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segunda-feira, maio 10, 2010

JSA - Joint Security Area/Gongdong gyeongbi guyeok – 공동경비구역 (2000)

Capa

Origem: Coreia do Sul

Duração aproximada: 110 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Lee Byung-hun, Song Kang-ho, Kim Tae-woo, Shin Ha-kyun, Christoph Hofrichter, Herbert Ulrich, Gi Ju-bong, Kim Myoeng-su, Kim Tae-hyeon

Major Sophie Jean

Major Sophie Jean”

Sinopse

Na zona desmilitarizada que separa as duas Coreias antagonistas, disparos soam numa fria manhã de Outubro. Momentos depois, o sargento sul-coreano “Lee So-hyeok” (Lee Byung-hun) emerge ferido do lado norte-coreano, e uma troca acesa de tiros deflagra dos dois lados da fronteira. A tensão cresce entre os dois países vizinhos, mas ambos concordam em entregar a uma comissão independente, a investigação do caso. A tarefa é entregue à Comissão Supervisora das Nações Neutrais (CSNN), um organismo europeu composto pela Suíça e a Suécia. A CSNN envia a suíça descendente de coreanos, Major “Sophie Jean” (Lee Yeong-ae), conferindo-lhe a missão de apurar o sucedido.

O sargento Lee So-hyeok

O sargento Lee So-hyeok”

Duas teses se debatem. Os sul-coreanos defendem que o sargento “Lee So-hyeok” foi raptado pelas forças inimigas, e que teve de matar dois soldados das forças norte-coreanas, de forma a poder fugir. Por sua vez, os norte-coreanos entendem que “Lee So-hyeok” atravessou deliberadamente a fronteira de forma a matar os dois soldados norte-coreanos e ferindo um terceiro, o sargento “Oh Kyeong-pil” (Song Kang-ho). Perante um mistério intrincado e cheio de factos contraditórios, caberá à Major “Sophie Jean” descobrir a verdade e evitar um novo conflito entre as duas Coreias.

O sargento Jeong Woo-jin

Soldados norte-coreanos”

“Review”

Park Chan-wook, o realizador da espectacular trilogia da vingança, trouxe-nos no virar do século um dos maiores êxitos de sempre da cinematografia sul-coreana, cujo enredo versa acerca do tema mais sensível que se pode tratar naquelas paragens: o antagonismo e divisão entre as duas Coreias. O impacto desta película foi tal que o dvd chegou a ser mostrado pelo presidente sul-coreano de então, Roh Moo-hyun, ao seu homólogo norte-coreano, Kim Jong-ill. Por sua vez, o realizador Quentin Tarantino, sempre sensível às produções asiáticas, chegou a eleger “JSA”, como um dos seus 20 filmes preferidos realizados após 1992.

Porventura não será fácil tratar de um aspecto tão polémico como a divisão das Coreias, em dois regimes tão opostos e que nasceram do sangue de dois povos que na realidade são irmãos. A realidade não é nova na cinematografia sul-coreana, e existiram diversas abordagens ao problema, umas pró-união, outras de cariz mais divisionista e contra o regime musculado norte-coreano, que muitos reputam como a ditadura mais extrema do mundo. Não cabe aqui tomar partidos, mas apenas referir que “JSA” envereda mais pelo primeiro diapasão, ou seja, o do nacionalismo favorável a uma unificação coreana e a um caminho que se descobre do individual para o geral. A mensagem passa para o espectador a partir das pessoas isoladamente consideradas, ou através de um pequeno grupo de indivíduos, evitando-se qualquer tipo de massificação ideológica.

Fogo

As minas rebentam”

Park Chan-wook tem o mérito de manter uma saudável neutralidade na forma como aborda a questão do conflito coreano, mantendo uma saudável distância entre o tomar partidos, não abdicando de expor as razões de ambas as partes. Contudo, e julgo não estar muito longe da verdade, Chan-wook parece pertencer à facção da população que almeja assistir um dia à união das duas Coreias. Vários sinais apontam nesse sentido ao longo do filme, destacando a maneira escorreita como é permitida a crítica aos Estados Unidos da América e à sua influência marcante sobre a Coreia do Sul. A amizade entre os soldados de ambas as Coreias, explanada como uma esperança exteriorizada de reunificação dos dois países, muito induz a esta conclusão. Como acima aflorado não existe uma tentativa de educação política do espectador, nem qualquer tentativa de sublimação da ideologia comunista norte-coreana perante o capitalismo sul-coreano e vice-versa. Apenas e tão-só, através de indivíduos olhados singularmente, são escorridas as razões de uns e outros para agirem como agem, ou fazerem o que fazem.

A cinematografia é belíssima e é-nos mostrada uma perspectiva muito abrangente da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, conseguindo a linha divisória e a ponte “sem retorno” transmitir-nos alguma tensão. As cenas invernais, em especial a neve, proporcionam momentos de grande beleza, e os “flashbacks” estão muito bem filmados e inseridos na trama, conferindo o efeito “Rashomon” que tantos gostam e que eu aprecio particularmente. Os actores, de grande quilate na cena cinematográfica sul-coreana, exibem-se em bom nível, destacando-se neste particular Lee Byung-hun, no papel do Sargento “So-hyeok”, e o grande Song Kang-ho, actualmente um dos meus intérpretes de eleição, na representação do norte-coreano “Kyeong-pil”. A actriz Lee Yeong-ae não consegue estar ao nível dos outros actores principais, mas não por sua culpa. Aqui as responsabilidades terão de ser assacadas ao realizador Park Chan-wook. Nota-se que Yeong-ae não possui um bom domínio da língua inglesa, assim como não parece ser muito credível que uma mulher tão nova, já possua uma patente elevada como a de major.

“JSA” é um filme essencial para compreender as emoções de ambas as partes e as razões para o conflito entre as duas Coreias, assim como é um dos obrigatórios para quem quiser conhecer um pouco do melhor cinema que se faz na Coreia do Sul. Como qualquer filme sul-coreano que se preze, não consegue fugir a algum dramatismo forçado, principalmente no epílogo, como é natural. É uma película dotada de grande profundidade e interesse histórico e embora o seu enredo pareça algo limitado (gira unicamente em torno do incidente entre os soldados), o mesmo é exposto de uma forma atraente para o espectador e longe de ser insossa ou chata.

Aconselhável!

As forças sul-coreanas

As forças sul-coreanas”

imdb Nota 7.8 (7.688 votos) em 11/05/2010

Outras críticas em português:

  1. Cinedie Asia
  2. Cineasia
  3. Nem todos são arte

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8

quinta-feira, novembro 06, 2008

I'm a Cyborg But That's Ok/Saibogujiman kwenchana - 싸이보그지만 괜찮아 (2006)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 105 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lim Su-jeong, Jeong Ji-hun Aka Rain, Choi Hie-jin, Kim Byeong-ok, Lee Yong-nyeo, Oh Dal-su, Yu Ho-jeong


"Young-goon"

Sinopse

“Young-goon” (Lim Su-jeong) é uma jovem rapariga que trabalha numa fábrica de componentes electrónicos. Pensando que é um ciborgue de guerra que necessita de uma recarga, corta os pulsos e liga-se à corrente, dando a aparência que tentou cometer suicídio. Por esse motivo, é internada num sanatório.


"Park Il-sum"

Na instituição de saúde mental, “Young-goon” relaciona-se quase exclusivamente com objectos mecânicos, falando com máquinas de café e sumos, e relógios de pêndulo. Igualmente deixa bem claro que não ingerirá nenhum tipo de comida convencional, pois um ciborgue não pode ingerir este tipo de alimentos, sob pena de danificar os circuitos. Em vez disso, “Young-goon” insiste em tentar provar bocados de metal e pilhas.

A vida de “Young-goon” altera-se por completo quando começa a relacionar-se com outro paciente do manicómio chamado “Park Il-sum”, um cleptomaníaco que afirma conseguir roubar a essência das pessoas, quer se consubstanciem em qualidades, quer em defeitos. O rapaz, à sua maneira pouco convencional tenta ajudar “Young-goom” nos seus problemas e uma história de amor incomum começa a nascer.


"O romance nasce onde por vezes menos se espera"

"Review"

Em 2006, após a realização de obras que ficarão para sempre na história do cinema asiático, mormente a aclamada “trilogia da vingança” (“Sympathy for Mr. Vengeance”, “Oldboy” e “Sympathy for Lady Vengeance”), Park Chan-wook viria a trilhar por caminhos que colhem imenso a afeição da cinematografia do seu país, ou seja, o romance. O objecto desta abordagem seria corporizado em “I'm a Cyborg But That's Ok”, uma história de amor que nada de normal tem à primeira vista, mas cuja originalidade não seria suficiente para fabricar um novo sucesso e “frisson”, à semelhança do que sucedeu com as obras acima mencionadas, ou com outro aclamado filme do autor “JSA – Joint Security Area”. Nem mesmo com a presença de um dos ídolos “pop” mais amados pela juventude sul-coreana, o cantor conhecido como Rain. Mesmo assim, a película viria a marcar significativamente a sua presença no festival internacional de cinema de Berlim – edição 2007, ao vencer o prémio “Alfred Bauer”, um troféu que possui o nome do fundador do certame e que se destina a reconhecer uma longa-metragem inovadora na arte cinematográfica.

Recorrendo a uma faceta extremamente surrealista, Park Chan-wook desta vez oferece-nos um filme visualmente muito forte e belo, que recorrentemente me fez lembrar algumas obras de Tim Burton, tais como “Charlie e a Fábrica de Chocolate”. Os tons são vívidos e coloridos, transparecendo uma certa aura que roça a fantasia. Os efeitos especiais são muito bem executados, dos quais se destaca claramente as transformações imaginárias de “Young-goon” para ciborgue, com rajadas de metralhadora a despontarem violentamente pelas pontas dos seus dedos, ou a cena muito bem conseguida de “Park Il-sum” encostado ao corpo de “Young-goon”, onde podemos observar o mecanismo interno imaginário da rapariga, com todas aquelas roldanas e luzes. Lim Su-jeong, que já conhecia de “História de Duas Irmãs”, explana uma performance formidável. O seu ar decadente, vidrado, mas frágil atinge quase os limiares da perfeição. Uma agradável surpresa para mim, foi Jeong Ji-hun, mais conhecido por Rain. Esta figura é, como acima referi, um verdadeiro ícone musical na Coreia do Sul cuja influência já extravasou as fronteiras do seu país, vendendo milhões de discos por toda a Ásia. Todos nós sabemos de alguns infelizes exemplos recentes, principalmente vindos de Hong Kong, de cantores que foram um verdadeiro fiasco quando se aventuraram na sétima arte. O maior exemplo que me ocorre são as “Twins”. Longe vão os tempos dos chamados “Four Heavenly Kings”, o grupo de cantores constituído por Andy Lau, Aaron Kwok, Jacky Cheung e Leon Lai. Ou então do eteno Leslie Cheung. Rain, cuja estreia numa longa-metragem foi precisamente com “I'm a Cyborg But That's Ok”, oferece uma interpretação muito prometedora, a que não será alheia com certeza a direcção de Park Chan-wook. Com este duo, e com os demais actores, tudo consegue fluir naturalmente, apesar da maioria dos intérpretes darem vida a personagens que tudo têm menos de “natural”.

Antes de tudo, e com já referi acima algumas vezes, “I'm a Cyborg But That's Ok” é uma história de amor, na vertente da comédia romântica. Simplesmente o seu “background” não é cor-de-rosa, nem apresenta características demasiado idílicas. Afinal estamos a falar de uma longa-metragem que se passa quase exclusivamente num local que não associamos a nada de positivo, ou seja, um hospital psiquiátrico. Em certos aspectos, e com os devidos considerandos e distâncias (que são vastos), poderá ser tributário de “Voando Sobre Um Ninho de Cucos”, essa fantástica obra do realizador Milos Forman em que Jack Nicholson teve o papel, entre outros, de uma vida. Existem um manancial de doentes mentais, cada um com disfunções muito próprias tais como uma “tirolesa” compulsiva, que está constantemente com os seus “yoyodelele's”, maníacos do ténis-de-mesa, uma paciente que adora inventar contos aparentemente verdadeiros com o intuito de criar falsos mitos, outro que julga que tudo o que de mal acontece é culpa sua, etc..., etc..., etc... Junte-se a este mundo à parte um casal que na loucura se apaixona e auxilia, e temos o cenário criado para um dos romances mais “sui generis” da história. Afinal como é que não poderia dar certo entre uma relação entre uma rapariga que pensa que é um ciborgue mortal e um rapaz que julga poder absorver as características de terceiros com uma simples palmada na mão?! E o que ressalta de toda esta “anormalidade” (sem qualquer sentido pejorativo) é a imensa criatividade com que tudo nos é apresentado, inclusive o desenvolvimento dos sentimentos entre os protagonistas. É verdadeiramente enternecedor observar os esforços nada convencionais de “Il-sum” para auxiliar “Young-goon”, desde tentar convence-la que instalou um dispositivo no seu corpo que transforma a comida ingerida em material que não irá prejudicar os seus componentes, até colocar-se ao seu lado num temporal com um para-raios, à espera que ambos sejam atingidos por um relâmpago. Isto faz com que os sorrisos mantenham-se nas nossas faces, quer seja pelo estigma do “oh, tão querido!”, ou pelo simples prazer de visionar situações de boa comédia.

"I'm a Cyborg..."

“I'm a Cyborg But That's Ok” é um filme que demonstra aspectos bastante originais, e que apesar de ter alguns momentos de comédia negra, acaba por debaixo da pele ser uma história de amor inteligente, embora um tanto ou quanto confusa, porventura de um modo intencional. Tenta demonstrar que mesmo nas situações mais improváveis e incomuns, existe sempre espaço para o sentimento e para a procura de uma razão de existir (mesmo que esta se reconduza a explodir com o mundo todo, após uma descarga de um bilião de “volts”!!!). Trata-se de uma película perspicaz, com momentos assombrosos no bom sentido, mas por vezes com falta de rumo. Demonstra de uma perspectiva fantasista que até mesmo na insanidade é possível ser feliz! O que interessa é acima de tudo que todos se sintam confortáveis com a situação, mesmo numa conjuntura de alienação social. E se um pensa que consegue roubar as almas de outrem, e outro pensa que é um ciborgue destinado a acabar com o mundo, por mim...está tudo ok!

Boa película sem margem para dúvida, mas de Chan-wook esperava algo mais! A conferir!

"A expectativa..."

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8








terça-feira, setembro 02, 2008

Vingança Planeada/Sympathy for Lady Vengeance Aka Lady Vengeance/Chinjeolhan geumjassi - 친절한 금자씨 (2005)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 115 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Kwon Yea-young, Go Su-hee, Kim Bu-seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-hoo, Lee Seung-Shin, Nam Ill-woo, Oh Dal-su, Yu Ji-tae, Tony Barry, Anne Cordiner, Kang Hye-jeong, Lee Dae-yeon, Lim Su-gyeong, Oh Kwang-rok, Ra Mi-ran, Seo Yeong-ju, Shin Ha-kyun, Song Kang-ho

"Lee Geum-ja"

Sinopse

Em 1991, “Lee Geum-ja” (Lee Yeong-ae) foi condenada ao cumprimento de uma pena de reclusão por um ilícito hediondo, a saber, o rapto e homicídio de uma criança. O crime foi extremamente emblemático na época em que sucedeu, tendo a comunicação social empolado a situação de tal maneira que “Geum-ja” tornou-se numa notória assassina com apenas 19 anos à altura.

"O escândalo de uma jovem de 19 anos acusada de um crime hediondo"

No tempo que passou na prisão, “Geum-ja” tornou-se conhecida pela sua bondade e ar angélico, granjeando desta forma grande popularidade entre os funcionários da cadeia e as reclusas. Igualmente encontrou consolo na religião católica, adoptando um fervor espiritual exemplar. Em 2004, 13 anos depois do início do seu cativeiro, “Geum-ja”, agora uma bonita mulher com 32 anos, é libertada. Logo após o fim da sua provação, adopta uma postura completamente oposta à que tinha na prisão, dando uma volta de 180 graus na sua vida. Desde o início, faz por demonstrar que é um ser sério, frio e calculista, adoptando indumentárias preferencialmente de cor negra e pintando os seus olhos com uma sombra vermelho-sangue.

A súbita, mas calculada transformação de “Geum-ja”, deve-se a vingança que esta pretende exercer sobre um professor primário chamado “Baek” (Choi Min-sik). A razão para a atitude da mulher passa por a mesma ter sido obrigada a assumir as culpas pelo chocante crime que não cometeu, de forma a proteger a sua filha “Jenny” (Kwon Yea-young) de “Baek”. Meticulosamente “Geum-ja” arquitecta o seu plano, tendo por orientação e verdade absoluta que existem certas dívidas que só se pagam com sangue.

"Geum-ja empunha uma arma ultrapassada pouco convencional"

"Review"

Após no passado ter elaborado aqui textos acerca de “Sympathy for Mr. Vengeance” e “Oldboy”, chegou a altura de encerrar a trilogia não oficial de Park Chan-wook, dissertando um pouco agora acerca do último filme da saga “Sympathy for Lady Vengeance”, uma obra negra e poética da autoria do mestre sul-coreano à semelhança das suas antecessoras, embora com uma abordagem distinta. Antes de tudo constitui mais uma película bastante premiada, com galardões em vários certames internacionais entre os quais Veneza e o nacional Fantasporto – edição de 2006, onde viria a levar para casa o prémio relativo à secção “Orient Express” do festival. Beneficiando do “hype” de “Oldboy” realizado dois anos antes, “Sympathy for Lady Vengeance” foi uma obra bastante aguardada pois muita era a curiosidade em saber até onde Park Chan-wook poderia ir com o seu amado conceito da “vendeta”, depois do estrondoso êxito da sua película anterior. O resultado desde já se adianta que é extremamente positivo, tendo Chan-wook criado uma longa-metragem de eleição, não atingindo contudo o nível da sua predecessora (a pergunta que aqui se coloca é se dentro do género, alguém ou algo o conseguirá fazer).

Um aspecto que desde logo chama a atenção é a criação da personagem de “Geum-ja”, com todos os seus atributos físicos e psicológicos. É traçado um retrato complexo (mas perfeitamente perceptível aos olhos do espectador) de uma mulher bela, eivada de um ar angélico, que joga fora completamente o início da sua vida adulta em nome de algo maior. É uma figura enigmática, mas que colhe a nossa simpatia, apesar da sua faceta anjo-demónio que a actriz Lee Young-ae interpreta de uma forma bastante competente. Por outra via, somos confrontados com um “Baek” que aparentemente se configura como um cidadão normal, mas que na realidade é um verdadeiro monstro doentio, sem escrúpulos, cuja “tara” passa por se aproveitar de crianças indefesas, causando desta forma a infelicidade e a miséria nas famílias dos jovens. Como seria de esperar, o fantástico e renomado intérprete sul-coreano Choi Min-sik oferece-nos um desempenho acima da média que pecará apenas por algo que lhe é completamente alheio, ou seja, a falta de minutos. Como praticamente nada é perfeito, e esta premissa também se aplica ao cinema, Chan-wook podia ter investido mais em “Baek” e nas suas motivações, de maneira a que tivéssemos um sentido mais lúcido da outra face da moeda, assim como a oportunidade de vermos mais de um actor que pertence à fina-flor do cinema mundial. Pelo contrário, Chan-wook optou por centrar mais a narrativa na personagem principal, a “Lady Vengeance Geum-ja”, o que se torna aceitável, pois focámo-nos quase por completo no cerne principal do filme, a vingança justificada de uma mulher amarga, mas completamente determinada. Mesmo assim é caso para perguntar se a trama tivesse concedido mais algum destaque a “Baek”, não saborearíamos nós melhor o “cocktail molotov" que se avizinha?!

O restante elenco comporta-se à altura, restando apenas expôr umas curiosidades que com certeza agradarão aos fãs da “trilogia da vingança” de Chan-wook. Os dois assassinos contratados para matar “Geum-ja” são interpretados pelos conhecidos actores sul-coreanos Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, que deram vida aos papéis principais em “Sympathy for Mr. Vengeance”. Aliás se repararmos bem no conjunto de intérpretes que Park Chan-wook reuniu para a longa-metragem que ora se analisa, veremos que estamos perante uma verdadeira constelação de estrelas e mais do que isso, aglutinaram-se todos os artistas que representaram os papéis mais emblemáticos das restantes películas da saga. Além dos já mencionados Shin Ha-kyun e Song Kang-ho, temos Choi Min-sik, Kang Hye-jeong, Yu Ji-Tae e Oh Dal-su de “Oldboy”. Fica apenas a faltar a actriz Bae Doo-na (a "Yeong-jin" de “Sympathy for Mr. Vengeance”) para ficarmos com o repertório completo.

"Baek em apuros"

No que toca à exposição da violência, “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme aparentemente menos intenso que “Sympathy for Mr. Vengeance” ou “Oldboy”. Em “Sympathy for Mr. Vengeance” estávamos perante um conceito de vingança mais impulsivo e delapidante, onde as motivações de todas as “partes do conflito” são profusamente abordadas e tudo parece ter origem no amor, um sentimento à primeira vista (mas não à segunda) contraditório com o resultado final. Nessa obra-prima intitulada “Oldboy”, a vingança aparece mais como uma maníaca necessidade, consubstanciada num desejo animalesco de retribuição dolorosa por um emprisionamento aparentemente injustificado. O que viria a seguir é forte demais para quase todos nós! No tocante a “Sympathy for Lady Vengeance”, é exposta uma abordagem mais sentimental (do ponto de vista convencional) e menos crua da vingança, quando comparada com as películas anteriormente mencionadas. No entanto se, e como já mencionei, os pormenores mais “físicos” da questão estão refreados, isto não significa necessariamente que o filme não tenha a mesma intensidade. A violência aqui é mais induzida, do que propriamente explanada. Relembre-se apenas, e a título exemplificativo, na cena em que uma das companheiras de “Geum-ja” na cadeia está a fazer calmamente um churrasco, enquanto um bando de polícias cautelosamente se aproxima de arma em punho. Mais tarde vimos a saber que a pessoa em questão tinha sido presa por ter morto o marido e posteriormente o ter cozinhado às fatias e ingerido o petisco...Outro aspecto de aplaudir é conceito de “vingança partilhada” exposto nos últimos 15-20 minutos da película, que se torna numa lufada de ar fresco e de certa forma surpreende “positivamente” o espectador.

Com uma banda-sonora espectacular composta por excertos na sua maior parte de Vivaldi, (debitando igualmente uma melodia de Niccoló Paganini) e na esteira de clássicos japoneses como “Lady Snowblood” de Toshiya Fujita (salvo as devidas adaptações e diferenças em função da contemporaneidade e não só), “Sympathy for Lady Vengeance” é um filme que recupera o conceito da mulher inocente e frágil que devido às agruras da vida, contraria a sua natureza e embarca no “olho por olho, dente por dente”. Vindo de Park Chan-wook, o resultado não poderia ser outro senão um filme catalisado por elementos psicológicos bastante bem explorados, consubstanciado em mais uma reinvenção de uma vingança sangrenta, que é de aplaudir. O resultado é óptimo, fazendo com que a película seja absolutamente de visionamento obrigatório. Encerra-se desta forma e com chave de ouro, um dos ciclos mais emblemáticos da história do cinema asiático, quiçá mundial, traduzido num dos mais brilhantes tratamentos conferidos à natureza humana e à sua volatilidade!

Muito bom!

"Geum-ja e a filha Jenny"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





terça-feira, julho 29, 2008

Sympathy for Mr. Vengeance/Boksuneun naui geot -
복수는 나의 것 (2002)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 121 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Song Kang-ho, Shin Ha-kyun, Bae Doo-na, Lim Ji-eun, Han Bo-bae, Kim Se-dong, Lee Dae-yeon, Ryu Seung-beom

"Park Dong-jin, o pai vingativo"

Sinopse

“Ryu” (Shin Ha-kyun) é um surdo-mudo que trabalha numa fábrica e cuida da irmã (Lim Ji-eun) que possui um problema de saúde muito grave, cuja única forma de ser resolvido é através de um transplante renal. O jovem já poupou os necessários 10.000 won (a moeda da Coreia do Sul), sendo agora necessário encontrar um dador compatível com a sua irmã. A situação é tão crítica, que esta já perdeu a esperança toda em viver, e solicitou a “Ryu” que a enterrasse nas margens do lago onde brincavam quando eram crianças.

Após ser despedido, “Ryu” encontra um panfleto numa casa de banho pública, onde se publicita uma venda ilegal de órgãos humanos. Seguindo os contactos aí expostos, trava conhecimento com uma idosa toxicodependente e os seus filhos psicóticos. O negócio passa por “Ryu” entregar os 10.000 won aos traficantes, assim como um dos seus rins. No dia seguinte, o rapaz acorda nu num edifício abandonado, sem o dinheiro e com uma incisão que indica que o seu rim foi retirado. Enganado pelos traficantes, o seu desespero aumenta ainda mais quando o médico que segue a doença da irmã informa “Ryu” que finalmente um dador foi encontrado, e que a mesma será operada em troca do dinheiro.

"Ryu e a pequena Yu-sun"

Sem nada a perder, “Ryu” conjuntamente com a sua namorada “Yeong-jin” (Bae Doo-na), uma activista comunista e defensora do regime norte-coreano, planeiam raptar “Yu-sun” (Han Bo-bae) a pequena filha de “Park Dong-jin” (Song Kang-ho), o ex-patrão de “Ryu”. O objectivo é trocar a criança pelo dinheiro necessário para efectuar a operação. Acidentalmente, “Ye-sun” morre, fazendo com que “Park” inicie uma cruzada de vingança contra aqueles que ele considera responsáveis pelo falecimento da sua filha.

"A rebelde e revolucionária Yeong-jin"

"Review"

Chegou agora o momento de dissertar um bocadinho acerca do primeiro filme que compõe a conhecida trilogia não oficial de Park Chan-wook, a qual tem sido vendida sob a designação pomposa, mas feliz, de “Trilogia da Vingança”. Para os mais desatentos ou menos esclarecidos acerca do tema em concreto, o trio de películas fica completo com “Oldboy” (2003) e “Sympathy for Lady Vengeance” (2005).

Assim como se costuma dizer que “de génio e de louco, todos nós temos um pouco”, sempre se poderá igualmente afirmar que por mais pacíficos, amáveis e compreensivos que sejamos no dia-a-dia, haverá sempre uma centelha que eventualmente acordará o que de pior existe dentro de nós, e subsequentemente, nos levar a cometer actos monstruosos. Digamos que é uma espécie, a modos de dizer, de "Dr. Jekyll e Mr. Hide", tal e qual Robert Louis Stevenson os imaginou. Sinceramente, nunca duvidei desta ideia e considero-a das verdades mais absolutas que existem nesta vida. “Sympathy for Mr. Vengeance” vive um pouco desta premissa, e executa-a com mestria, embora possamos afirmar que não chega à quase-perfeição. Embora ande por lá perto por alguns momentos, disso não se pode duvidar. Trata-se de mais um filme que leva a natureza humana aos seus limites, no que toca à violência e porque não dizê-lo da demência. Os raptores “Ryu” e “Yeong-jin”, embora não se configurem como pessoas ditas “normais”, no sentido do cidadão comum, não são seres malévolos. Como já foi aludido na sinopse, o rapaz é surdo-mudo e um tanto ou quanto traumatizado devido à enfermidade da irmã. “Yeong-jin” é uma revoltada com o sistema capitalista reinante na Coreia do Sul, e visa causar uma revolução comunista (em transição para o anarquismo) na sociedade, onde os americanos são vistos como opressores (mais uma vez, o estereótipo anti-americano está presente numa obra sul-coreana; quanto à costumeira maledicência contra os japoneses, ela não marca presença neste filme). Cada um, de uma forma ou de outra, não se enquadram na comunidade onde vivem, e face a uma situação desesperada, tomam medidas extremas, a saber, o rapto de uma criança. Contudo, não a maltratam. Pelo contrário, cuidam de “Yu-sun” como uma princesa, criando condições para que a menina se sinta o melhor possível. Por sua vez, “Park”, o bem sucedido pai divorciado de “Yu-sun” é um ser que ama a filha, como qualquer progenitor decente e normal o deve fazer. No entanto, após o decesso do seu rebento, torna-se naturalmente o “Mr. Vengeance” em pessoa, que no início nos arranca toda a simpatia e compreensão do mundo, mas que a certa altura faz-nos questionar se conhecendo o que realmente se passou com a filha, não deveria adoptar uma atitude menos radical. Mas isto é fácil falar para quem está de fora...99,9% de nós com certeza se tornaria no tal "Mr. Hide". É complicado tomar partidos, e "Sympathy for Mr. Vengeance" é uma película que nos obriga a optar entre situações que merecem a nossa compreensão e complacência, e ambas merecedoras de algum tipo de tutela emocional.


"Ryu e Yeong-jin reflectem sobre um rumo a tomar"

A narrativa e a forma como a mesma nos é apresentada, contém pormenores dotados de uma grande força, que indelevelmente marcam bem fundo. O corpo de “Yu-sun” a ser cremado é um momento breve, mas grandioso do filme, onde nos é oferecida uma perspectiva interior do caixão, fazendo com que interiorizemos que qualquer réstia de inocência ou de bom senso acabou e que a verdadeira vingança que nos desumaniza a todos vai entrar em erupção definitivamente, libertando um inferno bastante pessoal por Seul! Outra cena extremamente perturbadora, passa pelos quatro rapazes que vivem no apartamento ao lado do de “Ryu”, a se masturbarem com os gritos de agonia da irmã do rapaz, pensando que estão a ouvir gemidos de prazer derivados do sexo, quando o que está em causa são sons de sofrimento devido à doença renal que a mulher padece. No meio destes momentos pouco convencionais, é obrigatório aludir o rapaz deficiente mental que aparece nas margens do lago e que com a sua presença proporciona, mais do que uma vez, um verdadeiro espectáculo surrealista. No remanescente, temos vários momentos bastante sórdidos, que apelam à tortura física e psicológica, não defraudando em nada os cultores do género. Sangue, gritos, frustração e apelos a um drama crú que não dá tréguas àqueles que pretendem ter uma sessão de cinema minimamente descansada, e que entusiasma as mentes mais sádicas que por aí andam!

Apesar dos seus méritos incontornáveis, e que passam igualmente por uma projecção visual extremamente incisiva e actuações de elevar, nem tudo são rosas nesta longa-metragem. Por vezes existe alguma lentidão no desenvolvimento da narrativa, que quebra um pouco o ritmo da película. É notório igualmente que existe alguma falta de refinamento em certas situações, aspecto que o realizador maduramente viria a melhorar em obras posteriores. Sinceramente, julgo que não que não estarei muito longe da verdade se afirmar que “Sympathy for Mr. Vengeance” constitui o episódio mais fraco da saga de Park Chan-wook, que tantos admiradores granjeou. Contudo não deixa de ser um começo bastante interessante e um bom cartão de visita para o que viria a seguir, e que atingiria os circuitos internacionais de cinema com a pujança de um valente soco no estômago: o imponente e fantástico “Oldboy”, com o inimitável Choi Min-sik no papel principal a espalhar talento por tudo o que é sítio! “Sympathy for Lady Vengeance”, outra obra de incontestável valia, serviria para consolidar o edifício já de si com alicerces seguros.

Se enveredarmos por uma tradução literal, o título em coreano deste filme significa “a vingança é minha”. No fim concluímos que é um “cocktail” que redunda num prato chamado “é de todos, não é de ninguém e quase toda a gente vai acabar bastante mal nesta história”! Quanto aos condimentos, é favor deitar umas pitadas bem generosas de sangue e tragédia humana, com os melhores cumprimentos do chefe Park Chan-wook!

A não perder este filme que faz questionar e muito o famoso brocardo de Maquiavel, "os fins justificam os meios"!

"Vingança?!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quinta-feira, maio 22, 2008

Realizador Asiático Preferido - Votação

Apresento-vos mais um realizador asiático que está sujeito ao vosso escrutínio, no quadro de votações mais abaixo à direita. Não custa relembrar que podem escolher mais do que uma opção, antes de clicarem e submeterem o(s) vosso(s) voto(s). Igualmente podem sugerir outros nomes para serem postos a votação.
Park Chan-wook

Informação

Filmografia enquanto realizador (caso exista alguma crítica, o título estará assinalado a cor vermelha. Para aceder ao texto, basta clicar):

  1. Moon Is the Sun's Dream (1992)
  2. Trio (1997)
  3. Judgement (1999)
  4. J.S.A: Joint Security Area (2000)
  5. Sympathy For Mr. Vengeance (2002)
  6. If You Were Me - segmento Nepal (2003)
  7. Three Extremes... - segmento Cut (2004)
  8. Sympathy For Lady Vengeance (2005)
  9. I'm a Cyborg But That's Ok (2006)


quinta-feira, junho 08, 2006

Oldboy-Velho Amigo/Oldboy (2003)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 120 minutos

Realizador: Park Chan-wook

Com: Choi Min-sik, Yu Ji-tae, Kang Hye-jeong, Ji Dae-han, Oh Dal-su

"Ou falas e contas tudo o que sabes, ou..."

Considerações pessoais

Quando ocorreu a ideia de criar este "blog" e como ficou atestado no primeiro "post", o conteúdo temático deste espaço versaria sobretudo sobre os "swordplay" asiáticos. Na altura, alertei igualmente que ocasionalmente poderia ser efectuada uma crítica a filmes que não se enquadrassem no género mencionado, mas respeitando sempre a trave-mestra por que se rege o "blog" : tem que ser um filme de origem asiática. Afinal de contas, a designação deste espaço é "My Asian Movies", que significa literalmente "Os meus filmes asiáticos".

Como se pretende que este espaço seja dinãmico e anti-estanque, mais uma página cumpre virar e nada melhor que "Oldboy" para incrementar e iniciar uma variação mais abrangente de conteúdos do "blog".

Feito este parênteses, vamos ao que interessa!

"Dae-su sem contemplações!"

Estória

"Oh Dae-su" é um normal, embora não muito responsável chefe de família, que é raptado no meio da rua e emprisionado num apartamento. Entretanto a sua mulher é assassinada e perde o rasto à sua filha pequenina. O cativeiro dura uns longos 15 anos, em que podemos acompanhar o quotidiano desta personagem no espaço em que está confinado, assim como o aumento progressivo da sua paranóia, situação normal para uma pessoa a quem foi retirada a liberdade e não faz a mínima ideia das razões para tal.

"Dormindo com o inimigo"

Decorido este período, "Dae-su" é finalmente libertado e assume como único objectivo descobrir as motivações que estão por detrás do seu sequestro e consequentemente de vingar-se dos seus misteriosos inimigos. Pelo caminho trava conhecimento com uma jovem rapariga, que o ajuda nasua demanda e com a qual acaba por encetar um relacionamento.

De cena em cena o véu do mistério vai sendo descerrado e a realidade torna-se cruel demais...

"Uiiiiiiiii!"

"Review"

Desde logo devo alertar que "Oldboy" não é um filme destinado a pessoas facilmente impressionáveis ou com uma moral muito rígida. Se consideram-se enquadrados nesta categoria, esqueçam o visionamento da película, pois ela só vos revoltará e provavelmente não conseguirão ver até ao fim. Só a título de exemplo, o actor principal Choi Min-sik, numa cena come um polvo vivo. O animal em questão tem "apenas" o tamanho de um pequeno gato! Acreditem que isto nem é nada comparado com outras imagens e com o próprio enredo. "Oldboy" faz do terrorismo psicológico e do choque uma verdadeira arte!

A fluidez da película é muito boa. O espectador consegue sentir a agonia da solidão, e todo um manancial de diferentes sensações, assim como a raiva expedida por "Dae-su", de que serve como exemplo uma cena em que aquele "arruma" literalmente com uma dúzia de homens directamente responsáveis pela sua tragédia. Não estamos a falar em cenas de artes marciais! A personagem principal violentamente bate e esmaga os seus oponentes com um martelo!

"Perdão..."

A paixão crescente e agonizante entre "Dae-su" e a jovem "Mi-do" constitui um dos muitos pontos fortes do filme e desemboca no momento mais chocante. E mais não digo...

Todos os actores interpretam os seus papéis com grande mérito, mas a de Choi Min-sik é verdadeiramente transcendente. Até hoje nunca vi um "acting" tão bem conseguido e capaz de envergonhar qualquer actor que tenha ganho um óscar. A maneira como "Dae-su" é corporizado com os seus medos, anseios, ódio latente e desespero existencial é digna dos mais elevados elogios e de praticamente nenhum reparo.

"Oldboy" constitui uma película revestida de uma qualidade inegável, que justamente viu o seu valor reconhecido em Cannes - edição de 2004, ao vencer o grande prémio do juri.

Posso-vos dizer que ao acabar de ver o filme, senti-me subitamente atordoado. Desliguei o leitor de dvd, fui para a varanda, acendi um cigarro e para com os meus botões pensei: "Fui atropelado por um comboio!!!"

"Já lixei a vida a toda a gente e agora vou-me!"


Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 10

Argumento - 10

Guarda roupa e adereços - 8

Banda-sonora - 7

Emotividade - 10

Mérito artístico - 10

Gosto pessoal do "M.A.M." - 9

Classificação final: 8,75