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domingo, outubro 10, 2010

Noriko's Dinner Table/Noriko no shokutaku - 紀子の食卓 (2005)

1

Origem: Japão

Duração aproximada: 159 minutos

Realizador: Sion Sono

Com: Kazue Fukiishi, Tsugumi, Yuriko Yoshitaka, Shiro Namiki, Sanae Miyata, Yoko Mitsuya, Tamae Ando, Ken Mitsuishi, Chihiro Abe, Hanako Onuki, Usumaru Furuya

Noriko

Noriko”

Sinopse

“Noriko Shimabara” (Kazue Fukiishi) é uma adolescente de 17 anos, que se encontra desiludida e frustrada com a sua vida na pequena cidade de Toyokawa. O seu pai “Tetsuzo” (Ken Mitsuishi) construiu uma vida para toda a família, que preza a estabilidade, e por esse motivo monótona. Ele possui um emprego seguro, como repórter-chefe num jornal provinciano. O homem faz questão de colocar “Noriko” e a sua irmã mais nova “Yuka” (Yuriko Yoshitaka) numa escola onde ambas podem se tornar em jovens mulheres, sem preocupações de maior.

Yuka

Yuka”

Acontece que “Noriko”, após travar amizade com uma amiga virtual com o “nickname” “Ueno Station 54”, foge para Tóquio, de forma a poder mudar a sua vida. A jovem acaba por travar conhecimento efectivo com “Ueno Station 54”, que na realidade se chama “Kumiko” (Tsugumi). “Noriko” acaba por ser arrastada para o negócio pouco convencional de “Kumiko”, que se traduz em “aluguer de famílias”. Pessoas que perderam os entes queridos, ou que se encontram afastados dos mesmos, contratam os serviços de “Kumiko” e outros figurantes, de forma a que estes supram as suas carências afectivas. No entanto, um negócio estranho vive lado a lado com a possibilidade de as pessoas se imbuírem de tal forma nos seus papéis, que até a morte pode ter lugar.

Noriko e Kumiko 2

Kumiko e Noriko banhadas em sangue”

Review”

Anunciado como uma prequela do filme de culto “Suicide Club”, “Noriko's Dinner Table” é mais um exercício do realizador japonês Sion Sono acerca dos conflitos geracionais nas famílias contemporâneas, e todos os fenómenos relacionados, incluindo a internet como meio de fuga à solidão, que muitas vezes aqui é definida como sentir-se isolado entre muitos. Na realidade, e relacionando novamente com “Suicide Club”, “Noriko's (...)” temporalmente falando, passa-se num período anterior, durante e mesmo posterior àquele filme. Abrange, pois, um hiato temporal maior. Esta película foi um cliente assíduo de muitos festivais de cinema em todo o mundo, tendo gerado um certo “frisson” no meio.

Como acima foi aflorado, “Noriko's (...)” constitui uma profunda meditação acerca dos laços familiares, o impacto e porventura algum efeito pernicioso da tecnologia na vivência actual e até os problemas de identidade que todos enfrentam em maior ou menor medida. Começando por ser um desfilar de psicologia adolescente, “Noriko's (...)” evolui para um drama existencialista, teorizando acerca das pessoas e as suas frustrações, onde se criam mundos de fantasia. Neste caso em concreto, é-nos dado a observar certos estados marcadamente patológicos, em que homens e mulheres que sangram por dentro, são capazes de pagar para recriar situações que outrora eram-lhes mais caras do que tudo na vida.

Prelúdio de um suicídio colectivo

Suicide Club”

Vivendo sob um signo que muitas vezes aposta na narrativa, os quatro primeiros capítulos da película estão divididos pelos nomes das personagens principais, onde cada uma é actor fulcral na fase do filme que supostamente lhe pertence. São explanados vários pontos de vista, consoante a perspectiva de quem é objecto de análise, que se assemelham naturalmente contraditórios, mas que acabam de certa forma, por se complementarem. O quinto capítulo explode verdadeiramente nos olhos do espectador, chocando-o devido a cenas muito fortes visual e psicologicamente, onde a palavra “violência” assumirá aqui bastante acuidade. Todos nós, em maior ou menor medida, temos a noção que a nossa mente ainda é algo de inexplorado, e a deturpação da mesma poderá levar a consequências nefastas. Sono não se coíbe de explorar esta premissa, e dar-lhe voltas sem conta, não encontrando qualquer tipo de resposta, mas lançando um manancial de sugestões de problemas, parecendo mesmo recrear-se com isso.

Com interpretações muito poderosas e expressivas, “Noriko's (...)” é uma obra que vive sob o espectro de algum surrealismo. Sono, realizador polémico, poeta não apenas do cinema e, segundo muitos, um alcoólico inveterado, destila um ensaio acerca da ruína da família, dos desejos recônditos do ser humano e dos anseios juvenis. Com mensagens visuais muito latentes e uma aura algo sombria, “Noriko's (...)” constitui uma longa-metragem de qualidade, que se aconselha a ver com uma mente aberta, mas muito atenta. Uma coisa é certa, não reunirá consensos.

Muito aconselhável!

Um por-do-sol

Um pôr-do-sol”

imdb 7.2 em 10 (737 votos) em 9 de Outubro de 2010

Outras críticas em português:

  1. Ftofani
  2. Asian Reviews

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 10

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 7

Emotividade – 8

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

sexta-feira, abril 10, 2009

Anjo ou Demónio/Audition/Ôdishon - オーディション (1999)

Origem: Japão

Duração: 115 minutos

Realizador: Takashi Miike

Com: Ryo Ishibashi, Eihi Shiina, Tetsu Sawaki, Jun Kunimura, Renji Ishibashi, Miyuki Matsuda, Toshie Negishi, Ren Osugi, Shigeru Saiki, Ken Mitsuishi, Yuriko Hirooka, Fumiyo Kohinata, Misato Nakamura, Yuuto Arima, Ayaka Izumi

"A doce e singela Asami"

Sinopse

Após 7 anos da morte da sua esposa “Ryoko” (Miyuki Matsuda), “Shigeharu Aoyama” (Ryo Ishibashi) nunca mais se juntou com nenhuma mulher, vivendo só com o seu filho “Shigehiko” (Tetsu Sawaki). Este anseia que o pai seja feliz outra vez e incentiva-o a procurar uma nova companheira. Convencido pelo filho, “Aoyama” pede ajuda ao seu amigo “Yoshikawa” (Jun Kunimura), um conhecido produtor de cinema que tem uma ideia muito própria acerca do assunto em concreto.

“Yoshikawa” sugere a “Aoyama” que o acompanhe nas audições que irá fazer a um grupo de raparigas, tendo em vista escolher a próxima actriz para o seu novo filme. “Aoyama” não fica muito entusiasmado com a ideia, mas relutantemente concorda. Perante um manancial de jovens e bonitas mulheres, “Aoyama” fica instantaneamente atraído por “Asami Yamazaki” (Eihi Shiina), que se descreve a si própria como um ser humano tímido e boa pessoa. O viúvo aproxima-se de “Asami” e encetam um relacionamento que muito agrada a “Aoyama”, chegando o mesmo a pensar em casamento. Acontece que nem tudo é o que parece, e por detrás de aparentemente singela e atraente rapariga, esconde-se um ser perturbado e uma assassina implacável!

"Aoyama, ladeado pelo seu amigo Yoshikawa, na audição"

"Review"

Quando nos referimos ao profícuo e polémico realizador japonês Takashi Miike, “Audition” será das obras obrigatórias e uma das primeiras que surgem no nosso pensamento. Trata-se de uma película que teve alguma difusão pelo nosso país, atendendo ao “frisson” que causou no Fantasporto – edição de 2001, o que lhe valeu uma rápida edição em dvd. Não tenho dúvidas em afirmar que será dos filmes asiáticos mais fáceis de obter numa boa loja do género. Conta-se que no final da exibição de “Audition” no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Miike teria sido abordado por algumas pessoas que o acusaram de ser um homem doente, um louco com tendências malignas. Por sua vez, no Festival de Dublim, um membro da audiência desmaiou e teve de ser reencaminhado para o hospital, onde felizmente mais tarde recuperou. Insano ou não, o que se tornou uma realidade é que “Audition” gerou um certo culto um pouco por todo o mundo, sendo com toda a certeza, um filme incontornável para aqueles que pretendem entrar na cinematografia asiática. Pelo menos os mais corajosos e menos impressionáveis.

"Shigehiko e a namorada"

A ideia de que a película tem um conteúdo extremamente forte, poderá afigurar-se disparatada quando somos confrontados com a primeira hora de “Audition”. Nada é exteriorizado que indique que estamos perante um “thriller” psicológico, dotado de suspense e horror. Muito pelo contrário. É-nos dado a assistir a algo que mais parece um típico drama familiar, onde um viúvo de meia-idade vive com o filho e juntos tentam ultrapassar a tragédia que foi a perda da matriarca da família. Observamos a crescente cumplicidade entre os dois, e o dia-a-dia de dois homens no Japão actual, com todas as vivências comuns derivadas do trabalho, da escola e do anseio em arranjar uma esposa ou namorada que lhes preencha a vida e os corações. O único lampejo de algo sinistro tem a ver com uma saca que se mexe de uma forma inesperada, quando o telefone do apartamento de “Asami” toca. Passada esta fase, o filme dá uma verdadeira volta de 180 graus, e num extremo lancinante, somos completamente atirados para uma verdadeira epopeia de tortura física e psicológica, que simplesmente não reconhece quase nenhuma fronteira. E é aqui que urge tomar uma decisão rápida no ponto de viragem desta longa-metragem. Caros visitantes mais sensíveis, simplesmente carreguem no botão “stop” do vosso leitor de dvd e parem de ver o filme. Deixem o epílogo por conta da vossa imaginação. Se prosseguirem, façam-no por vossa conta e risco! O efeito em crescendo, no qual somos embalados com uma trama aparentemente normal e corriqueira, até chegarmos a um clímax arrebatador e grotesco resulta extremamente bem.

"Aoyama sente na pele a outra face de Asami"

Os actores mostram-se em bom nível, com natural destaque para Ryo Ishibashi e a modelo e actriz Eihi Shiina. Ishibashi é um excelente actor, e que denota uma performance credível no papel do homem decente e sério, que apenas quer uma esposa para curar a sua longa solidão de sete anos. Quanto a Shiina, a mesma reflecte de uma forma bastante objectiva o brocado “lobo na pele de cordeiro”, ou fazendo trocadilhos com o título português, "um demónio disfarçado de anjo”. Tendo em conta que a actriz começou a sua carreira precisamente com esta obra, os elogios à sua actuação terão de ser forçosamente maiores, devido à alegada falta de experiência. A sua transformação da dócil e desejável rapariga, para a assassina maníaca e sem pruridos de qualquer espécie é algo que nos atinge com veemência e que tão cedo não esqueceremos.

“Audition”, apesar de ser parte drama familiar e parte horror e tortura psicológica do mais elevado quilate, tem uma interessante mensagem por detrás, acabando por ser uma espécie de sátira social. O Japão apesar de ser um dos países mais desenvolvidos do mundo, tanto a nível tecnológico como económico, encontra-se fortemente arreigado a certas tradições. Uma delas é uma forte primazia dos homens no domínio da sociedade e um certo pensamento que os mesmos no que concerne ao ideal de mulher. A visão estereotipada do sexo feminino e o que se pretende no que toca a uma esposa é um ser dócil, gentil e subserviente. Quando observamos “Asami”, conseguimos identificar todas estas características. É uma jovem rapariga muito boazinha, respeitável e indubitavelmente bela. Ela parece agradecer e estar extremamente feliz pelo facto de um homem culto e maturo ter demonstrado interesse nela. A parte anti-sistema dar-se-á quando “Asami” revela a sua verdadeira faceta, o que para alguns poderá significar a quebra com o Japão tradicional e a emancipação de uma mulher forte e poderosa, embora de uma forma nada ortodoxa.

Claramente desaconselhado a pessoas impressionáveis, “Audition” é um filme que revela todo o engenho de Takashi Miike. Começa de uma forma lenta e branda, onde ternuramente somos embalados pela solidão de “Aoyama” e dos seus esforços para encontrar uma mulher que o preencha. Sem nada que o faça prever directamente, mas sim de forma induzida, viajamos até a um extremo psicológico e visualmente forte, corporizado num manancial de tortura agonizante e doentia. O efeito é devastador, mas sobretudo espectacular! Numa orientação “ocidental”, julgo que os fãs de David Lynch e de “Silence of the Lambs”, de Jonathan Demme, não ficarão defraudados. Uma obra obrigatória para os cultores do cinema mais extremista! Os outros podem bem fugir e pensar duas vezes antes de afrontar uma mulher aparentemente frágil e desprotegida!


"O sadismo de Asami faz mais uma vítima"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13




segunda-feira, abril 16, 2007

Ondas Invisíveis/Invisible Waves (2006)

Origem: Tailândia

Duração: 114 minutos

Realizador: Pen-Ek Ratanaruang

Com: Tadanobu Asano, Kang Hye-jeong, Eric Tsang, Maria Cordero, Toon Hiranyasap, Ken Mitsuishi, Hideki Jitsuyama, Tomono Kuga, Hiro Sano, Prompop Lee

"Kyoji"

Estória

“Kyoji Hamamura” (Tadanobu Asano) é um cozinheiro japonês, que trabalha em Macau, território asiático que esteve sob administração portuguesa até fins de 1999. Por trás do seu honrado ofício, “Kyoji” é igualmente um assassino a soldo de um poderoso chefe mafioso, chamado “Wiwat” (Toon Hiranyasap).

O mais recente trabalho que lhe é encomendado passa por assassinar a esposa do patrão, a Sra. “Seiko” (Tomono Kuga), que é ao mesmo tempo amante de “Kyoji”. O japonês é bem sucedido na sua missão, usando para o efeito o método do envenenamento, após um jantar a dois.

"Noi"

Posteriormente, o chefe de “Kyoji” comunica-lhe que ele terá de desaparecer por uns tempos até as coisas acalmarem, enviando-o para Phuket, uma ilha que constitui uma renomada estância turística da Tailândia.

“Kyoji” embarca num navio até ao seu destino de fuga, e durante o cruzeiro conhece uma jovem rapariga chamada “Noi” (Kang Hye-jeong) que viaja acompanhada da sua filha bebé de nome “Nid”. Uma amizade nasce, e porventura algo mais.

Quando “Kyoji” chega a Phuket, começam a acontecer sérios problemas com a sua vida, vendo-se rodeado de intriga e traição por todos os lados.

"Um beijo ardente, o prelúdio de um homicídio"

"Review"

Da Tailândia, e sob a chancela do realizador Pen-Ek Ratanaruang (realizador de “Last Life in the Universe” e “6ixtynin9 – Sixty Nine”), chega-nos “Ondas Invisíveis”, um filme que mereceu honras de abertura do Festival Internacional de Cinema de Banguecoque – 2006, para além de ter sido um competidor na 56ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Por força do argumento escrito por Pradba Yoon, revelador de um enredo passado em locais distintos, e com personagens de origens diversas, Ratanaruang teve de se rodear de intérpretes de várias paragens.

Foi feliz na escolha do elenco, cerceando-se de actores com provas dadas. Tadanobu Asano é um afamado actor japonês, que detém no seu currículo participações em “Zatoichi”, “Ichi – O Assassino”, “Taboo”, “Gojoe”, entre muitos outros. Possuía igualmente a vantagem de já ter anteriormente entrado em outro filme do realizador tailandês (falamos de “Last Life in the Universe”). Da Coreia do Sul foi recrutada Kang Hye-jeong, a “Mi-do” do fenomenal “Oldboy”. Hong Kong, por sua vez, marca presença com o veterano Eric Tsang, conceituado actor que tem como cartão de visita películas como a trilogia de “Infiltrados”, “Fly Me To Polaris” e “Anna Magdalena”.

A trama de “Ondas Invisíveis” gira à volta de temas como a culpa ou a traição, sendo apresentado envolto numa extrema melancolia. E é a partir desta premissa, que se constrói um filme rodeado de uma aura soturna e porventura triste, bem ilustrada pelos interlúdios que focam o ondular das ondas.

"Kyoji, após ser assaltado, telefona ao patrão a solicitar auxílio"

A realização evoca bem este aspecto, optando por, não amiúde, enveredar por filmar indícios do que se está a passar em determinadas cenas, acompanhados apenas dos sons humanos, como o arfar, ou então do arrastar e do ranger de objectos. Veja-se por exemplo a cena em que “Kyoji” está a debater-se com o assaltante no seu quarto de hotel em Phuket. A porta do quarto e a parede circundante está a ser filmada. Ouvimos os sons da luta. Mas em momento algum vemos “Kyoji” a lutar com o delinquente. Outro exemplo será a cena do jantar homicida.

A fotografia, da autoria de um dos melhores mestres da arte, Christopher Doyle (“Herói”, “2046”), envereda muitas vezes pelos tons acinzentados, acompanhando fidedignamente os sentimentos ilustrados pelos intervenientes. Não é um dos melhores trabalhos de Doyle, diga-se de passagem.

A interpretação dos actores constituirá eventualmente o melhor que o filme tem. Tadanobu Asano presenteia-nos com uma actuação competente e convincente. Kang Hye-jeong, embora a milhas do que nos mostrou em “Oldboy” (convenhamos que é extremamente complicado igualar tal registo), demonstra que merece um lugar de nomeada no panorama do cinema asiático. Os restantes intérpretes estão, em geral, num nível aceitável. Destaco aqui Ken Mitsuishi no papel de “Lizard”.

O pior é sem dúvida a extrema monotonia pela qual o filme envereda, que por vezes nos faz bocejar, e se estivermos um pouco cansados, porque não dizer adormecer. Existem alturas desta longa-metragem, em que o encadeamento é claramente um excelente remédio para quem sofre de insónias.

Uma proposta mediana que não entusiasma, mas que possivelmente elevará a cultura cinematográfica de cada um...

"A morte iminente"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-asia, C7nema

Avaliação:

Entretenimento - 6

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 6

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7





sexta-feira, abril 06, 2007

Love Letter Aka When I Close My Eyes (1995)

Origem: Japão

Duração: 116 minutos

Realizador: Shunji Iwai

Com: Miho Nakayama, Etsushi Toyokawa, Bunjaku Han, Katsuyuki Shinohara, Miki Sakai, Takashi Kashiwabara, Ken Mitsuishi, Emiko Nagata

"Hiroko adormecida na neve"

Estória

"Hiroko Watanabe" (Miho Nakayama) é uma jovem rapariga que vive em Kobe, arrasada pela morte do seu noivo "Fujii Itsuki", ocorrida dois anos antes num acidente de montanhismo.

Aquando da celebração do aniversário do falecimento do seu amor, "Hiroko" descobre na casa deste o livro do liceu onde "Itsuki" concluiu o ensino secundário, situado na recôndita cidade de Otaru, na ilha de Hokkaido. Folheando o livro, "Hiroko" aponta no seu braço a antiga morada de "Itsuki".

Mesmo sabendo que a casa de "Itsuki" em Otaru já não existe, atendendo a que foi demolida para dar lugar a uma auto-estrada, "Hiroko" resolve escrever uma carta dirigida ao seu falecido noivo com os simples dizeres "Dear Fujii Itsuki. How are you? I am fine. Hiroko Watanabe". O objectivo é o simbolismo impregnado e a descarga de sentimentos. "Hiroko" sabe muito bem que não vai obter uma resposta. Pelo menos era o que pensava...

"O falecido Fujii Itsuki, noivo de Hiroko"

Surpreendentemente "Hiroko" recebe uma carta de volta, assinada sob o nome "Fujii Itsuki". A explicação passa por a missiva ter sido entregue a uma rapariga que partilha o mesmo nome que o noivo de "Hiroko".

A homónima de "Itsuki" (igualmente interpretada por Miho Nakayama), ao receber a carta de "Hiroko", tinha ficado assustada, mas ao mesmo tempo curiosa, e decidiu responder da mesma maneira ambígua, sem revelar o facto de ser uma mulher (esta ideia nem lhe ocorreu, pois compreensivelmente nesta altura, não imaginava o que realmente se estava a passar).

Novas trocas de correspondência sucedem-se, e acabamos por descobrir que a rapariga "Itsuki" foi colega da mesma turma de liceu do rapaz "Itsuki". A partir desta premissa, nasce uma forte ligação entre as duas mulheres, que a "Hiroko" servirá para descobrir aspectos que desconhecia da adolescência noivo, e por outro lado fará com que a "Itsuki" feminina redescubra o seu passado e se aperceba que, porventura, nem tudo era o que pressupunha em relação ao "Itsuki" masculino dos tempos de liceu.


"Gravando memórias no braço"

"Review"

Shunji Iwai é um realizador detentor de uma característica que aprecio imenso, e que passa pelo facto de ser capaz de expor, de uma forma simples, uma estória que muito bem poderia acontecer no nosso dia-a-dia e transformá-la num filme que transborda de sentimentalismo anti-barato, e nos toca bem lá no fundo da alma. Já o tinha notado em "April Story" , fiquei completamente rendido nesta obra antecessora daquele filme.

A maneira como Iwai trata do enredo em "Love Letter" é digna dos maiores elogios e aclamações, e salvo um ou outro defeito nunca por demais evidente, roça a quase perfeição. O primeiro ponto a focar é que, apesar de porventura a sinopse indicar o oposto (aqui provavelmente a culpa terá de ser assacada ao subscritor deste texto), a estória é-nos apresentada com uma fluidez tal, fazendo com que nunca nos percamos em devaneios inúteis ou sejamos contagiados pela superficialidade. Simplesmente o que aqui conta é sentir o anseio, a dor e as expectativas dos intervenientes. Podendo à partida, e pela supramencionada descrição no que tange à troca de correspondência numa fase inicial, haver algum efeito que se reconduza ao paranormal, à semelhança do belo melodrama sul-coreano "Il Mare" , cedo isto se desvanece. O motor da trama é desencadeado por um simples engano, reconduzindo-se este à entrega de uma carta a uma pessoa com o mesmo nome e que, por coincidência, conhece muito bem o passado do destinatário.

Pensando melhor, aqui eventualmente poderia ser apontada uma falha no enredo que passa pelo seguinte:

i) Constando na carta a morada correcta; ii) a casa a que corresponde a morada já não existe, pois foi demolida tendo em vista a construção de uma auto-estrada; iii) a cidade de Otaru é pequena no contexto japonês, mas tem mais de 140.000 habitantes (mais ou menos a mesma população da minha povoação, o Funchal)

Pergunta-se com lógica, "porquê que a carta não foi devolvida ao remetente, e pelo contrário foi entregue a uma pessoa que vive noutro ponto completamente diferente da cidade, tendo por único meio de relação, o facto de ter o mesmo nome?"

Não opinarei em demasia acerca deste ponto, até porque o filme fascinou-me bastante. A única desculpa que encontro para este aparentemente inexplicável contrasenso, será o carteiro ser um apaixonado da "Itsuki" feminina e provavelmente ter dado com a carta (quantos carteiros existirão em Otaru?). Adiante!


"Oração de saudade"

A fotografia é de uma beleza quase inexcedível. O constante cair da neve ilustra com magnificência a dor e o "inverno" dos sentimentos de "Hiroko" e posteriormente da "Itsuki" feminina, transportando igualmente as intermitências dolorosas de uma personagem para a outra.

O desempenho dos actores é bastante aceitável, cabendo as honras quase por completo a Miho Nakayama, uma actriz que não conhecia muito bem, mas que a partir de agora prometo que estarei mais atento. Ela praticamente deslumbra, interpretando duas personagens distintas com igual competência e personalidade. O melhor elogio que se poderá fazer a Nakayama é ficarmos com a sensação, ao visionar "Love Letter", que estamos perante duas actrizes diferentes e igualmente boas. Não é um caso de dupla personalidade. Constitui, isso sim, duas actuações de elevado mérito, reunidas numa película intemporal.

A banda-sonora ajuda ao desfile agonizante dos sentimentos, sendo contituída sobretudo por bonitas passagens de piano, acompanhadas de um violino que desperta por vezes algumas das nossas sensações mais escondidas.

No fim de "Love Letter" há que retirar duas conclusões contra-corrente e eventualmente pessimistas.

A primeira é que nem sempre o tempo cura tudo. Mas caso as feridas do coração não sarem, há que seguir em frente e tentar conviver com a realidade, nunca lutando ingloriamente contra o que não pode ser vencido, ou seja, as recordações.

A segunda, não sendo tão óbvia, passará pelo passado muitas vezes voltar para nos assombrar, e mudar completamente a percepção que nós tinhamos de coisas que aconteceram há anos atrás. Às vezes vamos a tempo de alterar as situações; noutras, como em "Love Letter", é tarde demais...

Aconselho vivamente!!!

"Uma carta de amor"

Trailer (Não encontrado)

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras Críticas em Português/Espanhol:

Esta crítica encontra-se igualmente disponível "on line" em ClubOtaku

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25