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quarta-feira, janeiro 06, 2010

Comrades, Almost a Love Story/Tian mi mi - 甜蜜蜜 (1996)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 118 minutos

Realizador: Peter Chan

Com: Maggie Cheung, Leon Lai, Eric Tsang, Kristy Yeung, Irene Tsu, Christopher Doyle, Michelle Gabriel, Joe Cheung Tung Cho, Ding Yue

Li Xiao Jun 2

“Li Xiao Jun”

Sinopse

“Li Xiao Jun” (Leon Lai) é um recém imigrante em Hong Kong, proveniente de Wuxi, uma cidade chinesa da província de Jiangsu. A sua principal aspiração é ganhar algum dinheiro para enviar à família e conseguir trazer a sua noiva “Li Xiao Ting” (Kristy Yeung) para Hong Kong, a fim de se casarem. Chegado à actual região administrativa chinesa, “Xiao Jun” torna-se amigo de “Qiao Li” (Maggie Cheung), uma mulher que só pensa em tornar-se rica e ascender socialmente. A amizade transforma-se progressivamente noutro tipo de sentimento, e ambos tornam-se amantes ocasionais.

Qiao Li

“Qiao Li”

Conscientes que a sua relação não pode dar certo, devido à noiva que “Xiao Jun” possui em Wuxi, o casal decide manter-se apenas como amigos. As coisas parecem correr bem, pois os dois estão a progredir bem financeiramente, dando forma aos seus sonhos. Inesperadamente, uma crise financeira assola Hong Kong, e a situação económica de “Qiao Li” complica-se drasticamente. Por esta via, vê-se obrigada a arranjar um emprego como massagista e acaba por encetar um relacionamento com um membro de uma tríade chamado “Pao” (Eric Tsang). Por sua vez, “Xiao Jun” consegue finalmente trazer a noiva para Hong Kong e o enlace sucede-se. Contudo, apesar dos seus maiores esforços, os caminhos de “Xiao Jun” e “Qiao Li” cruzam-se outra vez, e ambos começam a questionar-se acerca das suas opções do passado.

Li Xiao Jun e Quiao Li

“Li Xiao Jun e Qiao Li”

“Review”

“Comrades, Almost a Love Story” faz parte daquele grupo de filmes de Hong Kong, cada vez mais raros hoje em dia, que mereceram amplos elogios da crítica um pouco por toda a parte. Premiadíssimo em variados certames de cinema, sobretudo asiáticos, a película que ora se analisa foi, com propriedade, considerada o 11º melhor filme chinês de sempre pela “Chinese Movie Database”, e o 28º nos Hong Kong Film Awards. O seu título original evoca uma música da popularíssima cantora de Taiwan Teresa Teng, e o seu sentido real é um verdadeiro hino ao amor. Esta longa-metragem em si, consubstancia-se mesmo numa bonita homenagem à intérprete musical e os motivos alusivos a Teng, consubstanciam-se num verdadeiro enredo secundário.

A aclamação de “Comrades, Almost a Love Story” é merecida. Não tenhamos dúvidas quanto a este aspecto. Apesar do seu pendor algo comercial, estamos perante um romance cheio de detalhes significativos e dotado de uma sensibilidade maravilhosa e pulsante. O destilar dos sentimentos é extremamente efectivo, com cenas de antologia, olhares e muitos gestos significativos. A trama tem algo de épico, pois acompanha a relação de “Xiao Jun” e Qiao Li” durante um período de 10 anos, mais propriamente entre 1986 e 1996. O argumento é extremamente interessante, quanto a mim bem expresso na “tagline” do Dvd da Mei Ah, que reza mais ou menos o seguinte: “Esta não é uma história acerca de duas pessoas que se apaixonam, mas antes acerca de dois corações que fazem tudo para não se apaixonarem”.

Os aspectos muito ligados ao sonho que tanto dominam as histórias românticas, aqui são algo deixados à parte e a simplicidade na exposição das situações marca presença. Mesmo sendo uma longa-metragem com laivos de paixão retumbantes, trata-se de uma película com pessoas “reais”, onde não subsiste nada que se possa reputar de exagerado ou incredível. A tensão é progressiva e enleia o espectador nas teias do relacionamento dos intervenientes. Dois amigos vêm aumentar de forma sustentada a sua amizade, e tornam-se cada vez mais próximos, embora não de uma forma demasiado evidente. O realizador Peter Chan começa então a criar as condições para que a paixão se desenvolva e atira-nos à cara o seu manancial de cenas memoráveis, como o dar de mãos no novo ano lunar chinês. A partir daqui embarcamos numa viagem através do âmago da paixão humana, sem qualquer tipo de pretensiosismo exacerbado.

Qiao Li e Pau Au Yeung

“Qiao Li e Pao Au Yeung”

Embora o cerne da trama seja as dificuldades de “Xiao Jun” e “Qiao Li” em se amarem, “Comrades, Almost a Love Story” possui outros predicados a nível do argumento dos quais emana muito interesse. Um já foi referido, e trata-se do alusivo à cantora Teresa Teng. Outro, será indubitavelmente a relação estabelecida entre os naturais de Hong Kong, e aqueles que provêm da China propriamente dita. Apercebemo-nos que existem diferenças de grande relevância, que começam a se acentuar logo pela dicotomia da língua, ou seja, o cantonês “versus” o mandarim que é o idioma da maior parte dos imigrantes naturais da China. Aqueles que tentam a sua sorte em Hong Kong são olhados com algum desdém pelos habitantes da actual região administrativa e isso reflecte-se no pulsar do dia-a-dia dos participantes da história e anima-os a lutar por melhores condições de vida.

A diva Maggie Cheung faz uma das grandes interpretações da sua carreira, reconhecida em variados prémios que venceu, de que constitui exemplo o galardão para melhor actriz conseguido em praticamente todos os certames a que o filme concorreu. A sua presença é luminosa, e conseguida em todos os momentos, quer naqueles mais virados para o drama, assim como nos mais descontraídos. Em “Comrades, Almost a Love Story”, Maggie Cheung prova porque que é considerada justamente uma das melhores actrizes de sempre, no panorama do cinema oriental. É bastante gratificante observar como a actriz personifica uma mulher confiante, ambiciosa e apegada ao dinheiro, que acaba por se sacrificar por algo que sente que é maior do que ela. Por sua vez, o conhecido Leon Lai, o par romântico da história, exibe-se igualmente num bom plano, e aqui provavelmente obtém um dos melhores papéis da sua profícua carreira. O “pequeno grande” Eric Tsang, para não variar, tem uma presença marcante e cabe ainda salientar o facto de o grande mestre da fotografia e da imagem Christopher Doyle, aqui fazer uma “perna” na representação.

“Comrades. Almost a Love Story” é uma poderosa história de amor, e sem margem para dúvidas, um dos grandes filmes de Hong Kong da década de '90,  para além dos melhores dramas asiáticos de sempre. O destino sempre foi um tema grato para o cinema asiático e o de Hong Kong em particular, com temas que reflectem o facto de as personagens não conseguirem controlar o fado a que estão submetidas. A mensagem de “Comrades, Almost a Love Story” é um colosso de emoções, transmitindo a possibilidade de as histórias de amor poderem não acabar sempre bem, assim como que para o conquistar temos sempre de dar algo muito profundo de nós. No fundo, sempre se concluirá que o sentimento sobre o qual já tantos escreveram ou dissertaram, é o mais pujante motor da vida e nasce, muitas vezes, em locais ou momentos inesperados.

Obrigatório, principalmente para aqueles que apreciam um romance inteligente, mas nem por menos, carregado de uma miríade colorida de bonitos sentimentos!

imdb Nota 8.0/10 (1.482 votos) em 07/01/2010

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 7

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.”: 8

Classificação final: 8,13

domingo, janeiro 04, 2009

C'est La Vie Mon Cheri Aka Endless Love/Xin bu liao qing - 新不了情 (1993)

Origem: Hong Kong

Duração: 99 minutos

Realizador: Derek Yee

Com: Anita Yuen, Lau Ching Wan, Carrie Ng, Carina Lau, Petrina Fung, Paul Chun, Sylvia Chang, Jacob Cheung, David Wu, Peter Chan, Teddy Chan, Tats Lau, Joe Cheung, Jamie Luk, Herman Yau, Andy Chin

"Kit"

Sinopse

“Kit” (Lau Ching Wan) é um músico de jazz, que se encontra deprimido pelo facto de as melodias que cria não serem bem aceites pelo público. Embrenhado num marasmo criativo, discute com a sua namorada, a popular cantora “Tracy” (Carina Lau) e põe fim ao relacionamento de ambos.

"Min"

“Kit” muda-se para um apartamento bem mais modesto, e tenta reiniciar a sua vida. No andar de baixo do prédio vive uma família de músicos que se dedica à execução de espectáculos de rua, a maioria versando a ópera chinesa. Cedo “Kit” faz amizade com “Min” (Anita Yuen), o elemento mais novo da família, que revela ser uma rapariga com uma alegria e optimismo enormes. A convivência com “Min”, faz com que “Kit” adquira uma nova vontade de viver, e ambos inevitavelmente apaixonam-se.

Contudo, devido à doença grave que aflige “Min”, a felicidade dificilmente irá durar para sempre...

"Min é confortada por Tracy"

"Review"

Premiadíssimo com seis “Hong Kong Awards”, na 13 ª edição edição deste certame ocorrida em 1994, “C'est La Vie Mon Cheri” é considerado por muitos uma das maiores histórias de amor de sempre, provenientes da industria cinematográfica da actual região administrativa chinesa. Antes de a Coreia do Sul monopolizar quase tudo o que signifique películas de “fazer chorar as pedras da calçada” (por ora, exclui-se “Bollywood”), tanto o Japão como Hong Kong produziram obras de algum vulto, cujo objectivo imediato era partir-nos o coração em dez!


Com um título em francês, provavelmente para acentuar ainda mais o pendor romântico desta obra, “C'est La Vie (...)” poderá parecer à partida o clássico “tearjerker” asiático, em que o tema já bastante familiar das doenças terminais (e um verdadeiro subgénero) marca pontos. No entanto, esta premissa não passa de uma primeira impressão, e o filme vai muito mais além do que isto. É certo que a trama assenta em muito numa bonita paixão, mas foca-se em igual medida na importância da amizade e do gosto pela vida. Esta longa-metragem faz questão de fugir dos estereótipos “pirosos” que marcam muitas vezes o género, apresentando um conjunto de personagens envolventes e realistas, que somos perfeitamente capazes de identificar no quotidiano e, porque não dizê-lo, com nós próprios. Aqui não estamos perante um cenário idílico, povoado por pessoas que nem parecem fazer parte do mundo real, e que de repente uma tragédia qualquer faz cair o paraíso. Pelo contrário, em “C'est La Vie (...)” os eventos parecem tudo, menos artificiais. Estamos a falar de seres palpáveis, cujas agruras no dia-a-dia bem entendemos, e que com avanços e recuos, felicidades e infelicidades, percebemos que a vida ou a morte seguem o seu rumo natural.

O realizador Derek Yee, cujo trabalho já tive aqui a oportunidade de analisar no competente “One Nite in Mongkok”, incide inteligentemente nos aspectos positivos da vida, e com equilíbrio não teme revelar a outra face da moeda. Este ritmo próprio da película, em muito é ajudado pela esforçada interpretação dos actores principais Anita Yuen e Lau Ching Wan. “Min” é uma rapariga pobre, que tem alguma consciência das suas debilidades físicas e psicológicas, mas que vive sob um cativante signo da esperança. Ela não assume uma posição fatalista perante a vida, mas pelo contrário espalha a alegria por tudo e por todos, irradiando um charme irresistível. Por outro lado, temos um “Kit” destroçado e pessimista, mas que na realidade não tem metade dos problemas de “Min”. Mesmo assim, é esta que faz com que a confiança de “Kit” renasça, através de uma força e fé interior, que é capaz de mover montanhas. Anita Yuen e Lau Ching Wan dão corpo a um dos casais mais bem conseguidos do cinema de Hong Kong dos anos '90, merecendo destaque a cativante performance da actriz. É um facto quase indiscutível que “C'est La Vie (...)” constituiria a longa-metragem que definitivamente abriria as portas do estrelato a Lau Ching Wan, e principalmente a Anita Yuen, transformando esta última intérprete, durante algum tempo, numa das estrelas mais cintilantes do burgo.

"Um abraço sentido"

Cabe ainda relevar neste filme, o seu teor musical bastante premente. Estando a trama em parte alicerçada num músico frustrado, assim como numa rapariga que pertence a uma família com tradições na ópera chinesa de rua, está dado o mote para que ao longo da trama nos deparemos com um manancial de melodias que vão desde ao jazz, passando pelo “cantopop” e pela ópera chinesa. Este pendor não se revela apenas na banda-sonora, mas igualmente nas histórias laterais relacionadas com a cena musical de Hong Kong, a nível da indústria discográfica, dos concertos e dos bares. É um registo bastante interessante, e que serve de importante pano de fundo para as questões ditas mais centrais do enredo

Sendo um “remake” de um filme de 1961, intitulado “Love Without End”, assinado pelo realizador Tao Qin, “C'est La Vie Mon Cheri” é um drama envolvente, que conseguirá tocar os corações mais empedernidos. Para além de ser uma enternecedora história de amor, não se cinge apenas a este aspecto e vai muito mais além. Deambula pelos caminhos da amizade e da redenção de uma forma louvável, transmitindo-nos uma mensagem de esperança e de optimismo, mesmo que no fim se assista a um trágico ocaso. Destarte, e apesar de nos sentirmos tentados a derramar uma ou outra lágrima, tudo flui natural e suavemente sem melodramas aparentemente demasiado excessivos. Neste aspecto, deixar-se-á as despesas da casa por conta do ambiente por onde a película caminha.

Uma boa proposta!

"Ópera chinesa"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Cena do filme

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





terça-feira, maio 20, 2008

Infiltrados II/Infernal Affairs II/Mou gaan dou II -
無間道II

Origem: Hong Kong

Duração: 119 minutos

Realizadores: Andrew Lau e Alan Mak

Com: Anthony Wong, Eric Tsang, Carina Lau, Shawn Yue, Edison Chen, Francis Ng, Hu Jun, Chapman To, Roy Cheung, Liu Kai Chi, Yu Chiu, Kara Hui, Andrew Lin, Henry Fong, Arthur Wong, Peter Ngor, Teddy Chan, Joe Cheung, Wan Chi Keung, Wu Kwan, Kelly Fu, Alexander Chan, Hera Lam, Eva Wong, Brian Ireland, Bey Logan

"O jovem Lau, o infiltrado da tríade na polícia"

Sinopse

No ano de 1991, o inspector “Wong” (Anthony Wong) leva a cabo uma luta sem tréguas contra as mais poderosas tríades de Hong Kong, tendo por aliado um membro daquelas organizações chamado “Sam” (Eric Tsang). Um dos objectivos de “Wong” é colocar “Sam” numa posição hierárquica elevada, de forma a poder controlar com mais segurança as actividades mafiosas que povoam a actual região administrativa chinesa. Contudo, “Sam” vive sob o jugo da poderosa família Ngai, que tem em “Kwun” (Joe Cheung), o seu líder incontestável.

O equilíbrio é seriamente afectado quando “Kwun” é assassinado por “Lau” (Edison Chen), a toupeira que “Sam” tem infiltrada na polícia de Hong Kong. A chefia da família Ngai é assumida por “Hau” (Francis Ng), e este trata logo de instituir uma nova ordem, que passa por assassinar os “4 grandes”, expressão que se refere aos quatro mais poderosos chefes de tríades, a seguir ao próprio “Hau”.

"O inspector Wong"

Entretanto o jovem “Yan” (Shawn Yue) é expulso da academia de polícia, por ser meio-irmão do poderoso “Hau”. “Wong”, que pressente a honestidade do rapaz, propõe-lhe que ele seja um espião das forças da autoridade no clã Ngai. Dividido entre a lealdade à família e o sentido de dever, “Yan” acaba por aceitar, e torna-se na toupeira da polícia.

A guerra entre as tríades começa a subir de tom, assim como o conflito entre os criminosos e a polícia. Em 1997, ano em que Hong Kong transitou para a administração chinesa, um ciclo velho igualmente vai morrer no crime organizado, e um novo se iniciará.

Mary Hon, a esposa do gangster Sam"

"Review"

Após o estrondoso e merecido sucesso de “Infiltrados”, Andrew Lau e Alan Mak não perderam tempo e no ano seguinte lançaram para as telas de cinema “Infiltrados II”, de forma a dar continuidade à saga, e se possível fazer rentabilizá-la ao máximo. Eu disse continuidade? Talvez não seja bem assim. A expressão em causa referir-se-á propriamente à feitura de um segundo filme e não à narrativa propriamente dita. A razão para esta minha afirmação passa pelo facto de “Infiltrados II” ser uma prequela a “Infiltrados”, não se baseando em eventos que tenham ocorrido posteriormente aos relatados neste filme. Pelo contrário, são apresentados os acontecimentos que decorrem num espaço temporal que se inicia em 1991 (dez anos antes da trama de “Infiltrados”) e que termina em 1997, ou seja, o ano em que Hong Kong transita para a esfera da República Democrática da China, embora mantendo um estatuto autónomo.

Tendo por base esta premissa, conseguimos perceber com mais detalhe os percursos dos infiltrados “Yan” (na tríade) e “Lau” (na polícia) na sua juventude, assim como as motivações pessoais de cada um que os levam a enveredar pela espionagem no campo do inimigo. Mas apesar de as personagens representadas aqui por Shawn Yue e Edison Chen, serem supostamente o motor da história (e já agora do resto da saga), isto não quer dizer necessariamente que o enredo tenha que girar completamente em volta deles. Poder-se-ia pensar que seria assim, mas não é o que sucede. Verdadeiramente quem detém em “Infiltrados II” a primazia, e ofusca a história dos restantes intervenientes são o inspector “Wong”, o líder mafioso “Sam” e a sua esposa “Mary”, interpretados por Anthony Wong, Eric Tsang e Carina Lau respectivamente. É certo que os realizadores tentam não se afastar do rumo da trilogia (em 2003, veria igualmente a luz do dia “Infiltrados III”), e em consequência tudo fazer para que nos apercebamos da iniciação de “Yan” e “Lau” nos primórdios dos seus perigosos ofícios . Contudo, é dado mais relevo aos aspectos pessoais dos “mestres das marionetas”, ou seja, o inspector “Wong” que introduz “Yan” como espião no mundo das tríades e “Sam”, como o mentor de “Lau”, na sua ascensão. E ainda bem que assim o é, pois sem dúvida nenhuma que ficamos com uma visão mais abrangente de tudo o que se sucede, e em consequência entendemos vários aspectos que ficam um pouco por explicar em “Infiltrados”, essencialmente devido à sua curta duração.

O acima descrito terá de ter obviamente incidências nas actuações dos actores, do ponto de vista de “quem brilha mais”. Não é segredo para ninguém que Anthony Wong, Eric Tsang e Carina Lau constituem três monstros sagrados de Hong Kong. As suas inegáveis capacidades representativas fazem com que eles formem uma santíssima trindade, com actuações quase irrepreensíveis e ao nível do seu inegável estatuto. Merece relevar igualmente a boa interpretação do profissional Francis Ng, com uma carreira no cinema asiático susceptível de pouquíssimos reparos. Todos excelentes professores para a dupla dos então jovens promissores Shawn Yue e Edison Chen, hoje em dia certezas do “show business” (Edison Chen, infelizmente anunciou uma paragem por tempo indeterminado da sua carreira devido ao escândalo sexual que abanou Hong Kong, em que estiveram envolvidas igualmente Cecilia Cheung, Gillian Chung e outras cinco jovens estrelas em ascensão – ver mais AQUI).

"Hau aponta uma arma à cabeça de Sam"

Como sequela, ou melhor prequela...no fundo o segundo filme da saga, “Infiltrados II” corria o sério risco de uma abordagem repetitiva e sensaborona, que faria com que estivesse aqui a reclamar o quanto as sequelas e prequelas desgastam um conceito bom, que mais valia terem ficado por um filme, que estragaram uma ideia e execução com mérito, etc...etc...Quantas vezes qualquer um de nós já deve ter efectuado este exercício mental, dando a resposta inevitável que numa saga, normalmente o primeiro filme é o melhor. No caso da trilogia de “Infiltrados”, não restam muitas dúvidas que o primeiro episódio é superior. Mas só apenas esta ideia determinante corresponde à realidade. A feitura do segundo filme não estragou o conceito, simplesmente complementou-o de uma forma francamente boa. À ideia muito presente na primeira obra do “ jogo do gato e do rato”, é aditada aqui por uma abordagem mais violenta, no sentido da luta pelo poder dentro das tríades, o seu funcionamento interno e “modus operandi” É gratificante ver que os realizadores Andrew Lau e Alan Mak não enveredaram por qualquer tipo de facilitismo, conseguindo dotar esta película de uma identidade própria. Se eu nunca tivesse visto “Infiltrados”, estaria habilitado a olhar para “Infiltrados II”, como uma realidade una e considerá-lo um filme praticamente completo.

Resta dizer que a banda-sonora e a fotografia evidenciadas na primeira película, repetem-se aqui ao mais alto nível, dando continuidade ao que tudo de bom se fez anteriormente. Estando imbuído de um verdadeiro espírito “tríadesco” (inventei esta expressão agora, portanto não vale a pena ir a dicionários da Porto Editora e afins), e revestido de uma aura negra de vingança e crime (o chefe da tríade “Hau” afirma algumas vezes que “o meu pai costumava dizer que na rua cá se fazem cá se pagam”), “Infiltrados II” constitui um meritório segundo episódio de uma saga inesquecível. Ao mesmo tempo, e apesar de ser um filme posterior, dá o mote para o fim de um ciclo e o início de outro exposto em “Infiltrados”. A simbologia assente no facto do epílogo do filme suceder precisamente no dia 1 de Julho de 1997, data em que o Reino Unido transferiu a soberania do território, demonstra isso. No meio das comemorações, as personagens principais da película (as que sobreviveram ao digladiar) tentam cicatrizar feridas recentes e olhar expectantes para o futuro.

Sendo uma longa-metragem com grande valia e dotada de um esforço sincero, não consegue o milagre de ultrapassar ou igualar o primeiro “Infiltrados”. As razões são muito simples. Em 1º lugar, foi o “primeiro” (passe a repetição), e por esse motivo soprou uma estonteante lufada de ar fresco no panorama de Hong Kong (como já dizia o outro, “não há amor como o primeiro” - passe a repetição mais uma vez). A 2ª e 3ª razões são bastante objectivas e passíveis de unificação. Por mais que se tente, é quase impossível substituir um Tony Leung Chiu Wai e Andy Lau em grande forma!

A não perder!

PS: Ei Scorcese, vai um "The Departed II"?!?! Sempre se poupa um bocadinho nas ideias...

"Execução impiedosa"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25