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domingo, outubro 17, 2010

Ninja in the Dragon's Den Aka Ninja Kommando/Long zhi ren zhe – 龙之忍者 (1982)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 95 minutos

Realizador: Corey Yuen

Com: Hiroyuki Sanada, Conan Lee, Hwang Jang Lee, Tai Po, Wei Ping Ao, Kwan Yung Moon, Hiroshi Tanaka, Kaname Tsushima, Ma Chin Ku, Feng Tien, Wu Jiaxiang

Jin-wu

Jin Wu”

Sinopse

“Jin Wu” (Hiroyuki Sanada) é um ninja consumido por um sentimento de vingança, cujo objectivo final é matar o assassino do seu pai. O seu próximo passo é viajar até à China, de forma a encontrar “Fok” (Hiroshi Tanaka), o suposto responsável pela morte do progenitor de “Jin Wu”. Por sua vez, “Fok” é como um pai para o jovem mestre “Jay Ching” (Cona Lee), um habilidoso praticante de kung-fu, que revela ser bastante imaturo, pois anda sempre a pregar partidas a terceiros ou a arranjar lutas.

Jay

Jay Ching”

Chegado à China, “Jin-wu” procura assassinar “Fok”, mas inevitavelmente choca com “Jay”, que tenta proteger o ancião. Peripécia após peripécia, e luta após luta, “Jin Wu” e “Jay” acabam por se unir contra um inimigo comum.

Jin wu 3

Jin Wu nos trajes de ninja”

Review”

Constituindo o primeiro sucesso do conhecido actor e realizador Corey Yuen, “Ninja in the Dragon's Den” é mais um daqueles filmes que é apontado como uma referência obrigatória dos filmes de artes marciais. Embora não seja um dos meus favoritos, sou obrigado a concordar. Logo no início da película, a introdução promete imenso, pois afigura-se a um clip musical, onde os ninjas são reis. Podemos ver os míticos assassinos japoneses a demonstrar muitos dos seus truques e acrobacias, ao som de uma típica melodia pop dos anos '80, onde a certa altura se ouve o vocalista a debitar com convicção “ooh, shaka ninja!” Atentem à letra e vão perceber a que me estou a referir:

Silent Night!
Along the coast no sign is heard,
Of a man who might!
move through the night without a word,
as if he wasn't there, and you can't be sure, that he wasn't there!

Refrão
now listen to me children and I'll tell you of the legend of the Ninja,
they were men of the night
they moved in the night
and shared their lives
they were ready to fight (ooh shaka-ninja)
ready to kill,
they were ready to die,
ready to die -- ie, ahh --

Velhos ninjas

Velhos amigos”

Feito este apontamento que reputo de interessante, “Ninja in the Dragon's Den” revela ser um conto clássico de artes marciais, onde os costumeiros conceitos da amizade, honra e vingança estão bem presentes. Adicione-se estas premissas a momentos ingénuos de comédia e a um manancial de excelentes e bem executadas cenas de combate, temos que o “cocktail mágico” está pronto. É só ingeri-lo e deliciar-se, sem grande stress ou filosofias exacerbadas. Efectivamente, é preciso reconhecer que onde esta obra precisa de apostar mais, ou seja os combates de kung-fu, sai claramente vencedora. Imaginativas, brilhantes, de tirar a respiração, Corey Yuen providencia as condições para o grande Hiroyuki Sanada, Conan Lee e demais intervenientes ofereçam um “show” de acrobacias e golpes de antologia, que ficarão na retina de todos aqueles que visionarem esta longa-metragem. O clímax, neste particular, não será tanto a luta final entre os dois heróis e o também mítico Hwang Jang Lee, mas sim o combate precedente entre os protagonistas da película, onde os estratagemas e as armadilhas resultam numa combinação simplesmente fenomenal.

Com uma narrativa algo incoerente, (mas daí o que há de novo ou especial ?), e interpretações que apenas necessitam de ser acima da média no que concerne à parte física, “Ninja in the Dragon's Den” marca um capítulo do bom cinema de artes marciais, que nunca poderá desiludir os verdadeiros fãs, mesmo os mais exigentes. Os restantes, deverão passar apenas os olhos se estiverem curiosos para descobrir algo mais acerca das obras de artes marciais que se faziam há anos atrás, com muito menos recursos materiais do que é possível hoje em dia. Caso contrário, é favor passar ao lado e não estragar com criticas descontextualizadas ou completamente desfasadas do tempo ou do género.

Se és fã de artes marciais, não percas tempo. Este tem de fazer parte da tua colecção!

Luta

Jin Wu demonstra as suas capacidades”

imdb 7.5 em 10 (630 votos) em 17 de Outubro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,88

domingo, agosto 22, 2010

Fist of Legend/Jing wu ying xiong – 精武英雄 (1994)

Capa 2

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 103 minutos

Realizador: Gordon Chan

Com: Jet Li, Shinobu Nakayama, Chin Siu Hou, Billy Chow, Yasuaki Kurata, Paul Chun, Jackson Liu, Ada Choi, Yuen Cheung Yan, Toshimichi Takahashi, Kenji Tanigaki, Wong Sun, Lee Man Biu

Chen Zhen 4

“Chen Zhen”

Sinopse

“Chen Zhen” (Jet Li), é um estudante de engenharia chinês, que se encontra a tirar a sua licenciatura no Japão, onde mantém um relacionamento com “Mitsuko Yamada” (Shinobu Nakayama) e luta contra as discriminações xenófobas que o clã do dragão negro leva a cabo contra os imigrantes e estrangeiros. No ano de 1937, “Chen” retorna a Xangai, um protectorado britânico, mas que na realidade se encontra ocupado pelos japoneses, tendo em vista vingar a morte do seu mestre “Huo Yuanjia” às mãos de “Ryuchi Akutagawa” (Jackson Liu), o campeão dos opressores.

Mitsuko Yamada

Mitsuko Yamada”

Após lutar e derrotar “Akutagawa”, “Chen” desconfia do sucedido, atendendo a que o seu oponente nunca teria capacidades para derrotar “Huo Yuanjia”. Após algumas investigações, “Chen” conclui que o seu mestre foi alvo de envenenamento o que lhe retirou faculdades durante o combate. Ferido na sua honra, e pugnando pela defesa do nome da escola “Chin woo”, “Chen” parte numa cruzada de retaliação, que culmina no desafio ao general “Fujita” (Billy Chow), o líder da conspiração e um temível combatente e assassino.

Luta 5

Chen Zhen dá uma lição aos japoneses do clã do dragão negro”

Review”

Qualquer fã do cinema de artes marciais, sabe perfeitamente que “Fist of Legend” é uma obra incontornável, sendo para muitos considerado o melhor filme de sempre do género. Tendo por inspiração “Fist of Fury”, protagonizado pelo malogrado e lendário Bruce Lee, e apesar de não ser um grande cultor das películas deste estilo, penso que no que toca às longas-metragens dos anos '90, “Fist of Legend” provavelmente estará no mais elevado grau do pedestal, a par de “Drunken Master II”. Aqui Jet Li interpreta “Chen Zhen”, o mais conhecido discípulo da lenda “Huo Yuanjia”, um herói popular e co-fundador da “Associação Internacional de Chin woo”, uma escola de artes marciais que presentemente possui mais de 50 delegações espalhadas por todo o mundo. O curioso é que Jet Li viria a interpretar 12 anos depois, a personagem de “Huo Yuanjia”, no aclamado “Fearless”, de Ronny Yu.

Apesar das premissas presentes em “Fist of Legend”, esta película não seria considerada um “remake” oficial de “Fist of Fury”, atendendo a que os direitos pertencentes à conhecida “Golden Harvest”, não foram adquiridos pela “Eastern Productions”, a produtora do filme mais recente. Contudo, o argumento de “Fist of Legend” é marcadamente inspirado pelo de “Fist of Fury”, com ressalva de algumas excepções que servem para dar uma identidade mais própria. Um dos aspectos mencionados, e que merecem aqui algum destaque, é a personagem de Yasuaki Kurata, um dos maiores nomes dos filmes de artes marciais, que serve para dar um brilho mais incandescente a esta obra. “Fuimo Funakoshi”, o mestre de artes marciais interpretado por Kurata, é uma personagem que não existia em “Fist of Fury”. Em “Fist of Legend”, o realizador Gordon Chan tem o mérito de usar, de forma eficiente, a moral envolta em “Funakoshi”, de forma a que possamos entender que existe uma diferença muito grande entre o militarismo do Império do Japão que grassou nas décadas de '30 e '40, em oposição aos honrados mestres de artes marciais que mais do que nacionalismos exacerbados, defendiam a pureza de espírito e o respeito pelo próximo no combate. Acresce o facto de ser sempre um prazer termos a oportunidade de vermos grandes nomes das artes marciais exibirem os seus dotes um contra o outro, como é o caso de um combate efectuado entre Jet Li e Yasuaki Kurata. Independentemente da valia técnica e física dos protagonistas, a luta em causa prima igualmente pelo diálogo construtivo entre dois lutadores de gerações diferentes, em que Kurata dá uma lição moral a Li, tentando apontar-lhe o caminho e verdadeiro significado do espectro que deve nortear o facto de se ser um praticante de artes marciais.

Luta 8

“Chen Zhen luta contra o seu amigo Hou Ting Han”

As cenas de luta são, à falta de melhor adjectivo, impressionantes! E mantêm a sua actualidade, mesmo hoje em dia, ou seja não envelheceram nem foram ultrapassadas. O conhecidíssimo Yuen Woo Ping efectua um trabalho maravilhoso na direcção das cenas de acção, onde muito contribuirá o facto de ter à sua disposição excelentes executantes do género. Os momentos memoráveis de luta são imensos e farão as delícias dos espectadores, pois golpes de antologia não faltarão, evidenciando um Jet Li na melhor forma da sua carreira. Pense-se nos inesquecíveis momentos em que “Chen Zhen” entra autoritário pelo “dojo” do clã do dragão negro, e dá uma valente tareia nos japoneses, ou no combate a dois entre “Chen Zhen” e o seu amigo/rival “Hou Ting An”, exponenciado ainda mais espectacularmente na luta já acima mencionada com Kurata. Se alguma crítica existe a fazer, ainda que muito leve, será o facto de o digladiar final entre “Chen Zhen” e o temível general “Fujita” ter ficado um pouco aquém das expectativas, quando já vínhamos detrás com uma rodagem impressionante de pontapés, socos e acrobacias miraculosas.

Embora a película viva essencialmente do desfilar das impressionantes demonstrações de artes marciais, existe um cuidado mínimo em expor o espectro histórico e cultural da China em geral, e de Xangai em particular, onde os japoneses obtêm a predominância no domínio de um país estrangeiro, com todos os antagonismos daí advenientes. E este aspecto é bastante de elogiar, atendendo a que existem outras películas do género que desprezam completamente o pano de fundo que lhes serve de base, ficando a perder claramente por descurarem o manancial sócio-cultural subjacente. Por outra via, haverá à partida um sentimento nacionalista presente em “Fist of Legend”, que visa reagir contra a ocupação japonesa e sublimar as artes marciais chinesas perante as provenientes do país do sol nascente. Mas teremos de ser sinceros e reconhecer que os nipónicos não são todos reportados como maus. Desta vez, podemos nos aperceber que é salvaguardada a noção de terem honra, mesmo nas situações de maior “frisson”. Pense-se que “Chen Zhen”, o herói da trama, está apaixonado por uma bondosa mulher japonesa, o embaixador deste país é visto como uma pessoa equilibrada, a personagem interpretada pela lenda Yasuaki Kurata é um modelo de mestre de artes marciais e até “Akutagawa”, o combatente que mata o mestre de “Chen Zhen”, tem demonstrações óbvias de ser um homem justo e honrado. A excepção vai para o general “Fujita”, mas que é compreensível, pois é o vilão da história e o alvo a abater.

“Fist of Legend” ficará para sempre conhecido como uma das obras mais marcantes do cinema de Hong Kong em geral, e dos filmes de artes marciais em particular. Possui um Jet Li memorável e um Kurata que deslumbra apenas com a sua presença, uma história propícia para o que se pretende do género “aluno vinga mestre”, uma banda-sonora adequada, e mais alguns aspectos laterais que preenchem aquelas pequenas frestas que muitas vezes ficam esquecidas. O que é que se pode pedir mais: que apareçam novas obras que mereçam honrar a herança desta longa-metragem.

Um “must” do cinema de artes marciais! Obrigatório!

Luta 7

Chen Zhen Vs. General Fujita”

imdb 7.5 em 10 (7.467 votos) em 22 de Agosto de 2010

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

quarta-feira, agosto 11, 2010

Besouro (2009)

Capa

Origem: Brasil

Duração aproximada: 95 minutos

Realizador: João Daniel Tikhomiroff

Com: Aílton Carmo, Anderson Santos de Jesus, Jéssica Barbosa, Flávio Rocha, Irandhir Santos, Macalé, Leno Sacramento, Chris Vianna, Sérgio Laurentino, Adriana Alves

Cunho da Ásia

“Besouro” encontra-se incluído na rubrica deste blogue denominada “Cunho da Ásia”. Apesar de o coreógrafo ser Huan Chiu Ku, conhecido pelo seu trabalho em “Kill Bill” e em muitas películas de Hong Kong, ser o responsável pelas cenas de acção, na realidade o filme constante neste “post” não tem nenhuma relação com o continente asiático. Contudo, e atendendo a que as artes marciais não se resumem apenas aos países asiáticos, assim como existe uma analogia evidente na forma de realização/direcção, entendi que havia lugar para “Besouro” neste espaço. Deixo ao julgamento do leitor a opção tomada.

Besouro 2

Besouro”

Sinopse

Recôncavo baiano, 1924. Os fazendeiros brancos exploram cruelmente os trabalhadores negros, apesar de a escravatura já ter sido abolida há anos. O rosto da defesa dos oprimidos é “Mestre Alípio” (Macalé), um reputado mestre de capoeira, que ensinou a arte a várias pessoas, incluindo uma criança apelidada de “Besouro”. Anos depois, o jovem dono da plantação da zona, “Coronel Venâncio” (Flávio Rocha), manda assassinar “Mestre Alípio”, de modo a dar um golpe mortal na rebelião.

Coronel Venâncio

Coronel Venâncio”

Contudo, e através do misticismo e do sobrenatural, “Mestre Alípio” incentiva o seu melhor capoeirista “Besouro” (Aílton Carmo) a continuar a luta. Dos cantos mais recônditos da floresta, o novo líder da rebelião emerge, e dotado de poderes conferidos pelos orixás, guardiões da natureza, causa sérios problemas aos opressores do seu povo.

Exu

Exu, um dos orixás que auxiliam Besouro”

“Review”

Do país irmão Brasil, chega-nos uma obra com honras de exibição no festival de Berlim (e mais alguns a nível internacional), que tenta elevar ao máximo um dos símbolos do imenso país, a arte marcial afro-brasileira conhecida por capoeira e um dos seus principais representantes, o capoeirista Manuel Henrique Pereira, mais conhecido por Besouro Mangangá, Besouro Cordão de Ouro ou simplesmente Besouro (para saber mais ir AQUI). Conta-se que Besouro era capaz de feitos incríveis e que a sua alcunha tinha nascido do insecto que tanto admirava, por ser negro e capaz de desafiar as leis da física. Provavelmente foi este aspecto que influenciou o facto de no filme, “Besouro” desafiar as leis da gravidade, à semelhança de muitos “wuxia” orientais e ter sido uma das produções mais despendiosas de sempre do cinema brasileiro.

Confesso que quando chegou ao meu conhecimento que o cinema brasileiro tinha dado à luz uma obra que versava sobre a sua arte marcial por excelência, e após ter visto o trailer, o meu interesse ficou desperto o suficiente para conferir este filme. Finalmente pude faze-lo, e na primeira oportunidade resolvi colocar aqui um texto, pois é raríssimo podermos assistir a uma película de artes marciais falada em língua portuguesa. João Daniel Tikhomiroff, segundo me constou, é um veterano na realização de anúncios comerciais para a televisão, embora tenha produzido alguns filmes para a grande tela. Com “Besouro”, o realizador oferece-nos uma longa-metragem que não tem tanto de acção como se esperava, mas que aposta igualmente nas maravilhosas paisagens da Baía e na mensagem que tenta passar, conducente ao anti-esclavagismo, evidenciada na luta dos trabalhadores negros contra os opressores fazendeiros brancos.

Um dos orixás

A beleza da natureza”

Efectivamente, é preciso confessar que “Besouro” tem alguns pontos fortes e carismáticos, que irão atrair o interesse do espectador. Para além da já aludida mensagem e dos bonitos cenários, é interessante a introdução de alguns aspectos sobrenaturais e de misticismo, ilustrados nos orixás (divindades guardiãs dos elementos da natureza), que servem de certa forma para explicar algumas das capacidades sobre-humanas do herói da película. Mas igualmente é preciso reconhecer, e aqui não acompanharei a maior parte das críticas elogiosas feitas ao filme, que “Besouro” tem os seus pontos fracos, e de alguma forma são determinantes para que o mesmo acabe por ser uma obra mediana.

O argumento padece bastante de algum aprofundamento e acaba por se tornar repetitivo. Tudo acontece depressa demais e por vezes sem uma explicação credível. Outro aspecto que me desiludiu de certa forma, passa pelo encadeamento da película, no que concerne às cenas de luta. No início, temos a promessa muito suculenta que estaremos perante uma longa-metragem onde a acção irá ditar a lei, sem esquecer os aspectos mais introspectivos, necessários para elaborar um filme de qualidade apreciável. No entanto, existem os altos e baixos e é necessário reconhecer que Tikhomiroff não soube conjugar muito bem os momentos mais movimentados com aqueles mais contemplativos. “Besouro” arranca a todo o gás, depois estagna de uma forma por vezes incongruente, e lá mais para o fim parece que “acorda” e aposta num epílogo que deixa margem talvez para uma sequela (e daí, talvez não). Os actores não possuem atributos representativos muito apreciáveis, embora se reconheça que do ponto de vista das cenas mais físicas, as coisas correm melhor, a que não será alheio o facto de alguns serem na realidade praticantes de capoeira.

É necessário esclarecer aos portugueses e outros europeus menos informados, que a cena brasileira não se limita às telenovelas. O seu espectro cinematográfico é bastante apreciável e tem-se internacionalizado cada vez mais, evidenciando obras de uma pujante grandeza, cujos exemplos mais conhecidos actualmente serão “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”, apenas para falar de alguns. “Besouro”, por sua vez, é um filme bem intencionado, mas não poderá aspirar a figurar num panteão que está reservado apenas para aquelas obras que atingem uma já dita boa qualidade em todos os aspectos. Quanto ao Olimpo da sétima-arte, esse estará a milhas intermináveis...

Valerá a pena visionar, principalmente pela curiosidade despertada e pouco mais.

Luta

Besouro enfrenta Coronel Venâncio e os seus apaniguados”

imdb 6 em 10 (280 votos) em 11 de Agosto de 2010

Outras críticas em português:

  1. Fred Burle no Cinema
  2. Diversitá
  3. no15
  4. Factóide!
  5. CinePop

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 6

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 7

Mérito artístico – 7

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,13

sábado, outubro 10, 2009

Drunken Master II Aka The Legend of the Drunken Master/Jui kuen II - 醉拳二 (1994)
Origem: Hong Kong
Duração: 99 minutos
Realizadores: Lau Kar Leung e Jackie Chan (não aparece nos créditos finais)
Com: Jackie Chan, Ti Lung, Anita Mui, Felix Wong, Lau Kar Leung, Ken Lo, Chin Kar Lok, Pak Ho Sung, Cheung Chi Kwong, Hon Yee San, Andy Lau, Ho Wing Fong, Liu Chia Yung, Kwan Suki, Louis Rock, Vincent Tuatanne
"Wong Fei Hung"
Sinopse
“Wong Fei Hung” (Jackie Chan) é um jovem que se farta de meter em confusões e trapalhadas, e que tem um pai muito sério e rigoroso, o médico “Wong Kei Ying” (Ti Lung). No regresso a casa de uma viagem que visava comprar ingredientes para as curas do pai, “Fei Hung” inadvertidamente mete-se em mais uma embrulhada. Pelos vistos, o embaixador britânico na China, (Louis Roth) está metido num esquema que passa por exportar relíquias do país extremamente importantes, entre os quais um selo de jade do imperador. Tal comportamento está a ser combatido por nacionalistas e oficiais do governo chinês, nos quais se destaca o general “Fu” (Lau Kar Leung). No meio deste combate sem tréguas, “Fei Hung” é metido na trama.
"Drunken boxing"
O rapaz é um especialista na arte do “drunken boxing”, que potencializa ao máximo quando ingere bebidas alcoólicas em demasia. Infelizmente, o pai é um pacifista e desaprova qualquer tipo de luta, ainda para mais uma que necessita da ingestão de grandes qualidades de álcool para atingir o seu auge. Em consequência deste factor, “Fei Hung” terá de lutar não só contra os estrangeiros opressores, assim como com o antagonismo do progenitor. No entanto, terá na “Sra. Wong” (Anita Mui), a sua madrasta, uma grande aliada.

"Wong Fei Hung e o agente secreto"

"Review"

Quando se alude ao cinema ligado às artes marciais mais tradicionais, existem obras incontornáveis e cuja referência é obrigatória. “Drunken Master II” é uma delas. Após protagonizar o muito satisfatório “Drunken Master”, dezasseis depois Jackie Chan voltaria a envergar as vestes de Wong Fei Hung, o herói popular mais conhecido em e de toda a China. O filme foi extremamente bem sucedido, e esta premissa assume mais importância quando vários críticos, distantes do cinema asiático de artes marciais, elogiaram bastante esta película. Cabe ainda dizer que quando “Drunken Master II” viu a luz do dia, a popularidade das películas de kung fu já estava relativamente a decair, e isso não impediu que esta longa-metragem fosse um verdadeiro sucesso de bilheteira por toda a Ásia. Seis anos mais tarde, no virar do século, o filme viria a estrear em mais de mil salas de cinema nos E.U.A., sob a denominação de “The Legend of Drunken Master”, tendo granjeado alguma popularidade no meio.

Quando visionamos um filme de kung fu, normalmente o argumento é posto de parte (ou simplesmente é ignorado), e o que interessa são as cenas de acção, com especial ênfase para o domínio das técnicas de artes marciais. Estando em causa um filme de Jackie Chan, estas premissas são ainda mais elevadas. “Drunken Master II” não foge à regra, simplesmente distingue-se das demais películas, por demonstrar um Jackie Chan no seu auge, tanto nas coreografias bastante imaginativas, como nas demais acções levadas a cabo pelo próprio actor e pela sua equipa de duplos. Existe quem defenda que “Drunken Master II” foi a melhor película alguma vez protagonizada por Chan. Embora tal seja discutível, julga-se que quem afirma isto não andará muito longe da verdade. Certo é que “Drunken Master II” vive sob o signo do puro entretenimento, e com cenas de antologia, que viverão no imaginário dos fãs de artes marciais durante muito tempo.


"O general Fu"

O “drunken boxing” é algo bastante divertido de observar e que exterioriza a junção quase perfeita do insuspeito domínio de Chan nas artes marciais, com a sua veia mais cómica que muitas vezes critico negativamente. Como já foi aflorado, a personagem de Chan é especialista num estilo de kung fu que pouco tem de convencional. Deparando-se “Fei Hung” com a necessidade de enfrentar algum oponente, a sua salvação reside em embebedar-se. Após a ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas, mais do que um ser humano normal poderá aguentar, começa o desfile das excelentes coreografias. Quando Chan parece ir estatelar-se no chão, atira um soco ou um pontapé bem colocado nos adversários. Se Chan parece estar completamente desnorteado devido à bebedeira, é sinal que uma acrobacia incrível estará a caminho. Por incrível que pareça, a principal marca desta película originou uma incompatibilidade entre Lau Kar Leung, que defendia a existência de um kung fu mais tradicional nesta obra, e Chan, que achava que se deveria apostar muito mais no “drunken boxing”, por ser a marca distintiva desta longa-metragem. Leung viria a abandonar a rodagem das filmagens, e seria Chan a dirigir o embate final que ocorre no epílogo. O tempo viria a dar razão a Chan, pois além de efectivamente “Drunken Master” ter sido bem sucedido sobretudo pelo estilo original de luta que apresentava, o combate final é um hino ao bom cinema de artes marciais.

Os actores, regra geral, cumprem o que lhes é requisitado. No entanto, o actor Ti Lung é bastante jovem para representar o pai de Chan, e a caracterização (?) não consegue disfarçar este aspecto. Na realidade, Ti Lung é apenas sete anos mais velho do que Chan. A malograda e saudosa Anita Mui, é quem assume, juntamente com Chan, as despesas cómicas do filme e consegue arrancar alguns momentos de boa disposição. Quanto a Chan, o que haverá a dizer de novo? Não morro de amores pelo actor, como é do conhecimento geral, mas ele aqui está numa forma fantástica desde que se reduza a fazer o que sabe melhor, a sua imaginação nas coreografias de artes marciais. Neste particular, julgo que o “drunken boxing” constituiu o seu auge.

“Drunken Master II” poderá ser considerada, com muita propriedade, uma das melhores obras do cinema de artes marciais. Obrigatório para os fãs do género!


"Wong Fei Hung e a madrasta"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8




terça-feira, setembro 15, 2009

Ong Bak 2: The Beginning/Ong Bak 2 - องค์บาก 2

Origem: Tailândia

Duração: 94 minutos

Realizadores: Tony Jaa e Panna Rittikrai

Com: Tony Jaa, Sorapong Chatree, Sarunyu Wongkrachang, Nirut Sirichanaya, Santisuk Promsiri, Primorata Dejudom, Natdanai Kongthong, Patthama Panthong, Petchtai Wongkamlao, Dan Chupong, Supakorn Kitsuwon


"Tien"

Sinopse

O ano é 1471 (1974 no calendário budista). “Tien” (Nadtanai Konthong) é o jovem filho de “Lord Sihadecho” (Santisuk Promsiri), um dos quatro líderes militares mais importantes do reino de Ayutthaya, na antiga Tailândia. Devido a confrontos políticos, “Sihadecho” e a esposa são assassinados por “Lord Rajasena” (Sarunyu Wongkrachang), e “Tien” é obrigado a fugir. Tendo caído nas mãos de bandidos, o jovem “Tien” impressiona “Chernang” (Sorapong Chatree), o líder dos piratas “Pha Beek Krut”, que o salva, acolhendo-o como um filho e seu sucessor no bando.

"O jovem Tien enfrenta a fúria de um crocodilo"

Apercebendo-se do potencial intrínseco de “Tien” para o combate, “Chernang” e os seus homens treinam-o em vários estilos de artes marciais, conseguindo com que o rapaz se torne numa máquina de matar perfeita, que consegue combinar diversas formas de luta. Quando chega a adulto, “Tien” (Tony Jaa) continua a guardar as memórias do assassinato dos seus pais. Em virtude deste facto, parte numa cruzada de vingança contra os foras-da-lei que o aprisionaram, mas acima de tudo contra “Lord Rajasena”, que actualmente é o monarca de Ayutthaya.

"A manada de elefantes ajoelha-se perante Tien"

"Review"

Depois do grande sucesso de “Ong Bak”, onde nos foi revelado a mais fabulosa máquina de pancadaria jamais vista, e a continuação do massacre em “Warrior King/The Protector”, Tony Jaa está de volta em mais uma odisseia onde nos é demonstrado o inexcedível potencial do actor em tomar satisfações dos seus oponentes. À semelhança de outras obras cinematográficas, a feitura de “Ong Bak 2” não foi isenta de precalços, essencialmente do ponto de vista financeiro e até do ponto de vista pessoal, no que concerne ao próprio Tony Jaa. A película começou a ser rodada em 2006, mas algures por volta de Julho de 2008, o actor, e aqui também realizador, desapareceu do local de filmagem, deixando toda a gente pendurada. Vários rumores circularam à altura, que chegaram ao ponto de afirmações que colocavam Tony Jaa num estado desolado e em isolamento total, algures numa caverna a praticar magia negra. A fronteira entre a realidade e a ficção é bastante ténue, e nestas coisas nunca sabemos o que é verdade ou mentira. O que é certo foi que o atraso fez com que a produção do filme começasse a causar prejuízos financeiros, havendo uma troca de acusações entre a companhia “Weinstein”, a “Sahamongkol Film” e o próprio Tony Jaa. Após o ultrapassar do dilema, as filmagens continuaram, com uma importante adição. O mentor de Tony Jaa e coreógrafo de artes marciais Panna Rittikrai foi chamado ao projecto, pois entendeu-se que seria uma pessoa com capacidades para completar esta longa-metragem. Daí que se pode afirmar que “Ong Bak 2” possuiu dois realizadores, um na fase inicial e outro na parte final.

Toda a gente conhece, em maior ou menor medida, o grande impacto do primeiro “Ong Bak”, que na altura foi um enorme soco no estômago no que aos filmes de artes marciais diz respeito. Um desconhecido chamado Panom Yeerum, que adoptou o nome artístico de Tony Jaa, explodiu nas telas, demonstrando todo o potencial e força que o Muay Thai pode revelar nas telas. E verdade se diga, o manancial de golpes, acrobacias e atrever-me-ia a dizer brutalidade, foi algo até então nunca visto! Falo por mim, é claro! Em nome do claro desprezo pelo argumento, o que interessava verdadeiramente era observar os entusiasmantes pontapés e socos, mas ainda mais as joelhadas e cotoveladas que um aparentemente inocente/inofensivo Jaa desferia nos seus infelizes opositores. Posteriormente, Jaa viria a protagonizar “Warrior King/The Protector”, uma película que no global era inferior a “Ong Bak”, superiorizando-se eventualmente na parte mais sentimental, devido à relação entre Jaa e o elefante “Por Yai”, para além da cria “Korn”. Chegamos então a este “Ong Bak 2”, e desde já se adianta que é um filme superior aos anteriormente mencionados, embora convenhamos que esteja bastante longe de ser isento de falhas.

"Tien é auxiliado por um elefante em combate"

O facto de “Ong Bak 2” constituir a longa-metragem de maior craveira protagonizada por Jaa, passa essencialmente por demonstrar ser um filme mais elaborado no seu todo. Existe, por exemplo, um cuidado ligeiramente acrescido na trama, embora a mesma continue muito básica. E a maior crítica que advém neste particular, já profusamente repetida por muitos, é que não se consegue discernir uma relação directa entre este “Ong Bak” e o anterior. Ou seja, não existem elementos de ligação entre os dois filmes, no sentido de nos apercebermos qual é a verdadeira relação entre ambos. Através de repetidos reparos neste particular, Jaa responderia meio irritado que a relação seria estabelecida em “Ong Bak 3”. Ficam pois a saber desde já que a saga “Ong Bak” não ficará por aqui, o que já seria bastante previsível face ao epílogo de “Ong Bak 2”. Quanto a mim, julgo que será mais ou menos óbvio atendendo ao título do filme, que a personagem principal de “Ong Bak 2”, será um antepassado de “Ting”, o jovem inocente de “Ong Bak”. Mas como já referi, e sou obrigado a reiterar este aspecto, os “Ong Bak's” não primam muito pelo argumento, pelo que nos resta aguardar de alguma forma o que irão “inventar” para estabelecer um paralelo que até parece óbvio.

Outro aspecto que eleva “Ong Bak 2” a um patamar superior, quando comparado com o seu predecessor, passa por uma produção em muito maior escala, a que não será alheio, como é óbvio, a existência de fundos monetários mais desafogados. Isto reflecte-se essencialmente nos aspectos visuais, por vezes fenomenais, que o filme denota. “Ong Bak 2” vive diversas vezes sob o signo da sumptuosidade, que em muito contribuirá o facto de a película ocorrer na Tailândia do século XV. A beleza das paisagens, mormente das montanhas, dos rios e dos templos entusiasmam e conferem um pano de fundo aprazível a esta longa-metragem e que em nada defraudará aqueles que se consideram cultores de uma boa fotografia e de cenários paradisíacos. Trata-se de um dos pontos fortes de inúmeras películas asiáticas, e aqui “Ong Bak 2” faz jus à sua orientalidade, ficando a dever a poucas longas-metragens.

Chegamos agora à verdadeira razão de existência de “Ong Bak 2”, ou seja, a acção. Como já aflorei, aqui temos um Tony Jaa diferente dos seus anteriores registos, pelo facto de o Muay Thai não ser a lei. O actor demonstra que o seu registo de golpes não se limita à arte marcial rainha da sua terra natal e navega por outras formas de combate que irão desde o wushu até ao kendo, passando por muitas outras. O manancial de golpes desferido é de tirar a respiração, acontecendo momentos que por vezes podemos catalogar “de outro mundo”. E a vantagem é que as cenas são filmadas de uma forma que nos apercebemos de praticamente todos o impacto e a técnica envolvida. E esta premissa aplica-se, imagine-se, aos casos em que estão envolvidos animais. A cena do jovem “Tien” no poço do crocodilo é bastante feliz, e quase acreditamos que efectivamente encontra-se um jovem a lutar pela sua vida, contra o réptil perigosíssimo. Mas o que verdadeiramente nos conquista, e tal deriva da própria paixão de Jaa por estes animais, são as cenas em que intervêm os elefantes. Deparamo-nos com “Tien”, durante uma debandada destes animais, a saltar progressivamente de elefante em elefante, até chegar ao líder e dominá-lo. Posteriormente, todos os elefantes vergam-se à coragem do guerreiro, e reconhecem-no como seu superior. Embora seja evidente a inverosimilidade da situação, não poderá ser negado que o efeito é espectacular, inspirador e com algo de majestoso. Obviamente que não poderia deixar de aludir aos combates físicos que se passam no dorso de um dos elefantes. É simplesmente de ficar embevecido, tanto pela agilidade dos intervenientes (existem partes que se nota que o uso do guindaste foi afastado!), como pela calma e até intervenção do animal quando confrontado com todos os actores à sua volta num grande rebuliço.

Sendo um filme manifestamente incompleto, e claramente a solicitar uma sequela, “Ong Bak 2” acaba por se revelar como uma agradável surpresa. É uma clássica história de vingança, sem nada que se possa apontar como inovador neste segmento. No entanto, é imperioso que continue a haver espaço para aquele tipo de películas que vivam quase exclusivamente da acção, do empirismo e do entretenimento à moda antiga. “Ong Bak 2” marca definitivamente a sua presença nesta classe, e dentro do seu género, é uma obra que marca uma presença indelével. Aguardemos, pois, pelo que Tony Jaa e Panna Rittikrai nos reservaram para “Ong Bak 3”, de forma a que percebamos o que efectivamente significa a expressão “Ong Bak”, no meio desta fúria imensa de sangue, misticismo e artes marciais do melhor que pode ser oferecido hoje em dia!

Vale a pena conferir!


"Tien vinga-se sobre um dos seus captores"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75




quarta-feira, agosto 19, 2009

Ip Man - 葉問 (2008)
Origem: Hong Kong
Duração: 107 minutos
Realizador: Wilson Yip
Com: Donnie Yen, Simon Yam, Gordon Lam, Lynn Xiong, Louis Fan, Hiroyuki Ikeuchi, Xing Yu, Wong Yau Nam, Chen Zhihui
"O grande mestre Ip Man"

Sinopse

Em 1930, a cidade de Foshan é conhecida pelo grande número de praticantes de artes marciais, e pelas várias escolas que rivalizam entre si. “Ip Man” (Donnie Yen) é de longe o melhor lutador, mas a sua humildade faz com que não aceite discípulos, e leve uma vida abastada e calma com a sua família e amigos, para além de treinar e tentar aperfeiçoar as suas habilidades. De vez em quando, “Ip Man” luta privadamente com outros mestres, inapelavelmente vencendo-os sempre, inclusive o lutador forasteiro “Jin” (Louis Fan) que pretendia desonrar os combatentes de Foshan.

"Ip Man e a sua família"

Em 1937, com o incidente Marco Polo, o Japão invade em força a China e ocupa Foshan. O outrora rico “Ip Man”, vê-se privado da sua casa que se torna o quartel-general das forças nipónicas e cai na miséria. Obrigado a trabalhar numa mina de carvão e posteriormente na fábrica de algodão do amigo “Quan” (Simon Yam), “Ip Man” apercebe-se da tirania dos japoneses perante os habitantes de Foshan, e começa a criar um sentimento nacionalista e de defesa da pátria ocupada. Vencendo vários japoneses em combates de artes marciais, “Ip Man” acaba por desafiar o general “Miura” (Hiroyuki Ikeuchi), o comandante local, para uma luta perante os habitantes da cidade.

"Ip Man, rodeado por dez lutadores japoneses"

"Review"

“Ip Man” visa ser um filme biográfico acerca de uma das personagens contemporâneas mais importantes do mundo das artes marciais, chamado precisamente Ip Man. Este mestre de artes marciais é bastante conhecido na China e em Hong Kong, tendo sido celebrizado no ocidente por ter sido mentor de, nada mais, nada menos que Bruce Lee. O projecto de fazer um filme acerca da vida de Ip Man já existia há algum tempo, desde 1998, mas parecia votado ao abandono. Contudo, o conhecido produtor Raymond Wong, após ter obtido o consentimento dos filhos de Ip Man, foi de armas e bagagens para Foshan, de forma a investigar o passado do famoso praticante de Wing Chun. Estreada a película, a recepção foi francamente positiva, com críticas bastante favoráveis e a consagração nos Hong Kong Film Awards, onde a obra viria a arrecadar o prémio para melhor filme e para melhor coreografia de acção. Sendo a primeira parte de uma trilogia, a sequela chega já em 2010, onde a personagem de Bruce Lee, aparecerá com a tenra idade de 10 anos.

Ao longo de muitos anos, foram realizadas várias películas das cinematografias de Hong Kong, China e Coreia do Sul, cujo inspiração principal passava pela resistência a um invasor estrangeiro. Em muitas delas, o alvo principal eram os japoneses, pelas razões históricas que todos conhecemos, e que não vale a pena estar a explorar muito agora, pois já o fiz profusamente antes, a propósito de outras críticas. No caso em concreto do cinema de artes marciais, tal premissa deu origem a obras emblemáticas como “Fist of Fury”, “Fist of Legend”, “Fighter in the Wind” e “Fearless”, tendo desta forma quase nascido um subgénero no meio. “Ip Man” é uma obra que se enquadra bastante na linha anteriormente mencionada, tendo inclusive uma cena no dojo em que o mestre chinês dá uma verdadeira lição de pancadaria a um grupo de japoneses. O paralelo é fácil de se aperceber para os mais informados na matéria, não fossem existir cenas parecidas em “Fist of Fury” ou “Fist of Legend”, cujos intervenientes foram Bruce Lee e Jet Li, respectivamente. O nacionalismo está bastante presente, evidenciando-se em vários momentos. “Ip Man” é um herói chinês que recusa a vergar-se perante a opressão que lhe está a destruir o país e subsequentemente a vida. Podemos ver o mestre a tomar diversas atitudes de resistência contra a dominação japonesa, e até contra as aproximações mais amigáveis destes. Exemplo disto é a recusa do pedido do general “Miura” por parte de “Ip Man”, e que consistia em ensinar Wing Chun aos soldados nipónicos. Consta que esta parte não tem nada de mito, mas aconteceu mesmo na realidade, salvaguardando-se desta forma algum rigor histórico.

"Ip Man em acção"

As cenas de acção estão extremamente felizes, com um Donnie Yen numa forma invejável aos 45 anos. A situação só pode melhorar com a coreografia a cargo do insuspeito Sammo Hung, com uma vastíssima e por demais conhecida experiência na matéria. As entusiasmantes cenas de artes marciais estão bem temperadas com a parte mais dramática da trama, fazendo com que os combates não sejam insípidos e plenamente justificados face às circunstâncias. Cumpre dizer que Yen é bem secundado por actores que detém experiência no domínio das artes marciais, como são Louis Fan e Hiroyuki Ikeuchi, sendo este último um cinturão negro em judo.

Donnie Yen, exibe-se num bom plano, e atrever-me-ia a dizer que é dos papéis mais bem conseguidos da sua carreira. Justifico-me pelo facto de normalmente associarmos Donnie Yen às personagens exclusivamente de acção, em que lhe é apenas exigido que se exiba num bom plano a nível do seu inquestionável domínio das artes marciais. Aqui é-lhe imposto algo mais. Yen tem de aliar a parte física à parte mais representativa que ligamos a um actor dito mais convencional. O resultado foi bastante satisfatório. Donnie Yen sem deslumbrar, demonstra que não é apenas um dos melhores executantes de filmes de acção a nível mundial, mas também é capaz de se adaptar a papéis onde efectivamente tem de agir a um nível mais erudito. Na minha opinião, este mito de Hong Kong precisava de um papel assim, nem que fosse para desmistificar algum estereótipo que lhe havia sido colocado. O próprio Donnie Yen haveria de confessar que este tinha sido o trabalho mais difícil da sua profícua carreira. Além de estar meses a preparar-se mentalmente para representar Ip Man, Yen entrou numa dieta exigente de vegetais e consumia apenas uma refeição diária. Treinou imenso Wing Chun e estudou arduamente a vida de Ip Man, de forma a se embrenhar melhor na personagem.

Um dos pontos bem conseguidos de “Ip Man”, é que ao lado de Yen, Fan e Hikeuchi, despontam bons actores, com provas dadas na representação em filmes de géneros distintos do das artes marciais. Gordon Lam possivelmente é o que se sai melhor. O seu papel de um ex-polícia, que se torna um tradutor para os japoneses (e por este motivo, visto como um traidor), é profundo e bem executado. Sentimos as dúvidas que Lam sente ao longo do filme, e o seu desempenho faz-nos questionar acerca da reacção que teríamos numa situação semelhante. Por este motivo, acabamos por justificar muitas das suas acções, e no fim, de uma forma diversa, o heroísmo de Lam acaba por ser quase tão grande como o do próprio Donnie Yen. Igualmente não se pode esquecer a presença do competente e emblemático actor Simon Yam, que se exibe num nível aceitável, embora não dê tanto nas vistas como o já citado Gordon Lam.

Com uma bela banda-sonora do conhecido compositor japonês Kenji Kawai, “Ip Man” constitui uma agradável surpresa e um marco na carreira, tanto do realizador Wilson Yip, como do mítico Donnie Yen. É certo que falha bastante (pelo menos, atendendo ao que li) como biografia do verdadeiro Ip Man, mas ganha no entretenimento e no enredo ficcionado. É pois, com alguma ânsia, que se aguarda “Ip Man 2”, esperando que se enverede pela mesma linha do primeiro filme, onde a acção está bem temperada com o drama. E sempre teremos a oportunidade de ver quem é que Donnie Yen vai desancar em Hong Kong, já que não terá os japoneses como alvo a abater. E sim, como já referi acima, vamos ter como uma das personagens um miúdo chamado Bruce Lee, a dar os primeiros passos na direcção da sua saga no mundo das artes marciais. A curiosidade aumenta ainda mais, quando Wong Kar Wai está a preparar o seu próprio “biopic” do mestre e que terá Tony Leung Chiu Wai como protagonista principal. Desconfio, e tenho a certeza que não estou sozinho neste particular, que iremos nos deparar com uma abordagem completamente distinta da vida de “Ip Man”, provavelmente mais contemplativa e incidente sobre outros aspectos ditos mais existencialistas e dramáticos. Quanto a este “Ip Man”, é sem margem para qualquer dúvida, uma boa obra do cinema de Hong Kong, que entusiasma e, por essa via, merecerá uma atenta espreitadela.

Bom filme!


"O general Miura Vs. Ip Man"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 7,88




quarta-feira, março 11, 2009

O Regresso à 36ª Câmara de Shaolin/The Return to the 36th Chamber/Shao Lin da peng da shi - 少林搭棚大師 (1980)

Origem: Hong Kong

Duração: 100 minutos

Realizador: Lau Kar Leung

Com: Gordon Liu, Johnny Wang, Chen Szu Chia, Kara Hui, Hsiao Hou, Wong Gam Fung, Cheng Wai Ho, Wong Ching Ho, Wa Lun, Lee King Chue, Yau Chiu Ling, Cheng Miu, Kong Do

"Chu Jen Chieh"

Sinopse

No tempo em que os Manchus dominavam os destinos da China, os trabalhadores da fábrica Cheng Tai vêm os seus salários cortados em 20%, devido ao facto de os patrões terem contratado trabalhadores daquela etnia. Os anteriormente felizes empregados decidem revoltar-se, mas são brutalmente espancados e obrigados a conformar-se com a situação. “Chu Jen Chieh” (Gordon Liu), irmão de um dos trabalhadores da fábrica, decide intervir de uma forma pouco ortodoxa. Sendo um aldrabão nato, que se faz passar por um monge de Shaolin, decide personificar “San Te”, o lendário sacerdote do famigerado templo, e ameaçar os manchus de forma a pagarem o justo ordenado. O embuste resulta no início, até que o líder dos manchus “Kao Feng” (Johnny Wang) decide testar as capacidades de “Chieh”, descobrindo desta forma que este está longe de ser um especialista em artes marciais.

"Chieh, ladeado pelo irmão e por Ah Chong com a sua dentadura exagerada"

Despeitado, “Chieh” decide ir em busca do templo de Shaolin, de forma a que o verdadeiro “San Te” (Lee King Chue) o ensine a lutar. No entanto, “Chieh” decide recorrer novamente a métodos pouco ortodoxos, sendo descoberto por “San Te” e obrigado por este a construir andaimes durante três anos, em vez de aprender artes marciais. Mal sabe “Chieh” que esta actividade consiste no treino que “San Te” lhe reservou. Quando “Chieh” conclui os andaimes, é mandado embora por “San Te”, e chega à sua terra frustrado, convencido que nada percebe de kung fu. Apercebendo-se da injustiça que continua a grassar perante os trabalhadores da fábrica, “Chieh” finalmente chega à conclusão que “San Te” na realidade dotou-o de capacidades de luta impressionantes e decide desafiar os manchus.

"Treino em Shaolin"

"Review"

Na sequência do grande e merecido sucesso de “A 36ª Câmara de Shaolin”, Lau Kar Leung associado ao inevitável Gordon Liu, assumiu a empresa de realizar um segundo filme. Sendo certo que, devido ao argumento da primeira parte da saga, a emblemática personagem do monge “San Te” tinha-se esgotado um pouco na sua demanda (basicamente vingou-se de todos os que lhe fizeram mal), haveria que decidir qual o rumo que esta nova película seguiria. Algumas opções poderiam ser tomadas, mas quais? Enveredar por novas aventuras do sacerdote de Shaolin, sem uma relação directa com o primeiro filme? Colocar “San Te” num papel secundário, como mestre de um novo herói? Como compaginar o protagonismo de Gordon Liu no papel de “San Te”, sem lhe retirar o estrelato?

A escolha recaiu em conferir um papel completamente diverso do que lhe tinha sido atribuído em “A 36ª Câmara de Shaolin”, com “San Te” a ser atribuído a outro actor, neste caso Lee King Chue. A diferença na interpretação de Gordon Liu reflecte-se igualmente nas características da personagem “Chieh”, que são bastante diferentes do “San Te” da primeira película. Na parte inicial da saga, Gordon Liu dava corpo a um jovem mais sério e compenetrado, cuja motivação passa por ser de pura vingança, tanto por motivos políticos (a luta contra o domínio manchu), como estritamente pessoais (a morte de todos os elementos da família). Em “O Regresso à 36ª Câmara de Shaolin”, Liu é obrigado a evidenciar aspectos cómicos e verdadeiramente trapalhões, pois “Chieh” assim o obriga. Trata-se de um carácter que pouco de seriedade tem, e que se afigura mais um escroque em que todos os sarilhos que se mete reconduzem-se aos seus esquemas pouco ortodoxos para ganhar dinheiro ou obter um outro qualquer objectivo. Pessoalmente, entendo que Liu tem mais vocação para papéis como os de “San Te”, do que propriamente como o de “Chieh”, e é por isso que o preferi ver na obra inicial, e que seria de longe a melhor da saga. No entanto sempre se ressalva que ambas as longas-metragens acabam no fim por enveredar pelo mesmo caminho, e isto reflecte-se na “performance” de Liu. Julgo que consegui desta forma arranjar uma maneira mais simpática de afirmar que os manchus vão todos apanhar pela medida grande!

"Chieh defronta um manchu"

E aqui chegamos à parte que interessa mais quando discutimos filmes de kung fu puros e duros, ou seja, as lutas. Os combates são extremamente inventivos e interessantes. É absolutamente imperdível a fase do treino de “Chieh” em Shaolin onde, à primeira vista, o rapaz é posto de parte a fazer trabalhos mais próprios da construção civil, nomeadamente na construção de andaimes. Com o decorrer do tempo e a exercer este ofício que não parece ser adequado a quem pretende se tornar num “expert” em artes marciais, “Chieh” desenvolve uma técnica pouco ortodoxa mas extremamente efectiva. Torna-se gratificante e bastante entretido observarmos Gordon Liu a despontar uma arte de luta bastante original, que tem o seu ponto alto no costumeiro combate final do filme. E é precisamente aqui que se encontra o único ponto superior à primeira parte da saga. A luta que ocorre no epílogo é óptima e entusiasma bastante, principalmente por termos a sensação que o vilão “Kao Feng” (embora a certa altura auxiliado por terceiros), além de deter técnicas de combate interessantes, consegue fazer alguma frente a “Chieh”.

“O Regresso à 36ª Câmara de Shaolin” é um filme agradável, mas que se encontra a milhas do seu predecessor. Não possui a mesma qualidade, e muito menos um impacto que se lhe possa comparar. Tem momentos verdadeiramente gloriosos, é certo, mas perde algo no argumento e na representação dos actores, pois pessoalmente, não gosto mesmo nada da veia cómica de Gordon Liu e dos dentes falsos (tremendamente exagerados, diga-se de passagem!) que obrigaram o actor Hsiao Hou a usar, de forma a acentuar o burlesco. Salva-se, claro está, os interessantíssimos combates e as inolvidáveis capacidades técnicas de Liu, no período mais brilhante da sua carreira. Por esta razão, agradará sobretudo aos verdadeiros amantes do “kung fu old school”.

Razoável!


"Kao Feng, o líder dos manchus, desafia Chieh"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 7

Banda-sonora - 6

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,25