barão Nishi, comandante do esquadrão de tanques japoneses"

Estória

1945, ilha de Iwo Jima, terra que pertence ao sagrado império do Japão. O reino do sol nascente está a perder a guerra, e a derrota na batalha do Mar das Filipinas, onde o Japão perdeu uma grande parte da sua frota naval, constituiu um rude golpe. Iwo Jima constitui um ponto estratégico para os contendores, pois a sua localização faz com que possa servir de base de apoio para um ataque em larga escala ao âmago do território japonês.

O general “Tadamichi Kuribayashi” (Ken Watanabe) é encarregue de liderar o exército nipónico e engendrar uma estratégia que trave o avanço norte-americano em Iwo Jima. Cedo “Kuribayashi” enfrenta a oposição do general “Hayashi” (Ken Kensei) e do almirante “Ohsugi” (Nobumasa Sakagami), pois estes defendem que deverão ser escavadas trincheiras nas praias, de forma a impedir o avanço do exército americano. “Kuribayashi”, no entanto, é da opinião que a melhor maneira de proteger a ilha é deixar as praias à mercê do inimigo, e colocar a força japonesa nas montanhas bem defendidas, tentando causar o maior número de baixas possíveis ao opositor.

Entretanto, “Saigo” (Kazunari Ninomiya), um jovem soldado japonês que deixou a mulher grávida na terra-natal, começa a questionar-se acerca das verdadeiras motivações do conflito. O seu pessimismo encontra um adversário titânico na mentalidade do exército a que pertence, que prefere morrer até ao último homem, do que cair em desonra.

Com um exército japonês em clara inferioridade numérica e de recursos, a gigantesca batalha começa, e num manancial de dúvidas, emoções e morte, o desfecho da II Guerra Mundial começará a ser decidido em Iwo Jima.

"O soldado Saigo despede-se da sua esposa"

"Review"

A batalha de Iwo Jima foi um combate determinante para o início do epílogo na guerra do Pacífico, muito se devendo ao facto de ter sido o primeiro ataque de ocupação norte-americano ao solo japonês propriamente dito. A luta foi acérrima, mas bastante desigual pois os efectivos de ambos os exércitos pendiam na razão de 5 para 1, com claro prejuízo para os japoneses. E isto sem contar com a disparidade de meios bélicos, em que os americanos levavam claramente a melhor. Mesmo assim, e para termos ideia da tenacidade do exército imperial do Japão, dos 21.000 soldados nipónicos que combateram em Iwo Jima, 20.700 homens foram mortos e apenas cerca de 300 foram capturados. Tais números revelaram para muitos que o espírito dos antigos samurais ainda residia no coração dos combatentes japoneses, e que a ideia de “antes a morte do que a desonra”, ou “antes quebrar do que torcer” norteava de alguma forma o seu pensamento.

Foi com base nesta importantíssima batalha da II Guerra Mundial, que o actor e realizador Clint Eastwood deu vida a dois filmes no mesmo ano, que expunham os pontos de vista de cada uma das partes em conflito, a saber, o competente “Flags of Our Fathers” no que toca aos americanos, e este maravilhoso “Letters From Iwo Jima” em relação aos japoneses.

Uma pergunta que eu teria muitas dificuldades em responder, seria se preferia o trabalho de Clint Eastwood enquanto realizador ou actor. Não opinarei quanto a este aspecto em particular. Apenas afirmarei que admiro bastante o trabalho da personalidade em questão no respeitante a ambos os aspectos. A riqueza cultural que Eastwood conseguiu erigir, nas facetas que assumiu na sétima arte, faz com que estejamos perante uma das estrelas mais cintilantes do cinema. Em “Cartas de Iwo Jima”, mais uma vez isto é demonstrado, e de forma bem corajosa. Porquê que digo isto? Por uma razão muito simples. Todos nós estamos habituados a visionar películas de guerra de “Hollywood”, em que apenas é abordado o ponto de vista norte-americano dos conflitos em que este país participou. Mesmo assim, nasceram grandes obras da sétima arte com pontos de vista mais ou menos sinceros, e que não são propriamente bastante elogiosas para a grande nação. No entanto, a máquina propagandística americana assume-se, como é do conhecimento de todos, como verdadeiramente infernal, tendo servido não escassas vezes para disfarçar alguns insucessos bélicos. Pense-se nos casos das longas-metragens que tiveram por pano de fundo a guerra do Vietname, ou mais raramente, da Coreia. Eastwood aqui abana o instituído e, como americano, arrisca-se a contar o embate do ponto de vista do “inimigo”. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, já dizia o poeta Fernando Pessoa, e este filme possui um grande espírito!

"O fanático tenente Ito"

A trama baseia-se em eventos reais (naturalmente romanceados), tendo por suporte os livros “Picture Letters from a Commander in Chief”, da autoria do general Tadamichi Kuribayashi (isso mesmo, o comandante das forças japonesas em Iwo Jima), e “So Sad to Fall in Battle: An Acount of War”, de Kumiko Kakehashi, tendo ambas as obras sido adaptadas para o grande ecrã através do argumento escrito por Iris Yamashita. Acima de tudo, e mais do que relatar um conflito bélico, “Cartas de Iwo Jima” humaniza o soldado japonês e desmistifica a ideia do combatente frio, cruel e mal-humorado. É certo que temos exemplares com estas características, sendo porventura o expoente máximo o tenente “Ito” (interpretado pelo excelente Shido Nakamura). Contudo, é deveras interessante observar o confronto de perspectivas que ocorre no seio do próprio exército japonês, e que se materializa desde logo no comando do general Kuribayashi. A sua liderança é considerada covarde pela maioria dos outros oficiais, mas na realidade trata-se de um comando inteligente e realista face às circunstâncias. Numa hierarquia muito mais baixa, vemos um frustrado soldado “Saigo” a ser discriminado por apenas querer voltar para a sua esposa e filha recém-nascida, e achar que não vale a pena lutar por um lugar ermo e desolado, que pouco mais tem que areia e montes. “Kubayashi” e “Saigo”, cada um à sua maneira, representam o anti-herói japonês, mas nem por isso deixam de fazer a sua parte e lutar pelo que verdadeiramente acreditam com a mesma valentia dos restantes.

As interpretações dos actores são do mais elevado quilate, destacando-se naturalmente Ken Watanabe, um actor que emergiu das profundezas do Japão e atingiu que nem um soco a cena cinematográfica mundial. Actualmente, afigura-se como candidato a desempenhar um papel asiático em tudo o que seja uma grande produção norte-americana (pense-se nas participações do actor em "Memórias de uma Gueixa" ou "O Último Samurai").

Este texto estaria incompleto, se não houvesse ainda uma palavra especial para mais dois aspectos. O primeiro passará pelo uso dos tons cinzentos e castanhos na imagem, que confere uma beleza singela a um filme que tem uma grande tragédia por fundo. O outro reconduzir-se-á ao trabalho de casa e profissionalismo com que Eastwood encarou a feitura da película, mormente no respeitante aos costumes e modo de agir do exército japonês.

Com cenas que irão figurar por muitos anos no panteão do que de melhor se fez no mundo maravilhoso do cinema (pense-se no suicídio dos soldados japoneses com granadas), e um vencedor de um Óscar e de um globo de ouro, para além de outros prémios importantes, “Cartas de Iwo Jima” constitui um marco indelével!


"As tropas japonesas no calor do combate"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinema Cafri, Fanaticine, Público, Cine Repórter, Cine Críticas, A Cinematic Vision, Cine Pt, Docas nas Asas do Desejo, Axasteoquê ?, Mulholland Drive, gonn1000

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50