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sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Boat People/Tau ban na hoi - 投奔怒海 (1982)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração: 108 minutos

Realizadora: Ann Hui

Com: George Lam, Season Ma, Cora Miao, Andy Lau, Kei Mung Sek

Akutagawa

O jornalista japonês Shiomi Akutagawa”

Sinopse

“Shiomi Akutagawa” (George Lam) é um fotojornalista japonês, que retorna ao Vietname em 1978, três anos após a vitória dos comunistas sobre o Vietname do Sul e os seus aliados norte-americanos. Apesar de as autoridades quererem fazer crer que vivem numa sociedade feliz e justa, o que “Akutagawa” testemunha é bastante diferente. Uma grande falange da população passa fome, a brutalidade policial grassa nas ruas e a corrupção é comum entre os elementos do governo.

Cam Nuong

Cam Nuong”

Nas suas deambulações, “Akutagawa” faz amizade com uma família pobre de Danang, acompanhando de perto “Cam Nuong” (Season Ma), o elemento mais velho dos três irmãos. Por outra via, “Akutagawa” toma contacto com “To Minh” (Andy Lau), um ladrão que é enclausurado num campo de concentração, denominado sugestivamente de “nova zona económica”, onde a sua função é a desminagem. “To Minh” tenta fugir para fora do país num barco de refugiados, mas a aventura acaba em tragédia. “Akutagawa” sente a necessidade de dar a conhecer ao mundo o que na realidade se passa no novo Vietname, mas a sua tarefa corre grande perigo de fracassar.

To Minh

To Minh”

Review”

Para muitos considerado como o filme mais importante da carreira da realizadora Ann Hui, feito numa fase ainda precoce da sua carreira, “Boat People” centra o seu enredo no impacto repressivo e violento da ditadura de Ho Chi Minh nos diversos sectores da sociedade vietnamita. À altura foi considerado, com muita propriedade, uma película extremamente intensa e que mereceu honras de exibição (com polémica á mistura) no festival de Cannes, edição de 1983. A ideia para levar a cabo a empresa que constituiu esta obra, teve origem no grande número de refugiados vietnamitas que começou a chegar em Hong Kong, nos fins dos anos '70. Hui, encarregue de fazer um documentário baseado nesta situação, e após uma série de entrevistas com os fugitivos do regime comunista acerca da queda de Saigão e da vida de então no Vietname, propôs-se a realizar “The Story of Woo Viet”, onde debutava Chow Yun Fat, no papel precisamente de um vietnamita que se refugiava em Hong Kong. Posteriormente, a República Popular da China, daria autorização a Ann Hui para rodar “Boat People” na ilha de Ainan, tornando-se este filme o primeiro de Hong Kong a ser rodado completamente na potência continental, sob o regime comunista. Para quem não sabe, o termo “Boat People”, refere-se aos imigrantes ilegais ou aqueles que procuram asilo num país estrangeiro, e que normalmente usam barcos para chegarem aos seus destinos. A designação teve uma certa afinidade com os vietnamitas, pois o seu êxodo naqueles transportes foi particularmente significativo na época referenciada.

Atendendo à trama e forma como é exposto o regime comunista vietnamita, era de esperar que o filme gerasse alguma controvérsia, tendo sido precisamente o que sucedeu. Considerando que a China tinha travado recentemente, uma curta mas sangrenta guerra com o Vietname, muitos viram “Boat People” como uma propaganda propositada contra este último país. Ann Hui sempre negou este aspecto, enfatizando que o resultado da película baseou-se tão-só nas várias entrevistas com refugiados vietnamitas que manteve em Hong Kong. Igualmente acentuou que os chineses nunca lhe haviam solicitado que orientasse o argumento para a difamação do governo sediado em Hanói. A questão é que até hoje, Hui não se livrou do rótulo de anti-regime vietnamita.

Vítima

Uma vítima jaz sob o estandarte vietnamita”

Efectivamente, o filme faculta um olhar cruel sobre a situação do Vietname pós-guerra e o impacto das reformas do conhecido ditador Ho Chi Minh, sobre o dia-a-dia dos seus conterrâneos. Impera a pobreza e a tirania, que o jornalista “Akutagawa” se apercebe, apesar de alguns esforços dos capangas do regime em esconder a realidade. À medida que o repórter se embrenha cada vez mais no dia-a-dia dos vietnamitas, na cidade de Danang, em especial de uma família com quem trava um conhecimento mais aprofundado, esta visão verdadeiramente aterradora vai tomando forma. E progressivamente vamos nos percebendo as razões daqueles que fogem de um inferno na terra, tendo em vista a procura de uma vida melhor, ou apenas de paz e segurança. Tudo será melhor do que a situação em que vivem actualmente.

Hui dirige o filme com uma mestria de saudar, e faculta-nos diversos momentos fortes e simbólicos. Pense-se nas cenas em que os corpos de pessoas fuziladas, são pilhados pelos seus concidadãos pobres que, mais do que qualquer falta de respeito pelos mortos, querem apenas encontrar algo de valor que os ajude a sobreviver. Mas na realidade, um dos momentos mais fortes e que originaram uma polémica enorme, foi aquela em que o exército vietnamita intercepta um barco de refugiados, e metralha-o impiedosamente, pondo fim à vida de algumas dezenas de pessoas. A realizadora Ann Hui insiste que a situação em concreto foi baseada num evento real, esclarecendo apenas que na sua obra as pessoas são baleadas, enquanto que no acontecimento invocado, o barco foi afundado pelas patrulhas do país da Indochina.

Os actores denotam um trabalho meritório e situado num plano que reputo de elevado. George Lam é credível no papel do jornalista japonês, em busca da verdade e genuinamente preocupado com a miséria do povo vietnamita. Season Ma, enternece no papel jovem de 14 anos, que se vê na contingência de cuidar da família e tudo fazer em prol dela, principalmente do seu irmão mais novo. Na altura, um jovem e desconhecido Andy Lau (sim, esse mesmo!) evidencia que poderia ser um caso sério em Hong Kong. O que é certo é que decorridos 28 anos, Lau é uma das maiores figuras do cinema asiático e do da região administrativa em particular.

Impregnado de humanidade, “Boat People” constitui um filme que facilmente poderá ser acusado de propaganda contra o regime comunista que emergiu vitorioso da guerra do Vietname. O que é certo é que, ao contrário do que alguns dizem, o tempo não consegue apagar tudo e todos nós sabemos, em maior ou menor medida, o quão desumano poderá se tornar uma sociedade marcial, dominada por um poder político ditatorial, que acaba por servir apenas os interesses de alguns. Mesmo questionando-se a mensagem e a veracidade histórica (sempre discutível), estamos perante um bom filme, na tradição de películas fantásticas como “The Killing Fields”, de Roland Joffé. É cru, mas ao mesmo tempo incrivelmente sentimental. Por vezes violento, contém igualmente momentos de uma ternura inesquecível. Atente-se ao epílogo, é centremo-nos no olhar com que “Cam Nuong” fixa no horizonte, à medida que segura no colo o seu pequeno irmão. E se calhar perceberemos minimamente o que é um misto de sonho, expectativa, esperança e algum sofrimento.

A ver com muita atenção!

Cam Nuong e o irmão 2

Cam Nuong fita o horizonte, ao mesmo tempo que embala o irmão mais novo”

imdb 8/10 (128 votos) em 26 de Fevereiro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 8

Argumento – 8

Banda-sonora – 8

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 8

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,13

sábado, outubro 10, 2009

Drunken Master II Aka The Legend of the Drunken Master/Jui kuen II - 醉拳二 (1994)
Origem: Hong Kong
Duração: 99 minutos
Realizadores: Lau Kar Leung e Jackie Chan (não aparece nos créditos finais)
Com: Jackie Chan, Ti Lung, Anita Mui, Felix Wong, Lau Kar Leung, Ken Lo, Chin Kar Lok, Pak Ho Sung, Cheung Chi Kwong, Hon Yee San, Andy Lau, Ho Wing Fong, Liu Chia Yung, Kwan Suki, Louis Rock, Vincent Tuatanne
"Wong Fei Hung"
Sinopse
“Wong Fei Hung” (Jackie Chan) é um jovem que se farta de meter em confusões e trapalhadas, e que tem um pai muito sério e rigoroso, o médico “Wong Kei Ying” (Ti Lung). No regresso a casa de uma viagem que visava comprar ingredientes para as curas do pai, “Fei Hung” inadvertidamente mete-se em mais uma embrulhada. Pelos vistos, o embaixador britânico na China, (Louis Roth) está metido num esquema que passa por exportar relíquias do país extremamente importantes, entre os quais um selo de jade do imperador. Tal comportamento está a ser combatido por nacionalistas e oficiais do governo chinês, nos quais se destaca o general “Fu” (Lau Kar Leung). No meio deste combate sem tréguas, “Fei Hung” é metido na trama.
"Drunken boxing"
O rapaz é um especialista na arte do “drunken boxing”, que potencializa ao máximo quando ingere bebidas alcoólicas em demasia. Infelizmente, o pai é um pacifista e desaprova qualquer tipo de luta, ainda para mais uma que necessita da ingestão de grandes qualidades de álcool para atingir o seu auge. Em consequência deste factor, “Fei Hung” terá de lutar não só contra os estrangeiros opressores, assim como com o antagonismo do progenitor. No entanto, terá na “Sra. Wong” (Anita Mui), a sua madrasta, uma grande aliada.

"Wong Fei Hung e o agente secreto"

"Review"

Quando se alude ao cinema ligado às artes marciais mais tradicionais, existem obras incontornáveis e cuja referência é obrigatória. “Drunken Master II” é uma delas. Após protagonizar o muito satisfatório “Drunken Master”, dezasseis depois Jackie Chan voltaria a envergar as vestes de Wong Fei Hung, o herói popular mais conhecido em e de toda a China. O filme foi extremamente bem sucedido, e esta premissa assume mais importância quando vários críticos, distantes do cinema asiático de artes marciais, elogiaram bastante esta película. Cabe ainda dizer que quando “Drunken Master II” viu a luz do dia, a popularidade das películas de kung fu já estava relativamente a decair, e isso não impediu que esta longa-metragem fosse um verdadeiro sucesso de bilheteira por toda a Ásia. Seis anos mais tarde, no virar do século, o filme viria a estrear em mais de mil salas de cinema nos E.U.A., sob a denominação de “The Legend of Drunken Master”, tendo granjeado alguma popularidade no meio.

Quando visionamos um filme de kung fu, normalmente o argumento é posto de parte (ou simplesmente é ignorado), e o que interessa são as cenas de acção, com especial ênfase para o domínio das técnicas de artes marciais. Estando em causa um filme de Jackie Chan, estas premissas são ainda mais elevadas. “Drunken Master II” não foge à regra, simplesmente distingue-se das demais películas, por demonstrar um Jackie Chan no seu auge, tanto nas coreografias bastante imaginativas, como nas demais acções levadas a cabo pelo próprio actor e pela sua equipa de duplos. Existe quem defenda que “Drunken Master II” foi a melhor película alguma vez protagonizada por Chan. Embora tal seja discutível, julga-se que quem afirma isto não andará muito longe da verdade. Certo é que “Drunken Master II” vive sob o signo do puro entretenimento, e com cenas de antologia, que viverão no imaginário dos fãs de artes marciais durante muito tempo.


"O general Fu"

O “drunken boxing” é algo bastante divertido de observar e que exterioriza a junção quase perfeita do insuspeito domínio de Chan nas artes marciais, com a sua veia mais cómica que muitas vezes critico negativamente. Como já foi aflorado, a personagem de Chan é especialista num estilo de kung fu que pouco tem de convencional. Deparando-se “Fei Hung” com a necessidade de enfrentar algum oponente, a sua salvação reside em embebedar-se. Após a ingestão de grandes quantidades de bebidas alcoólicas, mais do que um ser humano normal poderá aguentar, começa o desfile das excelentes coreografias. Quando Chan parece ir estatelar-se no chão, atira um soco ou um pontapé bem colocado nos adversários. Se Chan parece estar completamente desnorteado devido à bebedeira, é sinal que uma acrobacia incrível estará a caminho. Por incrível que pareça, a principal marca desta película originou uma incompatibilidade entre Lau Kar Leung, que defendia a existência de um kung fu mais tradicional nesta obra, e Chan, que achava que se deveria apostar muito mais no “drunken boxing”, por ser a marca distintiva desta longa-metragem. Leung viria a abandonar a rodagem das filmagens, e seria Chan a dirigir o embate final que ocorre no epílogo. O tempo viria a dar razão a Chan, pois além de efectivamente “Drunken Master” ter sido bem sucedido sobretudo pelo estilo original de luta que apresentava, o combate final é um hino ao bom cinema de artes marciais.

Os actores, regra geral, cumprem o que lhes é requisitado. No entanto, o actor Ti Lung é bastante jovem para representar o pai de Chan, e a caracterização (?) não consegue disfarçar este aspecto. Na realidade, Ti Lung é apenas sete anos mais velho do que Chan. A malograda e saudosa Anita Mui, é quem assume, juntamente com Chan, as despesas cómicas do filme e consegue arrancar alguns momentos de boa disposição. Quanto a Chan, o que haverá a dizer de novo? Não morro de amores pelo actor, como é do conhecimento geral, mas ele aqui está numa forma fantástica desde que se reduza a fazer o que sabe melhor, a sua imaginação nas coreografias de artes marciais. Neste particular, julgo que o “drunken boxing” constituiu o seu auge.

“Drunken Master II” poderá ser considerada, com muita propriedade, uma das melhores obras do cinema de artes marciais. Obrigatório para os fãs do género!


"Wong Fei Hung e a madrasta"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8




quinta-feira, junho 18, 2009

The Warlords - Irmãos de Sangue/The Warlords/Tau ming chong - 投名状 (2007)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 127 minutos

Realizador: Peter Chan e Raymond Yip (co-realizador)

Com: Jet Li, Andy Lau, Takeshi Kaneshiro, Xu Jinglei, Guo Xiao Dong, Shi Zhao Qi, Wang Kuirong, Wang Yachao, Gu Bao Ming, Guo Xiaodong, Zhou Bo

"Pang"

Sinopse

Na China do século XIX, a rebelião dos cristãos Taiping imergiu o reino Qing no caos. O general “Pang” (Jet Li) é o único sobrevivente de uma batalha com os opositores ao imperador, fingindo-se de morto entre os corpos dos homens que comandava. A sua vergonha e covardia perseguem-no, mas “Pang” encontra coragem e redenção numa noite que passa com “Lian” (Xu Jinglei). Esta parte pela manhã, sem deixar pistas acerca do seu destino.

“Pang” parte outra vez sem direcção, até travar conhecimento com “Wu Yang” (Takeshi Kaneshiro), um jovem salteador que é liderado por “Er Hu” (Andy Lau). Os bandidos ganham a vida roubando comida aos soldados e, por vezes, assassinando-os. Demonstrando que tem capacidades de luta muito acima da média, “Pang” junta-se ao grupo de “Er Hu”, ficando chocado quando descobre que “Lian” é a mulher daquele. Quando a aldeia chefiada por “Er Hu” é saqueada pelo exército “Qing”, a ameaça de fome torna-se bastante elevada. Contudo, “Pang” sugere que os salteadores se alistem como soldados, de forma a que possam ter comida, dinheiro e porventura fama e heroísmo.


"Er-Hu"

“Er Hu” e “Wu Yang” concordam, mas atendendo a que “Pang” é novo no grupo, insistem em fazer um juramento conjunto, de forma a assegurar a sua lealdade. Em virtude deste facto, tornam-se irmãos de sangue, unidos por um pacto inquebrável, cuja violação dará direito à morte. Cedo, o grupo começa a ganhar notoriedade, devido a importantes batalhas que conseguem vencer contra os Taiping. No entanto, a amoralidade da guerra, a traição advinda da política e a paixão que tanto “Er Hu” como “Pang” nutrem por “Lian”, irão pôr em causa a amizade assumida pelos três heróis.


"Wu Yang"

"Review"

De há dois anos para cá, confesso que “The Warlords” foi dos filmes que geraram mais expectativas na minha pessoa, fundamentalmente por dois aspectos: é um épico de guerra e possui um “cast” fortíssimo, onde pontificam três dos meus actores asiáticos favoritos. Profusamente premiado em variadíssimos festivais de cinema asiático, Peter Chan para levar a cabo esta empresa baseou-se no clássico “Blood Brothers”, filme que remonta a 1973, assinado por Chang Cheh. O filme impressiona pela sua grandiosidade, e detém mesmo alguns momentos de tirar a respiração. Contudo, não se encontra isento de aspectos menos bons e que a certa altura defraudam um pouco. Diga-se de passagem, e repito, que a obra estava tabelada por cima e o anseio era elevado.

Em Hong Kong, Peter Chan é mais conhecido pelo seu especial jeito para as longas-metragens que lidam mais com o romance, embora já tenha tido incursões por outros géneros. À primeira vista, julgo que o exemplo mais emblemático passará por “Comrades: Almost a Love Story”. Apesar de “The Warlords” ser um épico, não deixa de ter bem presente uma faceta desenvolvida no tocante à história de amor. Os caminhos escolhidos enveredam muito mais pelo platonismo, do que propriamente pela parte mais física da relação, fazendo com que nos apercebamos crescentemente que “Lian” a mulher de “Er Hu”, será uma das causas principais para que a irmandade sofra um abalo. Desde já se iliba “Lian” de alguma actuação maléfica ou propositada para que tal suceda. As coisas simplesmente tomam o rumo que lhes está destinado. No que toca à amizade supostamente existida entre os três vectores do triângulo do pacto, a mesma não convence muito. “Pang” e “Er Hu” estão demasiado agarrados aos seus códigos de honra e objectivos pessoais. Quanto a “Wu Yang”, o mesmo parece um ser ingénuo, que precisa de orientação. Não se sabe muito bem é onde ele a irá buscar. Os únicos reflexos sintomáticos, embora algo desajustados face ao referido anteriormente, passa pela união dos três guerreiros numa batalha que parece estar irremediavelmente perdida, assim como a tentativa de “Er Hu” de salvar um “Pang” supostamente em perigo de vida. O que é um facto é que parece existir alguma falta de densidade, segurança e equilíbrio narrativo. Prova disto é que na parte final do filme, este dá um volte-face repentino e abrupto, saindo do campo do épico com cenas de acção memoráveis, e entrando na zona da intriga palaciana e da consumação da traição. Existe uma omissão no que concerne a uma ponte de ligação entre estas duas fases.

"Pang caminha sobre a morte"

Outro aspecto que carecia de algum melhoramento, passa pela explicação mais científica e histórica acerca da época em que ocorre a trama. Isto com certeza irá reflectir-se mais perante a audiência ocidental, da qual eu e a maior parte dos que visitam este espaço fazem parte. A rebelião Taiping, que se iniciou em 1850 e prolongou-se por 14 anos, teve muito de cultural e ideológico. Resumidamente, estamos a falar de uma revolta liderada por Hong Xiuqian, um chinês convertido ao cristianismo, e que visou criar um suposto reino que professasse aquela ideologia. Xiuqian desencadeou uma luta contra o império Qing, tendo-se auto-proclamado rei divino e irmão de Jesus Cristo. Tudo viria a ter um fim com a vitória dos exércitos do imperador em 1864. Ora na película, nada disto é explicado e apenas é induzido através de alguma simbologia como as cruzes de cristo. Existe uma claro focar nos temas da guerra, irmandade e romance, algumas vezes com bons resultados, outras assim-assim. A aposta pareceu, à primeira vista, numa maior internacionalização desta longa-metragem, visando agradar o público estrangeiro. Julgo, pelas razões que expliquei, que o desafio não foi completamente ganho pela perda de profundidade em que resultou.

Visualmente, o filme é muito excitante. Existem cenas de batalha excepcionais, muito sangue e algum realismo brutal, embora por outra via se tenha de admitir um certo exagero em nome do aumento da espectacularidade. Pense-se em Jet Li de uma assentada a cortar os pés a cinco ou seis oponentes. No tocante às paisagens, não nos é oferecido as verdejantes florestas de bambu de “O Tigre e o Dragão”, O Segredo dos Punhais Voadores” e tantos outros. Igualmente, não existe a sumptuosidade de “A Maldição da Flor Dourada”, ou o mundo de cores de “Herói”. O que nos é oferecido são desertos e cenas desoladas pela guerra implacável, num registo que de certa forma se aproxima um pouco de “Ashes of Time”. No entanto, a beleza árida ou crua de “The Warlords” não é nada inferior aos mencionados exemplos. Simplesmente, manifesta-se de uma forma diversa, mas muito pungente. No que concerne à actuação dos actores, julgo que os maiores créditos terão de ser atribuídos a Jet Li, e não devido à parte mais física da interpretação, pois “The Warlords” não é uma típica obra de artes marciais ou “Wuxia”. Jet Li desempenha muito bem o seu papel de homem amargurado pela derrota até à ascensão na hierarquia da dinastia Qing, podendo actualmente considerar-se um actor completo. Domina bem a expressividade, que está bastante talhada para papéis mais circunspectos, e sabe expôr verbalmente as suas emoções. Li foi, sem dúvida alguma, um actor que evoluiu imenso durante os últimos anos e cuja melhoria neste aspecto começou-se a notar mais a partir de “Herói”. Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, à partida, sentem-se mais à vontade no tocante à representação mais tradicional. Contudo, aqui pedem meças a Li. Lau não tem oportunidade para evidenciar os seus inquestionáveis méritos como actor, e não parece se sentir muito à vontade num papel importante, mas um tanto ou quanto relativizado em relação a Li. Kaneshiro, por outra via, só desponta quando passeia a sua faceta de menino bonito do cinema asiático, que faz suspirar as moças todas. Não quero com isto dizer que Kaneshiro não é um actor de nomeada. Muito pelo contrário. Simplesmente aqui não mostra o que já evidenciou em muitos outros filmes.

Apesar de ser um épico de pendor belicista, “The Warlords” tem uma clara mensagem contra a guerra, dando a entender que um conflito em grande escala, não apenas espalha miséria a título global, mas também marca o mundo pessoal de cada um. Sendo uma obra de Peter Chan, é inevitável que não se consiga desligar dos aspectos mais sentimentais. Trata-se de uma película que será bastante consensual, mesmo para aqueles que não estão familiarizados com o cinema asiático. Apesar de ter méritos inegáveis e ser passível de considerarmos um bom filme, confesso mesmo assim, que estava à espera de algo mais.

A ver!

"Wu Yang ergue a cabeça de um inimigo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





segunda-feira, março 23, 2009

Needing You.../Goo naam gwa neui - 孤男寡女 (2000)

Origem: Hong Kong

Duração: 103 minutos

Realizador: Johnnie To e Wai Ka Fai

Com: Andy Lau, Sammi Cheng, Fiona Leung, Raymond Wong, Hui Siu Hung, Lam Suet, Gabriel Harrison, Florence Kwok, Henry Yu, Sam Sam, Vanessa Chu

"Andy Cheung"

Sinopse

“Andy Cheung” (Andy Lau) é um “playboy” inveterado, cuja vida se resume a engatar bonitas raparigas e a ser um executivo de sucesso numa empresa de venda de componentes electrónicos em Hong Kong. Por sua vez, “Kinki” (Sammi Cheng), é uma jovem rapariga que não costuma ter sorte nos relacionamentos amorosos. O exemplo mais recente deste facto é “Kinki” descobrir que o seu namorado “Dan” (Gabriel Harrison) a trai com outra.

Quando “Kinki” vai trabalhar para a empresa de “Andy”, um conflito estala entre ambos, com o executivo a achar a rapariga uma péssima funcionária, que é incapaz de fazer algo de correcto. Posteriormente, “Andy” acaba por se aperceber de algumas qualidades pessoais e profissionais de “Kinki”, tais como a sua bondade e ética laboral. Com o aprofundamento da amizade, “Andy” acaba por se aperceber da má sorte de “Kinki” no campo sentimental, e tenta ajudá-la neste aspecto.

"Kinki"

“Kinki” parece finalmente ter encontrado o rapaz ideal na pessoa de “Roger” (Raymond Wong), um bem sucedido empresário da indústria informática. Acontece que “Andy” apercebe-se que na realidade a sua amizade e compaixão por “Kinki”, é amor. Será que é tarde demais?

"Kinki e Andy Cheung"

"Review"

“Needing You...” constitui mais um esforço da “MilkyWay Image”, consubstanciada na costumeira dupla Johnnie To e Wai Ka Fai, mas desta vez os realizadores põem de parte os filmes de acção genericamente ligados às tríades, e navegam pelas águas da comédia romântica. O filme foi um sucesso comercial de monta, muito por culpa dos actores que representam o par do filme, e que constituem duas das estrelas mais cintilantes de Hong Kong.

Com todo o respeito que tenho por Johnnie To e Wai Ka Fai, indubitavelmente dois dos autores com mais mérito no panorama da cinematografia asiática, “Needing You...” está longe de ser a película fabulosa como alguns parecem fazer crer. Trata-se de um típico filme romântico, a milhas de distância de qualquer resquício de inovação ou dotado de aspectos que possamos reputar de memoráveis. Inclusive possui uma faceta surrealista muito pindérica, que em nada abona ou ajuda os espectadores mais esclarecidos, que procuram visionar uma longa-metragem com substância. Sejamos sinceros e o mais directos possível: É meloso e cor-de-rosa ao máximo!!!

Contudo sempre se poderá afirmar que possui alguma comédia bem conseguida, e um ou outro momento enternecedor que é capaz de captar a nossa atenção. Ressalta-se a sátira ao local de trabalho dos intervenientes onde a “bilhardice” (termo madeirense para coscuvilhice) dita a lei, e um simples movimento ou frase mal interpretada, pode dar origem a um rastilho de deturpações e subsequentemente a uma verdadeira explosão. Quem trabalha numa estrutura organizada percebe bem o que estou a dizer, e quanto maior ela for, mais poderoso se torna o impacto de um boato! Outros aspecto interessante desta película, passa por podermos observar o quotidiano de uma Hong Kong extremamente contemporânea e moderna, o que no que toca a películas de cinema, constitui sempre um factor bastante apelativo para a minha pessoa. O casal Andy Lau/Sammi Cheng tem uma boa química, e os momentos românticos quando resultam, muito se deve ao trabalho dos actores. “Needing You...” acabaria por ser o grande catalisador para a fama que Sammi Cheng possui actualmente, pois apesar de a actriz ter entrado em filmes anteriores, o seu protagonismo até então devia-se praticamente à sua carreira como estrela do “cantopop”. Igualmente constituiria a primeira vez em que Lau e Cheng contracenariam, tendo até à presente data mais seis participações conjuntas, entre as quais “Infiltrados”.

"Em busca do amuleto do amor"

Quando observamos “Needing You...”, ficamos com a sensação que o mesmo foi uma proposta elaborada de forma propositadamente comercial, tendo em vista a angariação de verbas para aplicar em outras produções ditas mais “sérias” e inventivas. Fez-me buscar memórias ao baú das recordações, quando uma banda de “heavy metal” de uns amigos meus, tocava músicas “pimba” nos arraiais, de maneira a arranjar dinheiro para poderem continuar com o seu projecto principal. Esta longa-metragem encontra-se bastante longe de constituir uma obra assinalável, sendo mesmo um filme muito mediano em certos aspectos, que apenas satisfará plenamente aqueles indefectíveis da comédia romântica, que se contentam com pouco. Infelizmente, o administrador deste blogue ainda não aprendeu a dizer não às lamechices, pelo que no item “gosto pessoal” leva um sete muito “puxadinho”...

Razoável!

"No meio da papelada"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Música "Love Line", interpretada por Sammi Cheng (contém cenas do filme)

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,25





sábado, janeiro 24, 2009

Infiltrados III/Infernal Affairs III/Mou gaan dou III: Jung gik mou gaan - 無間道III: 終極無間

Origem: Hong Kong


Duração: 113 minutos


Realizadores: Andrew Lau e Alan Mak


Com: Tony Leung Chiu Wai, Andy Lau, Leon Lai, Kelly Chen, Daoming Chen, Eric Tsang, Anthony Wong, Chapman To, Berg Ng, Carina Lau, Sammi Cheng, Wan Chi Keung, Shawn Yue, Edison Chen, Gordon Lam, Waise Lee, Wan Yeung Ming


Atenção! Spoilers!!!


O presente texto diz respeito ao terceiro filme da conhecida saga de Hong Kong, denominada “Infiltrados – Infernal Affairs”. Pelo exposto, só deverá continuar a leitura caso tenha visto as duas primeiras películas, que possuem textos no “My Asian Movies”, AQUI e AQUI.


"Yan"


Sinopse

“Lau Ming” (Andy Lau) é ilibado de qualquer suspeita que recaia sobre si, respeitante à morte de “Yan” (Tony Leung Chiu Wai), o agente que a polícia tinha infiltrado na tríade de “Sam” (Eric Tsang). No entanto, a calma parece não ter chegado à sua vida, pois existem umas cassetes comprometedoras que contêm conversas entre as “toupeiras” da tríade e o seu líder “Sam”. Para piorar a situação, as gravações estão na posse de “Yeung” (Leon Lai), um inteligente inspector que desconfia das actuações de “Lau”.


"A Dra. Lee mira Yan"

“Lau” tenta provocar uma reviravolta, e voltar as suspeitas para o próprio “Yeung”, aproveitando as ligações obscuras que este mantém com “Shen” (Chen Daoming), um líder criminoso chinês. Paralelamente, somos confrontados com a vivência de “Yan” seis meses antes da sua morte, e a sua luta para sobreviver dentro da tríade, numa altura em que “Sam” parece desconfiar das verdadeiras intenções da toupeira da polícia. “Yan” trava conhecimento com “Yeung” e “Shen”, tendo contacto com revelações surpreendentes.


"O inspector Lau Ming"


"Review"

Como é do conhecimento daqueles que estão por dentro das lides do cinema oriental, Hong Kong tem uma profícua história de aproveitamento ao máximo de uma fórmula de sucesso. Esta premissa não é necessariamente positiva, pois muitas vezes embarca-se num deserto ou numa má exploração de ideias e ficamos com a sensação de que as sequelas nada trazem de novo, ou inovam de uma maneira que desilude os espectadores. Afinal quantas vezes é que pensamos ou ouvimos dizer expressões como “deviam ter ficado pelo primeiro filme”. No caso de “Infiltrados”, desnecessário será dissertar acerca da excelência da primeira longa-metragem. A segunda película, embora não estando ao nível da sua predecessora, constituiu um bom exercício da sétima arte. Chegamos pois à terceira e última obra. Que dizer então deste filme ?

O aspecto que à partida chamará mais à atenção é a verdadeira constelação de estrelas que constam do elenco. Em “Infiltrados III”, temos o retorno dos dois “monstros” de Hong Kong, Tony Leung Chiu Wain e Andy Lau. O regresso do primeiro é apenas possibilitado pela opção argumentativa de contar duas histórias em paralelo, intervindo “Yan” numa delas que ocorre seis meses antes da sua morte. Sem curarmos dos conhecidos Eric Tsang, Anthony Wong, Kelly Chen e muitos mais, temos a adição do “quebra-corações” Leon Lai e do emblemático Daoming Chen (que representou o imperador Qin em “Herói”). Com uma equipa tão forte como a reunida para este filme, seria quase impossível que os aspectos interpretativos não tivessem uma bitola elevada. Andy Lau destila classe pela película toda, factor que seria reconhecido pela crítica ao vencer o ´prémio para melhor actor na 41ª edição dos “Golden Horse Awards”. O chamamento às armas de Leon Lai e Daoming Chen foi bastante feliz, pois ambos enquadram-se muto bem na aura de “Infiltrados III”, com Lai a revelar-se um rival frio de Lau e perfeitamente à altura deste. Tony Leung é obrigado a evidenciar uma faceta mais romântica, que embora não lhe corra mal, destoa claramente do conturbado “Yan” que tão bem representou na primeira parte da saga.


"Shen"

Com efeito, a verdadeira utilidade de “Infiltrados III” será descobrirmos o destino final de “Lau”, e apercebermo-nos se efectivamente ele foi bem sucedido na sua redenção. E para entendermos bem a importância deste aspecto, convém nunca esquecer que apesar de “Lau” ser um infiltrado na polícia, a meio do caminho decide passar para o lado da lei e deixar para trás o seu passado criminoso. Simplesmente, a via pela qual optou foi a dissimulação, tentando apagar todas as provas que o ligassem à máfia local, mesmo que para o efeito tivesse de matar. Não houve uma escolha pela franqueza, em que “Lau” se revelaria às forças de autoridade como uma “toupeira” e arcasse as consequências por tal facto. Ele apercebe-se do seu ilícito modo de vida, e tenta começar de novo de uma forma imoral. No fundo, continua a ser uma pessoa que vive à margem da lei, mas de outra perspectiva. E, salvo melhor opinião, era neste campo que “Infiltrados III” deveria ter permanecido. O “flashback” prolongado relativamente a um período anterior à morte de “Yan”, essencialmente serve para percebermos onde Kelly Chen se situa na história (mesmo assim, torna-se uma adição discutível), e principalmente para entendermos a importância de “Yeung” e “Shen” no destino tanto de “Yan”, como de “Lau”. Mas o facto indiscutível, que serve para retirar alguma força ao filme, é nunca conseguirmos superar um facto evidente...”Yan” está morto e já não temos o herói incompreendido e trágico , que tanto apreciamos e a quem nos possamos agarrar. Deveriam deixá-lo a descansar em paz, a gozar o eterno sonho dos heróis anónimos. A persistência em focar mais alguns aspectos do passado de “Yan”, torna-se perigosa no campo das contradições. Se bem me recordo, “Sam” tinha uma confiança praticamente inabalável no infiltrado da polícia aquando da época em que o mesmo falece. Neste recuar, que recordo ser seis meses antes do trágico evento de “Infiltrados”, o modo de agir de “Yan” não cai nas boas graças de “Sam” e este frequentemente entrega-lhe missões que revelam ser autênticas armadilhas, algumas até mortais. Ora, este aspecto não se enquadra muito bem na trama, e quanto ao aparecimento de Carina Lau, no epílogo da película, prefiro nem sequer me pronunciar. Quem visionou “Infiltrados II”, percebe perfeitamente o que estou a dizer, pois “Mary Hon”, a mulher do “gangster” “Sam”, tinha falecido! Lembram-se a razão? Um atropelamento engendrado por um rival de “Sam”!!!

“Infiltrados III” é uma obra que poderá acima de tudo ser discutida quanto à sua própria razão de existir, que do meu ponto de vista se reconduzirá a termos contacto com o destino final de “Lau”. O único aspecto que não oferece grande margem de contenda para a maior parte dos cinéfilos, será a constatação que é o capítulo mais fraco da trilogia. Mas daí a responsabilidade de competir com as duas magníficas obras anteriores, para além do facto de ter sido realizada apenas três meses após a segunda parte, não era um facto fácil de superar. Contudo, os elementos que deram sucesso aos filmes predecessores estão todos lá, desde o costumeiro e interessante jogo do “gato e do rato”, até à aura ultra psicológica e depressiva que corre toda a película, aliviada desta vez com uma exploração um pouco mais intensiva do romance.

Um filme razoável, que deverá ser conferido sem alimentar expectativas desmesuradas!


"O superintendente Yeung"


Trailer


The Internet Movie Database (IMDb) link


Outras críticas em português:




Avaliação:


Entretenimento - 7


Interpretação - 8


Argumento - 7


Banda-sonora - 8


Guarda-roupa e adereços - 8


Emotividade - 8


Mérito artístico - 7


Gosto pessoal do "M.A.M." - 7


Classificação final: 7,50









quinta-feira, novembro 20, 2008

As Tears Go By/Wong gok ka moon - 旺角卡 (1988)

Origem: Hong Kong

Duração: 98 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Andy Lau, Maggie Cheung, Jacky Cheung, Alex Man, Ronald Wong, William Chang, Kau Lam

"Wah"

Sinopse

“Wah” (Andy Lau) é um “gangster” de Hong Kong, cuja vida já correu melhor. A sua namorada fez um aborto sem ele saber, conduzindo desta forma ao fim de uma relação de seis anos. Acresce o facto do seu extemporâneo amigo “Fly” (Jacky Cheung) estar sempre a arranjar problemas, tendo “Wah” invariavelmente que resgatá-lo dos sarilhos em que se mete.

A vida de “Wah” sofre um abalo positivo quando “Ngor” (Maggie Cheung), uma prima que desconhece proveniente da ilha de Lantau, necessita de passar uns dias em Hong Kong, de forma a consultar um médico devido a uma doença pneumológica. Um romance desencadeia-se entre os dois e após “Ngor” retornar a Lantau, “Wah” decide perseguir a sua paixão e deixar os seus dias de criminoso para trás.

"Ngor"

Contudo, “Fly” farto de ser um “zé-ninguém” dentro da tríade, desencadeia um perigoso conflito com “Tony” (Alex Man) para além de aceitar um perigoso trabalho que parece estar votado ao fracasso. “Wah”, em nome da grande amizade que nutre por “Fly”, não tem escolha senão retornar a Kowloon e tentar salvar o jovem irreflectido. À partida de Lantau, “Wah” assegura a “Ngor” que retornará. No entanto, tal parece ser uma promessa difícil de cumprir.

"Fly"

"Review"

“As Tears Go By” foi a película de estreia do conhecedíssimo realizador Wong Kar Wai, e passados 20 anos continua a ser o seu sucesso comercial com maior relevância em Hong Kong, segundo rezam as estatísticas. A razão talvez passe por ser a longa-metragem mais acessível e menos esotérica do realizador, pelo menos das que eu tive a oportunidade de visionar. Como faltam pouquíssimos filmes (a nível das fitas de longa duração) deste autor para que eu possa deter um conhecimento quase total da sua obra, julgo que não andarei muito longe da verdade. Quase certo é que para a maior parte dos fãs de Wong Kar Wai é um filme primário, em nada se comparando com os trabalhos posteriores; para o apreciador não tão familiarizado com os trabalhos deste autor, “As Tears Go By” constituirá uma película apelativa que deslumbrará em vários momentos. Cabe-me a mim agora tomar uma posição por mais humilde ou superficial que seja.

Apesar de “As Tears Go By” ser marcado por vezes por alguma ingenuidade, são visíveis as marcas distintivas mais técnicas que iriam enformar o cinema de Kar Wai no futuro, e que muitos de nós conhecemos e apreciamos. É reconhecido que subjaz a esta obra alguns traços comuns do cinema de Hong Kong – versão anos 80, mormente na sua vertente de filme de tríade, a que está inerente a correlativa violência. Mas à semelhança de seis anos mais tarde, Kar Wai com “Ashes of Time”, ter dado corpo a um wuxia que se afastou bastante do protótipo do género, com “As Tears Go By”, as características do filme de acção acabam por ser algo secundarizadas perante a exploração de sentimentos e motivações pessoais dos intervenientes. Para além do mais, já se vislumbram os pormenores estéticos deliciosos, assim como uma preocupação com o detalhe e com a ambiência urbana. O realizador é um poeta estético, e aqui já nos é dado a a oferecer passagens emblemáticas a nível de imagem tal como aquela que nos é facultada no início do filme onde o bulício de Hong Kong e a sua forte carga de néon é explanada através do reflexo num conjunto de ecrãs de televisão. A mesma cena viria, sintomaticamente, a repetir-se num período posterior da película. A fotografia aqui ainda não estava a cargo do fantástico Christopher Doyle, companheiro de futuras andanças de Kar Wai. Neste prelúdio da sua carreira, o realizador socorrer-se-ia de outro colega de profissão, o conhecido Andrew Lau que muitos anos mais tarde seria co-autor de “Infiltrados”. Está lá também o costumeiro “slow motion” e o “slow pace”, que Kar Wai tanto celebra e que visa de algum modo potenciar melhor a sua mensagem e possibilitar a apreensão máxima do seu estilo visual, criativo e introspectivo.

"Beijo"

Sendo eu um fã de cinema algo permeável ao romance e ao tema da redenção falhada, com a subsequente exploração das suas diversas facetas, ver um filme de Kar Wai significará à partida um exercício significativo de prazer e reflexão. Em “As Tears Go By”, não haverá lugar para desilusões neste campo, nem que seja pelo facto de ser exposto um dos beijos mais românticos de sempre e que por esse mesmo motivo é capa de quase todas as edições e cartazes do filme. Os protagonistas são um dos duos emblemáticos da história do cinema asiático, os então jovens Andy Lau e Maggie Cheung, embora se reconheça que as futuras parelhas Leslie Cheung/Maggie Cheung, ou Tony Leung Chiu Wai/Maggie Cheung (sempre a Maggie!!!) tenham uma envolvência porventura superior. Retornando à estonteante cena, a mesma é acompanhada sonoramente por uma não tão boa (mas não sei porquê, assenta às mil maravilhas na sequência toda) versão de “cantopop” de “Take My Breath Away”, a música dos Berlin, que seria popularizada por “Top Gun” do realizador Tony Scott, onde despontaram Tom Cruise, Kelly McGillis e Val Kilmer. Sendo um filme de Kar Wai, mesmo que no início da carreira, possui um cunho sentimental bastante próprio, discreto do ponto de vista mais físico (com a excepção do afamado beijo e uma ou outra cena dispersa) mas nem por isso menos revelador da pujança apaixonada dos intervenientes. Somos perfeitamente capazes de sentir todo o manancial de emoções transmitidas pelo casal Lau/Cheung, que nos proporcionam momentos de actuação significativos e que demonstram a sua qualidade quase intrínseca como bons actores. O tempo daria razão à qualidade dos intérpretes, que quer se goste, quer se critique negativamente, anos mais tarde tornar-se-iam em dois “monstros” sagrados do panorama de Hong Kong, e porque não assumi-lo, internacional.

Sendo muitas vezes associado a “Mean Streets” (em Portugal recebeu o título de “Os Cavaleiros do Asfalto”), de Martin Scorsese, e apontado como uma inspiração primordial para esta obra de Wong Kar Wai, “As Tears Go By” é um filme que possui méritos inolvidáveis e, como referi acima, já demonstrava um pouco do que seria o cunho do realizador no futuro. É certo que em algumas alturas não consegue fugir a alguns “clichés” e estereótipos próprios do cinema de Hong Kong de então, não se podendo comparar na parte mais pro-activa às obras de John Woo. Não se nega igualmente que porventura estará longe de ser das longas-metragens mais bem executadas do realizador. Mas igualmente se costuma dizer que na “meninice” e no começo de uma vida, de uma história ou de uma carreira, é que se encontra a virtude e esta manifesta-se na inocência e nos primeiros passos, ainda que inseguros. “As Tears Go By” é a expressão inicial de amor pelo cinema manifestada por Wong Kar Wai, e como qualquer primeira paixão, existem sempre características únicas e marcas que ficam.É uma película para os menos exigentes e que cedem perante as primeiras impressões, mas igualmente para os apaixonados. E uma coisa é certa. Para além daquele beijo portentoso, que transpira fulgor e sentimento por todos os poros, é impossível esquecer a expressão de Andy Lau num epílogo convulsivo e lancinante. São estes pormenores que marcam qualquer cinéfilo que se preze como tal, ou simplesmente um amante da beleza.

A não perder!

"A vingança de Wah"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

  1. Contracampo

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quinta-feira, abril 17, 2008

Jiang Hu - Irmãos de Sangue/Jiang Hu - Blood Brothers/Gong Wu -
江湖 (2004)

Origem: Hong Kong

Duração: 82 minutos

Realizador: Wong Ching Po

Com: Andy Lau, Jacky Cheung, Shawn Yue, Edison Chen, Chapman To, Jacqueline Wu, Eric Tsang, Norman Tsui, Miu Kiu Wai, Gordon Lam, Gia Lin, Lam Suet, Kara Hui, Xiao Hai, Ha Ping, Tony Ho, Iris Wong, Donna Chu

"Hung e Esquerdino"

Sinopse

Na noite em que a sua mulher (Jacqueline Wu) dá luz a um filho, “Hung” (Andy Lau), um chefe de uma poderosa tríade de Hong Kong, apercebe-se que a sua vida mudou. O seu melhor amigo e homem de confiança “Esquerdino” (Jacky Cheung), tenta convencer “Hung” a se exilar nas Filipinas com a família, e a entregar-lhe a liderança da organização.

“Esquerdino”, confiante que “Hung” acederá aos seus desejos, manda assassinar outros 3 líderes das tríades, de forma a que o seu reino seja total e indisputado. “Hung” descobre os objectivos de “Esquerdino”, e por sua vez tenta boicotar os planos de assalto ao poder daquele. Ao mesmo tempo, é dado a conhecer a “Hung” que nas próximas doze horas alguém tentará matá-lo. Como o homicídio foi encomendado a uma pessoa completamente desconhecida, “Hung” não tem outro remédio senão aguardar pelo assassino, em ordem a eliminá-lo.

"Yik e Yoyo"

Paralelamente e numa esfera muito mais modesta de criminalidade, dois jovens delinquentes chamados“Yik” (Shawn Yue) e “Turbo” (Edison Chen), tentam singrar no submundo de Hong Kong, sendo-lhes encomendado um assassinato de um poderoso chefe mafioso. A tarefa parece ser praticamente impossível, mas “Yik” está determinado a provar o seu valor e levar o trabalho até ao fim.

As ruas de Hong Kong estão em tumulto, e prontas a reclamar vítimas...

"Turbo em dificuldades"

"Review"

O merecido sucesso do fenomenal “Infiltrados” e das suas duas sequelas, deram um inspirante fôlego aos filmes de tríades “made in Hong Kong”. “Jiang Hu – Irmãos de Sangue”, é um dos filhos da prole de “Infiltrados”, dando-se inclusive ao verdadeiro luxo de repetir alguns dos actores que pontificaram naquela obra-prima do bom cinema. Falamos de Andy Lau, Eric Tsang, Shawn Yue, Edison Chen e Chapman To, grandes figuras da cena cinéfila daquelas paragens, em especial os dois primeiros. Junte-se o consagrado Jacky Cheung, que não contracenava com Andy Lau desde “As Tears Go By”, de Wong Kar Wai, e teremos um grupo extremamente forte, seguro e coeso, que prometia um filme de qualidade acima da média.

Mais vale ir directo ao assunto, e afirmar desde logo que algo não correu bem. Também convém ser sincero e assumir, sem qualquer tipo de rodeio, que a opinião aqui veiculada sobre “Irmãos de Sangue” é claramente minoritária. A grande maioria daqueles que na net se dedicam ao cinema asiático, pugnam pela elevação da obra.

A fórmula do jovem que quer ascender no mundo do crime organizado, ao mesmo tempo que um chefe consolidado enfrenta a sua decadência está gasta. Foi um uso e abuso de uma ideia de sucesso, que acabaria por redundar na sua inevitável saturação. Existem até filmes que gozam com este tipo de argumento, tais como “Jiang Hu – The Triad Zone”, com Tony Leung Ka Fai. “Irmãos de Sangue” acaba por bater na mesma tecla, embora de uma forma mais intimista. Eu não digo que a intenção não fosse boa, e até existem momentos do filme que prometem algo de distinto no sentido positivo. Prometem...nunca concretizam.

"Esquerdino enfrenta o perigo à chuva"

A duração da película, diga-se em abono da verdade, não ajuda muito. Uns míseros 82 minutos (regra geral, com várias excepções, gosto dos mais ou menos dos filmes com 120 minutos), não dão para grande coisa. Mas é preciso reconhecer que o tempo limitado, poderá muitas vezes ajudar a distinguir um bom realizador (e a sua equipa é claro), doutro mediano ou medíocre. A capacidade de separar o essencial do acessório, é uma virtude da vida em geral, e do cinema em particular. Tal não constitui segredo para ninguém, nem eu descobri a pólvora de certeza. No entanto, quando temos uma “longa-metragem” (será ?), em que muitos desses tais 82 minutos são feitos de “slow motion” e aposta na estética em geral, é quase certo que não restará bastante para contar. Claro que temos os diálogos mantidos entre “Hung” e “Esquerdino” durante um jantar a dois, que têm o condão de serem algo insípidos, retirando uma ou outra parte que nos desperta o interesse. Não existindo uma boa gestão do escasso tempo disponível, a necessária empatia que temos de criar com as personagens sai deveras prejudicada. A certa altura, estava a focar as minhas esperanças, qual bóia de salvação, no relacionamento entre “Yik” e a prostituta “Yoyo” (interpretada pela actriz Gia Lin). Existem cenas bem conseguidas entre ambos, e que apelam para o nosso sentimento (significativo aquele abraço numa rua deserta à noite). Contudo, tal prazer é fugaz, e entrámos outra vez no marasmo e no desinteressante.

É certo que existe alguma acção que é de relevar. Com certeza que a interpretação de Shawn Yue, no papel do assassino votado à tragédia, merece algum reconhecimento. À fotografia deverá, igualmente, ser votado algum destaque, sendo-nos apresentado uns planos nocturnos muito intensos e que marcam de alguma forma a nossa impressão do filme, embora seja uma agradável superficialidade. A luta de rua final prometia imenso, mas quando vejo duas pessoas a defenderem-se de um bando enorme de rufias, uma com um guarda-chuva, outra com um lenço daqueles de pôr à volta do pescoço, e mesmo assim arrumarem uma dúzia...para mim já é demais! Não estamos a falar de um “wuxia”, povoado de guerreiros com poderes sobre-humanos a desafiar as leis da gravidade. E não me venham com as tretas do simbolismo, pois verdadeiramente o que se pretendeu foi acentuar o dramatismo em série e irreal, já agora recorrendo a mais uns “slow motion”.

Salva-se acima de tudo e a título de consolação, o epílogo do filme. Confesso que fui apanhado de surpresa, ou porque andava distraído, ou então pelo facto de certos aspectos da película terem sido muito bem ocultados. Vou dar uma o benefício da dúvida a mim mesmo, e optar pela segunda hipótese. Neste aspecto, tenho de dar o braço a torcer, e admitir que somos encaminhados para uma determinada direcção, e no fim desembocamos num destino completamente diverso. Não estou a falar daqueles epílogos pseudo-intelectuais, que têm mais de idiotice do que propriamente material de qualidade para discutir. Estamos no campo do “Ah, isto até faz sentido!”.

“Jiang Hu” poderá ser livremente traduzido como submundo. Como este filme é apreciado por tantos e bons críticos de cinema asiático, faz com que um enigma existencialista nasça dentro do meu ser...e deixa-me na penumbra...

"A morte grassa nos passeios"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 7