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segunda-feira, abril 27, 2009

Beldades do Cinema Asiático - Gong Li

Em resposta ao "post" anterior, e de forma a salvaguardar a minha (in)sanidade mental e a dos leitores deste blogue:








Para saberem mais sobre esta maravilhosa actriz e verdadeira lensa do cinema asiático e mundial, ir AQUI.


segunda-feira, março 17, 2008

Adeus Minha Concubina/Farewell My Concubine/Ba wang bie ji - 霸王别姬 (1993)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 164 minutos

Realizador: Kaige Chen

Com: Leslie Cheung, Zhang Fengyi, Gong Li, Lu Qi, Ying Da, Ge You, Li Chun, Lei Han, Tong Di, Ma Mingwei, Fei Yang, Yin Zhi, Zhao Hailong, Li Dan, Jiang Wenli

"Cheng Dieyi"

Estória

1924, ano do generalíssimo chinês. “Cheng Douzi” (Ma Mingwei) é abandonado pela mãe que é uma prostituta, e fica aos cuidados de uma trupe de ópera chinesa. “Douzi” é uma criança diferente, enfrentando por este facto a discriminação dos colegas. No entanto, é amparado por “Shitou” (Fei Yang), um dos jovens que exerce o seu mister na companhia, e ambos tornam-se grandes amigos.

A disciplina na escola é bastante diferente do mundo de sonho que é apresentado ao público na representação das peças. A brutalidade impera, o regime do professor é atroz e deveras marcial. As crianças e adolescentes são brutalmente espancados, à mínima falha que cometam. No meio deste mundo cruel, “Douzi” acaba por aprender a tornar-se num Dan, ou seja, o actor que representa papéis femininos na ópera chinesa.

"Juxian"

1937, véspera da guerra com o Japão. “Douzi” e “Shitou” são estrelas famosas da ópera de Pequim, e mudaram os seus nomes para “Cheng Dieyi” (Leslie Cheung) e “Duan Xiaolou” (Zhang Fengyi). A ópera mais badalada que representam, e que os tornam amados pelo público é “Adeus Minha Concubina”. “Dieyi” começa a expressar mais acentuadamente a sua homossexualidade e está apaixonado pelo amigo “Xiaolou”. No entanto, este enamora-se por uma prostituta chamada “Juxian” (Gong Li), e casa com ela. Esta situação afasta os dois amigos, e “Dieyi” recusa actuar com “Xiaolou”.

Posteriormente, os companheiros sanam as suas diferenças e voltam à representação. No entanto, em 1966, a revolução cultural de Mao Tse Tung iria deixar marcas indeléveis no percurso dos amigos em particular e da ópera de Pequim em geral.

"Xiaolou e Dieyi"

"Review"

Falar ou escrever acerca de “Adeus Minha Concubina”, é uma honra para quem possui a temeridade de expressar algo acerca de um dos maiores expoentes de sempre do cinema asiático. Torna-se igualmente uma empresa extremamente complicada, porquanto estamos perante uma película impregnada de um sem número de aspectos sentimentais, sociológicos e históricos de relevo incontornável. Isto faz com que seja praticamente impossível abarcar todo o esplendor daquele que para muitos é considerada a mais bela obra de cinema oriental jamais feita. Eu não partilho desta opinião, no que concerne à eleição propriamente dita, mas há que profusamente reconhecer que estamos perante uma longa-metragem verdadeiramente essencial para aqueles que amam o cinema em todas as suas vertentes.

Baseado num romance da escritora chinesa Lilian Lee, podemos afirmar que, ao contrário de outras obras magníficas de cinema asiático, “Adeus Minha Concubina” teve um merecido reconhecimento mundial, o que em muito contribuiu para um olhar de respeito do ocidente para o que de melhor se fazia na sétima arte oriental. Atestam esta afirmação os inúmeros prémios que venceu em certames internacionais. Do seu “currículo” destacam-se pela proeminência, a nomeação para dois óscares (Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia), os prémios BAFTA (Reino Unido) e Globo de Ouro (E.U.A.) para o melhor filme estrangeiro, e a Palma de Ouro de Cannes, distinção partilhada com “O Piano” de Jane Campion.

São 53 anos de retrospectiva que passam pelos nossos olhos aquando do visionamento desta película, e que abordam aspectos nucleares da história chinesa do século XX, e que o filme faz questão de os distinguir e titular muito bem, de forma a que não percamos o “fio à meada”. O enredo arranca em 1924 (“Era do generalíssimo chinês”), e passa por 1937 (“Véspera da guerra com o Japão”), 1945 (“Derrota japonesa”), 1948 (“Evacuação dos nacionalistas de Chiang Kai Chek para Taiwan), 1966 (“Revolução cultural”), terminando em 1977 (“O ano em que nasceu Jorge Soares Aka Shinobi” - eh, eh, eh, isto não consta do filme como é óbvio!!!). Relacionado intimamente com os aspectos históricos, algumas críticas têm sido aventadas no sentido de os mesmos carecerem de algum desenvolvimento argumentativo. Ora, quanto a este particular, julgo pontificarem duas razões de extrema relevância, uma directamente relacionada com a trama, outra de ordem mais prática. Quanto à primeira, sempre se dirá que a história serve apenas de pano de fundo para uma narrativa que assenta em dois aspectos fulcrais, a saber, a relação entre dois amigos e a sua ligação à ópera de Pequim. Trata-se, portanto de um aspecto secundário importante, mas que não pode deixar de ser encarado como um “sidekick” para algo mais central. Relativamente à segunda, é importante referir que “Adeus Minha Concubina”, à semelhança de outras obras chinesas (embora esta tenha tido também influência da região administrativa de Hong Kong), passou pelo crivo da censura duas vezes. E como é óbvio, o resultado foram alguns cortes de cenas consideradas “agitadoras” do espectro comunista chinês. Mesmo assim, até considerei neste caso em concreto que o “Index” lá do sítio foi benevolente e algo democrático, pois podemos nos aperceber perfeitamente da brutalidade primária da denominada “Revolução Cultural”, e dos efeitos perniciosos que a mesma teve em aspectos nucleares do modo vivencial e tradição do povo chinês.

"Dieyi preparado para a representação de Adeus Minha Concubina"

O trio fantástico de actores dá vida a uma performance memorável e que tão cedo não é esquecida. Que me perdoem Zhang Fengyi e Gong Li, mas é o malogrado Leslie Cheung que faz uma actuação de vida, que não apenas roça, mas atinge verdadeiramente o brilhantismo. E que ainda assume mais relevância, quando conhecemos um pouco da carreira desta figura incontornável. Cheung não era propriamente um actor virado para os dramas ditos mais intelectuais, apesar da sua carreira ser bastante ecléctica, com incursões por vários géneros desde o “wuxia”, o romance, a acção muito relacionada com tríades, etc. Aqui temos a oportunidade de ver um Cheung, mais maduro, seguro de si e demonstrando a todos aqueles que ainda teriam algumas dúvidas, que de facto estamos (infelizmente “estávamos”) perante um actor de dimensão superior. O papel de “Dieyi” assenta-lhe que nem uma luva, não pelas razões que algumas línguas viperinas declaram à altura, em alusões quase frontais à homossexualidade do actor, mas sim porque Cheung foi dos melhores intérpretes asiáticos de todos os tempos. Tão simples como isso. Não deve ser nada fácil representar um “dan” da ópera de Pequim, e Cheung falo com a maior sensibilidade do mundo e arredores, ilustrada pela seguinte frase proferida no filme pelo mestre de “Dieyi”: “Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?!”.

“Adeus Minha Concubina” respira estética por todos os poros, sustentado por um guarda-roupa lindíssimo e uma fotografia verdadeiramente de sonho, com pormenores ao alcance de poucos. O esplendor visual é de cortar simplesmente a respiração! Num manancial de cores, é-nos apresentado vários momentos da famosa Ópera de Pequim, que confesso, é necessário aprender a apreciar. Contudo, a actuação muito própria deste género de representação, é extremamente envolvente e leva-nos, nem que seja pela curiosidade, a tentar entender o que os actores pretendem transmitir.

Kaige Chen foi um filho da revolução, dita cultural, chinesa. Em 1969, foi enviado para o meio rural, onde foi sujeito a trabalhos bastante árduos. Posteriormente viria a ser um guarda vermelho, e aquando da sua entrada para a escola de cinema, denunciou algumas actividades do seu próprio pai, susceptíveis de serem qualificadas como subversivas. O pai de Chen viria a ser detido e sentenciado a trabalhos forçados por alguns anos. Apesar do seu progenitor o ter perdoado, Chen confessaria a sua vergonha por tal facto, mais do que uma vez. Quem conhece esta história pessoal do realizador, e tendo o pai deste trabalhado igualmente neste filme, poderá sentir a comoção que não deverá ter sido as filmagens que abordaram este período, onde se vislumbraram tantas traições familiares.

Em “Adeus Minha Concubina” somos transportados para outra terra e tempo distintos do nosso, em que não somos apenas meros figurantes, mas conseguimos verdadeiramente sentir o pulsar das emoções transmitidas. E é deste Kaige Chen que todos nós precisamos! O revelar de uma das mentes mais esclarecidas e brilhantes da denominada quinta geração dos realizadores chineses, a quem é exigível a realização de mais obras de dimensão superior! “Flops” com intuitos comerciais como “The Promise” é que dispensamos e nada acrescenta às nossas vidas!

Um momento verdadeiramente magnífico e imperdível, que está para os amantes de cinema, como uma ida a Meca para os muçulmanos. Temos que lá estar, nem que seja uma única vez!

"Dieyi aprisionado pelos guardas vermelhos de Mao Tse Tung"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,88





sábado, dezembro 15, 2007

O Imperador e o Assassino/L'Empereur et L'Assassin/The Emperor and the Assassin/Jing Ke ci qin wang - 荊柯刺秦王(1998)

Origem: China

Duração: 155 minutos

Realizador: Kaige Chen

Com: Gong Li, Li Xuejian, Zhang Fengyi, Gu Yongfei, Zhou Xun, Chen Kaige, Zhou Sun, Lu Xiaohe, Wang Zhiwen, Zhao Benshan, Ding Haifeng, Pan Chiangjiang

"A dama Zhao"

Estória

No ano 221 A.C., “Ying Zheng” (Li Xuejian), o ambicioso rei de Qin, anseia conquistar os remanescentes reinos da China, tendo em vista unificá-los e formar um grande estado sob o seu comando. De modo a arranjar uma justificação para invadir o reino vizinho de Yan, “Zhang” envia para aquela terra o amor da sua vida, a concubina “Zhao” (Gong Li). A função de Zhao é servir de espia, e convencer o monarca daquele reino, o príncipe “Dan” (Zhou Sun) a enviar um assassino para matar o rei de Qin, e desta forma por fim aos seus propósitos imperialistas. Claro que o rei de Qin está ciente da situação, pois está tudo combinado com “Zhao”, em ordem a arranjar o motivo para a tão desejada guerra.

"Jing Ke"

“Zhao” encontra o assassino ideal na pessoa de “Jing Ke” (Zhang Fengyi), um homem com uma grande perícia na arte de matar, mas bastante introspectivo e desanimado. Tal facto explica-se devido a um incidente do passado, que passou pelo suicídio de uma jovem rapariga após “Jing Ke” ter assassinado a sua família inteira. “Zhao” começa a apaixonar-se pelo assassino, à medida que por sua vez os sentimentos pelo rei de Qin se vão retraindo, degenerando os mesmos num ódio pessoal.

Tal situação leva a que a tentativa fingida de assassinato torne-se real, obviamente sem o implacável rei de Qin saber, dando origem a um manancial de intrigas tanto políticas como amorosas, que decidirão o futuro dos denominados “sete estados guerreiros”.

"Ying Zheng, o rei de Qin e o futuro primeiro imperador de uma China unificada"

"Review"

Belas memórias afluem-me à mente quando recordo este “O Imperador e o Assassino”. Foi numa tarde no King, quando era um jovem estudante madeirense em Lisboa, que respirava idealismo. Na altura fiquei fascinado com a força tremenda deste filme, e falei do mesmo a toda a gente que conhecia. Lembras-te que tu nem eras uma fã por aí além de cinema asiático, e não conseguiste conter a tua emoção? - esta mensagem é privada, não liguem, adiante!. Anos depois, mais concretamente há um par de dias atrás, tive a oportunidade de rever esta obra de Kaige Chen, vencedora do “Technical Grand Prize” em Cannes na categoria de produção. Foi interessante confrontar a minha perspectiva da altura com a actual. Lá chegaremos.

“Ying Zheng, esqueceste o comando dos teus antepassados, que te ordenaram unir tudo debaixo dos céus?”. É esta premissa, bradada por um funcionário do reino de Qin, que inicia “O Imperador e o Assassino”, e duas horas e trinta e cinco minutos depois, é o mesmo repto que finda a película. Neste espaço de tempo, somos confrontados com um misto de melodrama, intrigas palacianas ao melhor estilo de Shakespeare, guerra, traição e afins. À semelhança da obra-prima de Zhang Yimou, “Herói”, o argumento de “O Imperador e o Assassino” gira em volta da ascensão do reino de Qin, e da tentativa de assassinato do seu monarca, que mais tarde se viria a tornar no primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, uma figura essencial na história chinesa. No entanto, ao contrário do filme de Yimou que enveredou por alguns aspectos mais fantasiosos, Kaige Chen pretendeu ser mais realista no seu trabalho. Não diria que estamos propriamente perante uma exaustiva lição de história, até porque embora este aspecto seja bastante premente na película, ela acaba por focar-se mais nas relações entre o rei “Ying Zheng”, a dama “Zhao” e o assassino “Jing Ke”. No entanto, sou obrigado a concordar que este filme nos ensina bastante sobre um dos períodos mais importantes da grande nação asiática. Portanto aqueles que se interessam mais por um bom conto histórico, onde podemos observar os costumes e as motivações dos governantes e das populações, já sabem! Este é sem dúvida um bom filme para vós!

"O marquês Changxin lidera um bando de conspiradores"

As interpretações dos actores são verdadeiramente acima de qualquer repreensão, e muita ajuda o facto de as despesas não ficarem apenas por conta da magnífica actriz Gong Li. Tanto Li Xuejian, no papel do rei de Qin, como Zhang Fengyi que dá vida a “Jing Ke”, estão soberbos.
Li Xuejian tem momentos de puro génio, encorpando muito bem as dúvidas, os anseios e até a paranóia de um homem sedento por poder, que diariamente tem de fazer escolhas de uma dificuldade titânica. Quanto a Zhang Fengyi, o seu desempenho não é propriamente uma surpresa, pois estamos sem dúvida perante um intérprete de elevado quilate artístico. Veja-se “Adeus, Minha Concubina”. No que concerne a Gong Li, “what else is new?” Linda, fabulosa, um portento de representação. Todos os adjectivos parecem ser insuficientes para classificar esta actriz de nível mundial, esta lenda viva! Todos os intérpretes fazem um excelente trabalho, eivado de muita dedicação, embora ainda mereçam uma palavra de especial apreço Wang Zhiven, o “Marquês” e amante da rainha-mãe, uma personagem cínica, mas sentimentalista ao mesmo tempo. O próprio Kaige Chen, “arregaça as mangas”, e além de chamar a si a responsabilidade pela realização, interpreta um papel secundário, mas bastante importante, na pessoa do primeiro-ministro de Qin “Lu Buwei”.

As batalhas épicas, os cercos às cidades sitiadas, o excelente guarda-roupa e os cenários magnificentes e de deslumbrar, fazem com que nos apercebamos que estamos perante um filme que teve um orçamento de respeito. No entanto, no meio das centenas de figurantes e nos quilos de adereços, temos a sensação que nada foi deixado ao acaso e que o filme no seu global foi objecto de um tratamento bastante cuidado.

O melodrama está bastante presente, e aqui enfatizo com algum ardor o sacrifício das crianças do reino de Zhao. A cena está brutal, o envolvimento extasiante, e uma lição de vida e honradez, embora radical, é-nos transmitida com todo o fulgor que o cinema asiático nos habituou. Quando revejo momentos como este, em que Kaige Chen denota uma quase incomparável mestria, e depois penso que foi o mesmo realizador que timonou “The Promise”, sou forçado a concluir que podemos passar de besta a bestiais e vice-versa num instante!

Este filme, devidamente separado em cinco actos, todos com títulos sugestivos, é para apreciar como um bom vinho (no meu caso, será neste momento “Cortes de Cima - Reserva” - haja dinheiro - pensem lá no vosso!), ou seja saborear os detalhes com calma! Se existe algo de menos abonatório, passará apenas pela monotonia que envereda em certos espaços, que poderá transformar-se em algo “secante” para alguns.

Um épico na verdadeira acepção da palavra!

"O imperador e o assassino"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: As Imagens Primeiro

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





domingo, outubro 28, 2007

A Maldição da Flor Dourada/Curse of the Golden Flower/Man Cheng jin dai huang jin jia - 满城尽带黄金甲 (2006)

Origem: China

Duração: 109 minutos

Realizador: Zhang Yimou

Com: Gong Li, Chow Yun Fat, Jay Chou, Liu Ye, Ni Dahong, Chen Jin, Li Man, Qin Junjie

"A imperatriz Fénix"

Estória

O imperador “Ping” (Chow Yun Fat) é um homem poderoso que construiu um império vasto, dominado pela grandiosidade e pela opulência. “Ping” descobre que a sua esposa, a imperatriz “Fénix” mantém um “affair” com o príncipe “Wan” (Liu Ye), o herdeiro do trono (Nota: o príncipe “Wan” é fruto do primeiro casamento do imperador, logo não estamos a falar de incesto, pois a imperatriz é a sua madrasta), e instrui o médico da corte (Ni Dahong) para juntar um veneno de origem persa ao remédio que é ministrado a “Fénix”, tendo em vista a cura da sua anemia. O veneno é servido em poucas doses, tendo em vista provocar uma loucura crescente na imperatriz, que a levará inevitavelmente à morte. Por outra via, o príncipe “Wan” envereda por um relacionamento proibido com “Chen” (Li Man), a filha do médico da corte e a responsável por servir o “presente envenenado” à imperatriz.

"O imperador Ping"

O imperador mantém em secretismo a relação que manteve com a sua primeira esposa e mãe do príncipe “Wan”, dando a entender que a mesma faleceu e prestando-lhe homenagem todos os anos na cerimónia mais importante do reino e denominada “Festa dos Crisântemos”. No meio de toda esta turbulência familiar, encontra-se o príncipe “Jie” (Jay Chou) que tenta de alguma forma manter a harmonia. No entanto, quando descobre os planos de assassínio da sua mãe, e que estão a ser levados a cabo pelo seu pai, associa-se à conspiração da imperatriz “Fénix” que passa por uma tomada de poder a ser efectuada na noite da “Festa dos Crisântemos”.

Acontece que o imperador não está tão desprevenido quanto isso…

"O principe Jie, 2º na linha do trono, em apuros"

"Review"

Baseado na peça intitulada “Thunderstorm”, do dramaturgo Cao Yu, chega-nos o terceiro “Wuxia” de Zhang Yimou, para o qual o realizador dispôs de um orçamento na ordem dos 45 milhões de dólares, tornando-se à altura a mais cara produção asiática de sempre, superando “The Promise” de Kaige Chen. Desde já se afirma que mantém muitos dos aspectos já anteriormente evidenciados em “Herói” e “O Segredo dos Punhais Voadores”, mas que a nível de argumento denota um certo parentesco com “The Banquet – Inimigos do Império”, de Feng Xiaogang.

“A Maldição da Flor Dourada” é uma película sustentada a nível da trama, essencialmente em intrigas palacianas, tão do agrado das obras de William Shakespeare, e por aqui fica explicada a analogia que fizemos acima com “The Banquet”, filme que tinha por mote principal uma adaptação oriental da tragédia “Hamlet” do conhecido dramaturgo inglês. Existem as costumeiras traições, os escândalos, e inclusive até o choque provocado pelos incestos (não estou a referir-me à relação entre a imperatriz e o príncipe “Wan”, pelos motivos já explicados na sinopse). Tudo gira essencialmente em torno de um drama familiar que ocorre no seio de uma família poderosa, ou seja, a do próprio imperador. E nem os mimos próprios da corte, as facilidades inerentes ao estatuto da nobreza e a faustosidade do modo de vida dos intervenientes conseguem por cobro a estas situações. Zhang Yimou quando se referiu a esta obra, resumiu a mensagem que tentava passar com a frase: “Gold and Jade on the outside, rot and decay on the inside”. Julgo que sintetizou extremamente bem as incidências familiares que constituem o cerne da longa-metragem. Outra declaração emblemática que fará jus ao drama familiar que se avizinha, será a proferida pelo imperador “Ping” ao seu filho o príncipe “Jie”: “Nunca adquiras pela força aquilo que eu não te der”.

Quando nos deparámos com os cenários e o guarda-roupa de “A Maldição da Flor Dourada”, percebemos de imediato onde foi investida grande parte dos tais 45 milhões de dólares que constituíram o orçamento do filme. O palácio é de uma sumptuosidade a toda a prova, sendo considerado um dos maiores cenários jamais construídos. Na verdade, é o mesmo palácio que foi usado nas filmagens de “Herói”, e onde residia o imperador “Qin”, o tal que “queria unir tudo debaixo dos céus”. Simplesmente na aludida estrutura, foram acrescentados muitos mais ornamentos e cor, sendo o resultado final fantástico. Mais impressionante ainda, se tal é possível, é o guarda-roupa envergado pelas personagens. Não existem absolutamente palavras para o descrever, sendo melhor deixar as imagens falarem por si. Apesar de por vezes roçar o signo da extravagância, o detalhe e as cores usadas nos trajes usados tanto pela família real, como pelos restantes intervenientes, dos quais se destacam os soldados, é de “saltar os olhos da cara”! Só a título de curiosidade, os robes que são usados pelo casal imperial nos momentos finais do filme, são completamente bordados à mão, tendo demorado dois meses a concluir e exigido o trabalho de 40 pessoas!!!


"O ataque dos misteriosos assasinos"

As cenas de combate acompanham fielmente toda a aura do filme, enveredando pela espectacularidade, não tendo pejo em fazer uso do “CGI” e dos guindastes. Refira-se apenas que ao contrário do que aconteceu nos dois anteriores “Wuxia” de Zhang Yimou, aqui temos a oportunidade de ver uma batalha monumental entre dois exércitos. Digamos que o mais exuberante foi guardado para o fim, embora tenha colhido a minha preferência pessoal o assalto à residência do médico imperial, efectuada por uns assassinos muito “sui generis”, que através de cordas, deslizavam pelas montanhas até ao seu alvo principal.

Outro motivo de interesse no filme é a possibilidade de vermos actuar em conjunto dois dos maiores nomes de sempre do cinema asiático, ou seja, Gong Li e Chow Yun Fat, que representam o desavindo casal imperial. Gong Li que durante largos anos foi a musa de Yimou, tendo mesmo mantido um relacionamento amoroso longo com o realizador, já não trabalhava com aquele há 11 anos. Por sua vez, Chow Yun Fat volta à representação no cinema asiático, de onde nunca deveria ter saído, após um interlúdio de 5 anos. Como grandes actores que são, é óbvio que destacam-se dos demais. Mesmo assim, confesso que já os vi fazer melhor. É o problema das películas que apostam em excesso na espectacularidade do visual. Muitas vezes, a representação não chama tanto à atenção, e espera-se “que o resto faça o resto”. De qualquer forma, fiquei bem impressionado com o actor Liu Ye, no papel do príncipe “Wan”, o herdeiro do trono.

“A Maldição da Flor Dourada” constitui uma boa proposta, que se revela essencial para os apreciadores da cinematografia do consagrado Zhang Yimou. No entanto, será o elo mais fraco da brilhante trilogia de “Wuxia” do realizador, pelo facto de não possuir a profundidade e a genialidade de “Herói”, nem tão pouco a paixão de “O Segredo dos Punhais Voadores”. Admita-se que o facto de não inovar grande coisa, mas sim acrescentar algo ao que de bom anteriormente tinha sido feito, retirou impacto ao filme. Poderá isto ser uma evidência do cansaço de uma fórmula de sucesso? O futuro o dirá.

"A batalha final"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artísitco - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





segunda-feira, agosto 13, 2007

Votações do "My Asian Movies"

Outros quatro grandes actores e actrizes que estão a votação aqui no blogue:

Gong Li

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Dragon Chronicles: The Maidens of Heavenly Mountains, A Tríade de Xangai, 2046, Memórias de Uma Gueixa, A Maldição da Flor Dourada, O Imperador e o Assassino

Bruce Lee

Informação

Não participou em nenhum filme criticado no "My Asian Movies"


Anita Mui

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": The Moon Warriors

Jet Li

Informação

Filmes em que entrou, criticados no "My Asian Movies": Herói, Swordsman II, Fong Sai Yuk, Fong Sai Yuk II, Era Uma Vez na China, A Coragem do Guerreiro - Fearless



sábado, maio 12, 2007

Memórias de Uma Gueixa/Memoirs of a Geisha/Sayuri (2005)

Origem: E.U.A.

Duração: 139 minutos

Realizador: Rob Marshall

Com: Zhang Ziyi, Gong Li, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Suzuka Ohgo, Kôji Yakusho, Youki Kudoh, Kaori Momoi, Tsai Chin, Zoe Weizenbaum, Cary Hiroyuki Tagawa, Kenneth Tsang, Randall Duk Kim, Ted Levine

"A jovem Chiyo"

Estória

Em 1929, “Chiyo Sakamoto” (Suzuka Ohgo), com apenas nove anos, e a sua irmã “Satsu”, são vendidas pela sua pobre família rural, sendo posteriormente separadas e colocadas em “Okyia” (casa de alojamento de uma Gueixa) diferentes.

A nova casa de “Chiyo” é pertença da “Sra. Nitta” (Kaori Momoi), mais conhecida por “Mãe”, e nela vivem a famosa e vil gueixa “Hatsumomo” (Gong Li), a idosa irmã da “Sra. Nitta”, conhecida por “Tia” (Tsai Chin) e outra jovem rapariga chamada “Pumpkin” (Zoe Weizenbaum).

“Chiyo”, ainda muito jovem, começa a chamar a atenção devido à sua beleza e raros olhos de cor azul - acinzentada, iniciando o seu treino de gueixa. No entanto, sofre pesadas provações durante este estágio, provocadas sobretudo pela cruel “Hatsumomo”, chegando o treino a ser interrompido, devido a uma tentativa de fuga de “Chiyo”.

"Sayuri"

Um dia, a criança encontra-se a chorar amargurada numa ponte, e é abordada por um homem, conhecido como “Administrador” (Ken Watanabe) que revela uma extrema bondade, comprando-lhe um gelado, para além de lhe oferecer dinheiro e a aconselhar. “Chiyo”, apesar de ser muito nova, instantaneamente apaixona-se e toma a firme resolução de fazer tudo para se tornar numa gueixa, de forma a atrair o seu amor.

Os anos passam, “Chiyo” tem 15 anos (Zhang Ziyi), o seu treino de gueixa nunca mais foi retomado, e “Hatsumomo” continua a infernizar-lhe a vida. Um dia porém, “Mameha” (Michelle Yeoh), a mais conhecida gueixa do burgo, propõe à “Sra. Nitta” tomar “Chiyo” a seu cargo e ensiná-la nas artes da profissão. A rapariga muda então o seu nome para “Sayuri” (em português “Lírio”), e com o decorrer do tempo torna-se extremamente bem sucedida, tornando-se a gueixa mais conhecida do Japão.

Apesar de uma gueixa estar proibida de amar, “Sayuri” nunca esqueceu o “Administrador”, e nem toda a notoriedade que consegue, fazem-na tirar da cabeça a sua verdadeira paixão.

"Sayuri, Mameha e Hatsumomo"

"Review"

Baseado no romance homónimo de Arthur Golden, e dirigido pelo realizador Rob Marshall (“Chicago”), “Memórias de Uma Gueixa” foi um filme envolto em certa polémica, sobretudo devido à escolha dos actores, ou melhor dizendo, das actrizes que despontam nos papéis principais.

Para quem não sabe, Zhang Ziyi e Gong Li são oriundas da China, e Michelle Yeoh da Malásia. Como o enredo decorre inteiramente no Japão, e é centrado numa profissão típica deste país, seria porventura de esperar que fossem recrutadas actrizes do reino nipónico para o desempenho de “Sayuri”, “Hatsumomo” e “Mameha”. Ora isto não aconteceu, e considerando que o pretendido foi dar vida a uma película de âmbito verdadeiramente internacional, para além de termos em consideração que os capitais para a feitura do filme foram oriundos de empresas como a Columbia Pictures, a Dreamworks e a Spyglass Entertainment, a produção esteve a cargo da Amblin de Steven Spielberg, e o realizador é estado-unidense (prefiro esta designação em detrimento da de norte-americano, por considerar mais adequada e não ofensiva para os canadianos), lógico seria que se procurassem as actrizes asiáticas com maior projecção mundial. Julgo ser relativamente consensual a ideia que coloca no topo, a nível de fama, Zhang Ziyi, Gong Li e Michelle Yeoh. Não existe nenhuma actriz japonesa cujo nome sequer se aproxime da notoriedade destas três divas do cinema asiático. E a verdade é essa, e nada mais!

Ao contrário do que se estaria à espera, o celeuma ocorreu primeiro na República Popular da China, que praticamente não aceitou que porventura os seus dois maiores nomes cinematográficos, na esfera feminina, desempenhassem o papel de prostitutas de um país invasor (lembro que o Japão ocupou a China antes e durante a II Guerra Mundial). Neste aspecto a república comunista não foi de meias medidas, e chegou mesmo a proibir a exibição do filme no seu território. Por outra via, o sentimento nacionalista despontou em grande medida no Japão, o que apenas foi mitigado pelo facto desta longa-metragem ter muitos actores japoneses, incluindo o principal protagonista masculino (Ken Watanabe, de “O Último Samurai” e “Cartas de Iwo Jima”).

"A bela dança de Sayuri"

Se me é permitida uma opinião pessoal (afinal vivemos numa democracia e o blogue é meu!!!), julgo esta questão de uma menoridade gritante. Claro que se fizessem um filme que versasse sobre um aspecto particular da cultura portuguesa, eu teria uma preferência natural por um actor nosso conterrâneo. Já agora que falamos disso, eu não fiquei lá muito contente que a personagem de Salgueiro Maia, no filme “Capitães de Abril”, tivesse sido interpretada pelo actor italiano Stefano Accorsi. Mas obviamente que isto não é motivo para fazer “cair o Carmo e a Trindade”, e serem adoptadas atitudes vestidas de radicalismos que caíram (ou deveriam ter caído) em desuso. Mas daí…passemos à frente!

Á partida, a qualquer cultor do cinema asiático, causa uma certa estranheza ver actores e actrizes que estamos habituados a ver expressarem-se no seu idioma, falarem inglês praticamente o filme todo. O resultado é muito fácil de prever. Os diálogos são todos muito pausados e cuidados, fazendo-nos aperceber que Zhang Ziyi e Gong Li não dominam na perfeição a língua. Isto faz com que a naturalidade das falas se disperse um pouco, e o drama perca de certa forma com este aspecto.

No entanto, a representação no que concerne aos demais itens, não chega a ser mortalmente afectada com os aspectos linguísticos, pois estamos a falar de actores com bastantes provas dadas, constituindo alguns o que de melhor o cinema asiático possui. Zhang Ziyi e Michelle Yeoh, embora já tivessem registos melhores, oferecem-nos um trabalho competente que, no que toca a Ziyi, tem o seu expoente máximo na fabulosa dança e representação que faz no teatro perante uma grande plateia. O facto da actriz ter um passado ligado à dança, abona imenso a seu favor nas partes mais físicas das actuações. Pense-se nas grandes heroínas de artes marciais que Ziyi interpretou, ou na fabulosa dança dos tambores de “O Segredo dos Punhais Voadores”. Sendo um filme de certa forma mais virado para o público feminino, é normal que as actrizes tenham uma evidente primazia a nível da intervenção na trama. Mesmo assim, o protagonista masculino Ken Watanabe, encontra-se num nível bastante aceitável, consagrando-se como um dos actores asiáticos com mais cartaz internacional (desde “O Último Samurai, de Edward Zwick isto é evidente). Pensavam que eu não ia falar de Gong Li?! Longe de mim cometer tal pecado mortal! Deixei-a propositadamente para o fim, pois é sem margem para dúvidas, quem consegue o melhor desempenho. Representar o vilão do filme costuma ser um papel não amiúde tão ou mais difícil do que os restantes. Aqui Li encarna na quase perfeição a vilã trágica “Hatsumomo”, personagem venenosa, intriguista e invejosa, mas no entanto longe de ser fria, tendo as emoções “à flor da pele”. A actriz tem uma característica única que muitas vezes lhe confere vantagem em relação às demais. Li, quando representa, usa o corpo todo. Mexe-se tanto com graciosidade, como é capaz de fazer os gestos mais abruptos e ríspidos possíveis. Debita as suas falas como um verdadeiro camaleão, mas acima de tudo, e aqui é que está o grande trunfo da actriz, acompanha-as com umas expressões faciais e olhares de “de outro mundo”. Sei que poderei estar a ser um pouco temerário na afirmação que irei fazer, mas não me lembro de nenhum intérprete com a capacidade de Li neste aspecto.

A fotografia é um verdadeiro sonho, embora não adquira uma permanente constância ao longo do filme. A banda-sonora é baseada essencialmente em músicas oriundas do país do sol nascente, com uma ou outra excepção, tendo bons momentos que acentuam o pendor dramático desta longa-metragem. O guarda-roupa foi escolhido minuciosamente, e as roupas que as gueixas usam (o furisode e o okobo) de regalar os olhos.

“Memórias de Uma Gueixa” é um filme dotado de interesse, que vale sobretudo pelo seu pendor educativo. Nele aprendemos que, ao contrário do que é pensado por esse mundo fora, as gueixas não eram prostitutas, mas sim acompanhantes que são educadas na arte da música, do servir e conversar. Aliás era-lhes completamente vedado ter sexo com os seus clientes.

No entanto, o filme não consegue fugir ao estigma de ser realizado e produzido por entidades ligadas a “Hollywood”, o que lhe retira alguma autenticidade. Isto reflecte-se em algumas cenas do filme, que possuem um cunho marcadamente “hollywoodesco”. Pergunto agora se o mestre Kurosawa, ou outro competente realizador japonês, tivesse ao seu alcance os meios de Rob Marshall em “Memórias de Uma Gueixa”, que película não teria sido obtida?

"O Administrador e Sayuri"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Ásia, Cinerama, Cinema Cafri

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75





sábado, fevereiro 03, 2007

2046 (2004)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 122 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Tony Leung Chiu Wai, Zhang Ziyi, Gong Li, Takuya Kimura, Faye Wong, Carina Lau, Chang Chen, Wang Sum, Siu Ping Lam, Maggie Cheung, Thongchai McIntyre, Dong Jie, Miao Feilin, Farini Cheung, Berg Ng

"Chow Mo Wan, o escritor, jornalista, boémio e amante de mulheres"

Estória

"Chow Mo Wan" é um escritor de romances eróticos, que vende as suas estórias a jornais de Hong Kong, tendo em vista ganhar algum dinheiro que sustente o seu modo de vida boémio.

"Chow" chegou a Hong Kong, vindo de Singapura, onde viveu um romance com uma misteriosa mulher vestida de negro, que tinha o hábito inexplicável de usar uma luva da mesma cor na mão esquerda. Alcançado o seu destino, instala-se no apartamento 2047 do "Oriental Hotel", que fica mesmo ao lado do número 2046. Na realidade, "Chow" pretendia ficar no apartamento 2046, mas tal não foi possível pois este encontrava-se fechado devido a remodelações. O escritor começa a interessar-se pelas pessoas que posteriormente vão viver para o apartamento 2046.

"Bai Ling"

Essas pessoas são na sua totalidade mulheres com as suas estórias e dramas pessoais. "Chow" vive um romance com "Lulu", que desaparece misteriosamente; a seguir, chega "Wang Jing Wen", a filha do dono do hotel, que mantém um relacionamento com um homem japonês, que o pai desaprova vivamente, devido a sofrimentos familiares do passado; por fim, aparece "Bai Ling", uma jovem e bela acompanhante.

"Chow" inicia um relacionamento com "Bai Ling", mas que revela ter pouco de amor e mais de conveniência. O romance progride, tendo como pano de fundo a complexa história de Hong Kong dos anos 60, mas está fadado ao malogro.

No meio de todas estas vivências emocionais, "Chow" continua fascinado pelo apartamento número 2046, que aparece atrair apenas pessoas que tentam reviver as suas recordações perdidas...igualmente imagina uma estória futurística onde o papel do apartamento 2046 tem um importante significado.

"Tórrido amor no futuro entre um humano e uma ciborgue..."

"Review"

"Todas as recordações são rastos de lágrimas". É com esta premissa que praticamente começa uma das mais aguardadas obras de sempre do aclamadíssimo realizador Wong Kar Wai. Contribuiu muito para a expectativa gerada em torno de "2046", o facto de ter sido o primeiro esforço do realizador após o bem sucedido "Disponível Para Amar" ("In The Mood For Love"), e supostamente a película que ora se tenta avalizar seria uma espécie de sequela daquele filme.

A sua apresentação no Festival de Cannes - edição de 2004, não foi livre de atribulações, pois a cópia que seria exibida no famoso certame de cinema chegou apenas 3 horas depois do horário que deveria passar na tela, obrigando a que a exibição tivesse de ser remarcada. Tratou-se de um acontecimento inédito na história do festival. Igualmente, a rodagem desta película não esteve isenta de incidentes, atendendo a que um repórter dum tablóide de Hong Kong chamado "Sudden Weekly", conseguiu escapulir-se para o local das filmagens, conseguindo publicar as fotos do interior do "Oriental Hotel". O resultado foi Kar Wai ter mudado os cenários completamente, e o repórter ter sido condenado a três meses de prisão.

A própria designação do filme evoca o último ano em que Hong Kong permanecerá com o seu estatuto actual e especial de Região Administrativa, com os poderes e faculdades inerentes a tal prerrogativa. O título da película tem contornos ambíguos e analógicos mais ou menos óbvios. Sendo o apartamento 2046, um local que supostamente as coisas nunca mudam, a região de Hong Kong manterá igualmente a sua autonomia e regime (à semelhança do que já acontecia sob o domínio inglês) durante 50 anos, até haver uma plena integração na República Democrática da China. Milita a favor desta interpretação, o facto de o único homem que consegue fugir ao apartamento 2046 ser um viajante japonês que se apaixona por uma ciborgue, personagens do romance futurístico de "Chow". Tal implica uma mudança, tal se passa num futuro a médio-longo prazo.


"A segunda Su Li Zhen"

Sendo um filme com a marca de Wong Kar Wai, é inevitável que apresente as marcas distintivas do seu intrincado estilo de realização e direcção. As personagens são movidas por uma permanente estaticidade que se reflecte de sobremaneira no ambiente envolvente, salvo as incursões feitas pelo romance futurístico de "Chow". As emoções andam quase sempre à flor da pele, conjugadas umbilicalmente com os dramas pessoais de cada um dos intervenientes. Mas acima de tudo, o que ressalta inevitavelmente no trabalho do realizador chinês são as memórias das pessoas e tudo o que gira à volta deste diapasão.

Dotado de um elenco fabuloso, porventura um dos mais carismáticos de sempre do cinema oriental, "2046" faz da representação dos actores um dos seus pratos fortes. Tony Leung Chiu Wai repete a excelente interpretação evidenciada em "Disponível Para Amar" (o que é que não estará ao alcance deste actor é a questão que se põe), bem secundado pelas grandiosas divas Zhang Ziyi, Gong Li, Faye Wong e Carina Lau (Maggie Cheung só aparece em poucos momentos relacionados com a sua personagem em "Disponível Para Amar").

A fotografia é simplesmente maravilhosa (abençoado Christopher Doyle!), os pormenores são brilhantes, as emoções são fortes e significativas, tudo parece rondar a perfeição.

No entanto, tenho que confessar que já começo a fartar-me da extrema contemplação e lentidão que Wong Kar Wai insiste em expor nas suas obras. De início é maravilhoso, mas para quem já visionou algumas obras do realizador, fica com a sensação que neste aspecto ele precisa de se redescobrir. Fico por vezes com a sensação que é pretendido a análise milimétrica de cada cena maravilhosa que nos é dada a conhecer. Isto tem efeitos perniciosos em relação à movimentação e desenvolvimento do filme. Se calhar uma maneira simpática de dizer "lento demais!". Se o filme trata de mudança, porventura não seria má ideia Wong Kar Wai nos presentear com algo de verdadeiramente novo para variar. O seu talento incontornável assim o exige!

De qualquer forma, é inolvidável que estamos perante uma grande obra de cinema, que merecerá sem dúvida aclamação.

Muito bom!

"Chow Mo Wan vive númerosos affaires"

Trailer , The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

  1. Cine Road

    Avaliação:

Entretenimento - 6

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50



sábado, janeiro 27, 2007

A Tríade de Xangai/Shanghai Triad/Yao a yao yao dao waipo qiao (1995)

Origem: China

Duração: 103 minutos

Realizador: Zhang Yimou

Com: Gong Li, Li Bao Tian, Wang Xiao Xiao, Ye Sun Chun, Li Xui Jian, Fu Biao, Chen Shu, Jiang Liu, Jiang Baoying, Qianquan Yang


"Bijou Jingbao, a cantora do clube e amante do chefe da tríade Tang"

Estória

No início dos anos 30, um "gansgter" chamado "Liu" trás o seu jovem sobrinho "Shuiseng" para Xangai, em ordem a pô-lo ao serviço da amante de "Tang", o chefe da mais poderosa tríade da cidade.

A amante de "Tang", chamada "Bijou Jingbao", canta no clube pertença do mafioso e possui um feitio irascível e presunçoso, o que dificulta imenso o trabalho de "Shuiseng", um pobre rapaz do campo que não está habituado à grande cidade e à opulência dos ricos de Xangai.

"O jovem Shuisheng vê o crime através dos seus olhos de adolescente"

"Bijou" tem um caso proibitivo com o nº 2 da tríade, "Mr. Song", que caso seja descoberto levará inevitavelmente à morte de ambos.

Entretanto, devido ao confronto da tríade de "Tang" e a rival liderada por "Fat Yu", "Tang" refugia-se numa pequena ilha nos arredores de Xangai, levando "Bijou" e "Shuiseng" consigo. O rapaz começa lentamente a aproximar-se da sua patroa, acabando por conquistar a sua confiança.

Na quietude da ilha, "Tang" começa a arquitectar o plano que o levará a eliminar todos os que se lhe opõem, inclusive os que lhe são mais próximos.

"Tang, o chefe da tríade"

"Review"

O mestre Zhang Yimou, como é do conhecimento geral, já era um realizador aclamado e tremendamente respeitado, antes da realização da sua trilogia de "wuxias" (Herói, Segredo dos Punhais Voadores e Curse of the Golden Flower). Pense-se em "Raise the Red Lantern" ou "Ju Dou".

A "Tríade de Xangai" possui alguns elementos característicos dos filmes de Yimou, como a excelente fotografia, mas apesar de ser um filme razoável, está uns furos abaixo de muitas das obras do realizador. Se calhar, a excelência a que o cineasta chinês nos habituou, faça com que os padrões de exigência subam acima do normal, porventura roçando a injustiça.

Comecemos pelo início.

À medida que ia visionando esta obra de Yimou, que confesso o meu desconhecimento anterior, fiquei com a sensação que estava perante uma mistura de dois filmes americanos cujo tema era a máfia italiana e que fizeram algum sucesso. Falo de "The Cotton Club", de Francis Ford Coppola, e de "Billy Bathgate", da autoria de Robert Benton.

A analogia que fiz com "The Cotton Club", deve-se em muito ao ambiente musical que cerceia "A Tríade de Xangai", pois grande parte do filme tem como pano de fundo o clube pertença do mafioso, com a amante que é a estrela cantora e dançarina.

Por outra via, relacionei a película de Yimou, com "Billy Bathgate", pois também neste filme o crime organizado é visto sobretudo pelos olhos de um adolescente.

"A tríade"

A musa de Yimou, Gong Li, presenteia-nos com mais uma boa actuação, embora não tão elevada como outras que temos visto. O resto do "cast" acompanha-a de uma forma bastante competente e credível, destacando-se aqui o jovem Wang Xiao Xiao, no papel de "Shuisheng".

Zhang Yimou pretende aqui demonstrar, através de uma adaptação livre da obra do romancista Li Xiao, uma vertente mais pessoal do crime organizado. Não se foca tanto na violência própria do meio, mas sim nos dramas pessoais de cada um dos intervenientes, em especial da cantora "Bijou" e do jovem campónio "Shuisheng".

Sendo inevitável nas obras de Yimou, o papel das mulheres é fortemente abordado no desenrolar das situações, e na própria envolvência da trama. Tudo leva a crer que "Bijou", à semelhança de "Shuisheng", era proveniente do meio rural chinês, e que desde muito cedo envolveu-se no submundo de Xangai, embarcando numa viagem sem retorno. No fim, vemos outra pobre rapariga de nove anos a desembocar pelo mesmo caminho, não sem antes apercebermo-nos que a mãe da criança possuía a sua história muito pessoal e igualmente trágica.

Quanto a mim, o que faz "A Tríade de Xangai" não ser uma obra com a magnificência de outras do realizador, é a lentidão com que as situações acontecem, por vezes sem razão nenhuma para tal. O filme não é difícil de entender, embora faça questão de passar uma mensagem profunda e significativa. Outro aspecto que fez com que eu não gostasse tanto desta longa-metragem como desejaria, passa pela quase ausência da acção e da violência típica do meio. Obviamente que não queria ver um filme do Steven Seagal, ou de outros semelhantes... Estou a falar da acção típica de obras como a trilogia do "Padrinho", por exemplo. O defeito pode ser meu, mas não concebo filmes que versem sobre o crime organizado, sem os arquétipos próprios e que lhes ficam tão bem.

Uma proposta interessante, embora longe de ser uma obra-prima para mais tarde recordar.

"O refúgio da ilha"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M" - 7

Classificação final: 7,38