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domingo, outubro 10, 2010

Noriko's Dinner Table/Noriko no shokutaku - 紀子の食卓 (2005)

1

Origem: Japão

Duração aproximada: 159 minutos

Realizador: Sion Sono

Com: Kazue Fukiishi, Tsugumi, Yuriko Yoshitaka, Shiro Namiki, Sanae Miyata, Yoko Mitsuya, Tamae Ando, Ken Mitsuishi, Chihiro Abe, Hanako Onuki, Usumaru Furuya

Noriko

Noriko”

Sinopse

“Noriko Shimabara” (Kazue Fukiishi) é uma adolescente de 17 anos, que se encontra desiludida e frustrada com a sua vida na pequena cidade de Toyokawa. O seu pai “Tetsuzo” (Ken Mitsuishi) construiu uma vida para toda a família, que preza a estabilidade, e por esse motivo monótona. Ele possui um emprego seguro, como repórter-chefe num jornal provinciano. O homem faz questão de colocar “Noriko” e a sua irmã mais nova “Yuka” (Yuriko Yoshitaka) numa escola onde ambas podem se tornar em jovens mulheres, sem preocupações de maior.

Yuka

Yuka”

Acontece que “Noriko”, após travar amizade com uma amiga virtual com o “nickname” “Ueno Station 54”, foge para Tóquio, de forma a poder mudar a sua vida. A jovem acaba por travar conhecimento efectivo com “Ueno Station 54”, que na realidade se chama “Kumiko” (Tsugumi). “Noriko” acaba por ser arrastada para o negócio pouco convencional de “Kumiko”, que se traduz em “aluguer de famílias”. Pessoas que perderam os entes queridos, ou que se encontram afastados dos mesmos, contratam os serviços de “Kumiko” e outros figurantes, de forma a que estes supram as suas carências afectivas. No entanto, um negócio estranho vive lado a lado com a possibilidade de as pessoas se imbuírem de tal forma nos seus papéis, que até a morte pode ter lugar.

Noriko e Kumiko 2

Kumiko e Noriko banhadas em sangue”

Review”

Anunciado como uma prequela do filme de culto “Suicide Club”, “Noriko's Dinner Table” é mais um exercício do realizador japonês Sion Sono acerca dos conflitos geracionais nas famílias contemporâneas, e todos os fenómenos relacionados, incluindo a internet como meio de fuga à solidão, que muitas vezes aqui é definida como sentir-se isolado entre muitos. Na realidade, e relacionando novamente com “Suicide Club”, “Noriko's (...)” temporalmente falando, passa-se num período anterior, durante e mesmo posterior àquele filme. Abrange, pois, um hiato temporal maior. Esta película foi um cliente assíduo de muitos festivais de cinema em todo o mundo, tendo gerado um certo “frisson” no meio.

Como acima foi aflorado, “Noriko's (...)” constitui uma profunda meditação acerca dos laços familiares, o impacto e porventura algum efeito pernicioso da tecnologia na vivência actual e até os problemas de identidade que todos enfrentam em maior ou menor medida. Começando por ser um desfilar de psicologia adolescente, “Noriko's (...)” evolui para um drama existencialista, teorizando acerca das pessoas e as suas frustrações, onde se criam mundos de fantasia. Neste caso em concreto, é-nos dado a observar certos estados marcadamente patológicos, em que homens e mulheres que sangram por dentro, são capazes de pagar para recriar situações que outrora eram-lhes mais caras do que tudo na vida.

Prelúdio de um suicídio colectivo

Suicide Club”

Vivendo sob um signo que muitas vezes aposta na narrativa, os quatro primeiros capítulos da película estão divididos pelos nomes das personagens principais, onde cada uma é actor fulcral na fase do filme que supostamente lhe pertence. São explanados vários pontos de vista, consoante a perspectiva de quem é objecto de análise, que se assemelham naturalmente contraditórios, mas que acabam de certa forma, por se complementarem. O quinto capítulo explode verdadeiramente nos olhos do espectador, chocando-o devido a cenas muito fortes visual e psicologicamente, onde a palavra “violência” assumirá aqui bastante acuidade. Todos nós, em maior ou menor medida, temos a noção que a nossa mente ainda é algo de inexplorado, e a deturpação da mesma poderá levar a consequências nefastas. Sono não se coíbe de explorar esta premissa, e dar-lhe voltas sem conta, não encontrando qualquer tipo de resposta, mas lançando um manancial de sugestões de problemas, parecendo mesmo recrear-se com isso.

Com interpretações muito poderosas e expressivas, “Noriko's (...)” é uma obra que vive sob o espectro de algum surrealismo. Sono, realizador polémico, poeta não apenas do cinema e, segundo muitos, um alcoólico inveterado, destila um ensaio acerca da ruína da família, dos desejos recônditos do ser humano e dos anseios juvenis. Com mensagens visuais muito latentes e uma aura algo sombria, “Noriko's (...)” constitui uma longa-metragem de qualidade, que se aconselha a ver com uma mente aberta, mas muito atenta. Uma coisa é certa, não reunirá consensos.

Muito aconselhável!

Um por-do-sol

Um pôr-do-sol”

imdb 7.2 em 10 (737 votos) em 9 de Outubro de 2010

Outras críticas em português:

  1. Ftofani
  2. Asian Reviews

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 10

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 7

Emotividade – 8

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

sexta-feira, abril 10, 2009

Anjo ou Demónio/Audition/Ôdishon - オーディション (1999)

Origem: Japão

Duração: 115 minutos

Realizador: Takashi Miike

Com: Ryo Ishibashi, Eihi Shiina, Tetsu Sawaki, Jun Kunimura, Renji Ishibashi, Miyuki Matsuda, Toshie Negishi, Ren Osugi, Shigeru Saiki, Ken Mitsuishi, Yuriko Hirooka, Fumiyo Kohinata, Misato Nakamura, Yuuto Arima, Ayaka Izumi

"A doce e singela Asami"

Sinopse

Após 7 anos da morte da sua esposa “Ryoko” (Miyuki Matsuda), “Shigeharu Aoyama” (Ryo Ishibashi) nunca mais se juntou com nenhuma mulher, vivendo só com o seu filho “Shigehiko” (Tetsu Sawaki). Este anseia que o pai seja feliz outra vez e incentiva-o a procurar uma nova companheira. Convencido pelo filho, “Aoyama” pede ajuda ao seu amigo “Yoshikawa” (Jun Kunimura), um conhecido produtor de cinema que tem uma ideia muito própria acerca do assunto em concreto.

“Yoshikawa” sugere a “Aoyama” que o acompanhe nas audições que irá fazer a um grupo de raparigas, tendo em vista escolher a próxima actriz para o seu novo filme. “Aoyama” não fica muito entusiasmado com a ideia, mas relutantemente concorda. Perante um manancial de jovens e bonitas mulheres, “Aoyama” fica instantaneamente atraído por “Asami Yamazaki” (Eihi Shiina), que se descreve a si própria como um ser humano tímido e boa pessoa. O viúvo aproxima-se de “Asami” e encetam um relacionamento que muito agrada a “Aoyama”, chegando o mesmo a pensar em casamento. Acontece que nem tudo é o que parece, e por detrás de aparentemente singela e atraente rapariga, esconde-se um ser perturbado e uma assassina implacável!

"Aoyama, ladeado pelo seu amigo Yoshikawa, na audição"

"Review"

Quando nos referimos ao profícuo e polémico realizador japonês Takashi Miike, “Audition” será das obras obrigatórias e uma das primeiras que surgem no nosso pensamento. Trata-se de uma película que teve alguma difusão pelo nosso país, atendendo ao “frisson” que causou no Fantasporto – edição de 2001, o que lhe valeu uma rápida edição em dvd. Não tenho dúvidas em afirmar que será dos filmes asiáticos mais fáceis de obter numa boa loja do género. Conta-se que no final da exibição de “Audition” no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, Miike teria sido abordado por algumas pessoas que o acusaram de ser um homem doente, um louco com tendências malignas. Por sua vez, no Festival de Dublim, um membro da audiência desmaiou e teve de ser reencaminhado para o hospital, onde felizmente mais tarde recuperou. Insano ou não, o que se tornou uma realidade é que “Audition” gerou um certo culto um pouco por todo o mundo, sendo com toda a certeza, um filme incontornável para aqueles que pretendem entrar na cinematografia asiática. Pelo menos os mais corajosos e menos impressionáveis.

"Shigehiko e a namorada"

A ideia de que a película tem um conteúdo extremamente forte, poderá afigurar-se disparatada quando somos confrontados com a primeira hora de “Audition”. Nada é exteriorizado que indique que estamos perante um “thriller” psicológico, dotado de suspense e horror. Muito pelo contrário. É-nos dado a assistir a algo que mais parece um típico drama familiar, onde um viúvo de meia-idade vive com o filho e juntos tentam ultrapassar a tragédia que foi a perda da matriarca da família. Observamos a crescente cumplicidade entre os dois, e o dia-a-dia de dois homens no Japão actual, com todas as vivências comuns derivadas do trabalho, da escola e do anseio em arranjar uma esposa ou namorada que lhes preencha a vida e os corações. O único lampejo de algo sinistro tem a ver com uma saca que se mexe de uma forma inesperada, quando o telefone do apartamento de “Asami” toca. Passada esta fase, o filme dá uma verdadeira volta de 180 graus, e num extremo lancinante, somos completamente atirados para uma verdadeira epopeia de tortura física e psicológica, que simplesmente não reconhece quase nenhuma fronteira. E é aqui que urge tomar uma decisão rápida no ponto de viragem desta longa-metragem. Caros visitantes mais sensíveis, simplesmente carreguem no botão “stop” do vosso leitor de dvd e parem de ver o filme. Deixem o epílogo por conta da vossa imaginação. Se prosseguirem, façam-no por vossa conta e risco! O efeito em crescendo, no qual somos embalados com uma trama aparentemente normal e corriqueira, até chegarmos a um clímax arrebatador e grotesco resulta extremamente bem.

"Aoyama sente na pele a outra face de Asami"

Os actores mostram-se em bom nível, com natural destaque para Ryo Ishibashi e a modelo e actriz Eihi Shiina. Ishibashi é um excelente actor, e que denota uma performance credível no papel do homem decente e sério, que apenas quer uma esposa para curar a sua longa solidão de sete anos. Quanto a Shiina, a mesma reflecte de uma forma bastante objectiva o brocado “lobo na pele de cordeiro”, ou fazendo trocadilhos com o título português, "um demónio disfarçado de anjo”. Tendo em conta que a actriz começou a sua carreira precisamente com esta obra, os elogios à sua actuação terão de ser forçosamente maiores, devido à alegada falta de experiência. A sua transformação da dócil e desejável rapariga, para a assassina maníaca e sem pruridos de qualquer espécie é algo que nos atinge com veemência e que tão cedo não esqueceremos.

“Audition”, apesar de ser parte drama familiar e parte horror e tortura psicológica do mais elevado quilate, tem uma interessante mensagem por detrás, acabando por ser uma espécie de sátira social. O Japão apesar de ser um dos países mais desenvolvidos do mundo, tanto a nível tecnológico como económico, encontra-se fortemente arreigado a certas tradições. Uma delas é uma forte primazia dos homens no domínio da sociedade e um certo pensamento que os mesmos no que concerne ao ideal de mulher. A visão estereotipada do sexo feminino e o que se pretende no que toca a uma esposa é um ser dócil, gentil e subserviente. Quando observamos “Asami”, conseguimos identificar todas estas características. É uma jovem rapariga muito boazinha, respeitável e indubitavelmente bela. Ela parece agradecer e estar extremamente feliz pelo facto de um homem culto e maturo ter demonstrado interesse nela. A parte anti-sistema dar-se-á quando “Asami” revela a sua verdadeira faceta, o que para alguns poderá significar a quebra com o Japão tradicional e a emancipação de uma mulher forte e poderosa, embora de uma forma nada ortodoxa.

Claramente desaconselhado a pessoas impressionáveis, “Audition” é um filme que revela todo o engenho de Takashi Miike. Começa de uma forma lenta e branda, onde ternuramente somos embalados pela solidão de “Aoyama” e dos seus esforços para encontrar uma mulher que o preencha. Sem nada que o faça prever directamente, mas sim de forma induzida, viajamos até a um extremo psicológico e visualmente forte, corporizado num manancial de tortura agonizante e doentia. O efeito é devastador, mas sobretudo espectacular! Numa orientação “ocidental”, julgo que os fãs de David Lynch e de “Silence of the Lambs”, de Jonathan Demme, não ficarão defraudados. Uma obra obrigatória para os cultores do cinema mais extremista! Os outros podem bem fugir e pensar duas vezes antes de afrontar uma mulher aparentemente frágil e desprotegida!


"O sadismo de Asami faz mais uma vítima"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13




quinta-feira, julho 10, 2008

The Eye - Visão de Morte/The Eye/ Gin gwai -见鬼 (2002)

Origem: Hong Kong

Duração: 98 minutos

Realizadores: Irmãos Pang (Danny e Oxide Pang)

Com: Angelica Lee, Lawrence Chou, Chutcha Rujinanon, Yut Sai Lo, Candy Lo, Yin Ping Ko, Pierre Png, Edmund Chen, Yung Wai Ho, Wilson Yip, Florence Wu, Wang Sue Yuen

"Wong Kar Mun, antes da operação"

Sinopse

“Wong Kar Mun” (Angelica Lee) é uma jovem violinista, que se encontra cega desde os 2 anos de idade e está prestes a fazer uma operação que lhe possibilitará recuperar a visão. A intervenção cirúrgica corre bem, e aos poucos a rapariga, agora com 20 anos, vai-se ajustando a todo um mundo novo que conhecia apenas pelo tacto. Para tanto, é ajudada pelo Dr. “Wah” (Lawrence Chou), um psicólogo especializado em casos como o de “Mun”.

As coisas começam a complicar-se quando “Mun” começa a ver não apenas o mundo normal, mas também pessoas que já faleceram, assim como uma espécie de sombras que predizem sempre a morte de alguém. O Dr. “Wah” de início não acredita nas faculdades de “Mun”, pensando que esta está a viver uma espécie de choque emocional. Contudo, e após uma série de eventos, “Wah” muda de ideias e toma consciência que a rapariga está dizer a verdade.

"Mun e o Dr. Wah"

“Wah” vai consultar o seu tio “Lo” (Edmund Chen), o médico que operou “Mun” e explica-lhe a situação. “Lo” como seria de esperar, fica incrédulo perante a situação e desaconselha o sobrinho a embrenhar-se mais no caso. No entanto perante a insistência de “Wah”, acaba por revelar quem foi o dador dos olhos.

“Wah” viaja com “Mun” até a Tailândia em busca da família de “Ling” (Chutcha Rujinanon), a dadora que se suicidou devido a um evento trágico. Aí conseguirão efectivamente obter as explicações para os eventos estranhos e macabros que se sucedem com “Mun”.

"A sombra da morte"

"Review"

Vencedor de oito prémios em certames de cinema, entre os quais o atribuído à melhor fotografia em “Sitges”, “The Eye” constitui porventura um dos mais bem sucedidos filmes de terror asiáticos de sempre, tendo direito a duas sequelas, e a dois “remakes”. Dois “remakes”? Então não era só aquele “made in Hollywood”, que teve na estonteante Jessica Alba a actriz principal ?! Pois fiquem a saber que três anos antes, em 2005, os indianos haveriam de fazer a sua versão do filme, intitulada “Naina”. Surpreendidos? Acreditem que é bastante recorrente na Índia, principalmente em “Bollywood”, aproveitar-se um pouco das ideias alheias e adaptá-las cinematograficamente aos seus gostos e costumes.

O argumento de “The Eye” teve parcialmente inspiração numa história verídica, conforme podemos nos aperceber no início do filme e por declarações proferidas pelos próprios irmãos Pang aquando da realização desta obra. Pelos vistos, 13 anos antes da realização do filme, Danny e Oxide leram num jornal uma notícia acerca de uma rapariga que tinha feito um transplante das córneas e que se tinha suicidado pouco tempo depois. Os manos, nas palavras de Oxide, pensaram sempre o que teria sucedido no hiato temporal que decorreu entre a reacção da jovem quando se apercebeu que poderia ver, até ao momento em que pôs termo à vida. Com uma imaginação profícua, estava dado o mote para a construção da trama, escrita igualmente pelos realizadores com o auxílio do produtor e argumentista Jo-Jo Yuet Chun Hui. No género de terror, a escolha do tema foi feliz (embora longe de ser original) e consegue o seu propósito perturbador. De facto, passarmos da tremenda angústia de não possuirmos o sentido da visão, até ao completo desnorteio mental provocado pela observação de decessos e quase-decessos, é um campo extremamente apelativo para o segmento onde a película se insere. A “habilidade” em ver pessoas mortas não é propriamente uma novidade para nós, atendendo à existência de um filme denominado “O Sexto Sentido”, de M. Night Shyamalan, em que uma criança interpretada por Haley Joel Osment vivia numa angústia permanente por deter esta capacidade incomum. “The Eye” não perde tempo em criar uma aura que rodeia o espectador, torturando-o até ao primeiro “show off” espírita. Enveredando pelo diapasão “a melhor defesa é o ataque”, e após uns dez, quinze minutos de filme, os irmãos Pang começam a desfilar um cortejo de espíritos cujo principal objectivo é debitar um concurso para ver qual das aparições assusta mais. Como já mencionei aqui antes, a propósito de outros textos relacionados com películas de terror asiático, eu não sou homem de me impressionar bastante com fantasmas e afins. Mas amigos, e aqui faço uma confissão, dei um semi-pulo do sofá e o meu corpo estremeceu um pouco na cena em que “Mun” está a aprender caligrafia (adeus masculinidade...)! Aquele confrontar em que o espírito grita veementemente “porquê que estás sentada na minha cadeira?!”, pôs-me um tanto ou quanto desconfortável... A foto consta neste “post”, e é um pouco elucidativa. Reconheço que constitui um “spoiler”, mas perdoem-me, não resisti. A minha consolação é que a maior parte das pessoas que visita este espaço, com certeza já deve ter posto os olhos nesta película.

"Ling depara-se perante a tragédia"

O elenco não faz uma interpretação digna de registo com a excepção da actriz Angelica Lee, (o mérito da nota do sub-item “Interpretação” é toda dela). A actriz, que não era assim tão experiente à altura, representa de uma forma quase brilhante a personagem de “Mun”. Verdadeiramente conseguimos sentir o seu medo e desespero. Ao mesmo tempo admiramos a honestidade com que as suas emoções são destiladas perante os nossos olhos (não sei porquê, mas acho que é melhor evitar a menção a “olhos” neste texto), fazendo com que o que nos é transmitido se afigure como algo genuíno. É pena que o restante “cast” não esteja à altura, e por essa razão um possível “9” teve, em nome de alguma justiça, baixar para “8”. Lawrence Chou (o actor que interpreta o Dr. “Wah”, companheiro de “Mun”) é quase um erro de “casting”, e esta premissa assume mais acuidade quando o mesmo surge acompanhado nas cenas com Angelica Lee.

Escusado será dizer que pela notoriedade que a longa-metragem alcançou, "The Eye" é obrigatório para qualquer amante do terror asiático. Igualmente constitui a prova viva que os bons filmes do género não são exclusivos do Japão ou da Coreia do Sul. É certo que não atingirá o nível de “Ringu”, e muito menos de “A Tale of Two Sisters”. Contudo, constitui um marco do seu segmento que nos faz pensar duas vezes antes de entrar num elevador, passear à noite num corredor de um hospital e principalmente sentar-se na cadeira predilecta de uma aluna de caligrafia que se encontra morta e "incorporada" num espírito bastante susceptível...brrr!

Com interesse, mas de preferência a ver durante o dia e já agora que seja um com bastante sol e claridade! Afinal, nem todos têm um coração forte...Se pelo contrário, chamarem à colação a adrenalina, ideal para uma noite negra como o breu!

"Sai da minha cadeira!!!"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia, Cine-Asia, Cine Players, 7ª Arte, Boca do Inferno

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63





quarta-feira, abril 30, 2008

The Host - A Criatura/The Host/Gwoemul -
괴물 (2006)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 114 minutos

Realizador: Bong Joon-ho

Com: Song Kang-ho, Byeon Hee-bong, Park Hae-il, Bae Doo-na, Ko Ah-seong, Oh Dal-su, Lee Jae-eung, Lee Dong-ho, Yoon Je-moon, Lim Pil-seong, Kim Roi-ha

"Gang-du"

Sinopse

No rio Han, em Seul, as pessoas deparam-se com uma visão incomum. Um ser estranho encontra-se suspenso numa ponte, e todos, incluindo o retardado “Gung-du” (Song Kang-ho), pasmam-se com a situação. O momento de letargia desaparece abruptamente, quando a criatura resolve atacar a população e espalhar o caos pelas margens do curso de água. “Gung-du” agarra na filha “Hyun-seo” (Ko Ah-seong) e foge em desespero, à semelhança de todos os que se encontram no local. Contudo, e devido ao raciocínio lento de “Gung-du”, a criatura apanha “Hyun-seo” e arrasta-a para as águas do rio.

"Gang-du em fuga com a filha Hyun-seo"

Como se este problema não fosse o suficiente, “Gung-du” e a restante família, o pai “Hee-bong” (Byeon Hee-bong), o irmão Nam-il (Park Hae-il) e a irmã “Nam-joo” (Bae Doo-na) são mantidos em quarentena no hospital, por terem entrado em contacto com o monstro e desta forma se suspeitar que estão infectados com um vírus mortal. Partindo do pressuposto que o benjamim da família se encontra morto, a ideia depressa se altera quando “Gung-du” recebe uma chamada da filha. A rapariga atemorizada, e através de um telemóvel, afirma que está presa no covil da criatura, algures na rede de esgotos perto do rio Han.

A família escapa-se do hospital e une-se no objectivo comum que é resgatar “Hyun-seo”. Para tal, e sendo apenas cidadãos comuns, vão ter que partir à caça da maior ameaça que a cidade de Seul já enfrentou!

"Hyun-seo"

"Review"

Em 2006, directamente da Coreia do Sul, e à semelhança do monstro do rio Han que protagoniza a película, emergia “The Host”, um filme que chamaria a atenção de todo o cinéfilo ocidental para o cinema coreano (coisa rara a estreia de um filme asiático na Madeira, pois também aqui andou a deambular nas salas de cinema). O grande sucesso desta longa-metragem começaria dentro de fronteiras, com “The Host” a desalojar o trono que pertencia a “The King and the Clown”, e a tornar-se por direito próprio, o campeão das bilheteiras na Coreia do Sul, tendo sido visto por 13 milhões de pessoas!!!
No meio de 18 prémios conquistados, sobretudo em festivais de cinema realizados no oriente, sempre se destacará o galardão para melhor realizador conquistado no “Fantasporto”, que viria a repetir em Sitges, assim como o atribuído para melhores efeitos especiais atribuído neste último certame. A sua estreia mundial, teve a grande honra de suceder em Cannes, o que forçosamente tenho de reconhecer que não é para qualquer um. Como se este já pujante cartão de visita não bastasse, a conceituada publicação “Cahiers du Cinema” viria a considerar “The Host”, como o 3º melhor filme de 2006.

Com este digno cartão de visita, sempre se adiantará que ao contrário da esmagadora maioria das críticas que existem espalhadas pela “net”, este texto não irá trilhar os caminhos do endeusamento de “The Host”, nem nada que se pareça. A película tem qualidade, isso é inegável. Mas sinceramente, ainda não descobri, ao fim de 3 visionamentos, o que ela tem assim de tão especial para merecer as apologias hiperbólicas que foram veiculadas um pouco por todo o lado. Por vontade própria, torna-se um texto ingrato para escrever...

Antes de tudo, comecemos pelo principal (de um ponto de vista empírico), ou seja, o monstro que anda a espalhar a miséria pelos habitantes de Seul e por uma família em particular. O facto de a criatura surgir logo no início, ao invés do costumeiro suspense que se costuma fazer, é de saudar e rompe com convenções. Todos nós estamos habituados a que filmes do género, exponham as suas aberrações de uma forma progressiva. Um respirar atroz, um olhar malévolo, um vulto repentino, etc...etc... Em “The Host”, o “simpático” desvio da natureza é-nos dado a conhecer logo de início, e não perde tempo a fazer das suas, ou seja, a atacar as inocentes pessoas que gostam de andar pelas margens do rio Han. E daqui decorre a premissa principal da película e a partir de onde tudo se desenvolve, a saber, o rapto da jovem “Hyun-seo”, filha do principal herói da longa-metragem, “Gung-du”. Nada de rodeios, directo ao assunto!

"Nam-joo"

Falemos agora do aspecto do “bicho”. Sinceramente não gostei... Para os parâmetros sul-coreanos, podemos afirmar que “The Host” até teve um orçamento relativamente desafogado (cerca de 10 milhões de dólares). No entanto, tal representa uma verba modesta face às grandes produções norte-americanas (a maior parte de valor discutível, diga-se de passagem), com possibilidades de gastar exorbitâncias em efeitos especiais. Segundo consta, o realizador pretendia, em coerência com o argumento, que o monstro se assemelhasse a um animal que tivesse sofrido uma mutação anormal. Não tenho dúvidas nenhumas que o objectivo foi conseguido. Simplesmente estamos a falar de uma questão de pura estética, em que como tudo na vida, os gostos variam e muito. Não achei nada de especial (o “Alien” para mim ainda continua a ser o indisputado campeão). O que me fez preencher um pouco as vistas foram os movimentos acrobáticos da criatura, que são acima de qualquer repreensão. Realistas e naturais, acabam por ser o ponto forte do CGI usado nesta longa-metragem. Confesso que o grande alarido que se fez à altura, em relação a este filme em concreto, possa ter condicionado de alguma forma a opinião aqui expressa.

A crítica aos americanos não é nada de novo na cinematografia sul-coreana, e esta por sinal tem por base factos verídicos. Pelos vistos, em 2000, um cientista que trabalhava para o exército norte-americano baseado na Coreia do Sul, despejou uma grande quantidade de formol nos esgotos de Seul. Tal consubstanciou-se num atentado ambiental de alguma gravidade que causou revolta entre a população. Bong Joon-ho, admite, entre sorrisos esparsos, que o filme poderá conter algum anti-americanismo à mistura. Quanto a mim, é indubitável que se fez algum exercício fantasista no sentido de pensar nas consequências das atitudes irreflectidas de alguns, no sentido de criar um ser que espalhe o terror pela maior metrópole do país. A origem dessa instabilidade nasce de algo exterior à cultura coreana (os americanos), e que a condiciona fortemente. É um monstro, mas poderia ser uma infinidade de coisas mais, sempre com o aspecto nacionalista e político subjacente. O certo é que a maior ditadura do mundo, a norte-coreana (na minha singela opinião) fez uma apologia de “The Host”, o que é certamente uma novidade no que toca aos “filmes subversivos do vizinho capitalista”.

O que é de acentuar mais, na minha humilde opinião, é a união expressa (uma “máfia” no bom sentido, expressão com a qual concordo plenamente quando bem interpretada) de uma família com grandes frustrações no seu seio. Temos como elementos componentes o patriarca “Park Hie-bong”, que tenta ser o elo mais forte, mas que nos podemos aperceber dos erros da juventude e das repercussões subsequentes; o filho mais velho, “Gung-du”, um retardado inconsequente, que foi abandonado com uma filha nos braços; “Nam-il”, que concluiu a sua licenciatura, mas cujo desemprego vota-o ao alcoolismo; “Nam-joo”, uma praticante de tiro com arco, dotada de elevado potencial, mas que falha sempre na hora da verdade. Todos sem excepção unem-se, apesar da sua pouca conveniência social, e prosseguem ligados na prossecução de um objectivo comum: recuperar a sua redenção, corporizada tanto no objectivo como na pessoa mais “normal” da família, a jovem “Hyun-seo”. A partir daí temos o motivo para a exposição de boas interpretações do elenco, sem excepção. O drama, até prova em contrário, continua a ser o que os coreanos executam com mais mestria. Já dizia a personagem “Gyeon-woo” de “My Sassy Girl”, interpretada pelo actor Cha Tae-hyun, “all koreans love melodrama”, e como quem corre por gosto não cansa...

A comédia “nonsense”, para não variar afigura-se um tanto ou quanto dispensável, pois não resulta por aí além e quebra um pouco o espírito do filme. O epílogo é extremamente previsível e não consegue escapar a uma vertente moralista que, embora educativa (o que é sempre de elogiar), dispensava-se um pouco atendendo ao contexto em geral.

Em jeito de conclusão, resta apenas afirmar o quase óbvio para quem leu com atenção este texto. A Coreia do Sul tem obras cinematográficas de um nível bastante superior a “The Host”, e que são praticamente desconhecidas do público ocidental, cujo rol seria exaustivo enumerar. No alto da minha ingenuidade, é para mim um mistério, como as mesmas não conseguem ter a projecção que o filme que ora se disserta alcançou. Sempre se poderá dizer que a explicação terá algo de futebolístico: às vezes não é quem é melhor jogador, mas sim quem tem o melhor empresário ou quem possui um manancial de fintas que não o fazem propriamente um executante de primeira fila. Provavelmente o mais plausível será que a opinião aqui veiculada, pelo facto de ser minoritária, não há de colher vencimento. Mas fazendo uso de um “cliché” acertadíssimo, nem sempre as maiorias têm razão.

Depois de visionar “The Host”, e embora sejam pertencentes a géneros completamente distintos, só me resta concluir que o melhor filme de Bong Joon-ho continua a ser “Memories of Murder”. Contudo, será inegável que valerá a pena dar uma espreitadela, nem que seja para chegar a uma conclusão idêntica à minha, ou, pelo contrário, atirá-la completa ou parcialmente para o balde do lixo...


"Nam-joo enfrenta o monstro"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Cinedie Asia,
  2. Cinema2000,
  3. Zona de Culto,
  4. Royale With Cheese,
  5. Duelo ao Sol,
  6. Cine-Asia
  7. Devaneios
  8. Batto presenta...

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Eotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





segunda-feira, dezembro 10, 2007

Ring - A Maldição/Ring/Ringu - リング (1998)

Origem: Japão

Duração: 97 minutos

Realizador: Hideo Nakata

Com: Nakako Matsushima, Hiroyuki Sanada, Orie Izuno, Rie Inou, Miki Nakatani, Yuko Takeuchi, Hitomi Sato, Yoichi Numata, Yutaka Matsushige, Katsumi Muramatsu, Rikiya Otaka, Masako, Daisuke Ban, Kiyoshi Risho, Masahiko Ono

"A repórter Reiko Asakawa"

Estória

“Reiko Asakawa” (Nakako Matsushima) é uma repórter que investiga a estranha morte da sua sobrinha “Tomoko” (Yuko Takeuchi) e dos seus colegas de liceu. A chave para a resolução do caso parece estar relacionada com uma cassete vídeo, que pelos vistos faz com que todos aqueles que a vejam, morram exactamente sete dias depois.

“Reiko” acaba por encontrar a cassete e visiona-a, deparando-se com um curto filme bastante estranho. Seguidamente recebe uma chamada a informá-la que irá falecer. Inadvertidamente, “Reiko” deixa o vídeo maldito ao alcance do seu jovem filho “Yoichi” (Rikiya Otaka), e este também fica amaldiçoado. Desesperada, “Reiko”, conjuntamente com o ex-marido “Ryuji Takayama” (Hiroyuki Sanada), que também viu a cassete e encontra-se sob o signo da morte, tentam a todo o custo fazer face à iminência da tragédia.

"O professor Ryuji Takayama"

As investigações de ambos conduzem-nos à ilha de Izu Oshima, onde descobrem que a mulher que vêm na cassete é “Shizuko Yamamura” (Masako), falecida há bastantes anos e que possuía poderes premonitórios. Igualmente chegam à conclusão que o responsável pelas mortes é o espírito vingativo de “Sadeko” (Rie Inou), a filha de “Shizuko”, uma rapariga que igualmente possuía poderes psíquicos, consistindo os mesmos em conseguir matar apenas com o olhar.

As horas passam e a morte aproxima-se cada vez mais à medida que “Reiko” tenta desesperadamente salvar a vida daqueles que ama.

"Reiko prepara-se para visionar a cassete amaldiçoada"

"Review"

Apesar de um dos géneros de cinema asiático mais bem sucedidos no mundo inteiro ser o horror, nunca fui um particular apreciador deste género de filmes, ao contrário de muitos. O terror provindo do oriente ganhou um culto próprio, com bastantes fãs, e inclusive serviu de inspiração para “remakes” de um cinema de Hollywood que ainda sofre uma crise latente de ideias.

Poder-se-á afirmar com alguma propriedade que o grande responsável, ou pelo menos detendo uma parte essencial no fenómeno, foi “Ringu”. Baseado na novela com o mesmo nome, do escritor Kôji Suzuki (que bebeu influência no conto popular japonês “Banchô Sarayashiki”), “Ringu” constitui um filme premiado, de onde se destaca o galardão atribuído para melhor filme no festival de Sitges – edição de 1999, o que constitui sem dúvida nenhuma um bom cartão de visita. A aura que rodeou o filme aquando da sua estreia no Japão, foi tremendamente avassaladora, tendo sido a película de horror que mais triunfou no “box Office” do país (15,9 mil milhões de ienes, à volta de 97,55 milhões de euros), sendo considerado para alguns, o filme mais assustador que já viram (quanto a este ponto em particular, eu irei pronunciar-me mais baixo). Inclusive surgiu o rumor que o apartamento de “Reiko”, a personagem interpretada por Nakako Matsushima, estava “realmente” assombrado pelo fantasma de uma rapariga que ali se teria suicidado. Brrr…

Segunda-feira, 13 de Setembro…a contagem fatídica para “Reiko” inicia-se, e o tempo não volta para trás…“Ringu” não aposta em litros de sangue, violência extrema ou “gore” para atingir o seu objectivo. O que está aqui em causa é algo bastante mais refinado, a saber, o uso de uma atmosfera psicologicamente sombria, que joga tudo na antecipação e na tensão mental, tendo em vista pôr-nos na fronteira com o susto, sem sabermos quando o mesmo se irá desencadear. Embora seja de elogiar a forma como tudo nos é apresentado, tenho de confessar que fiquei imune a bastante dos efeitos que “Ringu” supostamente haveria de provocar nos espectadores, mas daí não sou muito impressionável nesse aspecto, confesso. A única cena que ainda provocou algum “frisson” na minha pessoa, foi sem dúvida aquela em que o professor “Ryuji” se depara frente a frente com o espírito vingativo de “Sadeko”. Mesmo aí, e considerando que o encadeamento está extremamente bem conseguido (disso, não resta nenhuma dúvida), consegui-me aguentar com alguma tranquilidade. Bem…er…confesso que quando aquele espírito do inferno começou a levantar a cabeça lentamente, uma certa apreensãozita começou a girar aqui dentro…

"Uma das imagens do filme que se encontra na cassete, onde se pode ver Sadeko a fitar o poço"

O que apreciei verdadeiramente em “Ringu” foi a construção da trama, das personagens, e das interpretações do grande actor japonês Hiroyuki Sanada, e da bela ex-modelo Nakako Matsushima. Suspense à parte, apreciei de sobremaneira a componente de mistério presente na película, e os esforços desenvolvidos por aquela família destruída, mas unida num desígnio comum, para se salvar da maldição que impendia sobre as suas vidas. Apesar de estarmos a falar de uma longa-metragem que gira em torno de aspectos fantásticos, as personagens são bastante reais e reconduzíveis ao nosso quotidiano. Existe um “terra-a-terra” saudável.

Merece uma particular chamada de atenção a gravação presente na cassete vídeo e que constitui o mote para tudo o que se passa nesta longa-metragem. Aí reconheço que a atmosfera conseguiu afectar-me um pouco (as imagens distorcidas e o preto e branco ajudaram) e fazer com que durante umas horas eu olhasse para a minha televisão com outros olhos, e imaginasse se de repente o programa que eu estivesse a ver desaparecesse por completo, e fosse substituído por um espírito vingativo de longa cabeleira preta, com propósitos homicidas. É certo que a mencionada figura maléfica hoje em dia é um “cliché” monumental, no que toca às películas do género. Mas é bom não esquecer, que foi com “Ringu” que praticamente tudo começou.

“Brincadeiras no mar, demónios no ar” é uma expressão repetida na película e que se encontra associada ao passado tenebroso que constitui o cerne da trama. ”Ringu” é no entanto um filme bastante sério, que nenhum fã do cinema asiático deve perder. Para os amantes do horror, embora continue a dizer que não assuste assim tanto, é imperdível! O sucesso é incontornável, tendo dado origem a uma prequela e a uma sequela, a “remake”, imitações e sátiras da personagem de “Sadeko”. Simplesmente não faz muito o meu género, e essa é que é a verdade.

"Olhar mortal"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia (Hugo Gomes) , Cinedie Asia (Luis Canau), Cine Players, Boca do Inferno, O Crítico, Fanaticine, Cine-Asia, ClubOtaku

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75





sexta-feira, agosto 03, 2007

Dupla Visão/Double Vision/Shuang Tong - 雙瞳 (2002)

Origem: Taiwan

Duração: 105 minutos

Realizador: Chen Kuo Fu

Com: David Morse, Tony Leung Ka Fai, Rene Liu, Leon Dai, Lung Sihung, Yang Kuei Mei, Huang Wei Han

"Huang Huo Tu"

Estória

“Huang Huo Tu” (Tony Leung Ka Fai) é um polícia afecto aos assuntos relacionados com os estrangeiros (o equivalente seria o nosso serviço de estrangeiros e fronteiras), de Taipei, capital de Taiwan, que possui uma vida familiar destroçada, devido a um trágico evento ocorrido há dois anos atrás relacionado com uma denúncia de um caso de corrupção. A sua filha (Huang Wei Han) perdeu a fala derivado do facto de ter sido feita refém do próprio tio que viria a ser morto. A sua mulher (Rene Liu) pretende pedir o divórcio, pois já não consegue suportar a constante ausência do marido e sua despreocupação com os problemas conjugais.

O marasmo trágico de “Huo” é repentinamente interrompido, quando uma série de bizarros homicídios começam a se suceder em Taipei, que põem a polícia completamente “à nora” quanto ao modo de execução dos crimes. Um empresário que nunca saiu do seu gabinete morre afogado; a amante de um senador morre queimada, sem que o seu apartamento contenha vestígios de qualquer incêndio; um padre ocidental falece dilacerado, sem que existam quaisquer vestígios de luta.

"Kevin Richter"

O governo de Taiwan decide pedir ajuda aos E.U.A., a que este país corresponde enviando um dos seus maiores especialistas em assassinos em série, o agente do F.B.I. “Kevin Richter” (David Morse).

“Richter” acaba por fazer dupla com “Huo” e juntos deparam-se com uma teia intrincada de pistas, algumas de índole sobrenatural, que parecem levar a uma obscura seita taoista cujo fito é a busca do segredo da imortalidade.


"A amante de um senador é consumida pelo fogo"

"Review"

“Dupla Visão” nasceu de uma colaboração entre Taiwan e os Estados Unidos, através da filial asiática da “Sony Pictures”. Por esse facto beneficiou de um tratamento preferencial em relação à generalidade das películas asiáticas, começando desde logo pela distribuição internacional da película. Pretendia-se aqui fazer um “thriller” na linha de filmes como “Seven” e “Resurrection”, embora com uma adição de elementos sobrenaturais. O resultado foi bom? Sinceramente não.

Eu sou daquelas pessoas que acha que a conversa sobre os “clichés” do cinema tornou-se tão banal, ao ponto de ela própria se tornar “cliché”, com a agravante de ser bastante irritante. A minha experiência afirma que metade das pessoas que criticam “clichés” fazem-no sem ter a perfeita consciência do assunto que estão a tratar, ou dizem-no simplesmente por estar na moda. Chegam ao ponto de se deixarem influenciar de tal forma por terceiros ou pelo meio envolvente, sendo capazes de negarem os próprios gostos. Na adolescência é normal que isso aconteça, pois no fundo a personalidade ainda está em formação. Na idade adulta, é preciso estabilizar e tomar opiniões conscientes e decididas. Eu gosto de filmes que estão, a meu ver, cheios de “clichés”. Acima de tudo, adoro películas que me despertem todo o tipo de sensações. Se tiver “clichés” que se dane! Não há que ter medo de admitir que esse mesmo filme é bom e que nos preencheu de alguma forma!

"A filha de Huo observa um nado-morto"

“Visão Dupla” está cheio de “clichés”. Mas mesmo assim poderia ser uma longa-metragem do meu agrado. Aquilo é o polícia que tem um trauma que o separou emocionalmente da família; vem outro polícia de uma cultura completamente diferente e existe o clássico choque de culturas, à semelhança de filmes como “Inferno Vermelho” ou “Fúria no Bairro Japonês”, esses ícones de acção dita “rasca”, mas que há bastantes anos entretiveram-me imenso; a aura negra e o mistério estão todos lá.

Simplesmente, o argumento do meu ponto de vista é mau, e o encadeamento da trama inevitavelmente fica mortalmente afectado devido a esta premissa. A certa altura, uma pessoa com “dois dedos de testa” tem de concluir inevitavelmente que o filme se torna desinteressante e por vezes sem nexo nenhum. Mesmo nos “clichés” há sempre a possibilidade de inovação. Não, esta premissa não é contraditória. Chama-se evolução!

A sensação com que fico é que se pretendeu oferecer um produto muito virado para o público ocidental, com algumas preocupações a nível estético e de misticismo. Claro que sou forçado a admitir que alguns elementos distintivos do cinema asiático estão presentes no filme, e que o salvam de alguma forma. Não tenho pejo nenhum em anuir positivamente perante a cena em que os polícias se defrontam num templo, com os elementos da seita taoísta “O Verdadeiro Sábio”. Tal constituiu claramente o apogeu do filme, e fez-me arregalar os olhos. Quem dera que o filme fosse todo assim!

Os efeitos especiais são aceitáveis. Julgo ser minimamente consensual quando afirmo que a cena da morte da amante do senador pelo fogo está um regalo de se ver. As cenas violentas marcam bastante a sua presença, envolvendo por vezes algum “gore”.

Tony Leung Ka Fai e David Morse, dois actores de eleição, oferecem-nos duas interpretações medianas. Este último desiludiu-me de sobremaneira, pois tenho-o como um actor de referência. Vou culpar o malfadado argumento e dar o benefício a um homem com provas mais do que dadas. Rene Liu, uma actriz que confesso não conhecer bastante bem, acaba por deter a melhor actuação, o que deve ter justificado o prémio que recebeu para melhor actriz secundária na 22ª edição dos “Hong Kong Film Awards”.

Nada de especial!

"Na iminência do confronto entre a polícia e os elementos da seita taoísta "O Verdadeiro Sábio"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia, Cine-Ásia, Boca do Inferno

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 5

Banda-sonora - 6

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 6,50





domingo, julho 22, 2007

História de Duas Irmãs/A Tale of Two Sisters/Janghwa, Hongryeon -장화, 홍련 (2003)

Origem: Coreia do Sul

Duração: 110 minutos

Realizador: Kim Ji-woon

Com: Moon Geun-yeong, Im So-jeong, Yeom Jeong-ah, Kim Kap-soo, Lee Seung-bi, Lee Dae-yeon

"As irmãs"

Estória

Duas jovens irmãs retornam a casa depois de terem estado internadas numa casa de saúde mental. A mais velha, “Su-mi” (Im So-jeong) é extremamente protectora em relação à mais nova “Su-yeon” (Moon Geun-yeong), tentando afastá-la de tudo o que a possa magoar ou afligir.

A passividade de “Su-yeon” faz com que tente não arranjar problemas nem ao pai (Kim Kap-soo), nem à madrasta “Eun-joo” (Yeom Jeong-ah). Por seu lado, “Su-mi” detém algum recentimento para com o pai, e absolutamente não suporta a terrível madrasta, entrando frequentemente em conflito com ela. Para piorar ainda mais a situação, cenas estranhas e bizarras começam a acontecer na casa onde todos residem, que passam por um espírito começar a assombrar tanto as duas irmãs, como a madrasta, ficando o pai imune a tais eventos.

"A madrasta"

Quando o pássaro de estimação da madrasta é cruelmente morto, a violência psicológica e física intensifica-se entre os intervenientes. “Eun-joo” tranca a tímida “Su-yeon” num armário como castigo. Tal atitude desperta uma fúria vingativa na irmã mais velha “Su-mi”, que fará desembocar a vida de todos num pesadelo.

"O pai"

"Review"

Quando nos embrenhamos na extensa cinematografia sul-coreana, existem filmes que são absolutamente incontornáveis, e que servem de expoente máximo e identificativo do que de melhor a indústria da sétima arte daquele país possui. “História de duas irmãs” é uma dessas películas.

Baseado no conto tradicional coreano “Janghwa Hongreyon-jon” (“A Rosa e o Lótus Vermelho”), da altura da dinastia Joseon, “História de Duas Irmãs” foi um dos filmes mais populares de sempre no seu país natal, tendo uma audiência nas salas de cinema que excedeu os 3,1 milhões de espectadores. Outro importante cartão de visita é o facto de ter sido o primeiro filme coreano de horror a estrear nas salas dos Estados Unidos. Para não variar, direitos foram comprados desta vez pela “Dreamworks” e mais um “remake” vem a caminho…

Se dez pessoas estiverem numa sala a visionar “História de Duas Irmãs”, garanto-vos que se não houverem influências mútuas, dez versões diferentes da estória acabarão por vir à tona. O argumento é quase brilhante, estando recheado de aspectos que nos fazem pensar imenso e que não serão apreensíveis “à primeira vista”. Aliás, mesmo depois de visualizar algumas vezes este filme, e tendo feito alguma pesquisa, dúvidas mantêm-se e parece não haver possibilidade de algum consenso pelo mundo dos críticos e amantes de cinema. Sem tentar desvendar muito o enredo, sempre darei alguns pequenos exemplos. Quando “Su-mi” aparece no início do filme a falar com o psiquiatra, estamos na fase anterior ou posterior aos eventos em que se centra o filme? Existem um ou dois fantasmas, ou afinal não existe nenhum? A madrasta será real? Etc…, etc…, etc… Espero que tenham ficado com uma pequena ideia do que irão enfrentar.

"Su-mi ferida mira a a agressora"

Igualmente não estamos perante o típico filme de terror asiático. Não existe uma panóplia de sustos, muitas vezes completamente desarticulada. As cenas que incidem sobre este aspecto são relativamente poucas, quando comparadas com outras obras. No entanto, posso afirmar, tendo a certeza que muitos concordarão comigo, que a atmosfera e pressão psicológica que o filme exerce sobre as nossas mentes é avassaladora ao ponto de nos deixar bastante contundidos. Como curiosidade, o realizador Kim Ji-woon pretendia que a Jun (Jeon) Ji-hyun (muito provavelmente a actriz mais conhecida daquelas paragens) desempenhasse o papel de “Su-mi”, tendo a actriz recusado o papel, invocando que o argumento do filme era extremamente assustador.

Outro factor que faz com que “História de Duas Irmãs” não seja o típico filme de terror, é o facto de não ser limitado. Embora o extremo “suspense” e algum horror dominem a película, poderemos porventura afirmar com alguma propriedade que estamos perante um triste e bem representado drama familiar. A tragédia da família é o catalisador e a explicação para tudo o que se passa.

Por falar em representação, todos os actores sem excepção oferecerem-nos um excelente trabalho. Para além das falas, sou obrigado a destacar os olhares e as expressões dos intervenientes, alguns dos quais nunca esqueci até hoje. O constante e frenético deslizar do olhar perante um som mais estranho, ou um assustador vulto, está perfeito e serve na plenitude o pendor do filme.

Não sendo um grande amante deste género de películas, sou no entanto forçado a admitir que estamos perante uma obra de um enorme vulto, obrigatória para qualquer amante de cinema que se preze como pessoa inteligente.

Muito bom!

"O espírito"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia, Zeta Filmes, Cine-Asia, Fanaticine, Royale With Cheese, Cinema ao Sol Nascente

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 9

Argumento - 9

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25