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segunda-feira, maio 10, 2010

JSA - Joint Security Area/Gongdong gyeongbi guyeok – 공동경비구역 (2000)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 110 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Lee Byung-hun, Song Kang-ho, Kim Tae-woo, Shin Ha-kyun, Christoph Hofrichter, Herbert Ulrich, Gi Ju-bong, Kim Myoeng-su, Kim Tae-hyeon

Major Sophie Jean

Major Sophie Jean”

Sinopse

Na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias antagonistas, disparos soam numa fria manhã de Outubro. Momentos depois, o sargento sul-coreano “Lee So-hyeok” (Lee Byung-hun) emerge ferido do lado norte-coreano, e uma troca acesa de tiros deflagra dos dois lados da fronteira. A tensão cresce entre os dois países vizinhos, mas ambos concordam em entregar a uma comissão independente, a investigação do caso. A tarefa é entregue à Comissão Supervisora das Nações Neutrais (CSNN), um organismo europeu composto pela Suíça e a Suécia. A CSNN envia a suíça descendente de coreanos, Major “Sophie Jean” (Lee Yeong-ae), conferindo-lhe a missão de apurar o sucedido.

O sargento Lee So-hyeok

O sargento Lee So-hyeok”

Duas teses se debatem. Os sul-coreanos defendem que o sargento “Lee So-hyeok” foi raptado pelas forças inimigas, e que teve de matar dois soldados das forças norte-coreanas, de forma a poder fugir. Por sua vez, os norte-coreanos entendem que “Lee So-hyeok” atravessou deliberadamente a fronteira de forma a matar os dois soldados norte-coreanos e ferindo um terceiro, o sargento “Oh Kyeong-pil” (Song Kang-ho). Perante um mistério intrincado e cheio de factos contraditórios, caberá à Major “Sophie Jean” descobrir a verdade e evitar um novo conflito entre as duas Coreias.

O sargento Jeong Woo-jin

Soldados norte-coreanos”

“Review”

Park Chan-wook, o realizador da espectacular trilogia da vingança, trouxe-nos no virar do século um dos maiores êxitos de sempre da cinematografia sul-coreana, cujo enredo versa acerca do tema mais sensível que se pode tratar naquelas paragens: o antagonismo e divisão entre as duas Coreias. O impacto desta película foi tal que o dvd chegou a ser mostrado pelo presidente sul-coreano de então, Roh Moo-hyun, ao seu homólogo norte-coreano, Kim Jong-ill. Por sua vez, o realizador Quentin Tarantino, sempre sensível às produções asiáticas, chegou a eleger “JSA”, como um dos seus 20 filmes preferidos realizados após 1992.

Porventura não será fácil tratar de um aspecto tão polémico como a divisão das Coreias, em dois regimes tão opostos e que nasceram do sangue de dois povos que na realidade são irmãos. A realidade não é nova na cinematografia sul-coreana, e existiram diversas abordagens ao problema, umas pró-união, outras de cariz mais divisionista e contra o regime musculado norte-coreano, que muitos reputam como a ditadura mais extrema do mundo. Não cabe aqui tomar partidos, mas apenas referir que “JSA” envereda mais pelo primeiro diapasão, ou seja, o do nacionalismo favorável a uma unificação coreana e a um caminho que se descobre do individual para o geral. A mensagem passa para o espectador a partir das pessoas isoladamente consideradas, ou através de um pequeno grupo de indivíduos, evitando-se qualquer tipo de massificação ideológica.

Fogo

As minas rebentam”

Park Chan-wook tem o mérito de manter uma saudável neutralidade na forma como aborda a questão do conflito coreano, mantendo uma saudável distância entre o tomar partidos, não abdicando de expor as razões de ambas as partes. Contudo, e julgo não estar muito longe da verdade, Chan-wook parece pertencer à facção da população que almeja assistir um dia à união das duas Coreias. Vários sinais apontam nesse sentido ao longo do filme, destacando a maneira escorreita como é permitida a crítica aos Estados Unidos da América e à sua influência marcante sobre a Coreia do Sul. A amizade entre os soldados de ambas as Coreias, explanada como uma esperança exteriorizada de reunificação dos dois países, muito induz a esta conclusão. Como acima aflorado não existe uma tentativa de educação política do espectador, nem qualquer tentativa de sublimação da ideologia comunista norte-coreana perante o capitalismo sul-coreano e vice-versa. Apenas e tão-só, através de indivíduos olhados singularmente, são escorridas as razões de uns e outros para agirem como agem, ou fazerem o que fazem.

A cinematografia é belíssima e é-nos mostrada uma perspectiva muito abrangente da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, conseguindo a linha divisória e a ponte “sem retorno” transmitir-nos alguma tensão. As cenas invernais, em especial a neve, proporcionam momentos de grande beleza, e os “flashbacks” estão muito bem filmados e inseridos na trama, conferindo o efeito “Rashomon” que tantos gostam e que eu aprecio particularmente. Os actores, de grande quilate na cena cinematográfica sul-coreana, exibem-se em bom nível, destacando-se neste particular Lee Byung-hun, no papel do Sargento “So-hyeok”, e o grande Song Kang-ho, actualmente um dos meus intérpretes de eleição, na representação do norte-coreano “Kyeong-pil”. A actriz Lee Yeong-ae não consegue estar ao nível dos outros actores principais, mas não por sua culpa. Aqui as responsabilidades terão de ser assacadas ao realizador Park Chan-wook. Nota-se que Yeong-ae não possui um bom domínio da língua inglesa, assim como não parece ser muito credível que uma mulher tão nova, já possua uma patente elevada como a de major.

“JSA” é um filme essencial para compreender as emoções de ambas as partes e as razões para o conflito entre as duas Coreias, assim como é um dos obrigatórios para quem quiser conhecer um pouco do melhor cinema que se faz na Coreia do Sul. Como qualquer filme sul-coreano que se preze, não consegue fugir a algum dramatismo forçado, principalmente no epílogo, como é natural. É uma película dotada de grande profundidade e interesse histórico e embora o seu enredo pareça algo limitado (gira unicamente em torno do incidente entre os soldados), o mesmo é exposto de uma forma atraente para o espectador e longe de ser insossa ou chata.

Aconselhável!

As forças sul-coreanas

As forças sul-coreanas”

imdb Nota 7.8 (7.688 votos) em 11/05/2010

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia
  2. Cineasia
  3. Nem todos são arte

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8

terça-feira, setembro 02, 2008

Vingança Planeada/Sympathy for Lady Vengeance Aka Lady Vengeance/Chinjeolhan geumjassi - 친절한 금자씨 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 115 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Kwon Yea-young, Go Su-hee, Kim Bu-seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-hoo, Lee Seung-Shin, Nam Ill-woo, Oh Dal-su, Yu Ji-tae, Tony Barry, Anne Cordiner, Kang Hye-jeong, Lee Dae-yeon, Lim Su-gyeong, Oh Kwang-rok, Ra Mi-ran, Seo Yeong-ju, Shin Ha-kyun, Song Kang-ho

"Lee Geum-ja"

Sinopse

Em 1991, “Lee Geum-ja” (Lee Yeong-ae) foi condenada ao cumprimento de uma pena de reclusão por um ilícito hediondo, a saber, o rapto e homicídio de uma criança. O crime foi extremamente emblemático na época em que sucedeu, tendo a comunicação social empolado a situação de tal maneira que “Geum-ja” tornou-se numa notória assassina com apenas 19 anos à altura.

"O escândalo de uma jovem de 19 anos acusada de um crime hediondo"

No tempo que passou na prisão, “Geum-ja” tornou-se conhecida pela sua bondade e ar angélico, granjeando desta forma grande popularidade entre os funcionários da cadeia e as reclusas. Igualmente encontrou consolo na religião católica, adoptando um fervor espiritual exemplar. Em 2004, 13 anos depois do início do seu cativeiro, “Geum-ja”, agora uma bonita mulher com 32 anos, é libertada. Logo após o fim da sua provação, adopta uma postura completamente oposta à que tinha na prisão, dando uma volta de 180 graus na sua vida. Desde o início, faz por demonstrar que é um ser sério, frio e calculista, adoptando indumentárias preferencialmente de cor negra e pintando os seus olhos com uma sombra vermelho-sangue.

A súbita, mas calculada transformação de “Geum-ja”, deve-se a vingança que esta pretende exercer sobre um professor primário chamado “Baek” (Choi Min-sik). A razão para a atitude da mulher passa por a mesma ter sido obrigada a assumir as culpas pelo chocante crime que não cometeu, de forma a proteger a sua filha “Jenny” (Kwon Yea-young) de “Baek”. Meticulosamente “Geum-ja” arquitecta o seu plano, tendo por orientação e verdade absoluta que existem certas dívidas que só se pagam com sangue.

"Geum-ja empunha uma arma ultrapassada pouco convencional"

"Review"

Após no passado ter elaborado aqui textos acerca de “Sympathy for Mr. Vengeance” e “Oldboy”, chegou a altura de encerrar a trilogia não oficial de Park Chan-wook, dissertando um pouco agora acerca do último filme da saga “Sympathy for Lady Vengeance”, uma obra negra e poética da autoria do mestre sul-coreano à semelhança das suas antecessoras, embora com uma abordagem distinta. Antes de tudo constitui mais uma película bastante premiada, com galardões em vários certames internacionais entre os quais Veneza e o nacional Fantasporto – edição de 2006, onde viria a levar para casa o prémio relativo à secção “Orient Express” do festival. Beneficiando do “hype” de “Oldboy” realizado dois anos antes, “Sympathy for Lady Vengeance” foi uma obra bastante aguardada pois muita era a curiosidade em saber até onde Park Chan-wook poderia ir com o seu amado conceito da “vendeta”, depois do estrondoso êxito da sua película anterior. O resultado desde já se adianta que é extremamente positivo, tendo Chan-wook criado uma longa-metragem de eleição, não atingindo contudo o nível da sua predecessora (a pergunta que aqui se coloca é se dentro do género, alguém ou algo o conseguirá fazer).

Um aspecto que desde logo chama a atenção é a criação da personagem de “Geum-ja”, com todos os seus atributos físicos e psicológicos. É traçado um retrato complexo (mas perfeitamente perceptível aos olhos do espectador) de uma mulher bela, eivada de um ar angélico, que joga fora completamente o início da sua vida adulta em nome de algo maior. É uma figura enigmática, mas que colhe a nossa simpatia, apesar da sua faceta anjo-demónio que a actriz Lee Young-ae interpreta de uma forma bastante competente. Por outra via, somos confrontados com um “Baek” que aparentemente se configura como um cidadão normal, mas que na realidade é um verdadeiro monstro doentio, sem escrúpulos, cuja “tara” passa por se aproveitar de crianças indefesas, causando desta forma a infelicidade e a miséria nas famílias dos jovens. Como seria de esperar, o fantástico e renomado intérprete sul-coreano Choi Min-sik oferece-nos um desempenho acima da média que pecará apenas por algo que lhe é completamente alheio, ou seja, a falta de minutos. Como praticamente nada é perfeito, e esta premissa também se aplica ao cinema, Chan-wook podia ter investido mais em “Baek” e nas suas motivações, de maneira a que tivéssemos um sentido mais lúcido da outra face da moeda, assim como a oportunidade de vermos mais de um actor que pertence à fina-flor do cinema mundial. Pelo contrário, Chan-wook optou por centrar mais a narrativa na personagem principal, a “Lady Vengeance Geum-ja”, o que se torna aceitável, pois focámo-nos quase por completo no cerne principal do filme, a vingança justificada de uma mulher amarga, mas completamente determinada. Mesmo assim é caso para perguntar se a trama tivesse concedido mais algum destaque a “Baek”, não saborearíamos nós melhor o “cocktail molotov" que se avizinha?!

O restante elenco comporta-se à altura, restando apenas expôr umas curiosidades que com certeza agradarão aos fãs da “trilogia da vingança” de Chan-wook. Os dois assassinos contratados para matar “Geum-ja” são interpretados pelos conhecidos actores sul-coreanos Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, que deram vida aos papéis principais em “Sympathy for Mr. Vengeance”. Aliás se repararmos bem no conjunto de intérpretes que Park Chan-wook reuniu para a longa-metragem que ora se analisa, veremos que estamos perante uma verdadeira constelação de estrelas e mais do que isso, aglutinaram-se todos os artistas que representaram os papéis mais emblemáticos das restantes películas da saga. Além dos já mencionados Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, temos Choi Min-sik, Kang Hye-jeong, Yu Ji-Tae e Oh Dal-su de “Oldboy”. Fica apenas a faltar a actriz Bae Doo-na (a "Yeong-jin" de “Sympathy for Mr. Vengeance”) para ficarmos com o repertório completo.

"Baek em apuros"

No que toca à exposição da violência, “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme aparentemente menos intenso que “Sympathy for Mr. Vengeance” ou “Oldboy”. Em “Sympathy for Mr. Vengeance” estávamos perante um conceito de vingança mais impulsivo e delapidante, onde as motivações de todas as “partes do conflito” são profusamente abordadas e tudo parece ter origem no amor, um sentimento à primeira vista (mas não à segunda) contraditório com o resultado final. Nessa obra-prima intitulada “Oldboy”, a vingança aparece mais como uma maníaca necessidade, consubstanciada num desejo animalesco de retribuição dolorosa por um emprisionamento aparentemente injustificado. O que viria a seguir é forte demais para quase todos nós! No tocante a “Sympathy for Lady Vengeance”, é exposta uma abordagem mais sentimental (do ponto de vista convencional) e menos crua da vingança, quando comparada com as películas anteriormente mencionadas. No entanto se, e como já mencionei, os pormenores mais “físicos” da questão estão refreados, isto não significa necessariamente que o filme não tenha a mesma intensidade. A violência aqui é mais induzida, do que propriamente explanada. Relembre-se apenas, e a título exemplificativo, na cena em que uma das companheiras de “Geum-ja” na cadeia está a fazer calmamente um churrasco, enquanto um bando de polícias cautelosamente se aproxima de arma em punho. Mais tarde vimos a saber que a pessoa em questão tinha sido presa por ter morto o marido e posteriormente o ter cozinhado às fatias e ingerido o petisco...Outro aspecto de aplaudir é conceito de “vingança partilhada” exposto nos últimos 15-20 minutos da película, que se torna numa lufada de ar fresco e de certa forma surpreende “positivamente” o espectador.

Com uma banda-sonora espectacular composta por excertos na sua maior parte de Vivaldi, (debitando igualmente uma melodia de Niccoló Paganini) e na esteira de clássicos japoneses como “Lady Snowblood” de Toshiya Fujita (salvo as devidas adaptações e diferenças em função da contemporaneidade e não só), “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme que recupera o conceito da mulher inocente e frágil que devido às agruras da vida, contraria a sua natureza e embarca no “olho por olho, dente por dente”. Vindo de Park Chan-wook, o resultado não poderia ser outro senão um filme catalisado por elementos psicológicos bastante bem explorados, consubstanciado em mais uma reinvenção de uma vingança sangrenta, que é de aplaudir. O resultado é óptimo, fazendo com que a película seja absolutamente de visionamento obrigatório. Encerra-se desta forma e com chave de ouro, um dos ciclos mais emblemáticos da história do cinema asiático, quiçá mundial, traduzido num dos mais brilhantes tratamentos conferidos à natureza humana e à sua volatilidade!

Muito bom!

"Geum-ja e a filha Jenny"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





terça-feira, julho 29, 2008

Sympathy for Mr. Vengeance/Boksuneun naui geot -
복수는 나의 것 (2002)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 121 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Song Kang-ho, Shin Ha-kyun, Bae Doo-na, Lim Ji-eun, Han Bo-bae, Kim Se-dong, Lee Dae-yeon, Ryu Seung-beom

"Park Dong-jin, o pai vingativo"

Sinopse

“Ryu” (Shin Ha-kyun) é um surdo-mudo que trabalha numa fábrica e cuida da irmã (Lim Ji-eun) que possui um problema de saúde muito grave, cuja única forma de ser resolvido é através de um transplante renal. O jovem já poupou os necessários 10.000 won (a moeda da Coreia do Sul), sendo agora necessário encontrar um dador compatível com a sua irmã. A situação é tão crítica, que esta já perdeu a esperança toda em viver, e solicitou a “Ryu” que a enterrasse nas margens do lago onde brincavam quando eram crianças.

Após ser despedido, “Ryu” encontra um panfleto numa casa de banho pública, onde se publicita uma venda ilegal de órgãos humanos. Seguindo os contactos aí expostos, trava conhecimento com uma idosa toxicodependente e os seus filhos psicóticos. O negócio passa por “Ryu” entregar os 10.000 won aos traficantes, assim como um dos seus rins. No dia seguinte, o rapaz acorda nu num edifício abandonado, sem o dinheiro e com uma incisão que indica que o seu rim foi retirado. Enganado pelos traficantes, o seu desespero aumenta ainda mais quando o médico que segue a doença da irmã informa “Ryu” que finalmente um dador foi encontrado, e que a mesma será operada em troca do dinheiro.

"Ryu e a pequena Yu-sun"

Sem nada a perder, “Ryu” conjuntamente com a sua namorada “Yeong-jin” (Bae Doo-na), uma activista comunista e defensora do regime norte-coreano, planeiam raptar “Yu-sun” (Han Bo-bae) a pequena filha de “Park Dong-jin” (Song Kang-ho), o ex-patrão de “Ryu”. O objectivo é trocar a criança pelo dinheiro necessário para efectuar a operação. Acidentalmente, “Ye-sun” morre, fazendo com que “Park” inicie uma cruzada de vingança contra aqueles que ele considera responsáveis pelo falecimento da sua filha.

"A rebelde e revolucionária Yeong-jin"

"Review"

Chegou agora o momento de dissertar um bocadinho acerca do primeiro filme que compõe a conhecida trilogia não oficial de Park Chan-wook, a qual tem sido vendida sob a designação pomposa, mas feliz, de “Trilogia da Vingança”. Para os mais desatentos ou menos esclarecidos acerca do tema em concreto, o trio de películas fica completo com “Oldboy” (2003) e “Sympathy for Lady Vengeance” (2005).

Assim como se costuma dizer que “de génio e de louco, todos nós temos um pouco”, sempre se poderá igualmente afirmar que por mais pacíficos, amáveis e compreensivos que sejamos no dia-a-dia, haverá sempre uma centelha que eventualmente acordará o que de pior existe dentro de nós, e subsequentemente, nos levar a cometer actos monstruosos. Digamos que é uma espécie, a modos de dizer, de "Dr. Jekyll e Mr. Hide", tal e qual Robert Louis Stevenson os imaginou. Sinceramente, nunca duvidei desta ideia e considero-a das verdades mais absolutas que existem nesta vida. “Sympathy for Mr. Vengeance” vive um pouco desta premissa, e executa-a com mestria, embora possamos afirmar que não chega à quase-perfeição. Embora ande por lá perto por alguns momentos, disso não se pode duvidar. Trata-se de mais um filme que leva a natureza humana aos seus limites, no que toca à violência e porque não dizê-lo da demência. Os raptores “Ryu” e “Yeong-jin”, embora não se configurem como pessoas ditas “normais”, no sentido do cidadão comum, não são seres malévolos. Como já foi aludido na sinopse, o rapaz é surdo-mudo e um tanto ou quanto traumatizado devido à enfermidade da irmã. “Yeong-jin” é uma revoltada com o sistema capitalista reinante na Coreia do Sul, e visa causar uma revolução comunista (em transição para o anarquismo) na sociedade, onde os americanos são vistos como opressores (mais uma vez, o estereótipo anti-americano está presente numa obra sul-coreana; quanto à costumeira maledicência contra os japoneses, ela não marca presença neste filme). Cada um, de uma forma ou de outra, não se enquadram na comunidade onde vivem, e face a uma situação desesperada, tomam medidas extremas, a saber, o rapto de uma criança. Contudo, não a maltratam. Pelo contrário, cuidam de “Yu-sun” como uma princesa, criando condições para que a menina se sinta o melhor possível. Por sua vez, “Park”, o bem sucedido pai divorciado de “Yu-sun” é um ser que ama a filha, como qualquer progenitor decente e normal o deve fazer. No entanto, após o decesso do seu rebento, torna-se naturalmente o “Mr. Vengeance” em pessoa, que no início nos arranca toda a simpatia e compreensão do mundo, mas que a certa altura faz-nos questionar se conhecendo o que realmente se passou com a filha, não deveria adoptar uma atitude menos radical. Mas isto é fácil falar para quem está de fora...99,9% de nós com certeza se tornaria no tal "Mr. Hide". É complicado tomar partidos, e "Sympathy for Mr. Vengeance" é uma película que nos obriga a optar entre situações que merecem a nossa compreensão e complacência, e ambas merecedoras de algum tipo de tutela emocional.


"Ryu e Yeong-jin reflectem sobre um rumo a tomar"

A narrativa e a forma como a mesma nos é apresentada, contém pormenores dotados de uma grande força, que indelevelmente marcam bem fundo. O corpo de “Yu-sun” a ser cremado é um momento breve, mas grandioso do filme, onde nos é oferecida uma perspectiva interior do caixão, fazendo com que interiorizemos que qualquer réstia de inocência ou de bom senso acabou e que a verdadeira vingança que nos desumaniza a todos vai entrar em erupção definitivamente, libertando um inferno bastante pessoal por Seul! Outra cena extremamente perturbadora, passa pelos quatro rapazes que vivem no apartamento ao lado do de “Ryu”, a se masturbarem com os gritos de agonia da irmã do rapaz, pensando que estão a ouvir gemidos de prazer derivados do sexo, quando o que está em causa são sons de sofrimento devido à doença renal que a mulher padece. No meio destes momentos pouco convencionais, é obrigatório aludir o rapaz deficiente mental que aparece nas margens do lago e que com a sua presença proporciona, mais do que uma vez, um verdadeiro espectáculo surrealista. No remanescente, temos vários momentos bastante sórdidos, que apelam à tortura física e psicológica, não defraudando em nada os cultores do género. Sangue, gritos, frustração e apelos a um drama crú que não dá tréguas àqueles que pretendem ter uma sessão de cinema minimamente descansada, e que entusiasma as mentes mais sádicas que por aí andam!

Apesar dos seus méritos incontornáveis, e que passam igualmente por uma projecção visual extremamente incisiva e actuações de elevar, nem tudo são rosas nesta longa-metragem. Por vezes existe alguma lentidão no desenvolvimento da narrativa, que quebra um pouco o ritmo da película. É notório igualmente que existe alguma falta de refinamento em certas situações, aspecto que o realizador maduramente viria a melhorar em obras posteriores. Sinceramente, julgo que não que não estarei muito longe da verdade se afirmar que “Sympathy for Mr. Vengeance” constitui o episódio mais fraco da saga de Park Chan-wook, que tantos admiradores granjeou. Contudo não deixa de ser um começo bastante interessante e um bom cartão de visita para o que viria a seguir, e que atingiria os circuitos internacionais de cinema com a pujança de um valente soco no estômago: o imponente e fantástico “Oldboy”, com o inimitável Choi Min-sik no papel principal a espalhar talento por tudo o que é sítio! “Sympathy for Lady Vengeance”, outra obra de incontestável valia, serviria para consolidar o edifício já de si com alicerces seguros.

Se enveredarmos por uma tradução literal, o título em coreano deste filme significa “a vingança é minha”. No fim concluímos que é um “cocktail” que redunda num prato chamado “é de todos, não é de ninguém e quase toda a gente vai acabar bastante mal nesta história”! Quanto aos condimentos, é favor deitar umas pitadas bem generosas de sangue e tragédia humana, com os melhores cumprimentos do chefe Park Chan-wook!

A não perder este filme que faz questionar e muito o famoso brocardo de Maquiavel, "os fins justificam os meios"!

"Vingança?!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





segunda-feira, junho 02, 2008

Welcome to Dongmakgol - 웰컴투 동막골 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 133 minutos

Realizador: Park Kwang-hyun

Com: Jeong Jae-yeong, Shin Ha-kyun, Kang Hye-jeong, Lim Ha-ryong, Seo Jae-kyeong, Ryu Deok-hwan, Steve Taschler, Jung Jae-jin, Lee Young-yi, Park Nam-hee, Jo Deok-hyeon, Yoo Seung-mok, Shim Won-cheol

"O capitão Neil Smith"

Sinopse

Em 1950 o exército norte-coreano invade o seu vizinho do sul, dando início à tristemente célebre guerra da Coreia. Os sul-coreanos são auxiliados por uma força das Nações Unidas sob o comando dos americanos, na pessoa do general Douglas MacArthur. Na sequência do conflito, o capitão da força aérea norte-americana “Neil Smith” (Steve Taschler) despenha-se com o seu caça perto de uma aldeia isolada conhecida como Dongmakgol. Os habitantes da povoação, apesar de não perceberem uma única palavra em inglês, ajudam “Neil”, e tentam com que ele se sinta em casa.

"Pyo Hin-chul, o tenente do exército sul-coreano"

Entretanto chegam à aldeia três soldados norte-coreanos, sendo os únicos sobreviventes do seu pelotão, cujos restantes elementos foram mortos numa emboscada. O trio é liderado pelo sargento “Lee Sun-hwa” (Jeong Jae-yeong), sendo os membros remanescentes os soldados “Jang” (Lim Ha-ryong) e “Taek-ki” (Ryu Deok-hwan). Os combatentes são conduzidos à povoação por Yeo-il (Kang Hye-jeong), uma rapariga alucinada que “não diz coisa com coisa”. Para completar a lista de visitantes inesperados, temos dois soldados sul-coreanos, o tenente “Pyo Hin-chul” (Shin Ha-kyun) e “Moon” (Seo Jae-kyeong). Como é natural, desde logo surgem problemas entre todos os militares que se encontram em Dongmakgol, atendendo a que combatem em campos opostos. Os aldeões ficam abismados, pois não fazem a mínima ideia que uma guerra está a decorrer.

No meio da confusão, uma granada destrói o armazém onde os aldeões guardavam as suas provisões, fazendo com que os mesmos fiquem sem alimento. Com um sentimento de culpa latente, os contendores fazem uma trégua temporária, de forma a poderem auxiliar os habitantes de Dongmakgol a reabastecerem-se de víveres. À medida que os soldados vão-se adaptando ao estilo de vida dos aldeões, apercebem-se que se encontram num sítio pacífico e isolado, onde as ideologias nada significam. Quando tudo parece correr pelo melhor em sã convivência, forças externas aparecem a ameaçar a tranquilidade de Dongmakgol. Os soldados sentem-se no dever de unirem esforços e proteger a aldeia.

"Os soldados norte e sul-coreanos retratam-se, ajudando a população de Dongmakgol nas colheitas"

"Review"

Baseado num livro do popular escritor sul-coreano Jin Jang, “Welcome to Dongmakgol” constituiu a proposta da Coreia do Sul para os óscares de 2005, e nesse mesmo ano revelaria ser o 4º filme mais visto de sempre no país. Esta premissa assume ainda mais importância, pois o filme estreou uma semana após “Sympathy for Lady Vengeance”, e conseguiu praticamente o dobro dos resultados financeiros na bilheteira. Foi um grande triunfo para o realizador Park Kwang-hyun, ainda mais quando esta longa-metragem foi a sua estreia nas lides da sétima arte. Ou melhor dizendo, “Welcome to Dongmakgol” foi a primeira obra dirigida por Kwang-hyun, e igualmente a única também, pois o realizador nunca mais se aventurou pelas lides cinematográficas desde então. O filme foi bem aceite e esteve em exibição nalguns festivais de cinema importantes, tendo inclusive recebido o prémio de filme preferido da audiência, em Udine, no seu famoso certame de cinema oriental.

À medida que ia visionando “Welcome to Dongmakgol”, recuei até 1997, quando na faculdade, mais propriamente na disciplina de “História das Ideias Políticas”, tive de estudar (entre vários outros autores) Thomas More e a sua conhecida obra “Utopia”. O sentido da sociedade igualitária, onde todos têm uma palavra a dizer e existe uma partilha de bens adequada às necessidades de cada um está bem presente neste filme. A comunidade perfeita, onde todos podem deixar para trás as agruras da vida e serem felizes, aparece como um bálsamo para o grupo de soldados traumatizados pelo conflito. A certa altura, um admirado “Lee”, o líder dos norte-coreanos, questiona o chefe de aldeia como é que consegue fazer com que os habitantes sigam as suas ordens. “Lee” encontra-se ainda mais incrédulo, quando repara que o chefe não necessita de recorrer a expedientes autoritários ou violentos para conseguir se impôr. Serenamente, é-lhe respondido “mantenho-os alimentados e trato-os com amor e respeito”.

Podemos caracterizar “Welcome to Dongmakgol” como uma película composta por 50% de comédia e 50% de drama. O aspecto mais bem disposto do filme é bem conseguido, girando em torno da natural ingenuidade dos habitantes da aldeia. Estes nunca viram uma arma de fogo na vida, e por esse mesmo motivo, não sabem como reagir perante uma, ignorando que a mesma constitui uma ameaça. Igualmente tem alguma dose de piada observar os aldeões a tentar comunicar com o capitão “Smith” em inglês, redundando tudo numa total baralhada. Como absolutamente não pode existir um filme sul-coreano sem a sua quota parte de drama, à medida que caminhamos para o epílogo o mesmo vai tomando forma “leve, levemente”, até à tragédia da ordem. Esta parte da obra resulta bem, mas daí nada menos seria de esperar do filme, atendendo à sua origem. É comovente, embora não bastante credível, observar a coragem de um diminuto grupo de combatentes fazer face a um prelúdio de um bombardeamento norte-americano, tudo em nome de algo maior, um paraíso chamado “Dongmakgol”. Não haverá aqui um pouco do espírito de “Os Sete Samurais”?!

"O professor Kim, observado pelos aldeões de Dongmakgol, tenta comunicar em inglês"

Os actores regra geral cumprem de uma forma competente no esgrimir das suas interpretações. Como costumo sempre destacar alguém nos meus textos, o prémio aqui irá para a excelente actriz Kang Hye-jeong, a “Mi-do” de “Oldboy”. O seu desempenho como a insana “Yeo-il” é fresco, eivado de uma loucura saudável e de uma incontornável ternura. Resta-me ainda fazer uma apologia à exuberante e maravilhosa fotografia presente na película, que em muito ajuda a formar a ideia de um paraíso na terra a que, aliada a uma aldeia que custou um milhão de dólares a construir, ajuda a produzir o efeito pretendido.

“Welcome to Dongmakgol” tenta passar a mensagem que é possível os norte e sul-coreanos resolverem as suas diferenças, e trabalharem num objectivo comum, como se fossem uma nação una. Os americanos, mais uma vez são o alvo a abater e considerado o inimigo externo. São eles que querem destruir “Dongmakgol” e em consequência pôr termo ao paraíso e à união dos povos irmãos. É certo que temos um americano bom da fita, a saber, o capitão “Smith”. Contudo, “Smith” acaba por se tornar um cidadão de “Dongmakgol”, e tudo faz igualmente para proteger a terra onde se conseguiu encontrar, inclusive lutando contra os seus próprios conterrâneos. Um clássico caso de “ressocialização” ?!

No entanto, confesso que já começo a ficar um tanto ou quanto saturado da repetição de temas e inspiração que alguns filmes sul-coreanos teimam em enveredar. É certo que o nacionalismo faz parte da cultura sul-coreana, caracterizado por duas ou três ideias essenciais, a saber, a reunificação das duas Coreias, o antagonismo contra a presença norte-americana no país e o ressentimento de sempre contra o Japão. Não estou obviamente a afirmar que os sul-coreanos não têm razão em muitos aspectos. É perfeitamente natural que os coreanos se queiram unificar, atendendo às características étnicas e culturais que detêm entre si. Igualmente torna-se legítimo que não se sintam muito satisfeitos com o facto de os norte-americanos ocuparem pacificamente uma parte do seu país, unicamente com objectivos militares e económicos. É compreensível que não vejam com muito bons olhos o império nipónico, atendendo ao longo historial de conflitos que mantiveram com aquela nação, e que redundaria mesmo em ocupação do seu território soberano. É uma questão cultural sem dúvida nenhuma. O que critico é a repetição de conceitos, sem qualquer tipo de inovação. E neste ideal, “Welcome to Dongmakgol”, com todos os seus méritos (e são alguns), nada traz de novo.

“Welcome to Dongmakgol” é uma película de qualidade, que possui características positivas, tornando-a justamente num dos produtos mais emblemáticos oriundos da Coreia do Sul. Contudo, e ao contrário do que muitas críticas que se podem encontrar um pouco por toda a internet querem fazer crer, não é uma longa-metragem de tão elevado nível que se possa qualificar de eleição.

Com interesse!

"Da esquerda para a direita: o capitão da força aérea norte-americana Neil Smith, o tenente do exército sul-coreano Pyo Hin-chul e o sargento das forças norte-coreanas Lee Sun-hwa"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emoividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





domingo, dezembro 02, 2007

Votações do "My Asian Movies"

Como é costume, apresento-vos 4 nomes do cinema asiático que estão sujeitos à vossa apreciação, no quadro de votações mesmo aqui ao lado:
Rosamund Kwan

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Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Swordsman II, Era Uma Vez na China, Era Uma Vez na China II

Shin Ha-kyun

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Não participou em nenhum filme, criticado no "My Asian Movies"

Fan Bing Bing

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": A Dinastia da Espada, Battle of Wits


Jaycee Chan

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Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": A Dinastia da Espada