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terça-feira, julho 27, 2010

The Good, the Bad, the Weird – Joheun nom, nabbeun nom, isanghan nom - 좋은 놈, 나쁜 놈, 이상한 놈 (2008)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 130 minutos

Realizador: Kim Ji-woon

Com: Song Kang-ho, Lee Byung-hun, Jung Woo-sung, Yoon Je-moon, Ryoo Seung-su, Song Young – chang, Son Byeong-ho, Oh Dal-su, Uhm Ji-won

Yon Tae-goo - the Weird 3

Yoon Tae-gu, o esquisito”

Sinopse

Na Manchúria, década de '30, o mítico e sanguinário assassino “Park Chang-yi” (Lee Byung-hun), o “Mau”, assalta um comboio de forma a roubar um mapa dos oficiais japoneses, que supostamente levará a um grande tesouro. Infelizmente para “Chang-yi”, “Yoon Tae-gu”, o “Esquisito”, leva a melhor e foge com o mapa em busca da fortuna.

Park Chang-yi - the bad 2

Park Chang-yi, o mau”

No entanto, as coisas não correm assim tão bem para “Tae-gu”, pois este é capturado por “Park Do-won”, o “Bom”, que ao mesmo tempo é um caçador de recompensas muito conceituado. Tendo tomado conhecimento do tesouro, “Do-won” resolve fazer uma sociedade pouco convencional com “Tae-gu”, e ambos partem em busca da riqueza e glória. Contudo, as coisas não serão fáceis, pois serão perseguidos pelo psicótico “Chang-yi”, por outros grupos de salteadores e pelo próprio exército imperial japonês.

Park Do-won - the good

“Park Do-won, o bom”

Review”

“The Good, the Bad, the Weird” teve honras de estreia no festival de Cannes, edição de 2004, tendo recebido no geral críticas favoráveis, assim como venceu os prémios para melhor realizador e efeitos especiais no conceituado festival de Sitges, o certame de cinema catalão que é uma referência no panorama da sétima arte asiática na Europa.

Com “The Good, the Bad, the Weird”, um conceito à partida estranho, o “western” asiático, marca pontos outra vez. Depois de “Peace Hotel” (Hong Kong), “As Lágrimas do Tigre Negro” (Tailândia) e “Sukiyaki Western Django” (Japão), é chegada a vez de a Coreia do Sul provar que o cinema oriental tem a versatilidade suficiente para emanar obras com conceitos que à partida, estariam culturalmente deslocados do seu horizonte. Claramente tributário do que denomina de “western spaghetti”, o realizador Kim Ji-woon faz apelo à trilogia do “Homem sem Nome”, de Sergio Leone, em especial da lendária película “O Bom, o Mau e o Vilão”. Sendo que até 2009, “The Good, the Bad, the Weird” constituía a longa-metragem mais cara da história do cinema sul-coreano, Kim Ji-woon chamando a si a tradição de acrescentar um nome de uma iguaria à palavra “western”, de forma a individualizar determinado subgénero, chamaria de “kimchee western” à sua obra, em homenagem a um prato tradicional sul-coreano.

Dotado de um ritmo incrível e contagiante, “The Good, the Bad, the Weird” é um exercício divertido e que captará a atenção do espectador até aos créditos finais. Kim Ji-woon sai-se bem na homenagem que faz aos filmes de Leone, criando uma atmosfera própria e típica para o género, embora positivamente introduza elementos mais contemporâneos e actuais. A escolha da Manchúria dos anos '30, dominada pelos japoneses, é bastante feliz e serve de pano de fundo ideal para toda a trama. Os momentos de acção são espectaculares, com tiroteios de suster a respiração, perseguições alucinantes e diálogos emblemáticos, com alguma ironia que nos faz sorrir, típicos de um “western” que se preze como tal.

Os salteadores

O bando de salteadores”

Como o próprio título deste filme indica, está em causa o encontro entre três pistoleiros de renome, sendo os mesmos interpretados por três dos maiores nomes da cena sul-coreana. Song Kang-ho (o “Esquisito”) consegue evidenciar a melhor prestação a que não será alheio o facto de o seu papel ser mais ecléctico e atreito a demonstrar diferentes vertentes de representação. Lee Byung-hun (o “Mau”) consegue sobressair uma aura sinistra que era o que se lhe pedia para a sua actuação. Embora se reconheça que muito do seu trabalho se confina a parecer um “mau com estilo”, o realizador Kim Ji-won, num “flashback” à Sergio Leone, confere mais profundidade a esta personagem em concreto. O terceiro elemento da parelha, Jung Woo-sung (o “Bom”), é quem verdadeiramente sofre com a maneira como o argumento é desfilado, o que sinceramente deveria ter sido algo alterado de forma a relevar este competente actor. Woo-sung sofre de uma falta gritante de minutos, em comparação com os seus dois companheiros da película. Supostamente, e fazendo o paralelo com o anti-herói protagonizado pelo grande Clint Eastwood na película de Leone anteriormente mencionada, Woo-sung é algo maltratado nesta longa-metragem, a nível de protagonismo.

Com a costumeira animosidade anti-japonesa, embora aqui algo dissimulada, “The Good, the Bad, the Weird” é uma boa proposta a nível de entretenimento, que não defraudará os fãs do “western”, da aventura e até dos momentos mais descontraídos e eivados de boa disposição. O seu “pace” é contagiante, as personagens têm o seu “quê” de fascínio, os cenários são mais do adequados, existe acção a rodos e nesta vertente o que é que se pode pedir mais? Mais uma boa proposta para um Domingo à tarde bem passado!

Curiosidade e ao mesmo tempo um desejo escondido: Se o “mestre” John Woo embarcasse num “Asian Western”, e colocasse uma pitada dos seus predicados de “heroic bloodshed”, o que sairia dali?

Luta

Chang-yi cavalga com os seus apaniguados, no meio de uma luta renhida”

imdb 7.4 em 10 (4.961 votos) em 27 de Julho de 2010

Outras críticas em português:

  1. Sake com Sal
  2. Cinecafri
  3. Cinematório
  4. Cinefilia
  5. Omelete

Avaliação:

Entretenimento – 9

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

 

segunda-feira, maio 10, 2010

JSA - Joint Security Area/Gongdong gyeongbi guyeok – 공동경비구역 (2000)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 110 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Lee Byung-hun, Song Kang-ho, Kim Tae-woo, Shin Ha-kyun, Christoph Hofrichter, Herbert Ulrich, Gi Ju-bong, Kim Myoeng-su, Kim Tae-hyeon

Major Sophie Jean

Major Sophie Jean”

Sinopse

Na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias antagonistas, disparos soam numa fria manhã de Outubro. Momentos depois, o sargento sul-coreano “Lee So-hyeok” (Lee Byung-hun) emerge ferido do lado norte-coreano, e uma troca acesa de tiros deflagra dos dois lados da fronteira. A tensão cresce entre os dois países vizinhos, mas ambos concordam em entregar a uma comissão independente, a investigação do caso. A tarefa é entregue à Comissão Supervisora das Nações Neutrais (CSNN), um organismo europeu composto pela Suíça e a Suécia. A CSNN envia a suíça descendente de coreanos, Major “Sophie Jean” (Lee Yeong-ae), conferindo-lhe a missão de apurar o sucedido.

O sargento Lee So-hyeok

O sargento Lee So-hyeok”

Duas teses se debatem. Os sul-coreanos defendem que o sargento “Lee So-hyeok” foi raptado pelas forças inimigas, e que teve de matar dois soldados das forças norte-coreanas, de forma a poder fugir. Por sua vez, os norte-coreanos entendem que “Lee So-hyeok” atravessou deliberadamente a fronteira de forma a matar os dois soldados norte-coreanos e ferindo um terceiro, o sargento “Oh Kyeong-pil” (Song Kang-ho). Perante um mistério intrincado e cheio de factos contraditórios, caberá à Major “Sophie Jean” descobrir a verdade e evitar um novo conflito entre as duas Coreias.

O sargento Jeong Woo-jin

Soldados norte-coreanos”

“Review”

Park Chan-wook, o realizador da espectacular trilogia da vingança, trouxe-nos no virar do século um dos maiores êxitos de sempre da cinematografia sul-coreana, cujo enredo versa acerca do tema mais sensível que se pode tratar naquelas paragens: o antagonismo e divisão entre as duas Coreias. O impacto desta película foi tal que o dvd chegou a ser mostrado pelo presidente sul-coreano de então, Roh Moo-hyun, ao seu homólogo norte-coreano, Kim Jong-ill. Por sua vez, o realizador Quentin Tarantino, sempre sensível às produções asiáticas, chegou a eleger “JSA”, como um dos seus 20 filmes preferidos realizados após 1992.

Porventura não será fácil tratar de um aspecto tão polémico como a divisão das Coreias, em dois regimes tão opostos e que nasceram do sangue de dois povos que na realidade são irmãos. A realidade não é nova na cinematografia sul-coreana, e existiram diversas abordagens ao problema, umas pró-união, outras de cariz mais divisionista e contra o regime musculado norte-coreano, que muitos reputam como a ditadura mais extrema do mundo. Não cabe aqui tomar partidos, mas apenas referir que “JSA” envereda mais pelo primeiro diapasão, ou seja, o do nacionalismo favorável a uma unificação coreana e a um caminho que se descobre do individual para o geral. A mensagem passa para o espectador a partir das pessoas isoladamente consideradas, ou através de um pequeno grupo de indivíduos, evitando-se qualquer tipo de massificação ideológica.

Fogo

As minas rebentam”

Park Chan-wook tem o mérito de manter uma saudável neutralidade na forma como aborda a questão do conflito coreano, mantendo uma saudável distância entre o tomar partidos, não abdicando de expor as razões de ambas as partes. Contudo, e julgo não estar muito longe da verdade, Chan-wook parece pertencer à facção da população que almeja assistir um dia à união das duas Coreias. Vários sinais apontam nesse sentido ao longo do filme, destacando a maneira escorreita como é permitida a crítica aos Estados Unidos da América e à sua influência marcante sobre a Coreia do Sul. A amizade entre os soldados de ambas as Coreias, explanada como uma esperança exteriorizada de reunificação dos dois países, muito induz a esta conclusão. Como acima aflorado não existe uma tentativa de educação política do espectador, nem qualquer tentativa de sublimação da ideologia comunista norte-coreana perante o capitalismo sul-coreano e vice-versa. Apenas e tão-só, através de indivíduos olhados singularmente, são escorridas as razões de uns e outros para agirem como agem, ou fazerem o que fazem.

A cinematografia é belíssima e é-nos mostrada uma perspectiva muito abrangente da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, conseguindo a linha divisória e a ponte “sem retorno” transmitir-nos alguma tensão. As cenas invernais, em especial a neve, proporcionam momentos de grande beleza, e os “flashbacks” estão muito bem filmados e inseridos na trama, conferindo o efeito “Rashomon” que tantos gostam e que eu aprecio particularmente. Os actores, de grande quilate na cena cinematográfica sul-coreana, exibem-se em bom nível, destacando-se neste particular Lee Byung-hun, no papel do Sargento “So-hyeok”, e o grande Song Kang-ho, actualmente um dos meus intérpretes de eleição, na representação do norte-coreano “Kyeong-pil”. A actriz Lee Yeong-ae não consegue estar ao nível dos outros actores principais, mas não por sua culpa. Aqui as responsabilidades terão de ser assacadas ao realizador Park Chan-wook. Nota-se que Yeong-ae não possui um bom domínio da língua inglesa, assim como não parece ser muito credível que uma mulher tão nova, já possua uma patente elevada como a de major.

“JSA” é um filme essencial para compreender as emoções de ambas as partes e as razões para o conflito entre as duas Coreias, assim como é um dos obrigatórios para quem quiser conhecer um pouco do melhor cinema que se faz na Coreia do Sul. Como qualquer filme sul-coreano que se preze, não consegue fugir a algum dramatismo forçado, principalmente no epílogo, como é natural. É uma película dotada de grande profundidade e interesse histórico e embora o seu enredo pareça algo limitado (gira unicamente em torno do incidente entre os soldados), o mesmo é exposto de uma forma atraente para o espectador e longe de ser insossa ou chata.

Aconselhável!

As forças sul-coreanas

As forças sul-coreanas”

imdb Nota 7.8 (7.688 votos) em 11/05/2010

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia
  2. Cineasia
  3. Nem todos são arte

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8

terça-feira, setembro 02, 2008

Vingança Planeada/Sympathy for Lady Vengeance Aka Lady Vengeance/Chinjeolhan geumjassi - 친절한 금자씨 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 115 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Kwon Yea-young, Go Su-hee, Kim Bu-seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-hoo, Lee Seung-Shin, Nam Ill-woo, Oh Dal-su, Yu Ji-tae, Tony Barry, Anne Cordiner, Kang Hye-jeong, Lee Dae-yeon, Lim Su-gyeong, Oh Kwang-rok, Ra Mi-ran, Seo Yeong-ju, Shin Ha-kyun, Song Kang-ho

"Lee Geum-ja"

Sinopse

Em 1991, “Lee Geum-ja” (Lee Yeong-ae) foi condenada ao cumprimento de uma pena de reclusão por um ilícito hediondo, a saber, o rapto e homicídio de uma criança. O crime foi extremamente emblemático na época em que sucedeu, tendo a comunicação social empolado a situação de tal maneira que “Geum-ja” tornou-se numa notória assassina com apenas 19 anos à altura.

"O escândalo de uma jovem de 19 anos acusada de um crime hediondo"

No tempo que passou na prisão, “Geum-ja” tornou-se conhecida pela sua bondade e ar angélico, granjeando desta forma grande popularidade entre os funcionários da cadeia e as reclusas. Igualmente encontrou consolo na religião católica, adoptando um fervor espiritual exemplar. Em 2004, 13 anos depois do início do seu cativeiro, “Geum-ja”, agora uma bonita mulher com 32 anos, é libertada. Logo após o fim da sua provação, adopta uma postura completamente oposta à que tinha na prisão, dando uma volta de 180 graus na sua vida. Desde o início, faz por demonstrar que é um ser sério, frio e calculista, adoptando indumentárias preferencialmente de cor negra e pintando os seus olhos com uma sombra vermelho-sangue.

A súbita, mas calculada transformação de “Geum-ja”, deve-se a vingança que esta pretende exercer sobre um professor primário chamado “Baek” (Choi Min-sik). A razão para a atitude da mulher passa por a mesma ter sido obrigada a assumir as culpas pelo chocante crime que não cometeu, de forma a proteger a sua filha “Jenny” (Kwon Yea-young) de “Baek”. Meticulosamente “Geum-ja” arquitecta o seu plano, tendo por orientação e verdade absoluta que existem certas dívidas que só se pagam com sangue.

"Geum-ja empunha uma arma ultrapassada pouco convencional"

"Review"

Após no passado ter elaborado aqui textos acerca de “Sympathy for Mr. Vengeance” e “Oldboy”, chegou a altura de encerrar a trilogia não oficial de Park Chan-wook, dissertando um pouco agora acerca do último filme da saga “Sympathy for Lady Vengeance”, uma obra negra e poética da autoria do mestre sul-coreano à semelhança das suas antecessoras, embora com uma abordagem distinta. Antes de tudo constitui mais uma película bastante premiada, com galardões em vários certames internacionais entre os quais Veneza e o nacional Fantasporto – edição de 2006, onde viria a levar para casa o prémio relativo à secção “Orient Express” do festival. Beneficiando do “hype” de “Oldboy” realizado dois anos antes, “Sympathy for Lady Vengeance” foi uma obra bastante aguardada pois muita era a curiosidade em saber até onde Park Chan-wook poderia ir com o seu amado conceito da “vendeta”, depois do estrondoso êxito da sua película anterior. O resultado desde já se adianta que é extremamente positivo, tendo Chan-wook criado uma longa-metragem de eleição, não atingindo contudo o nível da sua predecessora (a pergunta que aqui se coloca é se dentro do género, alguém ou algo o conseguirá fazer).

Um aspecto que desde logo chama a atenção é a criação da personagem de “Geum-ja”, com todos os seus atributos físicos e psicológicos. É traçado um retrato complexo (mas perfeitamente perceptível aos olhos do espectador) de uma mulher bela, eivada de um ar angélico, que joga fora completamente o início da sua vida adulta em nome de algo maior. É uma figura enigmática, mas que colhe a nossa simpatia, apesar da sua faceta anjo-demónio que a actriz Lee Young-ae interpreta de uma forma bastante competente. Por outra via, somos confrontados com um “Baek” que aparentemente se configura como um cidadão normal, mas que na realidade é um verdadeiro monstro doentio, sem escrúpulos, cuja “tara” passa por se aproveitar de crianças indefesas, causando desta forma a infelicidade e a miséria nas famílias dos jovens. Como seria de esperar, o fantástico e renomado intérprete sul-coreano Choi Min-sik oferece-nos um desempenho acima da média que pecará apenas por algo que lhe é completamente alheio, ou seja, a falta de minutos. Como praticamente nada é perfeito, e esta premissa também se aplica ao cinema, Chan-wook podia ter investido mais em “Baek” e nas suas motivações, de maneira a que tivéssemos um sentido mais lúcido da outra face da moeda, assim como a oportunidade de vermos mais de um actor que pertence à fina-flor do cinema mundial. Pelo contrário, Chan-wook optou por centrar mais a narrativa na personagem principal, a “Lady Vengeance Geum-ja”, o que se torna aceitável, pois focámo-nos quase por completo no cerne principal do filme, a vingança justificada de uma mulher amarga, mas completamente determinada. Mesmo assim é caso para perguntar se a trama tivesse concedido mais algum destaque a “Baek”, não saborearíamos nós melhor o “cocktail molotov" que se avizinha?!

O restante elenco comporta-se à altura, restando apenas expôr umas curiosidades que com certeza agradarão aos fãs da “trilogia da vingança” de Chan-wook. Os dois assassinos contratados para matar “Geum-ja” são interpretados pelos conhecidos actores sul-coreanos Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, que deram vida aos papéis principais em “Sympathy for Mr. Vengeance”. Aliás se repararmos bem no conjunto de intérpretes que Park Chan-wook reuniu para a longa-metragem que ora se analisa, veremos que estamos perante uma verdadeira constelação de estrelas e mais do que isso, aglutinaram-se todos os artistas que representaram os papéis mais emblemáticos das restantes películas da saga. Além dos já mencionados Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, temos Choi Min-sik, Kang Hye-jeong, Yu Ji-Tae e Oh Dal-su de “Oldboy”. Fica apenas a faltar a actriz Bae Doo-na (a "Yeong-jin" de “Sympathy for Mr. Vengeance”) para ficarmos com o repertório completo.

"Baek em apuros"

No que toca à exposição da violência, “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme aparentemente menos intenso que “Sympathy for Mr. Vengeance” ou “Oldboy”. Em “Sympathy for Mr. Vengeance” estávamos perante um conceito de vingança mais impulsivo e delapidante, onde as motivações de todas as “partes do conflito” são profusamente abordadas e tudo parece ter origem no amor, um sentimento à primeira vista (mas não à segunda) contraditório com o resultado final. Nessa obra-prima intitulada “Oldboy”, a vingança aparece mais como uma maníaca necessidade, consubstanciada num desejo animalesco de retribuição dolorosa por um emprisionamento aparentemente injustificado. O que viria a seguir é forte demais para quase todos nós! No tocante a “Sympathy for Lady Vengeance”, é exposta uma abordagem mais sentimental (do ponto de vista convencional) e menos crua da vingança, quando comparada com as películas anteriormente mencionadas. No entanto se, e como já mencionei, os pormenores mais “físicos” da questão estão refreados, isto não significa necessariamente que o filme não tenha a mesma intensidade. A violência aqui é mais induzida, do que propriamente explanada. Relembre-se apenas, e a título exemplificativo, na cena em que uma das companheiras de “Geum-ja” na cadeia está a fazer calmamente um churrasco, enquanto um bando de polícias cautelosamente se aproxima de arma em punho. Mais tarde vimos a saber que a pessoa em questão tinha sido presa por ter morto o marido e posteriormente o ter cozinhado às fatias e ingerido o petisco...Outro aspecto de aplaudir é conceito de “vingança partilhada” exposto nos últimos 15-20 minutos da película, que se torna numa lufada de ar fresco e de certa forma surpreende “positivamente” o espectador.

Com uma banda-sonora espectacular composta por excertos na sua maior parte de Vivaldi, (debitando igualmente uma melodia de Niccoló Paganini) e na esteira de clássicos japoneses como “Lady Snowblood” de Toshiya Fujita (salvo as devidas adaptações e diferenças em função da contemporaneidade e não só), “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme que recupera o conceito da mulher inocente e frágil que devido às agruras da vida, contraria a sua natureza e embarca no “olho por olho, dente por dente”. Vindo de Park Chan-wook, o resultado não poderia ser outro senão um filme catalisado por elementos psicológicos bastante bem explorados, consubstanciado em mais uma reinvenção de uma vingança sangrenta, que é de aplaudir. O resultado é óptimo, fazendo com que a película seja absolutamente de visionamento obrigatório. Encerra-se desta forma e com chave de ouro, um dos ciclos mais emblemáticos da história do cinema asiático, quiçá mundial, traduzido num dos mais brilhantes tratamentos conferidos à natureza humana e à sua volatilidade!

Muito bom!

"Geum-ja e a filha Jenny"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





terça-feira, julho 29, 2008

Sympathy for Mr. Vengeance/Boksuneun naui geot -
복수는 나의 것 (2002)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 121 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Song Kang-ho, Shin Ha-kyun, Bae Doo-na, Lim Ji-eun, Han Bo-bae, Kim Se-dong, Lee Dae-yeon, Ryu Seung-beom

"Park Dong-jin, o pai vingativo"

Sinopse

“Ryu” (Shin Ha-kyun) é um surdo-mudo que trabalha numa fábrica e cuida da irmã (Lim Ji-eun) que possui um problema de saúde muito grave, cuja única forma de ser resolvido é através de um transplante renal. O jovem já poupou os necessários 10.000 won (a moeda da Coreia do Sul), sendo agora necessário encontrar um dador compatível com a sua irmã. A situação é tão crítica, que esta já perdeu a esperança toda em viver, e solicitou a “Ryu” que a enterrasse nas margens do lago onde brincavam quando eram crianças.

Após ser despedido, “Ryu” encontra um panfleto numa casa de banho pública, onde se publicita uma venda ilegal de órgãos humanos. Seguindo os contactos aí expostos, trava conhecimento com uma idosa toxicodependente e os seus filhos psicóticos. O negócio passa por “Ryu” entregar os 10.000 won aos traficantes, assim como um dos seus rins. No dia seguinte, o rapaz acorda nu num edifício abandonado, sem o dinheiro e com uma incisão que indica que o seu rim foi retirado. Enganado pelos traficantes, o seu desespero aumenta ainda mais quando o médico que segue a doença da irmã informa “Ryu” que finalmente um dador foi encontrado, e que a mesma será operada em troca do dinheiro.

"Ryu e a pequena Yu-sun"

Sem nada a perder, “Ryu” conjuntamente com a sua namorada “Yeong-jin” (Bae Doo-na), uma activista comunista e defensora do regime norte-coreano, planeiam raptar “Yu-sun” (Han Bo-bae) a pequena filha de “Park Dong-jin” (Song Kang-ho), o ex-patrão de “Ryu”. O objectivo é trocar a criança pelo dinheiro necessário para efectuar a operação. Acidentalmente, “Ye-sun” morre, fazendo com que “Park” inicie uma cruzada de vingança contra aqueles que ele considera responsáveis pelo falecimento da sua filha.

"A rebelde e revolucionária Yeong-jin"

"Review"

Chegou agora o momento de dissertar um bocadinho acerca do primeiro filme que compõe a conhecida trilogia não oficial de Park Chan-wook, a qual tem sido vendida sob a designação pomposa, mas feliz, de “Trilogia da Vingança”. Para os mais desatentos ou menos esclarecidos acerca do tema em concreto, o trio de películas fica completo com “Oldboy” (2003) e “Sympathy for Lady Vengeance” (2005).

Assim como se costuma dizer que “de génio e de louco, todos nós temos um pouco”, sempre se poderá igualmente afirmar que por mais pacíficos, amáveis e compreensivos que sejamos no dia-a-dia, haverá sempre uma centelha que eventualmente acordará o que de pior existe dentro de nós, e subsequentemente, nos levar a cometer actos monstruosos. Digamos que é uma espécie, a modos de dizer, de "Dr. Jekyll e Mr. Hide", tal e qual Robert Louis Stevenson os imaginou. Sinceramente, nunca duvidei desta ideia e considero-a das verdades mais absolutas que existem nesta vida. “Sympathy for Mr. Vengeance” vive um pouco desta premissa, e executa-a com mestria, embora possamos afirmar que não chega à quase-perfeição. Embora ande por lá perto por alguns momentos, disso não se pode duvidar. Trata-se de mais um filme que leva a natureza humana aos seus limites, no que toca à violência e porque não dizê-lo da demência. Os raptores “Ryu” e “Yeong-jin”, embora não se configurem como pessoas ditas “normais”, no sentido do cidadão comum, não são seres malévolos. Como já foi aludido na sinopse, o rapaz é surdo-mudo e um tanto ou quanto traumatizado devido à enfermidade da irmã. “Yeong-jin” é uma revoltada com o sistema capitalista reinante na Coreia do Sul, e visa causar uma revolução comunista (em transição para o anarquismo) na sociedade, onde os americanos são vistos como opressores (mais uma vez, o estereótipo anti-americano está presente numa obra sul-coreana; quanto à costumeira maledicência contra os japoneses, ela não marca presença neste filme). Cada um, de uma forma ou de outra, não se enquadram na comunidade onde vivem, e face a uma situação desesperada, tomam medidas extremas, a saber, o rapto de uma criança. Contudo, não a maltratam. Pelo contrário, cuidam de “Yu-sun” como uma princesa, criando condições para que a menina se sinta o melhor possível. Por sua vez, “Park”, o bem sucedido pai divorciado de “Yu-sun” é um ser que ama a filha, como qualquer progenitor decente e normal o deve fazer. No entanto, após o decesso do seu rebento, torna-se naturalmente o “Mr. Vengeance” em pessoa, que no início nos arranca toda a simpatia e compreensão do mundo, mas que a certa altura faz-nos questionar se conhecendo o que realmente se passou com a filha, não deveria adoptar uma atitude menos radical. Mas isto é fácil falar para quem está de fora...99,9% de nós com certeza se tornaria no tal "Mr. Hide". É complicado tomar partidos, e "Sympathy for Mr. Vengeance" é uma película que nos obriga a optar entre situações que merecem a nossa compreensão e complacência, e ambas merecedoras de algum tipo de tutela emocional.


"Ryu e Yeong-jin reflectem sobre um rumo a tomar"

A narrativa e a forma como a mesma nos é apresentada, contém pormenores dotados de uma grande força, que indelevelmente marcam bem fundo. O corpo de “Yu-sun” a ser cremado é um momento breve, mas grandioso do filme, onde nos é oferecida uma perspectiva interior do caixão, fazendo com que interiorizemos que qualquer réstia de inocência ou de bom senso acabou e que a verdadeira vingança que nos desumaniza a todos vai entrar em erupção definitivamente, libertando um inferno bastante pessoal por Seul! Outra cena extremamente perturbadora, passa pelos quatro rapazes que vivem no apartamento ao lado do de “Ryu”, a se masturbarem com os gritos de agonia da irmã do rapaz, pensando que estão a ouvir gemidos de prazer derivados do sexo, quando o que está em causa são sons de sofrimento devido à doença renal que a mulher padece. No meio destes momentos pouco convencionais, é obrigatório aludir o rapaz deficiente mental que aparece nas margens do lago e que com a sua presença proporciona, mais do que uma vez, um verdadeiro espectáculo surrealista. No remanescente, temos vários momentos bastante sórdidos, que apelam à tortura física e psicológica, não defraudando em nada os cultores do género. Sangue, gritos, frustração e apelos a um drama crú que não dá tréguas àqueles que pretendem ter uma sessão de cinema minimamente descansada, e que entusiasma as mentes mais sádicas que por aí andam!

Apesar dos seus méritos incontornáveis, e que passam igualmente por uma projecção visual extremamente incisiva e actuações de elevar, nem tudo são rosas nesta longa-metragem. Por vezes existe alguma lentidão no desenvolvimento da narrativa, que quebra um pouco o ritmo da película. É notório igualmente que existe alguma falta de refinamento em certas situações, aspecto que o realizador maduramente viria a melhorar em obras posteriores. Sinceramente, julgo que não que não estarei muito longe da verdade se afirmar que “Sympathy for Mr. Vengeance” constitui o episódio mais fraco da saga de Park Chan-wook, que tantos admiradores granjeou. Contudo não deixa de ser um começo bastante interessante e um bom cartão de visita para o que viria a seguir, e que atingiria os circuitos internacionais de cinema com a pujança de um valente soco no estômago: o imponente e fantástico “Oldboy”, com o inimitável Choi Min-sik no papel principal a espalhar talento por tudo o que é sítio! “Sympathy for Lady Vengeance”, outra obra de incontestável valia, serviria para consolidar o edifício já de si com alicerces seguros.

Se enveredarmos por uma tradução literal, o título em coreano deste filme significa “a vingança é minha”. No fim concluímos que é um “cocktail” que redunda num prato chamado “é de todos, não é de ninguém e quase toda a gente vai acabar bastante mal nesta história”! Quanto aos condimentos, é favor deitar umas pitadas bem generosas de sangue e tragédia humana, com os melhores cumprimentos do chefe Park Chan-wook!

A não perder este filme que faz questionar e muito o famoso brocardo de Maquiavel, "os fins justificam os meios"!

"Vingança?!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quarta-feira, abril 30, 2008

The Host - A Criatura/The Host/Gwoemul -
괴물 (2006)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 114 minutos

Realizador: Bong Joon-ho

Com: Song Kang-ho, Byeon Hee-bong, Park Hae-il, Bae Doo-na, Ko Ah-seong, Oh Dal-su, Lee Jae-eung, Lee Dong-ho, Yoon Je-moon, Lim Pil-seong, Kim Roi-ha

"Gang-du"

Sinopse

No rio Han, em Seul, as pessoas deparam-se com uma visão incomum. Um ser estranho encontra-se suspenso numa ponte, e todos, incluindo o retardado “Gung-du” (Song Kang-ho), pasmam-se com a situação. O momento de letargia desaparece abruptamente, quando a criatura resolve atacar a população e espalhar o caos pelas margens do curso de água. “Gung-du” agarra na filha “Hyun-seo” (Ko Ah-seong) e foge em desespero, à semelhança de todos os que se encontram no local. Contudo, e devido ao raciocínio lento de “Gung-du”, a criatura apanha “Hyun-seo” e arrasta-a para as águas do rio.

"Gang-du em fuga com a filha Hyun-seo"

Como se este problema não fosse o suficiente, “Gung-du” e a restante família, o pai “Hee-bong” (Byeon Hee-bong), o irmão Nam-il (Park Hae-il) e a irmã “Nam-joo” (Bae Doo-na) são mantidos em quarentena no hospital, por terem entrado em contacto com o monstro e desta forma se suspeitar que estão infectados com um vírus mortal. Partindo do pressuposto que o benjamim da família se encontra morto, a ideia depressa se altera quando “Gung-du” recebe uma chamada da filha. A rapariga atemorizada, e através de um telemóvel, afirma que está presa no covil da criatura, algures na rede de esgotos perto do rio Han.

A família escapa-se do hospital e une-se no objectivo comum que é resgatar “Hyun-seo”. Para tal, e sendo apenas cidadãos comuns, vão ter que partir à caça da maior ameaça que a cidade de Seul já enfrentou!

"Hyun-seo"

"Review"

Em 2006, directamente da Coreia do Sul, e à semelhança do monstro do rio Han que protagoniza a película, emergia “The Host”, um filme que chamaria a atenção de todo o cinéfilo ocidental para o cinema coreano (coisa rara a estreia de um filme asiático na Madeira, pois também aqui andou a deambular nas salas de cinema). O grande sucesso desta longa-metragem começaria dentro de fronteiras, com “The Host” a desalojar o trono que pertencia a “The King and the Clown”, e a tornar-se por direito próprio, o campeão das bilheteiras na Coreia do Sul, tendo sido visto por 13 milhões de pessoas!!!
No meio de 18 prémios conquistados, sobretudo em festivais de cinema realizados no oriente, sempre se destacará o galardão para melhor realizador conquistado no “Fantasporto”, que viria a repetir em Sitges, assim como o atribuído para melhores efeitos especiais atribuído neste último certame. A sua estreia mundial, teve a grande honra de suceder em Cannes, o que forçosamente tenho de reconhecer que não é para qualquer um. Como se este já pujante cartão de visita não bastasse, a conceituada publicação “Cahiers du Cinema” viria a considerar “The Host”, como o 3º melhor filme de 2006.

Com este digno cartão de visita, sempre se adiantará que ao contrário da esmagadora maioria das críticas que existem espalhadas pela “net”, este texto não irá trilhar os caminhos do endeusamento de “The Host”, nem nada que se pareça. A película tem qualidade, isso é inegável. Mas sinceramente, ainda não descobri, ao fim de 3 visionamentos, o que ela tem assim de tão especial para merecer as apologias hiperbólicas que foram veiculadas um pouco por todo o lado. Por vontade própria, torna-se um texto ingrato para escrever...

Antes de tudo, comecemos pelo principal (de um ponto de vista empírico), ou seja, o monstro que anda a espalhar a miséria pelos habitantes de Seul e por uma família em particular. O facto de a criatura surgir logo no início, ao invés do costumeiro suspense que se costuma fazer, é de saudar e rompe com convenções. Todos nós estamos habituados a que filmes do género, exponham as suas aberrações de uma forma progressiva. Um respirar atroz, um olhar malévolo, um vulto repentino, etc...etc... Em “The Host”, o “simpático” desvio da natureza é-nos dado a conhecer logo de início, e não perde tempo a fazer das suas, ou seja, a atacar as inocentes pessoas que gostam de andar pelas margens do rio Han. E daqui decorre a premissa principal da película e a partir de onde tudo se desenvolve, a saber, o rapto da jovem “Hyun-seo”, filha do principal herói da longa-metragem, “Gung-du”. Nada de rodeios, directo ao assunto!

"Nam-joo"

Falemos agora do aspecto do “bicho”. Sinceramente não gostei... Para os parâmetros sul-coreanos, podemos afirmar que “The Host” até teve um orçamento relativamente desafogado (cerca de 10 milhões de dólares). No entanto, tal representa uma verba modesta face às grandes produções norte-americanas (a maior parte de valor discutível, diga-se de passagem), com possibilidades de gastar exorbitâncias em efeitos especiais. Segundo consta, o realizador pretendia, em coerência com o argumento, que o monstro se assemelhasse a um animal que tivesse sofrido uma mutação anormal. Não tenho dúvidas nenhumas que o objectivo foi conseguido. Simplesmente estamos a falar de uma questão de pura estética, em que como tudo na vida, os gostos variam e muito. Não achei nada de especial (o “Alien” para mim ainda continua a ser o indisputado campeão). O que me fez preencher um pouco as vistas foram os movimentos acrobáticos da criatura, que são acima de qualquer repreensão. Realistas e naturais, acabam por ser o ponto forte do CGI usado nesta longa-metragem. Confesso que o grande alarido que se fez à altura, em relação a este filme em concreto, possa ter condicionado de alguma forma a opinião aqui expressa.

A crítica aos americanos não é nada de novo na cinematografia sul-coreana, e esta por sinal tem por base factos verídicos. Pelos vistos, em 2000, um cientista que trabalhava para o exército norte-americano baseado na Coreia do Sul, despejou uma grande quantidade de formol nos esgotos de Seul. Tal consubstanciou-se num atentado ambiental de alguma gravidade que causou revolta entre a população. Bong Joon-ho, admite, entre sorrisos esparsos, que o filme poderá conter algum anti-americanismo à mistura. Quanto a mim, é indubitável que se fez algum exercício fantasista no sentido de pensar nas consequências das atitudes irreflectidas de alguns, no sentido de criar um ser que espalhe o terror pela maior metrópole do país. A origem dessa instabilidade nasce de algo exterior à cultura coreana (os americanos), e que a condiciona fortemente. É um monstro, mas poderia ser uma infinidade de coisas mais, sempre com o aspecto nacionalista e político subjacente. O certo é que a maior ditadura do mundo, a norte-coreana (na minha singela opinião) fez uma apologia de “The Host”, o que é certamente uma novidade no que toca aos “filmes subversivos do vizinho capitalista”.

O que é de acentuar mais, na minha humilde opinião, é a união expressa (uma “máfia” no bom sentido, expressão com a qual concordo plenamente quando bem interpretada) de uma família com grandes frustrações no seu seio. Temos como elementos componentes o patriarca “Park Hie-bong”, que tenta ser o elo mais forte, mas que nos podemos aperceber dos erros da juventude e das repercussões subsequentes; o filho mais velho, “Gung-du”, um retardado inconsequente, que foi abandonado com uma filha nos braços; “Nam-il”, que concluiu a sua licenciatura, mas cujo desemprego vota-o ao alcoolismo; “Nam-joo”, uma praticante de tiro com arco, dotada de elevado potencial, mas que falha sempre na hora da verdade. Todos sem excepção unem-se, apesar da sua pouca conveniência social, e prosseguem ligados na prossecução de um objectivo comum: recuperar a sua redenção, corporizada tanto no objectivo como na pessoa mais “normal” da família, a jovem “Hyun-seo”. A partir daí temos o motivo para a exposição de boas interpretações do elenco, sem excepção. O drama, até prova em contrário, continua a ser o que os coreanos executam com mais mestria. Já dizia a personagem “Gyeon-woo” de “My Sassy Girl”, interpretada pelo actor Cha Tae-hyun, “all koreans love melodrama”, e como quem corre por gosto não cansa...

A comédia “nonsense”, para não variar afigura-se um tanto ou quanto dispensável, pois não resulta por aí além e quebra um pouco o espírito do filme. O epílogo é extremamente previsível e não consegue escapar a uma vertente moralista que, embora educativa (o que é sempre de elogiar), dispensava-se um pouco atendendo ao contexto em geral.

Em jeito de conclusão, resta apenas afirmar o quase óbvio para quem leu com atenção este texto. A Coreia do Sul tem obras cinematográficas de um nível bastante superior a “The Host”, e que são praticamente desconhecidas do público ocidental, cujo rol seria exaustivo enumerar. No alto da minha ingenuidade, é para mim um mistério, como as mesmas não conseguem ter a projecção que o filme que ora se disserta alcançou. Sempre se poderá dizer que a explicação terá algo de futebolístico: às vezes não é quem é melhor jogador, mas sim quem tem o melhor empresário ou quem possui um manancial de fintas que não o fazem propriamente um executante de primeira fila. Provavelmente o mais plausível será que a opinião aqui veiculada, pelo facto de ser minoritária, não há de colher vencimento. Mas fazendo uso de um “cliché” acertadíssimo, nem sempre as maiorias têm razão.

Depois de visionar “The Host”, e embora sejam pertencentes a géneros completamente distintos, só me resta concluir que o melhor filme de Bong Joon-ho continua a ser “Memories of Murder”. Contudo, será inegável que valerá a pena dar uma espreitadela, nem que seja para chegar a uma conclusão idêntica à minha, ou, pelo contrário, atirá-la completa ou parcialmente para o balde do lixo...


"Nam-joo enfrenta o monstro"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Cinedie Asia,
  2. Cinema2000,
  3. Zona de Culto,
  4. Royale With Cheese,
  5. Duelo ao Sol,
  6. Cine-Asia
  7. Devaneios
  8. Batto presenta...

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Eotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





segunda-feira, fevereiro 18, 2008


Memories of Murder/Sar(l)inui Chueok - 살인의 추억 (2003)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 130 minutos

Realizador: Bong Joon-ho

Com: Song Kang-ho, Kim Sang-kyeong, Kim Roi-ha, Song Jae-ho, Byeon Hee-bong, Ko Seo-hee, Ryoo Tae-ho, Park No-sik, Park Hae-il, Jeon Mi-seon, Seo Young-hwa, Choi Jong-ryeol, Yoo Seung-mok, Sin Hyeon-jong, Lee Jae-eung, Kwon Byeong-gil

"O detective Seo Tae-yoon"

Estória

23 de Outubro de 1986. Uma jovem e bonita mulher é encontrada num campo, morta e com indícios de violação. Os assassínios das raparigas continuam, e o detective “Park Doo-man”(Song Kan-ho) encontra-se envolvido num sério imbróglio para resolver. A polícia local é inexperiente neste tipo de situações, não tendo um rumo correcto na investigação e na busca de provas.

A ajuda chega da capital Seul, na pessoa do inspector “Seo Tae-yoon”. O agente citadino encontra desde o início uma extrema dificuldade em convencer a polícia local (“Park” incluído), no sentido de que estão perante um assassino em série, dotado de uma mente muita arguta e inteligente. Um perfil é definido. O criminoso ataca sempre jovens bonitas, em noite chuvosas. O sinal para a perpetração do crime é o pedido de uma música rara intitulada “Sad Letters”, que passa na rádio local.

"O detective Park Doo-man"

“Park” e “Seo” tentam pôr de parte as suas diferenças e após aturado trabalho e a detenção de falsos suspeitos, acabam por identificar um jovem que tudo indica ser o autor dos horrendos crimes. No entanto, as coisas acabam por não correr dentro das expectativas dos investigadores.

"A equipa de investigação"

"Review"

Entre 1986 e 1991, a Coreia do Sul viveu sob um espectro de terror devido a um assassino em série que focou a sua actividade na área de Hwaseong. Milhares de polícias foram envolvidos nas investigações e mais de 3000 suspeitos interrogados. O criminoso que fez dez vítimas no total, nunca foi capturado.

“Memories of Murder” é baseado nos factos verídicos acima relatados, e constituiu um grande sucesso do cinema coreano, tendo sido o filme mais visto na sua terra-natal durante o ano de 2003 (“Silmido”, também de 2003, acabaria por bater “Memories of Murder” na bilheteira. No entanto, os seus grandes resultados no “box office” seriam obtidos em 2004). Igualmente esta longa-metragem teve alguma expressão internacional, tendo desfilado em vários certames, sendo de destacar “Cannes” , “San Sebastian”, “Londres” e “Tóquio”, tendo obtido alguns prémios de relevo.

Quando mencionei o “background” histórico de “Memories of Murder”, receio de alguma forma ter estragado o “suspense” da película e inadvertidamente ter atirado com um “spoiler” à vossa cara. No entanto, pensando melhor, julgo que este factor não estragará o vosso visionamento do filme, atendendo a que existe bastante para apreciar e reflectir. Isto para dizer que estamos perante uma película extremamente interessante e realizada de uma forma competente por Bong Joon-ho. No desenvolvimento de toda a trama, somos encantados como umas serpentes e os nossos olhos não conseguem despegar do ecrã até ao epílogo. A caracterização das personagens é fenomenal, pois deparamo-nos com vários cidadãos comuns do dia-a-dia, que se tornam suspeitos por uma qualquer “tara” ou comportamento dito menos normal. Outrossim, somos também confrontados com polícias que por vezes devem muito à moralidade e à ética moral e profissional.

"Momentos de tensão"

O tratamento é realista o suficiente, para sentirmos a ânsia dos detectives em descobrir o sinistro assassino, degenerando a sua actuação em verdadeiros atropelos aos direitos humanos em nome de valores supostamente mais elevados. Até onde vai a reserva e o respeito pela dignidade e intimidade pessoal “versus” o salvamento de vidas? Justifica-se? Em que circunstâncias? Haverá limites para a brutalidade policial, em nome de um desiderato porventura mais premente. Uma consideração bastante actual. O tema foi considerado muito bem exposto, que inclusive mereceu um prémio FIPRESCI, com a seguinte justificação: “For giving new insight into the roots of political repression in a dictatorship under the guise of the hunt for a serial killer”. Elucidativo, não?! A actuação policial mais violenta, encontrar-se-ia de certa forma legitimada, ou melhor facilitada, pela ditadura militar que comandava os destinos da Coreia do Sul à altura. E como pano de fundo da estória principal, afigura-se bastante interessante observarmos por breves momentos a sublevação estudantil, imbuída de coragem e rebeldia para defrontar um regime opressor das liberdades individuais.

O filme é tenso, não fosse “Memories of Murder” um “thriller” de elevado quilate. Essa característica revela-se na perpetração dos crimes, onde momentos verdadeiramente angustiantes sobrelevam e que por vezes nos atingem como um valente soco na face, ou nos fazem dar um salto na cadeira (neste particular destaco o ataque à mulher - não vestida de vermelho - que deambula por um caminho rural, numa noite de intensa chuva). Não estamos perante um banho de sangue, mas sim face a uma “brincadeira” psicológica muito bem urdida.

Para os estimados visitantes deste espaço que não elegem o cinema asiático como principal referência, será uma obra na linha de “Seven ou “O Silêncio dos Inocentes”, embora com características muito particulares, que lhe conferem uma identidade forte e própria. Para os restantes e mais interessados nestas lides, convirá informar que estamos perante um dos melhores “thrillers” asiáticos da história!

Com interpretações bastante competentes, uma banda-sonora emblemática e cenários naturais que servem de ambiente ideal para o desenrolar da acção da película , estamos perante mais uma grande obra do cinema coreano. Sendo um “cocktail” bastante saboroso de crime e drama social, merece sem dúvida uma espreitadela de todos aqueles que cá me visitam!

Nunca mais encararei os caminhos rurais da mesma forma...e a minha terra ainda tem alguns!

"O detective Park corre com uma prova decisiva na mão"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13