Vingança Planeada/Sympathy for Lady Vengeance Aka Lady Vengeance/Chinjeolhan geumjassi - 친절한 금자씨 (2005)Origem: Coreia do Sul
Duração: 115 minutos
Realizador: Park Chan-wook
Com: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Kwon Yea-young, Go Su-hee, Kim Bu-seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-hoo, Lee Seung-Shin, Nam Ill-woo, Oh Dal-su, Yu Ji-tae, Tony Barry, Anne Cordiner, Kang Hye-jeong, Lee Dae-yeon, Lim Su-gyeong, Oh Kwang-rok, Ra Mi-ran, Seo Yeong-ju, Shin Ha-kyun, Song Kang-ho
Sinopse
Em 1991, “Lee Geum-ja” (Lee Yeong-ae) foi condenada ao cumprimento de uma pena de reclusão por um ilícito hediondo, a saber, o rapto e homicídio de uma criança. O crime foi extremamente emblemático na época em que sucedeu, tendo a comunicação social empolado a situação de tal maneira que “Geum-ja” tornou-se numa notória assassina com apenas 19 anos à altura.
"O escândalo de uma jovem de 19 anos acusada de um crime hediondo"
No tempo que passou na prisão, “Geum-ja” tornou-se conhecida pela sua bondade e ar angélico, granjeando desta forma grande popularidade entre os funcionários da cadeia e as reclusas. Igualmente encontrou consolo na religião católica, adoptando um fervor espiritual exemplar. Em 2004, 13 anos depois do início do seu cativeiro, “Geum-ja”, agora uma bonita mulher com 32 anos, é libertada. Logo após o fim da sua provação, adopta uma postura completamente oposta à que tinha na prisão, dando uma volta de 180 graus na sua vida. Desde o início, faz por demonstrar que é um ser sério, frio e calculista, adoptando indumentárias preferencialmente de cor negra e pintando os seus olhos com uma sombra vermelho-sangue.
A súbita, mas calculada transformação de “Geum-ja”, deve-se a vingança que esta pretende exercer sobre um professor primário chamado “Baek” (Choi Min-sik). A razão para a atitude da mulher passa por a mesma ter sido obrigada a assumir as culpas pelo chocante crime que não cometeu, de forma a proteger a sua filha “Jenny” (Kwon Yea-young) de “Baek”. Meticulosamente “Geum-ja” arquitecta o seu plano, tendo por orientação e verdade absoluta que existem certas dívidas que só se pagam com sangue.
"Geum-ja empunha uma arma ultrapassada pouco convencional"
"Review"
Após no passado ter elaborado aqui textos acerca de “Sympathy for Mr. Vengeance” e “Oldboy”, chegou a altura de encerrar a trilogia não oficial de Park Chan-wook, dissertando um pouco agora acerca do último filme da saga “Sympathy for Lady Vengeance”, uma obra negra e poética da autoria do mestre sul-coreano à semelhança das suas antecessoras, embora com uma abordagem distinta. Antes de tudo constitui mais uma película bastante premiada, com galardões em vários certames internacionais entre os quais Veneza e o nacional Fantasporto – edição de 2006, onde viria a levar para casa o prémio relativo à secção “Orient Express” do festival. Beneficiando do “hype” de “Oldboy” realizado dois anos antes, “Sympathy for Lady Vengeance” foi uma obra bastante aguardada pois muita era a curiosidade em saber até onde Park Chan-wook poderia ir com o seu amado conceito da “vendeta”, depois do estrondoso êxito da sua película anterior. O resultado desde já se adianta que é extremamente positivo, tendo Chan-wook criado uma longa-metragem de eleição, não atingindo contudo o nível da sua predecessora (a pergunta que aqui se coloca é se dentro do género, alguém ou algo o conseguirá fazer).
Um aspecto que desde logo chama a atenção é a criação da personagem de “Geum-ja”, com todos os seus atributos físicos e psicológicos. É traçado um retrato complexo (mas perfeitamente perceptível aos olhos do espectador) de uma mulher bela, eivada de um ar angélico, que joga fora completamente o início da sua vida adulta em nome de algo maior. É uma figura enigmática, mas que colhe a nossa simpatia, apesar da sua faceta anjo-demónio que a actriz Lee Young-ae interpreta de uma forma bastante competente. Por outra via, somos confrontados com um “Baek” que aparentemente se configura como um cidadão normal, mas que na realidade é um verdadeiro monstro doentio, sem escrúpulos, cuja “tara” passa por se aproveitar de crianças indefesas, causando desta forma a infelicidade e a miséria nas famílias dos jovens. Como seria de esperar, o fantástico e renomado intérprete sul-coreano Choi Min-sik oferece-nos um desempenho acima da média que pecará apenas por algo que lhe é completamente alheio, ou seja, a falta de minutos. Como praticamente nada é perfeito, e esta premissa também se aplica ao cinema, Chan-wook podia ter investido mais em “Baek” e nas suas motivações, de maneira a que tivéssemos um sentido mais lúcido da outra face da moeda, assim como a oportunidade de vermos mais de um actor que pertence à fina-flor do cinema mundial. Pelo contrário, Chan-wook optou por centrar mais a narrativa na personagem principal, a “Lady Vengeance Geum-ja”, o que se torna aceitável, pois focámo-nos quase por completo no cerne principal do filme, a vingança justificada de uma mulher amarga, mas completamente determinada. Mesmo assim é caso para perguntar se a trama tivesse concedido mais algum destaque a “Baek”, não saborearíamos nós melhor o “cocktail molotov" que se avizinha?!
O restante elenco comporta-se à altura, restando apenas expôr umas curiosidades que com certeza agradarão aos fãs da “trilogia da vingança” de Chan-wook. Os dois assassinos contratados para matar “Geum-ja” são interpretados pelos conhecidos actores sul-coreanos Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, que deram vida aos papéis principais em “Sympathy for Mr. Vengeance”. Aliás se repararmos bem no conjunto de intérpretes que Park Chan-wook reuniu para a longa-metragem que ora se analisa, veremos que estamos perante uma verdadeira constelação de estrelas e mais do que isso, aglutinaram-se todos os artistas que representaram os papéis mais emblemáticos das restantes películas da saga. Além dos já mencionados Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, temos Choi Min-sik, Kang Hye-jeong, Yu Ji-Tae e Oh Dal-su de “Oldboy”. Fica apenas a faltar a actriz Bae Doo-na (a "Yeong-jin" de “Sympathy for Mr. Vengeance”) para ficarmos com o repertório completo.
No que toca à exposição da violência, “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme aparentemente menos intenso que “Sympathy for Mr. Vengeance” ou “Oldboy”. Em “Sympathy for Mr. Vengeance” estávamos perante um conceito de vingança mais impulsivo e delapidante, onde as motivações de todas as “partes do conflito” são profusamente abordadas e tudo parece ter origem no amor, um sentimento à primeira vista (mas não à segunda) contraditório com o resultado final. Nessa obra-prima intitulada “Oldboy”, a vingança aparece mais como uma maníaca necessidade, consubstanciada num desejo animalesco de retribuição dolorosa por um emprisionamento aparentemente injustificado. O que viria a seguir é forte demais para quase todos nós! No tocante a “Sympathy for Lady Vengeance”, é exposta uma abordagem mais sentimental (do ponto de vista convencional) e menos crua da vingança, quando comparada com as películas anteriormente mencionadas. No entanto se, e como já mencionei, os pormenores mais “físicos” da questão estão refreados, isto não significa necessariamente que o filme não tenha a mesma intensidade. A violência aqui é mais induzida, do que propriamente explanada. Relembre-se apenas, e a título exemplificativo, na cena em que uma das companheiras de “Geum-ja” na cadeia está a fazer calmamente um churrasco, enquanto um bando de polícias cautelosamente se aproxima de arma em punho. Mais tarde vimos a saber que a pessoa em questão tinha sido presa por ter morto o marido e posteriormente o ter cozinhado às fatias e ingerido o petisco...Outro aspecto de aplaudir é conceito de “vingança partilhada” exposto nos últimos 15-20 minutos da película, que se torna numa lufada de ar fresco e de certa forma surpreende “positivamente” o espectador.
Com uma banda-sonora espectacular composta por excertos na sua maior parte de Vivaldi, (debitando igualmente uma melodia de Niccoló Paganini) e na esteira de clássicos japoneses como “Lady Snowblood” de Toshiya Fujita (salvo as devidas adaptações e diferenças em função da contemporaneidade e não só), “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme que recupera o conceito da mulher inocente e frágil que devido às agruras da vida, contraria a sua natureza e embarca no “olho por olho, dente por dente”. Vindo de Park Chan-wook, o resultado não poderia ser outro senão um filme catalisado por elementos psicológicos bastante bem explorados, consubstanciado em mais uma reinvenção de uma vingança sangrenta, que é de aplaudir. O resultado é óptimo, fazendo com que a película seja absolutamente de visionamento obrigatório. Encerra-se desta forma e com chave de ouro, um dos ciclos mais emblemáticos da história do cinema asiático, quiçá mundial, traduzido num dos mais brilhantes tratamentos conferidos à natureza humana e à sua volatilidade!
Muito bom!
Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link
Outras críticas em português/espanhol:
Entretenimento - 7
Interpretação - 8
Argumento - 8
Banda-sonora - 9
Guarda-roupa e adereços - 8
Emotividade - 9
Mérito artístico - 8
Gosto pessoal do "M.A.M." - 8
Classificação final: 8,25



