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sábado, novembro 07, 2009

Capa

Friend/Chingoo – 친구 (2001) 

Origem: Coreia do Sul

Duração: 116 minutos

Realizador: Kwak Kyung-taek

Com: Yu Oh-seong, Jang Dong-kun, Seo Tae-hwa, Jeong Un-taek, Kim Bo-kyeong, Gi Ju-bong, Ju Hyeon, Chang Yun

Os 4 amigos

“Os 4 amigos. Da esquerda para a direita: Sang-taek, Joon-suk, Dong-su e Jong-ho”

Sinopse

Em 1976, na cidade de Busan (também conhecida por Pusan), quatro jovens são amigos inseparáveis e partilham todos os seus momentos bons e maus. Cada um deles, possui uma personalidade muito própria e distinta dos demais. “Joon-suk” (Yu Oh-seong) é o filho de um líder Jopok (crime organizado sul-coreano), e o lutador mais destemido do grupo. “Dong-su” (Jang Dong-kun) sofre de um complexo de inferioridade, devido ao seu pai ser coveiro. De forma a ultrapassar a sua insegurança, exterioriza uma personalidade muito forte e faz tudo para impor a sua vontade. Torna-se no braço direito de “Joon-suk” no seu “gang” de jovens delinquentes, e apesar de serem bons amigos, existe sempre uma grande tensão entre ambos quando se encontram sós. “Jong-ho” (Jeong Un-taek) é o bobo da corte, e tudo faz para divertir o grupo. Por fim, “Sang-taek” é o estudante modelo, que apesar de prezar os amigos como irmãos, evita certo tipo de actividades, e evidencia óptimos resultados escolares. As experiências dos amigos acompanham o evoluir dos tempos de então, de que constitui exemplo o depararem-se com o primeiro vídeo-gravador, que usam para visionar “pinku eiga” japoneses, um género erótico cujo começo da popularidade remonta aos anos '60-'70.

Luta

“Joon-suk enfrenta um grupo de rivais”

Com o passar dos anos, o grupo separa-se, enveredando por caminhos diversos. “Sang-taek” e “Jong-ho” continuam os seus estudos na universidade, enquanto que “Joon-suk” e “Dong-su” desistem da escola e seguem a sua vida em organizações criminosas distintas. Em relação a estes últimos o conflito torna-se inevitável e uma guerra de personalidades deflagra. “Sang-taek” e “Jong-ho” tentam, em nome da amizade resolver as diferenças entre aqueles a quem consideram irmãos, mas o correr de sangue parece inevitável.

Sang-taek ampara Joon-suk

“Sang-taek ampara Joon-suk”

“Review”

Quando “Friend” viu a luz do dia, tornou-se quase instantaneamente no filme mais bem sucedido de sempre nas bilheteiras da Coreia do Sul, ostentando um orgulhoso recorde de mais de 8 milhões de sul-coreanos nas salas de cinema do país. Entretanto, e como o cinema é uma actividade extremamente dinâmica, “Friend” neste particular já foi batido por “Silmido”, “Taegukgi”, “The King and the Clown”, “Speedy Scandal” e “The Host”. Contudo, é indesmentível que estamos perante um marco do cinema daquelas paragens. A película é uma espécie de semi-autobiografia do realizador Kwak Kyung-taek, onde este disserta acerca da experiência com os seus amigos, ocorrida em anos passados na sua cidade natal, que é precisamente Busan.

Normalmente costuma-se dividir “Friend” em duas partes, embora ache mais adequado autonomizar uma terceira. A primeira incide sobre a meninice dos amigos, onde experimentam as vivências comuns das crianças e acompanham com intensa curiosidade as novidades que se lhes vão deparando. Pense-se no vídeo-gravador que põe atónitos os miúdos, ou os filmes “pink” que ajudam o seu despertar para a sexualidade. A segunda parte, a que julgo merecer honras de apreciação própria, foca-se na adolescência dos intervenientes. Aqui começamos a nos aperceber de qual será o rumo que cada um irá tomar na sua vida, existindo uma bipartição no grupo. Enquanto “Jong-ho” e principalmente “Sang-taek”, parecem caminhar no rumo certo, obtendo resultados aceitáveis nos estudos, “Joon-suk” e “Dong-su” abandonam a escola e começam aos poucos a se impor como criminosos. No entanto, a amizade mantém-se, apesar de se notar uma tensão crescente entre estes dois últimos. Por fim, a terceira parte reconduz-se ao reencontro dos amigos, em circunstâncias adversas, onde “Joon-suk” e “Dong-su” estão em “gangs” de Jopok rivais, e a tensão está prestes a eclodir. A apreciação geral do argumento é positiva, embora se admita que o mesmo não é constante e por certas vezes se afigure algo desequilibrado. A primeira parte é sem dúvida a mais constante, onde é recriada uma Busan dos anos setenta, que me parece bastante fidelizada e onde apreciamos imenso a construção da personalidade dos jovens e a sua interacção. A segunda e terceira partes, embora mais emotivas, desembocam mais num filme Jopok, que será o equivalente sul-coreano às películas Yakuza no Japão, ou das Tríades na cinematografia de Hong Kong. Nada de mal existe nisto, até porque o autor deste texto é particularmente atreito ao género. Simplesmente nesta fase, “Friend” incide muito mais sobre a relação amor-ódio existente entre os amigos que degeneram para a delinquência, “Joon-suk” e “Dong-su”. Em consequência, os restantes elementos do quarteto que não descarrilaram, a saber, “Jong-ho” e “Sang-taek”, são menorizados na trama e em certos momentos, quase erradicados. Este factor provoca uma certa descompensação, porquanto é-nos incutido uma forte relação a quatro, desde o início da película.

A observar o mar

“Dong-su contempla o mar, acompanhado por um capanga”

Não obstante a transformação do drama juvenil, para o filme Jopok, as cenas de acção e a tensão crescente entre as facções rivais, são algo digno de se ver. Embora embrenhada de alguns clichés próprios do género, é interessante acompanhar os meandros do crime organizado sul-coreano, muito centrado em certas actividades aparentemente fidedignas e legais, como o sector das pescas ou a construção civil. O “vai, não vai” entre os dois outrora amigos e agora rivais, funciona bem, e consegue-nos incutir algumas dúvidas sobre se a violência efectivamente vai grassar entre ambos. Mesmo sabendo que, inevitavelmente, tal terá de acontecer. Os momentos dedicados à luta das facções criminosas são muito efectivos e realistas, destacando-se a que intervém “Dong-so” quase no epílogo do filme, que almeja causar alguns arrepios e porque não dizê-lo, compaixão.

Com interpretações bastante competentes e uma cinematografia radiosa, “Friend” é mais um bom produto da escola da Coreia do Sul. Pode não estar no topo, mas rege-se pela bitola do bom, num plano mais elevado. O ano de 2001, foi de viragem para a cinematografia da Coreia do Sul, onde apareceram muitos obras de grande respeitabilidade, onde destacaria o grandioso “Failan”. “Friend” é passível de ser considerado como um dos grandes responsáveis deste momento bom e que viria a ser catalisador para que outras futuras longas-metragens sul-coreanas vissem a luz do dia e o caminho para a maior internacionalização começasse.

Vale a pena conferir!

Dong-su em apuros

“Dong-su em apuros”

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 7

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

 

quinta-feira, agosto 13, 2009

Attack the Gas Station!/Juyuso seubgyuksageun -주유소 습격 사건 (1999)
Origem: Coreia do Sul
Duração: 113 minutos
Realizador: Kim Sang-jin
Com: Lee Sung-jae, Yu Oh-seong, Kang Seong-jin, Yu Ji-tae, Park Yeong-gyu, Jun Jeong, Lee Yu-won, Lee Jeong-ho, Kim Su-ro, Lee Won-jong, Jeong So-yeong
"Da esquerda para a direita: Bulldozer, Ddan Dda-ra, No Mark e Paint"
Sinopse
“No Mark” (Lee Sung-jae), “Bulldozer” (Yu Oh-seong), “Ddan Dda-ra” (Kang Seong-jin) e “Paint” (Yu Ji-tae) são quatro amigos delinquentes, que uma noite decidem assaltar uma bomba de gasolina. Depois de provocarem danos avultados e roubarem todo o dinheiro do estabelecimento, parecem partir bastante satisfeitos. Contudo, num dia em que se sentem entediados, decidem repetir a façanha. Acontece que desta vez, já não encontram um pecúlio dito interessante. Por esse motivo, decidem sequestrar o dono da bomba de gasolina, e todos os seus empregados. Igualmente, decidem tomar conta do negócio, servindo os clientes e guardando o dinheiro para si.

"O gerente e os trabalhadores da bomba feitos reféns"

À medida que a noite vai avançando, os amigos prendem mais reféns, vão-se metendo com o rapaz de entregas do restaurante de comida chinesa e entram em confrontos com “gangs” rivais que se metem no território que consideram deles. Resistindo a todos os desafios que se lhes vão deparando, os rapazes continuam a desenvolver de uma forma pouco ortodoxa, o seu negócio. Contudo, e através dos confrontos que vão arranjando com todos, chega a uma altura que todos os caminhos vão dar à bomba de gasolina. Por esse motivo, a polícia e os rivais dos jovens chegam para um inevitável ajuste de contas.

"No Mark"

"Review"

“Attack the Gas Station!” foi uma película que, atendendo ao seu conteúdo, teria de gerar alguma polémica na sua cinematografia de origem, a Coreia do Sul. Para além de evidenciar uma juventude rebelde, que desrespeita instituições e padrões sociais instituídos, foi realizada numa altura em que a Coreia do Sul enfrentava uma grave crise económica. Um dos sintomas deste período foi o despedimento de milhares de trabalhadores da indústria automóvel sul-coreana, actualmente a quinta maior do mundo. Várias alusões a este facto são feitas durante o filme, desde a polícia corrupta e amante de “borlas” a rebaixar a forma como os veículos nacionais são produzidos, evidenciando falhas de estrutura, passando pela personagem “Paint” destruir uns cartazes que encorajavam os trabalhadores do sector a serem produtivos. A inevitável crítica ao imperialismo norte-americano haveria igualmente de aparecer, com um dos elementos do quarteto, o músico “Ddan Dda-ra”, a ser ofendido por consumir uma “Pepsi”. O próprio realizador Kim Sang-jin haveria de confessar, durante a exibição da película no festival internacional de cinema de Vancouver, que as personagens principais desta obra teriam inspirado alguns sul-coreanos a cometer crimes contra bombas de gasolina.


“Attack the Gas Station!” é um filme bastante imbuído de aspectos prementes de uma sociedade contemporânea decadente, e que falha muitas vezes em suportar os seus membros nas ditas situações de crise. Neste caso em concreto, o filme gira em torno da rebeldia da juventude sul-coreana e da forma como a mesma supostamente gera em pura delinquência. Quando nos deparamos pela primeira vez com o grupo de quatro jovens, não sentimos qualquer simpatia pelos mesmos ou pelo seu modo de agir. Eles são violentos, brutos, e despreocupados com os outros, a não ser com eles próprios. No entanto, e à medida que o filme avança, começamos a nos aperceber que as coisas não são bem assim. Acaba por ser evidenciado que o “gang” tem um código moral bastante próprio, e que acaba por revelar uma destrinça aceitável entre o que é justo e o que se revela imoral. Simplesmente, os protagonistas têm uma maneira pouco “normal” em demonstrar as suas convicções perfeitamente aceitáveis. Numa mini-sociedade criada no espaço a que corresponde a bomba de gasolina, “No Mark” e os seus seguidores conseguem revelar capacidades em punir aqueles que são desonestos ou aproveitam-se dos mais indefesos, assim como são capazes de proteger ou recompensar os reféns que são honestos ou carentes. A certa altura, e de uma forma progressiva, concluímos que os presumíveis delinquentes, começam a mudar de forma positiva a vida de todos os que os rodeiam, quão paladinos do antigamente.

"Bulldozer em acção"

Passando de uma fase em que abominávamos o comportamento dos rapazes, e começamos a admirar as suas atitudes de justiça, começamos a nos interrogar acerca das razões pelas quais os jovens agem criminosamente, envolvendo-se em rixas e ataques contra o património alheio. Tudo tem de ter uma explicação, e na altura certa o realizador Kim Sang-jin introduz, de uma forma previsível mas meritória, os conhecidos “flashbacks”. Espaçada e individualmente, cada um dos jovens quando se depara com determinada situação, aviva a memória e viaja até um acontecimento penoso que o marcou, e subsequentemente, provocou “o virar da página”. “No Mark” é um ex-jogador de basebol injustiçado; “Ddan Dda-ra” tinha uma banda de “rock”, mas um problema com dívidas afastou-o do mundo da música; “Paint” teve de enfrentar um pai que não entendia a sua veia artística para a pintura; por fim, “Bulldozer” era constantemente castigado de uma forma peculiar, nos tempos de liceu.

Sendo uma comédia, um tanto ou quanto “sui generis”, esta obra possui momentos de entretenimento bastante divertidos e de fácil apreensão para um espectador ocidental. Misture-se esta prerrogativa do filme, com cenas de acção bem conseguidas, e temos um produto bastante agradável de seguir. Os actores, principalmente os quatro protagonistas do filme, são bastante autênticos nas suas interpretações. E isto assume mais acuidade, quando estamos a falar de papéis que facilmente poderiam transparecer um bando de jovens completamente superficiais ou vazios, à semelhança de muitos “teen movies” norte-americanos.

Um dos grandes trunfos de “Attack the Gas Station!” é expôr uma crítica social, sem ter necessidade de recorrer a grandes pretensiosismos ou a discursos de aparente antologia, mas completamente ocos por dentro. A sua saudável sátira social, bastante incomum para quem está habituado aos produtos de “Hollywood”, é cativante e facilmente conquistará aqueles que visionarem esta película. Merecia uma banda-sonora mais imponente e trabalhada, atendendo a que possui uma personagem virada para o mundo musical e que faz questão de demonstrar essa faceta. Não será uma obra maior do cinema sul-coreano, mas esforça-se por ser uma lufada de ar fresco, numa cinematografia que por vezes está apegada a determinados géneros. E nós por estas bandas, à semelhança de muitos, gostamos de alguma originalidade, portanto...

Uma boa proposta!

Nota: Em 2010, vamos ter uma sequela intitulada "Attack the Gas Station! 2", também dirigida por Kim Sang-jin. Aguardemos, então!

"Pancadaria na bomba de gasolina"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Intérprete - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75